Gastei o dia ontem em trabalhos pesados.
Após o último deles fomos beber num boteco. Lugar simpático, dentro de uma enorme chácara. E aos poucos foram chegando conhecidos.
Cerveja e cachaça, uma mistura que começa a me cair bem.
Aliás, a cachaça já fazia companhia desde cedo. Parece que ajuda a aguentar o tranco e não deixa o corpo reclamar dos maus-tratos.
Mas o fim de tarde, no fim do expediente, naquele boteco no fim do mundo, me pareceu um bom fim.
Ao meu lado, lavradores. E peões, biscateiros e gente do tipo faz-tudo que, anos atrás, eu torceria o nariz - soberbo - facilmente.
Nenhum diploma. Nenhuma qualificação. Nenhum certificado.
Ali, a única coisa que vale é a palavra.
E suas atitudes.
Marcou? Vá.
Prometeu? Cumpra.
Só isso.
Simples assim.
Gente rude. Delicadeza e modos de um cavalo.
E sede de camelos.
Litros foram embora.
Me dei conta que já estava tonto.
Fui no gramado fumar um cigarro e andar um pouco, pra ver se melhorava.
E me dei conta da música de fundo, tocada em um bom aparelho de som, aberto a todo pano desde que chegamos: Freddie Mercury ao lado de Montserrat Caballé, cantando a clássica "How can I go on".
E eu ali, em meio a peões, vaqueiros e lavradores, falando e ouvindo as ignorâncias engraçadas que adoro - homens pobres e que jamais alisaram bancos de escola - mas tomando uma refinada cachaça artesanal e ouvindo um dos duetos mais clássicos da música.
E afirmo que nem em bons restaurantes com música ambiente se pode desfrutar do bom gosto musical que ouvi naquele buraco, no meio da roça.
E, muito menos, daquela cachaça primorosa.
A vida só vale a pena quando oferece esses contrassensos. Um vaqueiro ouvindo Montserrat Caballé. Um escritor falido bebendo cachaça artesanal por R$2,50, quando seria vendida facilmente por 200 reais o litro em lojas chiques.
E tudo isso já com as costas moídas, depois de ter carregado pedra e transportado uma piscina na carreta.
Me lembrei então que já apertei a mão de Presidentes da República, frequentei recepções em embaixadas e, tolamente, me achava o máximo.
Terminamos a bebedeira após conversar com o dono de um pequeno armazém local, que me assombrava com a possibilidade de eu perder meu Bolsa-Família que, por ninguém me oferecer trabalho, é o que me sustenta.
E, entre "shake hands" com Presidentes e ameaças ao Bolsa-Família, peguei providencial carona que me deixaria às portas das terras onde vivo.
Vivo eu, os cavalos, bois e cachorros.
Completamente bêbado, caí na cama e dormi até hoje.
Contrassenso.
Walter Biancardine














