domingo, 26 de julho de 2026

2:00 AM


sábado e são duas horas da manhã
o povo deve já estar saindo dos bares
bêbados e alegres com a mulher que aceitou
ou só bêbados e sem mulher nenhuma
ou vão beber até o bar fechar

ouviram música ao vivo
e reclamaram do couvert pra pagar
aquele cara do violão com uma moça 
estranha desafinando no falsete
e aplaudiram o intervalo

exatamente agora devem ter
a chave do carro na mão e tentam
abrir a fechadura mas a bebedeira
atrapalha até a mim
que não tenho carro há muito tempo
tanto tempo que ainda acho
que eles têm fechaduras

só que eles estão bêbados e felizes
e eu estou sóbrio e com uma insônia
desgraçada que piora com o café
que bebo e que é o mesmo que eles
vão tomar em casa pra melhorar o porre

eles saíram e se divertiram e ficaram
ou se separaram e brigaram mas saíram
e viram a rua e ouviram música e beberam
e tiveram dinheiro pra pagar a conta

e eu não




Walter Biancardine




A MÃO PELUDA DA PAZ


quero mostrar 
que sou mais forte que você
que posso mandar em todos

quero você
me obedecendo submisso
escravo e humilhado
sem querer nem poder
só se eu deixar

quero as mulheres
me disputando e me querendo
se oferecendo e se atirando
e todos admirando como sou
bem dotado

quero exibir meu dinheiro
meus carros e minhas lanchas
e minhas mansões e meu poder
de mandar até no prefeito e
governadores e presidentes
e no povo todo

quero ir na TV
e ouvirem todos me elogiando
falando de minha beleza e riqueza
e meus músculos e mulheres
e vida boa que tenho

e por isso
declaro guerras e fundo empresas
suborno governos e vendo drogas
até a alma se precisar
porque não posso
ficar pra trás

tudo porque
aquela garota não me quis
riu de meu pau pequeno
não tive dinheiro pra sair
e ela ficou com outro
e fui pro banheiro

se eu fosse mais vezes
não haveria guerras
nem nada




Walter Biancardine


sábado, 25 de julho de 2026

SOU SÓ ISSO

não leio Dostoievski
fé cada vez mais fraca
sem paciência pra Bach
Mozart ou quem for

nunca aprendi crase
nem tenho escritório
com paredes forradas
de madeira

livros enfeitando estantes

trago comigo apenas
uma muda de roupa 
um notebook e uma
máquina de escrever

são todos os meus bens

e vejo tantos
fumando charutos
paletós e echarpes
barba bem aparada

se dizem escritores

em meu fedor de
garapa e roupa suja
cheiro de cigarro
vagabundo e suor

penso em meus livros
meus artigos e ensaios
minhas teses e contos
poesias e desencontros

devo ser qualquer coisa
menos escritor




Walter Biancardine




GAMBIARRA

existem tempos em que parece
termos saído dos trilhos
tudo cheira diferente e fora de lugar
o que fazemos tem cara de falso
improviso ou gambiarra

a rotina do dia fica torta
nada que fazíamos sempre
é feito 
e se for 
sai ruim
o pior é isso acontecer sem que
a gente perceba ou queira

parece que soltou um parafuso
dentro de nós e tudo desandou

olho o que escrevo e nem 
parece que fui eu
estranho e leio
outra voz
no papel

não tenho me visto
em meus poemas e ainda
pior fico nos meus contos
nada consigo fazer
só agora me dei conta


criação não aceita conselhos
me larguei de mim
e esse estranho que sou
não gosto

não sei como nem por quê
isso aconteceu

só sei que é uma merda





Walter Biancardine




PAI DOS BURROS


Google era chamado “pai dos burros”
tomou o apelido dos dicionários
era vergonhoso consultar
mas ninguém criava
nada com ele

IA dá no mesmo pra mim
consulto na cara de pau
fatos e dados e até
meu português ruim
maldita crase

mas escrever um conto
uma crônica ou poesia
botar o nome embaixo
e dizer que é seu
aí é demais

criação é biológica
o que criamos vive
ou só é montagem
de uma máquina
de impressionar




Walter Biancardine



FARMAR O SACO


Tem palavras ou frases que viram moda. E é uma merda.
Pior do que ouvir a mesma expressão mil vezes é perceber que tem gente forçando a barra só pra poder usar.

Foi assim com “tipo”.
O infame “então” pra começar frases.
Com “parada” – “vamos conferir aquela ‘parada’ ali”.
Ou mesmo o “nada a ver”, que acabou se empobretizando no “nada aver” ou, pior, no “nadaver” dos piores WhatsApps.

