segunda-feira, 22 de junho de 2026

BENDITA SEGUNDA-FEIRA

 


Bendita segunda-feira 
que você acorda sem acordar
que sai da cama sem querer
e se veste sem se ajeitar

bendita segunda-feira
que o café tá aguado
o pão tá murcho
o ônibus lotado

bendita segunda-feira
com serviço atrasado
do acumulado de sexta
e do colega encostado

bendita segunda-feira
sempre bate a impressão
que trabalho a troco de comida
vale refeição

bendita segunda-feira
nunca se chega em casa
trânsito dos infernos
e a torneira que vaza

bendita segunda-feira
porque a vida é assim
a gente vende o dia inteiro
pra comprar o mês no fim

Maldita seja a segunda-feira
Mais maldita ainda a falta dela



Walter Biancardine



SAINT-EXUPÉRY DO TRECHO -

 


Não é difícil romantizar e tentar ser poeta falando de aviação, dos voos e dos céus. 
Eles trazem já, em si, toda a poesia embutida.
Não resisti a tentação e andei cometendo um texto no qual lembrava de meu primeiro solo a bordo de uma tosca aeronave de treinamento, um pau velho que envergonharia Santos Dumont. 
Mas não me saí mal. 
Afinal eu falava dos céus e da grandeza que nos acomete quando voamos, junto com a repentina vocação poética.

Difícil é ser poeta ao volante de um Fenemê.
Ou de uma Terezona, o Mercedão.
Aí o bicho pega.

Todo o sublime se recolhe ao para-choque traseiro, em frases curtas.
Não há divino na poeira. 
No calor de rachar, no motor que queima sua perna direita ou no frio congelante das madrugadas – e aquela muriçoca não tem calefação.

Mas é preciso procurar poesia.

Talvez ela esteja nas longas retas de uma estrada deserta. 
Quilômetros e quilômetros sem  cruzar com uma alma viva sequer. 
Ou nas noites em que sempre vemos uma mulher de branco à beira da estrada. 
Ou subindo a serra de madrugada, com o cano de descarga incandescente por conta do motor berrando – bem no seu joelho.

Não, pobre demais.

Quem sabe a poesia se esconda no posto de gasolina, onde almoçamos e encontramos colegas que só veremos novamente daqui há uns seis meses. 
Mas o assunto volta sempre e exatamente de onde paramos.

Talvez esteja no horizonte – sim, é lá que a longa reta termina – e haja finalmente uma resposta ou recompensa para tudo. 
Mas nunca há. 
O que existe é o frete de volta, com sorte. 
Ou voltar vazio, batendo carroceria.

Quem sabe seja a voz do rádio, o único amigo que nos acompanha. 
Se o rádio pegar alguma estação, naquele fim de mundo. 
Ou se esconda no ronco do motor, ladainha interminável como uma novena de seis ou oito enormes cilindros, orando por uma viagem segura, enquanto nos deixamos sair de nós mesmos e sermos levados pelas mãos do rugido mecânico.

Também não.

Na frente, o asfalto cinza.
Aos lados, o barro do acostamento – quando há.
Uma salvadora barraca de caldo de cana e pastel.
E a gentileza do caboco que nos serve.

Depois, é estrada e poeira.
Poeira, poeira e poeira.
Muita poeira.
Só poeira.

Talvez esta seja a poesia.



Walter Biancardine 




MINHA PRIMEIRA VEZ -

 


Eu estava no controle. Tudo em minhas mãos. Só dependia de fazer certo e dos meus instintos.
E meus instintos sempre foram bons.

Quarenta milhas por hora, tirar o bicho do chão.
Acelerador a pleno, reduzir flaps e aproar no rumo certo.
E num teco-teco, a mil pés de altitude, vi coisas que vocês – gente chique – não conseguem ver num jato.

Raso o suficiente pra ver detalhes, gente andando, varais de roupa e piscinas com gente nua.
Alto o bastante para intuir a geografia, ver que os mapas não mentem e me sentir um filósofo – sim, pois não se vê tamanha grandeza sem sair de si.
E Deus se torna óbvio. Somos formigas.

Prefiro teco-tecos a um jato. Nele posso voar de janela aberta e sentir o cheiro das nuvens.
Creiam, nuvens tem cheiro. E nos molham o casaco.
Mas o mistério – ou Deus, sei lá – me chama e subo mais. E mais. E mais.
Dez mil pés. Frio de rachar.
Agora quem se acha Deus sou eu.

