domingo, 19 de julho de 2026

ATRAIO TRALHAS


Existia um botequim que eu gostava. Ficava na esquina da rua 5 de Julho com Santa Clara, em Copacabana. Eu estudava na 5 de Julho, mas só ia ao botequim à noite.

Um sábado, depois de convidar todas as garotas que eu conhecia pra sair e elas, sem exceção, caírem na gargalhada, apareci por lá e comecei a tomar umas cervejas.
Não estava chateado com nenhuma mulher olhar pra mim. Isso era normal. Eu estava é entediado.
Jovem, ainda bem disposto e sem nada pra fazer justo em um sábado. É claro que o orçamento quase inexistente estreitava bastante as opções, então me restou o botequim.

Minha mesa já parecia o fundo de uma pista de boliche – várias garrafas derrubadas – quando o maluco apareceu.
Sim, e aqui abro um parêntese pra falar desse tipo. 

Por quê diabos, em um bar apinhado de gente e com pessoas com aspectos muito mais higiênicos e financeiramente saudáveis do que eu, os malucos sempre – invariavelmente – escolhem a mim para segredar seus delírios?

O caso é que o maluco chegou e, sem sequer um “boa noite”, começou a desfiar uma longa teoria sobre sei lá o quê. Ele falava, eu bebia. E sabia que ele ia pedir um gole, afinal me viu beber.

Ele pediu. De propósito acendi um cigarro.
Ele pediu também.

É nessas horas que, felizmente, existe a violência para sanar os problemas quase insolúveis. Não a violência física, mas a verbal.
Perguntei a ele:
- Se eu puser meu pau em cima da mesa o senhor vai querer também?

O maluco se revoltou.
Saiu resmungando e bracejando. Mas era maluco e resolveu reclamar e dizer desaforos contra o dono do estabelecimento.

Manoel era conhecido por ter “a gangue dos dobbermann” – alusão a um filme muito famoso na época, mas era devida aos seus dois negões de estimação, que cuidavam da paz local à troco de cerveja gratuita.

O maluco nunca mais voltou.

E as garotas continuaram me ignorando.




Walter Biancardine



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