sexta-feira, 12 de junho de 2026

TEMPO -

 

houve um tempo
que o relógio não andava
o calendário não mudava
demorava demais

achava um saco
porque o tempo
era congelado
feito foto

nas horas boas
água na peneira
uma tarde inteira durava
montar meu autorama

e eu me olhava
o espelho também
me negava carros
cigarros e mulheres

o tempo não passava
e eu ali atolado

de repente 
o tempo mudou
e acho que o freio
agora quebrou

hoje é ladeira abaixo
cada vez mais rápido
um ano é um minuto

só sei que o tempo
continua parecendo
que não existe

agora 
que mais preciso
ele some

e ninguém sabe
onde o encontro



Walter Biancardine







JOGO, MULHER E CACHAÇA -

 


rotina de acordar
não querer sair da cama
mas saio

café e cigarro
e vi um aviso
no celular
TED recebido

imaginei um benfeitor
um mecenas
fui olhar e era 
da Amazon

pensei finalmente
alguém comprou
o maldito livro

vi o depósito
um centavo
um só rídículo
centavo

pra manter
minha conta ativa

sou tão lido
que precisam
tirar a poeira
de quando em vez

vou gastar tudo
em jogo
mulher e cachaça
um centavo



Walter Biancardine




NO HORIZONTE OU NO INFINITO -

 


tanta coisa igual
coincidências e gostos
e coisas da vida
e pensamentos

seus planos eram meus
meus desejos eram seus
tudo parecia um espelho
vidas paralelas

a gente devia se encontrar
no horizonte ou infinito
mas eu ando e ando
nunca chego

as paralelas
jamais se encontram

a ironia 
é que se precisam
uma da outra

ou deixariam de ser
o que são

não nos tocamos
nunca
mas nos vemos
sempre

ou não existiremos



Walter Biancardine



quinta-feira, 11 de junho de 2026

VELAS AO VENTO -

 


nada pára um vendaval
nem o diminui
ou negocia
ele sopra as velas

algumas resistem um tempo
dançam e contorcem
o vento retorna
e vem mais forte

outras são mais fortes
aguentam mais
teimam e permanecem
até o último sopro

existe a sorte
de velas abrigadas
mas estas não conhecem
a vida de verdade

pois é seu destino
queimar brevemente
ou apagar
tudo por conta

do tempo
ou do vento



Walter Biancardine 



AINDA PEDINDO -

 

se os espíritos existem
gostaria que Deus tapasse 
seus olhos

que meu pai 
e minha mãe 
e minha irmã
e todos os que morreram
não vissem 
as coisas feias que faço

passei uma vida pedindo
ao meu pai ou minha mãe
fiquei velho
nada mudei

continuo pedindo
um rumo ou caminho
uma direção ou algo
que me salve de mim mesmo

em vida só me viram errar
depois de mortos
se isso existe
ainda me veem
errar e errar e errar

um dia comprei um carro enorme
e imaginei meu pai ao meu lado
feliz como era com os seus

queria ter uma casa antiga
decorada como minha mãe gostava
pois lá ela estaria

não tenho casa nem carro
nem chance
nem tempo

se espíritos existem
terei muito o que explicar
a eles



Walter Biancardine



MINHA MÃE ME DISSE -

 


Anos atrás, minha mãe ainda viva definhava após uns três AVC's.
Ela morava comigo. Eu cuidava dela.
Ambos sofríamos a vergonha de eu trocar as fraldas de quem já me dera tanta chinelada. Mas era em mim que ela confiava.
Só em mim.
E me segredava: "me sinto uma vela, se apagando aos poucos..."
E ela se apagou.
Guardei essa frase. Nunca esqueci.
Me persegue mesmo em meus poemas.

