sexta-feira, 23 de outubro de 2026

SÓ ISSO


a mulher pela qual eu daria minha vida
me ofereceria aos infernos e demônios
entregaria a alma no lugar dela
a razão de eu insistir em existir
e estará ao meu lado 
enquanto eu viver
só me pediu uma coisa:

"escreve uma coisa bonita pra mim"

ela me deu a vida de volta
e só pediu que escrevesse
uma coisa bonita pra ela

é só o que ela quer
é só o que ela pede
só isso e nada mais

e eu com minhas escamas e espinhos
tento lembrar que rosas espetam
mas tem toda a beleza pra dar
e eu tento por amor à ela
eu tento ser bom
eu tento 
por ela

pela rosa que escolheu
morar em meu espinheiro
sem que eu merecesse

a mulher que amo sorri e me desarma
a boca sorri, os olhos sorriem
o rosto inteiro e seu corpo
quase uma criança a brincar

e gasto as noites velando seu sono
porque quero proteger quem mais amo
e quem gasta os dias me protegendo
de mim mesmo e meus excessos

"escreve uma coisa bonita pra mim"

é só o que ela pediu
e ainda que eu morra

escreverei





Walter Biancardine





CHEIRO DE ANTIGO


existem coisas que só de lembrar
já me vem o cheiro de antigo
naftalina e espiral pra mosquito
lampião à querosene e chão de tacos
com a cera Parquetina

gobelin pendurado na parede
o tiquetaque do relógio que badala
luz mortiça e amarela de abajures
e o café coado no pano

mas são as persianas que doem
naquele sol suave da manhã
cheiro de quarto de mãe
claridade que não machuca

eu sabia que elas só deixavam
que o sol entrasse pra mim
mas a rua e tudo de ruim
ficavam do lado de fora

persianas lembram minha mãe
visitas em casa de minhas tias
uma infância muito distante
e muito feliz

nessa minha infância encantada
tudo me cuidava e protegia
até as persianas

e nada disso existe mais
tudo se foi ou saiu de moda
até as persianas

até cuidar de mim




Walter Biancardine



FIM DE NOITE


em cada mesa um fracasso
cada garrafa, uma dor
cada copo, uma lágrima

as rodelas molhadas na tábua
cebolas caídas do prato
palitos de dente, amendoins
e o sal derramado
que dizem ser azar

o cinzeiro que nunca veio
cinzas, papéis e bitucas no chão
de vermelhão encardido
estampado com solas de sapatos
sem direção alguma

na maioria das mesas
quatro cadeiras e duas ocupadas
mas as piores delas
tem sempre um só sentado

e chega outra garrafa
nada traz que seja novo
a não ser um copo cheio
que nos leva pra mais longe

as garrafas não mentem
nem os copos sujos e com restos
cinzeiros vieram com maldade 
só pra marcar as horas
e as esperanças viraram apenas
cadeiras vazias
pratos vazios
cascas vazias
garrafas vazias
copos vazios
e cinzeiros cheios

em casa, se ajoelhe no vaso
confesse os pecados em jatos
encha o vaso com abominações
peça perdão à descarga

a penitência é o chuveiro
e a ressaca, 
amanhã de manhã




Walter Biancardine


ALGUM PROBLEMA EXISTE


meus caminhos são acostamentos
metade de minha vida são estradas
e vejo campos e pastos ao longo
com cavalos olhando pro nada
parados e talvez pensando
meditando ou filosofando
ar distante

sigo adiante e o pasto muda
vejo a boiada mas ela me vê antes
bois e vacas me olham fixamente
talvez me avaliem ou debochem
me seguem com os olhos
pesando cada passo que dou
com toda a calma do mundo
me julgam

e eu que me acho sabido
olho pro chão de barro e vejo
calcinhas e partes de carros
embalagens de lanchonetes
ou de drogas e alguns pés
de sapatos ou tudo aquilo
que ninguém quis levar
se livraram antes
de chegar em casa
e então sou eu
que julgo

faço toda uma história na cabeça
meço pela minha régua e empresto
crises e dramas e sofrimento
a um simples pé de sapato no chão
pois nunca me lembro que também
jogamos fora o que não serve mais
nem sempre tudo é dor
parece que o sofrimento
me atrai e insisto
chego em casa
e escrevo isso

cavalos e bois nem se importam
eu é que perco tempo e os uso
e também os lixos das estradas
fabricando agonias pra depois
tentar vender
sem a menor
modéstia





