quarta-feira, 2 de setembro de 2026

X = 0

a indiferença é plena
e absoluta
tanto faz como tanto fez

se estou ou não estou
se fui ou se não fui
o que fiz e o que não fiz
se existo ou não existo

coisas tem valor sentimental
eu mesmo lamentei as que perdi
mas tudo fica engraçado
quando nem mesmo eu
tenho valor sentimental
pra mim mesmo
ou alguém

e também a indiferença
é tudo o que hoje sinto
por mim

sou o valor de X
igual a zero




Walter Biancardine



QUIETO

já falei antes sobre
o triz
de dias em que estamos
por um triz
hoje é um deles

e mais dizer não cabe
em uma fresta tão pequena
espaço milimétrico
distância mínima

um triz

melhor calar




Walter Biancardine



UM PÉSSIMO DIA


não, não há mais paciência
impaciência consciente
porque sei o quanto quero
e conheço a dor da perda

antes fosse minha vida
só aquilo visto de fora
mas existe embaixo da terra
a fogueira viva do inferno
o cano de esgoto entupido
e todas as podridões
da alma humana
minhas e contra mim

não consigo mais cuidar
não consigo proteger
por culpa de meus próprios
diabos

e não tenho mais paciência
não quero mais esgrima
nem joguinhos nem testes

também sei muito bem
que não tenho dinheiro
pra ir direto ao ponto
e apagar inseguranças

o amor é de graça mas
ter comigo custa dinheiro
e paciência

e não tenho mais
nada disso




Walter Biancardine



O MAL PAGA BEM


talvez a fórmula do mais poderoso
veneno que existe seja juntar
o fundo do poço com o saco cheio

você quer desaparecer chão a dentro
mas o simples fato de ter que cavar
te faz imaginar ser uma cova comum
pra todos os filhos da puta 
à sua volta

é a certeza que você se condenou
que não há apelação e sua sentença
é metade na terra se fodendo
e a outra metade no inferno
queimando

é saber que você é um cara fácil
trouxa e que vende a alma barato
a troco só de promessas
pagas com crises
de ansiedade
e breu

nem morrer parece satisfatório
por saber que lá embaixo
no inferno
nada vai mudar do que aqui
em cima acontece

e no minuto final da vida
ainda existirá o ranço
de saber que a inveja compensa
remunera o invejoso
que toma tudo
o que foi seu
até sua
alma

e o invejoso nunca se fode

então não basta sofrer a vida
e amargar a morte pois
ainda há que saber
que os filhos da puta
que você tanto condenou
eram sábios 

nem a morte é solução
mas ao menos uma coisa sei
que tive extraordinária
competência

destruir minha vida

nisso fui bom
e já posso enxergar como será
o fim de tudo pois também
nele estará a sujeira nojenta
de só me descobrirem
podre
seco
duro
a caminho da cova
de indigente

e reclamarão do trabalho
que nunca deixei de dar
um desgraçado que atrapalha
até na morte

ao menos
para eles
a inveja compensou

entupam-se com tudo meu
seus merdas




Walter Biancardine




VOU ALI COMER UM TIJOLO


Passo os dias penitenciando minha auto-estima.
Me xingo de tudo, me acho um incapaz, um imbecil preguiçoso e incompetente. Só uma estupidez olímpica explicaria um homem de minha idade e tendo feito o que já fiz, estar numa situação tão ruim.

E a vida não dá tréguas.
Um simples sanduíche no Mc Donald’s ou Subway me pagaria um almoço farto e com direito a beber alguma coisa.
Mas olho as pessoas que frequentam estes fast-foods.
Obviamente têm dinheiro.
Um dinheiro que não fui capaz de ter.

E a vida me soterra, lembrando que posso ser ainda mais imbecil que elas.

Afinal, podem pagar o sanduíche.

E, talvez, levar a embalagem de sobremesa.