Agora é a ver do “farmar”. E sua pior variante: “farmar aura” – fazer tipo, tirar onda, botar banca de ser ou ter algo.

Então: eu poderia dizer que estou, tipo assim, conferindo essa parada nadaver dessa gente que fica farmando aura por aí.
Mas não farei isso.

Deixei a adolescência há quase cinquenta anos.

Muitos por ai, ainda não.




Walter Biancardine



sexta-feira, 24 de julho de 2026

BOA NOITE VIETNÃ


tentei me alistar
na guerra das Malvinas
me mandaram procurar
o que fazer

nunca estive no front
mas hoje me parece
que vivo em um país
em guerra

como via nos filmes
americanos na TV
e imaginava telegramas
chegando pras mães

a guerra lembra que existe
com os telegramas das redes
anunciando mais uma morte
precoce de um jovem

não há um só dia
que eu não veja o aviso
funeral de um jovem
que partiu de repente

são muitos e diários
e ninguém parece notar
deve ser vergonha
do quanto acusaram

pois nem todos 
acreditaram no inimigo
e acolheram a agulha
confiando nos homens

todos os dias nas redes
os telegramas da morte

como estarão
essas mães e pais
dormindo à noite?

boa noite
Vietnã




Walter Biancardine




FUNDO DO POÇO

não conte quantos e quais
os pecados cometeu
ou nenhuma esperança
restará

se só um milagre salva
não lembre o quanto deve
ou seu pedido nem sai
da boca

feliz de quem
acredita na corda
na escada
em qualquer coisa

que disfarce o
implorar perdão
e pedir tudo
a Deus




Walter Biancardine



DEUS E OS POLÍTICOS NA TERRA DO SOL


quem não acredita em Deus
reclama que nada fez por ele
quem crê aponta o céu e os
bichos e tudo que há

ninguém chega a conclusão
alguma e bebem uma cerveja

mas os dois acreditam
em política e nos políticos
seja de que lado forem
a merda é igual

também nada concluem
mas se xingam e se matam

pois que me apontem
que diabos algum político fez
além de nos foder dia e noite

é deus ou diabo?



Walter Biancardine


JOGO SUJO


de uma hora pra outra
uma mulher se lembra
de se orgulhar de tudo
o que faz uma mulher

de uma hora pra outra
um negro se lembra 
de se orgulhar por ter
nascido assim

de uma hora pra outra
o gay faz igual e
também se orgulha
por ter nascido gay

jogo sujo

porque se eu me orgulhar
de ser branco e hétero
fazer o que sempre fiz
e ter nascido assim

serei processado
arrancarão meu dinheiro
perderei a liberdade
serei perseguido
e excluído

por aqueles
que reclamam
de serem
perseguidos
e excluídos



Walter Biancardine




DE PROFUNDIS


o ser humano é maravilhoso
em sua baixeza

de profundis transcende 
o buraco segue
ultrapassa o inferno

sai do outro lado
do mundo
e espalha o mal

sobre a terra




Walter Biancardine


quinta-feira, 23 de julho de 2026

FUMAÇA NAS ÁGUAS


havia uma beleza imortal
na vigarice de ser hippie
era ideologia com flores
vencendo o canhão

mas um mundo foi criado
ultrapassou os criadores
um sonho nasceu e viveu
the dream isn’t over

na vida no campo
nas comunidades unidas
hortas e festas
consciência e juventude

sonhadores hoje
são velhos ou se foram
mas são uma lembrança
incômoda e tentadora

de que ainda há
uma saída pra nós

be sure to wear
some flowers
in your hair




Walter Biancardine


PEDINDO VIEWS

talvez não seja indiferença
eu me foder e o mundo seguir
são obrigações de cada um
não podem parar por mim

parece aridez e crueldade
mas é só a vida real
não é contar no celular que
quebramos um copo e todos

curtem e compartilham

acho que me contaminei
e fiquei mal acostumado
sempre me fodi e tudo seguiu

e agora eu estranho
querer chorar e não ter
plateia pra aplaudir e consolar

curta e compartilhe




Walter Biancardine


MÁQUINA

um bicho nasce
cresce 
e se reproduz 
gasta a vida 
comendo e acasalando

a gente faz igual 

gasta o corpo 
a cabeça 
e a alma 
uns comem haddock 
no Leblon 
e trepam em sedas
 
outros 
um podrão na comunidade 
num colchão seboso 
o verniz muda 
o ciclo não 

ninguém criou nada 
a urgência era outra
bastava um emprego 
ou a empresa 
mantendo a máquina 

Saint-Exupéry perguntou 
quantos Mozart existiriam 
nas crianças espalhadas 
pelas ruas 

elas cresceram 
comeram 
e treparam 





Walter Biancardine


quarta-feira, 22 de julho de 2026

A FILA ANDA

Andando lá fora, fingindo que rondo.
O tempo mudou.
Sem vento, noite quente e clara, por conta da lua.
Nuvens se espalham como se um cachorro houvesse destruído um travesseiro no céu.

