terça-feira, 8 de setembro de 2026

CRÉDITOS NO FINAL


um bom escritor ou poeta escreve coisas
e as pessoas buscam pra ler
comentar ou mesmo criticar
mas buscam

se eu escrevo alguma coisa e publico
e ninguém busca ou lê ou
comenta ou critica
o problema sou eu

muitos acham fácil se fazerem de
incompreendidos mas eu já vivi
e sei que o buraco é mais
embaixo

se não me lêem ou buscam é preciso
admitir que o que faço não agrada
e qual é o problema nisso?
ninguém agrada a todos

o problema não é eu não agradar
é ser insistente e continuar
publicando e ocupando espaço
que outros melhores poderiam
brilhar

não é melodrama nem coitadismo
apenas realismo quando vejo
que minha melhor obra
certamente será
sair de cena




Walter Biancardine



ME ACHAM BURRO OU É CARA DE PAU MESMO


algumas verdades são loucas
não importa que estejamos doidos
ou sãos

acham verdades loucas porque
todos são pessoas boas
menos eu

então quando digo que pressinto
que não querem me ver e me evitam
estou louco

não sei porque ainda insisto
em queixas sem sentido pois
sou errado

e me dei conta que cada vez
me torno menor ao reclamar
então me calo

e vi que meu sofrimento virou
piada ou desconforto alheio
basta

nunca em minha vida levaram
nada meu a sério e por isso
me viro

boca calada e nada mais
que vão todos pro inferno
ainda é pouco

enquanto cumpro minha maldita
sentença que chamam de vida
calado

e resistindo a tentação
de apertar aquele botão
“off”

não vou dar esse gostinho
a nenhum filho da puta
dizendo

“viu? era maluco mesmo”




Walter Biancardine



segunda-feira, 7 de setembro de 2026

SADISMO SLOW MOTION

seria hoje o mais longo dos uivos
daqueles que o fôlego parcela a dor
em noites de gritos
a pior das noites

cada rosto que vejo me assusta
parece um aviso que morreu
inclusive o meu porque
morrer nunca foi
novidade 
pra mim

e os gritos dos porcos morrendo
ainda estão em minha cabeça
porque morro com eles
porque os comeria
mesmo chorando
merda de fome
sempre a fome

tudo se embaralha e nada faz sentido
só quero dormir e nada mais sentir
nem fome nem dor nem culpa
nem solidão nem tudo
o que me fizeram
sentir sem eu
pedir

isso tem que ter um fim e meu grito
não é pros outros porque nada adianta
meu grito é pra Deus e pra vida
deixem de ser miseráveis
me levem logo daqui
só quero a piedade
de um dedo desligando
o botão
“off”




Walter Biancardine



PORCOS GRITAM

saio pra comer alguma coisa
um frio que nunca vi por aqui
portão trancado
preciso dar a volta

no caminho escuto porcos 
eles gritam no chiqueiro
são criados pra isso
os comemos

mas aqueles gritos nunca mais
vão sair de minha cabeça
chego ao outro portão
trancado

volto pra casa ainda escutando
os gritos de agonia deles
e a fome que sinto lembra
que os como

mas assim é a vida normal
do mesmo jeito que me comem
sem dó nem piedade
só que não grito

não mais

ninguém lembrou que existe
um filho da puta morando aqui
então trancaram tudo
ele não grita

não mais

prisioneiro de minha própria
miséria e insignificância
tem horas que me farto
e sei que não existo

não mais

e o dia que já estava péssimo
consegue ficar ainda pior
ao menos tenho café
e uns cigarros

cara de sorte





Walter Biancardine




LINHAS CRUZADAS

existem linhas que ninguém cruza
cada um com a sua e seus limites
eu era jovem e decidi cruzar
todas elas

nunca me arrependi pois sei hoje
o que quase todos só imaginam
se minha vida é uma merda
não foram as linhas

fui eu





Walter Biancardine



domingo, 6 de setembro de 2026

CHORO

a cada vez que choro
quero um colo
e o colo que deito
sinto o cheiro
o gosto

e isso me muda
porque ainda vivo

quem olha de fora
não vê sofrimento
só contradição
ou falsidade

e isso
não é problema meu

mas a dor
é




Walter Biancardine



sábado, 5 de setembro de 2026

AMUSE-BOUCHE


duas fatias de haddock
uma em cada lábio seu
você me oferece
de amuse-bouche

sou educado
as comeria inteiras
sem usar as mãos

pois há pratos
que lambemos
os lábios

com prazer





Walter Biancardine



CONTEÚDO TÓXICO


eu sou o homem
o cafajeste que não vale um centavo
que nenhuma mulher direita
aceitaria

