quinta-feira, 25 de junho de 2026

CUSTO E BENEFÍCIO

 


a coisa anda ruim
quem escreve precisa
de emprego ou não come
se um velho escreve
melhor o dominó

prefiro dormir
não sinto fome
não fumo
não tenho sede
nem sujo roupas

então faço contas
sou ruim em matemática
mas nessa eu acertei
sair da cama não paga
o custo de acordar




Walter Biancardine





RÁDIO RELÓGIO

  


a noite só começava
depois de todos dormirem
pegava café e trazia cigarros
acendia a luminária

papel na Remington
porta do quarto fechada
por causa do barulho
e ligava o rádio baixinho

sintonizava a Rádio Relógio
que me perguntava "você sabia?"
e anunciava com gosto
de naftalina

"depois do sol 
quem ilumina seu lar
é a Galeria Silvestre"
zero hora
dezoito minutos
zero segundo

um gole do café
um trago no cigarro
e bato à máquina
o que ninguém imaginaria
que eu sentisse
ou pensasse

o silêncio pesa
vem um frio não sei de onde
mais café e cigarro
duas horas
vinte e três minutos
zero segundo

uma ideia puxa outra
uma dor chama mais dores
e mágoas se reúnem
em mim

escrevo e a máquina grita
barulhenta e pesada e velha
amiga de minhas madrugadas
e choros escondidos

mais café e mais cigarros
quase uma resma de papel
se vai sem que perceba
cinco horas
quarenta e cinco minutos
zero segundo

barulhos na garagem
o dia clareia
minha importância acaba
o escritor vira estudante

vivo das madrugadas
até hoje são amigas
mesmas dores e agonias
seis horas
zero minuto
zero segundo

você... sabia?




Walter Biancardine 




VIGÍLIA -

 


um mistério na noite
atrai cabeças e
almas e angústias

silêncio pesado 
da madrugada
falamos baixo
até na rua

um café solene
cigarro seríssimo
olhos franzidos
de respeito

o pensamento
pode ir tão fundo
como nunca ele iria
sob o sol

se pensa e se cria
quieto e com calma
e decide e escreve
e rima e joga fora

tudo em silêncio
como deve ser
de dia é fracasso
à noite é compromisso

parece liturgia
separando a noite
da orgia
do dia

amanhece
e se relaxa

tudo na madrugada
é muito sério




Walter Biancardine




CONSOLO PADRÃO

 


encontram um cabisbaixo
parecem ter radar
prestativos e bondosos

contam uma piada
os tristonhos riem muito
e se riem
é porque estão bem

mas você tem saúde
cabeça boa
almoçando todo dia
isso que importa

se reclamam de algo errado
um dinheiro teria entrado
a resposta não falha
o importante é fé em Deus

e agradecer pela vida
pela saúde que temos
a lucidez da cabeça
o resto se resolve

é o que sempre dizem
com sorriso amigo
sempre

quando você
tá na merda



Walter Biancardine




quarta-feira, 24 de junho de 2026

POR QUÊ?



Por quê quando surge uma ideia
não tenho papel nem caneta?

A vontade de ir ao banheiro
multiplica por dez 
ao enfiar a chave na porta de casa?

Tenho duas mãos e dois pés
vinte dedos para escolher
e a pancada é sempre 
na unha encravada?

Espinha, terçol, cravo
ou mesmo uma pinta
só nascem no dia da festa?

A mulher do caixa 
sempre pergunta
se tenho um Real?

A chuva faz os táxis sumirem
dobrarem de preço
e os ônibus lotarem?

A mesma chuva faz
minha memória apagar
e esquecer o guarda-chuvas
em casa?

Minhas paixões
na época de escola
tinham sempre namorado
ou nem me viam?

Não nasci com um dom
pra matemática ou comércio
ou algo mais útil que escrever?

Nasci com essa cara
que assusta bebês
e fecha portas?

Tenho essa mania
desde criança
de perguntar os porquês?

Ninguém nunca respondeu.
Por quê?



