quinta-feira, 13 de agosto de 2026

TALVEZ AGORA SEJA UM BOM MOMENTO


É difícil largar hábitos mais velhos do que muita gente que me lê.
Escrever é um deles.
Passei décadas fazendo isso por obrigação.
Eu era jornalista e escrever era o jeito que eu pagava as contas,ou pelo menos de fingir que um dia eu conseguiria.

Depois larguei o jornalismo e descobri que havia uma porção de demônios morando dentro de mim – e esses filhos da puta escreviam melhor que eu.
Então eu deixava que saíssem.

Escrevi sobre eles, contra eles, às vezes até por eles.

Durante algum tempo funcionou.
Agora não.
Eles continuam aqui.
Eu sei.

Estão sentados em algum lugar dentro da minha cabeça, fumando, olhando pra mim, sem dizer uma palavra.
E rindo.

E esse é o problema.

Antes havia barulho.
havia raiva,
fracasso,
mulheres brigando,
homens idiotas,
bêbados pendurados em mim,
igrejas onde me escondia,
políticos que eu xingava,
empregos de merda,
cães, cavalos,
Deus, o diabo
e todo o resto.

Eu pegava aquilo e transformava em palavras.

Agora tenho silêncio.
Um silêncio filho da puta.

Sento pra escrever e nada.
Não é falta de assunto.
É pior.

Parece que alguma coisa entupiu no caminho.

Sei que ainda existe alguma coisa aqui dentro, mas não sei onde está.
Talvez tenha cansado de mim.
Sei que não foi embora, mas também não sei onde está.

Não culpo.
Eu também faria isso.

Então talvez este seja um bom momento pra calar a boca.
Parar de escrever por algum tempo.

Largar a máquina quieta, deixar as palavras apodrecerem um pouco e ver se alguma delas volta, ainda que defumada.

Sei que alguns ficarão felizes, e não por maldade.
É que tudo demais enche o saco.
Até escritor.

Principalmente escritor.

Portanto, desta vez, é uma decisão terapêutica.
Pra mim e pra vocês.

Vamos todos descansar um pouco.
Semana que vem eu volto.

Talvez.



Walter Biancardine



quarta-feira, 12 de agosto de 2026

IGREJA NÃO TEM SANTOS

não espere encontrar santos
nas igrejas
o correto é que se ajuntem
centenas de miseráveis
pecadores e fornicadores
usurários e adúlteros
ladrões e gulosos
assassinos e invejosos
putas e possuídos
preguiçosos e ingratos
egoístas e políticos
.
porque lá foram 
arrependidos em busca
do perdão que salve
suas almas e consciência

que lave suas mãos
e ouça sua confissão
que o abençoe
e o despeça em paz

todos
cada um deles

menos o político
que foi tirar fotos
pra campanha eleitoral





Walter Biancardine



A MERDA É A MESMA

O rastro de lama e marcas de pés imundos empesteia o chão da igreja.
Eles seguem, muitos, inúmeros, e quase todos até as primeiras filas. Lá estão os hipócritas e fariseus.

As casas mais lindas são insalubres, infectadas, contaminadas por bacilos, germes e vírus de toda a mesquinhez, egoísmo e vaidade que se entulha lá dentro, soterrando filhos e avós pelo bem da vaidade vigente – ou da que paga as contas.

As roupas mais caras escondem corpos em decomposição, ainda arrastando a ossada de uma alma há muito falecida. Morreu de inanição, de ignorância, de avareza, raiva e inveja. Mas se arrastam por aí, na última moda.
E continuam invejando.

Os carros mais caros disfarçam os pedidos de busca e apreensão, as pensões alimentícias em atraso ou mesmo as paredes da fachada de casa sem reboco, pois o que importa é aparecer bem na rua – não se leva a amante pra própria casa.

Perfis seríssimos em redes sociais já começam com milhares de inscritos, porque aquele perfil foi comprado de alguém que fazia dancinha de sentar na garrafa, acumulou gente e vendeu a conta. E o novo dono arrota a autoridade de seus milhares de seguidores pra cagar regra nos ouvidos de quem se presta a escutar. Ou ser coach de alguma coisa inútil.

