sexta-feira, 2 de outubro de 2026

MULHER DE JUÍZO


uma mulher ajuizada fareja roubadas
não se deixa levar por escritos
porque a emoção embaça o juízo
e não há nada como olhos nos olhos

não são interesseiras mas também
não são assistência social
homem que é homem vai na frente
e não há romance sem dinheiro

o amor vem da admiração
ela precisa admirar esse homem
mas ela não quer ir pra cama
com uma coleção de passados

uma mulher ajuizada não aposta
muito menos se o cavalo é velho
pois sequer há um futuro a crer
e seu papel não é ser asilo

amor e romance custam dinheiro
sempre cada vez mais caros
conforme o tempo avança e
a idade chega

amor e romance é coisa de jovens
é uma aposta no futuro e também
em tudo que é novidade na vida

e o mínimo que se espera
de um homem velho e decente
é que não se coloque na vitrine
se nada tem a oferecer

mulheres ajuizadas, fujam ao ver
um homem velho e miserável
sem esperanças nem teto sobre si
por mais belas que sejam
suas escritas

o amor é jovem
e custa dinheiro




Walter Biancardine



BAIXA GASTRONOMIA LITERÁRIA


não escrevo sobre filosofias
nem cito dizeres da Clarisse
quero que Dostoiévski se foda
e Kafka jamais acorde

não me meto em profundidades
nem tento parecer um gênio
só rabisco o que vejo na rua
nos bares ou nos lixos da vida

fingem não existir ou nem viram
como se Hemingway jamais tivesse
diarréias ou Virgínia Woolf 
não arrotasse após um Champagne

não é nesse mundo fino que vivo
meu carpete é de terra e sempre
sujo o chão de casa e também
as folhas que escrevo

todos os dias levo um pé na bunda
todas as noites tenho insônia
e nas manhãs nunca quero acordar
nem abrir a porta do inferno da rua

a barriga dói de fome e nada sei
de amanhã nem de nada no futuro
o psiquiatra me olha e balança
a cabeça em desalento

eu também me olho no espelho
e penso o mesmo que o psiquiatra
mas tenho ao menos pra onde correr
e que se fodam a cirrose ou ressaca

não resolvem o futuro nem passado
muito menos me dão um emprego
mas me fazem cair de cara no chão
e desmaiar dessa vida de merda

em que momento então eu vou lembrar
de Dostoiévski ou de um bêbado igual
chamado Bukowski que ao menos tinha
algum trabalho e sobrevivia?

pego o determinismo e enrolo junto
com todo meu livre arbítrio e enfio
na bunda do primeiro filósofo que
me citar que é aporia

porque Nietzsche não paga meu almoço
Shakespeare nunca me alugaria a casa
e nenhum deles ainda que reunidos
convenceria aquela maldita que a amo

porque amor custa dinheiro e precisa
de emprego pra provar que é verdade
e escrever não paga diária
nem empreitada

resta beber e esperar
o fim dessa agonia

e que se fodam todos os belos
magníficos e geniais poetas
e escritores que me esfregam
em minha cara bêbada

de que me serve toda essa grandeza
diante de minha fome
e dor de corno?




Walter Biancardine



NÃO CORTEI NA RAIZ, DERRUBO A ÁRVORE


quase tudo em minha vida dei jeito
artista do improviso ou monge conformado
até mesmo o maior mentiroso da terra
sempre me enganei muito bem

perdi minha história de vida 
e tudo que havia nela
mas fiz outra pra tentar
acumular trastes também

e se onde moro falta luz
tenho velas e papel e caneta
e até uma máquina de escrever

por aqui também falta água
e encho garrafas pra guardar
nos dias de seca

se não tenho condução ando a pé
tenho ainda minhas pernas
e vou e volto onde quero

mas se não vejo mais nada
em minha vida no futuro
nem emprego nem conforto
e se o amor de quem amo
acende e apaga como vagalume

o tempo resolve o trabalho
-- defuntos não comem
e resolve o coração
-- mortos não amam

a vontade sempre
sempre e sempre
acaba antes

que a vida





Walter Biancardine



quinta-feira, 1 de outubro de 2026

SUBSTACK


gosto do Substack e de alguns que escrevem por lá.
mas tem horas que não aguento.
aquilo não é literatura.
só tem ator e atriz.