Walter Biancardine



quinta-feira, 22 de outubro de 2026

FILOSOFOS DA QUINTA SÉRIE

Gosto de ler as opiniões das pessoas sobre os livros que leram, sobre os escritores e até mesmo sobre músicas, pinturas e esculturas.

Só não tenho paciência quando resolvem opinar sobre filósofos e suas teses.

Filosofia não é servida em degustações. Não abrigam opiniões: ou se endossa - mesmo com ressalvas - ou se contesta em uma antítese. Posso esculachar Foucault pelo seu ódio patológico à paternidade ou suas taras sadô-masô, mas isso é criticar a pessoa e não seu pensamento.

Das duas, uma: ou o Substack abriga uma legião de filósofos (e filósofo é somente aquele que escreveu uma tese que merecesse o debate, a antítese) ou há uma inflação de garotos estudantes tentando transformar suas espinhas em ensaios.

Quer opinar sobre um filósofo? Estude-o. mergulhe nele (e, se for o caso, em seu zeitgeist) e emerja com seu próprio ponto de vista. Formule, então, sua antítese e publique.

Ou volte pro banheiro.




Walter Biancardine 




quarta-feira, 21 de outubro de 2026

VERDADES RUINS


quando uma mulher vai embora
sai de dentro do coração
rasga tudo e deixa sangrar
tropeça na tomada e desliga
minha cabeça
apagão

então entra o instinto
dos outros é sobrevivência
o meu é hipocrisia porque
só agora tive pena
do cachorrinho doente
e o trouxe pra casa

fui solidário com o cavalo
e dei ração de cachorro
é tudo a mesma coisa mas
minha piedade só vem quando
eu mesmo me arrebento
instinto hipócrita

e o fedor de abandono espalha
as pessoas sentem de longe
um amigo me chamou pra beber
cachaça e cerveja
combinação mortal
em boa hora

agora posso escolher
entre os remédios da doutora
ou a mézinha alcoólica
fico com a segunda porque
prefiro ser gente ruim
que um robô estéril

e me peguei bêbado entre
cachorros e cavalos e um amigo
misturando cachaça e cerveja
fingindo ser gente de bem
e afogando a hipocrisia
em toda a cachaça do mundo

ela me deixou




Walter Biancardine



PERDAS E DANOS


acordo muito tarde com o telefone
um diabo entrou num anjo e o anjo
possuído e feroz
me cobra mais que a vida que tirou

quer meu sorriso e lembranças
quer o que está dentro da cabeça
o que meu coração guarda
quer meu sorriso
quer fotografias
o que sinto
o que escrevo
quer me fazer sumir

ela foi embora e levou tudo de bom
o lado bom de minha vida foi junto
levou minha vontade de ser
o que mais quer?

o mal é como gripe e contagia
não ande perto de gente ruim
diabos transmissíveis
você vira um cão

mas por ela enfrento até o demônio
nada tenho a perder e pago pra ver
nada mais o capeta me leva
até que a deixe em paz
e a doçura volte
mesmo sem me amar




Walter Biancardine




COM ESSES OLHOS QUE A TERRA HÁ DE COMER


Folheando as redes sociais me dei conta: há uma epidemia de postagens afirmando que pessoas célebres que conhecemos não são, na verdade, elas mesmas - teriam já morrido e sido substituídas por sósias.
Ou pior: são os afamados "reptilianos".

