sábado, 27 de junho de 2026

ESQUECENDO O ÓBVIO

 


Não sou diferente de ninguém.
Quando leio os grandes escritores – Orwell, Hemingway, Virginia Woolf ou mesmo Camus – penso igual a todo mundo e tenho a certeza que tudo o que escreveram na vida foi obra de gênio – até a lista de compras do supermercado seria um best seller.

Mas não é a verdade. O mesmo homem capaz de escrever “Por Quem os Sinos Dobram” talvez tenha escrito muitas merdas – e vou além: merdas horríveis, inacreditáveis, agravadas pelo seu alcoolismo e depressão. 
Mas, diferente de mim, acertou o suficiente pra ser eterno.
E esta é toda a diferença entre o gênio e o medíocre.

Tempos atrás lia um Bukowski. Excessos, excessos, excessos.
Mas às vezes ele esquecia disso. E o gênio se fazia presente.
Toda a aflição do leitor escapava pela fresta entre duas frases do autor.
Isso é talento.

Não quero dizer que todo gênio tem um lado podre.
Meu objetivo é – isso sim – fazer quem me lê aceitar as porcarias que escrevo, na esperança que um dia eu mostre algo genial e ele possa dizer, com ar superior: “farejei o gênio antes de todos”.
 
Como se diz na rua Barreiros, lá em Olaria, o nome é “conto do vigário”.

Afinal, preciso vender meus livros.




Walter Biancardine



RUAS SEM NOME

 


a vida não tem mapa
ninguém sabe o caminho
quem acertou foi por acaso
não adianta perguntar

passei muito tempo
decorando
ruas, vielas e avenidas

por um tempo até
foi bom e não me perdia
tanto

hoje uso óculos pra ler
não enxergo os mapas
estou meio surdo
não escuto as dicas

a vida não tem mapa
ninguém sabe o caminho
ninguém chegou




Walter Biancardine




OLIVETTI, MARLBORO E JACK DANIEL’S

 


Quase uma garrafa inteira de Jack Daniel’s me fez acreditar.
Queria escrever um romance, obra épica, lendária. 
Quem sabe seiscentas páginas que seriam um divisor de águas na literatura mundial, um Guernica das letras, deixando Hemingway humilhado em seus chinelos?

A ideia estava toda em minha cabeça. Personagens, trama principal, núcleos auxiliares, falso epílogo, tudo. A velha Olivetti portátil era de uma ex-mulher, mas eu a usava descaradamente – quase um dote de casamento ao contrário – e estava já municiada: resma de papel, fitas corretoras, bloco com caneta, uma garrafa térmica cheia de café recém coado e três maços de Marlboro.
E coroando isso tudo, abri mais um litro do velho Jack.

Me sentia anabolizado. Brigas acumuladas. Frustrações também, e a certeza de ter me casado apenas pra provar a mim mesmo que eu podia. 

E eu escrevia. E bebia.
Escrevia mais e bebia mais.
Acendia um cigarro, coçava os olhos – um café pra segurar a onda – e voltava à Olivetti.

Não sei por que diabos, mas, no meio do caminho, me veio uma ideia sobre um poema. Nem tirei a folha: como fosse continuação das minhas misérias, espalhei versos sobre a história como um asfalto quente em cima do chão de terra batida.
E não achei nada de errado nisso.

Outro copo do amigo JD. Olhos embaçados. E agora não eram mais poemas: uma letra de música cairia bem nesse clima. E emendei, salpicando um arremedo de blues perneta.
Usar a fitinha corretora estava fora de questão – não conseguia mais enxergar as letras.

Tentei voltar à minha história fantástica, mas a achei uma merda.
Arranquei a folha, joguei no lixo.
E pra lata foram também meus poemas e o blues perneta – vala comum da bebedeira e frustração.
Nem reparei.

A última coisa que lembro foi colocar outra folha de papel na máquina de escrever.
E acordar no dia seguinte com uma bomba de Hiroshima explodindo dentro de minha cabeça.
A de Nagasaki veio comigo na cozinha, tomando uma aspirina e ouvindo a bronca de minha então mulher.

