Numa época em que até a geladeira conversa com o celular e o sujeito recebe propaganda de remédio para hemorróidas cinco minutos depois de comentar o assunto no botequim, encontrar um orelhão em funcionamento é quase o mesmo que encontrar Lady Gaga cantando na Praça XV.
Azul desbotado, coberto por adesivos arrancados pela metade, anúncios de vereadores, encanadores desaparecidos e declarações de amor que não sobreviveram ao namoro. Um veterano de guerra esquecido no posto.
Ninguém usa o orelhão. Mas ele está lá, ostentando inscrições produzidas pela mais antiga academia literária do Rio de Janeiro: a caneta Pilot.
No casco sobrevivem relíquias arqueológicas. "Michelle. At. Hot. Motéis. Domicílio. Com aparelhos." Abaixo, alguém acrescentou: "Michelle me deve 50 reais." Mais embaixo: "Mentira. Ela pagou."
E, encerrando o debate acadêmico:
"Flamengo campeão."
O curioso é que ninguém sabe quem é Michelle, quais aparelhos ela possuía ou qual a relação disso tudo com o Flamengo. Mas a história ficou registrada para as futuras gerações.
Também havia declarações de amor: "Márcia eu te amo." Logo abaixo: "Márcia eu te odeio." Mais abaixo ainda: "Márcia volte." E por último: "Márcia não precisa voltar." Acompanhando a cronologia daqueles rabiscos era possível assistir ao namoro inteiro sem precisar pagar ingresso.
O orelhão permanece. Firme. Inútil. Respeitável.
Como certas pessoas.
Foi por causa dele que comecei a reparar no velho. Aparecia quase todos os dias.
Magro, cabelo branco, camisa de mangas curtas sempre bem passada, caneta Bic enfiada no bolso e um jornal dobrado debaixo do braço. Entrava na padaria, tomava café, lia as manchetes, observava a rua pela vitrine e depois saía para caminhar sem aparente destino.
Às vezes parava diante do orelhão. Não telefonava. Não mexia em nada. Ficava apenas olhando. Como quem visita um túmulo.
Durante semanas imaginei que fossem velhos amigos.
O homem e o orelhão. Companheiros de alguma época em que ainda se telefonava para as pessoas em vez de enviar figurinhas animadas desejando bom dia.
À primeira vista, o velho e o orelhão formavam uma dupla natural. Os dois tinham sido muito requisitados no passado. Os dois já tinham conectado pessoas. Os dois passavam a maior parte do tempo sem tocar. E ambos davam a impressão de que a prefeitura ainda não os removeu porque ninguém sabia exatamente qual formulário preencher.
Até que um dia puxei conversa. Bastou mencionar o orelhão. Os olhos dele acenderam.
- Usei muito aquilo.
Assenti. Era uma frase óbvia para alguém da idade dele.
Mas ele continuou.
- Ali recebi a notícia do nascimento da minha filha.
Apontou.
- Ali soube que meu pai tinha morrido.
Apontou outra vez.
- E foi dali que liguei para minha mulher quando resolvi pedir desculpas por uma besteira que eu tinha feito.
Olhou para o chão.
- Ela aceitou.
Ficamos alguns segundos em silêncio. O trânsito passava rugindo ao redor. Motocicletas, ônibus, buzinas, entregadores correndo atrás do relógio. O velho e o orelhão pareciam pertencer a outro século. Talvez pertencessem mesmo.
- Sua esposa está bem? – perguntei.
Ele sorriu daquele jeito que os velhos sorriem quando a resposta dói.
- Morreu faz seis anos.
Depois levantou os ombros como quem comenta a previsão do tempo.
Porque os velhos aprendem uma arte que os jovens desconhecem: carregar tragédias sem fazer propaganda delas.
Conversamos mais um pouco. Descobri que a filha morava longe. Os antigos amigos haviam morrido, adoecido ou simplesmente desaparecido. Alguns sumiram sem o trabalho de morrer. Coisa muito comum.
Há amizades que terminam porque alguém mudou de bairro. Outras porque alguém trocou de emprego. Outras porque um dos dois comprou uma esteira ergométrica e passou a falar sobre qualidade de vida.
São fatalidades da existência.
Quando nos despedimos, ele ficou parado mais uma vez diante do orelhão. Foi então que entendi. Não era o orelhão que ele visitava. Era o passado.
Aquele casco azul era apenas uma porta enferrujada para um mundo onde ainda havia gente esperando suas ligações.
Voltei para casa pensando nisso.
Dias depois passei novamente pela rua. O velho estava lá. O orelhão também. Os dois imóveis. Os dois esquecidos. Os dois sobrevivendo ao próprio desaparecimento.
O curioso é que ninguém presta atenção em velhos nem em orelhões.
Até que desaparecem.
Aí surgem imediatamente especialistas explicando sua importância histórica.
O Rio produz muitos especialistas póstumos.
Walter Biancardine