Os bairros mais caros e sofisticados escondem multidões elegantes que choram escondidas nos banheiros, com a consciência corroendo como um câncer ou as frustrações as achatando feito um elefante sentado nelas.

E não adianta procurar nas favelas acreditando na pobreza romântica dos cinemas ou livros. Pergunte o preço do metro quadrado do barraco na favela do Vidigal e você vai ver que compraria uma bela casa em outra cidade. E todos, lá ou em qualquer favela, são iguais aos decrépitos. Só são mais pobres.

A merda é a mesma, seja rico ou remediado ou miserável. Nada muda.

E um só desses desgraçados carrega tanta ruindade que poderia abastecer toda a Wehrmacht de Hitler.

O inferno não são os outros.

Somos nós.





Walter Biancardine



MEU AMIGO CAVALO


Acordei num daqueles dias em que é melhor nem me dar bom dia.
Azedo, frustrado comigo e sem me livrar do balanço de perdas e danos que parece não ter fim.
Tomei um café, acendi um cigarro e olhei as redes sociais.
Tudo igual, porque somos todos iguais.

Abri a porta e fui lá fora.
Os cachorros vieram como um arrastão na praia de Copacabana. Um bando, me cercando e bajulando por comida.
Entrei, peguei o saco de ração e enchi seus potes.
Mas os cavalos farejaram, ao longe.
E vieram bajular também.
Eles gostam de ração de cachorro. Aliás, todas as rações são iguais e só as embalagens mudam.
Nós, trouxas, ainda escolhemos qual é de gato e qual é de cachorro.
O cavalo não, ele – e os cachorros também – comem qualquer coisa.

Depois que a cachorrada comeu, enchi uma grande cumbuca de ração e a despejei no gramado. Os cavalos se alegraram e comeram.
Fiz um vídeo e mandei para a amada distante, lá no pantanal.

Comeram até se fartar. Mas permaneceram em frente a minha porta, me olhando.

Voltei lá pra fora e me sentei em frente a eles, é um macho e uma égua.
O macho gosta de mim. Começou a me cheirar.
Roeu meus joelhos e cheirou meu cabelo.
Encostou sua cabeça à minha, enquanto eu resmungava sobre a vida.
Sim, o cavalo me consolava.
Eu resmungava, ele encostava a cabeça em mim.
Apontava o enorme focinho em minha cara e cheirava minha boca – deve gostar de cigarros, café e cerveja – e olhos também.
Virou meu parceiro de botequim.

Eu e o cavalo, cabeça com cabeça.
Eu lamentando minha vida, e o cavalo com sua cabeça encostada em mim me cutucando e procurando me animar.
Um bom amigo.
Pensei mesmo em botar um freio e rédeas nele e montar no pelo, pois não tem selas por aqui.

Mas o cavalo não é meu.
O amigo cavalo é, mas o animal não.

Tenho algo que seu dono não tem.
Um amigo cavalo.
Um dia ele vai embora e vai doer.

Em mim e nele.

É só o que temos, mesmo.




Walter Biancardine



CALMANTE

pois vá ao bar e escolha
o cara com mais cara
de filho da puta que 
tiver por lá

e soque a cara dele
chute e espanque
e ele vai te socar
te chutar e morder

quebre uma garrafa 
em sua cabeça e
uma cadeira de madeira
em suas costas

e ele desmaia no chão
beba sua cerveja
ajeite o saco nas calças
olhe vitorioso pra todos

acenda um cigarro
cuspa no chão
e vá embora
antes que a vida
volte a doer

nada precisou ser dito
e se não entenderam
respeitaram




Walter Biancardine



DIAS RUINS

alguém me vê cabisbaixo 
e vem falar comigo e
tentar consolar e ajudar

fala de Deus e de sua 
misericórdia e amor
e um diabo desperta em mim

busco tudo o que sei
o que aprendi em anos
estudando filosofia e 
teologia e trituro todos
os seus argumentos 

ela só quis me ajudar
e o que fiz?

reduzi a pó sua fé e seu
consolo e apoio nas piores
horas da vida

e a troco de quê?