Fui um radioativo literário por quase dez anos.
Apagão completo.
Nojo total.
Descrença – ou juízo.
Só voltei a escrever já morando em Cabo Frio, ao trabalhar como repórter de uma rádio local.

Apenas dois amigos permaneceram comigo: o maço de Marlboro e o Jack Daniel’s.
Na alegria ou na tristeza.
Na saúde ou na doença.

E se alguém teve algo contra esta união, preferiu se calar para sempre.




Walter Biancardine





sexta-feira, 26 de junho de 2026

SEM SOCOS, SÓ VERSOS

 


Já escrevi abatido
depressivo
triste

também escrevi
bêbado
chutado
rejeitado
mal amado

escrevi solitário
desalentado
sem esperanças
vazio

mas nunca escrevi
com raiva
furioso

não dá certo
hoje vejo

as teclas não são
os dentes do safado





Walter Biancardine






MINDSET

 


Se você quer ter sucesso
aprenda nas redes sociais

todo dia aparece alguém
que ganhou um pão
e fez dele um milhão

sempre o mesmo enredo
igual novela

mostram o impossível
aí um detalhe
uma insistência
e o milagre acontece

sempre igual

pelo que vi
milionário sempre vem
do pior cenário

então quero crer
julgando por mim
que o dinheiro vai chover

mal posso esperar
pra comprar o meu Jaguar



Walter Biancardine



A OITAVA FACE

 


nunca me veio um anjo
dizer nos meus ouvidos
"vá ser gauche na vida"

com um deles deu certo

não sou tímido
nem canhoto
nem desastrado

falhei diferente

só sei meu lugar
me olham estranho
e minha vida deu nisso

preferia ter sido gauche
do que traste



Walter Biancardine



CONFISSÃO DE CULPA

 


sempre reclamo e esculhambo
gente falsa e fingidora
usa ChatGPT pra escrever
e se acha gênio

eu uso essa plataforma
pra corrigir português
até hoje não sei
onde a crase vai

por pura preguiça
colei um poema
só queria corrigir
os erros

veio a surpresa

um monte de elogios
texto formoso
sou bonito e gostoso

quase virei
Fernando Pessoa

plataforma safada

não bastasse fabricar
talento e glória

ainda alisa e lambe
a autoestima
dessa gente

quase justifica
tamanha pilantragem

se as editoras usassem
eu já teria sido aceito

eu acho




Walter Biancardine




SÍMBOLOS DAS HORAS

 


São 10h18.
Criança ainda, era a hora em que acordava e ia ver desenhos na TV.
Adolescente, hora do recreio e de tentar, pela enésima vez, um olhar da mocinha.

Cresci e fui trabalhar.
Se tornou o horário do café. Às vezes com pão na chapa.
Pausa pequena e providencial no serviço. A voz sádica da consciência a perguntar:
- Sentiu a pressão? Pois toma fôlego que ainda tem muito mais!

Me tornei jornalista. Passei por rádios, TVs e jornais.
E era a hora em que eu chegava no serviço. E ai de quem reclamasse, após ter ficado madrugada adentro fechando a edição ou terminando matérias.

Depois vieram as portas fechadas.
Em casa, se tornou a hora de acordar e escrever diatribes.
Contra a política, as pessoas, o mundo.
Desliguei as redes. 
As pessoas continuaram gritando.

E a velhice chegou.
Talvez seja a hora de novamente acordar e ver desenhos na TV.

Mas não tenho TV.




Walter Biancardine





QUERO OLHAR EM VOLTA

 


Chegamos ao terceiro dia de chuva.
Direto e consecutivo. Não pára.
Os cavalos se conformam, pingam e pastam. Quietos.
E o cachorro que apareceu, acabou ficando. 
Batizei de Nhonho. 
Um nome bobo, feito ele e sua cara.

