Durou três dias.
O epitáfio é companhia.
Tudo parece ridículo.
Visto de fora.
Três dias é biografia.
Não gelado.
Não sozinho.
Walter Biancardine
todo mundo
gosta
de frases sobre recomeços
“você
merece paz”
“seja luz”
“o amor salva”
essas
coisas rendem curtidas
como pombos rendem merda em estátua
o sujeito
compartilha um poema doce
e por alguns minutos
vira homem
profundo
a mulher
publica uma citação triste
com foto da chuva no vidro
e
ganha comentários:
“alma
linda”
“você escreve o que sentimos”
sentimos o quê?
a maioria
não suporta
nem o próprio silêncio no banheiro
mas
publique algo sobre
um pai que bateu no filho
e depois foi
trabalhar sorrindo
escreva
sobre
o marido que trai
e reza antes de dormir
sobre o
patrão
que paga salário de fome
e faz palestra sobre
gratidão
sobre o
bêbado
mijando atrás do bar
porque perdeu a mulher,
o
emprego
e a vontade de fingir
escreva
sobre velhos esquecidos,
gente que humilha garçom,
mães
que amam menos um filho,
amigos que somem
quando o dinheiro
acaba
fale da sarjeta
da inveja
da
crueldade pequena
essa que usa perfume
e cumprimenta
vizinhos
aí o salão esvazia
porque
ninguém quer ser visto
perto do incêndio
poesia
sobre flores
faz parecer sensível
poesia
sobre podridão
faz suspeitarem
que você conhece o cheiro
e talvez conheça
talvez o
problema nunca tenha sido
o texto sombrio
talvez seja isto:
quem foge
dos esgotos
tem medo de reconhecer
o próprio reflexo
na
água suja
Walter Biancardine
Nota: textos sobre esperança costumam receber aplausos. Textos sobre hipocrisia recebem silêncio. E silêncio, às vezes, é culpa usando sapatos sociais.
ALGUMAS COISAS NÃO APODRECEM
Walter Biancardine
Há uma coisa estranha nos acostamentos da estrada.
Enquanto os homens viajam ou correm para empregos, amantes, hospitais ou enterros, alguma parte deles fica para trás.
Uma lata
amassada.
Uma lanterna traseira de carro que bateu ali.
Um
chinelo infantil sozinho.
Uma caixa de Big
Mac.
Pinos de cocaína espalhados perto da curva.
Às vezes penso que as estradas são museus do fracasso humano.
Cada lixo é uma pista.
Uma dica.
Um recado daquilo que acontecia dentro do carro no instante em que a mão abriu a janela.
Uma discussão.
Um silêncio.
Uma traição.
Ou apenas alguém tentando continuar vivo até segunda-feira.
Outro dia vi três pinos de cocaína no mesmo trecho.
Três.
Fiquei olhando.
A cocaína talvez
seja isso:
um empréstimo de grandeza dado a homens que já
esqueceram o próprio nome.
Depois vêm os juros.
Os juros costumam comer a casa, o casamento, os dentes.
Mas durante alguns minutos o sujeito sente o peito cheio daquela coragem artificial que faz o fracassado acreditar que ainda derrotará o mundo.
O mundo costuma esperar sentado.
É paciente.
Mais adiante havia uma calcinha vermelha perto do mato.
Pensei: adultério. Depois: prostituição. Depois: uma mulher cansada trocando de roupa para voltar do trabalho. Os adultos passam metade da vida escondendo vergonha e a outra metade fingindo que nunca tiveram nenhuma.
A calcinha ficou.
Testemunha muda.
Às vezes encontro sapatos.
Sapatos abandonados me perturbam mais do que animais mortos.
Porque animais morrem.
Sapatos são deixados.
Um único sapato feminino – sempre um só – na estrada parece dizer:
"Houve confusão aqui."
Ou amor, se for um par deles.
Às vezes dá no mesmo.
Continuei andando.
Veio um caminhão levantando poeira.
Talvez o Brasil não esteja nos discursos nem nas propagandas de banco, onde velhos sorriem andando de bicicleta aos setenta anos.
Talvez esteja no acostamento.
No pino vazio de pó.
Na lata de cerveja.
Na sandália infantil.
Na blusa feminina largada perto do capim.
Na embalagem de Cheetos.
Ou literalmente.
Quem sabe também esteja no sujeito dirigindo à noite, acelerando demais porque ficar parado em casa exige uma coragem que ele não possui.
As estradas sabem de nós.
Sabem quem trai.
Quem bebe.
Quem cheira.
Quem dirige chorando.
Quem pensa em abandonar tudo antes do próximo posto.
Os acostamentos acumulam segredos.
E às vezes, caminhando sozinho, tenho a impressão de que as pessoas não jogam lixo pela janela.
Jogam versões fracassadas delas mesmas.
Deixam pistas.
