quinta-feira, 27 de agosto de 2026

J. ESPERANÇA X CENTRO - PARADOR


desde a madrugada chove e faz
um frio desgraçado
nunca falha a maldita coincidência
porque hoje é dia de ir
lá longe
andar feito um desgraçado
comprar comida
e meu maldito cigarro

andar vinte quilômetros
no acostamento duma estrada
barro com chuva sempre suja
e roupa molhada e frio
porque moro num lugar
tão pobre
que nem cigarro vende
porque é todo mundo
evangélico
mas bebem

talvez pegue um ônibus
dando sorte ele passa
ainda nas próximas três horas
a mesma conta serve pra volta

é sempre divertido dividir
o assento preferencial com um
velhinho levando sua galinha
a galinha sempre me olha
somos iguais

naquele ônibus lotado de gente
molhada e fedorenta e suada
de frio e raiva
lá fora a chuva continua
no ônibus o fracasso se espreme
olho a galinha
olho o velhinho
melhor olhar pro chão do ônibus
imundo igual
minha vida




Walter Biancardine



BIFURCAÇÃO

a vida sempre nos coloca
diante de diversas opções
várias escolhas e decisões
muitos caminhos a seguir

é sempre assim e se repete
decisões, escolhas, caminhos
dia após dia e ano após ano
não muda

outra coisa que não muda
é sempre e invariavelmente
fazermos a escolha
mais errada
não falha


(“a vida nos dá muitas escolhas.
nós é que erramos todas”)

Walter Biancardine



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

REVELAÇÕES, livro I


todos os profetas
só viraram profetas
depois de atravessarem
um imenso deserto

as aparições só apareceram
no deserto
revelações só se revelaram
no deserto
visões só foram vistas
no deserto

e gastei meus miolos
com café e cerveja e noites
não dormindo porque cismei
que o deserto é o
protagonista
da fé

pois vivo num deserto
uma ilha de eu sozinho
cercado de mato por todos
os lados

dias e quilômetros
sem ninguém

e nem um anjinho sequer
uma visão ou uma voz
ou qualquer pressentimento
veio a mim

o deserto é ainda
um bom protagonista
o problema sou eu
de coadjuvante

aí não dá




Walter Biancardine



DE UMA CAIXA FIZ UMA CASA


uma caixa de isopor
virou mesa de cabeceira
da cama que achei

duas mudas de roupa
não fazem volume
a cadeira é armário
e cabide

achei mesa e cadeira
na casa abandonada
agora é meu escritório
ainda aguentam um pouco

e de um rasgo de carpete
fiz meu tapete pra cama
o chão é frio no inverno

fui catando todo o lixo
de prateleiras imaginadas
pasta pra guardar textos
churrasqueira sem um pé
é lixo mas me serve

e tudo tem alguma história
já foi a alegria de alguém
já mostraram pros amigos
mas ficaram velhos
quebraram
lixo

esse lixo é minha sorte
minha compra online
sem internet e taxas
o pagamento é só
vergonha
angústia
agonia

divididas em suaves prestações
a perder de vista

literalmente




Walter Biancardine


JOGANDO BOLA DE GUDE COM DADOS


Na verdade, basta entender que minha vida sempre foi tentar ouvir um velho disco de vinil no CD player. Não encaixa. Não é próprio pra isso.
Este sou eu, o inadequado.

Editores dizem que o som do vinil é muito bom, mas não vende em um mercado que sequer CDs ouve mais. Em outras palavras, “não sou vendável”.

Escrevo sobre a vida.
E a vida fede. É suja, ruim e má muitas vezes.
Ao fim de um dia de trabalho voltamos pra casa com a bunda ardendo, pois somos enrabados das 8 às 6 da tarde e ainda temos de sorrir – é “networking”, dizem os hipócritas.

Vendemos nossa alma ao diabo quando temos uma profissão, e alugamos nossa existência ao patrão quando temos um emprego.