Walter Biancardine




SÓ ACHO

 


a vergonha não paga minhas contas
nem a insegurança de mostrar
ou a arrogância de se achar

escritores e poetas parecem
preservativos do espírito
use e jogue fora

quero que me leiam
que entendam
que se vejam no que faço
ou vejam o vizinho

editores me disseram que sou bom
mas não me publicam
não sou vendável

se vergonha não paga contas
elogios do editor também não
mas o pior de tudo
é a indiferença do leitor

me sinto uma besta
elogios na gaveta
e fome na barriga

não sou ruim
só acho
que ninguém precisa

só acho




Walter Biancardine





CADEIRAS NA CALÇADA – ou “Vendo o Movimento”

 


Nada mudou.
Eu era criança e via na estrada, viajando, gente sentada em cadeiras nas calçadas.
Olhavam o movimento. Os carros passando.
A vida dos outros.
Comentavam, riam, se embasbacavam.
Ou nada diziam e olhavam para o além.

Vi isso nas estradas.
Vi em Cabo Frio, quando era roça.
E fiz igual ao crescer.

Eu não ficava nas calçadas.
Nem comentava com vizinhos.
Ver o movimento, na cidade grande, é fumar na janela.
Olhar o trânsito lá embaixo.
Outros vizinhos olhando também.
Talvez até garimpar uma mulher nua no oitavo andar.

Eu comentava, ria, me embasbacava.
Ou olhava para o além.
Mas tudo sozinho. Comigo mesmo.

As cadeiras sumiram primeiro.
Olhar pela janela dá medo – ou rende um processo.
Hoje, quem “olha o movimento” é olheiro da boca de fumo.
Da biqueira. Dos “minino”.

Não há calçadas.
Não há janelas.
Restou a internet e as redes sociais.

E nela vemos a vida passar.

Mas não tem nenhuma graça.




Walter Biancardine




MADRUGADA

 


É madrugada.
Silêncio de pedra. Nem o vento sopra.
Vigias noturnos dormem. 
Um ou outro ônibus trafega, insone.
Pego um café.

Taxistas recolhem putas. Anseiam pelo pagamento.
Um mendigo revira latas de lixo. Cracudos socam portas de aço das garagens.
Um ou outro carro passa. Não sei de onde veio nem pra onde vai. 
Festa? Compromisso? Velório?
O relógio faz seu tique-taque na sala.
E sempre passa uma moto escandalosa.
Acendo um cigarro.

O rádio diz as horas. Madrugada profunda e o silêncio fica pesado.
O caminhão do leite encosta na padaria. E a Kombi dos jornais, na banca.
Ouço vir da garagem do prédio o barulho de um balde.
A torneira abre e a água fala alto.
O porteiro acordou e vai lavar a calçada.
O dia começa a clarear.
Pego outro café e acendo mais um cigarro.

Mais carros nas ruas.
Os postes se apagam.
E não escrevi nada que prestasse.



Walter Biancardine




CAVALO NA SALA

 


Eu não queria mas a noite chegou.
Resmunguei durante o dia, mas não posso atrasar a lua nem segurar o sol.
Agora, tudo escuro lá fora.
Bichos que nunca vi grunhem barulhos que nunca ouvi.
Devem ser feios, nojentos ou peçonhentos.
No mínimo.

Minha vista não alcança cinquenta metros sob a luz da varanda.
Silêncio absurdo não fossem esses bichos.
Me dá agonia, deixo a porta aberta.
Os cachorros entram.
E o cavalo também.

Sim, um cavalo na minha sala.
Viciou-se na ração do cachorro e quer roubá-la.
O certo seria eu despachar a todos – cachorros e cavalo.
Mas não tenho ninguém.
Junto moedas para enfrentar o amanhã e me passa na cabeça:
- Eu compraria esse cavalo.

Olho em volta.
Cachorros deitados no chão, cavalo sonso disfarçando na porta.
E eu aqui, só.
Ou nem tanto.
Ao menos tenho eles.

