domingo, 9 de agosto de 2026

NATIMORTOS


cresci no meio de garotos 
maconheiros e putas e viados 
sabiam que não teriam lugar
por mais que fossem meus vizinhos
num bairro chique

também nas pequenas cidades
cheias de praias e turistas ricos
tinham seus garotos
maconheiros e viados 
e as putas

também sabiam não ter lugar

eram assim  
o sapato pisava
só em cima deles e reclamavam
fumando ou dando ou chocando
as boas famílias em volta

o tempo passou e inventaram moda

o que parecem querer e mais desejar
é se entregar de braços e pernas
abertas e de quatro 
ansiosos que
o enorme pau do sistema 
os coma

ninguém contesta nem se revolta  
ruas vazias de sangue e testosterona
e gastam quatro anos na faculdade
pra enfiar o diploma no rabo
e fazer concurso público
eis a vitória

olho pra isso e peço uma cerveja
bebo em memória de tanta gente
tantos jovens mortos e sem alma
talvez ressuscitem aos cinquenta
e morram novamente de vergonha

pela vida que jogaram fora

o jovem era rebeldia
que o sistema engoliu
e transformou
maconha em moda e putas e 
viados em coaches
ensinando

que os céus os abençoem
e protejam dando muita raiva
e revolta e sangue nos olhos

ou nada mais restará




Walter Biancardine



sábado, 8 de agosto de 2026

SONÍFERA INSÔNIA

insônia é uma coisa que só me dá
quando quero ir dormir
exatamente agora nada quero fazer
nem escrever nem conversar
nem existir
e o sono vem

vem violento e com más intenções
quer me derrubar e me jogar na cama
e rir da minha cara porque sei
que na hora de dormir
esse maldito sono
desparece

só não desaparece a minha vontade
de também desaparecer junto
quanto pior fico mais sono tenho
de dia e menos sobra
pra noite

a vida não é cruel
é só uma filha da puta
uma aproveitadora
que tudo nos toma
e que não vale 
sequer termos nascido

maldita hora em que
o maldito médico deu
a maldita palmada
em minha maldita
bunda

e maldizendo
nasci chorando




Walter Biancardine


JÁ DEU

a vontade de escrever é nenhuma
nem de fazer mais nada
busco tentações em minha cabeça
nenhuma delas aparece
pra me convencer
porque não mais
tenho tentações

a vontade de falar também acabou
nada quero mais contar ou
mesmo reclamar e chorar
botar a voz pra fora
precisa um fôlego
que não tenho
e nem quero

a vontade de chorar foi embora
quase um estado de choque
aqui sentado e pasmo
conheço isso e
é sempre assim
e o filme
é longo demais

e se alguém me pergunta gentil
o que houve e se pode ajudar
agradeço mas é tarde
muita coisa a explicar
uma vida pra contar
nem eu nem ele
teríamos paciência

problemas fazem parte da vida
todos tem e mesmo tarde
resolvem e seguem 
menos eu
estacionei e atolei
e não há um botão

que desligue
essa merda




Walter Biancardine



NADA SEI

 “…e, não sabendo que era impossível
foi lá e fez”

pois bem
sou um ignorante que nada sei
nenhuma noção nem lógica
agora é sua vez, vida

largue do meu pé
e me deixe fazer




Walter Biancardine



POLIGLOTA

sou fluente em contratempos
sequer tenho sotaque
o problema são as declinações

declinar convites
declinar oferecimentos
declinar até
oportunidades
porque tenho espelho

mas sou fluente
a vida ensina
e nenhum orgulho
tenho disso





Walter Biancardine



DORME COM DEUS

o tempo nos faz práticos e diretos
garotada ainda presta atenção em
retórica e desculpas
e argumentos justificando
o nada de errado
que foi feito

a gente fica velho e não 
é o caso do fim do amor
mas a falta de paciência 
de ouvir nem 
de falar nada

e vai até a cozinha e pega café
pensa duas vezes se vai sentar
de novo no sofá porque
se sentar a conversa
continua

melhor acender um cigarro
ir na varanda fumar 
porque aquilo
é perda de tempo 
e uma adolescência
atrasada parece que voltou

nada de errado
ou escondido
nem má intenção
ou desatenção
então 
pra quê?

