quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CALMANTE

pois vá ao bar e escolha
o cara com mais cara
de filho da puta que 
tiver por lá

e soque a cara dele
chute e espanque
e ele vai te socar
te chutar e morder

quebre uma garrafa 
em sua cabeça e
uma cadeira de madeira
em suas costas

e ele desmaia no chão
beba sua cerveja
ajeite o saco nas calças
olhe vitorioso pra todos

acenda um cigarro
cuspa no chão
e vá embora
antes que a vida
volte a doer

nada precisou ser dito
e se não entenderam
respeitaram




Walter Biancardine



DIAS RUINS

alguém me vê cabisbaixo 
e vem falar comigo e
tentar consolar e ajudar

fala de Deus e de sua 
misericórdia e amor
e um diabo desperta em mim

busco tudo o que sei
o que aprendi em anos
estudando filosofia e 
teologia e trituro todos
os seus argumentos 

ela só quis me ajudar
e o que fiz?

reduzi a pó sua fé e seu
consolo e apoio nas piores
horas da vida

e a troco de quê?

de provar que estou certo
e que sou culto e inteligente 
e ganhar a discussão?

não isso

provei apenas o que ela
devia saber
que sou só um bom
filho da puta




Walter Biancardine 



TRANSITADO EM JULGADO

fui à justiça contra mim mesmo
por abandono material
me larguei passando
necessidades

quis me processar
por ser um “eu ausente”
nunca estar presente
nos momentos que
precisei
fuga era regra

queria indenização
de mim mesmo por
tortura psicológica
dia e noite
me sabotando ao lembrar
que sempre me disseram
ser incapaz

acionaria o
conselho tutelar
por bullying meu contra mim
acreditando que meus dons
eram coisa de
vagabundo

acusaria a mim de assédio
por não discordar de tudo
de ruim que me acusaram
onde trabalhei
onde estudei
onde morei
onde nasci

eu arrancaria até
o último tostão de mim mesmo
se tivesse eu algum dinheiro 
depois de tantos
crimes que me inflingi

já transitei em julgado
não me indenizei mas
me condenei

creio entretanto
que a opinião pública
dos poucos que me cercam
achou pouco

e a pena branda

publique-se
intime-se
cumpra-se





Walter Biancardine



BOLA PRETA VENCE BOLA BRANCA


colunista social desempregado
o mundo do glamour acabou
charme e fascínio e admiração
só existe por mim mesmo

minha coluna social são as redes
não tem as top 10 mais bem vestidas
se todas estão nuas na festa
nem os dez homens mais elegantes
com todos usando bermudas e camisetas

posso tirar alguém da favela
mas não posso tirar a favela dele
posando sentado em sua Ferrari
parecendo um avião da biqueira

na guerra do feio contra o mundo
a lista de baixas é imensa
e já se foram
o charme
a graça
a elegância
a educação
o bem vestir
o glamour
e com eles morreram as lendas

Ibrahim nada teria a dizer
e Amaury acertou em cheio
ao dizer que hoje
todos são Amaurys
de si mesmos

o sonho acabou

sorry, periferia
e ademã que vou em frente



Walter Biancardine



JÁ É O BASTANTE

vida digna é pra quem é digno
nem precisa ser perfeito
mas que chegue perto
já basta

eu aqui feito besta pedia
uma vida digna mas
não percebi que nunca
estive nem perto
de ser
digno

mudei meus desejos e também
os pedidos que insisto
agora só quero um teto
que não me expulsem
tão cedo

um pouco de comida e café
agasalho pro frio e
meus cigarros

quem sabe cerveja também

desde que eu possa
continuar escrevendo

agora entendi
e me basta




Walter Biancardine


terça-feira, 11 de agosto de 2026

FRIEDRICH

aqui tem cavalos
dois que me vêem e me buscam
muito bom não haver ninguém
não quero arriscar assistir
alguém espancá-los

ainda não escrevi
nada imortal



Walter Biancardine


O AMOR É UMA MERDA

quem tem você nas mãos
te despreza e ignora
quem não pode ter você
não se iluda
te odeia

conte nos dedos
de uma mão amputada
aqueles que amam
não têm a quem amam
e mesmo assim
preservam

fico pensando
se existe algo que seja
mais injusto e cruel
e vingativo e mau

que sentimentos humanos




Walter Biancardine


A REALIDADE NÃO É VEGANA


Vagava pela internet, vendo postagens e pessoas.
Uma delas havia mudado a foto de perfil. Na nova mostrava-se uma senhora simpática, rosto leve e harmônico.
E me deu um estalo: que diabos, todos estão bonitos agora!