Walter Biancardine



LA NAVE VA


Fui ontem na psicóloga.
Posso dizer que me desvirginei. Nunca tinha entrado em um consultório de psicólogos, terapeutas, psiquiatras ou seja o que for.

Ela me encaminhou a um psiquiatra. Apontou sinais de depressão.
Novidade nenhuma.

Soube que alguns antidepressivos podem nos deixar como zumbis – não sentimos mais tristeza, angústia.
Mas também não sentimos mais nada. Nem alegria, contentamento.

Se eu parar de sentir, paro de escrever.

E se eu parar de escrever, só não explodirei meus miolos porque estarei sedado, vagando nos acostamentos das estradas feito um zumbi.
Aflito ou anestesiado, a vida é uma merda.

É escolher entre o fogo e a frigideira.

Vida que segue.





Walter Biancardine





segunda-feira, 31 de agosto de 2026

ME DEIXE COMER


a fome não passa
a boca saliva e o cheiro
desperta e quero comer
morder

me distraio
a fome diminui mas não sai
porque lembro e tudo volta
martela dentro de mim
quero comer

o cheiro me lembra
quero comer
as formas me pedem
quero comer
a carne implora
quero comer

a fome não passa
a noite chega e sonho
um morro de carne
suculenta e gorda

a fome obsessiva
não me deixa esquecer

preciso comer




Walter Biancardine



sábado, 29 de agosto de 2026

SÁBIAS PALAVRAS

eu escutava tudo aquilo
que os velhos sábios diziam
decorava expressões do rosto
gestos de braços e mãos
a sabedoria de seus cabelos
brancos e finos e poucos

anotei tudo que ouvi
guardei em cadernos empilhados
como precioso tesouro escondido
meu e só meu e de mais ninguém
toda aquela sabedoria seria
minha

tanto escutei e tanto escrevi
que um dia nas agruras da vida
os busquei pra ler e saber
o que fazer

e da primeira a última linha
primeira a última página
tudo era igual:

“ai, minha artrose”
“as varizes me matam”
“tô usando fraldão”
“meus dedos não dobram”
“cadê minha bengala?”
“hein? o que disse?”

imbecis
também envelhecem




W. Biancardine



PORTA DE PRANCHA


vi uma porta
menos que uma porta comum
era uma porta pobre
de pranchas pregadas
montada em travessas
formando a letra Z
como muitas que já vi

não sei o que havia
do outro lado da porta
certamente dor
desamparo e desesperança
com o Z das travessas
mostrando a todos:
zero chances

o que haveria por trás
daquela porta?

não sei e sou covarde
demais pra querer saber
porque pra onde olho 
há dor e agonia
miséria e fome e raiva
e eu já tenho as minhas

ruins demais
pra me fazer abrir
aquela porta

deixo trancada




W. Biancardine



sexta-feira, 28 de agosto de 2026

NÃO FAÇO IGUAL, FAÇO MELHOR


eles são os donos do sistema
mandam na porra toda
arrancam almas e dinheiro
vidas e sonhos dos outros
porque precisam poder
precisam foder
no figurado pra poder
foder no literal

tudo isso é pra terminar lá
na cama e no gozo e na sensação
de ser dono de alguém e ter
uma legião de gente dizendo
como ele é maravilhoso

me acham um fracassado na vida
porque perdi tudo e nada tenho
por isso chamo essa gente de
burra

consigo fazer uma mulher sonhar
ela também faz igual comigo
minha cara melada no meio de suas
pernas me mostram a felicidade
de quem também me tira dessa vida
de merda por um bom tempo

e ela geme e goza chorando e diz
que me ama e tudo será pra sempre
e me enlaça e me puxa com suas pernas
me oferece todas as entradas
lambuza e grita e acorda os vizinhos
e naquele instante o mundo e a vida eram
só nós

e fizemos isso sem foder a vida 
de ninguém além de nossos corações
não roubamos sonhos de ninguém além
dos nossos
e o mundo seguiu sem se machucar