Mas é a vida. Ou não há como pagar aluguel, luz, água, gás, condomínio e os pequenos luxos (“é pra isso que trabalho, eu mereço”) como internet, Netflix, Spotify e a academia.

O cara vende a própria vida pra ter isso.
Quem faz seus horários é a empresa. Vigia suas palavras e opiniões por causa dos colegas de trabalho. Se veste como fosse feito em série no escritório. Come o que todos comem, vai onde todos vão, gosta do que eles gostam e dizem em casa, aos domingos:
- Minha vida é um sucesso!

Então escrevo mostrando como esse sujeito morreu. Vive ainda, mas morreu.
Não tem alma, não tem gostos, não ousa ter nada que seja dele – só dele. 

O medo assombra essa alma. Acha que chegou ao céu e mal reconhece os diabos à sua volta. E mente pros amigos dizendo que isso sim, é coisa de um homem decente e correto.


E eu, na minha imundície, mostro a miséria humana que é um infeliz assim. E os editores se unem aos mais delicadinhos e me pregam na cruz da execração, porque ouso feder onde todos andam perfumados; tenho o atrevimento de mostrar as latas de lixo nos fundos daquele edifício de luxo e falsidade.

E ninguém, nunca, vai comprar um livro meu.
Pra quê?

Ando pelos acostamentos das estradas e faço um inventário da vida dos outros, olhando calcinhas largadas, pinos de cocaína, latas de cerveja, embalagens do Bob’s e até bichos mortos. Vejo isso tudo e faço uma crônica.
Porque é nos acostamentos que largamos aquilo que não queremos ou não podemos levar pra casa.

E eu ando nesses acostamentos.

E também vejo gente que gasta o Bolsa-Família inteiro no jogo do Tigrinho ou exibindo cervejas no boteco, deixando o resto da família se virar nas ruas porque ele quer mostrar que “tá com a vida ganha”.
Então escrevo que tanto faz. Rico, remediado, pobre ou indigente, a merda é sempre igual.

E a porca vida não deixa de ser justa, pois fode todos nós sem distinção de escolaridade ou faixa de renda.


E isso vira livro.
Contos, crônicas, poemas.
Linhas que nada costuram.
Letras que nada cantam.

Coisas que ninguém compra.

E os editores fogem de mim como o diabo da cruz.





Walter Biancardine


TRAÇAS E MOFO


mesmo um velho fedorento como eu
tem no fundo da cabeça um cofre 
enferrujado e cheio de coisas
que os outros nunca entenderão

no canto desse cofre tem uma TV
onde eu via o mundo desde pequeno
e ria com desenhos e programas
pra crianças como eu

o tempo foi passando e a TV ficou
sempre ligada e mostrando que
meu mundo estava indo embora
e custei a entender isso

primeiro Elvis depois John Wayne
e meu amigo Cazuza também
e Freddie Mercury e tantos mais

minha TV esvaziou
saiu do ar
e o toca-fitas calou
hoje com Dolly

também meus amigos 
que ninguém conheceu
foram morrendo um a um 

por acidentes
doenças ou drogas 
ou velhice

fui na rua e olhei em volta
igual ao fundo de meu cofre
e cada dia que passa parece que
a calçada fica mais larga

o bar mais vazio
e a vida também

quando um entregador me pede
“me dê um ponto de referência”
eu respondo sem esperança:

esse é o problema
não sobrou nenhum

e velhos fedorentos costumam ter
cofres enferrujados onde ainda
tentam guardar

seus brinquedos




Walter Biancardine



terça-feira, 25 de agosto de 2026

SÓ MORCEGOS TEM FÉ


passamos uma vida aprendendo
a não confiar em qualquer um
e já bebi demais por amar
quem jurou eternidade e durou
pouco

então numa hora ruim ou até
dias ou meses ou anos trevosos
abro uma Bíblia e leio que
tenho de amar a Deus 
sobre todas as coisas