Joe Biden, Paul McCartney e mesmo Lula seriam sósias, desempenhando um papel de acordo com conveniências ocultas. Por outro lado, a assessora de imprensa de Trump seria reptiliana, bem como o homem-laranja teria sido filmado junto a ETs de dois metros e meio de altura. E, pra completar, ainda aparecem filmes de gente convulsionando e se transformando em monstros ou outras coisas estranhas, e tudo apresentado como a mais pura verdade - sim, porque redes como o X não existem pra explicar aos retardados o que é ou não verdade.

Sempre estive envolvido com a mídia e sei do tesão descontrolado de alguns por audiência, pontos no IBOPE, views e coisas assim. E tenho certeza que boa parte dessas coisas vem desse tesão e do amplo campo de loucuras possibilitado pela feitura de vídeos via IA.

Mas tamanha é a quantidade que parei pra pensar.

E uma voz do além (se eles podem, eu posso) me disse que é uma estratégia deliberada de fazer a maior parte das pessoas perder a básica e fundamental capacidade de crer naquilo que os próprios olhos veem.
Mas, por quê?

Me pego a imaginar: e se for uma estratégia globalista, preparando uma chegada "fake" de alienígenas no planeta Terra pra nos forçar a aceitar um governo global - "só um único líder pra negociar todo o planeta junto aos ETs"? Absurdo?

Ora, se alguém tenta me convencer que a assessora de imprensa da Casa Branca é um réptil, que Trump bebe uísque com alienígenas ou que Lula é um sósia, então também tenho o direito de expor minha imaginação por aqui.

Afinal, tenho pra mim que uma vacina foi criada sob pretextos falsos apenas pra matar metade da humanidade. É meu direito crer no que melhor me parecer.

A vida me ensinou que, na maior parte das vezes, absurdos são acreditados facilmente, desde que sejam mentiras.
Se forem verdades, exigirão um caminhão de provas.

A pergunta que fica é: quem ganha quando não acreditamos mais sequer no que vemos?




Walter Biancardine



terça-feira, 20 de outubro de 2026

A VIRTUDE DA VILEZA


Sinto falta dela. Muita falta. 
Falta, aliás, até o ar que respiro.
No silêncio do meu deserto, ela significou um atestado de vida pro meu coração. 
Me fez mesmo parecer um ser humano. 
Por ela criei rotinas. 
Por ela criei hábitos.
Mas o mal sempre esteve em mim e, por ela, fiz planos.
Alguém como eu não pode ter planos.

O mal sempre foi um velho hábito.
Mentiras cômodas, disfarces convenientes.
Pois eu a seduzi com isso.
Fui um bom mágico de circo, causando ilusões de ótica em uma mulher que só queria amar um homem bom e ter uma vida normal.

Acenei um futuro pra esconder a indigência do presente.
E do meu futuro também, pois sou um velho e o amor é jovem.
E custa dinheiro.

Todos elogiam a sinceridade e eu usei isso como arma.
Ela amava as mentiras que contei.
E ela sentiu a dor.

Então mostrei a liberdade inconveniente que eu me permitia.
Me permitia por saber que nunca terei meios de vencer a distância.
Distância de lugares.
Distância de condições.
E todo dia ela se feria.
E eu a iludia.

Mostrei o indigente que sou.
Minha própria falta de fé no futuro.
E ela se foi.

Foi a coisa mais canalha que fiz.
E a mais honesta, também.

Talvez haja um lugar pra mim no purgatório.