Em minhas mãos está o controle da mistura do ar e da gasolina. 
Controlo a máquina. Controlo os ares. Sou o dono do mundo.
A dez mil pés todo homem vira especialista em eternidade. 
Não há ninguém ao meu lado, os assentos são em fila e posso olhar ambos os lados para tudo dominar, conquistar, chamar de meu.

O mundo é grande, muito grande. E meu espanto, maior.

Mas também é pequeno, bem menor que eu sabia.
De Maricá vejo a Pedra da Gávea. De Cabo Frio ao Rio, em linha reta, são cem quilômetros. E incontáveis lagoas, lagunas, lagos, barcos de pesca e as intimidades dos quintais.

De volta, pouso três pontos, manteiga.
 
Me achei um Saint-Exupery.
Em casa escrevi o que vi e o que senti.
E também o que inventei.
Pilotos, pescadores e amantes compartilham alguns pecados.

Não esquecem a primeira vez.




Walter Biancardine




domingo, 21 de junho de 2026

FIO SOLTO


 

ARTISTA BOM É ARTISTA MORTO -

 


Se você tem um poeta
escritor ou ator ou pintor
ou qualquer artista por perto

primeiro o xingue
invente mentiras e o difame
depois o esqueça em vida

então chega a hora
mate ou deixe morrer
não mais te ameaça

morto agora
é hora de elogiar e citar
e louvar e dar como exemplo

porque mortos não contrariam
nem mudam de ideia
viram fotografias

um morto não decepciona
mate seu artista




Walter Biancardine




sábado, 20 de junho de 2026

VIDA QUE SEGUE -

 


Não choro mais um amor perdido
nem vou gastar minha cerveja com isso
não serão lágrimas ou porres
que consertarão

ela sabe todos os meus erros
um por um e de cor e salteado
eu também sei os dela
de olhos fechados

até aí morreu o Neves
apontar erros é fácil
quero ver é domesticar egoísmos
e aceitar ajudas

isso vale pros dois
não há inocentes numa separação
por isso não choro mais
nem bebo menos

a vida segue por ser maior que isso
tenho a mim mesmo a restaurar
ser quem já fui um dia
ou de preferência

melhor




Walter Biancardine






A BOMBA DA PAZ -

 


Tenta-se de tudo para evitar o pior.
Nos esforçamos, suportamos, entendemos, engolimos – e isso foi de ambas as partes.
Mas chega um ponto de não-retorno. A bomba explode e tudo destrói.
Ambos sobrevivem, mas nada sobrou no coração de ninguém.

Só posso falar por mim, entretanto.
E de minha parte, estranhamente, a paz chegou.
Não anseio retornos. Não guardo esperanças. Não conto as horas.
Não há mais dor.
A paz dos mortos.

Talvez eu tenha precisado morrer para finalmente renascer.

Que a tranquilidade feliz venha, enfim, para ambos.
As manhãs continuam chegando.
As luas também.

Bendito seja o silêncio.



Walter Biancardine


O VAGALUME APAGOU -

 


me sentia um vaga-lume
bem sentimental
acendendo e apagando
por brigas e pazes

mas virei uma lâmpada
de tanto acender e apagar
acho que queimei

o disjuntor desarmou
saiu fumaça e quase torrei
e após um curto circuito
veio a longa dor

que seja
que a fumaça dissipe
a lâmpada permanece

talvez um dia acenda
de novo

vaga-lumes não somem




Walter Biancardine




sexta-feira, 19 de junho de 2026

A FESTA ACABOU -

 


Depois de tudo que passei
eu poderia me achar
imbrochável, imorrível e incomível

mas tudo isso é horrível
como gente que se diz
à prova de balas e indestrutível

há sabedoria no morrer
nem sempre ver o depois
o que sobrou pra viver
vale a insistência

neste exato momento
nenhuma vantagem vejo
só pagando um tormento
não se explica

feito um ator ruim
que não se toca e sai de cena
querendo palco até o fim
e a vida puxa pra fora

pela gola
sem bis
e pronto



Walter Biancardine




CARAMELO -


Dormir no mato do acostamento
embaixo da árvore
mais na frente uma moita
boa pra mijar

vagando sem rumo 
passo em frente ao posto
tem gasolina e bar
ganho um salgado

hora de almoço
resto de quentinha
sigo o caminho
no mato ou na estrada

fosse um cachorro
e ganharia sorrisos
afagariam e brincariam
talvez até adotassem

mas não tenho rabo
que eu possa abanar
nem língua comprida
pra lamber mãos

sou só um homem
não desperto simpatia
no máximo piedade

o cachorro ao menos
não tem maldade

dizem



Walter Biancardine



EU TINHA UNS VINTE ANOS -

 