Tudo se encharca, à volta. Um quadro de verde pesado, empapado, com jeito de tudo atrasar.
Mas atrasar o quê?
De meu, nada existe a atrasar. Não tenho patrão, horários ou prazos de entrega.
Só meu espírito que atrasa.

Fico em casa olhando o teto. Ou o pasto. 
Não vejo gente. Nada acontece.
Então não escrevo sobre o sol. Escrevo sobre minha própria pele, ardendo dele.

Prefiro escrever sobre o que vivo, sobre as coisas estranhas alheias, apontar os defeitos e manias dos outros e as hipocrisias nos lares, bares e jantares. 
Mas, trancado em casa pela chuva, só me resta olhar para mim mesmo e resmungar – tal qual esses “góticos do Facebook”, os “dark people”, existencialistas de carpete e ar condicionado.
Sangram suco de tomate, feito filmes de terceira, e confundem queixumes com literatura.

Existe um mundo de merda e misérias lá fora. Coisas muito mais merecedoras de páginas que meus abismos. Há que se contá-las, apontá-las e até – quem sabe das dores dos outros? – louvá-las.

Mas as chuvas me entrincheiraram. 
Estou sozinho.

E Hemingway me vem à cabeça, quando perguntou:
- Quem está contigo na trincheira?
- E isso importa?
- Mais que a própria guerra.




Walter Biancardine





TAPETE MÁGICO

 


Fui na farmácia comprar o remédio da enxaqueca.
Bomba poderosa. Me sinto o Ali Babá voando no tapete mágico.
Tranquiliza. Relaxa os músculos. 
Faz até lembrar que os temos.

Drena a cabeça. 
Toda a podridão vai embora com esse limpa-fossa químico.
A compulsão de escrever diminui. 
A urgência, a aflição, a ânsia – tudo parece frear, reduzir e passar devagarinho, silenciosamente, se escondendo de você.

E quando o impulso vai embora, algo de mim também se vai.
Existem pessoas cujas maiores qualidades são seus defeitos.
Talvez eu seja uma dessas.

Cheguei em casa leve, sem dor, e tentei escrever.
Achei uma merda, mas publiquei mesmo assim. 
Não tinha qualidades, apenas um testemunho sobre um bocó que não sabia dirigir um ônibus na lama.
Um texto aguado.
Sem mim, nele.

Piorou ao escrever sobre um cachorro que apareceu aqui.
Uma criança escreveria melhor. 
Bem melhor, aliás.

Abri a porta, olhei a chuva na escuridão.
Era uma boa hora pra tomar um Jack Daniel’s.
Mas não o tenho mais.

Também não há companhia. 
Nem outro copo.

Ao menos voei no tapete mágico das mil e uma noites.
E não escrevi sobre isso.

A enxaqueca passou.




Walter Biancardine




CRIAR

 


quinta-feira, 25 de junho de 2026

GANHOU POR UM FOCINHO

 


Meteu a fuça
onde não foi chamado.

Não chamei.
Não pedi.
Entrou.
Permaneceu.

Não sei
quanto vai durar.

A vida anda difícil.
Não quero promessas,
nem aconchegos
para depois
deixar para trás.

Mesmo assim
me escolhem.

Não sei por quê.

Farejam solidão.
Me encontram.
Arrombam a porta.
Viram donos.

Agora divide o teto.
Acompanha meu caminho.

Eu não precisava
de mais um focinho.

Mas esse bendito
decidiu sozinho.



Walter Biancardine




NÃO ME TOQUE


inventaram o feminismo
homem não presta
nem cheguem perto

e surgiu o homem sigma
não precisa de mulher
não precisa de amigos
não precisa de nada
nem de ninguém

tem quem só aceite
um galã nórdico
que ganhe trinta mil
no mínimo

tem quem se orgulhe
de não depender de mulher
nem de amigos

abro a internet e leio
só tem frases pra ensinar
que o certo é o foda-se

e se votei no Zé da Silva
suma de minha casa e minha vida
mas se votei no Zé Mané
suma também

então não preciso de ninguém
pra conversar
ou trabalhar
ou conviver
ou até acasalar

