quarta-feira, 21 de outubro de 2026

PERDAS E DANOS


acordo muito tarde com o telefone
um diabo entrou num anjo e o anjo
possuído e feroz
me cobra mais que a vida que tirou

quer meu sorriso e lembranças
quer o que está dentro da cabeça
o que meu coração guarda
quer meu sorriso
quer fotografias
o que sinto
o que escrevo
quer me fazer sumir

ela foi embora e levou tudo de bom
o lado bom de minha vida foi junto
levou minha vontade de ser
o que mais quer?

o mal é como gripe e contagia
não ande perto de gente ruim
diabos transmissíveis
você vira um cão

mas por ela enfrento até o demônio
nada tenho a perder e pago pra ver
nada mais o capeta me leva
até que a deixe em paz
e a doçura volte
mesmo sem me amar




Walter Biancardine




COM ESSES OLHOS QUE A TERRA HÁ DE COMER


Folheando as redes sociais me dei conta: há uma epidemia de postagens afirmando que pessoas célebres que conhecemos não são, na verdade, elas mesmas - teriam já morrido e sido substituídas por sósias.
Ou pior: são os afamados "reptilianos".

Joe Biden, Paul McCartney e mesmo Lula seriam sósias, desempenhando um papel de acordo com conveniências ocultas. Por outro lado, a assessora de imprensa de Trump seria reptiliana, bem como o homem-laranja teria sido filmado junto a ETs de dois metros e meio de altura. E, pra completar, ainda aparecem filmes de gente convulsionando e se transformando em monstros ou outras coisas estranhas, e tudo apresentado como a mais pura verdade - sim, porque redes como o X não existem pra explicar aos retardados o que é ou não verdade.

Sempre estive envolvido com a mídia e sei do tesão descontrolado de alguns por audiência, pontos no IBOPE, views e coisas assim. E tenho certeza que boa parte dessas coisas vem desse tesão e do amplo campo de loucuras possibilitado pela feitura de vídeos via IA.

Mas tamanha é a quantidade que parei pra pensar.

E uma voz do além (se eles podem, eu posso) me disse que é uma estratégia deliberada de fazer a maior parte das pessoas perder a básica e fundamental capacidade de crer naquilo que os próprios olhos veem.
Mas, por quê?

Me pego a imaginar: e se for uma estratégia globalista, preparando uma chegada "fake" de alienígenas no planeta Terra pra nos forçar a aceitar um governo global - "só um único líder pra negociar todo o planeta junto aos ETs"? Absurdo?

Ora, se alguém tenta me convencer que a assessora de imprensa da Casa Branca é um réptil, que Trump bebe uísque com alienígenas ou que Lula é um sósia, então também tenho o direito de expor minha imaginação por aqui.

Afinal, tenho pra mim que uma vacina foi criada sob pretextos falsos apenas pra matar metade da humanidade. É meu direito crer no que melhor me parecer.

A vida me ensinou que, na maior parte das vezes, absurdos são acreditados facilmente, desde que sejam mentiras.
Se forem verdades, exigirão um caminhão de provas.

A pergunta que fica é: quem ganha quando não acreditamos mais sequer no que vemos?




Walter Biancardine



terça-feira, 20 de outubro de 2026

A VIRTUDE DA VILEZA


Sinto falta dela. Muita falta. 
Falta, aliás, até o ar que respiro.
No silêncio do meu deserto, ela significou um atestado de vida pro meu coração. 
Me fez mesmo parecer um ser humano. 
Por ela criei rotinas. 
Por ela criei hábitos.
Mas o mal sempre esteve em mim e, por ela, fiz planos.
Alguém como eu não pode ter planos.

O mal sempre foi um velho hábito.
Mentiras cômodas, disfarces convenientes.
Pois eu a seduzi com isso.
Fui um bom mágico de circo, causando ilusões de ótica em uma mulher que só queria amar um homem bom e ter uma vida normal.

Acenei um futuro pra esconder a indigência do presente.
E do meu futuro também, pois sou um velho e o amor é jovem.
E custa dinheiro.

Todos elogiam a sinceridade e eu usei isso como arma.
Ela amava as mentiras que contei.
E ela sentiu a dor.

Então mostrei a liberdade inconveniente que eu me permitia.
Me permitia por saber que nunca terei meios de vencer a distância.
Distância de lugares.
Distância de condições.
E todo dia ela se feria.
E eu a iludia.

