sexta-feira, 18 de abril de 2025

BRAÇOS ABERTOS SOBRE A GUANABARA -

Não há como explicar o feitiço carioca para quem, nestas terras, não nasceu.

Qual os melhores "rabos-de-galo" dos mais infectos e concorridos botequins da úmida e arbórea Copacabana, a mistura se dá quando adicionamos às paisagens - sempre fermentadas pelas belas mulheres em meio à calçadas apinhadas e trânsito caótico - generosas doses de Pão de Açúcar, bondinho e, para os mais calejados, Noites Cariocas.

Pitadas de Rodrigo de Freitas, seus pedalinhos e as irresistíveis casas da rua Vitória Régia trazem de imediato a lembrança de Gatto Pardo, Roxy Roller e até - warum nicht? - a boa e bela Biblos, de tantas madrugadas felizes.

Doses muito bem medidas de Arpoador, junto com toques de Posto 9, Caneco 70 e Baixo Leblon, que sempre pedirão o complemento dos quilométricos Cervantes pois, prestimosos, evitam ressacas desnecessárias.

E no voo de pássaro provocado por tal e embriagadora mistura, adentramos na perna do vento rente ao Cristo Redentor - braços abertos sobre a Guanabara - giramos base, roubamos o açúcar de nossas Noites Cariocas e encaixamos na final, para o delicioso glide que nos deixará, orgulhosos de nossa origem e do pouso de três pontos, no bom e velho Santos Dumont.

Rio de Janeiro, Rio de Janeiro... que estas linhas capengas sejam uma nota de pé de página em nossa diária, enlouquecedora mas deliciosa Crônica da Cidade Amada.


Walter Biancardine 


Quer ouvir o saudoso "Samba do Avião", de Tom Jobim? Clique no link abaixo.

https://youtu.be/WgXcHwnfGOs?si=sW1owD0CS6KPjy2n




domingo, 13 de abril de 2025

VISITA -


Este é um daqueles domingos que, pouco importando minha já avançada idade, sinto um quase instintivo desejo de ir à casa de meus pais visitá-los.

TV sempre ligada, perguntar as últimas do jornal, minha mãe trazendo um café e dizendo que vai ter coração de galinha pro almoço - que detesto, mas sorrio satisfeito.

O pai contando histórias do trabalho, um caminhão que virou a carga na estrada ou mesmo dizendo que planeja vir à Cabo Frio botar a lancha na água. Os irmãos chegam, as implicâncias -saudades - também, junto com interminável e ensurdecedora horda de sobrinhos.

Cunhado não é parente, é destino - há que se aturá-los e alguns, à bem da verdade, até são divertidos.

Almoço à mesa, a disputa imortal entre os irmãos pelo melhor pedaço ou medindo copos para ver quem encheu mais - crescemos mas algumas coisas ficam.

Fim de tarde a cerveja, a moleza, a vontade de voltar para casa sabendo que aquela sacrossanta segurança, aquela paz inominável "sempre estará lá".

Mas não estará, hoje descobri. Se este ainda é seu domingo, aproveite.

Às vezes, tudo o que queremos é voltar para casa.

E fingir que toda nossa vida foi apenas uma longa e difícil viagem.


Walter Biancardine 



quinta-feira, 10 de abril de 2025

SOU MEU MELHOR LEITOR -


Raciocino quando caminho, raciocino quando escrevo.

Se já tive a ousadia de costumar andar vinte quilômetros por dia quando morava solitário, no pasto, recebi em troca uma enorme clareza de ideias. Mas andar cansa e estou velho.

Escrever é algo como uma compulsão para mim. Enquanto escrevo, raciocino, medito, pondero, transcendo. Já escrevi seis livros, milhares de artigos, inúmeros ensaios filosóficos bem como algumas poucas teses - escrever não cansa, estou velho mas não sinto.

Tal é o paradoxo: escrever um ensaio de doze laudas sobre o amor, narcisismo e Fernando Pessoa, mesmo sabendo que - não só pelo tema mas, também, por suas dimensões - ninguém o lerá.

A verdade é que não escrevi para ninguém além de mim. É meu diálogo comigo mesmo e minha solidão - única companhia fiel ao longo de minha vida.

Dedico meu trabalho às vozes da minha cabeça - mesmo que poucos e eventuais leitores se metam entre nós.


