sexta-feira, 4 de setembro de 2026

HORA EXTRA DE AGOSTO

ontem foi péssimo
hoje foi pior
agosto fez hora extra
em setembro

e depois da explosão
da bomba que devasta
restam destroços
e silêncio

tudo em volta
é silêncio
terrível sensação
de fim do mundo

olho em volta
procuro sobreviventes
nem sinal de nada
ou ninguém

não sei se todos morreram
não sei se ainda há alguém
a única coisa que sinto
é que eu, sim, morri

melhor fechar os olhos
esperar que amanhã
os ratos saiam da toca
e tragam a vida de volta





Walter Biancardine



quinta-feira, 3 de setembro de 2026

LIGEIRAMENTE FURIOSO


e num momento como esse em que tô absolutamente puto
dentro das calças, nem minha auto-destruição
eu consigo levar a sério, porque nesse fim de mundo
nessa merda de lugar que moro
nesse buraco dos infernos de carolas hipócritas
nem um boteco existe por aqui
porque todo mundo é crente

porque a vontade que tenho é encostar num balcão
e pedir aquele querosene dos infernos
aquele aguarraz num copinho ensebado e cheio de marcas
de uns dedos podres que não são meus
matar tudo de um gole só
virar pro meu vizinho de balcão e
sem nenhum aviso
sem nenhum motivo
sem uma só palavra
acertar um socão no focinho do infeliz
um direto de direita que vai quebrar o pau do nariz e nunca
nunca mais vai voltar pro lugar
e ele vai desmaiar no chão

e uma horda de uns vinte animais suados e fedorentos
vão me agarrar e me surrar até que não reste um só osso
inteiro em mim

e serei varrido pelo dono do boteco até o meio fio

alguém vai chamar o SAMU

sim, sempre tem uma alma caridosa pra salvar
quem já não quer ser salvo

e todo o ódio e frustração dessa vida de merda misturado
com um resto de testosterona eu vou ter gasto nisso
porque nascer é ser jogado num coliseu cheio de leões e tentar
sair vivo daquela merda

você sabe que vai morrer
então, que leve alguns com você
que faça um estrago bem grande
que destrua tudo a sua volta

porque nada mais resta
além do último grito





Walter Biancardine



IMPROVÁVEL PERO NO MUCHO

muitas vezes fiz uma meia-ameaça
como um teste pra mim mesmo
no fundo eu sabia que não faria
por pior que tudo fosse

mas parece que a escuridão evolui
nos deixam só e cobram virtudes
nos deixam sofrer e exigem nobreza
e quando o rato emerge de nós
buscando o queijo que
quem cobra e exige
nunca ofereceu

então é chegado o fim do mundo

e no silêncio pós-apocaliptico
olho em volta e é só deserto
um deserto de breu e frio
estou atolado na areia movediça
e percebo o inevitável

posso afundar aos poucos
ou fazer algo
pois se afogar em lama
é a pior das escolhas

e o teste que sempre fiz pra mim
passa a não ser tão absurdo assim
vira uma hipótese viável
até confortável

mas a covardia chega e acaba a festa
ela diz:
- tire isso da cabeça, seu bundão

obediente
me dou mais um dia





Walter Biancardine



É PROIBIDO QUERER

que só me reste dormir
fugir como fiz uma vida inteira
me tornando mestre na arte
de não-querer

porque tudo o que quis
gerou dor e discussão e problemas
um transtorno na vida de tantos
melhor nem querer

aprendi a não desejar
era criança e quase um asceta
cresci assim e tudo se repetia
nas mulheres que quis

aprendi a não querer
nem coisas nem mulheres nem nada
talvez seja essa a única coisa
que posso culpar os outros

pra quê me mover
pra quê entusiasmo ou ganas se
tudo isso é querer e querer
sempre foi o que nunca

pude querer

desde cedo aprendi a dormir
desde jovem aprendi a fugir
toda minha vida aprendi
a não poder querer

não tenho nada
nem ninguém nem esperanças
mas tenho uma alma anestesiada
e uma longa prática em não querer

hora de dormir





Walter Biancardine



NÃO ME RECOMENDO

Na escrita, um talento verdadeiro pode ser perigoso.
Sentimos os céus que alguns poetas e escritores nos levam. 
Mas também podem nos jogar no inferno particular de cada um deles.

Se tivesse talento, eu precisaria também de um porte de arma.
Por sorte tenho a sensibilidade de um paralelepípedo e crio analogias do tipo que faz uma pintura naïf parecer a Gioconda.
Então sou inofensivo.
Apenas patético.
Mas a vergonha não mata.


