Há uma coisa estranha nos acostamentos da estrada.
Enquanto os homens viajam ou correm para empregos, amantes, hospitais ou enterros, alguma parte deles fica para trás.
Uma lata
amassada.
Uma lanterna traseira de carro que bateu ali.
Um
chinelo infantil sozinho.
Uma caixa de Big
Mac.
Pinos de cocaína espalhados perto da curva.
Às vezes penso que as estradas são museus do fracasso humano.
Cada lixo é uma pista.
Uma dica.
Um recado daquilo que acontecia dentro do carro no instante em que a mão abriu a janela.
Uma discussão.
Um silêncio.
Uma traição.
Ou apenas alguém tentando continuar vivo até segunda-feira.
Outro dia vi três pinos de cocaína no mesmo trecho.
Três.
Fiquei olhando.
A cocaína talvez
seja isso:
um empréstimo de grandeza dado a homens que já
esqueceram o próprio nome.
Depois vêm os juros.
Os juros costumam comer a casa, o casamento, os dentes.
Mas durante alguns minutos o sujeito sente o peito cheio daquela coragem artificial que faz o fracassado acreditar que ainda derrotará o mundo.
O mundo costuma esperar sentado.
É paciente.
Mais adiante havia uma calcinha vermelha perto do mato.
Pensei: adultério. Depois: prostituição. Depois: uma mulher cansada trocando de roupa para voltar do trabalho. Os adultos passam metade da vida escondendo vergonha e a outra metade fingindo que nunca tiveram nenhuma.
A calcinha ficou.
Testemunha muda.
Às vezes encontro sapatos.
Sapatos abandonados me perturbam mais do que animais mortos.
Porque animais morrem.
Sapatos são deixados.
Um único sapato feminino – sempre um só – na estrada parece dizer:
"Houve confusão aqui."
Ou amor, se for um par deles.
Às vezes dá no mesmo.
Continuei andando.
Veio um caminhão levantando poeira.
Talvez o Brasil não esteja nos discursos nem nas propagandas de banco, onde velhos sorriem andando de bicicleta aos setenta anos.
Talvez esteja no acostamento.
No pino vazio de pó.
Na lata de cerveja.
Na sandália infantil.
Na blusa feminina largada perto do capim.
Na embalagem de Cheetos.
Ou literalmente.
Quem sabe também esteja no sujeito dirigindo à noite, acelerando demais porque ficar parado em casa exige uma coragem que ele não possui.
As estradas sabem de nós.
Sabem quem trai.
Quem bebe.
Quem cheira.
Quem dirige chorando.
Quem pensa em abandonar tudo antes do próximo posto.
Os acostamentos acumulam segredos.
E às vezes, caminhando sozinho, tenho a impressão de que as pessoas não jogam lixo pela janela.
Jogam versões fracassadas delas mesmas.
Deixam pistas.
E o tempo faz um diário.
Walter Biancardine

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