Mostrei o indigente que sou.
Minha própria falta de fé no futuro.
E ela se foi.

Foi a coisa mais canalha que fiz.
E a mais honesta, também.

Talvez haja um lugar pra mim no purgatório.




Walter Biancardine


NÃO SER


por maior que seja a tragédia
sempre resta algum destroço
com aqueles poucos farelos
começa a reconstrução
e tiram fotos
e se admiram
se parabenizam
exemplo de superação

pois na minha não sobrou nem pó
nada que eu possa usar e tentar
recomeçar

paisagem lunar em preto e branco
nada de verdade restou em mim
só lembranças

e não vou remendar minha vida
costurando memórias que se foram
porque me dei conta do que fiz
ao deixar com ela os motivos
de acordar de manhã
sair de casa
escrever algo
continuar vivendo

continuo na cama
e tudo aí em cima
fede a falsidade
forçando a barra
até pra chorar

na verdade eu só quero
não ser




Walter Biancardine



sábado, 17 de outubro de 2026

DIA MEDÍOCRE


preciso arrumar um emprego. 
preciso vender as melhores horas do meu dia pra comprar o direito de sobreviver às piores.

assim, o despertador vai tocar pra eu ir trabalhar. 
a alma então pede demissão. 
o corpo, covarde, levanta.
e chego no escritório me dando conta que lá é um lugar onde adultos fingem que obedecer ordens os torna importantes.

a solução é ir beber depois do trabalho.
a garrafa nunca perguntou se eu estava bem. talvez por isso nossa relação tenha durado tanto.
 
e volto pra casa.

em casa, a solidão me recebe. ela é uma péssima companhia, mas pelo menos não pede explicações.
e escrevo. 
é uma maneira de continuar discutindo com pessoas que já foram embora.

por fim, descubro que o texto está perfeito e o publico.
 
nele não há nada que eu tivesse coragem de dizer pessoalmente.




Walter Biancardine



quinta-feira, 15 de outubro de 2026

DISGUST IS BACK


Começo a me sentir melhor.
As drogas já estão me abandonando, e não posso evitar de pensar que até minha depressão é misógina: a química me deixava um zumbi, nada de mal sentia - nem nada de bom.

Aliás, nem nada de nada. E zumbis não costumam escrever.

A anestesia está acabando. Olho o Substack e parece que reencontro um amigo. Não um velho amigo, mas um amigo novo; eu ainda o acho meio chato, não engulo muitas de suas “vibes”, e por vezes o acho uma mistura de Enzo com atores do teatrinho da escola - todos no papel de escritores malditos. E eu já os havia batizado de “Rimbaud do condomínio”. Um caso típico de “o cara é chato mas é legal”.

Já o Facebook mais parece um culto do suicida Jim Jones: o mesmo e eterno fanatismo - pouco importa se pela direita ou esquerda - e a sede insaciável de sangue mirando todos os que não compartilham de suas adorações. Afinal, são os únicos adereços que ainda encontram pra postar e mostrar como são inteligentes e resolvidos.

E então me dei conta de que mesmo eu, tão prevenido, cético e cínico, não escapei de dar às redes sociais uma importância que elas nunca tiveram: a responsabilidade de formar uma pessoa, uma opinião, e moldar meu dia.

Pensando assim, fui tomar um café me achando um gênio; me imaginei mesmo um ser superior até que me dei conta que sou completamente dependente delas: aqui posto o que escrevo, aqui tento ser conhecido e aqui oro pelo milagre que algum extraterrestre compre meus livros.

E voltei a me achar uma besta.

Santa montanha-russa que, em boa hora, me mostrou que nessa bipolaridade de sensações, aos poucos me vejo voltando ao normal.

Ao velho, intragável e insuportável normal.

Talvez, um dia, eu me torne uma lenda.

Póstuma, é claro.




