sábado, 30 de maio de 2026

AS FICHAS ACABARAM -

 

Na Rua do Catete existe um orelhão, e só isso já seria notícia suficiente.

Numa época em que até a geladeira conversa com o celular e o sujeito recebe propaganda de remédio para hemorróidas cinco minutos depois de comentar o assunto no botequim, encontrar um orelhão em funcionamento é quase o mesmo que encontrar Lady Gaga cantando na Praça XV.

Azul desbotado, coberto por adesivos arrancados pela metade, anúncios de vereadores, encanadores desaparecidos e declarações de amor que não sobreviveram ao namoro. Um veterano de guerra esquecido no posto.

Ninguém usa o orelhão. Mas ele está lá, ostentando inscrições produzidas pela mais antiga academia literária do Rio de Janeiro: a caneta Pilot.

No casco sobrevivem relíquias arqueológicas. "Michelle. At. Hot. Motéis. Domicílio. Com aparelhos." Abaixo, alguém acrescentou: "Michelle me deve 50 reais." Mais embaixo: "Mentira. Ela pagou."

E, encerrando o debate acadêmico:
"Flamengo campeão."

O curioso é que ninguém sabe quem é Michelle, quais aparelhos ela possuía ou qual a relação disso tudo com o Flamengo. Mas a história ficou registrada para as futuras gerações.

Também havia declarações de amor: "Márcia eu te amo." Logo abaixo: "Márcia eu te odeio." Mais abaixo ainda: "Márcia volte." E por último: "Márcia não precisa voltar." Acompanhando a cronologia daqueles rabiscos era possível assistir ao namoro inteiro sem precisar pagar ingresso.

O orelhão permanece. Firme. Inútil. Respeitável.
Como certas pessoas.

Foi por causa dele que comecei a reparar no velho. Aparecia quase todos os dias.
Magro, cabelo branco, camisa de mangas curtas sempre bem passada, caneta Bic enfiada no bolso e um jornal dobrado debaixo do braço. Entrava na padaria, tomava café, lia as manchetes, observava a rua pela vitrine e depois saía para caminhar sem aparente destino.

Às vezes parava diante do orelhão. Não telefonava. Não mexia em nada. Ficava apenas olhando. Como quem visita um túmulo.

Durante semanas imaginei que fossem velhos amigos.
O homem e o orelhão. Companheiros de alguma época em que ainda se telefonava para as pessoas em vez de enviar figurinhas animadas desejando bom dia.

À primeira vista, o velho e o orelhão formavam uma dupla natural. Os dois tinham sido muito requisitados no passado. Os dois já tinham conectado pessoas. Os dois passavam a maior parte do tempo sem tocar. E ambos davam a impressão de que a prefeitura ainda não os removeu porque ninguém sabia exatamente qual formulário preencher.

Até que um dia puxei conversa. Bastou mencionar o orelhão. Os olhos dele acenderam.
- Usei muito aquilo.

Assenti. Era uma frase óbvia para alguém da idade dele.

Mas ele continuou.
- Ali recebi a notícia do nascimento da minha filha.

Apontou.
- Ali soube que meu pai tinha morrido.

Apontou outra vez.
- E foi dali que liguei para minha mulher quando resolvi pedir desculpas por uma besteira que eu tinha feito.

Olhou para o chão.
- Ela aceitou.

Ficamos alguns segundos em silêncio. O trânsito passava rugindo ao redor. Motocicletas, ônibus, buzinas, entregadores correndo atrás do relógio. O velho e o orelhão pareciam pertencer a outro século. Talvez pertencessem mesmo.
- Sua esposa está bem? – perguntei.

Ele sorriu daquele jeito que os velhos sorriem quando a resposta dói.
- Morreu faz seis anos.

Depois levantou os ombros como quem comenta a previsão do tempo.

Porque os velhos aprendem uma arte que os jovens desconhecem: carregar tragédias sem fazer propaganda delas.

