Olhar o pôr do sol e o céu, variando entre o amarelo de raiva e o vermelho incandescente, me traz à lembrança meu pai.
Nos últimos raios de sol embarcávamos no carro, férias e fins de semana na casa de praia.
Vejo um sol morrendo, lembro felicidades mortas.
Nos últimos raios de sol embarcávamos no carro, férias e fins de semana na casa de praia.
Vejo um sol morrendo, lembro felicidades mortas.
No lusco-fusco da tardinha, no nublado antes da noite onde nada mais tem cor e as sombras desaparecem, lembro de minha mãe.
Era a hora do café, pontualmente às cinco da tarde.
Era hora de ir à padaria.
Pão e cigarro.
Até hoje farejar café no fim da tarde lembra minha mãe.
O café acabou.
Ela se foi.
Em algum instante deixei de esperar.
Comecei a recordar.
Sem reparar.
Quando foi meu zênite?
Quando a ampulheta virou?
Não sei.
Mas ela virou.
Quem pensa que isso é natural, coisas da vida, é um bruto ou uma besta. Ou os dois.
Não é preciso ser jovem para morrer no zênite. Já conheci velhos assim. Parecem outra raça, outra cabeça, olhos que enxergam a vida como ciência exata, não humana.
Me lembrei da juventude. Diziam: “faça um vestibular para qualquer coisa da área de humanas, é mais fácil!”
Mais fácil é o cu deles.
Nunca sentiram a ampulheta virar.
Walter Biancardine

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