quarta-feira, 15 de julho de 2026

FARINHA POUCA


quase todo psicólogo
não quer curar ninguém
mas a si mesmo

assim são os poetas
não querem ser 
compreendidos

só entender
achar algum sentido
em si mesmos

no fundo
todo mundo
quer colo




Walter Biancardine



À TOA

 
o mais ridículo da poesia
é se derramar todo
ficar nu e confessar 
o inconfessável
falar de dores e frustrações
e tudo de ruim
que nos rói por dentro

e depois de tudo isso
de toda essa nudez indecente
quase um exibicionismo
aparecer um qualquer
pra fazer pouco e rir
debochar e te julgar

dizer que sua dor é vulgar
o que você sente é pobre
é comum e nenhum valor tem
e que no fundo o que você faz
é chorar de barriga cheia

vá arrumar um emprego
rapaz

já comi uns pastéis
iguais a essa gente
sem recheio
gosto de nada

só casca




Walter Biancardine



NEGÓCIO DA CHINA

 
ser eu
é um negócio muito chato
nada pra fazer
dinheiro pra nada

fome na hora errada
sempre tarde da noite
fora a vontade
de comer uma coisa
que é sempre o que
não tem

é muito chato ser eu
quando quero beber
umas cervejas 
com os amigos
e os amigos
sumiram ou foram embora
ou morreram
ou me evitam
porque sou esquisito

esse eu
veio sem manual
e eu não sabia
dessa mania 
de querer
o que não posso ter
e até 
quem
não posso ter

mas o pior de ser eu
é que o prazo venceu
e não posso trocar
por um modelo melhor

vou passar adiante
vende-se
um eu
único dono




Walter Biancardine







BEST SELLER


a fome escolhe
as palavras certas
corações rasgados
as espalham no papel

desesperança poupa
linhas e vírgulas
e a insônia mistura
na loucura chique

a miséria
a dor
e o desalento

são autores 
bons só de longe



Walter Biancardine



NINHADA

 
A cachorra teve filhotes.
Me pego gastando tempo olhando os bichinhos.
Já tive muitos cachorros. Vi muitos filhotes. Sei o que fazem e como reagem. E sei quase tudo que vai acontecer.

Os vi de olhos fechados, sem nada perceber além da fome.
Vi seus primeiros passos, achando o próprio chão uma novidade.
Nas primeiras brincadeiras percebemos os temperamentos.
E as moças e rapazes em volta se encantam com eles.
E os levam.
Um a um.

Sei quase tudo que vai acontecer.
Tudo se repete, geração após geração.

Me pergunto se Deus também nos olha assim.

Seremos crias, destinos traçados?

Que minha dona cuide bem de mim.




Walter Biancardine




SONO LEVE


só percebemos a loucura
quando nos curamos dela
tal como
os olhos se acostumam
com o escuro e só
agradecem a luz
quando ela vem

não dormir é tortura
privação do sono
da razão
endoidamos aos poucos
sem nos darmos conta
até dormirmos
nos curando

depois seria correto
pedir perdão por tudo
mas se não dormi
foi a miséria
aplaudida
festejada
que causou

legítima defesa
não precisa
perdão




Walter Biancardine



MENOS UM DIA


tarde assim
eu viro o dia
como página de livro

a diferença
é nada ter lido
que valesse a pena

livro velho
folhas amarelas
páginas amassadas

ainda bem
algumas foram
jogadas fora no lixo

a capa puída
no entanto mostra
que foi lido e relido

mas nada aprendido




Walter Biancardine





terça-feira, 14 de julho de 2026

VERSO INFALÍVEL


basta uma noite
uma só noite
uma noite apenas
sem ela

e perco o norte
não leio estrelas
nem sinto o vento
me levar

fico aqui só
tentando escrever
poemas fatais
versos infalíveis

só sai merda

melhor nem dizer
ou escrever

fiz um verso
certamente não falha
bastaria ela ouvir
e correria de mim

tenho que calar
aprender a aguentar

contar as horas
os minutos

e os segundos




Walter Biancardine



NA TRAVE


hoje
pela primeira vez
alguém me perguntou

se eu era o autor do livro
Quem Vai Pagar a Quitinete?

quase me senti
um escritor

fiquei feliz
por ele lembrar
e triste 
por não ter comprado

só vendi um 
e que eu saiba
não foi ele
quem comprou



Walter Biancardine




TRANSGRESSÃO EM FÉRIAS

 
Dei uma folga pra mim.
Resolvi ser mais infantil no que escrevo.
Mais bobo, ou o que chamam de “espontâneo”.

Penso que um homem é como um planeta: se a atmosfera é irrespirável, não há vida possível. E sem vida, não há criação.
Por isso me dei essa folga.