e me pergunto como amar alguém
que nunca vi ou falou comigo
ou ao menos bateu em meu ombro
e disse “força, rapaz”

me soterram com gritos que
é preciso ter fé e fé absoluta
muita fé e só fé e mais fé
em quem nunca 
nada me prometeu

quem prometeu não foi Ele
foram outros que juraram
falar por procuração

então tenho de ser vivido
pra não cair em golpes do dia
mas inocente pra crer em tudo
de alguém que nunca
nunca

me prometeu nada
me deu forças no ombro amigo
ou tomou uma cerveja comigo

me condenam por enxergar
que não faz sentido
mas o desespero é maior

e imploro de joelhos
rezo e choro

e ainda peço




Walter Biancardine



segunda-feira, 24 de agosto de 2026

MICHÊ PARNASIANO

a arte brasileira
que a mídia divulga
hoje é prostituta
que masturba clientes
com pornografia
ideológica




Walter Biancard
ine


CERTIDÃO DE ÓBITO

a filosofia morreu
e arrastou o pensamento
e o discernimento
e a sutileza e a ironia
e o sarcasmo e tudo
escrito
pra mesma vala

a teologia morreu
de overdose de espetáculos
e hemorragia financeira
dos fiéis no dízimo
foi enterrada no palco
não no altar

as ideologias sobreviveram
como baratas após holocausto
nuclear

seres mutantes
que se transformam em
verdades ou deuses
ou inteligências
artificiais 
ou não

e traficam nas biqueiras
dopamina a preços
acessíveis

os que sobreviveram
se refugiam em ilhas
de pedantismo arrogante
e abatem os poucos
que chegam
exaustos
às praias

mal sabem que esta ilha
tem já seus dias
contados

a menos que um blackout
salve a eles
e ao que sobrou
do mundo



Walter Biancardine


AMIGO DE TINTA E PAPEL

Dei importância demais à minha vaidade.
Sim, sou vaidoso. Mas a culpei pelo fato de insistir em escrever, mesmo sem leitores.

Imaginei que estaria ostentando o título de “escritor”. 
Ponto pra vaidade. 
Vomitando meus livros publicados. 
Ponto pra ela de novo.
Mas agora, nesse momento, vejo que não é isso.
Ao menos neste exato agora.

Insisto em escrever pelo mesmo motivo que precisamos de alguém pra conversar. Alguém ao nosso lado, não uma chamada telefônica.
Queremos olhar nos olhos dessa pessoa e sentir a recíproca, a compreensão que nos traz o acolhimento.
E por isso escrevo.

Leio o que escrevi e nas linhas vejo um amigo imaginário, balançando a cabeça com ar solidário, entendendo tudo o que sinto e passo.
Mas um só texto ou poesia não bastam. A conversa é sempre longa, meu estado é grave.
E por isso posto, ao menos em minha página pessoal.
Lá eles ficam listados, acesso fácil, não preciso ficar abrindo um arquivo após o outro.
A conversa flui.

Talvez só agora eu esteja entendendo que o egoísmo venceu minha vaidade.

Que se dane.
Essa tralha toda é o único amigo que tenho.

Ele merece a cerveja de minha vergonha.





PRA QUÊ TÍTULO?

Cansei de me preocupar se lêem esta página ou não.
Desde que o YouTube me puniu, não tenho mais acesso às métricas daqui e por isso me surpreendeu o comentário de um doido sobre algo que escrevi.

Sim, alguém deve ler isso em algum momento, mas pouco me importa.
Não sou famoso e nenhuma diferença faz uns dois ou três aleatórios passarem por aqui e enxergarem particularidades que não publico nas redes. Hoje, esta página virou quase um “diário”.

A diferença que me importa neste momento é a que separa minha urgência de saúde da letargia do SUS.

Preciso de remédios que me tirem desse estado. Preciso que um psiquiatra me dê receitas. Preciso sair desse buraco, pois enquanto isso me incomodar é sinal que há esperança de cura.