de provar que estou certo
e que sou culto e inteligente 
e ganhar a discussão?

não isso

provei apenas o que ela
devia saber
que sou só um bom
filho da puta




Walter Biancardine 



TRANSITADO EM JULGADO

fui à justiça contra mim mesmo
por abandono material
me larguei passando
necessidades

quis me processar
por ser um “eu ausente”
nunca estar presente
nos momentos que
precisei
fuga era regra

queria indenização
de mim mesmo por
tortura psicológica
dia e noite
me sabotando ao lembrar
que sempre me disseram
ser incapaz

acionaria o
conselho tutelar
por bullying meu contra mim
acreditando que meus dons
eram coisa de
vagabundo

acusaria a mim de assédio
por não discordar de tudo
de ruim que me acusaram
onde trabalhei
onde estudei
onde morei
onde nasci

eu arrancaria até
o último tostão de mim mesmo
se tivesse eu algum dinheiro 
depois de tantos
crimes que me inflingi

já transitei em julgado
não me indenizei mas
me condenei

creio entretanto
que a opinião pública
dos poucos que me cercam
achou pouco

e a pena branda

publique-se
intime-se
cumpra-se





Walter Biancardine



BOLA PRETA VENCE BOLA BRANCA


colunista social desempregado
o mundo do glamour acabou
charme e fascínio e admiração
só existe por mim mesmo

minha coluna social são as redes
não tem as top 10 mais bem vestidas
se todas estão nuas na festa
nem os dez homens mais elegantes
com todos usando bermudas e camisetas

posso tirar alguém da favela
mas não posso tirar a favela dele
posando sentado em sua Ferrari
parecendo um avião da biqueira

na guerra do feio contra o mundo
a lista de baixas é imensa
e já se foram
o charme
a graça
a elegância
a educação
o bem vestir
o glamour
e com eles morreram as lendas

Ibrahim nada teria a dizer
e Amaury acertou em cheio
ao dizer que hoje
todos são Amaurys
de si mesmos

o sonho acabou

sorry, periferia
e ademã que vou em frente



Walter Biancardine



JÁ É O BASTANTE

vida digna é pra quem é digno
nem precisa ser perfeito
mas que chegue perto
já basta

eu aqui feito besta pedia
uma vida digna mas
não percebi que nunca
estive nem perto
de ser
digno

mudei meus desejos e também
os pedidos que insisto
agora só quero um teto
que não me expulsem
tão cedo

um pouco de comida e café
agasalho pro frio e
meus cigarros

quem sabe cerveja também

desde que eu possa
continuar escrevendo

agora entendi
e me basta




Walter Biancardine


terça-feira, 11 de agosto de 2026

FRIEDRICH

aqui tem cavalos
dois que me vêem e me buscam
muito bom não haver ninguém
não quero arriscar assistir
alguém espancá-los

ainda não escrevi
nada imortal



Walter Biancardine


O AMOR É UMA MERDA

quem tem você nas mãos
te despreza e ignora
quem não pode ter você
não se iluda
te odeia

conte nos dedos
de uma mão amputada
aqueles que amam
não têm a quem amam
e mesmo assim
preservam

fico pensando
se existe algo que seja
mais injusto e cruel
e vingativo e mau

que sentimentos humanos




Walter Biancardine


A REALIDADE NÃO É VEGANA


Vagava pela internet, vendo postagens e pessoas.
Uma delas havia mudado a foto de perfil. Na nova mostrava-se uma senhora simpática, rosto leve e harmônico.
E me deu um estalo: que diabos, todos estão bonitos agora!

Minha ingenuidade me irritou.
Esta é a sucessão natural dos textos corretíssimos e bem estruturados do ChatGPT pois agora todos também são, igualmente, escritores ou com um talento “natural” pra escrever.

E minha conclusão lógica me deixou mais puto ainda.
Toda essa boniteza e talento literário são consequência da “rotina artificial” do Instagram, daquela vida de anúncio de margarina que esse povo gosta de postar em suas fotos maravilhosas e, agora, com pequenos “retoques” de IA.

Cara artificial, talento artificial, vida artificial.
Um belo progresso neste mundo em que todos clamam e exigem que sejamos verdadeiros.