Walter Biancardine



BESTICE


escrever um poema
é resumir o óbvio
pra gente abestada
que sempre sentiu
mas não sabia explicar

gente abestada lê poemas
pra saber o que sempre sentiu
escrito por outro abestado
que soube explicar
de um jeito bonito

mas tire isso da vida
e nada nos sobra
o óbvio sozinho
é pedra de gelo
mas a poesia, 

é o uísque




Walter Biancardine



À MARGEM DA SOCIEDADE


meio-fio é boletim de ocorrência
ou diário da desgraça de todos
papel de salgados comidos na fuga
embalagens de doces mais doces 
que a vida de alguém

a raiva de meio cigarro fumado
folhas secas da árvore solitária
um bilhete de loteria amassado
e a dor de um anel jogado fora
tudo eram sonhos

acostamento de estrada é igual
piorado pela tensão ou vergonha
lá fica tudo aquilo que nunca
levaríamos pra mostrar em casa
cemitério de segredos

e nos becos e ruas sem saída
a cidade também esconde vexames
meios-fios, acostamentos, becos
lá ficam planos, vícios, amores
e lixo

cada vida é uma casa
que guarda tudo de bom e ruim
e quando recebemos visitas
varremos a sujeira pra baixo
do tapete

nunca saí bem nas fotos dos outros
não por crimes mas pelo pecado
de nunca ter sido bom e igual
nas margens de rio, margem de erro, 
margem da vida

sempre estive à margem
é o melhor que aconteceu
talvez

em minha vida




Walter Biancardine





quarta-feira, 14 de outubro de 2026

TUDO É GADO, LÁ OU CÁ


não preciso de um bando
ou turma pra me sentir bem
me sinto bem comigo e os outros
são só água em meu uísque

se a TV ou revistas dizem
"faça isso ou use aquilo"
perdem tempo comigo porque
não obedeço ideias nem taras
que não sejam as minhas
e já as tenho o bastante

não faço porque todos fazem
não uso porque todos usam
não creio porque todos creem
não compro porque todos compram
nem voto porque todos votam

vivo num pasto cercado de bois
e eles me ensinaram muita coisa
são dóceis e atenciosos e bons
mas todos acabam no açougue

e não nasci pra ser
a carne de terceira
que o poder pensa
que sou

mesmo aqui
na geladeira
em que acabei





Walter Biancardine



terça-feira, 13 de outubro de 2026

DESAPAGANDO


desapagando meus antigos fantasmas
ressurgem relembrando dores que sabiam doer
e a droga agora é minoria em meu sangue
despovoa minha cabeça de seus monstros
nunca foram bem vindos e nem sabiam
me afligir com a prática e habilidade
das velhas tormentas

temo a mágoa que causei nos meus fantasmas
entre apagar e desapagar a anemia os desenhou
com linhas mais finas e ainda estão fracos
pra empurrar minha cabeça aos melhores
abismos

fora monstros químicos!
bem vindos de volta, velhos fantasmas!
que tragam de volta o inferno criativo
que me deixava tão insuportável
a ponto de eu gostar de mim
e do que escrevia
voltem!




Walter Biancardine



INTOLERÂNCIA AO NORMAL

o ser humano é um mamífero
que evoluiu e criou o pão
desde antes da Bíblia
caçou e comeu carne
e fez vinho

mas hoje todos são
intolerantes à lactose
ao glúten
viraram veganos
e não bebem álcool

trocaram por drogas
jogos e apatia
e dizem ter evoluído





Walter Biancardine





segunda-feira, 12 de outubro de 2026

MEDIOCRIDADE EMBRULHADA PRA PRESENTE


existe uma diferença muito grande
entre um poeta e eu
eles colam imagens
eu faço um manual de instruções

fazer jornal é desenhar pra cegos
me acostumei a ser cão-guia
agora acho que todos são burros
eu matei a analogia
apaguei a figura
até na linguagem

tudo seria diferente se eu fosse
bonito e rico e só visse coisas boas
não precisaria dessa fantasia
dispensaria a porcaria
de poeta sofredor
só pra ver
se alguém me nota

porque não quero mais ninguém
ela já está dentro de mim e
a imundície a contamina
sem ter culpa disso
não é justo ela sofrer
porque quero escrever