Fico besta de ver a mim mesmo.
As coisas que me passam na cabeça quando nada mais posso fazer.
Não é pular num precipício ou me internar no hospício.
É comprar o cavalo e seguir a estrada.
Até o fim.

Que sei lá onde é.



Walter Biancardine





CONJUNÇÃO ASTRAL

 


Os astrólogos chamam assim quando alguns planetas se posicionam de modo que a força de suas influências se multiplique e seja avassaladora. E creio que vi isso em um botequim, um dia.

Lá estavam os tipos de sempre. Gente no balcão pedindo a coxinha, o joelho, a cerveja e um maço de cigarros. Nas mesas entretanto, havia a tal conjunção: em cada mesa, um homem. Um só homem – ou melhor, um homem só. 

Entrei no botequim, pedi minha cerveja e, em pé diante do balcão por prudência – a cena era realmente estranha – me segurei para não imaginar que seria uma convenção do Clube do Corno. Ou um Congresso do Pé na Bunda.

Desperdicei minha intuição, pois os dois eventos se misturavam naquele boteco. Sob a névoa das frituras da cozinha e o cheiro do etanol engarrafado, um desses cidadãos me pediu um cigarro. Eu o estendi e ele me convidou para sentar à sua mesa. Aceitei.
E a primeira frase já entregou tudo:
- Mulher é uma merda, mesmo…

Um tiroteio de queixas se estendeu e, após cada suspiro evocativo das dores de corno, eu enchia seu copo. 
Ele torou quatro Brahmas em vinte minutos.

Outros chifrudos e sofredores de “bundalgia” ouviram seus lamentos. Alguns mesmo – assim é o carioca – se achegaram à mesa com suas garrafas e logo aquilo se tornou um workshop da galhada, com verdades pétreas e sentenças definitivas sobre as desalmadas que evisceravam aquelas pobres almas, arrancando-lhes o coração.

E foi quando aconteceu a plenitude da tal conjunção astral: do nada, entra uma dupla de violão em punho e pandeiro, tocando uns Amado Batista e pedindo trocados. 

E a explosão de lágrimas foi geral, poderosa e devastadora.

Paguei minha cerveja e sumi de lá.

O boteco deve estar radioativo de chifres até hoje.




Walter Biancardine




terça-feira, 23 de junho de 2026

ANTES DA NOITE

 


Hoje é um daqueles dias em que não queria que anoitecesse.
Normalmente sentimos isso quando crianças, mas às vezes um adulto retarda.
E meu retardo é também quase infantil. A noite hoje, neste dia de hoje, vai me parecer um “film noir”, clima de mistério, medo e horror misturados.

Andei pela estrada, como sempre. Sol forte, queimando a pele.
O escapamento dos caminhões ajuda nesse bronzeamento artificial. Passam rente a nós no acostamento, nos tostando e deixando a gente com aquela casquinha gratinada.

Também andei pelos pastos e matos. Pareço uma árvore de Natal, decorado por carrapichos grudados na roupa, pele e cabelos.
E os cavalos – sim, aqueles – me encontram e vem me enfiar o focinho, cobrando saudações.
Depois os cachorros. Sem noção. Se embolam em minhas pernas, me fazem tropeçar e até dar uns bicos involuntários em um ou outro.
Depois bois e vacas.
Eles me julgam.
Eu passo e param tudo o que fazem para me olhar fixo – ou quase, pois não deixam nunca de mastigar.

E tudo isso sob o sol.

Vejo vida. De bichos, de gente trabalhando e produzindo, movimento na estrada e tudo segue.
Volto pra casa e rabisco umas besteiras. 
Coisas desconexas – sim, não meçam minha temperatura pelo que escrevo.
Mas mantenho a porta de casa aberta. Quero o sol, a claridade.
Trevas, hoje, não.

A vista não vai longe. Sons estranhos me rodeiam. Grilos, corujas de mau agouro, sapos desaforados e outros que nunca soube o que é ou o que querem.
E acabo em casa, rodeado de paredes, solidão e angústia.