porque fizemos mais e melhor que
os donos do sistema que mandam
nessa porra toda
mas não em nós

e bebo mais um gole
acendo um cigarro enquanto ela
ainda geme e suspira só de lembrar
que fizemos mais e melhor
sem fodermos ninguém
além de nós
porque é só o que temos
nessa merda de vida

e no fim de tudo
no fim dos nossos dias
iremos
todos
pro mesmo lugar
embaixo da
terra

ponto pra nós





Walter Biancardine



quinta-feira, 27 de agosto de 2026

J. ESPERANÇA X CENTRO - PARADOR


desde a madrugada chove e faz
um frio desgraçado
nunca falha a maldita coincidência
porque hoje é dia de ir
lá longe
andar feito um desgraçado
comprar comida
e meu maldito cigarro

andar vinte quilômetros
no acostamento duma estrada
barro com chuva sempre suja
e roupa molhada e frio
porque moro num lugar
tão pobre
que nem cigarro vende
porque é todo mundo
evangélico
mas bebem

talvez pegue um ônibus
dando sorte ele passa
ainda nas próximas três horas
a mesma conta serve pra volta

é sempre divertido dividir
o assento preferencial com um
velhinho levando sua galinha
a galinha sempre me olha
somos iguais

naquele ônibus lotado de gente
molhada e fedorenta e suada
de frio e raiva
lá fora a chuva continua
no ônibus o fracasso se espreme
olho a galinha
olho o velhinho
melhor olhar pro chão do ônibus
imundo igual
minha vida




Walter Biancardine



BIFURCAÇÃO

a vida sempre nos coloca
diante de diversas opções
várias escolhas e decisões
muitos caminhos a seguir

é sempre assim e se repete
decisões, escolhas, caminhos
dia após dia e ano após ano
não muda

outra coisa que não muda
é sempre e invariavelmente
fazermos a escolha
mais errada
não falha


(“a vida nos dá muitas escolhas.
nós é que erramos todas”)

Walter Biancardine



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

REVELAÇÕES, livro I


todos os profetas
só viraram profetas
depois de atravessarem
um imenso deserto

as aparições só apareceram
no deserto
revelações só se revelaram
no deserto
visões só foram vistas
no deserto

e gastei meus miolos
com café e cerveja e noites
não dormindo porque cismei
que o deserto é o
protagonista
da fé

pois vivo num deserto
uma ilha de eu sozinho
cercado de mato por todos
os lados

dias e quilômetros
sem ninguém

e nem um anjinho sequer
uma visão ou uma voz
ou qualquer pressentimento
veio a mim

o deserto é ainda
um bom protagonista
o problema sou eu
de coadjuvante

aí não dá




Walter Biancardine



DE UMA CAIXA FIZ UMA CASA


uma caixa de isopor
virou mesa de cabeceira
da cama que achei

duas mudas de roupa
não fazem volume
a cadeira é armário
e cabide

achei mesa e cadeira
na casa abandonada
agora é meu escritório
ainda aguentam um pouco

e de um rasgo de carpete
fiz meu tapete pra cama
o chão é frio no inverno

fui catando todo o lixo
de prateleiras imaginadas
pasta pra guardar textos
churrasqueira sem um pé
é lixo mas me serve

e tudo tem alguma história
já foi a alegria de alguém
já mostraram pros amigos
mas ficaram velhos
quebraram
lixo

esse lixo é minha sorte
minha compra online
sem internet e taxas
o pagamento é só
vergonha
angústia
agonia

divididas em suaves prestações
a perder de vista

literalmente




Walter Biancardine


JOGANDO BOLA DE GUDE COM DADOS


Na verdade, basta entender que minha vida sempre foi tentar ouvir um velho disco de vinil no CD player. Não encaixa. Não é próprio pra isso.
Este sou eu, o inadequado.