Conversamos mais um pouco. Descobri que a filha morava longe. Os antigos amigos haviam morrido, adoecido ou simplesmente desaparecido. Alguns sumiram sem o trabalho de morrer. Coisa muito comum.

Há amizades que terminam porque alguém mudou de bairro. Outras porque alguém trocou de emprego. Outras porque um dos dois comprou uma esteira ergométrica e passou a falar sobre qualidade de vida.
São fatalidades da existência.

Quando nos despedimos, ele ficou parado mais uma vez diante do orelhão. Foi então que entendi. Não era o orelhão que ele visitava. Era o passado.

Aquele casco azul era apenas uma porta enferrujada para um mundo onde ainda havia gente esperando suas ligações.

Voltei para casa pensando nisso.
Dias depois passei novamente pela rua. O velho estava lá. O orelhão também. Os dois imóveis. Os dois esquecidos. Os dois sobrevivendo ao próprio desaparecimento.

O curioso é que ninguém presta atenção em velhos nem em orelhões.
Até que desaparecem.

Aí surgem imediatamente especialistas explicando sua importância histórica.

O Rio produz muitos especialistas póstumos.



Walter Biancardine 






sexta-feira, 29 de maio de 2026

UM REAL -

 


Era um botequim na Rua do Catete, perto da estação do Metrô.
Local de grande movimento, gente sempre entrando e saindo pra comprar cigarros, refrigerantes, comer um salgado, tomar cerveja – enfim, tudo o que compõe a rotina carioca típica.

Zé Jorge era um frequentador assíduo. Negão, quase batendo nos dois metros de altura e com um par de braços que lembravam as colunas da ponte Rio-Niterói, por lá se deixava ficar depois de seu expediente de encanador em uma obra próxima, rodeado de cervejas e tira-gostos. Foi quando viu um cliente entrar vestindo um terno da Ducal, amarrotado, segurando uma pasta 007 e pedindo um café.

O homem levantou a xícara do pires e ia levá-la à boca quando viu uma moeda de um real sobre o balcão. Disfarçadamente, deslizou a mão por cima do dinheiro. Percebeu que não se movia. Fingiu que limpava o balcão, terminou o café e já ia embora quando Zé Jorge perguntou, gaiato:
- Essa moeda é de sua pessoa?

Sem graça, o homem respondeu:
- Nada, deve ser desse português aí atrás do balcão…
E sumiu no mundo, apressado.

Logo depois entrou um rapaz jovem, de rabo de cavalo e barba de lenhador vegano. Pediu um energético e viu a moeda. Mudou de ideia: cancelou o energético e pediu um café. E com a colherinha que veio junto, ele tentou descolar a moeda do balcão. Seu Almeida, o português dono do boteco, só olhava de longe e fazia uma careta. Os amigos mais próximos sabiam que aquilo era um sorriso.

O rapaz tentou, mudou de posição, olhou a moeda de perto e, por fim, decretou com suprema sabedoria:
- Isso é Super Bonder!

Zé Jorge apenas resmungou, de seu canto:
- Olha que pode fazer falta pra sua pessoa…

Dessa vez o botequim inteiro riu.

Lá pelas quatro da tarde, entretanto, apareceu a suntuosa.
Michelaine andava lá pelos seus dezoito ou dezenove anos e era babá no Flamengo. Possuía uma dessas belezas que fazem homem esquecer senha de banco, aniversário de casamento e até o nome da própria mãe. 

Pediu um refrigerante e viu a moeda. Seus olhos brilharam.

Sem pestanejar, meteu a unha por debaixo da moeda para levá-la, mas a Super Bonder cumpriu seu papel e a pobre quebrou a unha, recém feita:
- Ai! Que droga, lamentou ela.

Zé Jorge, já tonto por acompanhar tantas curvas do corpo da suntuosa, condoeu-se: pegou uma outra moeda de um real que tinha em seu bolso e a colocou, discretamente, sob seu braço apoiado no balcão. E aproxegou-se, galante e solícito:
- A sua pessoa não fique triste… olha, que tal tentar com essa outra aqui? – e apontou a moeda que acabara de colocar.