Escrever é uma fuga antiga. Mais de 50 anos escrevendo.
A prática não traz, entretanto, a perfeição.
Pelo contrário: pode trazer acomodação, preguiça e desleixo.
Mas é o terapeuta mais barato que posso encontrar.
E o único que consigo pagar, somado às minhas cervejas.

Isso não impede que eu goste de ler os outros.
Leio e – claro – comparo com minhas pobrezas. Sou tosco.
Mas não importa, ao menos não explodi.

E toda a imundície do mundo é meu universo.
Nunca me enturmei com o pessoal do “sunny side of street”.
Eles têm juízo.

Eu não.
E nem amor
esperanças
perspectivas.

O Ministério da Saúde adverte:
posso fazer mal à saúde.




Walter Biancardine



12 PRESTAÇÕES DE DOR

um agosto de breu
acabou e se respira aliviado
poucos foram tão trevosos
maus e fortes em sua ânsia
destrutiva

entra setembro
e a promessa de flores
só traz lodaçal e mais escuro
imitando o irmão mais velho
e cruel

quase prefiro crer
que o problema não são os meses
mas a minha vida que ainda
insiste em passar por eles
à toa

melhor nem pensar
ou outubro sendo bom ou pior
nenhuma diferença fará
porque terei puxado a cordinha
pra descer fora do ponto




Walter Biancardine


QUE SEJA


Qual o problema de dormir até tarde?
E acordar de tarde e se poupar de horas de dor e sofrimento?
Pois que seja assim, porque cansei.

Tempos atrás eu tudo faria tentando salvar a nós dois.
Mas agora vejo que nunca houve o que salvar.
Fomos apenas dois solitários tapando os buracos na alma; eu tapava o seu e você tapava o meu. 
Mas amor e desejo, você os perdeu em algum lugar do caminho.

Não há problema em dormir até tarde.
É uma graça que me concedo.
Uma prova de minha grandeza, quando outras saídas seriam fáceis.
Mas resolvi ficar, e me permitir mais um dia.
Mais um dia.

Só pra calar qualquer boca que me acuse.
Porque nunca faltou sentimento.
Só faltou você admitir.

Eu me concedo mais um dia.

O que é um cachorro numa carroça cheia de gente?
A força que o burro faz é a mesma.

Mais um dia.
Por muito favor, eu me concedo.

Mais um dia.

Até o momento em que a paciencia acabar, o teatro fechar e as cortinas caírem.

Neste dia, pouco vai me importar quem quer que seja.

A festa acabou.

Me xinguem.





Walter Biancardine






quarta-feira, 2 de setembro de 2026

X = 0

a indiferença é plena
e absoluta
tanto faz como tanto fez

se estou ou não estou
se fui ou se não fui
o que fiz e o que não fiz
se existo ou não existo

coisas tem valor sentimental
eu mesmo lamentei as que perdi
mas tudo fica engraçado
quando nem mesmo eu
tenho valor sentimental
pra mim mesmo
ou alguém

e também a indiferença
é tudo o que hoje sinto
por mim

sou o valor de X
igual a zero




Walter Biancardine



QUIETO

já falei antes sobre
o triz
de dias em que estamos
por um triz
hoje é um deles

e mais dizer não cabe
em uma fresta tão pequena
espaço milimétrico
distância mínima

um triz

melhor calar




Walter Biancardine



UM PÉSSIMO DIA


não, não há mais paciência
impaciência consciente
porque sei o quanto quero
e conheço a dor da perda

antes fosse minha vida
só aquilo visto de fora
mas existe embaixo da terra
a fogueira viva do inferno
o cano de esgoto entupido
e todas as podridões
da alma humana
minhas e contra mim

não consigo mais cuidar
não consigo proteger
por culpa de meus próprios
diabos

e não tenho mais paciência
não quero mais esgrima
nem joguinhos nem testes

também sei muito bem
que não tenho dinheiro
pra ir direto ao ponto
e apagar inseguranças

o amor é de graça mas
ter comigo custa dinheiro
e paciência

e não tenho mais
nada disso




Walter Biancardine



O MAL PAGA BEM


talvez a fórmula do mais poderoso
veneno que existe seja juntar
o fundo do poço com o saco cheio

você quer desaparecer chão a dentro
mas o simples fato de ter que cavar
te faz imaginar ser uma cova comum
pra todos os filhos da puta 
à sua volta

é a certeza que você se condenou
que não há apelação e sua sentença
é metade na terra se fodendo
e a outra metade no inferno
queimando