Me pego agora vendo as horas, na barra de tarefas do Windows.
Mais um pouco e começa o entardecer. Dele, entretanto, não me queixo. Sempre lembro de minha mãe nessa hora.
O problema é que, depois, vem a noite.
E hoje não quero.
Nem sei mais por quê.

E nem quero saber.




Walter Biancardine





PEQUENAS VITÓRIAS

 


Morava na rua Santa Clara, em Copacabana.
Mas eu morava lá em cima, depois da curva de saída do Túnel Velho.
Naquele tempo tinha vaga para estacionar o carro na rua e eu parava o meu bem perto de meu prédio. E saí nele para resolver algumas coisas no Centro da Cidade.

Cruzei o sinal da rua Toneleiros, o outro da Barata Ribeiro até que cheguei à avenida Nossa Senhora de Copacabana. 
Sinal fechado. Trânsito embolado. O inferno de sempre. 
E pra piorar, o sinal havia queimado, por isso uma policial feminina estava lá, orientando.
E que policial, meu Deus…

Chegou um outro fardado para a render, e ela veio em minha direção – sua motocicleta estava encostada bem ao lado de meu carro, ainda preso no tráfego. E meu carro era uma Puma – baixíssimo, rente ao chão – e quando ela subiu na moto, arqueando as pernas e mostrando tudo o que não podia através de sua calça justíssima da farda (devia ter uma lei pra isso), ela olhou diretamente nos meus olhos, que a admiravam sob o melhor ângulo possível.
Flagrante delito. 
Sem desculpas. 
Sem atenuante.

Roxo de vergonha e com medo de ser preso por desacato, apenas murmurei:
- Parabéns pelo trabalho, policial. Não deve ser fácil…

Ela me fulminou, de volta:
- Obrigada… muito gentil…

E sorriu lindamente, colocando o capacete e desaparecendo dali.

Ganhei o dia.



Walter Biancardine



DE OVO VIRADO -

 


O sujeito normal sempre faz amizades ao longo da vida. 
Arranja amigos, colegas, parceiros e mesmo se apaixona por algumas mulheres.
Normal. 
Inevitável. 
Acontece com todo mundo.

Também é normal querer agradar essas pessoas, de vez em quando.
Você paga uma cerveja pra uns, empresta uma chave 13 pra outros ou traz uma flor pra ela.
Nada demais.

O problema começa quando algo acontece: ou sua cabeça bugou ou uma lucidez repentina te atingiu. E você percebe que é o único nessa história que tenta agradar.
Se é verdade ou não, neste momento não me importa. 
Agora falo de mim, e a sensação é horrível.

“Pegue seu sorriso e sua gentileza e enfie no rabo” – é a frase que imagino estarem pensando.
Não me chamam. 
Não lembram de mim. 
Não devolvem sorrisos e, muito menos, aquilo que emprestei.
Bate a certeza de que, se eu não os procurar, a suposta amizade se desfaz. 
Virá a próxima era glacial e o filho da puta não vai me dar um telefonema pra saber como andam as coisas.
Hoje acordei assim, e nem sei por quê.

Não quer falar comigo? Melhor pra mim.
Não lembra sequer que existo e pergunta como vou? Eu também esqueci que você existe.
Não vai devolver o que te emprestei? Posso até ser otário. Você, já sei o que é.
Não deu a mínima para a flor que dei? Deixe murchar, talvez sinta falta dela um dia.

Hoje acordei azedo.
E podem pegar meu sorriso, a chave 13 e a flor e enfiar no cooler.
Dor de barriga não dá uma só vez.

E estarei ocupadíssimo.