Walter Biancardine


QUANDO A PERFORMANCE AVILTA A VERDADE


"Escrevo pra não enlouquecer"
"A escrita é minha terapia"
"Jogo no papel tudo aquilo que me sufoca"

Eu mesmo já escrevi coisas assim.
Era um inocente.
Décadas afastado da literatura, dos romances e da poesia.
Eu nada sabia.

Escrevi com sinceridade, achando que me expressava e serviria quase como um pedido de desculpas adiantado, por eu escrever coisas tortas e sujas.
E entrei numa rede social onde se concentram muitos jovens com aspirações literárias.
E vi que todos, quase todos, escreviam a mesma coisa.
Que escrevem pra sobreviver, não enlouquecer e seguir em frente.
Jovens. Todos eles.
Na faixa de 20 a 30 anos.
E o quadro que pintam de suas vidas é um armagedom.

Jamais me senti tão envergonhado.
Li o que escrevi e achei tudo uma farsa.
Então eu jamais sofri? Tudo foi apenas uma fase passageira, tão comum nesses jovens, e que apenas teve o defeito de me perseguir pela vida afora?
Toda a dor que senti era frescura?

Não vou medir a dor de ninguém nem dizer que a garotada é fresca.
Certamente tem lá seus sérios problemas, e só o dono da casa sabe onde a goteira pinga.
Mas desconfio de tudo o que aparece em excesso. Me parece um personagem, criado pra vender cliques e, quem sabe, até livros.

Todos teriam aprendido a escrever sobre sofrimento e, portanto, ninguém mais sabe quem realmente sofreu?

Minha vida nunca foi normal. Certamente outros tiveram um passado tão ruim quanto o meu mas, a grande maioria, provavelmente não. Seria tudo pose? 

E me lembro de mim mesmo, jovem, escrevendo.
Falava sobre minhas dores. Claro que com a cegueira da juventude, mas falava. Só que também, e principalmente, deixava transbordar em minhas laudas todo aquele encanto diante do mundo que só os jovens possuem.

Falava sobre namoradas, fossas, boates, viagens, brigas, carros, motos e tudo aquilo que compunha o universo comum de um jovem daqueles anos.
Eu não era um chorão.
Aliás, homem não chorava.
Era sempre só um cisco.
E eventuais palavras ofensivas eram respondidas com socos na boca.

Eu era, aparentemente, um cara normal e me orgulhava de assim parecer.

Os anos passaram, descambei pro jornalismo e perdi o contato com a literatura. E isso permaneceu assim por décadas.
Só política, brigas, ideologias, filosofias e broncas teológicas.
Gastei minha idade adulta e produtiva nisso.
E não só nada ganhei como, pior, perdi tudo.

Me dei ao luxo então de voltar à literatura.
Olhar pra dentro de mim.
Me enxergar, ver os destroços e o que fizera da vida.
E me dei conta de todos os erros de uma existência, aqueles que só percebemos com a experiência de vida.
A isso somou-se outro problema, que quase me tirou de cena e me jogou na arena dos loucos.
Mas segui em frente. 
Meus psicólogos e psiquiatras são resultado disso.

Escrevi capenga, compus lamentações, linhas terríveis.
E isso me aliviava.
Escrevi livros e busquei um lugar onde mais gente também se interessasse por isso.
E achei.

Mas ao encontrar, sofri essa vergonha de achar que minha biografia pode, hoje, parecer uma farsa.
Ou vergonha pior: ter sido, realmente e por toda uma vida, a tal farsa ambulante e agora reclamar da concorrência.

Porque hoje todos sofrem e ninguém sabe diferenciar o tênis Nike original em meio aos trezentos de segunda linha que o camelô vende.

E, pelo jeito, o apocalipse chegou.
Com um Nike made in Taiwan.