E o tempo faz um diário.
Walter Biancardine
hoje envio currículos
Walter Biancardine
Prometi a mim mesmo não falar mais de política mas, dada a enormidade de ignorâncias que tenho visto, acho que ainda faltou dizer uma coisa.
A direita brasileira sempre foi magrela, esquálida e desnutrida, mas sobreviveu até o regime militar acabar com ela. Limar nomes como Carlos Lacerda e Ademar de Barros foi o golpe de misericórdia dos generais positivistas – e se alguém ainda acha que Juscelino Kubitschek era direita, precisa visitar o hospício.
Sim, pra ficar somente em dois pequenos pontos, criar a indústria automobilística brasileira (sob a bandeira brizolista de “evasão de divisas”) e a industrialização súbita do país nada mais foi que criar uma “classe operária”, fabril, pronta e ávida pelos discursos da esquerda urbana e fedendo a países europeus. Essa classe pariu e amamentou Lula.
E o outro ponto foi Brasília. Isolar a “corte” do alcance da plebe era a meta (“50 pessoas fazem barulho neste país, da zona sul do Rio de Janeiro”, JK) e Juscelino ainda arrematou com chave de ouro stalinista, convocando Oscar Niemeyer para lá construir sua Stalingrado arquitetônica particular – puro concreto e gigantismo, a nos lembrar como somos pequenos diante do Estado.
Voltando ao caso. Não há direita no Brasil hoje que não deva até os fundilhos das calças a Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro. Se é analista político, youtuber, “celebritie” das redes e é de direita, cedo ou tarde usará argumentos pescados nos vídeos de Olavo (que assistiram, sôfregos, umas 350 vezes cada um e se acham, hoje, sucessores dele), e se é do ramo do baixo lenocínio – política – será eternamente devedor a Bolsonaro.
Sim, ele, Jair, foi o primeiro a ter culhões e bater no peito dizendo “eu sou de direita”, enquanto outros se borravam ou aderiam discretamente à bandalha vigente. Qualquer candidato de direita hoje, tem por obrigação se retirar da disputa e apoiar o insípido Flávio Bolsonaro – única e exclusivamente pelo fato de seu pai o haver escolhido. Se ele achasse o Zema bom, teria indicado ele. Se achasse o Caiado bom, a mesma coisa.
E aos cretinos ignorantes do YouTube, Facebook ou seja lá qual rede for, que se acham (em secreto, pois jamais diriam isso em público) “sucessores de Olavo” – em especial gente metida a erudita, mestres, doutores, sapiência máxima e fonte da verdade, cheios de diplomas que melhor serventia teriam se usados como supositórios e que se dão ao desplante de hoje defender Zema, uso algo típico do Olavo: dizer que Zema “é um homem íntegro, honesto e correto” é ARGUMENTO AD HOMINEM, tal qual os xingamentos da esquerda que nunca rebatem propostas, apenas desqualificam o proponente.
Sim o cara pode ser honesto, mas e daí? Qual a proposta? O que ele pretende? E outra: como ele se explica por ter apoiado a criminosa vacinação contra a COVID em MG, e até ignorado servidores que não se submeteram a essa barbaridade?
Caiam na real: a direita no Brasil não existe e está quase em vias de extinção. Olavo já cantou pra subir, e se Bolsonaro for atrás, babou.
Eu voto em Flávio. É um imbecil. Mas é o nosso imbecil – e escolhido por Bolsonaro, o último direitista deste país.
Era o que eu tinha pra dizer.
Vocês, que defendem candidatos com mais fúria que defendem as famílias, que se entendam.
Walter Biancardine
Sempre há algo de melancólico em qualquer local abandonado.
Seja uma casa, um parque de diversões ou mesmo um teatro, sempre haverá tristeza pingando do suor da construção.
Coisa engraçada: o campo, por mais esquecido que seja, nunca dá ares de abandono.
Não passa ninguém, ninguém o conhece ou lá deixa suas pegadas, fogueiras ou troncos cortados. E mesmo assim sempre parece novo, arrumado, em ordem. Muitos diriam que o deserto é o campo abandonado, a melancolia do verde, mas nem de longe é.
O deserto é templo. Personagem bíblico.
Homens entram no deserto e voltam ouvindo vozes.
Digo isso por conta da chuva de hoje, que me obrigou a trabalhos de reparação onde vivo.
Transito entre um empreendimento abandonado – e melancólico – e os pastos sempre novos, promissores.
Andei por um, andei por outro, e senti o cheiro pesado de um passado nas alvenarias, bem como a vida brotando dos marrecos na lagoa.
E senti, também, uma calma antiga a divagar sobre dias chuvosos, xícaras de café, conversas lentas, lembranças de mil anos e a mulher amada ao meu lado.
Eu não mais sou abandono.
Só agora enxerguei o que me cerca.
Walter Biancardine