sexta-feira, 19 de junho de 2026

PORTA ENTREABERTA


Já tem uns dias
em que eu não abria a porta do quarto
não saía de casa e o tempo fechado
frio e névoa e chuva e vontade
de tomar café com alguém
mas ninguém… 

precisava de coisas
comprar café e cigarros e pão
e tem a estrada pra andar
quilômetros de lixo
quilômetros de histórias
jogadas no acostamento

não sei por quê tanto olho
pra sarjeta ou acostamento
pros becos e botequins
banheiros de ajoelhar
e exorcizar no vaso
os demônios da vida

mas hoje tá sol
eu preciso sair e quero sair
mas não quero e preciso
companhia e conversa e risos
o dia tá lindo e eu não indo
viver o que posso viver



Walter Biancardine





JÁ MORRI ALGUMAS VEZES



Bravos kamikazes
que voavam para a morte
bravos soldados no Dia D
sabiam que iam morrer
bravos heróis que deram suas vidas
todos respeitam e honram

mas onde está a glória
em deixar que o peito morra
que o coração exploda
que o mundo desabe
nada mais tenha sentido
e insistir em amar de novo?

Não é por respirar que vivemos
nem por comer ou às vezes dormir

o corpo existe e ocupa lugar
responde perguntas e parece andar

mas a alma se foi
morreu
ela levou

mas o herói se levanta
do horizonte aparece
um beijo que apetece
e insiste em amar

de novo
tudo de novo
morrer de novo

sempre vale a pena




Walter Biancardine



É MUITO BOM -

 


A leitura não purifica. Alivia.
Que tire as maldades ou ponha novas em sua cabeça. 
Pouco importa.
O que importa é a cabeça.
Ocupada.
Aprendendo ou explorando.
E lembrando pra sempre.




NADA NAS MÃOS -

 


Não me faça sentir dor
meu amor por favor tô afásico
isso é o básico do básico

não sou mágico
nem herói nem trágico
é só um resto que detesto
em mim

ando na estrada
subo na escada
me defendo com espada
não escolho a missão

tudo o que resta não presta
na minha mão
um grande não
um nada



Walter Biancardine



SÓ TEM ESSE MODELO -


Nunca tive versão “traje esporte fino”
Um dia sou o bom sujeito, certinho
No outro um apaixonado sonhador
E de repente solto um palavreado
que envergonha até estivador

As coisas mudam, os dias mudam
Eu também mudo e dou meu jeito
Por mais que espante, não é o que você pensa
Eu reajo, sobrevivo, me defendo na sequência
Se eu nunca mudasse, aí sim seria doença

Escrevo por amor a alguém
Choro os pés na bunda que levei
Todo mundo suspira e acha romântico
Não me querem gente, mas bibelô de enfeite
Mau humor só do outro lado do Atlântico

Nome disso é hipocrisia
Bonitinho todo dia
Sirvo só pra dar brilho
Sou móvel e utensílio

Sou gentil ou educado
Mas também sou um safado
Sou normal, sem nenhum plano
Eu sou só um ser humano




Walter Biancardine




FAMÍLIA -

 

Ligo o computador e entro no Facebook.
Do nada aparece um vídeo.
- E aê, família… ?
Desligo.
Nem quero saber.

Chamou gente que nunca viu de família, é golpe.
Se não é golpe, é demagogia.
Ganhar views.
Forçar intimidade.
Já que gosta tanto de família, que force intimidade com a mãe.
Virou mania.

Todo mundo é família.
Todo mundo é irmão.
Todo mundo é parceiro.
As palavras saem puídas, feito meias velhas.

O significado pouco importa, o que interessa é o som.
Às vezes nem irmão é irmão.
Nem tio é família.
Mas um sujeito com boné virado acha que vai me conquistar com uma palavra mágica.
Cansei.

O jornal fala de um país que não existe.
A internet virou feira de milagres:
o que vendem não existe,
o que cobram existe, muito.

E o brasileiro é esperto.
Esperto demais.

Tô de saco cheio de esperteza.
Saco cheio de vigarice.
Alérgico a conversa mole.

