Dias atrás fui chamado pra fazer número num comício.
Não me meto mais em política. Me enojei disso.
Mas devo muitos favores a quem me chamou e, por isso, fui.
Mentira: fui também porque ele prometeu cerveja e cachorros-quentes quando voltássemos.
Moro no meio do mato e, além de mim, meu amigo convocou mais alguns animais silvestres como eu. E pra levar todo mundo, alugou uma van.
Era uma boa van, bem conservada. O candidato deve ter pago.
Lotação completa, fomos a caminho.
E eu observava os outros.
Miseráveis como eu.
Fracassados como eu.
Na maioria, velhos.
Bêbados.
Sem perspectivas nem futuro.
Como eu.
Pagos à troco de cachaça e comida.
Eu, ao menos, devia favores – pensei, tentando me salvar.
Desde que saímos um pobre infeliz reclamava ao meu amigo:
- Meu patrão, pára aí no boteco pra eu tomar uma cachaça!
E meu amigo ralhava com ele como se fosse uma criança:
- Sossega, rapaz! Senta aí e depois a gente bebe!
E aquele diálogo paternal se repetiu durante os quase cinquenta minutos de viagem, do meio do mato até o Centro da cidade – cidade essa que meus companheiros sequer sabiam andar, pois jamais haviam saído do mato.
O evento aconteceu num clube popular. E logo encheu.
As deslumbretes de aluguel – aquelas barangas (sempre barangas) que tocam cornetas, agitam bandeiras, colam adesivos de campanha em nosso peito e gritam a plenos pulmões “êêêêêhhhhhhh!!!!” a cada ordem do monitor, já faziam seu escândalo insuportável.
Foram pagas pra isso.
Ou não. Afinal todos que ali estavam, sem exceção, queriam um emprego ou um favor ou um contrato ou um “jeitinho” ou mesmo tijolos e telhas.
Alguma vantagem queriam.
Menos eu.
Eu só queria sumir.
Mais de três pessoas, pra mim, já é multidão.
Dei um basta.
Casa cheia, meu amigo nem veria se eu saísse e fosse na padaria tomar uma cerveja. E foi o que fiz.
Na saída e por coincidência o prefeito – cercado por “seguranças” de mãos dadas – vinha entrando e cruzei com ele justo no apertado corredor de acesso.
Ele me viu.
Parou e estendeu a mão, me cumprimentando.
Fui a única pessoa que ele cumprimentou.
Mas não porque sou especial, e sim porque recentemente sua esposa faleceu e, mesmo brigado com ele, enviei minhas sinceras condolências.
Ele, ao menos, deve ter se lembrado disso.
Achei bacana de sua parte.
E fui tomar minha cerveja.
Pouco me importa que idealismo não exista. Que todos ali só foram por interesse ou demagogia. Não quero mais saber.
Desgracei minha vida por isso.
Na verdade, fiquei pensando nos meus colegas da van.
Um punhado de velhos bêbados, sobrevivendo de subempregos e carpindo roça aqui, cavando valas ali ou plantando mandioca.
E bebendo. Bebendo muito.
Estão certos. Precisam beber.
Eu os julguei, confesso: não sabem ler nem escrever ou, sequer, pensar e falar.
O mundo os esqueceu – jamais fizeram parte de nada pra que pudessem dizer que foram excluídos. São só lixo.
Como eu.
Esperando o caminhão da morte nos recolher pro depósito.
E as pessoas morrem todos os dias em acidentes, AVCs, assaltos, infartos e isso sempre nos sobressalta e entristece. Até nos surpreende:
- Como assim morreu? Tão de repente…!
Mas nos recusamos a ver esse povo todo bebendo até cair, comendo lixo e vivendo em chiqueiros. Eles estão se matando.
Eles vão morrer e todo mundo sabe disso.
Mas ninguém faz nada.
Minto, fazem sim: quando o caseiro de seu sítio morre – aquele senhorzinho muito simpático – os hipócritas transformam suas bocas em caçapas de bilhar e exclamam, algo como “surpresos”:
- Como assim morreu? Tão de repente…! – tal como eu disse.
Deu a hora de ir embora.
Fui pra porta do clube e embarcamos de volta na van.
Ela foi deixando cada um deles em frente às suas casas. No mato. Só mato e escuro.
Me deixou em frente às terras onde moro, também.
Fui pra casa e só depois lembrei:
- E meu cachorro quente?
Walter Biancardine