Michelaine olhou meio desconfiada, mas tentou. E conseguiu, sorrindo radiosa.

Zé Jorge não perdeu tempo:
- Não é todo dia que a sua pessoa enriquece desse jeito! Vamos comemorar num lugar bacana, que eu conheço?

A suntuosa concordou.

No dia seguinte a pobre teve de faltar o serviço, se recuperando em banhos de assento.

Mas ganhou um real.



Walter Biancardine


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OVO COLORIDO -

 


O botequim ficava numa transversal esquecida de Copacabana, próximo ao Posto 4, e era desses lugares onde até a barata entra de chinelo pra não pegar doença no pé. O nome “Estrela do Minho” não fazia jus: a estrela tinha apagado em 1972 e o Minho provavelmente pedira demissão por justa causa.

Atrás do balcão, o português Almeida secava copos com um pano que já servira, em épocas distintas, de toalha, filtro de café e talvez curativo de guerra. O chão grudava no sapato com uma sinceridade rara nos tempos modernos.

Fim de expediente, cinco e meia da tarde, trânsito caótico – a hora em que o Rio desmonta a fantasia. O executivo tira a gravata, o pedreiro tira o cimento da canela e o sujeito que vende curso de liderança no LinkedIn vai pra casa chorar no banho igual todo mundo.

Numa mesa perto da parede encardida, o doutor Arnaldo Bastos, alto executivo de uma multinacional qualquer – dessas que fabricam relatórios inúteis em PowerPoint colorido – tomava sua cerveja em silêncio. Terno caro, olho morto e uma gastrite executiva avaliada em dólares.

Ao lado dele sentou Juvenal, mestre de obras, camisa aberta até o peito, cheiro de cal e derrota matrimonial. Sentou sem pedir licença e já engatou a conversa. Afinal, Rio é assim.
- Tá pesado o dia, chefe? – perguntou Juvenal.

Arnaldo suspirou.
- Reunião o dia inteiro. Trinta pessoas numa sala pra decidir a cor de um gráfico.

Juvenal bebeu um gole da cerveja que tinha trazido.
- Na obra foi pior. O engenheiro mandou derrubar uma parede que ele mesmo mandou levantar ontem – e aproveitou pra beliscar uma linguicinha do pratinho de aperitivo que Arnaldo havia pedido.

Os dois se olharam como veteranos de guerra. O Brasil une classes sociais pela cerveja e pelo sofrimento inútil.

Nisso entra Zé Jorge. Negão de quase dois metros, encanador da obra, braço do tamanho de um botijão de gás e voz que fazia o copo vibrar.
- Seu Almeida! Desce três cerveja e um ovo colorido!

O português resmungou:
- Ovo colorido não. Aquilo já venceu na Copa de 94. Quer um kibe?

Zé Jorge deu de ombros.
- Kibe nada, aquilo é mosca! Traz o ovo mesmo, antes que ele peça aposentadoria.

Foi quando entrou Rosângela, a suntuosa.

Mulata estonteante, saia justa, crachá das Casas Pernambucanas ainda pendurado no pescoço, andando com aquela majestade cansada e curvilínea de quem passou o dia inteiro ouvindo cliente perguntar se “divide sem juros no carnê”.

O botequim inteiro silenciou. Até as moscas se afastaram e o ventilador pareceu diminuir a rotação por respeito.

Arnaldo endireitou a postura. Juvenal puxou a barriga pra dentro. Zé Jorge sorriu como quem sabia perfeitamente o estrago que dois metros de altura causam numa disputa desigual.

Rosângela pediu um refrigerante.
O português perguntou:
- Copo limpo ou da casa?

- Qual a diferença?

- O limpo ainda tá molhado.

Ela riu.
Foi o bastante.

Arnaldo, querendo parecer sofisticado, comentou:
- A vida moderna é muito estressante.