mas a verdade é que você aceita
quer mesmo sabendo o que sou
ou até porque sabe
nunca escondi
olha meus olhos e vê o abismo
sente a vertigem na beira deles
quer pular

cabeça de escritor
embebedando seu juízo
e mãos de mecânico
que te seguram com força
são grandes e os calos arranham
as suas e seus peitos
e todo o resto que me deixar
tocar

você olha e pensa
“mas que filho da puta”
o sinal de alarme acende
o aviso no mapa é bem nítido
- caminho perigoso -

mas você vai
porque sabe que sou o único mapa
que te leva em segurança
aonde você nunca teve
coragem de ir

sou a desgraça em sua vida
a vergonha em seu pudor
e você jura por tudo
“nunca mais”

mas os lençóis acordam molhados
você joga o babydoll na máquina
e jura novamente
“nunca mais
nunca mais
nunca mais”

e suas coxas úmidas opinam

“só às vezes”





Walter Biancardine




UM BOM DIA

A cafeteira voltou.
Meu amigo a consertou.
Trouxe pra casa e a primeira coisa que fiz foi um café.
Um belo e quente café.
Porque eu tenho esse direito.

Me dei ao luxo desse café depois de ter almoçado no restaurante onde faço um bico aos domingos, que salva minha semana.

O almoço veio acompanhado de cachaça e cerveja.
E preocupação.
Porque tempos atrás, se eu fizesse essa mistura cairia duro no chão.
Hoje é aperitivo.

Agora tenho a cafeteira e a barriga cheia.
Bebi feito um gambá e pude esquecer de mim.
Ao menos por uns vinte minutos.
Tenho meus cigarros, café e escuto músicas velhas na internet.
Anos 60, 70 e 80.
Só falta o psiquiatra marcar a consulta.

Considerando os últimos tempos
hoje foi um grande dia.





Walter Biancardine



A BRIGA AINDA NÃO ACABOU

Nem todo tormento é somente um desarranjo da química cerebral.
Bom somar esse desarranjo com uma vida coincidentemente miserável, caprichosa em sua rotina de dores.
Frustrações diárias. 
Humilhações. 
Todo um elenco que atua na peça chamada depressão.

Conheço ela.
É um ciclo.
Num dia estou bem e, no outro, me enterro.
Apenas cada vale parece ser mais profundo que o anterior.
Mas melhoro.
Até o momento, melhoro.

Mas a vida, com sua habilidade sádica em fazer coincidências ruins comigo, às vezes erra.
E dessa vez errou.
E quebrou a cara.

Das mil pessoas que apertavam meu pescoço, uma soltou.
Agora são novecentas e noventa e nove.
Já dá pra tentar respirar.

E quando respirei, veio um ar que nunca senti.
Vi o que nunca vi.
O jeito.
A forma.
Um anjo que fotografaram.

Dessa vez você se deu mal, vida.
Não estou curado.
Não estou bem.

Mas renasci.

E eu vou te catar, vida.
Vou te achar, nem que seja no inferno.

E vamos acertar nossas contas.

Por amor de um anjo emoldurado.





Walter Biancardine



MEDO E DESEJO

ver afinal seu rosto e você
mistura uma coisa como ver o céu
e saber que só suas mãos me
seguram lá

se você largar eu caio
e morro

só agora entendi que te dei
o direito de vida e morte
sobre mim

chamam isso de
amor




Walter Biancardine



sexta-feira, 4 de setembro de 2026

AGUARDE O ATENDIMENTO

Aqui, no aguardo da chamada pra consulta com o psiquiatra.
Me disseram que virá via WhatsApp, então fico de olho.
Mas não sinto vontade de mais nada.

Vi agora no relógio que escrever as linhas aí em cima me tomaram 14 minutos. Nem escrever quero mais.
O pensamento emperra e nada sai.

Enojado de mim. Até aí, sem novidade.
Enojado de gente que achei jamais me enojar.
Mas ninguém é diferente de ninguém.
Enojado de minha vida.
Quase dez minutos entre uma linha e outra, agora.

Pedi a um amigo que consertasse minha cafeteira. Ele ligou dizendo estar pronta e fez o serviço de graça.
E eu ainda não fui buscar.
Porque tenho de ir na rua.
E além de ir na rua, tenho de me vestir.
E além de me vestir, quando sair terei de dar bom dia pra um monte de gente. E não tenho um bom dia.