Walter Biancardine



AMANHÃ É SEXTA-FEIRA

amanhã é sexta feira.
acho que posso passar adiante algumas coisas que aprendi sobre as mulheres:

* sempre trate-as como princesas
* olhe seus olhos e sua boca com devoção e desejo
* pague as contas
* proteja-as
* faça-a gozar ao menos três vezes por noite

o resto é uma vida feliz.



Walter Biancardine


RESPEITO


se você nunca foi humilhado
ou destratado sem razão
quem sabe enganado por quem amou
até mesmo traído

se você nunca perdeu empregos
por razões idiotas
ou amores por questões assim
ou foi deixado de lado

se seu sangue jamais te largou
ou os amigos se esqueceram
e você viu que nada mais
nada mais restou

se a morte não levou os seus
de maneiras estúpidas
e deu o dedo do meio
pra suas lágrimas

se ao olhar em volta nada vê
só deserto e desespero
escuro e cansaço
e derrota

se seu corpo não dói
todos os dias e todas as noites
e você se envergonha bem fundo
de ter sido quem sempre foi

se você nunca pediu a Deus
que o matasse e acabasse
com toda a agonia que
gente normal chama de vida

e teve de carregar má fama
calúnias e mentiras cruéis
desprezado e apontado
o judas espancado nos almoços

se você nunca passou por isso
não escreva sobre sofrimento
não cante a dor nem louve
as trevas e desatino

porque tudo que dói é lindo
quando lemos escrito no papel
mas ninguém suporta 
viver assim

respeito é bom
e quem sofre gosta





Walter Biancardine



quarta-feira, 30 de setembro de 2026

PURA PODRIDÃO


Se quisermos ver as pessoas em seu estado mais puro de sordidez, sem disfarce, basta irmos aonde se concentre um público a ser atendido.

Da triagem dos hospitais, passando por filas no açougue do supermercado - que muitos consideram "menos importantes" que a fila do caixa e, por isso, furam - até chegar na maneira como tratam garçons ou vendedores das Casas Bahia, são nesses lugares que a verdadeira natureza das pessoas se revela.

Talvez sejamos programados geneticamente pra entrar em fila. 
Vemos uma, entramos. 
E, uma vez nela, buscamos meios de enganar o cara da frente e roubar o lugar dele. 
Queremos "passar um caô" no atendente e fazer com que ele nos preste favores que não faria pra mais ninguém. 
Queremos que o vendedor nos dê descontos impossíveis e que o motorista pare o ônibus fora do ponto.
E votamos no vereador que vai nos dar um emprego na repartição ou as telhas pra fechar o telhado.

Depois, reclamamos que tudo tem fila.
Que sempre tem um esperto querendo furar.
Que o atendente é um grosso que não presta pra nada e nem quis saber do absurdo que pedimos.
Que a loja e o vendedor são safados e metidos, porque não dão descontos dizendo que o preço tá no código de barras.
Xingamos o imprestável do motorista do ônibus, que não quis dar uma meia-trava só pra gente descer logo e não ter de andar aquilo tudo.
E chamamos os políticos de ladrões safados se não nos derem as telhas. E, se derem um cargo, os adoraremos até o final do mandato.

Talvez nosso ideal seja aquilo que o pior das pessoas acha ser o mais esperto a se fazer.
Babar por uma bunda na rua e, assim que essa bunda se torna sua namorada, a proibir de exibir-se.
Dizer que o serviço público é uma porcaria porque é gratuito, e nem lembrar que largou um terço de seu salário pagando isso.
Que agir da maneira correta é só pros outros.
Ele?
Sempre se dá um jeitinho.

Somos milhões, milhões de espertos enganando uns aos outros.
Diariamente.

Alguém ganha, nisso tudo.




Walter Biancardine



VIDA DE GADO


No hospital desde as 8 da manhã. Consulta às 9 - teoricamente.
Estou de volta agora, 16h.

Foi meu début na psiquiatra. E tenho certeza que ela não acreditou em uma só palavra do que disse. Não a culpo. Não há como resumir 62 anos de vida em meia hora de conversa. Pra completar, tenho o cacoete de sempre usar minha cara de aço inox. Tudo parece tranquilo, quase uma piada ou um probleminha menor.