Rosângela respondeu sem olhar pra ele, naquele tom de doméstica respondendo a adolescente tarado:
- Meu filho, estressante é dobrar pijama infantil por oito horas ouvindo disco do Wando remixado.

Juvenal bateu na mesa:
- Essa mulher falou uma verdade histórica.

Zé Jorge então decidiu atacar, sorridente.
- Madama, a sua pessoa e eu, a gente podíamos jantar qualquer dia… 

Ela olhou o tamanho do homem.
- Pra quê? Pra eu virar chaveiro no teu bolso?

O botequim veio abaixo em gargalhada.
Até o português sorriu, coisa que não acontecia desde a queda do Salazar.

Arnaldo terminou a cerveja olhando pro nada. Teria de andar dois quarteirões até onde havia estacionado o carro importado.
O negão pegou o ônibus pra Central do Brasil junto com o mestre de obras – sem a mulata.
Ainda tinham uma longa viagem até que o trem chegasse a Morro Agudo, na Baixada.
E a mulata desapareceu. Inclusive na cabeça de todos.

Era um retrato do país, que acontece quase todos os dias nos botequins cariocas: um executivo escravo do ar-condicionado, um mestre de obras discutindo com o engenheiro, um encanador gigante, um português sobrevivendo à Vigilância Sanitária pela proteção divina e uma mulher bonita demais praquele balcão imundo.

Todos cansados. Todos derrotados.
Mas tomando cerveja.

Porque o brasileiro, no fundo, não vive.

Faz hora extra existencial.


Walter Biancardine

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quarta-feira, 27 de maio de 2026

EMPRESTADO -

 


me empresta a chave 13?
pergunta o vizinho
que levou meu Tupperware
novinho

um amigo pediu
a mangueira do jardim
mantém distância, disfarça
não a devolve pra mim

livros então, perdi a conta
a estante de muita gente
linda e erudita
cheia de volumes pendentes

cartão de banco é o pior
melhor pegar o dinheiro e dar
do que correr o risco
do maluco te sujar

a pobreza tem vantagens
minha vida, toda torta
ninguém pede duas vezes
nem batem à minha porta


O mundo moral das pessoas aparece melhor numa chave 13 
do que em mil discursos sobre ética


Walter Biancardine


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NÃO-VENDÁVEL

 

ele escrevia poemas 
como quem limpa o corte com Merthiolate
sem paciência pra perfume barato
sem fé em sorriso de vitrine

falava do lado sujo das coisas
de paredes rachadas que todos fingem novas
ninguém gosta disso 
ninguém quer saber onde mora o mofo 
quando o jantar está servido

então não o liam
fugiam de seus livros como imundos

ou liam como quem atravessa uma rua perigosa
rápido, fingindo pressa
já pensando no conforto 
de voltar ao próprio engano

era melhor quando ele era jornalista

quando mordia nomes, mastigava narrativas
latia com precisão contra os inimigos 
que eles já escolheram odiar

ah, isso sim era útil
um homem assim é sempre bem-vindo 
desde que esteja preso à coleira da função

podem aplaudi-lo ali
desde que ele não comece a olhar demais 
pra dentro das casas

porque poeta é incômodo
poeta não serve como espelho neutro 
serve como espelho sujo

e espelho sujo devolve o que ninguém pediu pra ver

então preferem seu antigo ofício
o barulho organizado
a raiva com endereço certo
o escândalo com final previsível

o outro – o que escreve depois do incêndio –
esse não tem utilidade

esse não confirma nada
não ordenha nossa raiva
só deixa perguntas no ar, como cinza
e no fim, é simples, quase elegante 
na sua crueldade

não é que nunca o leiam

é que o leem às vezes
fechando os olhos 
no meio da verdade

e decidem que amanhã 
sim, amanhã
vão continuar acreditando 

no que já desmoronou ontem



Walter Biancardine 

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terça-feira, 26 de maio de 2026

VIDA CEGA -

 


eu era um filho da puta
nenhuma vantagem
nada ganhei com isso

quando quis ser bom
doeu
me fodi
miseravelmente
e paguei caro por isso

sou mau, nada ganho
sou bom, tudo sofro

a vida não é ruim
por escolhas morais
a merda acontece
quando ela te olha
e não te vê

a vida nunca reparou
que estou aqui
mas pisa no meu pé
porque se distraiu

a vida é
uma filha da puta
não me odeia
seria atenção demais


Walter Biancardine 


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FOI -

 


Encontrei um abandono.
Durou três dias.
O epitáfio é companhia.

