quarta-feira, 15 de julho de 2026

MAR GROSSO


Meu pai teve uma lancha tipo baleeira. Fina e longa, parecia uma agulha. Uns doze metros de comprimento e, no máximo, dois e pouquinho de largura. Afan era o nome. Nome feio.
Mas ela era bonita, costado muito baixo, cabinada, tinha um mastro e um belo timão, igual aos dos navios-pirata dos filmes.
.
Eu tinha medo dela. Por ser estreita, achava que iria emborcar na primeira onda que viesse. Mas gostava mesmo assim, e um dia meu pai me chamou para darmos um passeio até a Ilha da Âncora, em boa distância da costa de Cabo Frio.
Junto, embarcou seu amigo Dalton – conhecido como “o homem que jamais trabalhou um só dia na vida”, uma lenda nos bares e botequins da cidade.

A ida foi sem problemas. Vagas longas, altas mas mansas.
Fundeamos na costa da ilha, pescamos um pouco e notamos que o tempo começava a fechar.
Era levantar âncora e voltar.
Mas não percebemos a virada em tempo.

Tanto o céu quanto o mar ficaram cinzas. Um vento sudoeste forte começou a soprar e as ondas subiram.
Agora era mar grosso. Tivemos de abrir as janelas dianteiras para que não quebrassem com o impacto da água, e logo o convés encheu.
Bomba acionada, dava vazão.

Porta da cabine fechada, vedando a inundação. Motor à meia potência, aproado direto pro Forte São Mateus – ou ao que achávamos ser ele, no meio da neblina difusa de água e vento.

A cada onda que subíamos, a proa apontava pro céu. E cada descida era uma barrigada no cavado, uma pancada forte e seca que impedia ficarmos em pé.
E o vento soprava, uivava e eu pensando: se uma onda nos pega de lado, viramos e tudo se acaba.

Eu ainda não conhecia o mar.
E seguimos em frente, cortando as vagas à 45° e preocupados com o tempo, que só piorava.

Pior que o tempo, entretanto, foi o leme de nossa lancha. O cabo de aço que ligava o timão ao leme rompeu, e não era mais possível guiar o barco de dentro da cabine.

Dalton, o homem que jamais trabalhou na vida e era famoso nos botequins da cidade, se pendurou na popa do barco e, descalço, agarrou o leme com o dedão do pé. Agora tínhamos novamente controle.
Enquanto seus pés resistissem ou ele não caísse no mar.

Meu pai explicou: meia potência subindo as ondas, corta na descida. E foi o que fiz, enquanto ele também foi pra popa e enlaçou Dalton com uma corda – só pra garantir, pensei.

Essa agonia durou umas três horas.
Três horas da mais longa viagem de barco que eu já tivera, até então.

Por fim chegamos ao deck do Clube do Canal. Dalton ainda manobrando, eu no acelerador, meu pai jogando a corda pra amarrar.
E os pés do coitado viraram um amontoado de sangue.
Junto com suas costas, lanhadas como se tivesse sido chibateado, por conta da corda que o segurava.

A lancha que eu temia era a certa. Cortava o mar grosso como agulha, era só saber passar.
O cachaceiro que jamais trabalhara nos serviu de leme até atracarmos.
Na verdade, ele salvou a todos nós.
E eu, que nunca havia dirigido um carro, fiz minha parte no acelerador.

Os vidros não quebraram.
O convés não inundou.

O motor não morreu.





Walter Biancardine








Nenhum comentário: