domingo, 30 de março de 2025

NÃO HÁ COMO DES-EXISTIR -


Não sendo o pior nem o melhor dos homens e situando-me como um perfeito medíocre - ou seja, absolutamente dentro da média, mediano - custa-me compreender a "parasitagem" de alma, por mim sofrida ao longo de tantos anos, e só recentemente descoberta.

É compreensível e amplamente conhecida a cobiça alheia sobre nossas vitórias pessoais, bens, felicidades ou até eventual fortuna, ainda que as mesmas sejam temporárias ou, em alguns casos rasteiros, pura ostentação. Trata-se de querer o que o outro tem, e maiores considerações não são necessárias, eis que todos conhecem e já sofreram por isso.

O caso se agrava quando arrastamos um histórico familiar. Pior: mais que um histórico, carregamos o fardo de ter o mesmo nome do pai - e aí a coisa se complica.

Não posso e jamais farei a baixeza de "desconstruir" (perdoem a esquerdice) meu pai. Ele teve a vida dele, fez sua história, deixou quase uma lenda entre seus mais próximos na cidade, viveu uma existência cinematográfica - e eu apenas herdei seu nome, acrescido de um "Júnior". Mas ainda tem o que piorar.

Não satisfeito em carregar seu nome ("herdeiro do fardo", segundo meu pai), tive a petulância e ousadia - atrevimento exagerado - de construir minha própria história por aqui.

Se conheci e apertei a mão de Presidentes da República pela OEA ou vi o céu estrelado em pleno meio-dia na aviação de testes, isso pouco importa: foi no Rio de Janeiro, aparentemente em uma outra vida, vivida por um outro eu. O que parece despertar os apetites são os poucos sucessos que obtive por aqui, nestas salitradas e áridas terras, "melhores madrastas que mães", nossa conhecida Cabo Frio.

E conheci o lado mais negro, quase uma psicopatia, deste pecado capital: o desejo de alguns em parasitar sua alma, roubar seu ser, esvaziar seu conteúdo e vestir sua pele; ser você, incorporar você - o que você faz, gosta, vive, usa, bebe, fuma, ama, odeia, tudo enfim.

O quê pode provocar isso em alguém? Não sou um milionário, não sou algum artista - ou ao menos escritor - famoso; em matéria de beleza provoco apenas risos e minha conta bancária, além de anêmica, é hemorrágica. Que diabos eu fiz?

Suponho que todo meu pecado seja ser filho de quem sou, ter tido a família que um dia tive e vivido o que já viví - o "câncer da mídia", o "nazistinha de Alair", o homem que metade da cidade odeia e a outra metade sequer sabe quem é, mas que causou verdadeira tormenta política nos jornais, revistas, rádios e TV's por aqui, anos atrás.

Acrescente-se a isso o fato de minha personalidade, fronteiriça da anormalidade - um porco-espinho, dirão muitos - meus estranhos prazeres (motocicletas, aviões, carros, caminhões e graxa, muita graxa), vestuário mais inusitado ainda, além da maromba intelectual a que me submeti, impelido por excruciante solidão nos últimos anos; os livros, artigos, ensaios e teses que escrevo e uma vida amorosa que abalou as estruturas e psiques - de maneira velada - de muita gente boa à minha volta.

Nada de mais, o amigo poderá dizer e eu concordarei. Mas este conjunto de peculiariedades, ainda que não construa diante de nós um ídolo a ser admirado, perfaz uma pessoa com personalidade, conteúdo - se bom ou ruim, se cativante ou repugnante, é outro assunto. Mas, ao menos, tenho algo que uma grande maioria já abdicou: sou o que sou, faço o que faço, estou e sempre estive absolutamente cagando para o que pensam disso.

Apenas sempre tive o grande cuidado de jamais ferir ninguém à minha volta, com meu jeito "lemingue" de ser - nunca prejudiquei voluntariamente a terceiros, com meu estilo de vida, gostos, decisões e amores.

Mas os parasitas da alma, por absoluta falta de conteúdo original e pura ânsia de nos despejar da pele em que habitamos, não têm tal cuidado - e este é o momento em que se entregam.

Uns ambicionam nossa vida, aderem-se diuturnamente ao nosso lado e de lá só saem quando nosso mundo desaba - estes são os rasteiros, primários.

Outros, em silêncio solerte, sugam nossa seiva em um surdo processo mimético, silencioso, e tornam-se verdadeiras "fotocopiadoras" de nosso âmago, revelando-se apenas quando suas próprias vaidades não cabem mais em si. E só percebemos isso tarde demais, quando as balas perdidas já atingiram inocentes.

Que o amigo leitor não interprete tal desabafo como um acesso de soberba, pois bem sei o nada que sou e jamais esquecerei os anos de solidão, fome e desprezo que só muito recentemente escapei - e que não estou livre de voltar. Trata-se apenas, como disse, de um desabafo.

Há que se falar, expectorar, sofrer a hemoptise de um mal que andou me corroendo por dentro nos últimos dias e que me levou, bastante doente e profundamente decepcionado, à cama - e, confesso, jamais cheguei a tais extremos antes.

Mas eu precisava falar; hoje estou melhor e é o que faço.

E pretendo, se Deus permitir, desenvolver um pequeno ensaio filosófico sobre este tema, jamais tratado pelas luzidias cabeças iluministas que nos cercam: a inveja.

Mais que inveja: o parasitismo da alma.

E que o Pai me dê saúde.


Walter Biancardine

NOTA DO AUTOR:
O invejoso típico deseja o que você tem, e chega ao ponto de ofender-se caso receba um presente seu: entende este ato como "esmola".

Já os "vampiros da alma" desejam sua vida, ser você e viver o que você vive ou viveu; tomar seus amigos, sua história, sua personalidade.

Tal deformidade, quase patológica, chega ao ponto de roubar sua individualidade - a característica de ser humano único, inimitável e peculiar que todos temos, com qualidades e defeitos exclusivos.

Ao ser vitimado por tais tipos maléficos, você perde o que de mais íntimo possuía: o "ser você". Agora, estará condenado a ver uma cópia sua vivendo o que você viveria, desfrutando dos amigos que um dia você teve, encantando ou decepcionando pessoas com o charme ou aborrecimento que somente você poderia oferecer.

E, para isso, tais pessoas não se acanham em vitimar aqueles que estão à sua volta, por mais inocentes que sejam: se puderem deles servirem-se para seu mimetismo, assim o farão.

E tudo isso apenas porque, um dia, você decidiu aproximar-se de tais tipos.

Fica o alerta.

terça-feira, 25 de março de 2025

A FARSA DA MAIOR OBRA DE ENGENHARIA SOCIAL, A PIONEIRA QUE DEU CERTO: O COMBATE AO FUMO -


Taxas de mortalidade por câncer de pulmão nos Estados Unidos:

1970 – 28,4 mortes por 100.000 pessoas.
1990 – 41,4 por 100.000.
2010 – 45,1 mortes por 100.000 habitantes.
2020 – 31,3 mortes por 100.000 habitantes.
2021, 2022, 2023 e 2024 – Não disponíveis ainda.

Fonte: https://www.cancernetwork.com/view/overall-us-cancer-mortality-rate-falls-first-time?utm_source=chatgpt.com

A paranóia anti-tabagista se arrasta nos EUA desde o fim dos anos 80, sob a alegação (superdimensionada) de seus malefícios à saúde.

Longe de pretender apontar o cigarro como algo inofensivo, apenas trago fatos - do país que prima por estatísticas - que comprovam a enorme farsa, determinada pelo primeiro experimento de engenharia social do mundo e que, aparentemente, funcionou perfeitamente.

Tal e terrível ação abriu caminho não apenas para um severo controle dos hábitos da população - "coma margarina, ela abaixa o colesterol", entre outros - como, igualmente, para a progressiva desmasculinização do homem, pois o "ideal" masculino vendido até então pela indústria cultural consistia em um homem que:

- Fumasse;
- Dirigisse carros possantes e fumacentos;
- Com personalidade já formada e independente da sua mulher;
- Que as mesmas se deixassem conquistar por alguém "tão atraente";
- Que bebesse socialmente e usasse roupas sóbrias;
- Carnívoro;
- Determinado, seguro de si;
- Provedor de seu lar.

Hoje, após esta bem sucedida obra de engenharia social, a sociedade vê-se às voltas com homens que:

- Não fumam, pois é prejudicial à saúde (maconha não é considerada);
- Usa carros elétricos - verdadeiros "tablets" sobre rodas - e considera automóveis apenas como "condução", sem nenhum apelo emocional;
- Personalidade frágil e maleável aos desejos de sua mulher;
- Não paquera, pois é "assédio" - hoje ele é a donzela a ser conquistado;
- Bebe apenas energéticos com alguma bomba alcoólica, e usa roupas disformes e assexuadas;
- Vegano;
- Frágil emocionalmente e inseguro;
- Depende financeiramente da mulher.

A hipocrisia dos "escândalos" contra quem fuma, hoje em dia, nada mais é que a versão primeira dos mesmos "escândalos" contra quem não usava máscaras, há bem pouco tempo atrás - é tudo obra de engenharia social e, sim, você foi moldado.

Até quando você será um produto da mídia?


Walter Biancardine



quarta-feira, 19 de março de 2025

PESTE CHINESA: O QUE EU FALO NADA VALE -


Quando surgiu a Peste Chinesa e, logo após, as "vacinas", eu proibí em minha casa que a mesma fosse tomada. Do mesmo modo, jamais tranquei-me em casa na fatídica "quarentena" - ia trabalhar todos os dias, a pé. Por último, jamais usei álcool gel ou máscaras.


Sou algum cientista? Não.
Pesquisador? Não.
Médico? Não.

Apenas tenho um Q.I. de três dígitos o qual, para a raiva de muitos, dois deles são números pares. Pensemos:

Uma vacina normal leva mais de uma década, entre pesquisas, desenvolvimento e testes, para ser aprovada e aplicada em seres humanos - mas a da Peste Chinesa "apareceu" em pouco mais de seis meses, e o Governador de São Paulo, João Dória, assinou um contrato de fornecimento da mesma meses antes da pandemia ser declarada.

Uma quarentena pode ser eficiente para manter os doentes em casa, não contaminando os sãos. Por quê eu, em perfeita saúde, me trancaria em prisão domiciliar - sem sol, ar fresco e tudo o mais que, comprovadamente, mata eventuais vírus?

Jamais usei o álcool gel, um arremêdo com vaga lembrança alcoólica que nada esteriliza e, pior, ajuda a preservar e veicular os vírus, dada a composição de seu gel. Uma verdadeira fonte de contaminação.

Do mesmo modo, nunca pus a maldita máscara, pois não sou bandido e, além do mais, bastou imaginar-me do tamanho de um vírus a atravessar, alegremente, os enormes "portões" abertos formados pelo entrelaçamento dos fios do tecido, os quais nada filtram - nem odores, quanto mais microorganismos.

Fui chamado de negacionista, bolsonarista, fascista, nazista, taxista, malabarista, onanista, exibicionista e todos os outros "istas" que perfazem o único arsenal intelectual dos imbecis: a ofensa.

Pois agora a própria USP - ninho vermelho, uma das responsáveis pelo pânico geral instalado no país, declara candidamente que as máscaras "não funcionam"...

Por isso não mais abro minha boca. Se quiserem saber o que penso, leiam meus artigos.

Paciência tem limites.


Walter Biancardine


segunda-feira, 17 de março de 2025

É HORA DE MUDANÇAS -

 


A partir deste 31 de março não mais estarei, diariamente, nas páginas da querida revista Carta de Notícias, bem como após o dia 30, domingo, igualmente será o início de uma nova fase no prestigiado site europeu ContraCultura: para ambas publicações, escreverei somente aos domingos e o amigo leitor se verá livre de meus impropérios diários, nas citadas revistas.

Tal mudança se deve à necessidade de buscar emprego – qualquer um, pois bem sei que, no Brasil, escrever é um luxo para diletantes ricos – e assim fazer frente às minhas despesas, por mínimas e quase ridículas que sejam.

Confesso que o salto dado – de morar de favor no meio do mato para alugar uma casa, comprar um carro e ter uma vida quase normal – pode ter parecido temerário, para muitos. Entretanto, em nenhum momento se tratou de ambição ou preocupações sociais: era, pura e simplesmente, um remédio radical para meu equilíbrio psíquico, sob grave ameaça. Miséria e solidão compulsória tem limites; após anos de privações atingi o meu e a oportunidade de deixar tal ilha de náufrago surgiu, através da assessoria nos trabalhos de agradável pós-doutoranda (pós-PhD), que bem me remunerou e permitiu-me a sanidade mental.