Editores dizem que o som do vinil é muito bom, mas não vende em um mercado que sequer CDs ouve mais. Em outras palavras, “não sou vendável”.

Escrevo sobre a vida.
E a vida fede. É suja, ruim e má muitas vezes.
Ao fim de um dia de trabalho voltamos pra casa com a bunda ardendo, pois somos enrabados das 8 às 6 da tarde e ainda temos de sorrir – é “networking”, dizem os hipócritas.

Vendemos nossa alma ao diabo quando temos uma profissão, e alugamos nossa existência ao patrão quando temos um emprego.

Mas é a vida. Ou não há como pagar aluguel, luz, água, gás, condomínio e os pequenos luxos (“é pra isso que trabalho, eu mereço”) como internet, Netflix, Spotify e a academia.

O cara vende a própria vida pra ter isso.
Quem faz seus horários é a empresa. Vigia suas palavras e opiniões por causa dos colegas de trabalho. Se veste como fosse feito em série no escritório. Come o que todos comem, vai onde todos vão, gosta do que eles gostam e dizem em casa, aos domingos:
- Minha vida é um sucesso!

Então escrevo mostrando como esse sujeito morreu. Vive ainda, mas morreu.
Não tem alma, não tem gostos, não ousa ter nada que seja dele – só dele. 

O medo assombra essa alma. Acha que chegou ao céu e mal reconhece os diabos à sua volta. E mente pros amigos dizendo que isso sim, é coisa de um homem decente e correto.


E eu, na minha imundície, mostro a miséria humana que é um infeliz assim. E os editores se unem aos mais delicadinhos e me pregam na cruz da execração, porque ouso feder onde todos andam perfumados; tenho o atrevimento de mostrar as latas de lixo nos fundos daquele edifício de luxo e falsidade.

E ninguém, nunca, vai comprar um livro meu.
Pra quê?

Ando pelos acostamentos das estradas e faço um inventário da vida dos outros, olhando calcinhas largadas, pinos de cocaína, latas de cerveja, embalagens do Bob’s e até bichos mortos. Vejo isso tudo e faço uma crônica.
Porque é nos acostamentos que largamos aquilo que não queremos ou não podemos levar pra casa.

E eu ando nesses acostamentos.

E também vejo gente que gasta o Bolsa-Família inteiro no jogo do Tigrinho ou exibindo cervejas no boteco, deixando o resto da família se virar nas ruas porque ele quer mostrar que “tá com a vida ganha”.
Então escrevo que tanto faz. Rico, remediado, pobre ou indigente, a merda é sempre igual.

E a porca vida não deixa de ser justa, pois fode todos nós sem distinção de escolaridade ou faixa de renda.


E isso vira livro.
Contos, crônicas, poemas.
Linhas que nada costuram.
Letras que nada cantam.

Coisas que ninguém compra.

E os editores fogem de mim como o diabo da cruz.





Walter Biancardine


TRAÇAS E MOFO


mesmo um velho fedorento como eu
tem no fundo da cabeça um cofre 
enferrujado e cheio de coisas
que os outros nunca entenderão

no canto desse cofre tem uma TV
onde eu via o mundo desde pequeno
e ria com desenhos e programas
pra crianças como eu

o tempo foi passando e a TV ficou
sempre ligada e mostrando que
meu mundo estava indo embora
e custei a entender isso

primeiro Elvis depois John Wayne
e meu amigo Cazuza também
e Freddie Mercury e tantos mais

minha TV esvaziou
saiu do ar
e o toca-fitas calou
hoje com Dolly

também meus amigos 
que ninguém conheceu
foram morrendo um a um 

por acidentes
doenças ou drogas 
ou velhice

fui na rua e olhei em volta
igual ao fundo de meu cofre
e cada dia que passa parece que
a calçada fica mais larga

o bar mais vazio
e a vida também

quando um entregador me pede
“me dê um ponto de referência”
eu respondo sem esperança:

esse é o problema
não sobrou nenhum

e velhos fedorentos costumam ter
cofres enferrujados onde ainda
tentam guardar

seus brinquedos




Walter Biancardine



terça-feira, 25 de agosto de 2026

SÓ MORCEGOS TEM FÉ


passamos uma vida aprendendo
a não confiar em qualquer um
e já bebi demais por amar
quem jurou eternidade e durou
pouco

então numa hora ruim ou até
dias ou meses ou anos trevosos
abro uma Bíblia e leio que
tenho de amar a Deus 
sobre todas as coisas

e me pergunto como amar alguém
que nunca vi ou falou comigo
ou ao menos bateu em meu ombro
e disse “força, rapaz”

me soterram com gritos que
é preciso ter fé e fé absoluta
muita fé e só fé e mais fé
em quem nunca 
nada me prometeu

quem prometeu não foi Ele
foram outros que juraram
falar por procuração

então tenho de ser vivido
pra não cair em golpes do dia
mas inocente pra crer em tudo
de alguém que nunca
nunca

me prometeu nada
me deu forças no ombro amigo
ou tomou uma cerveja comigo

me condenam por enxergar
que não faz sentido
mas o desespero é maior

e imploro de joelhos
rezo e choro

e ainda peço




Walter Biancardine



segunda-feira, 24 de agosto de 2026

MICHÊ PARNASIANO

a arte brasileira
que a mídia divulga
hoje é prostituta
que masturba clientes
com pornografia
ideológica




Walter Biancard
ine


CERTIDÃO DE ÓBITO

a filosofia morreu
e arrastou o pensamento
e o discernimento
e a sutileza e a ironia
e o sarcasmo e tudo
escrito
pra mesma vala

a teologia morreu
de overdose de espetáculos
e hemorragia financeira
dos fiéis no dízimo
foi enterrada no palco
não no altar

as ideologias sobreviveram
como baratas após holocausto
nuclear

seres mutantes
que se transformam em
verdades ou deuses
ou inteligências
artificiais 
ou não

e traficam nas biqueiras
dopamina a preços
acessíveis

os que sobreviveram
se refugiam em ilhas
de pedantismo arrogante
e abatem os poucos
que chegam
exaustos
às praias

mal sabem que esta ilha
tem já seus dias
contados

a menos que um blackout
salve a eles
e ao que sobrou
do mundo



Walter Biancardine


AMIGO DE TINTA E PAPEL

Dei importância demais à minha vaidade.
Sim, sou vaidoso. Mas a culpei pelo fato de insistir em escrever, mesmo sem leitores.

Imaginei que estaria ostentando o título de “escritor”. 
Ponto pra vaidade. 
Vomitando meus livros publicados. 
Ponto pra ela de novo.
Mas agora, nesse momento, vejo que não é isso.
Ao menos neste exato agora.

Insisto em escrever pelo mesmo motivo que precisamos de alguém pra conversar. Alguém ao nosso lado, não uma chamada telefônica.
Queremos olhar nos olhos dessa pessoa e sentir a recíproca, a compreensão que nos traz o acolhimento.
E por isso escrevo.

Leio o que escrevi e nas linhas vejo um amigo imaginário, balançando a cabeça com ar solidário, entendendo tudo o que sinto e passo.
Mas um só texto ou poesia não bastam. A conversa é sempre longa, meu estado é grave.
E por isso posto, ao menos em minha página pessoal.
Lá eles ficam listados, acesso fácil, não preciso ficar abrindo um arquivo após o outro.
A conversa flui.

Talvez só agora eu esteja entendendo que o egoísmo venceu minha vaidade.

Que se dane.
Essa tralha toda é o único amigo que tenho.

Ele merece a cerveja de minha vergonha.





PRA QUÊ TÍTULO?

Cansei de me preocupar se lêem esta página ou não.
Desde que o YouTube me puniu, não tenho mais acesso às métricas daqui e por isso me surpreendeu o comentário de um doido sobre algo que escrevi.