Me receitou umas bolinhas que devem ser mais placebo que qualquer outra coisa. Tentei pegar na farmácia do hospital.
Não tinha, volte amanhã.
Voltarei depois de amanhã, pra dar um dia a mais de crédito.
E pra aliviar a passagem do ônibus.

Por 8 horas de meu dia fiquei naquele hospital, esperando ser atendido.
Olhava os funcionários. Coitados. Conseguem ainda ser humanos em meio a um sistema que nos separa, faz triagem, ordena, classifica, estoca e põe em ordem de chamada feito carne na churrascaria.
Deles, não posso reclamar. Todos foram atenciosos e gentis comigo.
De brinde, trouxe a notícia que minha pressão anda em 10X7. Pressão de garoto. De garoto cheio de 100mg de Losartana.

Mas também olhei o povo.
Como eu, esperavam. E pareciam nada mais terem a fazer no dia.
Nenhuma pressa. E muita conversa fiada. Mais da metade dela, mentiras - ainda mais na ala da psiquiatria.
Me peguei pensando: "então onde diabos foram parar os pobres de Cabo Frio?" Parece que todos viajaram pro nordeste em férias. Ou acabaram de reformar a casa. E riem.
Riem muito.
Conheço isso.

Na verdade tive uma overdose de viagens psíquicas: ontem, a psicóloga e hoje, psiquiatra.
E amanhã, os remédios.

Sim, são esses que me interessam.

Quero ter uma razão, um motivo e ânimo pra levantar da cama de manhã.
Quero não ter medo de abrir a porta da rua e ser obrigado a sorrir e contar gracinhas pros outros.
Quero ter alguma esperança de que posso ainda fazer algo de minha vida.
E ter miolos, coração e alma pra escrever ainda um livro a mais.
Sete é conta de mentiroso.
Se eu tiver de deixar essa vida, que seja ao menos com oito livros publicados. Ou nem os espíritos vão acreditar.

Amanhã ou depois pego os remédios.
A doutora disse que posso beber junto - por isso achei placebo.
Mas é o que tem pra hoje.

Se melhorar, já estou no lucro.




Walter Biancardine


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

METAMORFOSE COMPULSIVA


sorrisos e brincadeiras
são as bermudas e camisetas
e sandálias de uma alma
que desaba

não há ser humano que resista
perguntar por quê você tá com essa cara
não há também ser humano que aguente
mais de dez minutos convivendo
com uma cara de cu

por isso sorrio
escrevo gracinhas
faço piadas

tento não juntar à minha desgraça
a solidão de ser largado de lado
ninguém é obrigado a ser
muleta de nenhum
miserável

mas confesso que erro
sorrio muito mais do que
escrevo coisas felizes
aliás apenas lamento
em prosa e verso

ao leitor resta
arrotar o diagnóstico:
esquizofrênico
ou falso
seja na vida
ou nos versos

na verdade sou falso
a boca aberta e escancarada
e cheia de dentes ajuda
a engolir as lágrimas

toca Raul




Walter Biancardine




domingo, 27 de setembro de 2026

ESCRITORES, BADEJOS E AVIÕES

 
Sempre tive o dom de atrair gente estranha.
Um deles construiu um veleiro na Europa, atravessou o oceano sozinho e deu com os costados aqui no Brasil, mais exatamente em Cabo Frio/RJ.
E nos tornamos amigos.

Um dia resolvemos fazer uma expedição de pesca submarina, com o nobre objetivo de liquidar parte da fauna subaquática local e, para isso, fundeamos na costa da Ilha dos Papagaios, aqui em frente.
O objetivo era ambicioso: badejos, garoupas ou até um mero bem pamonha - se tudo desse errado.
Seu barco era um veleiro, por isso aventuras à la Hemingway, fisgando olhos-de boi no anzol ou passar uma rede de arrasto pra enchermos a barriga com anchovas, estavam fora de questão.