Os tambores rufam no calendário
hoje é sexta-feira
tudo promete e pede e cede
gosto de boca no ar

percussão de Prestobarba no chuveiro
você ouve e se arrepia inteiro
o perfume chega na sala
só depois ela vem

abre a porta e o Chevette reluzindo
tanque cheio e música certa
a boa moça é esperta
dá uma pala e vamos indo

bar e cerveja e Martini pra ela
dançando juntinho na boate os dois

cochicho no ouvido
ela diz “meu querido”
não vamos deixar pra depois

suíte com hidro e ela nua
outra cerveja e outro Martini
fosse hoje eu diria “vai que é sua!”

o dia amanhece
você quase se esquece
já é outro dia

amanhã te vejo na praia
bunda linda e sem saia
limão e mate e chorinho

o fim de semana
mal começou

era mil novecentos
e oitenta e pouco
tudo era louco



Walter Biancardine





COPACABANA -


Rio de Janeiro com chuva
se ando nas calçadas
da avenida Nossa Senhora de Copacabana
sempre me atrasa uma velhinha sacana
guarda-chuva aberto
andando embaixo da marquise

em outra calçada estreita
apinhada de gente
no meio dela e fazendo um funil
o camelô monta sua banca – puta que pariu!
Mas ele é esperto
eu olho pra ele sem que precise

o Rio é formigueiro 
calor que racha ou chuva que encharca
nada muda nem melhora
é bem ao contrário e só piora
E as formigas do camelô
correm pra praia



Walter Biancardine



PORTA ENTREABERTA


Já tem uns dias
em que eu não abria a porta do quarto
não saía de casa e o tempo fechado
frio e névoa e chuva e vontade
de tomar café com alguém
mas ninguém… 

precisava de coisas
comprar café e cigarros e pão
e tem a estrada pra andar
quilômetros de lixo
quilômetros de histórias
jogadas no acostamento

não sei por quê tanto olho
pra sarjeta ou acostamento
pros becos e botequins
banheiros de ajoelhar
e exorcizar no vaso
os demônios da vida

mas hoje tá sol
eu preciso sair e quero sair
mas não quero e preciso
companhia e conversa e risos
o dia tá lindo e eu não indo
viver o que posso viver



Walter Biancardine





JÁ MORRI ALGUMAS VEZES



Bravos kamikazes
que voavam para a morte
bravos soldados no Dia D
sabiam que iam morrer
bravos heróis que deram suas vidas
todos respeitam e honram

mas onde está a glória
em deixar que o peito morra
que o coração exploda
que o mundo desabe
nada mais tenha sentido
e insistir em amar de novo?

Não é por respirar que vivemos
nem por comer ou às vezes dormir

o corpo existe e ocupa lugar
responde perguntas e parece andar

mas a alma se foi
morreu
ela levou

mas o herói se levanta
do horizonte aparece
um beijo que apetece
e insiste em amar

de novo
tudo de novo
morrer de novo

sempre vale a pena




Walter Biancardine



É MUITO BOM -

 


A leitura não purifica. Alivia.
Que tire as maldades ou ponha novas em sua cabeça. 
Pouco importa.
O que importa é a cabeça.
Ocupada.
Aprendendo ou explorando.
E lembrando pra sempre.




NADA NAS MÃOS -

 


Não me faça sentir dor
meu amor por favor tô afásico
isso é o básico do básico

não sou mágico
nem herói nem trágico
é só um resto que detesto
em mim

ando na estrada
subo na escada
me defendo com espada
não escolho a missão

tudo o que resta não presta
na minha mão
um grande não
um nada



Walter Biancardine



SÓ TEM ESSE MODELO -


Nunca tive versão “traje esporte fino”
Um dia sou o bom sujeito, certinho
No outro um apaixonado sonhador
E de repente solto um palavreado
que envergonha até estivador