Só quero que o psiquiatra me dê o remédio.
Mas ainda não ligaram.

Fico aqui esperando.
Nem aí pra nada mais.

Só o remédio.
Só um fim.
Chega.





Walter Biancardine





HORA EXTRA DE AGOSTO

ontem foi péssimo
hoje foi pior
agosto fez hora extra
em setembro

e depois da explosão
da bomba que devasta
restam destroços
e silêncio

tudo em volta
é silêncio
terrível sensação
de fim do mundo

olho em volta
procuro sobreviventes
nem sinal de nada
ou ninguém

não sei se todos morreram
não sei se ainda há alguém
a única coisa que sinto
é que eu, sim, morri

melhor fechar os olhos
esperar que amanhã
os ratos saiam da toca
e tragam a vida de volta





Walter Biancardine



quinta-feira, 3 de setembro de 2026

LIGEIRAMENTE FURIOSO


e num momento como esse em que tô absolutamente puto
dentro das calças, nem minha auto-destruição
eu consigo levar a sério, porque nesse fim de mundo
nessa merda de lugar que moro
nesse buraco dos infernos de carolas hipócritas
nem um boteco existe por aqui
porque todo mundo é crente

porque a vontade que tenho é encostar num balcão
e pedir aquele querosene dos infernos
aquele aguarraz num copinho ensebado e cheio de marcas
de uns dedos podres que não são meus
matar tudo de um gole só
virar pro meu vizinho de balcão e
sem nenhum aviso
sem nenhum motivo
sem uma só palavra
acertar um socão no focinho do infeliz
um direto de direita que vai quebrar o pau do nariz e nunca
nunca mais vai voltar pro lugar
e ele vai desmaiar no chão

e uma horda de uns vinte animais suados e fedorentos
vão me agarrar e me surrar até que não reste um só osso
inteiro em mim

e serei varrido pelo dono do boteco até o meio fio

alguém vai chamar o SAMU

sim, sempre tem uma alma caridosa pra salvar
quem já não quer ser salvo

e todo o ódio e frustração dessa vida de merda misturado
com um resto de testosterona eu vou ter gasto nisso
porque nascer é ser jogado num coliseu cheio de leões e tentar
sair vivo daquela merda

você sabe que vai morrer
então, que leve alguns com você
que faça um estrago bem grande
que destrua tudo a sua volta

porque nada mais resta
além do último grito





Walter Biancardine



IMPROVÁVEL PERO NO MUCHO

muitas vezes fiz uma meia-ameaça
como um teste pra mim mesmo
no fundo eu sabia que não faria
por pior que tudo fosse

mas parece que a escuridão evolui
nos deixam só e cobram virtudes
nos deixam sofrer e exigem nobreza
e quando o rato emerge de nós
buscando o queijo que
quem cobra e exige
nunca ofereceu

então é chegado o fim do mundo

e no silêncio pós-apocaliptico
olho em volta e é só deserto
um deserto de breu e frio
estou atolado na areia movediça
e percebo o inevitável

posso afundar aos poucos
ou fazer algo
pois se afogar em lama
é a pior das escolhas

e o teste que sempre fiz pra mim
passa a não ser tão absurdo assim
vira uma hipótese viável
até confortável

mas a covardia chega e acaba a festa
ela diz:
- tire isso da cabeça, seu bundão

obediente
me dou mais um dia





Walter Biancardine



É PROIBIDO QUERER

que só me reste dormir
fugir como fiz uma vida inteira
me tornando mestre na arte
de não-querer

porque tudo o que quis
gerou dor e discussão e problemas
um transtorno na vida de tantos
melhor nem querer

aprendi a não desejar
era criança e quase um asceta
cresci assim e tudo se repetia
nas mulheres que quis

aprendi a não querer
nem coisas nem mulheres nem nada
talvez seja essa a única coisa
que posso culpar os outros

pra quê me mover
pra quê entusiasmo ou ganas se
tudo isso é querer e querer
sempre foi o que nunca

pude querer

desde cedo aprendi a dormir
desde jovem aprendi a fugir
toda minha vida aprendi
a não poder querer

não tenho nada
nem ninguém nem esperanças
mas tenho uma alma anestesiada
e uma longa prática em não querer

hora de dormir





Walter Biancardine



NÃO ME RECOMENDO

Na escrita, um talento verdadeiro pode ser perigoso.
Sentimos os céus que alguns poetas e escritores nos levam. 
Mas também podem nos jogar no inferno particular de cada um deles.