Fui na Unidade Básica de Saúde aqui da roça, nesta última sexta-feira. Conheço a senhora que trabalha lá, ela mora em frente as terras onde vivo e li em seus olhos que ela percebeu meu problema.

Ainda aguardo que ela me avise quando uma psicóloga irá definir meu horário de atendimento, que será 1º de setembro. A psicóloga vai me medir, pesar, cheirar, avaliar e decidir se posso ir ao olimpo da cura psiquiátrica – eterna burocracia estatal.

A minha amiga sabe disso. Vejo em seu rosto calado e conformado. Ela precisa do emprego.
E tanto sabe que me ofereceu uma oração. Disse que rezaria por mim.

Aceitei de bom grado.
Até porque sequer mencionei que também preciso de atendimento clínico pela dor de estômago diária que sinto, a qual se irradia até os rins.
Sim, deixei isso pra depois, afinal conheço as pessoas.
Por melhores intenções que tenham, não se deve complicar a cabeça delas com informações demais.

Quando marcarem o horário da psicóloga, falarei com ela sobre a dor.

O SUS é assim: sua dor e sua agonia devem aguardar na fila.

Sem perturbações da ordem, por favor.






domingo, 23 de agosto de 2026

NÃO BRINQUE

não brinque
nunca brinque
com a depressão

ela é um quase
quase fiz
quase fui
quase tomei

a distância
é um fio de cabelo
de uma cabeça
em desespero

não brinque
nunca brinque
com quem passa
pelo que ninguém
sabe explicar

pois se tudo é
um quase 
apenas o fundo do poço
é um fato

e isso não é justo
pra ninguém




Walter Biancardine



NA FERIDA SAL AGOSTO


conheço esses altos e baixos
e o baixo de agora é profundo
tenho evitado escrever
evitado até pensar
afinal é agosto

yo no creo em las brujas
pero que las hay
las hay

e tudo por aqui cai
no mês mais funesto
sócio da depressão
mais cruel

melhor calar a boca
sempre sobrevivi
aos meus pensamentos
não é hora de fraquejar

este agosto veio com força
cheio de opcionais e 
pintura metálica
de mercúrio na veia

mas setembro virá
surrando a escuridão
vou abrir a janela
porque sobrevivi

no creo en las brujas 
pero que me jodieron 
me jodieron

em setembro 
sobreviverei




Walter Biancardine


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

HORA DA OFICINA

Venho insistindo. Minto pra mim mesmo.
Mas leio o que escrevo.
É patético.

Não me reconheço nas linhas e frases. Me envergonho de ter mostrado. E sei que não é com as mãos que se escreve, mas com a cabeça. 

E parece que ela se foi.
Bateu a porta da rua com tanta violência que afetou o corpo. E deixou pra trás a suspeita que talvez tudo tenha sido nada.

Tudo o que eu queria dizer, gritar e mostrar era nada. Fogo de palha.
Queimou rápido. 
Ficou só o chão,  preto e sem nada a nascer.

E o corpo queimou também,  junto com a cabeça,  o coração e a alma.

Não me reconheço no que escrevo.
Nem no que faço,  digo ou vivo.

Sou um estranho hoje, pra mim.
E um estranho inconveniente. 

É hora de parar.




Walter Biancardine 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

DESNOVIDADE

tudo o que é novo chama atenção
se você é novo na turma
todos falam contigo
te perguntam coisas
te convidam
te olham 

o tempo passa e você não é mais
a novidade que era e agora
ninguém mais pergunta
porque acham já
saber tudo
e nada a ver
de novo

você é uma desnovidade
e isso vale tanto na vida
nas turmas ou no trabalho
quanto nas redes
sociais

o tempo nos transforma
em chatos
uma piada contada
pela segunda vez





Walter Biancardine



GANÂNCIA


Sempre gostei de carros. 
Principalmente os mais antigos, que não eram smartfones com quatro rodas.