Walter Biancardine



NUNCA APRENDI

 


sem ter estudo ou preparo
quis começar pelo fim
me fingindo realizado
enganei muita gente

minha vida de longe
quase parecia normal 
só não tive eu mesmo
cravado na pedra 

me achavam ruim antes
me acham ruim agora

a vida toda vegetei
à sombra de outros

o que um velho pode fazer
se só conheço o personagem
que gastei uma vida
representando?

não sei
nunca aprendi



Walter Biancardine




ARTE TEM HORA -

 


poetas e escritores apagam
se aparecem sem que chamem

arte inconveniente
num mundo que só quer 
sangue e catarse

muitos contos
muitas poesias
todos os dias

pare de sonhar
não é hora de versos
ou histórias

de “amigo nas redes”
ganha um “deixar de seguir”

a criança mostra ao pai
seu brinquedo e ele diz
“agora tenho coisas importantes”

o artista mostra ao público
sua arte e ele responde
“agora temos coisas importantes”

já reclamam
nunca foi hábito
e tudo tem hora

então chega de artigos
de histórias toda hora
da poesia sem leitor

ainda não era o certo
esperou contentamento
ganhou acusações

reclamaram que sumiu
perguntaram por doença

se oferece incomoda
se sonega é omisso
lembram das crises

mas nada tenho com isso



Walter Biancardine



segunda-feira, 22 de junho de 2026

NÃO QUERO QUERER


chego da rua e os cavalos olham
chegam perto e me dão seus focinhos
enfiam eles na manga de minha blusa
cheiram meu suvaco

isso é festa pra eles
há pouco me ignoravam
fugiam de mim
mas provoquei a amizade

eu passava por eles e dizia
“cavalo!” sempre no mesmo tom
fiz isso muito tempo
até que nem olhavam mais

nunca dei ração ou nada
não são meus pra cuidar
se ficarem aguados lamento
mas não consigo evitar

agora me procuram
querem a mim por perto
um deles montei no pelo
não sei se amigo ou bobo

agora sou eu que fujo
não quero seus focinhos
seus carinhos e atenção

os bichos que tive
me doeram um bocado
deixar de lado a afeição

não quero cavalos
nem as mansas vacas
e os bois ciumentos

nem cães e gatos
não quero bichos
não quero gostar

nenhum deles é meu



Walter Biancardine



É ISSO...


Não adianta ficar farto
de saco cheio ou não se conformar
isso causa um AVC
e rouba a noite preciosa

melhor se entregar
a um tédio conformista
temperado com cinismo
e pitadas de deboche

a perder tempo com uma luta
que o oponente não me reconhece
como adversário
me ignora

não é briga
é mímica
não estou lutando
só faço papel ridículo

então se conformar cai bem
me mantém vivo
pode até render umas linhas

a profecia se cumpriu
nasci para ganhar
salário mínimo

é justo



Walter Biancardine



BENDITA SEGUNDA-FEIRA

 


Bendita segunda-feira 
que você acorda sem acordar
que sai da cama sem querer
e se veste sem se ajeitar

bendita segunda-feira
que o café tá aguado
o pão tá murcho
o ônibus lotado

bendita segunda-feira
com serviço atrasado
do acumulado de sexta
e do colega encostado

bendita segunda-feira
sempre bate a impressão
que trabalho a troco de comida
vale refeição

bendita segunda-feira
nunca se chega em casa
trânsito dos infernos
e a torneira que vaza

bendita segunda-feira
porque a vida é assim
a gente vende o dia inteiro
pra comprar o mês no fim

Maldita seja a segunda-feira
Mais maldita ainda a falta dela



Walter Biancardine



SAINT-EXUPÉRY DO TRECHO -

 


Não é difícil romantizar e tentar ser poeta falando de aviação, dos voos e dos céus. 
Eles trazem já, em si, toda a poesia embutida.
Não resisti a tentação e andei cometendo um texto no qual lembrava de meu primeiro solo a bordo de uma tosca aeronave de treinamento, um pau velho que envergonharia Santos Dumont. 
Mas não me saí mal. 
Afinal eu falava dos céus e da grandeza que nos acomete quando voamos, junto com a repentina vocação poética.

Difícil é ser poeta ao volante de um Fenemê.
Ou de uma Terezona, o Mercedão.
Aí o bicho pega.