Se tivesse talento, eu precisaria também de um porte de arma.
Por sorte tenho a sensibilidade de um paralelepípedo e crio analogias do tipo que faz uma pintura naïf parecer a Gioconda.
Então sou inofensivo.
Apenas patético.
Mas a vergonha não mata.


Escrever é uma fuga antiga. Mais de 50 anos escrevendo.
A prática não traz, entretanto, a perfeição.
Pelo contrário: pode trazer acomodação, preguiça e desleixo.
Mas é o terapeuta mais barato que posso encontrar.
E o único que consigo pagar, somado às minhas cervejas.

Isso não impede que eu goste de ler os outros.
Leio e – claro – comparo com minhas pobrezas. Sou tosco.
Mas não importa, ao menos não explodi.

E toda a imundície do mundo é meu universo.
Nunca me enturmei com o pessoal do “sunny side of street”.
Eles têm juízo.

Eu não.
E nem amor
esperanças
perspectivas.

O Ministério da Saúde adverte:
posso fazer mal à saúde.




Walter Biancardine



12 PRESTAÇÕES DE DOR

um agosto de breu
acabou e se respira aliviado
poucos foram tão trevosos
maus e fortes em sua ânsia
destrutiva

entra setembro
e a promessa de flores
só traz lodaçal e mais escuro
imitando o irmão mais velho
e cruel

quase prefiro crer
que o problema não são os meses
mas a minha vida que ainda
insiste em passar por eles
à toa

melhor nem pensar
ou outubro sendo bom ou pior
nenhuma diferença fará
porque terei puxado a cordinha
pra descer fora do ponto




Walter Biancardine


QUE SEJA


Qual o problema de dormir até tarde?
E acordar de tarde e se poupar de horas de dor e sofrimento?
Pois que seja assim, porque cansei.

Tempos atrás eu tudo faria tentando salvar a nós dois.
Mas agora vejo que nunca houve o que salvar.
Fomos apenas dois solitários tapando os buracos na alma; eu tapava o seu e você tapava o meu. 
Mas amor e desejo, você os perdeu em algum lugar do caminho.

Não há problema em dormir até tarde.
É uma graça que me concedo.
Uma prova de minha grandeza, quando outras saídas seriam fáceis.
Mas resolvi ficar, e me permitir mais um dia.
Mais um dia.

Só pra calar qualquer boca que me acuse.
Porque nunca faltou sentimento.
Só faltou você admitir.

Eu me concedo mais um dia.

O que é um cachorro numa carroça cheia de gente?
A força que o burro faz é a mesma.

Mais um dia.
Por muito favor, eu me concedo.

Mais um dia.

Até o momento em que a paciencia acabar, o teatro fechar e as cortinas caírem.

Neste dia, pouco vai me importar quem quer que seja.

A festa acabou.

Me xinguem.





Walter Biancardine






quarta-feira, 2 de setembro de 2026

X = 0

a indiferença é plena
e absoluta
tanto faz como tanto fez

se estou ou não estou
se fui ou se não fui
o que fiz e o que não fiz
se existo ou não existo

coisas tem valor sentimental
eu mesmo lamentei as que perdi
mas tudo fica engraçado
quando nem mesmo eu
tenho valor sentimental
pra mim mesmo
ou alguém

e também a indiferença
é tudo o que hoje sinto
por mim

sou o valor de X
igual a zero




Walter Biancardine



QUIETO

já falei antes sobre
o triz
de dias em que estamos
por um triz
hoje é um deles

e mais dizer não cabe
em uma fresta tão pequena
espaço milimétrico
distância mínima

um triz

melhor calar




Walter Biancardine



UM PÉSSIMO DIA


não, não há mais paciência
impaciência consciente
porque sei o quanto quero
e conheço a dor da perda

antes fosse minha vida
só aquilo visto de fora
mas existe embaixo da terra
a fogueira viva do inferno
o cano de esgoto entupido
e todas as podridões
da alma humana
minhas e contra mim

não consigo mais cuidar
não consigo proteger
por culpa de meus próprios
diabos

e não tenho mais paciência
não quero mais esgrima
nem joguinhos nem testes

também sei muito bem
que não tenho dinheiro
pra ir direto ao ponto
e apagar inseguranças

o amor é de graça mas
ter comigo custa dinheiro
e paciência

e não tenho mais
nada disso




Walter Biancardine



O MAL PAGA BEM


talvez a fórmula do mais poderoso
veneno que existe seja juntar
o fundo do poço com o saco cheio

você quer desaparecer chão a dentro
mas o simples fato de ter que cavar
te faz imaginar ser uma cova comum
pra todos os filhos da puta 
à sua volta