Walter Biancardine


NÃO SER


por maior que seja a tragédia
sempre resta algum destroço
com aqueles poucos farelos
começa a reconstrução
e tiram fotos
e se admiram
se parabenizam
exemplo de superação

pois na minha não sobrou nem pó
nada que eu possa usar e tentar
recomeçar

paisagem lunar em preto e branco
nada de verdade restou em mim
só lembranças

e não vou remendar minha vida
costurando memórias que se foram
porque me dei conta do que fiz
ao deixar com ela os motivos
de acordar de manhã
sair de casa
escrever algo
continuar vivendo

continuo na cama
e tudo aí em cima
fede a falsidade
forçando a barra
até pra chorar

na verdade eu só quero
não ser




Walter Biancardine



sábado, 17 de outubro de 2026

DIA MEDÍOCRE


preciso arrumar um emprego. 
preciso vender as melhores horas do meu dia pra comprar o direito de sobreviver às piores.

assim, o despertador vai tocar pra eu ir trabalhar. 
a alma então pede demissão. 
o corpo, covarde, levanta.
e chego no escritório me dando conta que lá é um lugar onde adultos fingem que obedecer ordens os torna importantes.

a solução é ir beber depois do trabalho.
a garrafa nunca perguntou se eu estava bem. talvez por isso nossa relação tenha durado tanto.
 
e volto pra casa.

em casa, a solidão me recebe. ela é uma péssima companhia, mas pelo menos não pede explicações.
e escrevo. 
é uma maneira de continuar discutindo com pessoas que já foram embora.

por fim, descubro que o texto está perfeito e o publico.
 
nele não há nada que eu tivesse coragem de dizer pessoalmente.




Walter Biancardine



quinta-feira, 15 de outubro de 2026

DISGUST IS BACK


Começo a me sentir melhor.
As drogas já estão me abandonando, e não posso evitar de pensar que até minha depressão é misógina: a química me deixava um zumbi, nada de mal sentia - nem nada de bom.

Aliás, nem nada de nada. E zumbis não costumam escrever.

A anestesia está acabando. Olho o Substack e parece que reencontro um amigo. Não um velho amigo, mas um amigo novo; eu ainda o acho meio chato, não engulo muitas de suas “vibes”, e por vezes o acho uma mistura de Enzo com atores do teatrinho da escola - todos no papel de escritores malditos. E eu já os havia batizado de “Rimbaud do condomínio”. Um caso típico de “o cara é chato mas é legal”.

Já o Facebook mais parece um culto do suicida Jim Jones: o mesmo e eterno fanatismo - pouco importa se pela direita ou esquerda - e a sede insaciável de sangue mirando todos os que não compartilham de suas adorações. Afinal, são os únicos adereços que ainda encontram pra postar e mostrar como são inteligentes e resolvidos.

E então me dei conta de que mesmo eu, tão prevenido, cético e cínico, não escapei de dar às redes sociais uma importância que elas nunca tiveram: a responsabilidade de formar uma pessoa, uma opinião, e moldar meu dia.

Pensando assim, fui tomar um café me achando um gênio; me imaginei mesmo um ser superior até que me dei conta que sou completamente dependente delas: aqui posto o que escrevo, aqui tento ser conhecido e aqui oro pelo milagre que algum extraterrestre compre meus livros.

E voltei a me achar uma besta.

Santa montanha-russa que, em boa hora, me mostrou que nessa bipolaridade de sensações, aos poucos me vejo voltando ao normal.

Ao velho, intragável e insuportável normal.

Talvez, um dia, eu me torne uma lenda.

Póstuma, é claro.




Walter Biancardine



BESTICE


escrever um poema
é resumir o óbvio
pra gente abestada
que sempre sentiu
mas não sabia explicar

gente abestada lê poemas
pra saber o que sempre sentiu
escrito por outro abestado
que soube explicar
de um jeito bonito

mas tire isso da vida
e nada nos sobra
o óbvio sozinho
é pedra de gelo
mas a poesia, 