Falta apenas, creio, um salário artificial.




Walter Biancardine



segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ACEITA UM CHÁ?

às vezes leio gente que
me dá impressão de jamais
jamais ter suado na vida 
nem discutido aos berros
com ninguém
ou dado uma martelada
no dedo e xingado
palavrões

parecem feder a perfume e
talco nos ombros e creme
nas mãos

qualquer um vê que jamais saíram
da sala da vovó ou de uma
agradável reunião
de senhoras

um infeliz assim jamais trepou
disse coisas indecentes e
palavrões horríveis
que era tudo o que
precisavam na hora

nem deram ou levaram um bom
soco no meio da cara
daqueles de precisar de um
bife pra esconder o roxo

ou são uns frescos da mamãe
ou são só arrogantes
escrevendo mentiras que
não conhecem 
nem viveram




Walter Biancardine 



ROTINOFRENIA

e chega segunda-feira
e o cara liberal e bem humorado
malemolente ou mesmo seu oposto
que passou as tardes e noites
do fim de semana
bebendo vinho ou expresso e
lendo livros e vomitando
arrogâncias

todos eles
todos

atendem o berrante do relógio
do patrão e do emprego
na segunda-feira

abaixam a cabeça e seguem
feito gado em fila
de volta ao curral e são
ordenhados até secar

em troca do fim do mês
e fotos no Instagram

nem parecem os mesmos
quem era vida louca fica sério
quem era sério e arrogante
amansa como cachorro pedindo
desculpas

basta lembrar do contracheque
ou da cara do dono

melhor dizendo
do patrão

e uma nova pessoa aparece




Walter Biancardine



PAREDES DO BANHEIRO


às vezes postagens nas redes sociais
parecem com paredes de banheiros
da rodoviária ou do botequim

uma crônica da cidade reduzida
às desgraças e alegrias e gozações
de cada um que passa ali

já vi paredes de banheiro me mandando
tomar no cu e vi igual em redes
só não era a mim mas outra pessoa

já vi lágrimas nos azulejos quando
escreveram pra ela sumir de sua vida
nas redes só não tem a caneta tremendo

nem as lágrimas no chão
junto a mijo e esperma

tem Botafogo campeão e Força Jovem
nas paredes e nas redes
só os paus enormes desenhados ali 
e nos cadernos da quinta série 
sumiram

o algoritmo e a censura
e a moral e os bons costumes
não deixam

só aparecem fantasiados
de arte
então pode




Walter Biancardine





PRA NÃO DIZER QUE NADA ESCREVI


Só por isso me dei a esse trabalho.
Agora, mais de uma hora da manhã e eu ainda meio de ressaca, mas não quero deixar em branco.
Já basta o branco na cabeça, esterilizada pelo álcool.

Dei uma rodada pelo Substack - ou Studebaker, como o ato falho da velhice me faz chamar - e li algumas coisas. Umas interessantes, outras não, outras ainda como pequenos tuítes, só que mais educadinhos.
Mas vi uma coisa que me chamou atenção: duas postagens citavam outros substaquianos como referência em seus artigos.
Aliás, me lembro de ter visto ontem alguém dizendo que sua crônica foi citada em um TCC.

E me dei conta de que tal coisa jamais se dará comigo e com o que escrevo.

Quem citaria um cara cujo universo são fracassados, bêbados, putas, botequins, estradas, falsidade, acostamentos, meio-fios, becos, hipocrisia, gente sem vida interior, bebidas, cigarros, traição, miséria, solidão… e, vá lá, uma ou outra recordação náutica do tempo em que eu era gente?

Isso, a bem da verdade, não é universo.
É uma amostra grátis do inferno.

Mas não tenho culpa se é a vida que vejo.
Não sou apropriado para ser citado e, muito menos - de acordo com as editoras respeitáveis - publicado.

Talvez seja melhor escrever angústias existenciais de um jovem deitado no carpete de seu quarto, sob o ar-condicionado, com um delivery de sashimi ao lado, do que descer à imundície de botequins de chão meloso e gente cujo aperto de mão já transmite algum vírus.