Minha ingenuidade me irritou.
Esta é a sucessão natural dos textos corretíssimos e bem estruturados do ChatGPT pois agora todos também são, igualmente, escritores ou com um talento “natural” pra escrever.

E minha conclusão lógica me deixou mais puto ainda.
Toda essa boniteza e talento literário são consequência da “rotina artificial” do Instagram, daquela vida de anúncio de margarina que esse povo gosta de postar em suas fotos maravilhosas e, agora, com pequenos “retoques” de IA.

Cara artificial, talento artificial, vida artificial.
Um belo progresso neste mundo em que todos clamam e exigem que sejamos verdadeiros.

Falta apenas, creio, um salário artificial.




Walter Biancardine



segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ACEITA UM CHÁ?

às vezes leio gente que
me dá impressão de jamais
jamais ter suado na vida 
nem discutido aos berros
com ninguém
ou dado uma martelada
no dedo e xingado
palavrões

parecem feder a perfume e
talco nos ombros e creme
nas mãos

qualquer um vê que jamais saíram
da sala da vovó ou de uma
agradável reunião
de senhoras

um infeliz assim jamais trepou
disse coisas indecentes e
palavrões horríveis
que era tudo o que
precisavam na hora

nem deram ou levaram um bom
soco no meio da cara
daqueles de precisar de um
bife pra esconder o roxo

ou são uns frescos da mamãe
ou são só arrogantes
escrevendo mentiras que
não conhecem 
nem viveram




Walter Biancardine 



ROTINOFRENIA

e chega segunda-feira
e o cara liberal e bem humorado
malemolente ou mesmo seu oposto
que passou as tardes e noites
do fim de semana
bebendo vinho ou expresso e
lendo livros e vomitando
arrogâncias

todos eles
todos

atendem o berrante do relógio
do patrão e do emprego
na segunda-feira

abaixam a cabeça e seguem
feito gado em fila
de volta ao curral e são
ordenhados até secar

em troca do fim do mês
e fotos no Instagram

nem parecem os mesmos
quem era vida louca fica sério
quem era sério e arrogante
amansa como cachorro pedindo
desculpas

basta lembrar do contracheque
ou da cara do dono

melhor dizendo
do patrão

e uma nova pessoa aparece




Walter Biancardine



PAREDES DO BANHEIRO


às vezes postagens nas redes sociais
parecem com paredes de banheiros
da rodoviária ou do botequim

uma crônica da cidade reduzida
às desgraças e alegrias e gozações
de cada um que passa ali

já vi paredes de banheiro me mandando
tomar no cu e vi igual em redes
só não era a mim mas outra pessoa

já vi lágrimas nos azulejos quando
escreveram pra ela sumir de sua vida
nas redes só não tem a caneta tremendo

nem as lágrimas no chão
junto a mijo e esperma

tem Botafogo campeão e Força Jovem
nas paredes e nas redes
só os paus enormes desenhados ali 
e nos cadernos da quinta série 
sumiram

o algoritmo e a censura
e a moral e os bons costumes
não deixam

só aparecem fantasiados
de arte
então pode




Walter Biancardine





PRA NÃO DIZER QUE NADA ESCREVI


Só por isso me dei a esse trabalho.
Agora, mais de uma hora da manhã e eu ainda meio de ressaca, mas não quero deixar em branco.
Já basta o branco na cabeça, esterilizada pelo álcool.

Dei uma rodada pelo Substack - ou Studebaker, como o ato falho da velhice me faz chamar - e li algumas coisas. Umas interessantes, outras não, outras ainda como pequenos tuítes, só que mais educadinhos.
Mas vi uma coisa que me chamou atenção: duas postagens citavam outros substaquianos como referência em seus artigos.
Aliás, me lembro de ter visto ontem alguém dizendo que sua crônica foi citada em um TCC.

E me dei conta de que tal coisa jamais se dará comigo e com o que escrevo.

Quem citaria um cara cujo universo são fracassados, bêbados, putas, botequins, estradas, falsidade, acostamentos, meio-fios, becos, hipocrisia, gente sem vida interior, bebidas, cigarros, traição, miséria, solidão… e, vá lá, uma ou outra recordação náutica do tempo em que eu era gente?

Isso, a bem da verdade, não é universo.
É uma amostra grátis do inferno.