As coisas mudam, os dias mudam
Eu também mudo e dou meu jeito
Por mais que espante, não é o que você pensa
Eu reajo, sobrevivo, me defendo na sequência
Se eu nunca mudasse, aí sim seria doença

Escrevo por amor a alguém
Choro os pés na bunda que levei
Todo mundo suspira e acha romântico
Não me querem gente, mas bibelô de enfeite
Mau humor só do outro lado do Atlântico

Nome disso é hipocrisia
Bonitinho todo dia
Sirvo só pra dar brilho
Sou móvel e utensílio

Sou gentil ou educado
Mas também sou um safado
Sou normal, sem nenhum plano
Eu sou só um ser humano




Walter Biancardine




FAMÍLIA -

 

Ligo o computador e entro no Facebook.
Do nada aparece um vídeo.
- E aê, família… ?
Desligo.
Nem quero saber.

Chamou gente que nunca viu de família, é golpe.
Se não é golpe, é demagogia.
Ganhar views.
Forçar intimidade.
Já que gosta tanto de família, que force intimidade com a mãe.
Virou mania.

Todo mundo é família.
Todo mundo é irmão.
Todo mundo é parceiro.
As palavras saem puídas, feito meias velhas.

O significado pouco importa, o que interessa é o som.
Às vezes nem irmão é irmão.
Nem tio é família.
Mas um sujeito com boné virado acha que vai me conquistar com uma palavra mágica.
Cansei.

O jornal fala de um país que não existe.
A internet virou feira de milagres:
o que vendem não existe,
o que cobram existe, muito.

E o brasileiro é esperto.
Esperto demais.

Tô de saco cheio de esperteza.
Saco cheio de vigarice.
Alérgico a conversa mole.

Porque, pra pedir,
todos são uns doces
Sim.
Uns doces.

Daqueles que, quando você abre a geladeira,
sumiram.

Coisas de família.



Walter Biancardine 



quinta-feira, 18 de junho de 2026

HOJE NÃO, TÔ COM DOR DE CABEÇA


escrever é sexo
dá prazer e faz falta
a alegria de ver
o que pude fazer

quero repetir
mais uma vez
duas, três, dez vezes
sem tirar de dentro

mas não é mole
e se é, não é físico
o corpo absolve
mas a alma se esgota

e bobagens pingam
balanço mas não vai
perda de tempo cruel
essa sim, abre um buraco

e me sinto vazio
não consigo dizer
não dá pra ser brilhante
do despertar até a insônia

foi bom pra você, meu bem?



Walter Biancardine




PLAY IT AGAIN, SAM -

 


Play it again, Sam”.
Mas Sam não toca. 
Não há Sam ao piano e estou em casa, sozinho.
Aliás, Bogart jamais disse isso.
Nem eu.

E a primeira estrofe me dói: 
You must remember this”.
E piora:
A kiss is just a kiss
Olho seu retrato e escuto:
A sight is just a sight”.

Diria adeus com um beijo.
E um abraço inventado.
Te ouvindo dizer:
We’ll always have Paris”.

Mas nunca tivemos.
Sequer nos vimos.
Você se foi.
As time goes by”.


Walter Biancardine



CLICHÊS -

 


Muita gente busca um clichê pra se encaixar.
Compra uma prancha de surf e no dia seguinte o cabelo fica loiro e cheirando à maconha.
É contratada como doméstica e automaticamente lava os pratos com um pé apoiado no joelho da outra perna, o famoso “4”.
Ou o pior deles: se diz escritor e no dia seguinte se faz bêbado, caído no chão do bar, reclamando que é um incompreendido e se vitimizando em tempo integral.

Mas desse último tipo eu entendo e posso falar.

Ele ouviu falar dos existencialistas. De um Quartier Latin, Montparnasse ou Montmartre em Paris. Só que os existencialistas viraram os depressivos das redes sociais. Aliás, nem Paris existe mais. Agora é uma feira de lembrancinhas, café caro e apartamentos impossíveis. 

Mas eles insistem.

Sim, insistem. Escrevem (via ChatGPT) um textão pro Facebook e depois vão num barzinho – mas não pode ser muito “barra pesada” não, senão eles não sabem se virar – pedir um energético e beber até se fazerem de bêbados. E mandam seus originais cibertrônicos pras editoras. E as editoras cobram – é claro – para satisfazer as vaidades desses tipos.