Já ouvi, de editores renomados, que “não sou vendável”.
Agora me dei conta de que também “não sou citável”.

Vida que segue.




Walter Biancardine




domingo, 9 de agosto de 2026

ESTILO NÃO SE BUSCA, ELE APARECE

Li um famoso traçando linhas sobre o estilo de Ernest Hemingway.
Tentava se aprofundar e descobrir coisas que ninguém, quase setenta anos após sua morte, teria sido sensível o suficiente pra notar.

Mas não fugiu do lugar comum: falou sobre suas frases curtas, sentenças breves, falta de adjetivos e diálogos e ações que explicam mais que descrições.
E gastou dezenas de laudas discorrendo sobre a brevidade de Hemingway.

Ernest era, como eu, jornalista. E a função obriga a concisão, não admite gorduras e devemos primar pela clareza e objetividade. Até aí, sem mstério.

Mas ele foi pra guerra. Duas delas, além da guerra civil espanhola. E assim, à concisão uniu-se a economia de adjetivos. Empregá-los seria hipocrisia ou sensacionalismo diante de tanto sangue e desgraça. 
Só isso.

O que o famoso não ponderou é o que nossos tempos atuais reservariam para ele, oferecendo barbáries diárias que nenhuma das duas guerras as imaginariam em tempos de suposta paz.

Como usar adjetivos hoje? Por quê? Pra quê?

É uma pergunta que os escritores contemporâneos terão de responder.

Jamais, em tempo algum, rolou tanto sangue na face da terra.
E tanta besteira foi escrita.




Walter Biancardine



NATIMORTOS


cresci no meio de garotos 
maconheiros e putas e viados 
sabiam que não teriam lugar
por mais que fossem meus vizinhos
num bairro chique

também nas pequenas cidades
cheias de praias e turistas ricos
tinham seus garotos
maconheiros e viados 
e as putas

também sabiam não ter lugar

eram assim  
o sapato pisava
só em cima deles e reclamavam
fumando ou dando ou chocando
as boas famílias em volta

o tempo passou e inventaram moda

o que parecem querer e mais desejar
é se entregar de braços e pernas
abertas e de quatro 
ansiosos que
o enorme pau do sistema 
os coma

ninguém contesta nem se revolta  
ruas vazias de sangue e testosterona
e gastam quatro anos na faculdade
pra enfiar o diploma no rabo
e fazer concurso público
eis a vitória

olho pra isso e peço uma cerveja
bebo em memória de tanta gente
tantos jovens mortos e sem alma
talvez ressuscitem aos cinquenta
e morram novamente de vergonha

pela vida que jogaram fora

o jovem era rebeldia
que o sistema engoliu
e transformou
maconha em moda e putas e 
viados em coaches
ensinando

que os céus os abençoem
e protejam dando muita raiva
e revolta e sangue nos olhos

ou nada mais restará




Walter Biancardine



sábado, 8 de agosto de 2026

SONÍFERA INSÔNIA

insônia é uma coisa que só me dá
quando quero ir dormir
exatamente agora nada quero fazer
nem escrever nem conversar
nem existir
e o sono vem

vem violento e com más intenções
quer me derrubar e me jogar na cama
e rir da minha cara porque sei
que na hora de dormir
esse maldito sono
desparece

só não desaparece a minha vontade
de também desaparecer junto
quanto pior fico mais sono tenho
de dia e menos sobra
pra noite

a vida não é cruel
é só uma filha da puta
uma aproveitadora
que tudo nos toma
e que não vale 
sequer termos nascido

maldita hora em que
o maldito médico deu
a maldita palmada
em minha maldita
bunda

e maldizendo
nasci chorando




Walter Biancardine


JÁ DEU

a vontade de escrever é nenhuma
nem de fazer mais nada
busco tentações em minha cabeça
nenhuma delas aparece
pra me convencer
porque não mais
tenho tentações

a vontade de falar também acabou
nada quero mais contar ou
mesmo reclamar e chorar
botar a voz pra fora
precisa um fôlego
que não tenho
e nem quero

a vontade de chorar foi embora
quase um estado de choque
aqui sentado e pasmo
conheço isso e
é sempre assim
e o filme
é longo demais