mas mulheres precisam disso
medir a insegurança 
do homem
sua aflição 

e se ele é tranquilo
e sem desespero é pior
acham sempre
arranjaram outra

sou velho demais pra isso
sem paciência
com um negócio desses

você é linda e amo você
mas deita e dorme com Deus




Walter Biancardine



sexta-feira, 7 de agosto de 2026

FILHO DA MÃE ABENÇOADO -

um bom homem precisa ser pretensioso.
bastante.

ela jamais será feliz sem ele.
ela não pode sofrer com essa vidinha medíocre.
e só ele pode protegê-la e deixá-la feliz.

não reclame.
as mulheres amam isso.



Walter Biancardine 


FINS DE SEMANA


foi-se o tempo em que eu
cheio de hormônios
odiava os domingos

hoje guardo meus ódios
para as sextas-feiras
feito na infância
invejava os irmãos

o mais velho vinha do trabalho
tomava banho e trocava de roupa
se admirava no espelho
pegava a chave do carro
e ia pra rua e às mulheres

o do meio ainda estava no quartel
vinha de farda e fazia o mesmo
também se admirava no espelho
pegava a chave do carro
e ia pra rua e às mulheres

eu era o mais novo e ainda criança
aproveitava a solidão do quarto
ouvia músicas que ninguém ouviria
lia livros ou escrevia ou desenhava
ficar pra trás não é novidade

agora o tempo passou e envelheci
mas não mudou muita coisa
chegam as sextas-feiras e vejo
gente se arrumando e um clima
de tesão no ar e eu aqui no mato

tal como criança no quarto

todos na rua se divertindo
eu aqui atrás e esquecido

mas mantenho a tradição
até hoje desenho e ouço músicas
que ninguém ouviria e também
escrevo e escrevo e escrevo

quase acredito em destino




Walter Biancardine


AMOR DE DEUS


Deus permitiu tudo isso
porque Ele me ama?
permitiu essa miséria
angústia e solidão
e abandono e dor
porque me ama?

Deus permitiu minha fome
meus ossos quebrados
sujeira e imundície
deboche e desprezo
decadência sem disfarce
porque me ama?

Deus permitiu que eu fosse
traído e enganado e
caluniado e alvo da
inveja e recalques
de tantos à volta
porque me ama?

e Deus permite que ainda
eu fique por anos encalhado
em profunda miséria e
falta de esperança
porque ele insiste
em me amar?

até quando Deus me amará?

até quando sobreviverei
a tanto amor assim?




Walter Biancardine



O SOL MAIOR DE BACH


Estranho como a suíte Nº1 do senhor Sebastião me paralisa.
Um prelúdio cheirando à maresia e funcionando como máquina do tempo. 
Traz uma memória genética – se isso existe – e me vejo, pelo sangue, um corso em batalhas no mar.

Todo o resto me empurra pro Mediterrâneo. Allemande, Courante, Sarabande, os Minuetos e o Gigue, tudo fede a madeira velha e vinho rançoso. Sebo de velas, cordas molhadas, peixe podre e um chamado sedutor do mar, cruzando Gibraltar.

Um violoncelo ecoando nos porões de um antigo veleiro.
Soa como buzina de navio em nevoeiro.
Sereia que alerta.

Córsega, Córsega; estranha terra expatriada que pariu meu sangue e danou algo em minha alma.
E o prelúdio volta. 
Na minha cabeça é como as ondas do mar, inevitáveis.

Não há como ouvir e não enxergar o convés de um galeão. Misto de paz e guerra, bonança e privação, placidez e agonia.