Tal contrato, entretanto, termina neste mesmo 31 de março. Assim sendo, é hora de voltar à vida real e roçar a barriga atrás de um balcão do comércio, sendo vigia noturno, repositor de supermercados ou o que for, pois bem sei de minhas deficiências acadêmicas – as quais, graças a Deus, jamais foram intelectuais e permitiram-me um aprendizado autônomo razoável – e contar com o sacrossanto salário, ao final do mês.

Sei que o trabalho rotineiro e seus horários não deixam muita folga para as aventuras do conhecimento, por isso – e por pura teimosia – combinei com meus pacientes editores a possibilidade de escrever somente aos finais de semana, pois é uma maneira de não me afastar totalmente do mundo da cultura e (creiam) emburrecer-me.

Se os últimos anos foram torturantes em termos de privações e de uma solidão atroz, por outro lado permitiu-me o privilégio de escrever seis livros, estudar, aprender e esculpir, no duro granito de minha ignorância, algo que nada ou ninguém poderá tirar-me: o saber, por mais rarefeito que seja.

Acrescento que hoje, aos sessenta e um anos de vida e tendo já desfrutado de todas as experiências e situações possíveis, pouco ambiciono e nenhuns projetos de glória pessoal ou prosperidade possuo. Tudo o que desejo é morar em um bairro comum, pagar minhas contas, ver seres humanos ao meu redor e, se possível, ler, estudar, aprender e escrever em meus momentos de folga, enquanto a lucidez permitir.

Dado os meus parcos gastos mensais – quase ridículos – não preciso de grandes salários para manter-me e esta é minha arma para tentar, o mais breve possível, conseguir trabalho. Assim, tomei tal decisão (ainda que obviamente motivada pelo fim do contrato) e é hora de seguir em frente.

Aos quatro ou cinco leitores que eventualmente sintam minha falta, lembro que todos os domingos estarei (ainda) nas páginas do Carta de Notícias e do chiquíssimo ContraCultura, com o brinde de eventuais postagens, como essa, em minha página pessoal.

Não é um adeus, é mais um “a gente se vê por aí”.


Walter Biancardine



quinta-feira, 13 de março de 2025

A VIDA É UMA GANGORRA -

 


Posso dizer que nasci privilegiado, em uma época de fartura familiar, prestígio e tranquilidade. Assim segui até meus vinte e poucos anos quando, em decorrência da doença – e consequente falência – de meu pai, associado ao AVC de minha mãe ocorrido logo depois, tudo mudou.

Não mais longas temporadas em Cabo Frio, não mais carros importados, lanchas, dinheiro no bolso e – inevitavelmente – respeito e deferências alheios, pois os ratos sempre abandonam o navio que faz água; e tudo isso registrava eu em meus escritos, consciente que estava dos mesmos jamais serem publicados por ninguém.

Fiz o que pude, para manter-me à tona: estoquista de auto-peças, entregas, fretes e até mesmo abri uma espécie de padaria, em um condomínio de Copacabana, a qual não deu certo e acabou de enterrar-me. Mas o pior ainda estava por vir: a morte de meu pai.

Tão desbaratinado fiquei que pedi demissão de onde trabalhava e, em uma ânsia auto destrutiva, recolhi-me em casa disposto a só sair do quarto quando as trombetas do apocalipse tocassem. Mas então veio a OEA, oferecida por parentes do lado materno da família – e a gangorra da vida, na qual sentava eu no banco de baixo, ergueu-se novamente e a dupla infalível (dinheiro e aduladores) voltou a povoar minha vida.

Por estes anos deixei de escrever, pois não queria correr o risco de cagoetar em papel coisas que jamais deveriam sair das quatro paredes dos sofisticados escritórios daquele organismo diplomático. Por outro lado, meu filho acabara de nascer e isso me colocava em uma posição ainda mais vulnerável e, por isso e tal qual alguns monges, fiz meu “voto de silêncio” secular.

Finda a missão – a qual, creio, bem a desempenhei pois continuei a receber salários durante um ano após minha saída – um bom amigo, já falecido, sugeriu que seguisse meu antigo sonho, a aviação: “Esse negócio de escrever é fazer vestibular para pobre”, dizia ele. E fui tentar sonhar.