ALTOS E BAIXOS - 
todo mundo tem
eu também
dá assim
de uma hora pra outra

nada o chamou

estava bem
afundei

era sorrisos
agora olho a porta
não abro

tem horas que cansa
ser vaga-lume emocional
os que voam por aqui
ao menos são bonitos

sou uma vela acesa
queimo
a mim mesmo

e não ilumino
quase nada



(para minha mãe Dalva, in memoriam)
Walter Biancardine 



OS FUNDOS -

 


há gente assim

devem ser doidos

querendo saber do pior


do obscuro

da dor

do fracasso

do avesso da vida


pobres ou ricos

jovens ou velhos

tem de tudo nesse meio


perceberam que muitos

vivem como restaurantes

chiques para o público

um inferno na cozinha

e um nojo nos fundos


esse é o povo

que me lê

porque desconfia


até de mim



Walter Biancardine




quarta-feira, 10 de junho de 2026

BANHEIRO PÚBLICO -

 


o banheiro público é o avesso 
da biblioteca
nela ficam os livros 

organizados
catalogados 
higienizados

no banheiro ficam os pensamentos 
que escaparam sem autorização

os palavrões
as obscenidades
as declarações de amor desesperadas 
e os desenhos anatômicos 
feitos por artistas incompreendidos

meus poemas
meus contos
minhas histórias
habitam essa fronteira


Walter Biancardine



NÃO DEU PRA SEGURAR, DESCULPE -


ânsia de vômito
e a coisa sai

empastando o caderno
de versos
salpicando o teclado
de contos

corro ao banheiro
ou escrevo
sei que é nojento

como tudo que há
em nossas tripas e
algumas vezes
corações



Walter Biancardine



NÃO HÁ DE CHOVER A VIDA TODA - (ou "Quando eu era jovem")


chuva de críticas 
goteiras de indiretas 
pingavam em mim 
e no que fazia

e eu me afogava

me via perdido
mas olhava o céu
talvez melhorasse

a vida podia ter mudado
se a chuva passasse
secando os aguaceiros
dentro de casa

mas não passou
na juventude 
em dilúvio

fiz o que pude
minha arca é a escrita

nada enxergo
não há sol
só nuvens

o que são dias nublados
perto das tempestades
que vivemos?



Walter Biancardine 



AQUELA VOZ SEMPRE TEM RAZÃO -

 


Sabe quando você planeja algo, toma uma decisão ou segue um impulso e vem uma vozinha em sua cabeça dizendo "não faça"?
Pois é, acho que todos já a ouvimos. E todos já a desobedecemos.
E todos já quebramos a cara depois.
Resolvi fazer um pequeno poema, uma gaiatice, sobre essa mania que temos em não escutar essa voz sem nome, que sempre nos alerta.

GRILO FALANTE -
de seu caminhão
viu a suntuosa 
ela fez sinal
pedia carona

lembrou
laranja madura
na beira da estrada

e a voz dizendo
passa reto

não passou
deu carona

gastou o dinheiro do frete
inteiro na farmácia
Benzetacil dói
mas a vergonha
dói mais


Walter Biancardine 



GOTEIRA

 


goteiras do teto lembram
o serviço que ele presta
protege e abriga

telhados merecem cuidados

ela fez que não viu
e deu

um balde d’água
fria



Walter Biancardine



NEURA DO EU SOZINHO (ou “Crise Ontológica de Beira de Estrada)


nada aconteceu de anormal
tudo igual 
dentro do vazio de sempre

bois pastando
vacas olhando em volta
garrotes irritando
e cavalos

sempre cavalos

disputando relinchos
entre si

cadê o boiadeiro?
cadê o queijeiro da fábrica?
cadê o vizinho?

onde aqueles um ou outro
da beira da estrada
ponto do ônibus
no acostamento de barro
que sempre me davam
bom dia?

volto pra casa e escrevo

zero curtidas
zero comentários
nem sequer críticas

acho que hoje acordei
mas esqueci de existir


Walter Biancardine 



terça-feira, 9 de junho de 2026

BUNDAS, SEMPRE BUNDAS -

 


Gosto de whisky Jack Daniel’s. Eventualmente o cito em meus escritos. O mesmo se dá com uma boa cerveja em dias quentes, mas logo começam a me achar alcoólatra.

Já tomei bebedeiras homéricas. Hoje concluí que a bebida nada apaga. Apenas nos tira o filtro e faz a dor ficar mais aguda e as certezas mais ferinas.

Quanto aos vícios, experimentei de tudo e nada me pegou. Apenas o cigarro permanece, e já não sei se dele tenho uma dependência física, química ou a pior delas: a emocional.

O julgamento dos outros é forte.

Na verdade, há tempos convivo com o que pensam de mim.
Mas faço o que quero. As conclusões tiradas pelos outros são problemas deles, não meus.

