quinta-feira, 16 de julho de 2026

ALVURA


olhar o papel em branco me traz paz
o que já escrevi é só sujeira
amontoado de tormentos e queixas
papel higiênico da alma

olho o papel em branco
é como olhar um lençol limpo
estendido na cama pela amada
tudo pureza e amor

ainda que se manche tudo
que se molhe e lambuze o lençol
numa noite de amor

sempre será mais limpo e puro
que o papel imundo e escrito
com o que não mais cabia

em mim





Walter Biancardine



FOME


fome dá frio
fome dá dor de estômago
fome dá dor de cabeça
fome dá gosto ruim na boca
fome dá pressa
fome dá irritação
fome dá vontade de fumar
fome dá vontade de chorar
fome não deixa dormir
nem pensar

quem diz que passou fome
e não sabe disso
é só um mentiroso




Walter Biancardine





NEM PERGUNTO

 
O que seria de minha educação sem a hipocrisia?
Não foram poucas as vezes que, sentado sozinho no bar, sábado de manhã, chegou um inconveniente alegre demais.
Dana a perguntar coisas.
Como vou. O que tenho feito.
Que fim levou aquele carro que eu tinha.
Se estou trabalhando.
E aquela mulher.

O normal seria mandar tomar no cu.
Não é amizade. Nem gentileza.
É interrogatório pra fazer fofoca depois.
Eu sei e ele sabe que eu sei.
Então dou respostas mais vazias que a carteira dele.
E que a minha, claro.

O que seria de mim sem essa hipocrisia?
Esse mesmo sujeito, pé no saco, já me pagou bebida.
Me deu carona num dia ruim.
Até cedeu lugar na fila do banco.
Mas eu nunca quis saber nada dele.
Pouco me importa se ele levou chifre. Ou tem diarréia.
Ou se o chefe dele é um saco.
Nada disso me interessa.
Não pergunto.

Por isso me acham distante. 
Frio. 
Arrogante.
Parece que o certo é estar inteirado até de quantas vezes o sujeito vai ao banheiro por dia, e se lava as mãos ou não ao sair.

Pois que me deixem com minha frieza e arrogância.

Se eu souber dessas coisas de banheiro, nunca mais cumprimento. 




Walter Biancardine




NA PAZ DE DEUS

 
me sentei à beira do lago
buscando o clichê da paz
mas lembrei dos peixes
girinos e bichos estranhos
que se comem e se matam
sem parar

mas na superfície 
é tudo
paz

lembrei das fachadas de casas
que vi olhando de fora
gente brigando e apanhando
disputando e gritando
e se matando
dia e noite

mas olhando da rua
é tudo
paz

e viva a santidade
da natureza
e do lar




Walter Biancardine




BREAKING NEWS


jornalistas imitam cachorros
que de repente se alertam
latem e rosnam e correm
como fosse uma urgência
pra uma coisa que ninguém
viu ou vê ou verá

jornalistas fazem manchetes
anunciando o apocalipse
gritam e choram e clamam
como fosse novidade
uma coisa que se faz
desde os tempos das cavernas

jornais vivem do susto
jornais vivem do medo
jornais vivem de você
sofrendo e querendo
se esconder

o cachorro latiu
corra primeiro
pergunte depois




Walter Biancardine



TESTE VOCACIONAL

 
dia estranho
acordei e nada escrevi
vou tomar um café
e já volto

voltei
e o dia continua
diferente e bom
sem dor nem temor

tenho medo
sem ter sofrimento
quais os tormentos
porei no papel?