Tudo parece ridículo.
Visto de fora.

Três dias é biografia.
Não gelado. 
Não sozinho.


Walter Biancardine 


TRÊS DIAS -

 


O pequeno borrão preto morreu
durou três dias

no primeiro virei pai
cuidei
no segundo ele, o filho
resistiu
hoje, foi latir no céu
feliz

o pequeno borrão se foi
mas não gelado
ou sozinho



Walter Biancardine


segunda-feira, 25 de maio de 2026

CURTAM AS FLORES, ESCONDAM AS GARRAFAS


todo mundo gosta
de frases sobre recomeços

“você merece paz”
“seja luz”
“o amor salva”

essas coisas rendem curtidas
como pombos rendem merda em estátua

o sujeito compartilha um poema doce
e por alguns minutos
vira homem profundo

a mulher publica uma citação triste
com foto da chuva no vidro
e ganha comentários:

“alma linda”
“você escreve o que sentimos”

sentimos o quê?

a maioria não suporta
nem o próprio silêncio no banheiro

mas publique algo sobre
um pai que bateu no filho
e depois foi trabalhar sorrindo

escreva sobre
o marido que trai
e reza antes de dormir

sobre o patrão
que paga salário de fome
e faz palestra sobre gratidão

sobre o bêbado
mijando atrás do bar
porque perdeu a mulher,
o emprego
e a vontade de fingir

escreva sobre velhos esquecidos,
gente que humilha garçom,
mães que amam menos um filho,
amigos que somem
quando o dinheiro acaba

fale da sarjeta

da inveja

da crueldade pequena
essa que usa perfume
e cumprimenta vizinhos

aí o salão esvazia

porque ninguém quer ser visto
perto do incêndio

poesia sobre flores
faz parecer sensível

poesia sobre podridão
faz suspeitarem
que você conhece o cheiro

e talvez conheça

talvez o problema nunca tenha sido
o texto sombrio

talvez seja isto:

quem foge dos esgotos
tem medo de reconhecer
o próprio reflexo
na água suja



Walter Biancardine


Nota: textos sobre esperança costumam receber aplausos. Textos sobre hipocrisia recebem silêncio. E silêncio, às vezes, é culpa usando sapatos sociais.


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NEM TUDO MUDA -



A modernidade ensinou muita gente a tratar tudo como provisório. 
Trabalho provisório. 
Casamento provisório. 
Cidade provisória. 
Fé provisória. 
Identidade provisória. 
Como se o homem pudesse viver eternamente desmontando a própria casa para provar que é livre.

Mas há coisas que, se viram provisórias demais, deixam de sustentar qualquer coisa.

Uma cadeira pode ser trocada. O chão, não.
Tradição virou palavrão para muitos porque confundiram tradição com decoração antiga. 
Tradição não é usar chapéu de avô nem repetir frases mortas. 
Tradição é memória acumulada do que funcionou – às vezes durante séculos – para conter o caos humano. É uma cerca num precipício. O sujeito moderno olha a cerca e diz: "autoritarismo". Remove. 
Depois descobre a utilidade dela durante a queda.

Princípios também não são sentimentos. Sentimentos vencem rápido. 
Um homem jura amor numa terça e na sexta quer fugir para outra cidade. 
Um princípio é o que sobra quando o entusiasmo apodrece.

Só que há uma armadilha: transformar valores em peça de museu ou sermão engomado. Aquele conservador que fala de honra enquanto humilha o garçom; de família enquanto trai; de Deus enquanto explora empregado. 