e se alguém me pergunta gentil
o que houve e se pode ajudar
agradeço mas é tarde
muita coisa a explicar
uma vida pra contar
nem eu nem ele
teríamos paciência

problemas fazem parte da vida
todos tem e mesmo tarde
resolvem e seguem 
menos eu
estacionei e atolei
e não há um botão

que desligue
essa merda




Walter Biancardine



NADA SEI

 “…e, não sabendo que era impossível
foi lá e fez”

pois bem
sou um ignorante que nada sei
nenhuma noção nem lógica
agora é sua vez, vida

largue do meu pé
e me deixe fazer




Walter Biancardine



POLIGLOTA

sou fluente em contratempos
sequer tenho sotaque
o problema são as declinações

declinar convites
declinar oferecimentos
declinar até
oportunidades
porque tenho espelho

mas sou fluente
a vida ensina
e nenhum orgulho
tenho disso





Walter Biancardine



DORME COM DEUS

o tempo nos faz práticos e diretos
garotada ainda presta atenção em
retórica e desculpas
e argumentos justificando
o nada de errado
que foi feito

a gente fica velho e não 
é o caso do fim do amor
mas a falta de paciência 
de ouvir nem 
de falar nada

e vai até a cozinha e pega café
pensa duas vezes se vai sentar
de novo no sofá porque
se sentar a conversa
continua

melhor acender um cigarro
ir na varanda fumar 
porque aquilo
é perda de tempo 
e uma adolescência
atrasada parece que voltou

nada de errado
ou escondido
nem má intenção
ou desatenção
então 
pra quê?

mas mulheres precisam disso
medir a insegurança 
do homem
sua aflição 

e se ele é tranquilo
e sem desespero é pior
acham sempre
arranjaram outra

sou velho demais pra isso
sem paciência
com um negócio desses

você é linda e amo você
mas deita e dorme com Deus




Walter Biancardine



sexta-feira, 7 de agosto de 2026

FILHO DA MÃE ABENÇOADO -

um bom homem precisa ser pretensioso.
bastante.

ela jamais será feliz sem ele.
ela não pode sofrer com essa vidinha medíocre.
e só ele pode protegê-la e deixá-la feliz.

não reclame.
as mulheres amam isso.



Walter Biancardine 


FINS DE SEMANA


foi-se o tempo em que eu
cheio de hormônios
odiava os domingos

hoje guardo meus ódios
para as sextas-feiras
feito na infância
invejava os irmãos

o mais velho vinha do trabalho
tomava banho e trocava de roupa
se admirava no espelho
pegava a chave do carro
e ia pra rua e às mulheres

o do meio ainda estava no quartel
vinha de farda e fazia o mesmo
também se admirava no espelho
pegava a chave do carro
e ia pra rua e às mulheres

eu era o mais novo e ainda criança
aproveitava a solidão do quarto
ouvia músicas que ninguém ouviria
lia livros ou escrevia ou desenhava
ficar pra trás não é novidade

agora o tempo passou e envelheci
mas não mudou muita coisa
chegam as sextas-feiras e vejo
gente se arrumando e um clima
de tesão no ar e eu aqui no mato

tal como criança no quarto

todos na rua se divertindo
eu aqui atrás e esquecido

mas mantenho a tradição
até hoje desenho e ouço músicas
que ninguém ouviria e também
escrevo e escrevo e escrevo

quase acredito em destino




Walter Biancardine


AMOR DE DEUS


Deus permitiu tudo isso
porque Ele me ama?
permitiu essa miséria
angústia e solidão
e abandono e dor
porque me ama?

Deus permitiu minha fome
meus ossos quebrados
sujeira e imundície
deboche e desprezo
decadência sem disfarce
porque me ama?

Deus permitiu que eu fosse
traído e enganado e
caluniado e alvo da
inveja e recalques
de tantos à volta
porque me ama?

e Deus permite que ainda
eu fique por anos encalhado
em profunda miséria e
falta de esperança
porque ele insiste
em me amar?

até quando Deus me amará?

até quando sobreviverei
a tanto amor assim?




Walter Biancardine