é saber que você é um cara fácil
trouxa e que vende a alma barato
a troco só de promessas
pagas com crises
de ansiedade
e breu

nem morrer parece satisfatório
por saber que lá embaixo
no inferno
nada vai mudar do que aqui
em cima acontece

e no minuto final da vida
ainda existirá o ranço
de saber que a inveja compensa
remunera o invejoso
que toma tudo
o que foi seu
até sua
alma

e o invejoso nunca se fode

então não basta sofrer a vida
e amargar a morte pois
ainda há que saber
que os filhos da puta
que você tanto condenou
eram sábios 

nem a morte é solução
mas ao menos uma coisa sei
que tive extraordinária
competência

destruir minha vida

nisso fui bom
e já posso enxergar como será
o fim de tudo pois também
nele estará a sujeira nojenta
de só me descobrirem
podre
seco
duro
a caminho da cova
de indigente

e reclamarão do trabalho
que nunca deixei de dar
um desgraçado que atrapalha
até na morte

ao menos
para eles
a inveja compensou

entupam-se com tudo meu
seus merdas




Walter Biancardine




VOU ALI COMER UM TIJOLO


Passo os dias penitenciando minha auto-estima.
Me xingo de tudo, me acho um incapaz, um imbecil preguiçoso e incompetente. Só uma estupidez olímpica explicaria um homem de minha idade e tendo feito o que já fiz, estar numa situação tão ruim.

E a vida não dá tréguas.
Um simples sanduíche no Mc Donald’s ou Subway me pagaria um almoço farto e com direito a beber alguma coisa.
Mas olho as pessoas que frequentam estes fast-foods.
Obviamente têm dinheiro.
Um dinheiro que não fui capaz de ter.

E a vida me soterra, lembrando que posso ser ainda mais imbecil que elas.

Afinal, podem pagar o sanduíche.

E, talvez, levar a embalagem de sobremesa.




Walter Biancardine



LA NAVE VA


Fui ontem na psicóloga.
Posso dizer que me desvirginei. Nunca tinha entrado em um consultório de psicólogos, terapeutas, psiquiatras ou seja o que for.

Ela me encaminhou a um psiquiatra. Apontou sinais de depressão.
Novidade nenhuma.

Soube que alguns antidepressivos podem nos deixar como zumbis – não sentimos mais tristeza, angústia.
Mas também não sentimos mais nada. Nem alegria, contentamento.

Se eu parar de sentir, paro de escrever.

E se eu parar de escrever, só não explodirei meus miolos porque estarei sedado, vagando nos acostamentos das estradas feito um zumbi.
Aflito ou anestesiado, a vida é uma merda.

É escolher entre o fogo e a frigideira.

Vida que segue.





Walter Biancardine





segunda-feira, 31 de agosto de 2026

ME DEIXE COMER


a fome não passa
a boca saliva e o cheiro
desperta e quero comer
morder

me distraio
a fome diminui mas não sai
porque lembro e tudo volta
martela dentro de mim
quero comer

o cheiro me lembra
quero comer
as formas me pedem
quero comer
a carne implora
quero comer

a fome não passa
a noite chega e sonho
um morro de carne
suculenta e gorda

a fome obsessiva
não me deixa esquecer

preciso comer




Walter Biancardine



sábado, 29 de agosto de 2026

SÁBIAS PALAVRAS

eu escutava tudo aquilo
que os velhos sábios diziam
decorava expressões do rosto
gestos de braços e mãos
a sabedoria de seus cabelos
brancos e finos e poucos

anotei tudo que ouvi
guardei em cadernos empilhados
como precioso tesouro escondido
meu e só meu e de mais ninguém
toda aquela sabedoria seria
minha

tanto escutei e tanto escrevi
que um dia nas agruras da vida
os busquei pra ler e saber
o que fazer

e da primeira a última linha
primeira a última página
tudo era igual:

“ai, minha artrose”
“as varizes me matam”
“tô usando fraldão”
“meus dedos não dobram”
“cadê minha bengala?”
“hein? o que disse?”

imbecis
também envelhecem




W. Biancardine



PORTA DE PRANCHA


vi uma porta
menos que uma porta comum
era uma porta pobre
de pranchas pregadas
montada em travessas
formando a letra Z
como muitas que já vi

não sei o que havia
do outro lado da porta
certamente dor
desamparo e desesperança
com o Z das travessas
mostrando a todos:
zero chances

o que haveria por trás
daquela porta?