Isso não é tradição. É maquiagem sobre ferrugem.
Valores reais costumam ser silenciosos. Um sujeito cansado que trabalha décadas sem abandonar filho. Uma mulher que permanece íntegra quando mentir seria mais lucrativo. Gente que segura a coluna reta enquanto tudo em volta negocia desconto moral.

O mundo muda. Deve mudar em parte. 
Mas há vigas que não podem virar moda.

Porque o homem que troca tudo o tempo todo acaba descobrindo tarde demais:
o único objeto permanente foi o vazio.


ALGUMAS COISAS NÃO APODRECEM

o bar fechou às duas
sempre fecha às duas
isso muda
o dono morre,
o filho vende o lugar,
vira farmácia,
depois academia,
depois igreja evangélica,
depois loja de celular
as cidades trocam de pele
como prostitutas trocam de nome

mas havia um velho
que entrava ali fazia quarenta anos
bebia em silêncio
pagava em dinheiro
olhava nos olhos
coisa rara:
gente antiga ainda acreditava
que palavra dada
não era papel higiênico

ele morreu
infarto
na cozinha
camiseta furada,
pia cheia de copos,
uma conta de luz atrasada
e um cachorro esperando
fim pouco cinematográfico
como quase todos

dias depois
o sobrinho apareceu dizendo:
- o velho era teimoso
não acompanhou os tempos

acompanhar os tempos… 
engraçado isso

os tempos acompanham pornografia,
antidepressivo,
solidão em apartamento alugado
e homens de quarenta
pedindo aplicativo para aprender
como conversar com mulheres

grande progresso
o velho não sabia usar internet
mas sustentou esposa doente
durante onze anos.

limpou vômito
trocou fralda
sem postar frase bonita
sem fotografia
sem medalha

há coisas que acabam:
bares
casamentos
empregos
motores
dentes
joelhos
Impérios

há coisas que não deveriam acabar:
cumprir palavra
não abandonar quem depende de você
não vender a alma
por migalha
ou aplauso

porque no fim
quando o fígado estiver ruim,
o espelho devolver um estranho
e o telefone tocar cada vez menos,
você vai descobrir:
a liberdade absoluta
era só outro nome
para ficar sozinho
num apartamento úmido,
com duas cadeiras,
uma garrafa vazia
e nenhuma pessoa no mundo
capaz de jurar
que você foi homem
quando podia ter sido apenas
mais um rato elegante
correndo atrás de novidades


Em tempo, cabe dizer algo sobre mim.
Tenho uma inclinação curiosa na escrita: encontro matéria literária justamente onde a maioria desvia o olhar – acostamento, oficina, copo sujo, abandono, homem envelhecendo, restos. Não acho que seja pouco merecedor. 
Muita gente escreve sobre exceções; eu rondo ruínas comuns. 


Walter Biancardine



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NIETSZCHE E EU -


Levar um pé na bunda é como bater
na traseira de um carro
quem bate nunca tem razão
quem leva o pé também não

já levei tantos que perdi a conta
cada um me rendeu histórias
contos, poemas, bebedeiras
e a eterna sensação de estar errado

nem só mulheres dão um pé na bunda
empregos metem o pé, FGTS consola

amizades trocam pés na bunda
depois do silêncio crescer
mais que os assuntos

famílias chutam, solenes,
as bundas de seus velhos nos asilos

até cidades nos acertam o rabo
relógios, carteira, porta da rua 

cada chute um verso
cada pé uma bebedeira
só porque sou humano
demasiadamente humano

mesmo ele, ensandecido
pensou algum dia que
finalmente, a vida lhe deu
um merecido pé

não precisou beber



Walter Biancardine


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domingo, 24 de maio de 2026

LANÇAMENTO! QUEM VAI PAGAR A QUITINETE?