Subi na laje pra sentir a maresia, que vinha de leve.
Olho os campos, as árvores longe, o açude e as casinhas distantes, luzes acesas avisando que estão ali e vivas.
E tudo isso me entristece. Melancolia calma.

O maior peso que vem com a idade é saber que o prazo é cada dia mais curto. E tudo isso que vejo, que gosto, em breve não verei mais.
Uma tristeza de perda.
Mais uma perda.

Meu santo não cruza com o da morte.
Não vou com a cara dela e acho que é recíproco.

Perdi quase todos os amigos, perdi tios e primos, irmã, pai e mãe e sei que provavelmente ainda terei de ver mais gente ir embora, até que chegue minha vez. 
Mas nunca choro. Não é esse meu luto.

A morte me dá raiva.
Ódio.
Me sinto ofendido, vilipendiado, roubado e desacatado.
Pudesse, daria uma sequência de diretos de direita em sua cara até provocar um afundamento de crânio.
Mas não quero matar a morte.

Apenas não gosto de ser roubado.

E quando olho os pastos em volta, a mulher que eu amo e meu filho, eu sei que serei.
Em breve serei.

Mas a morte é útil.
Tem muita gente por aí precisando ir embora.

O problema é que estou na fila também.




Walter Biancardine




LENÇOL DE ELÁSTICO

existem pessoas que são
como lençóis de elástico
só fazem sentido
se usadas

nas suas funções
são maravilhosas
e confiáveis

mas guardadas 
viram um estorvo
amarrotam
ficam feias

ninguém sabe dobrar
e enfiam no fundo
da gaveta

fingem não ver

eu sou uma 
dessas pessoas



Walter Biancardine


COMO CONFUNDIR O INIMIGO

“Sorte no jogo, azar no amor” – era o que diziam antigamente.
Besteira.
Sempre me lasquei de verde e amarelo, igualmente, em ambos.

A verdade é que nunca fui um bom jogador.
Aliás, posso dizer que sempre fui péssimo. Sequer aqueles brindes toscos de festa junina eu conseguia ganhar.
E eu cresci, mas nada mudou.

Na época da Loteria Esportiva meu recorde foram quatro acertos – até aceitável, já que eu nada entendia de futebol.
Aí veio a Loto e, de cinco números, eu acertava um ou dois.
Mega-Sena sempre foi um vexame e tentar uma fezinha no bicho – o desespero faz dessas coisas – ficou fora de questão: eu estava me tornando motivo de piada pro apontador do jogo, lá perto de casa.

Com as mulheres era igual.
As que eu queria sempre tinham alguém – ou eram simplesmente gentis, não caindo na gargalhada que as outras não conseguiam segurar.

Três casamentos.
Três falências completas, bancarrotas das quais saí com meus poucos pertences e roupas.
E também três chances que dei à cirrose e ela não apareceu.
Talvez tenha se condoído com minha situação e feito vistas grossas pra inumerável quantidade de bebida sobre a mesa do bar.

Agora tenho uma namorada e a amo. Mas ela mora do outro lado do país, onde até o fuso horário é diferente.
Como posso trazê-la pra cá?

Minha vida, às vezes, mais parece um monumento ao cinismo.
Resolvi apostar num milagre: ganhar na Mega-Sena e ir buscá-la.

Seria um final surrealista. O azarado no jogo ganhando um prêmio que resolveria seu azar no amor.

Pura estratégia.

Na falta de opções, confunda o destino.




Walter Biancardine



CUSTA DEZ CRUZADOS


sexta-feira e eu chegava do trabalho
banho rápido e jantar reforçado
pra não embebedar fácil demais

depois eram perfumes e roupas
e vaidades e mentiras pra mim
mesmo

pegava a chave do carro e o cigarro
nada mais

enquanto o carro à álcool aquecia
ligava o rádio e o locutor falava
demais até

quando eu saía nas ruas finalmente
entrava Paula Toller e seu
Disco Voador

ela tinha a minha idade
eu podia namorar ela

isso era o mais precioso
de meus vinte e poucos
momentos




Walter Biancardine



ME ADMIRO-ME A MIM MESMO

Notei que não tenho mais caminhado nos pastos.
Gostava das estradas de terra, dos pássaros voando em torno, dos bois, vacas e cavalos. Mas tenho me trancado em casa.