Porque, pra pedir,
todos são uns doces
Sim.
Uns doces.

Daqueles que, quando você abre a geladeira,
sumiram.

Coisas de família.



Walter Biancardine 



quinta-feira, 18 de junho de 2026

HOJE NÃO, TÔ COM DOR DE CABEÇA


escrever é sexo
dá prazer e faz falta
a alegria de ver
o que pude fazer

quero repetir
mais uma vez
duas, três, dez vezes
sem tirar de dentro

mas não é mole
e se é, não é físico
o corpo absolve
mas a alma se esgota

e bobagens pingam
balanço mas não vai
perda de tempo cruel
essa sim, abre um buraco

e me sinto vazio
não consigo dizer
não dá pra ser brilhante
do despertar até a insônia

foi bom pra você, meu bem?



Walter Biancardine




PLAY IT AGAIN, SAM -

 


Play it again, Sam”.
Mas Sam não toca. 
Não há Sam ao piano e estou em casa, sozinho.
Aliás, Bogart jamais disse isso.
Nem eu.

E a primeira estrofe me dói: 
You must remember this”.
E piora:
A kiss is just a kiss
Olho seu retrato e escuto:
A sight is just a sight”.

Diria adeus com um beijo.
E um abraço inventado.
Te ouvindo dizer:
We’ll always have Paris”.

Mas nunca tivemos.
Sequer nos vimos.
Você se foi.
As time goes by”.


Walter Biancardine



CLICHÊS -

 


Muita gente busca um clichê pra se encaixar.
Compra uma prancha de surf e no dia seguinte o cabelo fica loiro e cheirando à maconha.
É contratada como doméstica e automaticamente lava os pratos com um pé apoiado no joelho da outra perna, o famoso “4”.
Ou o pior deles: se diz escritor e no dia seguinte se faz bêbado, caído no chão do bar, reclamando que é um incompreendido e se vitimizando em tempo integral.

Mas desse último tipo eu entendo e posso falar.

Ele ouviu falar dos existencialistas. De um Quartier Latin, Montparnasse ou Montmartre em Paris. Só que os existencialistas viraram os depressivos das redes sociais. Aliás, nem Paris existe mais. Agora é uma feira de lembrancinhas, café caro e apartamentos impossíveis. 

Mas eles insistem.

Sim, insistem. Escrevem (via ChatGPT) um textão pro Facebook e depois vão num barzinho – mas não pode ser muito “barra pesada” não, senão eles não sabem se virar – pedir um energético e beber até se fazerem de bêbados. E mandam seus originais cibertrônicos pras editoras. E as editoras cobram – é claro – para satisfazer as vaidades desses tipos.

Conversei recentemente com um poderoso de uma editora. Editora alternativa mas era editora, porra. E das grandes. E ele me dizia que o que escrevo o agrada, que tenho voz própria, estilo, domínio literário e sou muito bom quando trato do que é concreto – traduzir solidão numa sala vazia ou angústia em alguém num bar com um vira latas ao lado. Até aí, tudo bem. Mas ele disse que preciso parar de chamar o leitor de burro e ficar explicando. Não sou mais analista político, não tenho de convencer ninguém de nada – e tive de baixar a cabeça, ele está certo.

Mas o pior de tudo: ele me vasculhou. Leu coisas que escrevi há mais de vinte anos, e sabe que ir ao bar, beber e chorar pés na bunda ou a vida bandida são coisas e ambientes de sempre, em minha porca vida – não é um clichê que adotei. Mas me deu uma recomendação “marqueteira” para quando eu buscar outras editoras para publicação: que eu as sonegasse meus textos de pés na bunda, fossa, coisas assim.
 
Pois hoje em dia não é mais obrigação profissional saber diferenciar um verso sangrado de outro do Grok. Ou distinguir um infeliz, que pagou sua primeira cerveja em Cruzeiros, de algum novato que se queixa no Facebook, pede um energético em seu copo Stanley e ganha 100 curtidas.

É o fim da picada passar uma vida sendo um fracassado legítimo e agora correr o risco de ser confundido com um imitador. 
Minha dor verdadeira terá o mesmo peso de uma dor fabricada por algoritmos.
Uma humilhação metafísica, e eu preciso comer.