Também gosto de quase tudo que é antigo – móveis, ferramentas, aparelhos variados. Basta dizer que uso uma máquina de escrever, pra resumir tudo.

Meus gostos provocam os algoritmos do feed facebuqueano e, por vezes, aparecem coisas assim:
“Vendo VW Brasília, 1977 – R$65 mil”
“Vendo Chevette 1982 – R$45 mil”
“Vendo máquina de escrever Hermes 1975 – R$1.500”

E por aí vai.
Relógios Seiko dos anos 70 custando quase dois mil reais, cadeira de palhinha a quase mil e tudo aquilo que se possa emprestar – nem que seja forçando a barra – o cheiro de “antiguidade” passa, automaticamente, a custar preços absurdos.

Tenho estrada demais pra não saber que a mecânica de um Simca era uma porcaria. O relógio Seiko, mesmo sendo muito bom, era relógio de pobre. E móveis ruins sempre foram feitos e vendidos por uma ninharia.
Mas hoje tudo é “vintage”, “custom”, “old school” e por aí vai.

A ganância do vendedor é óbvia.
Mas a vaidade estúpida de quem compra tais coisas é mais evidente ainda, pois só há oferta onde existe demanda.
E esses vaidosos não percebem que criaram uma bolha. Ela vai explodir, e o Opala que pagaram quase cem mil reais voltará a valer, no máximo, uns quinze mil – e terão de ir ao proctologista extrair o automóvel lá de dentro.

A única vantagem real das coisas antigas é que podemos, nós mesmos, consertá-las.
Queria muito ter um Fusca. Com uma chave 13, um alicate, um arame e uma fita isolante nada me impediria de chegar em casa com ele.

Mas não posso sequer pensar em comprar um.
Os mais baratos andam pelos seus dez a quinze mil reais.

Não existem mais coisas velhas.
Agora, tudo é “antiguidade”.

Viva a ganância.




Walter Biancardine




RESCALDO

A noite foi melhor. Dormi do início ao fim e o punho quase não dói – posso voltar a usar as maiúsculas e fugir desse povo que implica até com isso.

A tempestade passou, mas os ventos e chuvas prosseguem.

Escrevo de porta aberta. Vejo os campos, os cavalos. Muita gente acharia poético e trocaria sua vida comigo. Qualquer imbecil entenderia isso. Eu mesmo, como o maior dos imbecis, entendo.
Mas não tenho vontade de estar aqui. E já faz tempo demais.

Não vim porque quis. Não estava estressado com a vida caótica das cidades grandes. Vim porque foi o único lugar que pude morar de graça – um amigo me cedeu um espaço no meio do mato.

E já são quatro anos.

Entendo de estradas. 
A minha já parece longa demais.
E pior fica comigo aqui parado, no acostamento.

Acho que o carro quebrou.

E perdi as ferramentas.





Walter Biancardine





ENTRE CAVALOS E CAFETEIRAS

nietzsche endoidou ao ver um carroceiro espancar o cavalo.
eu explodi após minha cafeteira elétrica queimar.
e ambos certamente se confrontam com a pergunta absurda e cruel:
“- mas foi só por isso?”

ninguém quis saber do passado de nietzsche.
o que ele sofreu, o que ele passou.
no máximo, referências maldosas à sífilis.
e só.

no meu caso poderiam resumir:
“- faltar luz dezesseis vezes no mesmo dia não justifica isso!”
sim, não justifica.
eu podia ter desistido de tomar café quente hoje.
bastaria desligá-la.

só não perguntaram se eu tenho mais algum luxo na vida.
não sabem que ganhei essa cafeteira anteontem.
e que era o único momento em que me sentia um ser humano.
com um café quente nas mãos.

e também não perguntaram – muitos sabem – sobre minha porca vida.
a dos últimos dez anos. isso não sabem ou, se sabem, preferem esquecer.
“não justifica”, dirão.
posso apostar que dirão.

então enfiem seus comentários e opiniões no fundo do cu.
só escrevi isso por ter magoado a única pessoa que ainda me pergunta:
“- como vai você?”

o resto – supostos amigos, parentes, conhecidos – podem ir à merda.
e, por favor, fiquem lá.

o louco da cafeteira pode ser perigoso.

para suas consciências.