Por oito anos e milhares de horas de voo persisti em tal afã. Metade deles tive uma boa remuneração – comprei carros, montei minha casa e mudei-me para Cabo Frio – e a outra metade gastei em voos de teste, sem ganhar um tostão e definhando diariamente, apenas com a esperança de ser aprovado em um projeto que algumas entidades norte-americanas selecionavam pilotos, por aqui. E não fui aprovado por minha arrogância: na última etapa das provas vinha eu para pouso, quando o Controle avisou haver “tesoura de vento” na cabeceira da pista. Por incrível que pareça, dei o “Ok, ciente” e prossegui como se nada houvesse. Resultado? Pouso “placado” e minha desclassificação. E pobreza novamente, é claro.

Quase um ano errei sem rumo, buscando trabalho aqui e ali, quando um outro parceiro me ligou e disse que uma rádio, aqui de Cabo Frio, precisava de repórteres – segundo ele, “eu escrevia direitinho e daria conta”.

Jamais entendi como ele soube que eu escrevia, pois não só o conhecia apenas das noitadas de farra como, também, já fazia alguns anos que meus maiores textos eram listas de compra no mercado.

O resto é história conhecida: da rádio fui para jornais, revistas e TV e, me perdoem os desgostosos, mudei a maneira de se produzir notícias na cidade – até então aprisionada no velho e provinciano formato de “relações públicas dos poderosos”. Quem era burro eu chamava de burro, ladrão de ladrão e incompetente de incompetente, chegando ao ponto de, pelos idos de 2006 ou 2007, afirmar em alto e bom som, na redação do jornal, que “não existe jornalismo imparcial” – e isso deixou minha então editora em estado de choque.

É óbvio que fui “cancelado” pelo seleto e unido clubinho esquerdista da mídia cabofriense, e hoje sou “persona non grata” em qualquer publicação por aqui. Por estes tempos também minha mãe e irmã morreram, e tive de aprender a conviver com isso - mas, até hoje, em cada dia nublado, vejo minha mãe coando café.

De tudo isso, o que fica são as lições que aprendi. Ao contrário de muitos, que creem só haver aprendizado na miséria e privações, posso dizer com conhecimento de causa – pois vivi os dois lados, fartura e escassez – que tanto na riqueza quanto na pobreza extraímos preciosas lições, apenas alegarmos que a miséria nos ensinou é mais poético.

Na infância convivi com artistas, militares de última patente – alguns, depois, foram Ministros – e depois, na OEA, apertei a mão de Chefes de Estado e importantíssimos “sabe-se-lá-o-quê” ao redor, conhecendo e aprendendo que todos eles são apenas seres humanos como eu – humanos, demasiadamente humanos, diria Nietzsche. Alguns, apenas vulgares e rasteiros; outros, claramente obtusos e despreparados e, alguns poucos, realmente perspicazes e de inteligência relevante – mas, em sua maioria, uns medíocres.

Por outro lado, ao dirigir um caminhão ou vagar sem rumo e teto pelas estradas, encontrei pessoas sem nenhuma cultura, nenhum preparo, mas com um coração de ouro. Elas não fazem rodeios e vão direto ao que você precisa: “Quer água ou um café, um cigarro?”, “coma este prato de comida aqui” ou “tem um barraquinho lá atrás, pode dormir nele que não chove dentro”. E isso não tem preço, apenas o elevadíssimo valor da compaixão.

A pobreza, entretanto, não é sinônimo de virtudes pois a mediocridade de alma e a inveja – uma inacreditável e rasteira inveja – campeia em muitos, fazendo com que ambicionem uma simples sandália Havaiana que esteja calçando.

Ao final de toda a mixórdia descrita acima, posso dizer apenas que o maior e mais valoroso bem que um ser humano pode ter são seus amigos – os verdadeiros amigos – que lhe oferecerão tudo em maus momentos e comemorarão contigo nos bons. O dinheiro perdemos e ganhamos, a corja de aduladores é inevitável quando estamos no andar de cima, tal qual os dedos apontados e condenatórios quando nos afundamos na miséria. Mas os amigos, estes ficam e são incondicionais.

