quinta-feira, 16 de julho de 2026

NEM PERGUNTO

 
O que seria de minha educação sem a hipocrisia?
Não foram poucas as vezes que, sentado sozinho no bar, sábado de manhã, chegou um inconveniente alegre demais.
Dana a perguntar coisas.
Como vou. O que tenho feito.
Que fim levou aquele carro que eu tinha.
Se estou trabalhando.
E aquela mulher.

O normal seria mandar tomar no cu.
Não é amizade. Nem gentileza.
É interrogatório pra fazer fofoca depois.
Eu sei e ele sabe que eu sei.
Então dou respostas mais vazias que a carteira dele.
E que a minha, claro.

O que seria de mim sem essa hipocrisia?
Esse mesmo sujeito, pé no saco, já me pagou bebida.
Me deu carona num dia ruim.
Até cedeu lugar na fila do banco.
Mas eu nunca quis saber nada dele.
Pouco me importa se ele levou chifre. Ou tem diarréia.
Ou se o chefe dele é um saco.
Nada disso me interessa.
Não pergunto.

Por isso me acham distante. 
Frio. 
Arrogante.
Parece que o certo é estar inteirado até de quantas vezes o sujeito vai ao banheiro por dia, e se lava as mãos ou não ao sair.

Pois que me deixem com minha frieza e arrogância.

Se eu souber dessas coisas de banheiro, nunca mais cumprimento. 




Walter Biancardine




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