nem saio de casa
o chique é home office
a comida é delivery
o cinema é Netflix

só não sei pra quê
me vestir e produzir

não quero falar nem ver

só postar no Instagram

a minha solidão emocionante
a minha sala vazia

bares sem ninguém
escritório com IA

sobrou só todo mundo

todos na solitária
trancados em casa
odiando um ao outro
se achando o máximo

e tudo isso começou
com um celular
e umas redes sociais

a vida inventada
deve ser melhor
que a vida vivida

devo ser o último
moicano no boteco

até a última garrafa
o último copo
o último gole

mesmo só



Walter Biancardine



ATOLADO

 


Fui ao bairro mais próximo, distância dos infernos, comprar cigarros e remédio pra enxaqueca.

Na volta, em minha luxuosa Mercedes de 42 lugares sentados e 38 em pé, percebi que o motorista fazia a linha que passa por dentro de um bairro cujo único propósito é ser caminho para as fazendas da região. As estradas ali, portanto, são barro puro.
E nessa chuva desde ontem, viraram lama.

O sujeito era um cachorrinho de Pavlov: condicionado pelo treinamento da empresa, andava respeitosamente à direita da estrada – de barro e lama – sem o menor simancol.
No exato instante em que percebi, pensei: “vai dar merda”.
E deu.

O ônibus escorregou no abaulado da pista e se chafurdou na quiçaça – aquele misto de lama e mato à beira da estrada. Atolou e não saiu mais. E nenhum dos digníssimos passageiros queria sair do veículo. O brasileiro é assim: “eu paguei, faço o que quero”.

Saí do ônibus e vi que tinha como sair. Ele conseguia andar um metro pra frente e outro pra trás, mas o “profissional do volante” – sim, aquele que trafega em área rural e não sabe andar no barro – insistia em tentar sair do atoleiro com a direção completamente virada para o lado.

Meia hora se passou naquela inhaca.
Desisti e vim o resto do caminho a pé. Na chuva.

Sou assim: muito bom pra tirar caminhão, carro e ônibus do atoleiro.
Só não tiro minha vida dele.

Acho que nem reboque me arranca.





Walter Biancardine





CUSTO E BENEFÍCIO

 


a coisa anda ruim
quem escreve precisa
de emprego ou não come
se um velho escreve
melhor o dominó

prefiro dormir
não sinto fome
não fumo
não tenho sede
nem sujo roupas

então faço contas
sou ruim em matemática
mas nessa eu acertei
sair da cama não paga
o custo de acordar




Walter Biancardine





RÁDIO RELÓGIO

  


a noite só começava
depois de todos dormirem
pegava café e trazia cigarros
acendia a luminária

papel na Remington
porta do quarto fechada
por causa do barulho
e ligava o rádio baixinho

sintonizava a Rádio Relógio
que me perguntava "você sabia?"
e anunciava com gosto
de naftalina

"depois do sol 
quem ilumina seu lar
é a Galeria Silvestre"
zero hora
dezoito minutos
zero segundo

um gole do café
um trago no cigarro
e bato à máquina
o que ninguém imaginaria
que eu sentisse
ou pensasse

o silêncio pesa
vem um frio não sei de onde
mais café e cigarro
duas horas
vinte e três minutos
zero segundo

uma ideia puxa outra
uma dor chama mais dores
e mágoas se reúnem
em mim

escrevo e a máquina grita
barulhenta e pesada e velha
amiga de minhas madrugadas
e choros escondidos

mais café e mais cigarros
quase uma resma de papel
se vai sem que perceba
cinco horas
quarenta e cinco minutos
zero segundo

barulhos na garagem
o dia clareia
minha importância acaba
o escritor vira estudante

vivo das madrugadas
até hoje são amigas
mesmas dores e agonias
seis horas
zero minuto
zero segundo

você... sabia?