Walter Biancardine




sábado, 10 de outubro de 2026

AMIGOS FANTASMAS


todo um sábado na cama
não é façanha sexual
mas o fundo mais profundo
daquele poço que conheço
tão bem

a cabeça virou caatinga
quando brota é fruto seco
espremo e nada sai
e as gotas que pingam
não prestam

quero ser de novo o velho
insuportável de sempre
na imundície que conheço
e me deixava escrever
sim, errei

não mais remédios
não mais química
que voltem os fantasmas
já são parceiros
me entendo com eles

me deem de volta 
meus fantasmas
meus tormentos
minha cerveja
chega




Walter Biancardine



sexta-feira, 9 de outubro de 2026

LOBOTOMIA 50mg


a sensação é ter a cabeça
e o coração vazios
faxina sem dó que varreu
até o que não devia

anestesia maldita agora
nem sei mais quem sou
sem fome não me conheço e
meus fantasmas se foram

eu os odiava e amava
convivia com eles
escrevia sobre eles
mas me sinto um deserto

inteligência artificial
baixou em mim em doses
escrevo direito mas
sem cor e cheiro e vida

parece a serpente que
me oferece a maçã do
bom sono e fim da dor
mas pede minha alma

uma cápsula me faz dormir
outra me anestesia
preciso agora de um deus
soprando a vida em meu nariz

nada sinto e nada me enoja
me vejo um robô no espelho
e odeio esse novo homem
limpo
asséptico
mecânico
sem coragem de voltar

a ser o velho imundo de sempre
porque doía demais

fogo ou frigideira?





Walter Biancardine




quarta-feira, 7 de outubro de 2026

JOÃO SEM SONHOS


João era marinheiro, e servia na Base Aero-naval de São Pedro da Aldeia.
Militar entusiasmado, conseguira chegar rapidamente à posições de destaque junto aos seus pares e a gozar de certo prestígio naquele restrito círculo.

Mesmo pagando mal, com condições de trabalho por vezes quase torturantes, o Sargento João prosseguia em sua carreira – ainda mais depois de haver conhecido uma bela mocinha, pela qual se apaixonara e casara tão rapidamente que pegara de surpresa amigos chegados e até mesmo parentes.

Estela era o nome de sua amada que, além de uma fatal beleza física, trabalhava e sustentava-se – coisa rara naqueles idos de 1970, ainda mais em uma pequena cidade como Cabo Frio.

Sua dedicação à João era comparável somente ao amor que nutria pela pintura, que retribuía sua atenção em obras incontestavelmente belas. Um crítico exigente até poderia apontar aqui e alí alguns senões, mas o que importava? Ela amava aquele homem que conhecera e aprendera a admirar como um bravo e competente militar, e nada seria maior que isso.

A vida seguia bela e feliz - coisa que, desde que o mundo é mundo, sempre irritou as invejas alheias - e com o casal não foi diferente: um superior de João, intimamente irritado com tanta felicidade, enviou-o para um dos piores trabalhos daqueles tempos – ajudar no aparelho repressor do governo, contra os subversivos.

O sargento não tinha saída: ou cumpria as ordens ou seria transferido para Rio do Sumiço, sabe-se lá onde. Como bom militar que era, cumpriu suas ordens o melhor que pode no frágil equilibrio entre seu dever e o que não lhe repugnaria a consciência.

Um dia, em um confronto com os tais subversivos, o Sargento João levou um tiro na perna que o deixou imobilizado durante meses. Uma longa recuperação se seguiu, com sua mulher o ajudando e amparando em todas as situações, até que o Alto Comando deu baixa em sua carreira.
João agora não era mais militar, e dias difíceis começaram.

O ex-sargento era agora um homem frustrado, irritadiço, que capengava pela casa mantida pela mulher que – além de tudo – ainda ouvia seus queixumes. Apegara-se João à promessa de um Almirante que, dizia-se, admirara sua bravura em combate, e iria providenciar seu retorno à ativa.
E assim os anos passaram, pingando lentamente como gotas de fel em uma taça de cristal que – percebia-se agora – embaçara.

                                 
* * *

Verdade seja dita, João até tentara trabalhar em outros empregos mas já não era jovem e, além do mais, talvez a única coisa que soubesse fazer bem fosse ser militar.
Persistia aferrado à promessa do Almirante, cada vez mais encolhido no papel de homem em casa, cada vez mais desestimando-se, descendo lentamente os degraus que levariam o comum dos mortais à depressão.
Sua mulher, por sua vez, era apenas um ser humano. Abrigava-se daquele homem que agora desconhecia em suas telas e pincéis, produzindo obras cada vez mais angustiadas, escuras e distantes da vida que um dia imaginara.