E por quê, mesmo tendo dado alguns passos à frente, ainda sigo nesta vida difícil?

Em primeiro lugar porque, no Brasil, o sucesso é um insulto pessoal. As pessoas até podem querer ver você bem, mas nunca melhor que elas. Em segundo lugar, por ser eu verdadeira mula, empacado em minhas teimosias e incapaz de defender coisas que não acredito, apenas em busca de chances e oportunidades profissionais.

E em terceiro e último lugar, por eu não ter amigos.

Aprenda comigo, jovem. E faça tudo ao contrário.



Walter Biancardine



quarta-feira, 12 de março de 2025

QUEM NÃO OS CONHECEU, NÃO CONHECEU A BOA CABO FRIO


À esquerda, Dalton Revelles. Ao centro, minha mãe e, ao seu lado, meu pai.
Ao fundo, seu belo Mustang Mach 1.

Existem algumas pessoas que deixam sua marca na história das cidades onde viveram, mesmo que jamais tenham enveredado pelos tortuosos caminhos da política. Cito aqui três deles, amigos de meu pai mas que os "herdei" por andar agarrado ao meu progenitor como um carrapato: César Thedin, Lian Pontes de Carvalho e Dalton Revelles.


Thedin foi um cara que todos conheciam. Todos mesmo, do falecido arquiteto e escritor Marcos de Vasconcellos (que o incluiu em seu livro "300 Vergonhas do Brasil") até o frentista do posto de gasolina aqui de Cabo Frio, onde ele abastecia seu quase caricato jipe Gurgel - com as letras "CT" coladas no capô.

Entre inúmeros outros feitos, foi casado com a lendária atriz Tônia Carrero, construiu o condomínio da Moringa e deu até uma força para o querido Simonal - curriculo é isso, o resto é capivara!

Já nosso amigo Lian ergueu o inimitável "Casa Grande" - condomínio o qual tive o luxo de ter um apêzinho por lá - além da Ilha do Anjo (outro condomínio), o Clube do Canal (que meu pai foi Comodoro de 1975 até 1979) e, em tempos idos, explodiu um matadouro que poluía as águas do nosso canal do Itajurú. Em seus últimos dias, porém, cometeu o desatino de convidar meu pai e eu para sermos jurados em um concurso de Miss, que organizara em um novo clube que construia - imagine eu, um jovem espinhudo de seus 16 anos, julgando as moças...

Para encerrar estes pré-requisitos para ser considerado um "cabofriense raiz", impossível não citar o impressionante Dalton Revelles, o homem que jamais trabalhou na vida.

Quando jovem, era um bonito rapagão que muito se assemelhava ao ator italiano Marcello Mastroianni, e disso tirou todo o proveito possível, à bordo de seu charmoso conversível inglês MG. Depois, dedicou o resto de sua vida a ser uma espécie de "ordenança" de meu pai, sempre o auxiliando em seus mergulhos de caça submarina, consertos nas lanchas e até nos acompanhando em excursões de jipe, pelo então inóspito e arenoso bairro da Massambaba.

Se você frequentou a boa e saudosa Cabo Frio dos anos 60 e 70 sem conhecer essas figuras, provavelmente veio em breve final de semana para apenas conhecer o local e nunca mais voltar.

Para nós, que tínhamos casa de veraneio aqui desde 1959, foi inevitável convivermos e sermos amigos de uma turma que não deixou descendentes, infelizmente.

A vida passa, e seguimos com ela.


Walter Biancardine



terça-feira, 11 de março de 2025

OS BELOS DIAS DE ABRIL -


Jamais lidei bem com a morte. Ao contrário do choque inicial e luto das pessoas normais, minha reação sempre foi quase como tivesse eu sofrido um insulto pessoal: raiva, revolta, inconformismo e vontade de agredir a Ceifadora, como se pudesse eu vê-la - o luto e a tristeza só vêm um bom tempo depois.

Tal assunto funesto se dá por conta de, neste dia 12 de março, completarem-se 17 anos do falecimento de minha mãe. Para piorar a situação, aparentemente o calendário parece divertir-se de maneira mórbida, concentrando nos finais e inícios de ano as mortes de todas as pessoas queridas por mim.