Fosse eu enumerar meus rótulos, a melhor saída seria deixar o país. Eu seria um alcoólatra, chapado, vagabundo profissional e, para completar, tarado em bundas.

Sim, bundas.

A rotina de minha vida é a de pessoas indo embora. São amores desfeitos, amizades rompidas, brigas decorrentes de gente que confunde favor com servidão.
E quem vai sempre está de costas para mim.

A única coisa que lembro ao pensar em meu círculo de convivência são bundas.
Bundas indo embora com mágoas.
Outras bundas com raiva.
Outras ainda com a certeza de que sou um ingrato.

Bundas.
Sempre bundas.

Fosse eu alguém carismático e cercado de gente, lembraria de rostos.
Como estão indo embora, só vejo bundas.

Depois de um tempo, os julgamentos e as despedidas começaram a parecer a mesma coisa.

Olho para mim hoje e vejo um escritor, poeta, desenhista, artista plástico, jornalista, analista político, ensaísta, cantor, guitarrista, baixista, piloto de avião, motociclista, motorista de caminhão e, ultimamente, andarilho de beira de estrada.

Disso tudo só permaneceram a escrita e as longas caminhadas.
Todas aquelas bundas, indo embora, me transformaram num andarilho.

E que escreve. 

Até sobre bundas.



Walter Biancardine





segunda-feira, 8 de junho de 2026

QUARTA CAMADA -

 


Alguns escritores e poetas 
são parasitas deprimidos,
que vivem na quarta camada 
da personalidade

Gastam os dias chupando vidas alheias
e lamentando a própria.

O resultado são rimas de silício
sangrando pernas
em realismo travestido

e lágrimas
ao tentar levantar da cama 
de manhã.

Eu sou um deles.


Walter Biancardine 


QUALQUER COISA

 

Uma página de poesias andou postando "recomendações sutis" sobre o uso eventual de "palavras de baixo calão" em alguns poemas. 

Isso é o fim da picada. Não é defesa da pornografia, mas da palavra exata. Usar "nádegas" onde o poema pede "bunda" o enfraquece tanto quanto dizer "atendente genital" no lugar de "puta".

Poesia não é questão de educação, mas de expressão - dentro dos óbvios limites do bom senso.
Mas se todos tivéssemos bom senso, não seria preciso religiões.

E por isso fiz o poema abaixo, para responder seus administradores:

QUALQUER COISA -
a poesia pode falar
de qualquer coisa
desde que não seja
qualquer coisa

rimem tempestades
desde que não chova
escrevam sobre flores
mas não sobre o adubo

sobre o amor
mas não sobre a cama

sobre a vida
mas não sobre o aluguel
sobre a alma
mas não sobre o corpo

admirem o biquíni
esqueçam o cu


Walter Biancardine



A CONDIÇÃO HUMANA (e Outras Formas de Falar de Mim Mesmo) -

 


ela foi embora às dez

às onze eu já era poeta

à meia-noite

um especialista em sofrimento humano


às duas da manhã

estava procurando moedas

para comprar outra cerveja


falava

da solidão do homem moderno

mas conferia as curtidas

a cada três minutos


o abismo existencial

era o algoritmo


escrevi 14 páginas

sobre a morte

e 15

sobre minha própria biografia


jurei buscar a verdade

mas aceitaria aplausos

em qualquer moeda


quando publiquei o poema

ninguém comentou


foi a pior tragédia

que já aconteceu

com a humanidade



Walter Biancardine



domingo, 7 de junho de 2026

MAIORES QUE A VIDA

 


tem gente que é imune à educação
impermeável a gentilezas
vacinados contra o bom trato

estão sempre com um ar assim
meio bravos e se achando
importantes demais

jamais perderiam tempo
dando um bom dia
o pior é que os conheço

leio suas caras como ficha corrida
ou um currículo porco e pobre

nunca são nada
mas querem parecer muito
apenas me contenho
da vontade irresistível
de gritar que são pobres

pois esta é a pior ofensa
chame de tudo e até de ladrão
mas nunca de pobres
em suas ignorâncias
acham que o gentil é serviçal
ou vai pedir alguma coisa

pois eu pediria gentilmente
e com toda a educação
que fossem sem demora
todas e todos

tomar no cu


Walter Biancardine 


APENAS EU?