E a proa estoura as ondas, apontando o gurupés ao alto e descendo temerária aos braços de Netuno.

Mas não é o vinho.
É Bach.

Ele fez isso em mim.




Walter Biancardine



AS CORUJAS VIRAM


a hora vai avançando e parece
que meu planeta desabita
ilha de angústia cercada de
mato por todos os lados
sequer posso sair à rua
assim tarde

recorro às redes e também
elas adormeceram e cessaram
os tormentos que até pouco
gemiam de uma agonia blasé
e o mais recente por lá
postaram há uma hora

é na insônia e madrugada
solitária que os fracassos
se encontram 

mas pelo que vejo hoje
todos são vitoriosos
e sumiram

perdi a companhia das
queixas e cinismos
não mais tenho ninguém
pra cantar indecências
da cama como se ainda
a usasse

e os poucos que ainda 
existem teimam em citar
Dostoiévski e Kafka
como certificado de
sintonia comigo

me resta beber e beber
que se fodam Kafka e o
outro russo porque tudo
o que me interessa falar
é de dores e fracassos
travestidos em

imundícies
como essa




Walter Biancardine


QUINTA-FEIRA SEM CONCORRÊNCIA

ainda é cedo e nem comecei a falar
traga mais cerveja e quebrem os copos
e pratos e joguem as bandejas
no chão
a trovoada anunciando a bebedeira


e as mulheres
levantem as saias e sentem aqui
no meu colo e digam que sou
o que ninguém mais foi
na porca vida de vocês


vamos beber e rebolar e gemer
riam e mostrem seus dentes
olhem com toda a maldade
e provoquem o quanto puderem
porque amanhã é sexta-feira
e os jovens bonitos e ricos
chegam





Walter Biancardine



quinta-feira, 6 de agosto de 2026

NADA ALÉM


não há como ler alguma coisa
ou analisar um problema
desmontar o ventilador
tudo é
complicado e 
dá nervoso

acendo um cigarro
atrás do outro
bebo água ou o que
tiver por perto
a cabeça trava e nada
sai ou brota ou
imagino

o pior é não dormir
tem gente que consegue
e até usa como solução
mas eu não

não durmo nem penso
nem crio nem imagino
nem resolvo nem sorrio

olho em volta
feito animal acuado

fome
é a maldita fome
mil vezes maldita
que mata planos
projetos de vida
ideias

tudo o que eu penso
é como posso arranjar
alguma coisa pra comer

e viro escravo dela
da fome
da maldita fome
que nem me deixa
perceber que virei
escravo

é a fome
maldita fome




Walter Biancardine



quarta-feira, 5 de agosto de 2026

USE MEU WI-FI

não existe bondade
companheirismo
solidariedade
compaixão
simpatia
empatia
paixão
afeto
amor

nada disso existe
ao vivo e à cores

só on line

e às vezes
editado




Walter Biancardine



LÁ EM CASA É ASSIM

 
as pessoas passam na vida dos outros
se acham sempre importantes mas
são classificadas e guardadas
pra qualquer eventualidade

tem gente que é limão
aquele tipo que pode ser útil amanhã
sabemos que não vamos aturar muito
mas deixamos guardado porque 
podemos precisar

outros são iguais a sachês de catchup
podem ser necessários por mais tempo
embora sempre incomodem e ocupem
um espaço que preferimos
esconder

mas destino cruel é dos Super Bonder
necessários e não queremos dispensar
e guardamos tanto tempo sem uso
que quando precisamos
o bico entupiu

amizades e relações de geladeira
guardando as pessoas na prateleira
da porta

a sua geladeira é assim
tem limão e sachês e Super Bonder

nem ligamos mas
reclamamos jogando fora

e jogamos fora





Walter Biancardine




SURRA DE FLOR

o fanatismo de Florbela me espanca
me persegue e enche meus dias
de preocupações porque nunca
nunca fui amado assim
nem me disseram
perder a alma
em sonhos
por mim