um poeta
que não sangra 
nem chora
talvez seja a hora

mudar de profissão




Walter Biancardine



GRATILUZ


sempre sorriem
vida parece perfeita
mas só eles sabem
o inferno que é

não me engano
essa vida de Instagram
encharca o tapete
nos banheiros que choram

o sono leve
da consciência pesada
voa à menor brisa
na cama dos culpados

a mentira não dorme
nem deixa dormir




Walter Biancardine



EM PEDRA, BRONZE E CARNE


um homem 
se sentou numa pedra
e pensou
o tempo passou
até hoje pensa

é o pensador

outro
se sentou num banco
versejou
o tempo passou
até hoje o lemos

é o poeta

já eu
caí no meio-fio
vomitei
a cerveja acabou
cheguei em casa

é uma vergonha





Walter Biancardine





quarta-feira, 15 de julho de 2026

LUZ AMARELA


as poucas luzes
das poucas casas
na roça

são mais urgentes
que a cegueira
urbana

uma só e amarela
aponta o caminho
dá a direção
reconforta

há gente ali
uma família
um socorro

e quando falta
mesmo olhos
acostumados
se afligem

parece que 
a pouca vida
se foi

noite sem lua
sem luz nas casas
agonia e medo
solidão
sem rumo




Walter Biancardine




PERFECCIONISTA

 


MAR GROSSO


Meu pai teve uma lancha tipo baleeira. Fina e longa, parecia uma agulha. Uns doze metros de comprimento e, no máximo, dois e pouquinho de largura. Afan era o nome. Nome feio.
Mas ela era bonita, costado muito baixo, cabinada, tinha um mastro e um belo timão, igual aos dos navios-pirata dos filmes.
.
Eu tinha medo dela. Por ser estreita, achava que iria emborcar na primeira onda que viesse. Mas gostava mesmo assim, e um dia meu pai me chamou para darmos um passeio até a Ilha da Âncora, em boa distância da costa de Cabo Frio.
Junto, embarcou seu amigo Dalton – conhecido como “o homem que jamais trabalhou um só dia na vida”, uma lenda nos bares e botequins da cidade.

A ida foi sem problemas. Vagas longas, altas mas mansas.
Fundeamos na costa da ilha, pescamos um pouco e notamos que o tempo começava a fechar.
Era levantar âncora e voltar.
Mas não percebemos a virada em tempo.

Tanto o céu quanto o mar ficaram cinzas. Um vento sudoeste forte começou a soprar e as ondas subiram.
Agora era mar grosso. Tivemos de abrir as janelas dianteiras para que não quebrassem com o impacto da água, e logo o convés encheu.
Bomba acionada, dava vazão.

Porta da cabine fechada, vedando a inundação. Motor à meia potência, aproado direto pro Forte São Mateus – ou ao que achávamos ser ele, no meio da neblina difusa de água e vento.

A cada onda que subíamos, a proa apontava pro céu. E cada descida era uma barrigada no cavado, uma pancada forte e seca que impedia ficarmos em pé.
E o vento soprava, uivava e eu pensando: se uma onda nos pega de lado, viramos e tudo se acaba.

Eu ainda não conhecia o mar.
E seguimos em frente, cortando as vagas à 45° e preocupados com o tempo, que só piorava.

Pior que o tempo, entretanto, foi o leme de nossa lancha. O cabo de aço que ligava o timão ao leme rompeu, e não era mais possível guiar o barco de dentro da cabine.

Dalton, o homem que jamais trabalhou na vida e era famoso nos botequins da cidade, se pendurou na popa do barco e, descalço, agarrou o leme com o dedão do pé. Agora tínhamos novamente controle.
Enquanto seus pés resistissem ou ele não caísse no mar.

Meu pai explicou: meia potência subindo as ondas, corta na descida. E foi o que fiz, enquanto ele também foi pra popa e enlaçou Dalton com uma corda – só pra garantir, pensei.

Essa agonia durou umas três horas.
Três horas da mais longa viagem de barco que eu já tivera, até então.

Por fim chegamos ao deck do Clube do Canal. Dalton ainda manobrando, eu no acelerador, meu pai jogando a corda pra amarrar.
E os pés do coitado viraram um amontoado de sangue.
Junto com suas costas, lanhadas como se tivesse sido chibateado, por conta da corda que o segurava.

A lancha que eu temia era a certa. Cortava o mar grosso como agulha, era só saber passar.
O cachaceiro que jamais trabalhara nos serviu de leme até atracarmos.
Na verdade, ele salvou a todos nós.
E eu, que nunca havia dirigido um carro, fiz minha parte no acelerador.

Os vidros não quebraram.
O convés não inundou.

O motor não morreu.