Walter Biancardine



sexta-feira, 4 de abril de 2025

O PAÍS DO STATUS -


Não gastarei linhas discorrendo sobre as vaidades primárias de ostentar automóveis, jóias, roupas ou até mulheres cobiçadas coletivamente, pois tais futilidades apenas irritam mas em nada prejudicam minha vida. O que desejo comentar é algo muito pior, verdadeira mentalidade farsesca a imperar no universo acadêmico brasileiro, que apressa-se a nos tornar o país das fraudes - fraudes intelectuais, pura busca de status quo, compulsão pela arrogância e ostentação de títulos.

Lanço a pergunta: quantos de vocês já se deixaram impressionar, intimidar, convencer ou calar por alguém que - em agonia retórica - lançou mão da pútrida "carteirada" de dizer-se um "Doutor", um "Mestre" ou mesmo "Pós-Graduado" em qualquer coisa?

Creio que muitos sabem das minhas desventuras junto à esta comunidade intelectual, impermeável qual granito à ideias divergentes de suas "catilinárias do consenso doutrinário" e que rendeu-me incontáveis e ferozes discussões com os referidos e empolados "Ph.D's" - e, nas quais, todos perderam e não encontraram respostas (ou, muito menos, antíteses) aos meus argumentos.

Pois bem, tais linhas devem-se à minha educação de berço - e o que é do berço só a tumba tira - em não respondê-los com uma única pergunta, após a infalível "carteirada": " - O senhor é pós? Quem fez seu TCC?". Ou, prosseguindo, caso fosse um Mestre: " - Quem redigiu sua dissertação?" Ou pior, sendo um Ph.D: "Quem escreveu sua tese?" E o fim da linha, no pós-Doc: " - Pode me apresentar o autor de seu relatório?"

E onde quero chegar com isso? Para ser direto, à fraude, que impera no meio acadêmico brasileiro. Nenhum deles escreveu nada, redigiu nada, estudou nada. Completas nulidades, anafabetos funcionais a carregar, entretanto, pomposos diplomas e certificados que os autorizam a proferir platitudes como grandes novidades ou - para os mais ousados - absurdos cuja única função é chocar valores e princípios vigentes.

Tal tipo de estelionatário vale-se, normalmente, dos serviços de professores - em desespero financeiro - que prestam-se a desenvolver, em parte ou, pior, no todo, seus trabalhos que garantirão o novo e dourado "status" ambicionado.

Como um "Doutor" em filosofia pode não saber filosofar? Ou este elemento acredita que ter lido (porcamente) Foucault, Sartre e outros infelizes - pois Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino é demais para seu espectro doutrinário e espaço cerebral - faz deles "Professores Doutores"? Ler é uma coisa, saber nomes, datas e lugares pouco vale. O que eles jamais aprenderam é o "ato filosófico", a filosofia como método de pensamento, como - desculpem a redundância - "filosofia de vida"; isto não sabem e jamais aprenderam. E eu sei, Olavo de Carvalho me ensinou.

Passada a borrasca de meu tempestuoso contrato com a graciosa Doutora - esta sim, verdadeira "Ph.D", pois sabe e tem propriedade sobre o que fala, embora fraca filosoficamente e carecida de meu auxílio - creio poder falar com conhecimento de causa sobre meu assombro, ao ver-me em um país onde a "elite intelectual" resume-se a um punhado de fraudadores, cujos títulos foram obtidos às custas de abnegados anônimos, que precisavam pagar suas contas ao final do mês.

Esta é a "elite" do pensamento brasileiro? Que desconhece a própria cadeira que ocupa e, eventualmente, leciona? Que jamais mergulhou em noites insones de pesquisa e aprofundamento para escrever seus trabalhos?

Não à toa o Brasil não dispõe de trabalhos citados por nenhuma revista ou publicação científica de valor internacional. Não à toa os candidatos à pós-grado, por exemplo, precisam adequar seus temas às preferências de seus orientadores, pois os mesmos não querem se dar ao trabalho que algo "novo" poderia provocar - e a academia brasileira é avessa ao novo, à divergência, ao embate de ideias.

Que este desabafo seja meu manifesto público de desprezo por tal "elite" acadêmica, reles fraudadores, mentirosos primários e inaptos, mas com muita pose e, alguns, até mesmo com canais no YouTube.

E muita bajulação em torno, cargos vantajosos e dinheiro no bolso também.

Pois este sempre foi o objetivo primeiro de todos eles.


Walter Biancardine