não sei e sou covarde
demais pra querer saber
porque pra onde olho 
há dor e agonia
miséria e fome e raiva
e eu já tenho as minhas

ruins demais
pra me fazer abrir
aquela porta

deixo trancada




W. Biancardine



sexta-feira, 28 de agosto de 2026

NÃO FAÇO IGUAL, FAÇO MELHOR


eles são os donos do sistema
mandam na porra toda
arrancam almas e dinheiro
vidas e sonhos dos outros
porque precisam poder
precisam foder
no figurado pra poder
foder no literal

tudo isso é pra terminar lá
na cama e no gozo e na sensação
de ser dono de alguém e ter
uma legião de gente dizendo
como ele é maravilhoso

me acham um fracassado na vida
porque perdi tudo e nada tenho
por isso chamo essa gente de
burra

consigo fazer uma mulher sonhar
ela também faz igual comigo
minha cara melada no meio de suas
pernas me mostram a felicidade
de quem também me tira dessa vida
de merda por um bom tempo

e ela geme e goza chorando e diz
que me ama e tudo será pra sempre
e me enlaça e me puxa com suas pernas
me oferece todas as entradas
lambuza e grita e acorda os vizinhos
e naquele instante o mundo e a vida eram
só nós

e fizemos isso sem foder a vida 
de ninguém além de nossos corações
não roubamos sonhos de ninguém além
dos nossos
e o mundo seguiu sem se machucar

porque fizemos mais e melhor que
os donos do sistema que mandam
nessa porra toda
mas não em nós

e bebo mais um gole
acendo um cigarro enquanto ela
ainda geme e suspira só de lembrar
que fizemos mais e melhor
sem fodermos ninguém
além de nós
porque é só o que temos
nessa merda de vida

e no fim de tudo
no fim dos nossos dias
iremos
todos
pro mesmo lugar
embaixo da
terra

ponto pra nós





Walter Biancardine



quinta-feira, 27 de agosto de 2026

J. ESPERANÇA X CENTRO - PARADOR


desde a madrugada chove e faz
um frio desgraçado
nunca falha a maldita coincidência
porque hoje é dia de ir
lá longe
andar feito um desgraçado
comprar comida
e meu maldito cigarro

andar vinte quilômetros
no acostamento duma estrada
barro com chuva sempre suja
e roupa molhada e frio
porque moro num lugar
tão pobre
que nem cigarro vende
porque é todo mundo
evangélico
mas bebem

talvez pegue um ônibus
dando sorte ele passa
ainda nas próximas três horas
a mesma conta serve pra volta

é sempre divertido dividir
o assento preferencial com um
velhinho levando sua galinha
a galinha sempre me olha
somos iguais

naquele ônibus lotado de gente
molhada e fedorenta e suada
de frio e raiva
lá fora a chuva continua
no ônibus o fracasso se espreme
olho a galinha
olho o velhinho
melhor olhar pro chão do ônibus
imundo igual
minha vida




Walter Biancardine



BIFURCAÇÃO

a vida sempre nos coloca
diante de diversas opções
várias escolhas e decisões
muitos caminhos a seguir

é sempre assim e se repete
decisões, escolhas, caminhos
dia após dia e ano após ano
não muda

outra coisa que não muda
é sempre e invariavelmente
fazermos a escolha
mais errada
não falha


(“a vida nos dá muitas escolhas.
nós é que erramos todas”)

Walter Biancardine



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

REVELAÇÕES, livro I


todos os profetas
só viraram profetas
depois de atravessarem
um imenso deserto

as aparições só apareceram
no deserto
revelações só se revelaram
no deserto
visões só foram vistas
no deserto

e gastei meus miolos
com café e cerveja e noites
não dormindo porque cismei
que o deserto é o
protagonista
da fé

pois vivo num deserto
uma ilha de eu sozinho
cercado de mato por todos
os lados

dias e quilômetros
sem ninguém

e nem um anjinho sequer
uma visão ou uma voz
ou qualquer pressentimento
veio a mim

o deserto é ainda
um bom protagonista
o problema sou eu
de coadjuvante

aí não dá




Walter Biancardine



DE UMA CAIXA FIZ UMA CASA


uma caixa de isopor
virou mesa de cabeceira
da cama que achei

duas mudas de roupa
não fazem volume
a cadeira é armário
e cabide

achei mesa e cadeira
na casa abandonada
agora é meu escritório
ainda aguentam um pouco

e de um rasgo de carpete
fiz meu tapete pra cama
o chão é frio no inverno

fui catando todo o lixo
de prateleiras imaginadas
pasta pra guardar textos
churrasqueira sem um pé
é lixo mas me serve

e tudo tem alguma história
já foi a alegria de alguém
já mostraram pros amigos
mas ficaram velhos
quebraram
lixo

esse lixo é minha sorte
minha compra online
sem internet e taxas
o pagamento é só
vergonha
angústia
agonia

divididas em suaves prestações
a perder de vista

literalmente




Walter Biancardine


JOGANDO BOLA DE GUDE COM DADOS


Na verdade, basta entender que minha vida sempre foi tentar ouvir um velho disco de vinil no CD player. Não encaixa. Não é próprio pra isso.
Este sou eu, o inadequado.