Sim, alguém deve ler isso em algum momento, mas pouco me importa.
Não sou famoso e nenhuma diferença faz uns dois ou três aleatórios passarem por aqui e enxergarem particularidades que não publico nas redes. Hoje, esta página virou quase um “diário”.

A diferença que me importa neste momento é a que separa minha urgência de saúde da letargia do SUS.

Preciso de remédios que me tirem desse estado. Preciso que um psiquiatra me dê receitas. Preciso sair desse buraco, pois enquanto isso me incomodar é sinal que há esperança de cura.

Fui na Unidade Básica de Saúde aqui da roça, nesta última sexta-feira. Conheço a senhora que trabalha lá, ela mora em frente as terras onde vivo e li em seus olhos que ela percebeu meu problema.

Ainda aguardo que ela me avise quando uma psicóloga irá definir meu horário de atendimento, que será 1º de setembro. A psicóloga vai me medir, pesar, cheirar, avaliar e decidir se posso ir ao olimpo da cura psiquiátrica – eterna burocracia estatal.

A minha amiga sabe disso. Vejo em seu rosto calado e conformado. Ela precisa do emprego.
E tanto sabe que me ofereceu uma oração. Disse que rezaria por mim.

Aceitei de bom grado.
Até porque sequer mencionei que também preciso de atendimento clínico pela dor de estômago diária que sinto, a qual se irradia até os rins.
Sim, deixei isso pra depois, afinal conheço as pessoas.
Por melhores intenções que tenham, não se deve complicar a cabeça delas com informações demais.

Quando marcarem o horário da psicóloga, falarei com ela sobre a dor.

O SUS é assim: sua dor e sua agonia devem aguardar na fila.

Sem perturbações da ordem, por favor.






domingo, 23 de agosto de 2026

NÃO BRINQUE

não brinque
nunca brinque
com a depressão

ela é um quase
quase fiz
quase fui
quase tomei

a distância
é um fio de cabelo
de uma cabeça
em desespero

não brinque
nunca brinque
com quem passa
pelo que ninguém
sabe explicar

pois se tudo é
um quase 
apenas o fundo do poço
é um fato

e isso não é justo
pra ninguém




Walter Biancardine



NA FERIDA SAL AGOSTO


conheço esses altos e baixos
e o baixo de agora é profundo
tenho evitado escrever
evitado até pensar
afinal é agosto

yo no creo em las brujas
pero que las hay
las hay

e tudo por aqui cai
no mês mais funesto
sócio da depressão
mais cruel

melhor calar a boca
sempre sobrevivi
aos meus pensamentos
não é hora de fraquejar

este agosto veio com força
cheio de opcionais e 
pintura metálica
de mercúrio na veia

mas setembro virá
surrando a escuridão
vou abrir a janela
porque sobrevivi

no creo en las brujas 
pero que me jodieron 
me jodieron

em setembro 
sobreviverei




Walter Biancardine


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

HORA DA OFICINA

Venho insistindo. Minto pra mim mesmo.
Mas leio o que escrevo.
É patético.

Não me reconheço nas linhas e frases. Me envergonho de ter mostrado. E sei que não é com as mãos que se escreve, mas com a cabeça. 

E parece que ela se foi.
Bateu a porta da rua com tanta violência que afetou o corpo. E deixou pra trás a suspeita que talvez tudo tenha sido nada.

Tudo o que eu queria dizer, gritar e mostrar era nada. Fogo de palha.
Queimou rápido. 
Ficou só o chão,  preto e sem nada a nascer.

E o corpo queimou também,  junto com a cabeça,  o coração e a alma.

Não me reconheço no que escrevo.
Nem no que faço,  digo ou vivo.

Sou um estranho hoje, pra mim.
E um estranho inconveniente. 

É hora de parar.




Walter Biancardine