Walter Biancardine








FARINHA POUCA


quase todo psicólogo
não quer curar ninguém
mas a si mesmo

assim são os poetas
não querem ser 
compreendidos

só entender
achar algum sentido
em si mesmos

no fundo
todo mundo
quer colo




Walter Biancardine



À TOA

 
o mais ridículo da poesia
é se derramar todo
ficar nu e confessar 
o inconfessável
falar de dores e frustrações
e tudo de ruim
que nos rói por dentro

e depois de tudo isso
de toda essa nudez indecente
quase um exibicionismo
aparecer um qualquer
pra fazer pouco e rir
debochar e te julgar

dizer que sua dor é vulgar
o que você sente é pobre
é comum e nenhum valor tem
e que no fundo o que você faz
é chorar de barriga cheia

vá arrumar um emprego
rapaz

já comi uns pastéis
iguais a essa gente
sem recheio
gosto de nada

só casca




Walter Biancardine



NEGÓCIO DA CHINA

 
ser eu
é um negócio muito chato
nada pra fazer
dinheiro pra nada

fome na hora errada
sempre tarde da noite
fora a vontade
de comer uma coisa
que é sempre o que
não tem

é muito chato ser eu
quando quero beber
umas cervejas 
com os amigos
e os amigos
sumiram ou foram embora
ou morreram
ou me evitam
porque sou esquisito

esse eu
veio sem manual
e eu não sabia
dessa mania 
de querer
o que não posso ter
e até 
quem
não posso ter

mas o pior de ser eu
é que o prazo venceu
e não posso trocar
por um modelo melhor

vou passar adiante
vende-se
um eu
único dono




Walter Biancardine







BEST SELLER


a fome escolhe
as palavras certas
corações rasgados
as espalham no papel

desesperança poupa
linhas e vírgulas
e a insônia mistura
na loucura chique

a miséria
a dor
e o desalento

são autores 
bons só de longe



Walter Biancardine



NINHADA

 
A cachorra teve filhotes.
Me pego gastando tempo olhando os bichinhos.
Já tive muitos cachorros. Vi muitos filhotes. Sei o que fazem e como reagem. E sei quase tudo que vai acontecer.

Os vi de olhos fechados, sem nada perceber além da fome.
Vi seus primeiros passos, achando o próprio chão uma novidade.
Nas primeiras brincadeiras percebemos os temperamentos.
E as moças e rapazes em volta se encantam com eles.
E os levam.
Um a um.

Sei quase tudo que vai acontecer.
Tudo se repete, geração após geração.

Me pergunto se Deus também nos olha assim.

Seremos crias, destinos traçados?

Que minha dona cuide bem de mim.




Walter Biancardine




SONO LEVE


só percebemos a loucura
quando nos curamos dela
tal como
os olhos se acostumam
com o escuro e só
agradecem a luz
quando ela vem

não dormir é tortura
privação do sono
da razão
endoidamos aos poucos
sem nos darmos conta
até dormirmos
nos curando

depois seria correto
pedir perdão por tudo
mas se não dormi
foi a miséria
aplaudida
festejada
que causou

legítima defesa
não precisa
perdão




Walter Biancardine



MENOS UM DIA


tarde assim
eu viro o dia
como página de livro

a diferença
é nada ter lido
que valesse a pena

livro velho
folhas amarelas
páginas amassadas

ainda bem
algumas foram
jogadas fora no lixo

a capa puída
no entanto mostra
que foi lido e relido

mas nada aprendido




Walter Biancardine





terça-feira, 14 de julho de 2026

VERSO INFALÍVEL


basta uma noite
uma só noite
uma noite apenas
sem ela

e perco o norte
não leio estrelas
nem sinto o vento
me levar

fico aqui só
tentando escrever
poemas fatais
versos infalíveis

só sai merda

melhor nem dizer
ou escrever

fiz um verso
certamente não falha
bastaria ela ouvir
e correria de mim

tenho que calar
aprender a aguentar

contar as horas
os minutos

e os segundos




Walter Biancardine



NA TRAVE


hoje
pela primeira vez
alguém me perguntou

se eu era o autor do livro
Quem Vai Pagar a Quitinete?

quase me senti
um escritor

fiquei feliz
por ele lembrar
e triste 
por não ter comprado

só vendi um 
e que eu saiba
não foi ele
quem comprou



Walter Biancardine




TRANSGRESSÃO EM FÉRIAS

 
Dei uma folga pra mim.
Resolvi ser mais infantil no que escrevo.
Mais bobo, ou o que chamam de “espontâneo”.

