Çebastião era um literato. Muito culto, escrevia, lia, comentava e era reconhecido por sua erudição.
Mantinha, entretanto, um estranho hábito: predileção – ou melhor, verdadeira fixação – na letra cê com cedilha. Jamais explicara por quê, apenas a usava em tudo o que escrevia e mesmo seu nome fora alterado, em cartório, para a estranha versão que passou a ostentar.
Em seus últimos dias de vida andava cabisbaixo, triste, e os amigos se preocupavam com isso. Após seu falecimento, uma moça desconhecida apareceu em seu velório e distribuiu aos presentes cópias de uma última carta, que Çebastião havia escrito.
Segue o texto:
“A quem intereçar poça:
Çei que pode pareçer estranho, mas a vida não faz mais çentido para mim.
Os amigos çabem que há alguns anos, desde que conheçi e me intereçei profundamente pela minha amada Aleçandra – esta que ora vos entrega esta miçiva – igualmente dominou-me a fixação pelo çedilha. Çim, adquiri esta predileção de minha querida companheira.
Tanto eu quanto ela, entretanto, éramos inoçentes quanto ao feitiço embutido nesta maldita particularidade de noço çoberano idioma: poucos meses depois de perçeber-me já dominado pelo çedilha, notei que meu vigor çexual desabou.
Cada dia mais mole, mais fláçido, çerpenteante e desanimador.
Em minhas leituras descobri que o formato deste açento – pendente abaixo da letra – poçui um estranho e poderoso çimbolismo que influençia diretamente noça maçaroba. Em vão busquei remédios, poções e até mesmo çimpatias para reerguer a çulapa, mas tudo foi em vão.
Foi quanto, em reçente converça com um renomado Pai de Çanto, ele deu-me a triste notíçia de que tal feitiço não tem reverção: açim permaneçeria eu pelo resto de minha existênçia.
Çei que compreenderão meu gesto. Çei que açeitarão ter eu preferido me retirar da arena do leito a ter de me conformar em usar apenas a língua – a mesma língua cujo estudo obçeçivo me levou à incurável impotênçia.
Espero apenas que me perdoem e rezem uma miça por minha alma, tão atraveçada de dores.
Do amigo
Çebastião”
Deste triste caso nos fica a lição que a língua portuguesa pode ser perigosa, para aqueles que com ela brincam ou se descuidam.
Açeitem meu conçelho.
Walter Biancardine