Na verdade sou um planeta poluído. Tóxico.
Mas ainda habitável, pra quem aguentar.
Só que nem eu mesmo estava mais me aguentando.
E danei a escrever sobre manhãs e entardeceres, dias nublados e outras coisas dessa rotina miserável que chamam de vida.

Gasto meus dias escrevendo sobre fracasso. Miséria. Lixo. Sarjeta.
A ideia é mostrar que é possível resistir ao sistema.
O preço é alto, mas é possível.
Mas um dia – e isso sempre acontece – o saco enche e eu pergunto:
- Então por que não meto uma bala na testa?

É a grande pergunta que se pode fazer a um cético. Ou niilista.
A macheza acaba em segundos.
E comigo não é diferente.

Melhor eu escrever sobre as manhãs nubladas.

Ninguém interpreta o papel de “maldito” até o fim.

Ninguém quer morrer.





Walter Biancardine








CINZA

 
a tristeza com que
me despedi da manhã
agora dá lugar a
ânsia do entardecer

ultimamente vejo que
o sol não me agrada
o corpo tão fraco
tem cedido à alma

manhãs e tardes
e dias nublados
claridades difusas

tudo isso certamente
quer dizer alguma coisa
minha idade entardece
e o espírito nubla 

talvez sim ou não
mas foi o que me veio

ao que resta da cabeça





Walter Biancardine




SOBRE MOFO, TRAÇAS E NAFTALINA


busco em minha editora
algo sobre as vendas
dos meus livros

mais parecem 
as antigas pirâmides
imóveis
há cinco mil anos

na verdade os acho
umas porcarias
e a vergonha manda
que os recolha

mas se for assim
também acho uma merda
tudo o que escrevi
há mais de uma hora

pouco vai sobrar

e se a vida 
do que escrevo
é tão curta

pra quê escrever?

que fiquem lá
e um dia os descubram
fósseis

terão algum valor




Walter Biancardine




ZELO DAS HORAS


demoro a acordar
são dez da manhã
começo a escrever
e logo é tarde

não dura nada
minha manhã
nublada
encantada

que tanto inspira

culpo a madrugada
que me enrola
numa conversa
sem fim

é ciumenta
disputa com a manhã
o prazer de
me espremer

pra ver o que sai




Walter Biancardine




ANTES DO SOL


preciso escrever
logo e antes que
o sol saia
ele ameaça

o cinza deprime
e inspira porque
traz lembranças
elas doem

a chuva caindo
nos encharca de passado
os dias nublados
poupam olhos que lembram

e o vento frio
enche os pulmões
de vozes finalmente
livres pra irem

embora




Walter Biancardine




RUIM MAS É BOM

 
odeio o desalento
que os dias nublados
trazem pra mim

mas a melancolia
em poemas compulsivos
fazem gosto

tão bom escrever que
o gostar ou não 
do cinza lá fora
já pouco me importa

e mesmo o desalento
melancolia ou tristeza
bem gosto se me ajudam

não me importo comigo
mas com o que crio
e escrevo

eu gosto de dias
nublados




Walter Biancardine





SEM SOL


ouvi uma música
“cariocas não gostam
de dias nublados”
mas eu gosto

descobri doendo
que não sinto falta
de minha cidade

o que me falta
não é aonde mas
o quando 
vivi por lá

o tempo faz a água
alisar e moldar
uma pedra

o que não faria 
comigo que sou
bem mais mole

dias nublados
e o frio
me agradam

é um bom final
pra esse filme
já longo
demais




Walter Biancardine



SEM SINAL


a parte boa de minha vida
é o sábado que passou
muito legal e divertido
mas já foi e não volta

a parte ruim é depois
de amanhã com o exame
de sangue dolorido
eu sei que vai doer

meu hoje é aquela hora
que acordamos e sentamos
na beira da cama
de olhos arregalados

fazendo download
da alma
fora da área
de cobertura




Walter Biancardine



LEI DO SILÊNCIO


devia ser proibido
precisa uma lei 
contra fazer barulho
de manhã cedo

nada pior que acordar
e ter alguém gritando
discutindo ou rindo
e jogando coisas

isso não é natural
o sono é um abrigo
quieto e seguro e
silencioso e quente

e de repente alguém
aparece e grita
ou joga uma lata
de lixo no chão

pior as exclamações
o falatório contigo
como se todo o mundo
acordasse com eles

é uma gente sem mãe
não sabem ir aos poucos
é do cobertor ao freezer
de uma só vez