Penso que um homem é como um planeta: se a atmosfera é irrespirável, não há vida possível. E sem vida, não há criação.
Por isso me dei essa folga.

Na verdade sou um planeta poluído. Tóxico.
Mas ainda habitável, pra quem aguentar.
Só que nem eu mesmo estava mais me aguentando.
E danei a escrever sobre manhãs e entardeceres, dias nublados e outras coisas dessa rotina miserável que chamam de vida.

Gasto meus dias escrevendo sobre fracasso. Miséria. Lixo. Sarjeta.
A ideia é mostrar que é possível resistir ao sistema.
O preço é alto, mas é possível.
Mas um dia – e isso sempre acontece – o saco enche e eu pergunto:
- Então por que não meto uma bala na testa?

É a grande pergunta que se pode fazer a um cético. Ou niilista.
A macheza acaba em segundos.
E comigo não é diferente.

Melhor eu escrever sobre as manhãs nubladas.

Ninguém interpreta o papel de “maldito” até o fim.

Ninguém quer morrer.





Walter Biancardine








CINZA

 
a tristeza com que
me despedi da manhã
agora dá lugar a
ânsia do entardecer

ultimamente vejo que
o sol não me agrada
o corpo tão fraco
tem cedido à alma

manhãs e tardes
e dias nublados
claridades difusas

tudo isso certamente
quer dizer alguma coisa
minha idade entardece
e o espírito nubla 

talvez sim ou não
mas foi o que me veio

ao que resta da cabeça





Walter Biancardine




SOBRE MOFO, TRAÇAS E NAFTALINA


busco em minha editora
algo sobre as vendas
dos meus livros

mais parecem 
as antigas pirâmides
imóveis
há cinco mil anos

na verdade os acho
umas porcarias
e a vergonha manda
que os recolha

mas se for assim
também acho uma merda
tudo o que escrevi
há mais de uma hora

pouco vai sobrar

e se a vida 
do que escrevo
é tão curta

pra quê escrever?

que fiquem lá
e um dia os descubram
fósseis

terão algum valor




Walter Biancardine




ZELO DAS HORAS


demoro a acordar
são dez da manhã
começo a escrever
e logo é tarde

não dura nada
minha manhã
nublada
encantada

que tanto inspira

culpo a madrugada
que me enrola
numa conversa
sem fim

é ciumenta
disputa com a manhã
o prazer de
me espremer

pra ver o que sai




Walter Biancardine




ANTES DO SOL


preciso escrever
logo e antes que
o sol saia
ele ameaça

o cinza deprime
e inspira porque
traz lembranças
elas doem

a chuva caindo
nos encharca de passado
os dias nublados
poupam olhos que lembram

e o vento frio
enche os pulmões
de vozes finalmente
livres pra irem

embora




Walter Biancardine




RUIM MAS É BOM

 
odeio o desalento
que os dias nublados
trazem pra mim

mas a melancolia
em poemas compulsivos
fazem gosto

tão bom escrever que
o gostar ou não 
do cinza lá fora
já pouco me importa

e mesmo o desalento
melancolia ou tristeza
bem gosto se me ajudam

não me importo comigo
mas com o que crio
e escrevo

eu gosto de dias
nublados




Walter Biancardine





SEM SOL


ouvi uma música
“cariocas não gostam
de dias nublados”
mas eu gosto

descobri doendo
que não sinto falta
de minha cidade

o que me falta
não é aonde mas
o quando 
vivi por lá

o tempo faz a água
alisar e moldar
uma pedra

o que não faria 
comigo que sou
bem mais mole

dias nublados
e o frio
me agradam

é um bom final
pra esse filme
já longo
demais




Walter Biancardine