Tempos atrás apontaria fácil pra minha depressão.
Mas não é exatamente o que sinto agora – eu sei quando ela bate forte.

Deixo de sair porque prefiro escrever.
Gosto de ler o que faço, de apreciar minha própria expressão, as formas que encontro de narrar, tudo isso.
E isso é de uma vaidade extrema.
Não sou essa lindeza que me acho.

Preciso voltar ao sol, à poeira, viver a vida novamente.
Sei que quinta-feira terei de andar meus vinte quilômetros pra comprar coisas, e isso me irrita.
Preferia escrever.
Mas não posso continuar assim.

Ou em breve estarei em frente ao espelho, me masturbando pra mim mesmo.




Walter Biancardine


NUNCA GOSTEI DE PORCOS


Voei um tempo pra um empresário do agro, que tinha fazendas no Paraná e Mato Grosso.
Ele fazia planos de construir um hotel em uma ilha no Pantanal e eu servia de chofer, voando seu velho Cherokee perna-dura.

Eram fazendas produtivas, principalmente as da região do Alto Taquari e Alto Araguaia. De tanto voar pra lá e ficar hospedado nos alojamentos, acabei arranjando alguns amigos entre os peões e capatazes.

Um dia, Patrão – era assim que eu chamava o feitor, o gerente de lida local – me chamou pra uma comitiva. Seriam uns sete ou oito sujeitos cavalgando por dois dias naquelas matas, só por diversão. Aceitei, pois havia um belo cavalo que eu gostava e eu o montaria.

Patrão me ofereceu uma escolha: uma escopeta calibre 12 Mossberg ou uma Rossi tipo Winchester, daquelas com alavanca de recarga que chamam “lever-action”.
Nunca fui muito bem atirando com balotes, mas o que me fez decidir pela Rossi foi o fato dela calçar munição .357 Magnum – aquilo fura o bloco do motor de um carro, e em boa hora o escolhi.

Já havíamos cavalgado um bocado. Na verdade, eu não sabia se ainda estávamos nas terras de meu chefe ou se teríamos avançado até as matas de Goiás. Muito chão.
Paramos sem desmontar, em uma espécie de clareira pra beber água e aquilo foi pura sorte: sem aviso, um bando de porcos-selvagens – tem gente que chama aquilo de “javaporco” – irrompeu do mato em disparada, furiosos e guinchando, em nossa direção.

Disse que foi sorte estarmos parados porque nossas mãos estavam livres, ao invés de rédeas de cavalos assustados segurávamos apenas os cantis.
Larguei o meu e puxei a espingarda do embornal, tentando manter o sangue frio e só atirar quando o bicho parecesse já estar prestes a me engolir, de tão perto.

Escolhi um, gordo e raivoso, e sentei o dedo.
Na cabeça, entre os olhos.
Caiu duro.
Meu cavalo pulou e deu trabalho segurar.

Maus companheiros atiravam também e, por uns cinco segundos, aquilo virou uma fuzilaria. Os porcos, entretanto, eram ajuizados e bateram em retirada.

E lá estavam três monstros estendidos no chão, além de outro agonizante ao lado, que abati com o revólver.

Nunca fico em pânico na hora do perigo, o problema vem depois.
Mantive minha fama de pistoleiro do velho oeste até retornarmos à fazenda, arrastando o mais gordinho daqueles bichos pra fazer uma churrascada.

Sequer o provei.
Passei um bom tempo disfarçando o tremor nas mãos segurando copos de garapa ou cerveja, enquanto eles riam e cantavam como se nada de anormal houvesse acontecido.

Cachaça salvadora.
A melhor parte de desmaiarmos bêbados é que não precisamos responder perguntas nem mentir por causa disso.

Só acordei no dia seguinte, com uma ressaca desgraçada e meu chefe me dizendo pra aprontar o avião, pois era hora de voltarmos a Maringá.

O povo de lá passou a me respeitar, e me cumprimentavam.

Essa foi a melhor parte.

Nunca gostei de porco, mesmo.





Walter Biancardine




HERMÈS SE VIRA


Os antigos sabem que a maioria das máquinas de escrever não tem o número 1 nem o ponto de exclamação.
Como muita gente, elas aprenderam a se virar usando outra coisa no lugar do que lhes faltava.

Se quero dizer “em 10 minutos”, uso a letra L no lugar do número 1.
Se escrevo “corra!”, digito o ponto final, volto um espaço e, por cima dele, bato o apóstrofo.
A exclamação sai estranha, meio remendada – mas sai e ninguém nunca se importou com isso.