é o uísque




Walter Biancardine



À MARGEM DA SOCIEDADE


meio-fio é boletim de ocorrência
ou diário da desgraça de todos
papel de salgados comidos na fuga
embalagens de doces mais doces 
que a vida de alguém

a raiva de meio cigarro fumado
folhas secas da árvore solitária
um bilhete de loteria amassado
e a dor de um anel jogado fora
tudo eram sonhos

acostamento de estrada é igual
piorado pela tensão ou vergonha
lá fica tudo aquilo que nunca
levaríamos pra mostrar em casa
cemitério de segredos

e nos becos e ruas sem saída
a cidade também esconde vexames
meios-fios, acostamentos, becos
lá ficam planos, vícios, amores
e lixo

cada vida é uma casa
que guarda tudo de bom e ruim
e quando recebemos visitas
varremos a sujeira pra baixo
do tapete

nunca saí bem nas fotos dos outros
não por crimes mas pelo pecado
de nunca ter sido bom e igual
nas margens de rio, margem de erro, 
margem da vida

sempre estive à margem
é o melhor que aconteceu
talvez

em minha vida




Walter Biancardine





quarta-feira, 14 de outubro de 2026

TUDO É GADO, LÁ OU CÁ


não preciso de um bando
ou turma pra me sentir bem
me sinto bem comigo e os outros
são só água em meu uísque

se a TV ou revistas dizem
"faça isso ou use aquilo"
perdem tempo comigo porque
não obedeço ideias nem taras
que não sejam as minhas
e já as tenho o bastante

não faço porque todos fazem
não uso porque todos usam
não creio porque todos creem
não compro porque todos compram
nem voto porque todos votam

vivo num pasto cercado de bois
e eles me ensinaram muita coisa
são dóceis e atenciosos e bons
mas todos acabam no açougue

e não nasci pra ser
a carne de terceira
que o poder pensa
que sou

mesmo aqui
na geladeira
em que acabei





Walter Biancardine



terça-feira, 13 de outubro de 2026

DESAPAGANDO


desapagando meus antigos fantasmas
ressurgem relembrando dores que sabiam doer
e a droga agora é minoria em meu sangue
despovoa minha cabeça de seus monstros
nunca foram bem vindos e nem sabiam
me afligir com a prática e habilidade
das velhas tormentas

temo a mágoa que causei nos meus fantasmas
entre apagar e desapagar a anemia os desenhou
com linhas mais finas e ainda estão fracos
pra empurrar minha cabeça aos melhores
abismos

fora monstros químicos!
bem vindos de volta, velhos fantasmas!
que tragam de volta o inferno criativo
que me deixava tão insuportável
a ponto de eu gostar de mim
e do que escrevia
voltem!




Walter Biancardine



INTOLERÂNCIA AO NORMAL

o ser humano é um mamífero
que evoluiu e criou o pão
desde antes da Bíblia
caçou e comeu carne
e fez vinho

mas hoje todos são
intolerantes à lactose
ao glúten
viraram veganos
e não bebem álcool

trocaram por drogas
jogos e apatia
e dizem ter evoluído





Walter Biancardine





segunda-feira, 12 de outubro de 2026

MEDIOCRIDADE EMBRULHADA PRA PRESENTE


existe uma diferença muito grande
entre um poeta e eu
eles colam imagens
eu faço um manual de instruções

fazer jornal é desenhar pra cegos
me acostumei a ser cão-guia
agora acho que todos são burros
eu matei a analogia
apaguei a figura
até na linguagem

tudo seria diferente se eu fosse
bonito e rico e só visse coisas boas
não precisaria dessa fantasia
dispensaria a porcaria
de poeta sofredor
só pra ver
se alguém me nota

porque não quero mais ninguém
ela já está dentro de mim e
a imundície a contamina
sem ter culpa disso
não é justo ela sofrer
porque quero escrever