 


não sou só eu
que tenho de dizer
eu te amo

não sou só eu
que tenho de mostrar
meu amor a você

não sou só eu
que preciso entender
as portas que você fecha
os fantasmas que não me conta

ninguém ama sozinho
abraçando uma estátua
quero ouvir de volta
quero carinhos também

o amor não é santo
eu amo você
pelo que você é
mas também 
pelo que me dá


Walter Biancardine


HOJE NÃO IMPORTA -

 


coisa estranha acontece
às vezes depois de um almoço e cerveja
a comida não foi demais nem de menos
medida certa
e a bebida me elevou à alegria apenas

me sinto plácido
como que dono de uma situação
calmo e tranquilo
cabeça vazia e nada penso
um privilégio

os rosnados da vida
não fazem efeito e rio deles
as preocupações
bem sei não as resolverei hoje
então são inúteis

não sei se é um nirvana alcoólico
iluminação etílica
ou bem-aventurança gastronômica
mas nada mais me importa
ou desejo neste minuto

me sinto um indivíduo
ocupando um lugar no espaço
merecendo respeito
e metade dos problemas
são pela falta dele

sinto o grande poder
de dizer foda-se
então o problema não é mais meu
é de quem tentava me corroer
vingança passiva e agressiva

hoje comi e bebi
nem demais e nem de menos
e fiquei assim
o dinheiro da semana entrou
e disse alegremente ao mundo

que hoje nada importa



Walter Biancardine 



AMANSANDO O MAR -

 

criado em beira de praia
água salgada nas veias
misturada à gasolina e óleo diesel
com barulho de velas ao vento

nos barcos que naveguei
tive bons mares
bons ventos
calmarias

no porto estou seguro
mas não fui feito pra isso

há mares a navegar
quando faz água no casco
e adernamos
é navegar ou afundar

e vieram as tempestades
a pior que vivi
varreu o convés
levou a todos

e fiquei à deriva
só eu e o barco

mar bravio é o terror
só quem o enfrentou 
sabe o fundo do cavado
e a vertigem da crista

os ventos levam tudo
esperanças e juízo
sopram o desespero

mas ela veio
andando sobre as águas
ninfa das águas
com olhos de poder

sobre o mar
sobre os ventos
sobre mim
e meu coração

o mar acalmou
nuvens sumiram
estrelas brilharam

ela sentou comigo
ao meu lado no leme
e me deu a direção

ela é sextante na alma
bússola no coração
e mapa no corpo
que decorei

iara ou sereia ou ninfa
como saber
mas me tomou
e me deu finalmente

meu porto seguro
com seus olhos
que ninguém tem

me trouxe águas doces
e um mar manso
como um pantanal



Walter Biancardine




sábado, 6 de junho de 2026

CANETA AZUL

 


penso em versos
na sublime poesia
de "Caneta Azul, Azul Caneta"
e um troço se agita em mim

logo me acalmo
pois vem à lembrança
que o mundo já acabou

não foram guerras
bombas ou doenças
mas uma telinha 
de celular

matou neurônios
extiguiu sinapses
fez um tuíte ser longo demais

e complexo demais

no vazio da terra
desabitada pela inteligência
viscejou "Caneta Azul"

inevitável



Walter Biancardine




REPROVADO -

 


não há ponto ou vírgula
ou exclamação
quem entende sabe o ritmo
e até a entonação
não preciso dizer

quem entende vê aleijado
capenga e perneta
mas sabe que lindo fosse
nada diria verdadeiro
de mim

uma coisa é a crônica
que contamos as coisas de ontem
outra é a poesia
pra chorar os desastres da alma
ou os encantos de amor

a primeira tem data
todo mundo sabe e comenta
a segunda é sempre
passado e presente e futuro
todos sentiram e pode doer

eu escrevo e você lê
mas não pense que me conhece
não é um diário mas sim inventário
de emoções em biografia
romanceada ou enfeitada

porque filho feio não tem pai
e se escrevo toda minha merda de vida
sem nenhum retoque ou emenda
não seria seu lugar um livro
mas o divã de analista

quem escreve 
entrega seu sangue ao leitor
mas nunca e nunca

o exame de DNA


Os fracassados, mancos, capengas e poetas fornecem material muito mais interessante do que os vencedores profissionais. 
Os vencedores costumam esconder tudo mas os derrotados deixam rastros.



Walter Biancardine