sábado, 18 de julho de 2026

PEIXES E PARAFUSOS


Afastado da costa, mal se vê terra.
Não precisa fundear, deixa à deriva.
Motor desligado, solta as linhas de isca e abre uma cerveja e senta na cadeira no convés de popa. 

Uma tainha morde e é boa. Gorda.
A fome bate, acendo o fogareiro de carvão e faço ela na brasa.
Limão, muito limão em cima.
Sal, é claro, nem precisa aqui na região.
E mais cerveja pra rebater a tainha.

Uma outra morde e é quase um incômodo, por estar sentado e comendo e bebendo, feito um poderoso que olha o mar. Mas recolho ainda assim e seu destino é o mesmo: frigideira.

Barriga cheia.
Cerveja e peixe.
Me sinto tão onipotete que lembro de levar alguns peixes para os pobres mortais que ficaram em terra.
As linhas permanecem na água.

Entra um vento sul repentino.
Mau sinal.
A água ficou cinza, hora de zarpar de volta.
Mas o motor não liga.
Tento e tento e tento. Nada.
Melhor parar antes que a bateria descarregue.

Vou buscar a caixa de ferramenta e me dou conta que a larguei em meu apartamento, no condomínio Casa Grande.
O negócio é improvisar.

Havia centelha. Bom sinal.
Abro o distribuidor. Giro o motor com a mão.
Platinado não abre. Colado. Matei a charada.
Mas não tinha chave de fenda.
A solução foi a peixeira, um facão de cinquenta centímetros.

Mas o mar já batia e sacudia tudo.

Fechei a porta do porão de proa, mas o motor teve de ficar aberto enquanto eu tentava desparafusar o pequeno platinado com uma faca de cortar pescoços de girafas.

E tudo sacudia. E borrifos de água começaram a entrar pelo costado.
Mar grosso.

Consegui tirar a peça. Agora é lixar, mas não tenho lixa.

Lembrei de minha caixa de fósforos.
Arranquei a parte em que se risca os palitos e improvisei.
Funcionou. O contato ficou limpo e passava corrente.
E o melhor: descolado.

Agora é parafusar de volta.
Com o facão enorme e o mar sacudindo tudo.

O que poderia ser feito em quinze minutos levou quase uma hora.
Uma hora de mar batendo, vento uivando, peças caindo e rolando pelo convés e água entrando e molhando coisas que não podiam ser molhadas.

Mas parafusei.
E tirei um litro de gasolina do tanque.
Enxarquei um pano com a gasolina e passei nas peças que a água do mar molhou.

Montei tudo, virei a chave e apertei o botão de partida.

E funcionou.

Agora era voltar, encarando aquele mar bravo de vento sul e deixando pra recolher panelas, restos de peixe, temperos e talheres pra quando atracasse de volta.

Tudo tem sua hora.

Inclusive a de aprender que quando você olha pro mar e não vê nenhum barco de pesca, não é à toa.

Fique em terra.




Walter Biancardine



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