Walter Biancardine




sábado, 10 de outubro de 2026

AMIGOS FANTASMAS


todo um sábado na cama
não é façanha sexual
mas o fundo mais profundo
daquele poço que conheço
tão bem

a cabeça virou caatinga
quando brota é fruto seco
espremo e nada sai
e as gotas que pingam
não prestam

quero ser de novo o velho
insuportável de sempre
na imundície que conheço
e me deixava escrever
sim, errei

não mais remédios
não mais química
que voltem os fantasmas
já são parceiros
me entendo com eles

me deem de volta 
meus fantasmas
meus tormentos
minha cerveja
chega




Walter Biancardine



sexta-feira, 9 de outubro de 2026

LOBOTOMIA 50mg


a sensação é ter a cabeça
e o coração vazios
faxina sem dó que varreu
até o que não devia

anestesia maldita agora
nem sei mais quem sou
sem fome não me conheço e
meus fantasmas se foram

eu os odiava e amava
convivia com eles
escrevia sobre eles
mas me sinto um deserto

inteligência artificial
baixou em mim em doses
escrevo direito mas
sem cor e cheiro e vida

parece a serpente que
me oferece a maçã do
bom sono e fim da dor
mas pede minha alma

uma cápsula me faz dormir
outra me anestesia
preciso agora de um deus
soprando a vida em meu nariz

nada sinto e nada me enoja
me vejo um robô no espelho
e odeio esse novo homem
limpo
asséptico
mecânico
sem coragem de voltar

a ser o velho imundo de sempre
porque doía demais

fogo ou frigideira?





Walter Biancardine




quarta-feira, 7 de outubro de 2026

JOÃO SEM SONHOS


João era marinheiro, e servia na Base Aero-naval de São Pedro da Aldeia.
Militar entusiasmado, conseguira chegar rapidamente à posições de destaque junto aos seus pares e a gozar de certo prestígio naquele restrito círculo.

Mesmo pagando mal, com condições de trabalho por vezes quase torturantes, o Sargento João prosseguia em sua carreira – ainda mais depois de haver conhecido uma bela mocinha, pela qual se apaixonara e casara tão rapidamente que pegara de surpresa amigos chegados e até mesmo parentes.

Estela era o nome de sua amada que, além de uma fatal beleza física, trabalhava e sustentava-se – coisa rara naqueles idos de 1970, ainda mais em uma pequena cidade como Cabo Frio.

Sua dedicação à João era comparável somente ao amor que nutria pela pintura, que retribuía sua atenção em obras incontestavelmente belas. Um crítico exigente até poderia apontar aqui e alí alguns senões, mas o que importava? Ela amava aquele homem que conhecera e aprendera a admirar como um bravo e competente militar, e nada seria maior que isso.

A vida seguia bela e feliz - coisa que, desde que o mundo é mundo, sempre irritou as invejas alheias - e com o casal não foi diferente: um superior de João, intimamente irritado com tanta felicidade, enviou-o para um dos piores trabalhos daqueles tempos – ajudar no aparelho repressor do governo, contra os subversivos.

O sargento não tinha saída: ou cumpria as ordens ou seria transferido para Rio do Sumiço, sabe-se lá onde. Como bom militar que era, cumpriu suas ordens o melhor que pode no frágil equilibrio entre seu dever e o que não lhe repugnaria a consciência.

Um dia, em um confronto com os tais subversivos, o Sargento João levou um tiro na perna que o deixou imobilizado durante meses. Uma longa recuperação se seguiu, com sua mulher o ajudando e amparando em todas as situações, até que o Alto Comando deu baixa em sua carreira.
João agora não era mais militar, e dias difíceis começaram.

O ex-sargento era agora um homem frustrado, irritadiço, que capengava pela casa mantida pela mulher que – além de tudo – ainda ouvia seus queixumes. Apegara-se João à promessa de um Almirante que, dizia-se, admirara sua bravura em combate, e iria providenciar seu retorno à ativa.
E assim os anos passaram, pingando lentamente como gotas de fel em uma taça de cristal que – percebia-se agora – embaçara.