Mas não tenho culpa se é a vida que vejo.
Não sou apropriado para ser citado e, muito menos - de acordo com as editoras respeitáveis - publicado.

Talvez seja melhor escrever angústias existenciais de um jovem deitado no carpete de seu quarto, sob o ar-condicionado, com um delivery de sashimi ao lado, do que descer à imundície de botequins de chão meloso e gente cujo aperto de mão já transmite algum vírus.

Já ouvi, de editores renomados, que “não sou vendável”.
Agora me dei conta de que também “não sou citável”.

Vida que segue.




Walter Biancardine




domingo, 9 de agosto de 2026

ESTILO NÃO SE BUSCA, ELE APARECE

Li um famoso traçando linhas sobre o estilo de Ernest Hemingway.
Tentava se aprofundar e descobrir coisas que ninguém, quase setenta anos após sua morte, teria sido sensível o suficiente pra notar.

Mas não fugiu do lugar comum: falou sobre suas frases curtas, sentenças breves, falta de adjetivos e diálogos e ações que explicam mais que descrições.
E gastou dezenas de laudas discorrendo sobre a brevidade de Hemingway.

Ernest era, como eu, jornalista. E a função obriga a concisão, não admite gorduras e devemos primar pela clareza e objetividade. Até aí, sem mstério.

Mas ele foi pra guerra. Duas delas, além da guerra civil espanhola. E assim, à concisão uniu-se a economia de adjetivos. Empregá-los seria hipocrisia ou sensacionalismo diante de tanto sangue e desgraça. 
Só isso.

O que o famoso não ponderou é o que nossos tempos atuais reservariam para ele, oferecendo barbáries diárias que nenhuma das duas guerras as imaginariam em tempos de suposta paz.

Como usar adjetivos hoje? Por quê? Pra quê?

É uma pergunta que os escritores contemporâneos terão de responder.

Jamais, em tempo algum, rolou tanto sangue na face da terra.
E tanta besteira foi escrita.




Walter Biancardine



NATIMORTOS


cresci no meio de garotos 
maconheiros e putas e viados 
sabiam que não teriam lugar
por mais que fossem meus vizinhos
num bairro chique

também nas pequenas cidades
cheias de praias e turistas ricos
tinham seus garotos
maconheiros e viados 
e as putas

também sabiam não ter lugar

eram assim  
o sapato pisava
só em cima deles e reclamavam
fumando ou dando ou chocando
as boas famílias em volta

o tempo passou e inventaram moda

o que parecem querer e mais desejar
é se entregar de braços e pernas
abertas e de quatro 
ansiosos que
o enorme pau do sistema 
os coma

ninguém contesta nem se revolta  
ruas vazias de sangue e testosterona
e gastam quatro anos na faculdade
pra enfiar o diploma no rabo
e fazer concurso público
eis a vitória

olho pra isso e peço uma cerveja
bebo em memória de tanta gente
tantos jovens mortos e sem alma
talvez ressuscitem aos cinquenta
e morram novamente de vergonha

pela vida que jogaram fora

o jovem era rebeldia
que o sistema engoliu
e transformou
maconha em moda e putas e 
viados em coaches
ensinando

que os céus os abençoem
e protejam dando muita raiva
e revolta e sangue nos olhos

ou nada mais restará




Walter Biancardine



sábado, 8 de agosto de 2026

SONÍFERA INSÔNIA

insônia é uma coisa que só me dá
quando quero ir dormir
exatamente agora nada quero fazer
nem escrever nem conversar
nem existir
e o sono vem

vem violento e com más intenções
quer me derrubar e me jogar na cama
e rir da minha cara porque sei
que na hora de dormir
esse maldito sono
desparece

só não desaparece a minha vontade
de também desaparecer junto
quanto pior fico mais sono tenho
de dia e menos sobra
pra noite

a vida não é cruel
é só uma filha da puta
uma aproveitadora
que tudo nos toma
e que não vale 
sequer termos nascido

maldita hora em que
o maldito médico deu
a maldita palmada
em minha maldita
bunda

e maldizendo
nasci chorando




Walter Biancardine


JÁ DEU

a vontade de escrever é nenhuma
nem de fazer mais nada
busco tentações em minha cabeça
nenhuma delas aparece
pra me convencer
porque não mais
tenho tentações

a vontade de falar também acabou
nada quero mais contar ou
mesmo reclamar e chorar
botar a voz pra fora
precisa um fôlego
que não tenho
e nem quero