Editores dizem que o som do vinil é muito bom, mas não vende em um mercado que sequer CDs ouve mais. Em outras palavras, “não sou vendável”.

Escrevo sobre a vida.
E a vida fede. É suja, ruim e má muitas vezes.
Ao fim de um dia de trabalho voltamos pra casa com a bunda ardendo, pois somos enrabados das 8 às 6 da tarde e ainda temos de sorrir – é “networking”, dizem os hipócritas.

Vendemos nossa alma ao diabo quando temos uma profissão, e alugamos nossa existência ao patrão quando temos um emprego.

Mas é a vida. Ou não há como pagar aluguel, luz, água, gás, condomínio e os pequenos luxos (“é pra isso que trabalho, eu mereço”) como internet, Netflix, Spotify e a academia.

O cara vende a própria vida pra ter isso.
Quem faz seus horários é a empresa. Vigia suas palavras e opiniões por causa dos colegas de trabalho. Se veste como fosse feito em série no escritório. Come o que todos comem, vai onde todos vão, gosta do que eles gostam e dizem em casa, aos domingos:
- Minha vida é um sucesso!

Então escrevo mostrando como esse sujeito morreu. Vive ainda, mas morreu.
Não tem alma, não tem gostos, não ousa ter nada que seja dele – só dele. 

O medo assombra essa alma. Acha que chegou ao céu e mal reconhece os diabos à sua volta. E mente pros amigos dizendo que isso sim, é coisa de um homem decente e correto.


E eu, na minha imundície, mostro a miséria humana que é um infeliz assim. E os editores se unem aos mais delicadinhos e me pregam na cruz da execração, porque ouso feder onde todos andam perfumados; tenho o atrevimento de mostrar as latas de lixo nos fundos daquele edifício de luxo e falsidade.

E ninguém, nunca, vai comprar um livro meu.
Pra quê?

Ando pelos acostamentos das estradas e faço um inventário da vida dos outros, olhando calcinhas largadas, pinos de cocaína, latas de cerveja, embalagens do Bob’s e até bichos mortos. Vejo isso tudo e faço uma crônica.
Porque é nos acostamentos que largamos aquilo que não queremos ou não podemos levar pra casa.

E eu ando nesses acostamentos.

E também vejo gente que gasta o Bolsa-Família inteiro no jogo do Tigrinho ou exibindo cervejas no boteco, deixando o resto da família se virar nas ruas porque ele quer mostrar que “tá com a vida ganha”.
Então escrevo que tanto faz. Rico, remediado, pobre ou indigente, a merda é sempre igual.

E a porca vida não deixa de ser justa, pois fode todos nós sem distinção de escolaridade ou faixa de renda.


E isso vira livro.
Contos, crônicas, poemas.
Linhas que nada costuram.
Letras que nada cantam.

Coisas que ninguém compra.

E os editores fogem de mim como o diabo da cruz.





Walter Biancardine


TRAÇAS E MOFO


mesmo um velho fedorento como eu
tem no fundo da cabeça um cofre 
enferrujado e cheio de coisas
que os outros nunca entenderão

no canto desse cofre tem uma TV
onde eu via o mundo desde pequeno
e ria com desenhos e programas
pra crianças como eu

o tempo foi passando e a TV ficou
sempre ligada e mostrando que
meu mundo estava indo embora
e custei a entender isso

primeiro Elvis depois John Wayne
e meu amigo Cazuza também
e Freddie Mercury e tantos mais

minha TV esvaziou
saiu do ar
e o toca-fitas calou
hoje com Dolly

também meus amigos 
que ninguém conheceu
foram morrendo um a um 

por acidentes
doenças ou drogas 
ou velhice

fui na rua e olhei em volta
igual ao fundo de meu cofre
e cada dia que passa parece que
a calçada fica mais larga

o bar mais vazio
e a vida também

quando um entregador me pede
“me dê um ponto de referência”
eu respondo sem esperança:

esse é o problema
não sobrou nenhum

e velhos fedorentos costumam ter
cofres enferrujados onde ainda
tentam guardar

seus brinquedos




Walter Biancardine