No dia 16 de março de 1991 faleceu meu pai - há 34 anos atrás, esquecendo-se que ainda teria muito o que ensinar a um inconsequente de 27 anos que era eu, na época. Não satisfeito, tal e sinistro calendário levou-me uma de minhas irmãs, no dia 23 de janeiro de 2011 - 14 anos completados.

Mesmo os amigos não falharam, em sua tarefa de morrer e verem-se livres deste que vos escreve: o quase irmão Luís Antônio, o Rei do Rock do The House of Rock and Roll, subiu com sua Harley Davidson aos céus no dia 24 de janeiro de 2021, exatamente um ano antes de meu mestre Olavo de Carvalho, que nos deixou - ainda ignorantes de tudo - na mesma data, porém no ano seguinte.

Um recente e mórbido toque final foi o falecimento de um tio muito querido, que aconteceu - sempre - no dia 26 de dezembro de 2024, deixando bem claro para mim que um mínimo de cautela e prudência de minha parte é necessária, em tal época.

A verdade é que a morte pouco se importa com minhas intenções de espancá-la, com minha revolta estéril ou minhas raivas surdas: ela sabe que o luto sempre vem, nublando meus dias sempre mais, na medida em que os ausentes se acumulam.

Tudo o que tenho é o hoje. Amanhã são planos e o ontem, apenas lembranças.

Mas não sobrou muita gente para eu compartilhar isso.


Walter Biancardine



sábado, 8 de março de 2025

UMA BOA DICA PARA HOJE -


Você mulher, que hoje comemora seu dia e talvez até tenha sido convidada para um bom jantar, seguido de horas agradáveis com o amado, deverá perder o receio de seguir alguns conselhos da vovó.

Antes de sair, busque minuciosamente quaisquer vestígios de cabelos brancos e pinte-os. Evite o fatídico "acaju" pois é cor de velhas, tal como o loiro - se não for sua cor natural.

Faça uma boa maquiagem, mas sem exageros. Olhos delineados, bochechas rosadas e - vá lá, a ousadia merece - poderoso batom a engordar os lábios.

Use saias ou vestidos. Um tecido leve, a bailar por cima de curvas e reentrâncias ressuscita o Lázaro adormecido em seu cavalheiro, que a convidou. E não esqueça: saltos altos sempre, elevando-a à sua verdadeira e glamurosa estatura e, como bônus, empinando seu "dérriére" à posição que lhe cabe, diante de olhares estupefatos.

Chanel Nº5, não há outra receita. Caso não disponha, que seja um floral suave, daqueles que atraem narizes admirados ao seu colo - amadeirados servem apenas para mulheres trabalhadoras e seu papel, nesta noite, é ser Princesa.

Jóias e adereços devem ser usados com parcimônia e comedimento franciscanos, a realçar a arte delicada, feminina e admirável dos mesmos.

Não abra a porta de casa. Não abra a porta do carro. Não desça primeiro ou suba por último as eventuais escadas - lembre-se, você é uma dama e merece ser protegida.

Em seu jantar jamais exiba erudição, fale sobre política, dinheiro, problemas domésticos ou permita rompantes workaholics; todo o mundo real deve permanecer fora deste universo de sonhos. A noite pede uma suave dança, "Fly Me To The Moon" de braços dados ao seu gentil gentleman, que pagará a conta.

Ao postar-se neste nível, esteja certa: o Dia da Mulher deixará de ser uma data política, doutrinária, e se renderá aos encantos do eterno feminino, da suave e doce Princesa que nada precisa pedir, pois tudo tem diante de si para escolher.

Que as mulheres sejam mulheres, nada há mais encantador que isso.


Walter Biancardine



FELIZ DIA DA MULHER -


Feliz Dia da Mulher para aquelas que abriram mão de ter filhos por causa da carreira;

Feliz Dia da Mulher para aquelas que se consumiram no mercado de trabalho, antes obedecendo um patrão que a paga que um marido que a ama;

Feliz Dia da Mulher para aquelas que louvam os "direitos da mulher" sustentar uma casa, pois hoje o mercado tem dois funcionários pelo preço de um - o homem e a mulher;

Feliz Dia da Mulher que ingressa na velhice tendo como última companhia um cachorrinho, e se diz "mãe de pet";

Feliz Dia da Mulher, costela do homem que deixou-se iludir.