a vontade de chorar foi embora
quase um estado de choque
aqui sentado e pasmo
conheço isso e
é sempre assim
e o filme
é longo demais

e se alguém me pergunta gentil
o que houve e se pode ajudar
agradeço mas é tarde
muita coisa a explicar
uma vida pra contar
nem eu nem ele
teríamos paciência

problemas fazem parte da vida
todos tem e mesmo tarde
resolvem e seguem 
menos eu
estacionei e atolei
e não há um botão

que desligue
essa merda




Walter Biancardine



NADA SEI

 “…e, não sabendo que era impossível
foi lá e fez”

pois bem
sou um ignorante que nada sei
nenhuma noção nem lógica
agora é sua vez, vida

largue do meu pé
e me deixe fazer




Walter Biancardine



POLIGLOTA

sou fluente em contratempos
sequer tenho sotaque
o problema são as declinações

declinar convites
declinar oferecimentos
declinar até
oportunidades
porque tenho espelho

mas sou fluente
a vida ensina
e nenhum orgulho
tenho disso





Walter Biancardine



DORME COM DEUS

o tempo nos faz práticos e diretos
garotada ainda presta atenção em
retórica e desculpas
e argumentos justificando
o nada de errado
que foi feito

a gente fica velho e não 
é o caso do fim do amor
mas a falta de paciência 
de ouvir nem 
de falar nada

e vai até a cozinha e pega café
pensa duas vezes se vai sentar
de novo no sofá porque
se sentar a conversa
continua

melhor acender um cigarro
ir na varanda fumar 
porque aquilo
é perda de tempo 
e uma adolescência
atrasada parece que voltou

nada de errado
ou escondido
nem má intenção
ou desatenção
então 
pra quê?

mas mulheres precisam disso
medir a insegurança 
do homem
sua aflição 

e se ele é tranquilo
e sem desespero é pior
acham sempre
arranjaram outra

sou velho demais pra isso
sem paciência
com um negócio desses

você é linda e amo você
mas deita e dorme com Deus




Walter Biancardine



sexta-feira, 7 de agosto de 2026

FILHO DA MÃE ABENÇOADO -

um bom homem precisa ser pretensioso.
bastante.

ela jamais será feliz sem ele.
ela não pode sofrer com essa vidinha medíocre.
e só ele pode protegê-la e deixá-la feliz.

não reclame.
as mulheres amam isso.



Walter Biancardine 


FINS DE SEMANA


foi-se o tempo em que eu
cheio de hormônios
odiava os domingos

hoje guardo meus ódios
para as sextas-feiras
feito na infância
invejava os irmãos

o mais velho vinha do trabalho
tomava banho e trocava de roupa
se admirava no espelho
pegava a chave do carro
e ia pra rua e às mulheres

o do meio ainda estava no quartel
vinha de farda e fazia o mesmo
também se admirava no espelho
pegava a chave do carro
e ia pra rua e às mulheres

eu era o mais novo e ainda criança
aproveitava a solidão do quarto
ouvia músicas que ninguém ouviria
lia livros ou escrevia ou desenhava
ficar pra trás não é novidade

agora o tempo passou e envelheci
mas não mudou muita coisa
chegam as sextas-feiras e vejo
gente se arrumando e um clima
de tesão no ar e eu aqui no mato

tal como criança no quarto

todos na rua se divertindo
eu aqui atrás e esquecido

mas mantenho a tradição
até hoje desenho e ouço músicas
que ninguém ouviria e também
escrevo e escrevo e escrevo

quase acredito em destino




Walter Biancardine


AMOR DE DEUS


Deus permitiu tudo isso
porque Ele me ama?
permitiu essa miséria
angústia e solidão
e abandono e dor
porque me ama?

Deus permitiu minha fome
meus ossos quebrados
sujeira e imundície
deboche e desprezo
decadência sem disfarce
porque me ama?

Deus permitiu que eu fosse
traído e enganado e
caluniado e alvo da
inveja e recalques
de tantos à volta
porque me ama?

e Deus permite que ainda
eu fique por anos encalhado
em profunda miséria e
falta de esperança
porque ele insiste
em me amar?

até quando Deus me amará?

até quando sobreviverei
a tanto amor assim?




Walter Biancardine



O SOL MAIOR DE BACH


Estranho como a suíte Nº1 do senhor Sebastião me paralisa.
Um prelúdio cheirando à maresia e funcionando como máquina do tempo. 
Traz uma memória genética – se isso existe – e me vejo, pelo sangue, um corso em batalhas no mar.