mas então acordei
o tal sonho terminou
não havia mais alma perdida
nem jamais me amaram tanto assim
a flor, bela, murchou e só ficou o roxo

porque me espancou

minh’alma, de sonhar-te, 
anda ferida




Walter Biancardine


ESTRADAS


as estradas que ando
pouco me importam
quero as distâncias
as curvas e retas
e vento na cara

horizonte distante
só me faz acelerar
não conto quilômetros
nunca o alcanço
e nem quero chegar

sou filho da estrada
filho do vento e poeira
sempre andando veloz
naquela reta sem fim
que não dá em lugar
nenhum

aponto pra frente
e sigo porque
não importam os destinos
mas as estradas 
que escolhemos

e quando a estrada acabar
não enviem flores
o uísque
é por conta
da casa




Walter Biancardine



terça-feira, 4 de agosto de 2026

VÁ ARRANJAR UM DONO


arrumar um emprego
é como arranjar um dono
ele manda e você obedece

ele é seu dono
dono de seu tempo
dos seus horários

de sua vontade
de fazer
ou não fazer

não adianta reclamar
você vendeu seus dias
por dias melhores

mas não sobra tempo
muito menos dinheiro
resta mentir

nas redes sociais
com fotos




Walter Biancardine



A ESTRADA SEGUE

 
não sei o que as estradas têm, mas elas me perseguem.
ou talvez eu nunca tenha conseguido deixá-las.
andei nelas quando criança, nas viagens com a família. depois, jovem, em aventuras de bicicleta. mais tarde, dirigindo caminhão. agora, velho, sigo como um peregrino.
as estradas nunca me largaram.
boa parte da minha vida ficou espalhada por elas. delas guardo lembranças, sonhos e ossos partidos.
foi nelas que fiz planos. foi nelas que os perdi.
já escrevi sobre acostamentos. os acostamentos são uma crônica da vida de quem passou por ali. um pneu furado, um retrovisor quebrado, uma cruz, uma garrafa vazia, um sapato sem dono. basta juntar os pedaços.
e eu continuo na estrada.
de carro, de bicicleta, de caminhão, de moto ou a pé.
já não é um caminho.
é tatuagem na alma.
ou cicatriz.
deve haver algum significado pra tanta estrada na minha vida. queria enxergar nisso um desenho do destino, uma promessa escondida logo depois da próxima curva.
olho pra reta desaparecendo no horizonte.
tem que haver uma boa surpresa.
porque o final da viagem eu já conheço.
sete palmos abaixo do asfalto.



Walter Biancardine


ALGO DE CERTO ESTÁ ERRADO

são duas e meia da manhã
desta segunda feira
e penso

como podem pessoas
que olham tanto pra si
investigam a alma
se analisam
pesam 
julgam

e enxergam o vácuo
farejam intenções
e sofrem dores
que nunca nem vi

e fazem versos e contos
navegam nos céus e 
mergulham no inferno
poetas escritores
que são

como podem
todas essas pessoas
tão poetas
tão cheias de abismos
estarem agora 

dormindo?

o abismo funciona
em horário comercial




Walter Biancardine


SORO DA VERDADE


não quero ser amado porque não sei dar de volta. não quero ter obrigações de amor. só quero receber, mas dizem que temos de crescer e dar de volta. 
mesmo de má vontade. 
isso é ser adulto.
quero amar e ser amado desde que eu não tenha obrigações.
obrigação pra mim é igual a decepção. e sempre decepciono.
quero que ela seja minha mãe de manhã e me traga café. 
que seja minha cabeça de tarde e pense e sinta e julgue e escreva comigo. quero que seja minha amante de noite e se faça uma puta na cama. sem vergonha nem limites. e que acorde como minha mãe no dia seguinte.
se me perguntam o quê ela ganha comigo eu digo que nada. e não é nenhuma novidade porque ninguém ganha coisa alguma ao meu lado.
aliás, ela ganha.
ganha uma sinceridade que nunca viu antes.
e um bêbado na cama.