Walter Biancardine
 







SOLIDÃO


filme no quarto
à noite inteira
não é distração
é solidão

o mesmo de sempre
no Facebook
ninguém pra falar
é solidão

disfarça e ri
são só manias
não são
é solidão

mente brilhante
subiu alto demais
olhou em volta
é solidão

juventude foi embora
interesseiros ao lado
a graça acabou
é solidão

nada interessa
nada tem pressa
não faz mais sentido
é solidão

seguir o destino
cumprir a missão
é o que resta
é solidão




Walter Biancardine



É ISSO OU ISSO MESMO


ser um bom funcionário
é como ser feio 
e ter olho azul
de nada adianta

ser um bom patrão
é como se apaixonar
pela piranha do bairro
cedo ou tarde leva uma

mas é melhor ser patrão
ou bom funcionário
que viver na merda

rebeldia é como espinhas
passa com a idade

e se não passar
te apontam na rua




Walter Biancardine





segunda-feira, 13 de julho de 2026

CHÁ DE BEBÊ


vivo tanto no meu mundo
quase sem janelas
pra vida normal
dos outros

que me surpreende ao ler
o que outros escrevem
e lembro que são
todos adultos

algo não tá certo
mulheres confundem
feminino com
ser menina

e homens tentam ser
profundos e se
vestem como
malditos

redações da quinta série
pornografia à parte
devem ser mais
adultas

Shakespeare e Camões
Bukowski e Pessoa
na mesma turma
da creche

sem a Tia



Walter Biancardine





PASSA LOGO


tem hora que nada mais sai
a intenção é até boa
mas não adianta

você espreme a cabeça
tenta criar
escrever
e nada

mas quando acontece
o tempo passa
e não notamos

escrever e criar e fazer
compor e arrumar e rimar
qualquer coisa

qualquer coisa
desde que o tempo 
passe e eu
não veja

o hoje já cansou
quero o amanhã
me iludindo
que será
melhor

e todo dia
é assim



Walter Biancardine




PROIBIDA A ENTRADA

 


CICATRIZ


um dia tudo acaba
você sai de casa
desempregado
sem ter pra onde ir

mochila nas costas
anda e anda e anda
a cidade é pequena
não vale a vergonha

vai pra estrada
e anda e anda e anda
sem rumo e sem fé
a sandália se desfaz

segue descalço
pés imundos
furado por pedras
o respeito vai embora

continua andando
as roupas rasgam
sujas e manchadas
hora de dormir

procura um mato
acostamento salva
bichos pinicam
a fome começa

dia amanhece
barba cresce
roupa em farrapos
descalço e sujo

te oferecem um café
salvou a manhã
e a fome
a dignidade vai embora

e continua andando
acha uma bituca
fuma sem medo
higiene também foi
embora

ganha um resto
de uma quentinha
come com gosto
amor próprio se foi

senta no mato
pensa na vida
como desceu
tanto assim

não tem amigos
não tem parentes
não tem ninguém
que lembre
ou se importe

não tem resposta
um conhecido passa
você tenta fugir
ele te chama

te aconselha
a dar um jeito
nessa vida
procurar um trabalho

como não pensei
nisso antes?
com minha boa aparência
vai ser fácil

o sujeito
não merece
que eu estrague
meu “réu primário”

sigo em frente
me oferecem um teto
e vou

ainda querem
que eu seja normal
que seja otimista
agradeça a Deus

não posso culpar
são gente normal
nunca souberam
o que é essa vida

eles não sabem
algumas cicatrizes
nunca e nunca
nunca mais

saem da pele
e da alma



Walter Biancardine



AMANHÃ FICO RICO

 
mais um dia chega ao fim
e percebi que novamente
não fiquei rico

então escurece e tudo fecha
dá tristeza saber
só amanhã ficarei rico

a noite é uma agonia
ansioso que chegue
minha riqueza

ou que a farmácia entregue
o Gardenal




Walter Biancardine




BUROCRACIA

 
preencha o formulário
nome do pai e da mãe
identidade e CPF
entregue na sala 4

na sala 4 pedem
um carimbo da
sala 3 e você vai
mas o rapaz
deu uma saidinha

você espera 20 minutos
o rapaz volta e vê 
fica 10 minutos olhando
decidindo se seu papel
merece seu maravilhoso
carimbo

você volta na sala 4
mas falta comprovante
de renda e residência
volte amanhã

mas você é prevenido
já tinha tudo na pasta
a mulher não esconde
a raiva que ficou

ela junta tudo
leva pro chefe
leva meia hora
conversando

e volta vitoriosa
porque falta
o atestado 
de bons antecedentes

dia seguinte você leva
mas tem que preencher
tudo de novo
é norma

preencha o formulário
nome do pai e do filho
e até do Espírito Santo
quem sabe agora vai?

Amém



Walter Biancardine