Tudo tornara-se um círculo vicioso: João sabia que sua mulher o conhecera soldado, admirara o soldado e somente o amor que ainda nutria pelo homem a fazia suportar a amputação da alma de seu marido, estrangeiro agora á ela e até á ele mesmo.

Um dia conversaram muito sério e Estela suplicou-lhe que esquecesse o sonho de voltar à ativa. Ela não aguentava mais aquele trapo assombrando sua vida e seu pedido era tão desesperado de amor que se esquecia do que significava. Se abandonasse seu sonho, quem seria João? Ela amaria aquele sujeito amorfo, sem profissão, sem história, quase um recém-nascido em vias de encanecer?

João sabia disso, mas mesmo assim arriscou, pelo igual amor que devotava à sua amada e bela mulher: foi ao Comando Naval e cancelou formalmente todos os inúmeros pedidos de reintegração que o Almirante fizera requerer.

                                 
* * *

Em 1970 Cabo Frio mal aparecia nos mapas do Rio de Janeiro. Quem vivesse na bela cidadezinha teria de se conformar em passar sua existência adulta como pescador, salineiro, empregado da Álcalis ou Prefeitura – as duas últimas opções apenas para um restrito número de privilegiados, seja por formação acadêmica, seja por apadrinhamento. João não tinha padrinhos nem formação, e vagou em vão pelas ainda salitradas ruas da cidade durante meses, errando de porta em porta, fazendo bicos insignificantes e vendo-se nitidamente diminuir cada vez mais diante de sua mulher.

Quem era João? Era apenas um homem sem sonhos, como a maioria dos mortais que amadurecem. Mas acostumara-se a viver com eles, acostumara-se com o brilho da farda – que, no íntimo, bulia com sua tôsca vaidade – e, sobretudo, acostumara-se a ser não só amado como admirado por Estela, cujos olhos enevoavam em mágoas e decepções por todo cada dia seus juntos. João amargava-se, Estela pintava e esperava dias melhores. A pobre mulher acreditava tanto em seu amor que confiava poder continuar amando aquele homem, ainda que ele fizesse a vida atrás de um balcão de açougue.

Mas, prudentemente, jamais cogitara se continuaria admirando.

Por alguma intuição misteriosa, João sabia que não haveria mais retorno em sua vida e resolveu ir embora. Ao menos sua mulher – ainda bela e jovem – teria a chance de refazer sua vida ao lado de gente normal, que jamais tivesse tido o desatino de afundar-se em um enlouquecido combate à comunistas, e que estivesse em condições de disputar seu lugar na vida como homem prestante e arrimo de família – coisa que, no fundo, envaidece uma mulher normal.

                                 
* * *

Estela não soube mais de João. Nem ela, nem seus amigos, ninguém.
Em uma cidade tão pequena como Cabo Frio, era um absurdo que ninguém houvesse ao menos avistado ele pelas ruas, mas era o que acontecia.

Suspeitara mesmo que houvesse ido embora tentar a sorte em outro lugar, até que um dia, tomando um suco no Café Society, os olhos treinados de pintora deram à Estela a visão de um homem que lia as manchetes dos jornais expostos na banca: era apenas um homem, mas não se podia dizer que roupas trajava, qual sua altura, que rosto tinha. Era uma figura difusa, sem contornos, sem alma.

Era um homem sem sonhos.

E Estela compreendeu que João se fora.




Walter Biancardine




BLACK FRIDAY ELEITORAL

então fulano ou beltrano 
ganham nas eleições
e tratam de sumir
uma legião os procuram

querem as vantagens
os acordos ou favores
e empregos prometidos
e cobram sem cerimônia

é o acordo com o capeta
e até conseguem fugir
do povo mas o pior é
cumprir os bastidores

nos bastidores cobram sua alma
enquanto o povo cobra cimento
ou um salário que não paga
uma pizza por dia

eu também sou hipócrita
porque se me oferecem
aceito sem piscar os olhos
meia pizza me basta

meu preço é barato
me vendo fácil
sou brasileiro
troco do pão

e sou bom em criticar
os outros




Walter Biancardine



terça-feira, 6 de outubro de 2026

A LAMA QUE AGARRA AO CHASSIS DO CARRO

 
Por mais que se faça cara de nojo, é possível se acostumar com uma casa suja. O tempo corre e a sujeira passa a fazer parte da paisagem, e mesmo teias de aranha compõem a decoração quase gótica da casa de um idoso.