Walter Biancardine



segunda-feira, 3 de agosto de 2026

LÂMPADAS


Só um desgraçado sem mãe usa as malditas lâmpadas brancas, de led, na casa inteira.

Isso, mais que sinal de um DNA ostensivamente pobre, significa que as referências de luxo e sofisticação do infeliz se resumem aos locais – poucos – os quais se atreve a ir: escritórios, consultórios, algumas poucas lojas de 1,99 e atacadões.

Quer ver a alegria desse sujeito? Dê a ele um carpete, janelas blindex sem esquadrias, lâmpadas brancas, piso de porcelanato na casa inteira e quintal todo cimentado, pra varrer mais fácil.
Tudo isso, em sua tosca cabeça, é sinônimo de luxo.

Francamente não sei o que é pior: uma casa assim ou aquelas que sequer tem reboco nas paredes externas – não paga IPTU – mas tem um carro zero Km na garagem. Ou seja lá como chamem aquele telheiro de Eternit.

Pobreza é uma coisa. Relaxamento é outra,

E mau-gosto é a pior entre todas.




Walter Biancardine



UM BREVE INTERVALO

talvez não seja hora 
de escrever
nada

escrevo como um estranho
pra mim mesmo e não
me reconheço

perdi quem sou em algum lugar
esqueci minha voz numa gaveta
qualquer

mas tento escrever por teimosia
e desejos de glória

mais vaidade
que inspiração

e isso mata




Walter Biancardine



REAÇÃO


se a cabeça vaga pelas dores
becos e misérias e vergonhas
que não são coisas educadas
pra falar

se os olhos enxergam a pose
e hipocrisia e mediocridade
e baixeza que fingem nem
notar

se a alma sente a dor
da injustiça e mentira
e maldade com boa
aparência

e nada posso fazer
nem falar

então estou morto





Walter Biancardine





INTELIGÊNCIA PREJUDICA


Tive hoje um dia ruim num lugar que faço uns bicos pra sustentar a semana.
Sim, trabalho aos domingos.
Oriento pessoas que chegam ao estabelecimento.

O caso é que outro estabelecimento realizava um evento também, no mesmo horário e ao lado de onde fico. E é nessas horas que vemos que, realmente, o QI médio do brasileiro é 83.

Pior do que ver um burro não conseguir fazer o que você pediu é ver outro burro – arrogante – passar direto achando que sabe melhor o que fazer do que você, que o orienta, e depois quebra a cara. A vontade é socar as fuças do imbecil.

E pensei: vejo essa gente chegar. Chegam em carros caros, muito caros. A maioria se veste como classe média-baixíssima (bermuda, chinelos havaianas, camisa sem manga) mas alguns até usam roupas decentes. O que me vem à cabeça é como esse tipo de gente, de raciocínio bitolado e primário mais evidente que chifres em cabeça de boi, consegue trabalho que remunere o suficiente pra comprar esses carros?

Como ganham dinheiro para pagar o que consomem? Os carros, as roupas, os celulares que custam um rim e outras evidências de sucesso indispensáveis ao imbecil-padrão do século XXI?

Concluí que são os empregados perfeitos.

A maioria dos patrões não quer empregado inteligente. Mede os outros pela própria régua: se o funcionário é mais inteligente que ele, vai passar a perna e o papel de bobo vem de brinde.
Contratar um imbecil, um limitado obediente e previsível, é muito mais seguro – por isso, é bem remunerado.

O Brasil é uma terra tão estranha que o salário aumenta na mesma medida em que sua inteligência diminui.

Quase sou obrigado a dizer que, modéstia à parte, estou desempregado.