Walter Biancardine


terça-feira, 18 de agosto de 2026

GRITO

existem horas em que tudo 
o que quero é
gritar

com todas as forças
todas as fúrias
e farsas

é olhar pra trás
lembrar do tudo
que hoje é nada
e sentir ódio
muito ódio
só ódio

ódio

de mim mesmo
de minha vida
das ilusões que tive
e também
das invejas porcas
dos medíocres em volta

que hoje riem
e dizem que estou
no meu merecido lugar

tanto ódio e fúria
que fico na dúvida
tivesse um revólver
quem explodiria
primeiro

talvez os vermes
questão de higiene

e depois eu
- por prevenção
e amor ao próximo




Walter Biancardine



PACIÊNCIA UM DIA ACABA


todo mundo quer viver
dizem nem amar a vida
mas a querem mesmo assim

ninguém sequer imagina
outra hipótese

uns dizem que é pecado
outros apontam fraqueza
vaidosos fazem diagnóstico
depressão
angústia
temores
culpa
fracasso
vergonha

e seguem em frente

todos amam viver
eu tenho apenas

paciência




Walter Biancardine


O QUE DEVE SER FEITO

escrever pra quê?
porque quero contar histórias? 
falar sobre minha vida, o que faço, por onde ando e o que tenho visto?
espalhar por aí minhas opiniões?

a quem interessa minhas opiniões?
a ninguém.

a quem interessa o tipo de mundo em que vivo?
ninguém quer saber de fracassados, vidas sem sentido, vazios e hipocrisia.

a quem interessa o que escrevo?
a ninguém.

sempre uso a desculpa que escrever é a terapia mais barata que encontrei.
pode até ser, mas entre escrever e publicar vai uma grande distância.
e o que me faz andar essa distância toda?

não é terapia nem minha sanidade mental.

é meu ego.
é a vaidade.
é querer ser lido e comentado.

e tudo se torna um paradoxo.
se meu caráter é um rodapé, quem desejaria ler?
haveria algo de proveitoso em ler um canalha?

para minha vaidade haveria.
já o leitor estaria apenas se igualando em baixeza, pois não tenho o talento nem carisma de um bukowski, dostoievski, céline ou cioran.
sou só isso: baixo e raso.
como um pires.

talvez este seja o único ato honesto e com algo nobre que eu faça em minha vida: decidir se quero escrever ou apenas saibam que escrevo.



Walter Biancardine



segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A CAMA É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS

Existem mulheres que usam o sexo como balança.
Medem por ali o que outros sentem ou pensam dela.
Normalmente acompanham maridos, namorados ou ficantes em seus passeios, gostos e hobbies. 
Até gostam, eventualmente, das mesmas coisas. 
E se não gostam, fingem gostar com perfeição.
Mas tudo precisa terminar na cama.

Se não termina, ela conclui o desamor ou desinteresse ou mesmo que ele tem outra.

Não há filtro que disfarce as intenções e pensamentos de uma mulher dançando ou fazendo qualquer coisa junto com seu homem apenas para o acompanhar. Por mais que ela também goste daquilo, é quase uma tolerância.
Ela precisa de cama.
É na cama que o mundo faz sentido pra ela.
É na cama que ela mede o amor.
Pior: mede principalmente o amor-próprio.

Mas vem a rotina do casal e as brigas aparecem.
E o homem não funciona como a mulher – não há como disfarçar o desânimo após discussões ou a sensação de ser um lixo.
Broxa, é o nome que se dá.
E essa mesma mulher, que julga o amor de seu homem por seu desejo conclui, feito um gênio, que ele não a deseja porque não a “procura”.
E nunca lembra das razões do “não-procurar”.