Todo o resto me empurra pro Mediterrâneo. Allemande, Courante, Sarabande, os Minuetos e o Gigue, tudo fede a madeira velha e vinho rançoso. Sebo de velas, cordas molhadas, peixe podre e um chamado sedutor do mar, cruzando Gibraltar.

Um violoncelo ecoando nos porões de um antigo veleiro.
Soa como buzina de navio em nevoeiro.
Sereia que alerta.

Córsega, Córsega; estranha terra expatriada que pariu meu sangue e danou algo em minha alma.
E o prelúdio volta. 
Na minha cabeça é como as ondas do mar, inevitáveis.

Não há como ouvir e não enxergar o convés de um galeão. Misto de paz e guerra, bonança e privação, placidez e agonia.

E a proa estoura as ondas, apontando o gurupés ao alto e descendo temerária aos braços de Netuno.

Mas não é o vinho.
É Bach.

Ele fez isso em mim.




Walter Biancardine



AS CORUJAS VIRAM


a hora vai avançando e parece
que meu planeta desabita
ilha de angústia cercada de
mato por todos os lados
sequer posso sair à rua
assim tarde

recorro às redes e também
elas adormeceram e cessaram
os tormentos que até pouco
gemiam de uma agonia blasé
e o mais recente por lá
postaram há uma hora

é na insônia e madrugada
solitária que os fracassos
se encontram 

mas pelo que vejo hoje
todos são vitoriosos
e sumiram

perdi a companhia das
queixas e cinismos
não mais tenho ninguém
pra cantar indecências
da cama como se ainda
a usasse

e os poucos que ainda 
existem teimam em citar
Dostoiévski e Kafka
como certificado de
sintonia comigo

me resta beber e beber
que se fodam Kafka e o
outro russo porque tudo
o que me interessa falar
é de dores e fracassos
travestidos em

imundícies
como essa




Walter Biancardine


QUINTA-FEIRA SEM CONCORRÊNCIA

ainda é cedo e nem comecei a falar
traga mais cerveja e quebrem os copos
e pratos e joguem as bandejas
no chão
a trovoada anunciando a bebedeira


e as mulheres
levantem as saias e sentem aqui
no meu colo e digam que sou
o que ninguém mais foi
na porca vida de vocês


vamos beber e rebolar e gemer
riam e mostrem seus dentes
olhem com toda a maldade
e provoquem o quanto puderem
porque amanhã é sexta-feira
e os jovens bonitos e ricos
chegam





Walter Biancardine



quinta-feira, 6 de agosto de 2026

NADA ALÉM


não há como ler alguma coisa
ou analisar um problema
desmontar o ventilador
tudo é
complicado e 
dá nervoso

acendo um cigarro
atrás do outro
bebo água ou o que
tiver por perto
a cabeça trava e nada
sai ou brota ou
imagino

o pior é não dormir
tem gente que consegue
e até usa como solução
mas eu não

não durmo nem penso
nem crio nem imagino
nem resolvo nem sorrio

olho em volta
feito animal acuado

fome
é a maldita fome
mil vezes maldita
que mata planos
projetos de vida
ideias

tudo o que eu penso
é como posso arranjar
alguma coisa pra comer

e viro escravo dela
da fome
da maldita fome
que nem me deixa
perceber que virei
escravo

é a fome
maldita fome




Walter Biancardine



quarta-feira, 5 de agosto de 2026

USE MEU WI-FI

não existe bondade
companheirismo
solidariedade
compaixão
simpatia
empatia
paixão
afeto
amor

nada disso existe
ao vivo e à cores

só on line

e às vezes
editado




Walter Biancardine



LÁ EM CASA É ASSIM

 
as pessoas passam na vida dos outros
se acham sempre importantes mas
são classificadas e guardadas
pra qualquer eventualidade

tem gente que é limão
aquele tipo que pode ser útil amanhã
sabemos que não vamos aturar muito
mas deixamos guardado porque 
podemos precisar

outros são iguais a sachês de catchup
podem ser necessários por mais tempo
embora sempre incomodem e ocupem
um espaço que preferimos
esconder

mas destino cruel é dos Super Bonder
necessários e não queremos dispensar
e guardamos tanto tempo sem uso
que quando precisamos
o bico entupiu

amizades e relações de geladeira
guardando as pessoas na prateleira
da porta

a sua geladeira é assim
tem limão e sachês e Super Bonder

nem ligamos mas
reclamamos jogando fora

e jogamos fora





Walter Biancardine