                                 
* * *

Verdade seja dita, João até tentara trabalhar em outros empregos mas já não era jovem e, além do mais, talvez a única coisa que soubesse fazer bem fosse ser militar.
Persistia aferrado à promessa do Almirante, cada vez mais encolhido no papel de homem em casa, cada vez mais desestimando-se, descendo lentamente os degraus que levariam o comum dos mortais à depressão.
Sua mulher, por sua vez, era apenas um ser humano. Abrigava-se daquele homem que agora desconhecia em suas telas e pincéis, produzindo obras cada vez mais angustiadas, escuras e distantes da vida que um dia imaginara.

Tudo tornara-se um círculo vicioso: João sabia que sua mulher o conhecera soldado, admirara o soldado e somente o amor que ainda nutria pelo homem a fazia suportar a amputação da alma de seu marido, estrangeiro agora á ela e até á ele mesmo.

Um dia conversaram muito sério e Estela suplicou-lhe que esquecesse o sonho de voltar à ativa. Ela não aguentava mais aquele trapo assombrando sua vida e seu pedido era tão desesperado de amor que se esquecia do que significava. Se abandonasse seu sonho, quem seria João? Ela amaria aquele sujeito amorfo, sem profissão, sem história, quase um recém-nascido em vias de encanecer?

João sabia disso, mas mesmo assim arriscou, pelo igual amor que devotava à sua amada e bela mulher: foi ao Comando Naval e cancelou formalmente todos os inúmeros pedidos de reintegração que o Almirante fizera requerer.

                                 
* * *

Em 1970 Cabo Frio mal aparecia nos mapas do Rio de Janeiro. Quem vivesse na bela cidadezinha teria de se conformar em passar sua existência adulta como pescador, salineiro, empregado da Álcalis ou Prefeitura – as duas últimas opções apenas para um restrito número de privilegiados, seja por formação acadêmica, seja por apadrinhamento. João não tinha padrinhos nem formação, e vagou em vão pelas ainda salitradas ruas da cidade durante meses, errando de porta em porta, fazendo bicos insignificantes e vendo-se nitidamente diminuir cada vez mais diante de sua mulher.

Quem era João? Era apenas um homem sem sonhos, como a maioria dos mortais que amadurecem. Mas acostumara-se a viver com eles, acostumara-se com o brilho da farda – que, no íntimo, bulia com sua tôsca vaidade – e, sobretudo, acostumara-se a ser não só amado como admirado por Estela, cujos olhos enevoavam em mágoas e decepções por todo cada dia seus juntos. João amargava-se, Estela pintava e esperava dias melhores. A pobre mulher acreditava tanto em seu amor que confiava poder continuar amando aquele homem, ainda que ele fizesse a vida atrás de um balcão de açougue.

Mas, prudentemente, jamais cogitara se continuaria admirando.

Por alguma intuição misteriosa, João sabia que não haveria mais retorno em sua vida e resolveu ir embora. Ao menos sua mulher – ainda bela e jovem – teria a chance de refazer sua vida ao lado de gente normal, que jamais tivesse tido o desatino de afundar-se em um enlouquecido combate à comunistas, e que estivesse em condições de disputar seu lugar na vida como homem prestante e arrimo de família – coisa que, no fundo, envaidece uma mulher normal.

                                 
* * *

Estela não soube mais de João. Nem ela, nem seus amigos, ninguém.
Em uma cidade tão pequena como Cabo Frio, era um absurdo que ninguém houvesse ao menos avistado ele pelas ruas, mas era o que acontecia.

Suspeitara mesmo que houvesse ido embora tentar a sorte em outro lugar, até que um dia, tomando um suco no Café Society, os olhos treinados de pintora deram à Estela a visão de um homem que lia as manchetes dos jornais expostos na banca: era apenas um homem, mas não se podia dizer que roupas trajava, qual sua altura, que rosto tinha. Era uma figura difusa, sem contornos, sem alma.

Era um homem sem sonhos.

E Estela compreendeu que João se fora.




Walter Biancardine