Ao fim e ao cabo, tenho certeza que a próxima cerveja que eu beber num bar terá como companhia – além do desalento habitual – o fantasma de um “Enzo” se fazendo do tipo “noir”, decadente, “dark” quase gótico, existencialista do Túnel do Tempo e pensador de Facebook.

Mas ele pedirá um energético sabor frutas vermelhas. 

Tristeza é decorativa.

E eu continuarei com minha cerveja.

Sozinho.



Walter Biancardine



SENTANDO DE LADO

 


Nenhuma bunda morre virgem
todas cedo ou tarde
levam um pé

João amava Maria
Maria amava José
José amava Tião

cada um com seu gosto
mas sempre o pé
e sempre dói

o primeiro enlouquece
o segundo sangra
o terceiro ri

e depois disso
freguês de botequim

nenhuma bunda morre virgem
nem a minha
nem a sua



Walter Biancardine




quarta-feira, 17 de junho de 2026

CONDENADO GOURMET

 


O que fica na memória é seu erro.
Comentado, avaliado, julgado.
Pesado, medido e contado.
Não esquecem. 
Apontam sempre alguém que sofreu muito.
Por sua culpa.
Alguém que perdeu muito dinheiro.
Por sua culpa.
Alguém que se decepcionou muito.
Com você.

Tem gente que assiste TV enquanto come.
Outros desfiam e destrincham o errado como um frango assado.
Servem com molho de comentários e temperam com o sal da desforra.
O cardápio é você.
Te comem.
E seu destino é o vaso sanitário. Digerido e reduzido ao devido tamanho.
E forma.

O que seria dessa gente sem um errado no menu?
Como cresceriam? Como seriam melhores?
Mais honestos? Mais responsáveis?
Mais trabalhadores?

A sobremesa é sua ausência. Ninguém fala na cara.
E servem seu choro com duas pedrinhas de gelo.

A indigestão, azia, mal estar só aparecem às vezes.
Se o prato do dia os ignora. Se caga e anda.
Se sorri e vive.

Eles correm pro banheiro.
Te vomitam.

Você foi mais indigesto que pensavam.



Walter Biancardine




SEMPRE COM FOME

 


Não são poucos os pequenos
miseráveis e mesquinhos
urubus secando a carcaça
apontando você

já te julgaram inteiro
sua vida inteira não escapa
biografia é folha corrida
você não vale nada

se você não reclama
então é feliz
ou faria um drama
de ator ou atriz

a costura mal feita
remédios e rezas
a insônia escondida
isso ninguém quer ver

ou verão que sua vida
é muito pior e você
é muito melhor
que eles

que se danem os miseráveis
apontam dedos podres
que logo cairão

que se danem os miseráveis
pois vivem de nossos incômodos
mas se nada nos importa
morrem secos e com fome

que se danem os miseráveis
invejosos e mesquinhos
morram secos

e sempre com fome



Walter Biancardine



CONSERTOS EM GERAL -

 


Ler muito cansa os olhos
precisamos de óculos

a idade cansa as pernas
andamos de bengala

amores destroem corações
bebemos e mentimos



Walter Biancardine



QUANDO MAIS PRECISO


Meio da estrada
horas dirigindo sem nada à volta 
deserto

preciso de café
de gasolina
de banheiro e um pão na chapa

quero lavar a cara
refazer as forças
respirar fundo e prosseguir

e aquele posto de gasolina está lá
sempre está
sempre esteve e estará

dia ou noite

é o mais perto que consegui
pra definir o que é o amor



Walter Biancardine






terça-feira, 16 de junho de 2026

CICATRIZES NAS COISAS


Nunca vi sua poltrona predileta
nem a marca que deixou na almofada 
ainda assim me afundaria nela
a cara enterrada no vazio que a moldou
 
nunca vi seu colchão
mas nesse vale há um lago
onde você dorme sozinha 

iria empurrar esses montes
abrir espaço no escuro
onde a gente pudesse ficar 

não conheço seu cheiro
nem o peso do seu corpo
meu tato e minha boca
continuam famintos 

só me resta
sua voz
e um retrato 

aqui acaba o que tenho




Walter Biancardine







PRA FALAR A VERDADE -

 