Todo o sublime se recolhe ao para-choque traseiro, em frases curtas.
Não há divino na poeira. 
No calor de rachar, no motor que queima sua perna direita ou no frio congelante das madrugadas – e aquela muriçoca não tem calefação.

Mas é preciso procurar poesia.

Talvez ela esteja nas longas retas de uma estrada deserta. 
Quilômetros e quilômetros sem  cruzar com uma alma viva sequer. 
Ou nas noites em que sempre vemos uma mulher de branco à beira da estrada. 
Ou subindo a serra de madrugada, com o cano de descarga incandescente por conta do motor berrando – bem no seu joelho.

Não, pobre demais.

Quem sabe a poesia se esconda no posto de gasolina, onde almoçamos e encontramos colegas que só veremos novamente daqui há uns seis meses. 
Mas o assunto volta sempre e exatamente de onde paramos.

Talvez esteja no horizonte – sim, é lá que a longa reta termina – e haja finalmente uma resposta ou recompensa para tudo. 
Mas nunca há. 
O que existe é o frete de volta, com sorte. 
Ou voltar vazio, batendo carroceria.

Quem sabe seja a voz do rádio, o único amigo que nos acompanha. 
Se o rádio pegar alguma estação, naquele fim de mundo. 
Ou se esconda no ronco do motor, ladainha interminável como uma novena de seis ou oito enormes cilindros, orando por uma viagem segura, enquanto nos deixamos sair de nós mesmos e sermos levados pelas mãos do rugido mecânico.

Também não.

Na frente, o asfalto cinza.
Aos lados, o barro do acostamento – quando há.
Uma salvadora barraca de caldo de cana e pastel.
E a gentileza do caboco que nos serve.

Depois, é estrada e poeira.
Poeira, poeira e poeira.
Muita poeira.
Só poeira.

Talvez esta seja a poesia.



Walter Biancardine 




MINHA PRIMEIRA VEZ -

 


Eu estava no controle. Tudo em minhas mãos. Só dependia de fazer certo e dos meus instintos.
E meus instintos sempre foram bons.

Quarenta milhas por hora, tirar o bicho do chão.
Acelerador a pleno, reduzir flaps e aproar no rumo certo.
E num teco-teco, a mil pés de altitude, vi coisas que vocês – gente chique – não conseguem ver num jato.

Raso o suficiente pra ver detalhes, gente andando, varais de roupa e piscinas com gente nua.
Alto o bastante para intuir a geografia, ver que os mapas não mentem e me sentir um filósofo – sim, pois não se vê tamanha grandeza sem sair de si.
E Deus se torna óbvio. Somos formigas.

Prefiro teco-tecos a um jato. Nele posso voar de janela aberta e sentir o cheiro das nuvens.
Creiam, nuvens tem cheiro. E nos molham o casaco.
Mas o mistério – ou Deus, sei lá – me chama e subo mais. E mais. E mais.
Dez mil pés. Frio de rachar.
Agora quem se acha Deus sou eu.

Em minhas mãos está o controle da mistura do ar e da gasolina. 
Controlo a máquina. Controlo os ares. Sou o dono do mundo.
A dez mil pés todo homem vira especialista em eternidade. 
Não há ninguém ao meu lado, os assentos são em fila e posso olhar ambos os lados para tudo dominar, conquistar, chamar de meu.

O mundo é grande, muito grande. E meu espanto, maior.

Mas também é pequeno, bem menor que eu sabia.
De Maricá vejo a Pedra da Gávea. De Cabo Frio ao Rio, em linha reta, são cem quilômetros. E incontáveis lagoas, lagunas, lagos, barcos de pesca e as intimidades dos quintais.

De volta, pouso três pontos, manteiga.
 
Me achei um Saint-Exupery.
Em casa escrevi o que vi e o que senti.
E também o que inventei.
Pilotos, pescadores e amantes compartilham alguns pecados.

Não esquecem a primeira vez.




Walter Biancardine