O caso é que descobri uma turma de badejos brancos, daqueles pesados, que me encantou. Eles se reuniam lá embaixo, bem uns vinte e poucos metros de profundidade, e eram incrivelmente bobos.
Não é preciso dizer que gastei todo o dia - da manhã à noite - arpoando os brutos. Descia, arpoava e subia. Repetidas vezes.

O caso é que vinte metros de profundidade já são três atmosferas e é preciso saber o que se faz. Devo ter cometido alguma besteira e acabei por estourar os seios da face, enchendo minha máscara de sangue e me presenteando com uma glamurosa dor de cabeça, que só passou graças ao uísque com aspirina.

Essa recordação me voltou à cabeça recentemente, ao ler várias pessoas no Substack reivindicando o direito de serem profundas ao escrever artigos obesos de metáforas, analogias e termos filosóficos. Sim, abyssus abyssum invocat - um abismo chama o outro (ou, segundo os filósofos substaquianos, "ao olhar pro abismo ele nos olha de volta") - e me pus a pensar.

O abismo em questão eu chamo de "texto profundo".
Nada contra, muito pelo contrário. Eu mesmo gastei décadas de minha vida escrevendo análises políticas, ensaios filosóficos ou teológicos, onde cada palavra deve ser usada em sua justa medida e calibre - ou dá merda. E isso deixava meus trabalhos vestidos como um mordomo, enfarpelado em seu uniforme de gala, pomposo e erudito, mas pouco palatável.
É claro que o objetivo dos artigos me obrigava a escrever daquele modo. Não era "literatura", era pancadaria política e ideológica o tempo inteiro.

Mas hoje estou alforriado.
Persona non grata na mídia, posso agora me dedicar ao que sempre fiz desde moleque escrevinhador de redações, e deixar minha cabeça correr livre pelas palavras sem freios das poesias ou nos períodos desnorteados de minhas crônicas.

Os mares me ensinaram que a profundidade em excesso pode ser prejudicial, e só deve ser usada com uma justa causa.

E, lembrando agora o título deste, os aviões me ensinaram outra coisa: simplicidade não significa ser raso. Talvez o certo seja simplificar. "KIS" - Keep It Simple - era o nome de um aviãozinho que voei, e que me maravilhou por sua simplicidade de operações e eficiência. Nada a dever aos bons e velhos Paulistinhas.
Aliás, ouso dizer que os superava. Era sentar e voar. Apenas.

Penso que o ideal é isso: fugir de pretensiosas erudições profundas e manter tudo simples, inteligível. 

Acho que milhares de leitores agradecerão.

Afinal, um barotrauma dói pra cacete.




Walter Biancardine



sábado, 26 de setembro de 2026

INSACIÁVEL


Nunca vou me entender com a velha senhora.
A desgraçada não pára, bisbilhota sem descanso a vida de todos e leva sempre consigo aqueles que farão falta. 
É uma filha da puta, e esse ano tem trabalhado fazendo hora extra.

Duas baixas em menos de um mês. 
Uma, desarvorou quem amo. Outra, quebrou a mim mesmo. 
Era um amigo há mais de 40 anos.
E pior: ambos a chamaram. 
Saíram por conta própria.
É dose.

Esse meu amigo tinha uma frase que virou bordão:
" - Tô cansado de ser enganado!"
Dizia isso e ria.
Até o dia em que não riu mais.
Chamou a velhota do alto de uma árvore, e ela o buscou.
Pediu pra sair.

Os anos me ensinaram a ter uma cara de aço inox.
Mas de nada me adianta se o interior é de folha de flandres e tá todo corroído pela maresia da vida.
E pelo álcool.
E pelo cigarro.

Sempre aparece alguém pra dizer que eu devia largar isso.
Pois digo - prometo - que largarei.
Assim que a vida parar de me sacanear.
E sacanear os outros, fazendo com que decidam por essas merdas.

Fico ainda aqui. 
Esperando o dia em que essa velha senhora safada vier me buscar.
Vou esperar com um soco inglês na mão.
E um porrete na outra.

Ela vai me levar.
Mas vai ficar toda dolorida.





