quarta-feira, 20 de maio de 2026

VIDAS BALDIAS -

 


Sempre há algo de melancólico em qualquer local abandonado.

Seja uma casa, um parque de diversões ou mesmo um teatro, sempre haverá tristeza pingando do suor da construção.

Coisa engraçada: o campo, por mais esquecido que seja, nunca dá ares de abandono.

Não passa ninguém, ninguém o conhece ou lá deixa suas pegadas, fogueiras ou troncos cortados. E mesmo assim sempre parece novo, arrumado, em ordem. Muitos diriam que o deserto é o campo abandonado, a melancolia do verde, mas nem de longe é.

O deserto é templo. Personagem bíblico. 

Homens entram no deserto e voltam ouvindo vozes.

Digo isso por conta da chuva de hoje, que me obrigou a trabalhos de reparação onde vivo.

Transito entre um empreendimento abandonado – e melancólico – e os pastos sempre novos, promissores.

Andei por um, andei por outro, e senti o cheiro pesado de um passado nas alvenarias, bem como a vida brotando dos marrecos na lagoa.

E senti, também, uma calma antiga a divagar sobre dias chuvosos, xícaras de café, conversas lentas, lembranças de mil anos e a mulher amada ao meu lado.

Eu não mais sou abandono.

Só agora enxerguei o que me cerca.


Walter Biancardine




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