A velhice traz o dom de nos acostumarmos com pesos-mortos. A sujeira é um deles, porque você nunca vai ver um velhote varrendo a casa e balançando o bundão ao som de "segura o tchan".

Outro peso-morto que os dias em excesso nos acostumam é a dor. Dor física, aquela que o tio do pavê sempre traz guardada no bolso: "dor nas juntas - junta tudo e joga fora", caso a infâmia da comida falhe. E o tal idoso acima, que jamais varreria a casa bailando, não o faz justamente por colecionar dores pelo corpo.

Outra coisa ruim que acabamos por nos acostumar é a insônia. Passa a ser normal varar madrugadas escrevendo, e os jovenzinhos que anseiam "farmar uma aura" de escritor maldito se deliciam em atravessar noites de tormentas, usando litros de café de alta octanagem como combustível.
Também já fiz isso, mas confesso que minha insônia sempre foi genética. Muitas madrugadas passei em claro simplesmente ouvindo rádio AM.

E então um belo dia, motivado por tempestades psíquicas, busco o atendimento psicológico. A psiquiatra me receita alguns remédios e ontem - precisamente ontem - foi meu début em seu uso.
E que paulada levei.

A verdade é que nos acostumamos a tudo, desde sujeira até dores, e só quando nos livramos delas é que nos damos conta de seu verdadeiro tamanho e poder sobre nossas rotinas de vida.
No meio da coleção de remédios receitados havia um que serviria pra dormir e, de quebra, atenuaria dores do corpo - até mesmo a tão mal-falada fibromialgia - e é a razão de eu escrever isso.

Tomei o remédio à noite e, em uma hora, desabei na cama.

Sono de chumbo, quase morte. Um sono tão pesado que, quando acordei hoje, tive a consciência imediata do quão violento foi esse "apagão". 
Dormi a noite toda, sem interrupção e - o mais incrível - sabendo que estava apagado.

E então acordei. E mais diferenças notei.

A verdade é que ainda me obrigo a levantar da cama. Preciso me convencer disso. Mas, após levantar, me dei conta que as velhas dores amigas simplesmente sumiram. A pior delas tem sido minhas costas quebradas, em decorrência de desavenças com um negão orçando lá pelos seus dois metros, há coisa de uns trinta anos atrás, e que hoje em dia me cobra seus piores efeitos - e ela sumiu.

Só isso me fez enxergar a vida e o mundo de uma maneira menos péssima. Me animei, lavei pratos, copos e fiz meu café numa agilidade perdida há uns dez anos ou mais. Posso arriscar dizer que, se tal efeito permanecer, em breve minha casa não terá mais as teias de aranha góticas que decoram a sala e o quarto.

Resta agora dar tempo ao tempo e começar a sentir os efeitos das outras medicações. Sim, pois o ponto principal ainda permanece igual e tudo ao redor me parece, ainda, somente trevas.

Tenho certeza, entretanto, que por mais que eu consiga controlar essas condições, jamais deixarei de farejar e enxergar toda a imundície à minha volta.

Não é minha depressão que as causa.

É a vida.




Walter Biancardine



segunda-feira, 5 de outubro de 2026

DOCE DEMAIS ENJOA


Não fui votar este domingo, nem fiz campanha pra ninguém.
Não publiquei uma só frase de apoio ou de crítica a qualquer candidato a qualquer cargo, porque abandonei o jornalismo.

Meu ofício é o mesmo que faço desde molecote cheio de espinhas: escrever contos, crônicas, poesias e outros descalabros assim.
A escrita é como o desenho que também pratico: uma arte. E artistas não devem se meter em política, pois só falam e fazem merda por mais doces, ternos ou suaves que sejam.

Não, meus queridos. O mundo nunca seria melhor se governado por doces poetas.
Pelo contrário, seria uma suruba ou o caos absoluto. E incluo nesse rol os filósofos - vivesse eu num local com Michel Foucault como governante e jamais sairia de casa, permanecendo com a bunda colada na parede.

Tudo o que é dito, sonhado ou imaginado por poetas, filósofos, músicos ou qualquer artista deve ser tomado sempre como um palpite. Palpite à parte das discussões, que até podem inspirar ações concretas de governantes mais sensíveis, desde que não se ajoelhem em felação ao dito cujo, mas que nunca sejam determinantes ou orientadoras das demais políticas.