Mulheres assim costumam ser lindas e geniais.
Mas não enxergam a cova que elas mesmas cavaram.

Normalmente terminam com um imbecil, que mal alcança seus calcanhares.

Mas ele trepa todo dia.



Walter Biancardine


O CENÁRIO É SEMPRE UM BAR


E o modelo é sempre o dono de um BYD querendo parecer caminhoneiro.
A merda não muda. É falsidade em todo lugar.
Frescos frágeis performando bruteza rude e cínica.

O sujeito escreve uma lista de compras, vê um vídeo de 8 minutos sobre Dostoievski e outro sobre Schopenhauer e pronto: eis um novo escritor maldito, beberrão (toma caipisaquê de frutas vermelhas) e depressivo, com vasta estrada de lágrimas e dores a adornar o caminho que, inevitavelmente, leva ao seu ego.

Essa raça nem sabe o que é ser um proscrito.
Não sabe o que é perder tudo – família, amigos, emprego e até casa pra morar – por ser quem se é.
Não sabe o que é insônia por causa da fome.
Nem o choro por causa das trapaças e golpes sujos de quem menos se espera.

Não sabe o que é beber até cair pra não correr o risco de deitar, pensar e nunca mais dormir – ou fazer merda pior.
Não sabe o que é andar em farrapos, ser tratado como lixo, discriminado por sua aparência e ainda chamado de maluco – “um indigente falando bem assim? Deve ter decorado uma página de livro, coitado…” 

Tenho certeza que esses estagiários de “durões” achariam uma glória ganhar cerveja e tira-gostos do dono do boteco por piedade – não só o cara sabe sua história como ainda te humilha com a pena que sente.

Essa raça não sabe o que é ter passado uma vida estudando filosofia, teologia, sociologia, antropologia e mais enciclopédias inteiras de cultura inútil e descobrir exatamente isso: cultura inútil. Todas elas.

Não sabem o que é ter gasto vinte anos escrevendo análises políticas com nome assinado, se expondo, e assinando somente sua sentença de morte profissional.

Não sabem o que é ter a idade que tenho, ter visto, passado e feito tudo e chegar à conclusão que nada sabe, coroando a própria existência com um vergonhoso “foda-se”.

Não sabem como é horrível ver a expressão de nojo nos outros.

E ver eles se afastarem de você.

Sim, o meu cenário é um bar.
Sempre um bar.
Fiz por merecer.

A energia elétrica aqui na roça é um vaga-lume.
Ela voltou só agora, depois de horas.
Então publiquei isso.

Sou um fracassado.
Mas, ao menos, legítimo.




Walter Biancardine



sábado, 15 de agosto de 2026

SÍNDROME DE SALIERI

o pior a se sentir
ver uma pintura
reconhecer o talento
e não conseguir fazer
tão bom ou melhor

ou ler um poema
que rasga a alma por dentro
lágrimas como as suas
mas as suas não tem gosto

se deixar embalar
viajar com a música 
e ver que a sua não leva
ninguém a lugar algum

você é bom mas não brilha
simpático mas sem carisma
bonito mas não lindo
Salieri mas não Mozart



Walter Biancardine 


SÓ ME BEIJE E VÁ EMBORA

Às vezes viver
É uma péssima ideia 
Um roteiro sem graça 
Monótono ou triste
Sem final feliz 

Minha mão pegava a sua
Inteira com amor
Mas foi escapando 
Devagar e aos poucos

Havia a música 
Que eu cantava pra você 
Então a dança acabou
É hora de ir 

E você caminhava
Cada vez mais longe
Sumindo
No horizonte 

Apenas me beije
E diga adeus

Pois sei que você vai
Let's Just Kiss 
And Say 

Goodbye 

https://youtu.be/wtjro7_R3-4?is=XgJqnqkWNBzPKda2


Walter Biancardine