Conversei recentemente com um poderoso de uma editora. Editora alternativa mas era editora, porra. E das grandes. E ele me dizia que o que escrevo o agrada, que tenho voz própria, estilo, domínio literário e sou muito bom quando trato do que é concreto – traduzir solidão numa sala vazia ou angústia em alguém num bar com um vira latas ao lado. Até aí, tudo bem. Mas ele disse que preciso parar de chamar o leitor de burro e ficar explicando. Não sou mais analista político, não tenho de convencer ninguém de nada – e tive de baixar a cabeça, ele está certo.

Mas o pior de tudo: ele me vasculhou. Leu coisas que escrevi há mais de vinte anos, e sabe que ir ao bar, beber e chorar pés na bunda ou a vida bandida são coisas e ambientes de sempre, em minha porca vida – não é um clichê que adotei. Mas me deu uma recomendação “marqueteira” para quando eu buscar outras editoras para publicação: que eu as sonegasse meus textos de pés na bunda, fossa, coisas assim.
 
Pois hoje em dia não é mais obrigação profissional saber diferenciar um verso sangrado de outro do Grok. Ou distinguir um infeliz, que pagou sua primeira cerveja em Cruzeiros, de algum novato que se queixa no Facebook, pede um energético em seu copo Stanley e ganha 100 curtidas.

É o fim da picada passar uma vida sendo um fracassado legítimo e agora correr o risco de ser confundido com um imitador. 
Minha dor verdadeira terá o mesmo peso de uma dor fabricada por algoritmos.
Uma humilhação metafísica, e eu preciso comer.

Ao fim e ao cabo, tenho certeza que a próxima cerveja que eu beber num bar terá como companhia – além do desalento habitual – o fantasma de um “Enzo” se fazendo do tipo “noir”, decadente, “dark” quase gótico, existencialista do Túnel do Tempo e pensador de Facebook.

Mas ele pedirá um energético sabor frutas vermelhas. 

Tristeza é decorativa.

E eu continuarei com minha cerveja.

Sozinho.



Walter Biancardine



SENTANDO DE LADO

 


Nenhuma bunda morre virgem
todas cedo ou tarde
levam um pé

João amava Maria
Maria amava José
José amava Tião

cada um com seu gosto
mas sempre o pé
e sempre dói

o primeiro enlouquece
o segundo sangra
o terceiro ri

e depois disso
freguês de botequim

nenhuma bunda morre virgem
nem a minha
nem a sua



Walter Biancardine




quarta-feira, 17 de junho de 2026

CONDENADO GOURMET

 


O que fica na memória é seu erro.
Comentado, avaliado, julgado.
Pesado, medido e contado.
Não esquecem. 
Apontam sempre alguém que sofreu muito.
Por sua culpa.
Alguém que perdeu muito dinheiro.
Por sua culpa.
Alguém que se decepcionou muito.
Com você.

Tem gente que assiste TV enquanto come.
Outros desfiam e destrincham o errado como um frango assado.
Servem com molho de comentários e temperam com o sal da desforra.
O cardápio é você.
Te comem.
E seu destino é o vaso sanitário. Digerido e reduzido ao devido tamanho.
E forma.

O que seria dessa gente sem um errado no menu?
Como cresceriam? Como seriam melhores?
Mais honestos? Mais responsáveis?
Mais trabalhadores?

A sobremesa é sua ausência. Ninguém fala na cara.
E servem seu choro com duas pedrinhas de gelo.

A indigestão, azia, mal estar só aparecem às vezes.
Se o prato do dia os ignora. Se caga e anda.
Se sorri e vive.

Eles correm pro banheiro.
Te vomitam.

Você foi mais indigesto que pensavam.



Walter Biancardine




SEMPRE COM FOME

 


Não são poucos os pequenos
miseráveis e mesquinhos
urubus secando a carcaça
apontando você

já te julgaram inteiro
sua vida inteira não escapa
biografia é folha corrida
você não vale nada

se você não reclama
então é feliz
ou faria um drama
de ator ou atriz

a costura mal feita
remédios e rezas
a insônia escondida
isso ninguém quer ver

ou verão que sua vida
é muito pior e você
é muito melhor
que eles

que se danem os miseráveis
apontam dedos podres
que logo cairão

que se danem os miseráveis
pois vivem de nossos incômodos
mas se nada nos importa
morrem secos e com fome

que se danem os miseráveis
invejosos e mesquinhos
morram secos

e sempre com fome



Walter Biancardine