Walter Biancardine


domingo, 2 de março de 2025

MUITA VAIDADE, NENHUMA SUBSTÂNCIA -


Nunca fui modesto em relação aos pouquísimos dons que Deus me presenteou: se escrevo direitinho, dirijo bem ou desenho rabiscos aceitáveis, assim digo e não os disfarço por trás de nenhuma modéstia - quanto a todo o resto, entretanto, não me envergonho em declarar-me completamente ignorante.

Existem pessoas, contudo, que vivem da ostentação de virtudes, capacidades ou talentos que realmente não possuem, se tornando monumentais farsas que, cedo ou tarde, cairão por terra.

Este é o caso de uma (boa) página do Facebook a qual eu seguia, atraído que fui pelos breves e bons "insights" filosóficos, sempre emoldurados por uma narrativa poética talentosa e eficaz. Todavia, recentemente encontrei um artigo no qual o referido autor discorria sobre sua repulsa ao convívio humano (o qual, em parte, compartilho), alegando que o mesmo inevitavelmente "nos rebaixaria ao nível da mediocridade geral".

Contrariando meus costumes - pois não tenho o hábito de espalhar comentários em postagens alheias - postei breve comentário onde compartilhava minha repulsa mas que, dado o teor filosófico do texto (e mesmo da página em si), considerava que alguma convivência sempre é necessária, bem como a "queda na mediocridade" não é obrigatória.

Fundamentei lembrando: onde estaria Sócrates, sem o convívio humano? Como sua "dialética" funcionaria? Para que haja uma dialética, é preciso um diálogo; e para que o mesmo exista, é preciso o convívio. Acrescentei que podemos nos espelhar nas virtudes alheias e, mesmo, nos prevenir e corrigirmo-nos ao constatar as idiossincrasias do próximo, tornando-nos pessoas melhores.

Para minha surpresa o autor respondeu-me, à queima-roupa: "No dia em que escrever algo sobre o mesmo tema, aí sim poderá emprestar ao mesmo as sugestões que me apresenta". Ora veja!

Imediatamente percebi que estava diante de uma arrogância vaidosa monumental, e dei breve e cortês resposta: "Pois não. Assim que tiver discorrido sobre todos os temas possíveis, só então voltarei a postar comentários" - e acrescentei: "Ao contrário do que diz, não dei "sugestões", apenas expressei "opiniões".

E tal colosso vaidoso me bloqueou! Não tenho mais acesso à sua página!

Isso posto e passado o susto, pus-me a pensar: trata-se de alguém com um óbvio talento poético, mas cujas análises filosóficas acomodam-se à platitudes e conceitos academicamente aceitos. Nenhuma inovação, nenhuma originalidade, nenhum sinal de vida filosófica própria.

Para piorar, tal e ríspida resposta apenas evidenciou sua incapacidade argumentativa - certamente justificada pelo suposto fato que toda sua base filosófica vem da Inteligência Artificial (daí as platitudes), mas belamente adornadas por seu talento lírico.

Um filósofo não é um filósofo até que sejam apresentadas antíteses às suas teses - esta é a dialética, e causa pasmo alguém que ostenta ares filosóficos não admitir opiniões, contestações, nada - visite a página e verá apenas louvores e elogios.

E o gigante de pés de barro desmoronou: seu nome não é o verdadeiro; sua foto é repleta de efeitos artísticos e preocupa-se em excesso no aparentar riqueza material e erudição. Seus (creio) dez mil seguidores no Facebook acompanham uma farsa, que não filosofa - por incapaz que é - e impulsiona-se apenas pela vaidade de ser alguma espécie de "guia" para cegos, a exibir teatral tormenta existencial sob a forma de ChatGPT filosófico.

Confesso-me envergonhado: caí no golpe. Hoje, as postagens que dele compartilhei apresentam o aviso "não disponível" em meu Facebook, oriundo de seu bloqueio, mas - sinceramente - não me importa mais.

Uso, com tal cidadão, a mesma dialética do convívio que aleguei em meu fatídico comentário: percebi minha real estatura, diante de pequeno anão intelectual, folheado à ouro falso.

O medíocre não tem respostas a dar, nem caminhos a apontar.

Apenas finge filosofar. E engana.


Walter Biancardine