Walter Biancardine




quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O ESCRITOR E O BLUESMAN


As profissões juntas, no mesmo balaio.
Não é o cronista mundano e boa praça, o romancista que sai nos jornais ou os viciosos onanistas dos "dark romances".

Eu falo do insone que chama seus demônios pra resolver as diferenças na porrada, em cada capítulo de seus exorcismos impressos.
Esse é o escritor. E assim é, também, o bluesman.

Os dois com machucados pelo corpo. Dores nas costas, alergias, sangramentos, cascas de feridas. Mãos calejadas e músculos exaustos.
Há fome em comum, angústia, dor na alma, vícios terríveis e medo.

Ônibus lotado, o dinheiro acabou e ainda é dia 15.
A mulher parece não enxergar o que passo, a vida que levo.
Um resmungo indagando se isso é patrão ou feitor.
Onde entrego o currículo?
As vagas já fecharam?

Mosquitos, poeira, sujeira.
Suor, tensão e vontade de chegar em casa. 
Que casa?

Pobreza, miséria e a lucidez cruel, que não aponta um bom final - apenas recomenda se embebedar. 
De novo.
Mas a bebedeira só te deixa mais realista, lúcido. 

E escrevo uma história ou testamento?
Esse bebum toca música ou está ganindo de dor?
Linhas ou gemidos?
Acordes ou agonias?

Em cada linha, cada acorde, há um lamento a suplicar por redenção.  
Sempre.
E que a ressaca e o eterno pé na bunda inspirem. 
São o ser humano em estado cru. 

A fome desespera. 
Traz riffs, 
versos, 
linhas, 
parágrafos inteiros de bicho brigando pra sobreviver.
 
Boca seca. 
Gosto ruim. 
Dor no estômago. 

Que a solidão e o frio da noite uivem nas cordas da guitarra e nas linhas de minhas histórias de desejo, amor, de sexo feroz com quem sequer o enxerga.
O tesão sem recíproca é o acorde dissonante. 
Tão ardido quanto a frase terminada em reticências. 
É o coito interrompido do fracasso, o colo que recusou o choro.

Mas escrevo.
Sinceridade constrangedora, oração laica imprecando um Deus pagão que alivie a carga.

O bluesman tem uma melodia sussurrando coisas que nenhum parágrafo consegue dizer. 
E ambos se unem em desgraça. 
Choram por misérias verdadeiras que todos sentem, mas ninguém admite.

Ambos banidos. Ambos fora do páreo. 
Muito bons de se ler ou ouvir na vitrola, mas péssimos de se ter por perto.

Só que não existem mais bares ou filosofia de botequim.

Mas os escritores, os bluesman,  esses sempre estarão lá. 
Pois que as angústias, dores e paixões humanas sempre existirão,  sempre doerão.

Enquanto houver um único e maldito ser humano sobre a terra.

E um bar.




Walter Biancardine




CHUVA


a mesa onde escrevo é ao lado da porta
porta da rua que não dá pra rua nenhuma
dá pros campos e um lago
e pra chuva que cai
sem parar

chove desde o outono e depois inverno
agora chega a primavera e a chuva fica
pouco importam as estações
a chuva quer chover
e ponto

e olhando os campos e o lago penso nisso
queria saber se é um recado ou um conselho
se o tempo se lixa pra mim
ou solidário reflete
meu armário

escondido
no fundo do quarto

pra todos verem 





Walter Biancardine



segunda-feira, 21 de setembro de 2026

MAIS UM SEM TÍTULO

quando me dei conta que eu era
o exército de um só homem
me desesperei e bebi e reclamei

até que me dei conta
que lutava contra um só inimigo:
eu mesmo

e perdi



Walter Biancardine


BILHETE SÓ DE IDA


sentado no banco de cimento
uma poça molhando as calças
bilhete na mão esperando o ônibus
direto pro esquecimento

vejo as placas dos outros
que ali encostam pros passageiros
já fui em todos porque quis e
alguns porque me mandaram

tinham destinos como o inferno
outros iam direto à merda
e conheci cada um deles
querendo ou não

uma boa estação rodoviária
vende conhaque 
a estrada
é fria e longa e escura
um trago aquece 
e dá coragem

tenho minha mochila e casaco
meu bilhete só de ida
ônibus dos desistentes
dos que cansaram

agradeço não ter vontade
de voltar 
o dinheiro
só deu pra pagar a ida

às vezes a carteira
é destino 




Walter Biancardine



sábado, 19 de setembro de 2026

ESTOU EM MINHAS MÃOS


Sempre fui assim, desde criança.
Me chamavam de mimado, depois egoísta e, finalmente, intratável. Variou conforme a idade avançava.