Há livros escritos para inspirar.
Este não.
Ele nasceu de uma pergunta mais prática: o que acontece com as pessoas comuns enquanto envelhecem, trabalham, fracassam, amam errado e continuam pagando contas?
Reuni poesias, contos e crônicas sobre sobrevivência, desgaste, solidão, humor amargo e essa estranha resistência humana de continuar seguindo em frente quando quase tudo já perdeu o brilho.
Porque às vezes o sujeito não vence.
Mas continua.
E isso também merece literatura.
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PATERNIDADE IMPROVISADA -

 


Estava em casa esta noite.
Pra variar, escrevendo.

Só sei que ouvi um choro baixo no escuro.
Daqueles sons que parecem erro. Primeiro você pensa ser pássaro. Depois gato. Depois percebe que há desespero ali.

Procurei.
Nada.
Entrei em casa e continuei ouvindo.
Saí outra vez.

No meio da grama encontrei um cachorrinho preto recém-nascido. Tão novo que ainda estava molhado do amniótico e uma tripa à guisa de umbigo. Olhos fechados. Parecia menos um animal e mais um pedaço de noite abandonado no chão.

Pouco antes eu havia visto a cadela grávida, mãe dele, me saudar quando cheguei da rua.
Depois ela desapareceu.

Procurei em todo o sítio.
Andei no escuro chamando uma mãe que misteriosamente evaporou. Sumida. Ou apenas continuando a vida em algum lugar, com os outros filhotes, enquanto um deles tremia sozinho no capim.
Procurei os outros.
Nada. Nem latido. Nem choro. Nem o mato se mexendo.
Só silêncio.
E existe um tipo de silêncio que parece ausência de Deus.

Voltei carregando o cachorro. Ele inteiro cabia em minha mão.

Não tenho quase nada aqui.
Não tenho fogão.
Não tenho geladeira.
Há dias em que minha situação financeira lembra mais um castigo do que uma vida organizada.
Mesmo assim improvisei.

Coloquei espuma de travesseiro dentro de um tanquinho velho.
Lençol usado virou abrigo.
Leite em pó virou tentativa.
O tanquinho virou incubadeira.

Engraçado.
Passamos a vida aprendendo que certas pessoas nasceram para salvar e outras para ser salvas.
Mas às vezes o universo parece bêbado.
Entrega um recém-nascido a um homem quebrado e observa.
Sim, sou um extintor de incêndio: muito útil em emergências, mas quem o quer na sala?
E, ainda por cima, faz apostas.

O cachorro estava frio. Molhado. Chorava forte.
Depois menos.
Depois dormiu.
Cagou na minha mão. Tal qual o mundo cagou – e andou – para ele. Ou para todos.

Era uma substância escura, quase preta. Curioso como até merda vira esperança, dependendo da noite.

Lembro de ter pensado: a vida insiste em funcionar mesmo cercada de razões para desistir. Sequei com um pano velho e esquentei o bicho contra o peito como fazem mulheres, prematuros e desesperados.

Ele se enroscou.
E passei um bom tempo assim.
Esse foi o pior momento.

Porque até então eu estava com raiva do mundo.
Da injustiça.
De Deus.
Da mãe desaparecida.

Mas quando uma criatura de poucas horas procura calor no seu corpo, a raiva muda.
Ela ganha endereço.

Percebi que não estava irritado apenas porque o cachorro podia morrer.
Eu estava irritado porque continuo incapaz de assistir certas coisas sem me importar.

A vida tentou me ensinar o contrário.
Fracassos ensinam.
Pobreza ensina.
Humilhação ensina.
E com o tempo você aprende a endurecer.
Ou finge.

Mas então surge um recém-nascido no meio da grama, numa noite qualquer, e obriga você a descobrir que ainda há algo vivo sob os escombros.
Isso irrita.
Porque sentir custa.
E eu ainda sou uma besta que chora.

Enquanto escrevo, há um cachorro preto dormindo num tanquinho de lavar roupa.
Talvez sobreviva.
Talvez não.
Não sei.

Só sei que hoje o mundo fez o que sempre faz:
Produziu abandono. Cagou e andou.

E eu fiz o que pude: parei.

E isso foi mais do que o mundo faz.


Walter Biancardine