Ninguém me dá emprego.
Meu amigo Dail me arrumou um pequeno bico aos domingos, que paga as despesas da semana.

Não tenho casa.
Meu amigo Alair me deixou ocupar novamente uma das cabanas em suas terras.

Não tenho carro.
Mas tenho saúde, fôlego e disposição pra caminhar os vinte quilômetros de ida e volta até o bairro mais próximo, onde faço compras.

E tenho também alguns cachorros, cavalos, bois e vacas pra me fazer companhia quando a solidão aparece pra um café.

Aprendi a usar a letra L.
Aprendi a usar ponto e apóstrofo.
Aprendi a me virar.

Minha Hermès não nasceu completa.

Eu também não.




Walter Biancardine



terça-feira, 21 de julho de 2026

NEURODIVERGENTE FASHION

 


A internet adora rótulos.
Pior: transforma tudo em moda, tal qual fizeram com raças de cachorro ou receitas culinárias.
Agora fazem isso com doenças.

E a moda é dizer-se “neurodivergente” – sendo ou não.

As redes sociais transformam confusão em pertencimento. 
Antigamente o sujeito era “esquisito”, “avoado”, “tímido”, “hiperativo” ou simplesmente “complicado”. 
Hoje aparece um vídeo de 30 segundos e esse sujeito conclui que tem três transtornos e uma coleção de siglas.

Há um exagero real. 
Nem toda distração é TDAH. 
Nem toda introversão é autismo. 
Nem toda dificuldade social é “neurodivergência”.
E essa frescura rebaixa e vulgariza uma condição clínica que merece a devida atenção – e não ser mera “moda do verão 2026/2027”.
 
Às vezes a pessoa só dorme mal, vive no celular, não lê um livro desde a escola e tem a capacidade de atenção carbonizada por notificações das redes sociais.

Mas ser neurodivergente tá na moda.
Disputando focinho a focinho com asperger.

Tivessem um boleto pra pagar, um uísque pra beber e alguém pra trepar, não perderiam tempo com essa merda.



Walter Biancardine




VENTOS DE AGOSTO


agosto chega de viagem
traz na mala o frio
dias cinzas e os ventos
os ventos de agosto

esse mês é uma viúva
que nos visita trazendo
uma renca de filhos
insuportáveis

a viuvez traz tristezas
e traineiras no porto
e as crianças são
os ventos

que não param
não cansam e passam
desarrumando tudo o que
levamos o ano arrumando

crianças arteiras
que levantam saias
de mulheres distraídas
e roubam chapéus

ao menos em setembro
podemos arrumar toda
a bagunça que agosto
deixou sem se importar

as flores ajudam
o sol nos anima
e nos faz lembrar
que tudo sempre

sempre volta

até agosto
ano que vem




Walter Biancardine





BRIGUEM, MISERÁVEIS


escrevo
como quem precisa vomitar
na cara de quem olha
o fracasso e ri

ninguém precisa de tudo
pobreza é a condição
natural do ser humano
ele nasce sem nada

mas cresce e segue a vida
e a vida o segue
e persegue
e ele fica sem nada

não quero ser rico
nem dono de coisa alguma
mas os donos não entendem
eu podia comprar deles

mas não posso
porque sou miserável
então pra qual filho da puta
eles fabricam suas coisas?

a doença tem nome
se chama sistema
é feito pra te manter
indigente

trabalhe a troco
de vale-comida
vale-transporte
vale-qualquer-merda

e sorria porque
tá bom demais
você é um
privilegiado

eu vejo isso no bar
indigentes orgulhosos
porque pagam cerveja
eu bebo e bebo

e vomito
escrevendo

o problema não é ser pobre
é ser miserável
e achar que um sujeito
eleito resolve

se ele é candidato
não importa de onde
então já vendeu
sua alma ao sistema

e o povo vai pras redes
e se xinga e brigam
por candidatos e times
de futebol

não fosse a burrice
subiríamos de vida
e seríamos pobres
com orgulho

briguem, idiotas
briguem

o champagne
e as apostas
são deles

eu só bebo
e escrevo
enquanto vocês se matam 
por quem já vendeu a alma




Walter Biancardine


segunda-feira, 20 de julho de 2026

SEGUNDA-FEIRA

segunda-feira
maldita segunda

dia tão ruim
que de primeira
não foi



Walter Biancardine

DIA DO AMIGO

dia do amigo

um bom dia
pra mandar todos
à puta que os pariu

são amigos
vão entender

e rir



Walter Biancardine