Hoje o dia inteiro disfarcei
falei do tempo, desse frio
ofereci minha rabugice
como prova de vida

fui na rua e comprei
voltei pra casa e deixei
olhei pro teto e pensei
“não sei”

todo o dia sendo forte
cara de mau e olhos franzidos
e firmeza e queixo erguido

mas agora desmontei
porque tenho sofrido
e quero chorar mas não posso

gastei internet
gastei meu fígado
gastei cigarros
gastei toda a minha esperança

só quero chorar
mas não posso

que ela venha em meus sonhos
lamber minhas lágrimas
curar minhas mágoas
dos dias medonhos

queria chorar

que ela venha em meus sonhos
pois queria chorar
lamber minhas lágrimas
porque eu não posso
curar minhas mágoas
sozinho não dá

eu só quero chorar
pelos dias medonhos



Walter Biancardine 




HIGHLANDS DOS LAGOS -

 


Amanheceu um gelo. 
Poderia dizer que chove fino o dia todo, mas não é chuva e sim quase um vapor gelado, de tão fina. E o vento nos molha de baixo para cima. 

Vento sul, indica permanência do tempo fechado.

No Arraial do Cabo, baleias cachalote se divertem – para elas é verão – enquanto um Leão Marinho desembarca nas praias de Tamoios. Ainda não tive notícia dos pinguins, mas breve chegarão. Sempre passam por aqui, no inverno. Essa turma toda vem de carona na Corrente das Malvinas, então o bonde tá formado.

Só que eu moro na zona rural da cidade, a praia mais perto (em linha reta) é a da Rasa, em Armação dos Búzios, mas nem a maresia chega ao meu nariz aqui. Só o frio. Frio de rachar.
É o nome da cidade. Faz sentido.

Bois, vacas, cabras, cavalos e até as galinhas tratam de suas vidas com discrição, naquele vai-vem amuado e silencioso dos dias gélidos. Só as garças se exibem, junto com os marrecos que chegam e um ou outro pica-pau em busca de vida fácil, martelando troncos de coqueiro.

Eu aqui, olhando tudo isso.
Queria um jipe.
Nem sei pra onde iria.
Mas queria.

Queria uma casa, cozinha com o amarelo das lâmpadas incandescentes iluminando o café, servido direto do bule fumacento, pães franceses quentinhos e um bom queijo polenghi derretido.

Sim: lâmpadas incandescentes são de casa, com sua luz amarelada. Luz branca, led, é pra escritório, repartição pública ou gente de dinheiro novo.

Um bom café às 5 da tarde, pão quentinho, o amarelo das lâmpadas e um leve cheiro de gasolina do Jeep estacionado no terreno de chão, lá fora.

Dia nublado, névoa de chuva e o vento cortante.

E, já que estou sonhando, que seja com ela me servindo o café e provando o polenghi comigo.

É pelo sonho que prefiro dormir.




Walter Biancardine



FRIO

O homem suporta muito desconforto. 
Dorme mal, come mal, envelhece, trabalha demais. 
O que ele não suporta é não ter pra quem dizer:
- Olha só esse frio danado.
E ouvir:
- Pois entra logo que o café tá pronto.

É uma frase banal. 
Mas metade da literatura existe por causa dela.



Walter Biancardine




HOJE

 


Sempre amanhece. E eu sempre tenho de acordar.
Levanto da cama e tomo o café horrível.
Os remédios de velho.
Lavo o rosto no fiapo de água. Gelada.
Mas já não xingo.

Antes eu xingava.
Hoje, nem isso.

Sento ao notebook, o ligo e fico olhando pro nada, enquanto a velha máquina dá a partida.
Olho as redes.
Gente brigando com estranhos.
Gente exibindo felicidades de vitrine.
Fecho tudo.
Em desespero olho meu e-mail. Nada.
E o WhatsApp sequer considero.
Ele teria me avisado.