Nunca mudei e sempre desobedeci a tudo aquilo que eu sentia me amarrar, fosse numa escola primária ou trabalhando no Corpo Diplomático, pilotando um avião ou escrevendo em jornais.
De uma maneira quase inconsciente eu dizia: não me prendam. 
Não me domestiquem. 
Não me amoldem a padrões que não são meus.

Isso sempre traz problemas, a menos que você fique famoso.
Aí você vira vanguardista.
Revolucionário.
Uma cabeça à frente de seu tempo.
Uma alma livre.

Mas se você é um merda obscuro como eu, o tratamento é conhecido: vagabundo.
Não quer nada com coisa nenhuma.
Acha que sabe mais que os outros.

E concluem, vitoriosos: é por isso que é pobre.

Ser como sou não é receita de sucesso.
É um sintoma de quem, desde muito cedo, provou e gostou da liberdade.
Sim, liberdade.
Ela é inegociável.
Não abro mão dela por nada.
É a única e maldita coisa que jamais puderam me arrancar, mesmo na indigência em que vivo.

Por isso, não seguir regras nem chega a ser escolha.
Apenas um instinto básico, que aprendi cedo.

Perdi coisas, perdi oportunidades, perdi amigos por conta disso, eu sei.

Mas não perdi a mim mesmo.
Ainda estou em minhas mãos.

Enquanto isso me apetecer.




Walter Biancardine




SEM NOME

sou um cara repulsivo
as vozes da minha cabeça
foram embora
morar em outra

contaram tudo de mim
pra ele

hoje o cara passa
troca de calçada

e ri




Walter Biancardine




GEMIDO

O gemido 
O resmungo
Até o grito
É a música pra cantar

Não precisa de letra
Seu urro não fala 
Mas diz tudo
Pra qualquer um 

O corpo faz melodia
Agudos no peso das costas
Graves na dor dos braços 
"Sim senhor" é o refrão 

Marretas e picaretas
Marcam o ritmo
Enquanto seu suor
Pinga no chão 

Aquelas gotas caídas 
São sua vida alagando o chão 
Fazendo lama e você
Pisa nela sem ver 

Vendeu sua alma

Trocou por uma diária 
Com sorte, um contracheque 
Pra olhar no seu quintal 
A catedral de latinhas
De cerveja

Mas, calma

É tudo que te restou
Vai e cumpre seus dias
A vida é sentença 
Nada deve a ninguém 
.
E amanhã geme de novo
Canta outra vez
Tem gente que acha lindo
Mas caga e anda
.
Pra você 



Walter Biancardine 



MEUS ASSUNTOS NÃO MUDAM


vejo gente que deixa claro
não querer saber de ninguém
se reclamam enche o saco
se hesitam imbecilizam
se amam fica meloso

reclamam de tudo que escrevem
das vezes que escrevem
se o assunto é o mesmo
ou são bipolares nos tópicos
e reclamam

e usam isso pra postar reclamações
ou fazer poesias e textões
sem nenhum pudor

cada dia que passa estou mais certo
não querem poesias ou contos
ou crônicas porque, no fim,
tudo é opinião ou sentimento
os mesmos assuntos

não sei que novidade querem
mas não vou me dar ao trabalho
de descobrir

muito mais fácil pra mim calar a boca
escrever pra mim mesmo e não postar
quem sabe assim terei finalmente
coisa inédita pra fazer livros
e vender em outro país

aqui a leitura
é só performance
e as dores e alegrias
são iguais pra todos

sempre iguais

por isso ainda existem
livros




Walter Biancardine