A arte flutua acima da imundície, e a política é vida real, é imunda, é máfia pura. E água e óleo não se misturam.
Mesmo eu, que vivo de ruminar toda essa sujeira em meus escritos, não sou uma pessoa em condições de sugerir ou influenciar nada. Não é esse meu mundo, nada ganho com ele e nem quero.

Quem é artista pode ter a opinião política que quiser, votar até no Azul Caneta, pouco me importa.
Só não abra a boca sobre isso em público, ou será um desonesto se valendo de sua influência (temos um Gramsci aqui?) pra conduzir idiotas pela orelha, nas urnas.

Nestas eleições nada palpitei, nada falei, nada reclamei pois sou escritor, contista, poeta e artista (vá lá) plástico.
Apenas olhei à distância os demais, igualmente artistas, mas que cederam à vaidade de se tornarem "condutores de povos" - afinal, ter um talento na arte não dá a ninguém autoridade pra fazer análises políticas. 

Carregando minha arte nas costas, declaro-me uma perfeita besta política.

E, mais ainda, uma besta surda.
Nem perca seu tempo comigo.




Walter Biancardine



sexta-feira, 2 de outubro de 2026

MULHER DE JUÍZO


uma mulher ajuizada fareja roubadas
não se deixa levar por escritos
porque a emoção embaça o juízo
e não há nada como olhos nos olhos

não são interesseiras mas também
não são assistência social
homem que é homem vai na frente
e não há romance sem dinheiro

o amor vem da admiração
ela precisa admirar esse homem
mas ela não quer ir pra cama
com uma coleção de passados

uma mulher ajuizada não aposta
muito menos se o cavalo é velho
pois sequer há um futuro a crer
e seu papel não é ser asilo

amor e romance custam dinheiro
sempre cada vez mais caros
conforme o tempo avança e
a idade chega

amor e romance é coisa de jovens
é uma aposta no futuro e também
em tudo que é novidade na vida

e o mínimo que se espera
de um homem velho e decente
é que não se coloque na vitrine
se nada tem a oferecer

mulheres ajuizadas, fujam ao ver
um homem velho e miserável
sem esperanças nem teto sobre si
por mais belas que sejam
suas escritas

o amor é jovem
e custa dinheiro




Walter Biancardine



BAIXA GASTRONOMIA LITERÁRIA


não escrevo sobre filosofias
nem cito dizeres da Clarisse
quero que Dostoiévski se foda
e Kafka jamais acorde

não me meto em profundidades
nem tento parecer um gênio
só rabisco o que vejo na rua
nos bares ou nos lixos da vida

fingem não existir ou nem viram
como se Hemingway jamais tivesse
diarréias ou Virgínia Woolf 
não arrotasse após um Champagne

não é nesse mundo fino que vivo
meu carpete é de terra e sempre
sujo o chão de casa e também
as folhas que escrevo

todos os dias levo um pé na bunda
todas as noites tenho insônia
e nas manhãs nunca quero acordar
nem abrir a porta do inferno da rua

a barriga dói de fome e nada sei
de amanhã nem de nada no futuro
o psiquiatra me olha e balança
a cabeça em desalento

eu também me olho no espelho
e penso o mesmo que o psiquiatra
mas tenho ao menos pra onde correr
e que se fodam a cirrose ou ressaca

não resolvem o futuro nem passado
muito menos me dão um emprego
mas me fazem cair de cara no chão
e desmaiar dessa vida de merda

em que momento então eu vou lembrar
de Dostoiévski ou de um bêbado igual
chamado Bukowski que ao menos tinha
algum trabalho e sobrevivia?

pego o determinismo e enrolo junto
com todo meu livre arbítrio e enfio
na bunda do primeiro filósofo que
me citar que é aporia

porque Nietzsche não paga meu almoço
Shakespeare nunca me alugaria a casa
e nenhum deles ainda que reunidos
convenceria aquela maldita que a amo

porque amor custa dinheiro e precisa
de emprego pra provar que é verdade
e escrever não paga diária
nem empreitada

resta beber e esperar
o fim dessa agonia

e que se fodam todos os belos
magníficos e geniais poetas
e escritores que me esfregam
em minha cara bêbada

de que me serve toda essa grandeza
diante de minha fome
e dor de corno?




Walter Biancardine