Estranha tranquilidade sinto pela certeza de que o pior sempre virá.
Abro o Word. Tento escrever.
Sai isso.

Ligeira agonia.
Tamborilo os dedos na mesa. Acendo outro cigarro e olho em volta, como que buscando.
Não há ninguém.
Nem nada.
Esse frio na espinha é o mais perto do desespero que hoje consigo chegar.

Olho de novo pro texto.
Tem que sair algo que preste.
Vamos ver.

Acendo mais um cigarro e tomo outro café.
Horrível.

Ainda tenho toda a merda do dia pela frente.

E ela foi embora.



Walter Biancardine



SUDOESTE

 


A mais linda escuna
içou as velas e partiu
mar sem fim

bem quis embarcar
não posso
sou seu porto

em mim há segurança
proteção e calma
não pra isso ela nasceu

a felicidade está nos mares
não nas docas
e meus ratos subindo 
em seu cordame

a escuna ama o porto
o porto ama a escuna
mas não se podem

não faltou amor
faltou destino



Walter Biancardine



PÉSSIMA NOITE

 


Há noites que não pedem coragem.
Pedem que eu não faça nenhuma besteira definitiva.

Queria ter uma vitrola velha, uma garrafa pela metade e um maço quase vazio.
Sentar sozinho.
Escutar aquele cearense bigodudo cantar que o passado foi melhor porque já passou.
E beber devagar, como quem dá esmolas ao próprio fracasso.

Mas não tenho vitrola.
Nem a mulher.
Nem a dignidade inteira.

O amor, descobri tarde, não acaba quando acaba.
Acaba pra um.
Pro outro vira infiltração.
A pessoa vai embora e deixa um mofo crescendo dentro da gente.
Alguns pintam a parede, trocam os móveis. 

Eu escrevo poemas.
Mas o mofo continua ali.

Olho pro cinzeiro.
Bitucas.
Olho pra mesa.
Marcas do copo na madeira.
Olho pra mim.
Um sujeito de sessenta anos conversando com fantasmas
e fingindo acreditar
que três minutos de música
podem salvar uma noite inteira.

É ridículo.
Mas quase tudo que mantém um homem vivo é ridículo.

A esperança é ridícula.
O amor é ridículo.
Escrever poemas… 
isso é uma doença.

Mesmo assim escrevo.
Porque enquanto eu estiver enchendo um copo,
rabiscando versos tortos
e mentindo pra mim mesmo
que amanhã será diferente,
a derrota ainda não venceu completamente.

Ela tá ganhando.
Mas ainda não venceu.

E amanhã vou acordar cansado. 
Mal-humorado.
De orelhas baixas como um cachorro abandonado.

Vou fazer café.

Talvez chore.
Talvez olhe no espelho
e encontre aquele velho conhecido:
o sujeito que estraga tudo
e depois escreve poemas
como se isso resolvesse alguma coisa.

E depois sigo.

Não porque sou forte.
Porque o mundo tem essa mania vulgar de continuar existindo.

E, infelizmente,
eu também.




Walter Biancardine







segunda-feira, 15 de junho de 2026

TUDO O QUE PEÇO

 


é que Deus me ajude
a partir de hoje
já conheço a estrada
e sei que dói

peço piedade
peço clemência
misericórdia
insistência

não reclame se me afundo
não me julgue se me jogo
no fundo de um copo
se não há fundo de um corpo

tudo o que peço
é continuar
tudo o que quero
é respirar
tudo o que tenho
o emprego de viver

tudo o que quero
é você
meu bem







O MOÇO DO BIGODE ME AJUDOU

 


meu bem
queria falar com você
contar o que tenho feito
no entanto fico sem jeito
sem te ouvir primeiro falar

meu bem
me diz agora o que esconde
me explica que lágrima é essa
fale bem antes que eu peça
nada vou dizer, só te abraçar

meu bem
eu não sei ler os olhos

meu bem
não posso guardar sua brisa

meu bem
não consigo entrar em você
sou só seu cobertor

meu bem
vem viver comigo
vem morrer comigo



Walter Biancardine