Walter Biancardine


domingo, 2 de agosto de 2026

SOLITÁRIOS UNIDOS


vamos juntar todos os que
se sentem sós
trancar todos no mesmo
quarto e deixar que
gritem

uma multidão de solitários
contrassenso em bando
se espancando entre si
porque são sós

se você também quer
ser solitário é
fácil e não requer
prática nem
habilidade

basta escrever um textão
publicar numa rede social
com uma foto de perfil
bem escura

já somos milhares
breve seremos milhões
solitários unidos e juntos
antes que o juízo chegue

e os boletos também





Walter Biancardine



sábado, 1 de agosto de 2026

PAGO RECLAMANDO E RECEBO SORRINDO


A ressaca da bebedeira diurna ameniza, dor de cabeça vai embora.
Vivo, afinal. É sábado à noite, tudo continua.

Sentei aqui e fui olhar as redes. Só tenho Facebook, X e Substack.
No Face, nada de novo. Só a mesma chacina política do X, apenas com moderação para menores de 18 anos.

X nem preciso mencionar. Cracolândia.

Substack, entretanto, me surpreendeu. Deixando de lado o ambiente “clube das menininhas”, existe coisa que presta por lá, e merece ser lido. 
Gente desconhecida, que a indústria editorial jamais colocará os olhos, mas que pode e deve ser divulgada.

Tem um rapaz que gosto de seus posts. O Substack segue um estilo semelhante ao X, mas sem o limite absurdo de caracteres, e eu sempre leio o que ele publica por lá. Existe também, nesta plataforma, a opção de você publicar um artigo – ele será postado sob a forma de um link da própria plataforma, e basta clicar nele pra acessar. 
O rapaz escreveu um artigo, cliquei mas era apenas para assinantes pagos.
Sim, o Substack oferece isso.
E fiquei puto.

Senti a mesma frustração de quando via uma manchete interessante, clicava nela e era “só para assinantes”.
Mas existe uma grande diferença em favor do Substack, que esses jornais de internet não tem: o dinheiro vai direto pro autor, é uma maneira dele arrumar um troco pelo seu trabalho, já que a plataforma não veicula anúncios – ao contrário dos jornais de internet, que ganham dinheiro com anúncios, com views e com assinaturas.
Reclamei, fiquei puto, xinguei – mas é justo.
É o certo a se fazer: remunerar quem escreve por seu trabalho.

E me pus no lugar do rapaz.
Bem que eu gostaria de receber uns trocados por cada postagem que eu fizesse.

Reclamo pra pagar, mas recebo “docemente constrangido”.

Sim, sou um hipócrita.




Walter Biancardine



SOU ESCRITOR

 
Fui almoçar no restaurante aqui em frente e bebi como um gambá.

Notei que o povo local começa a se referir a mim como “Walter, o escritor”. 

Não sei se é motivo de orgulho – muito melhor “escritor” que “jornalista” – ou de vergonha, pela pobreza explícita que o designativo emana.

Ainda assim, prefiro “escritor”.
Melhor ser pobre que pilantra, que é onde minha antiga profissão se abrigou nos últimos anos.

Prefiro “escritor” porque posso dizer que não tomei vacina, relembrar “eu avisei” pra todo mundo, escrever isso em forma de poesia e ninguém reclamar.
Basta ver o depoimento de Fauci.

Gramsci era um filho da puta.
Mas estava certo.

E eu aqui, bêbado como um gambá.




Walter Biancardine



CALENDÁRIO

 
o ano tem quatro estações
em uma delas vou morrer
também tem doze meses
e em um deles irei embora

é estranho pensar que
dos 365 dias do ano
um deles será
o dia de minha morte

e que se eu virar fantasma
verei gente comentando
meio indiferente
“hoje faz um ano que morreu”

na cabeça só não cabe
imaginar que ano morrerei

mas é estranho saber
que já vivi o dia
e o mês de minha morte

falta só o ano

pode ser este




Walter Biancardine