Havíamos zarpado, eu e um amigo, pra pescarmos nos costões da Ilha dos Papagaios, bem perto do litoral.
Ele tinha uma boa lancha Carbrasmar, ainda daquelas de madeira e motor de centro, que dava conta do recado e possuía conveniente plataforma na popa, pra podermos mergulhar e voltar por ali.
Não usávamos garrafas de oxigênio. Era fôlego puro.
Máscara, snorkel e pés de pato. Normalmente eu teria nas mãos o arpão e, na cintura, a faca de mergulho. Naquele dia, entretanto, resolvi atender o pedido de uma mocinha e desci somente com a faca, pra extrair mexilhões das pedras.
Seriam os ingredientes de uma prometida sopa.
A regra básica do mergulho é nunca descer sozinho e estar sempre à vista, um do outro. Mas eram costões de pedra e nem sempre podíamos nos enxergar. E eu, munido de minha faca – que tenho até hoje – tratava de arrancar aquelas afiadas conchas das pedras.
Era um costão irregular, muitas fendas, pontas e até pequenas cavernas e tocas que, imprudente, passava em frente segurando a bela e cromada lâmina. Erro grave.
Senti apenas o impacto e, creiam, ouvi o som dos dentes de uma enorme moréia baterem no aço da faca.
Rápido como um clarão de luz, o bicho saíra da toca. Ele havia sido atraído pelo brilho da arma e, por sorte, mirara nela e não em minha mão – ou eu não mais a teria hoje.
Lívido, subi à bordo e declarei encerrado – ao menos pra mim – o mergulho do dia. A sopa ficou pra depois.
Tempos depois estava embarcado em pequena traineira aberta que me havia sido emprestada pelo falecido Seu Vasco, um amigo pescador.
Não me interessava pescar, entretanto.
Andava às voltas com uma grande curiosidade a respeito de três pontas de pedra que emergem do mar, bem juntas à uma cavidade no costão de pedra logo ao lado da boca da barra, na entrada do canal do Itajurú.
Havia um misto de histórias envolvendo o naufrágio do vapor Carolina – bem ali, naquelas pedras – e restos de saques de corsários franceses, afundados naquelas costas. E eu queria saber, é claro.
Mergulhei e ali não era tão fundo, mal chega aos dez metros em alguns pontos. Água clara, gelada como sempre, mas sem muito empuxo que me jogasse às pedras. Isso era bom, pois eu havia fundeado perto do costão e mergulhava bem rente.
E, remexendo no fundo da areia, tive a infeliz surpresa de ver o maior tubarão que já havia me deparado, em toda a vida.
O monstro, com bem uns quatro metros de comprimento, passou com aquele ar distraído e blasé que fazem, após terem farejado um incauto como eu.
Era uma questão de um minuto ou dois até que aquela boca se abrisse, seus olhos ficassem brancos e fosse o fim da linha pra mim – almoço de tubarão.
Naquele dia eu estava mergulhando com garrafas de ar mas, por sorte, a profundidade mal chegava aos dez metros – apenas uma atmosfera, sem necessidade de descompressão.
Jamais subi tão rápido do fundo do mar.
A impressão é que, se eu pudesse, teria aflorado na superfície e continuado voando até o convés da traineira, mas tive de juntar todo meu sangue frio – e que o bicho não sentisse o cheiro dele – pra nadar até a escada no costado, que me embarcaria em segurança.
A moréia e o tubarão vieram em minha vida numa questão de meses.
Foi o suficiente pra me manter em terra por mais de um ano.
Peixe, só o da peixaria.
Walter Biancardine

Nenhum comentário:
Postar um comentário