Ultimamente tenho dedicado os dias à me readaptar. Até a roça muda e descobri algo que, na vez anterior que vivi aqui, não havia obtido: um ponto milagroso, na linha de visada de distante antena de celular, onde às vezes consigo captar algo da internet.
É bom. Posso mostrar que ainda vivo e me mantenho sabendo vagamente das coisas - embora a maioria delas não mais me interesse.
Soube, por exemplo, que o povo do Irã - creio somado a um empurrãozinho de Trump - parece estar tentando dar um pé na bunda daquela maldita raça dos Aiatolás.
De fato, lembro quando essas viboras tomaram o poder em 1979. O Irã era um país rico - lógico, pois quem deseja o poder em um país quebrado? - altamente ocidentalizado nas mãos do Xá Reza Pahlevi. Ostentava uma impressionante quantidade de mulheres lindas - fantásticas mesmo - a desfilar suas abundâncias nas ruas. Tinham dinheiro, deusas das Mil e Uma Noites nos braços e uma vida boa. E isso incomodava os Aiatolás, raça possuidora de evidente patologia contra o sexo oposto e a felicidade alheia, como um todo - tal qual os esquerdistas.
Em 1979 eu era um jovenzinho de 15 anos. Inocente, irresponsável, cujas únicas preocupações eram se meus artigos seriam aceitos no Pasquim ou JB, bem como pegar onda na praia, ler e planejar viagens de bicicleta. Eu era um guri quando os Aiatolás tomaram o poder.
Hoje, 2026, estes mesmos facínoras tem seu reinado aparentemente encurralado - e eu sou já um velho.
E se eu fosse iraniano?
Teria gasto os melhores anos de minha vida tolhido por uma ditadura. Não poderia falar. Não poderia escrever. Não poderia sequer ter sexo, a depender de minhas escolhas ou hábitos. Uma vida inteira útil jogada no lixo, tal qual fiz com a minha no Brasil.
A diferença é que aqui, se joguei tudo fora, foi por minhas escolhas. Eu decidi. Eu arrisquei. Não posso culpar ninguém.
Mas no Irã eu poderia, pois teriam decidido por mim, escolhido por mim e até, quem sabe, ter sido castrado por meus desvairios sexuais ou condenado a 100 chibatadas diárias por minhas bebedeiras.
Vejo hordas de imbecis babando o Ladrão de 9 dedos. Eles sabem muito bem que a esquerda, o "progressismo", tem como principal objetivo a implantação de ditaduras - mas fingem ser mentira. Esse povinho militante e das redes sociais quer, sim, uma ditadura. Os patifes creem piamente que ganharão cargos muito bons na mesma, por gratidão dos poderosos. De fato, ditaduras são ótimas. Para quem vive delas.
Um dia, entretanto, farão ou falarão alguma besteira. Algo que desagradará o Todo-Poderoso vigente. E cairão em desgraça - proscritos, conhecerão o outro lado da moeda. O lado podre.
E finalmente torcerão pelo fim da ditadura.
Se derem muita sorte, este fim chegará com eles - e nós - ainda vivos. Vivos mas velhinhos. Decrépitos. Vida jogada fora.
E aprenderão, tarde demais, que não se brinca com a liberdade - estamos sempre a uma simples eleição de perdê-la.
Como já a perdemos, por aqui.
Só o martírio nos compra a dignidade de volta.
Nunca é fácil.
Nunca é com eleições.
Nunca é sem dor.
Nunca é sem sacrifício.
Nunca é sem sangue.
Walter Biancardine