Walter Biancardine 




VIGÍLIA -

 


um mistério na noite
atrai cabeças e
almas e angústias

silêncio pesado 
da madrugada
falamos baixo
até na rua

um café solene
cigarro seríssimo
olhos franzidos
de respeito

o pensamento
pode ir tão fundo
como nunca ele iria
sob o sol

se pensa e se cria
quieto e com calma
e decide e escreve
e rima e joga fora

tudo em silêncio
como deve ser
de dia é fracasso
à noite é compromisso

parece liturgia
separando a noite
da orgia
do dia

amanhece
e se relaxa

tudo na madrugada
é muito sério




Walter Biancardine




CONSOLO PADRÃO

 


encontram um cabisbaixo
parecem ter radar
prestativos e bondosos

contam uma piada
os tristonhos riem muito
e se riem
é porque estão bem

mas você tem saúde
cabeça boa
almoçando todo dia
isso que importa

se reclamam de algo errado
um dinheiro teria entrado
a resposta não falha
o importante é fé em Deus

e agradecer pela vida
pela saúde que temos
a lucidez da cabeça
o resto se resolve

é o que sempre dizem
com sorriso amigo
sempre

quando você
tá na merda



Walter Biancardine




quarta-feira, 24 de junho de 2026

POR QUÊ?



Por quê quando surge uma ideia
não tenho papel nem caneta?

A vontade de ir ao banheiro
multiplica por dez 
ao enfiar a chave na porta de casa?

Tenho duas mãos e dois pés
vinte dedos para escolher
e a pancada é sempre 
na unha encravada?

Espinha, terçol, cravo
ou mesmo uma pinta
só nascem no dia da festa?

A mulher do caixa 
sempre pergunta
se tenho um Real?

A chuva faz os táxis sumirem
dobrarem de preço
e os ônibus lotarem?

A mesma chuva faz
minha memória apagar
e esquecer o guarda-chuvas
em casa?

Minhas paixões
na época de escola
tinham sempre namorado
ou nem me viam?

Não nasci com um dom
pra matemática ou comércio
ou algo mais útil que escrever?

Nasci com essa cara
que assusta bebês
e fecha portas?

Tenho essa mania
desde criança
de perguntar os porquês?

Ninguém nunca respondeu.
Por quê?



Walter Biancardine




SÓ ACHO

 


a vergonha não paga minhas contas
nem a insegurança de mostrar
ou a arrogância de se achar

escritores e poetas parecem
preservativos do espírito
use e jogue fora

quero que me leiam
que entendam
que se vejam no que faço
ou vejam o vizinho

editores me disseram que sou bom
mas não me publicam
não sou vendável

se vergonha não paga contas
elogios do editor também não
mas o pior de tudo
é a indiferença do leitor

me sinto uma besta
elogios na gaveta
e fome na barriga

não sou ruim
só acho
que ninguém precisa

só acho




Walter Biancardine





CADEIRAS NA CALÇADA – ou “Vendo o Movimento”

 


Nada mudou.
Eu era criança e via na estrada, viajando, gente sentada em cadeiras nas calçadas.
Olhavam o movimento. Os carros passando.
A vida dos outros.
Comentavam, riam, se embasbacavam.
Ou nada diziam e olhavam para o além.

Vi isso nas estradas.
Vi em Cabo Frio, quando era roça.
E fiz igual ao crescer.

Eu não ficava nas calçadas.
Nem comentava com vizinhos.
Ver o movimento, na cidade grande, é fumar na janela.
Olhar o trânsito lá embaixo.
Outros vizinhos olhando também.
Talvez até garimpar uma mulher nua no oitavo andar.

Eu comentava, ria, me embasbacava.
Ou olhava para o além.
Mas tudo sozinho. Comigo mesmo.

As cadeiras sumiram primeiro.
Olhar pela janela dá medo – ou rende um processo.
Hoje, quem “olha o movimento” é olheiro da boca de fumo.
Da biqueira. Dos “minino”.

Não há calçadas.
Não há janelas.
Restou a internet e as redes sociais.

E nela vemos a vida passar.

Mas não tem nenhuma graça.




Walter Biancardine