é a certeza que você se condenou
que não há apelação e sua sentença
é metade na terra se fodendo
e a outra metade no inferno
queimando

é saber que você é um cara fácil
trouxa e que vende a alma barato
a troco só de promessas
pagas com crises
de ansiedade
e breu

nem morrer parece satisfatório
por saber que lá embaixo
no inferno
nada vai mudar do que aqui
em cima acontece

e no minuto final da vida
ainda existirá o ranço
de saber que a inveja compensa
remunera o invejoso
que toma tudo
o que foi seu
até sua
alma

e o invejoso nunca se fode

então não basta sofrer a vida
e amargar a morte pois
ainda há que saber
que os filhos da puta
que você tanto condenou
eram sábios 

nem a morte é solução
mas ao menos uma coisa sei
que tive extraordinária
competência

destruir minha vida

nisso fui bom
e já posso enxergar como será
o fim de tudo pois também
nele estará a sujeira nojenta
de só me descobrirem
podre
seco
duro
a caminho da cova
de indigente

e reclamarão do trabalho
que nunca deixei de dar
um desgraçado que atrapalha
até na morte

ao menos
para eles
a inveja compensou

entupam-se com tudo meu
seus merdas




Walter Biancardine




VOU ALI COMER UM TIJOLO


Passo os dias penitenciando minha auto-estima.
Me xingo de tudo, me acho um incapaz, um imbecil preguiçoso e incompetente. Só uma estupidez olímpica explicaria um homem de minha idade e tendo feito o que já fiz, estar numa situação tão ruim.

E a vida não dá tréguas.
Um simples sanduíche no Mc Donald’s ou Subway me pagaria um almoço farto e com direito a beber alguma coisa.
Mas olho as pessoas que frequentam estes fast-foods.
Obviamente têm dinheiro.
Um dinheiro que não fui capaz de ter.

E a vida me soterra, lembrando que posso ser ainda mais imbecil que elas.

Afinal, podem pagar o sanduíche.

E, talvez, levar a embalagem de sobremesa.




Walter Biancardine



LA NAVE VA


Fui ontem na psicóloga.
Posso dizer que me desvirginei. Nunca tinha entrado em um consultório de psicólogos, terapeutas, psiquiatras ou seja o que for.

Ela me encaminhou a um psiquiatra. Apontou sinais de depressão.
Novidade nenhuma.

Soube que alguns antidepressivos podem nos deixar como zumbis – não sentimos mais tristeza, angústia.
Mas também não sentimos mais nada. Nem alegria, contentamento.

Se eu parar de sentir, paro de escrever.

E se eu parar de escrever, só não explodirei meus miolos porque estarei sedado, vagando nos acostamentos das estradas feito um zumbi.
Aflito ou anestesiado, a vida é uma merda.

É escolher entre o fogo e a frigideira.

Vida que segue.





Walter Biancardine





segunda-feira, 31 de agosto de 2026

ME DEIXE COMER


a fome não passa
a boca saliva e o cheiro
desperta e quero comer
morder

me distraio
a fome diminui mas não sai
porque lembro e tudo volta
martela dentro de mim
quero comer

o cheiro me lembra
quero comer
as formas me pedem
quero comer
a carne implora
quero comer

a fome não passa
a noite chega e sonho
um morro de carne
suculenta e gorda

a fome obsessiva
não me deixa esquecer

preciso comer




Walter Biancardine



sábado, 29 de agosto de 2026

SÁBIAS PALAVRAS

eu escutava tudo aquilo
que os velhos sábios diziam
decorava expressões do rosto
gestos de braços e mãos
a sabedoria de seus cabelos
brancos e finos e poucos

anotei tudo que ouvi
guardei em cadernos empilhados
como precioso tesouro escondido
meu e só meu e de mais ninguém
toda aquela sabedoria seria
minha

tanto escutei e tanto escrevi
que um dia nas agruras da vida
os busquei pra ler e saber
o que fazer

e da primeira a última linha
primeira a última página
tudo era igual:

“ai, minha artrose”
“as varizes me matam”
“tô usando fraldão”
“meus dedos não dobram”
“cadê minha bengala?”
“hein? o que disse?”

imbecis
também envelhecem




W. Biancardine