Chuva furiosa e contínua, aqui.
Acordei 5:30 já chovendo forte. São 11:40, permanece igual.
Aqui, desbarranca-se uma encosta. As águas levam mourões e o farpado da cerca, tudo embora, descida abaixo.
No Rio de Janeiro, ruas alagam. Táxis somem e dobram de preço. Ônibus lotados embaçam seus vidros, com tanta gente enlatada. E os carros, sempre com um ar superior, seguem blindados e isolados por vidros, climatizadores e Insulfilm.
Aqui é respirar fundo, consertar o estrago e vida que segue. É a natureza, as coisas são assim mesmo apesar de nossos xingamentos.
No Rio, chega-se atrasado no trabalho. Chefe olha com cara feia - se ele estiver lá. A roupa, molhada da chuva, faz o pobre e promissor profissional congelar no ar-condicionado. Talvez a única coisa humana naquele ambiente asséptico seja o café. Mas que seja breve.
É proibido fumar. Conversar atrasa a produção. Rir não combina com relatórios. E as mesas são limpissimas às custas de Veja Multi-Uso.
Sem marcas de trabalho. Sem riscos, desgastes ou rachaduras de esforço. Sem manchas de suor ou dedos sujos. Um porta-retrato com o cônjuge e Fluffy, seu filhinho pet.
Aqui é um barracão de madeira que serve de oficina e depósito. As tábuas cruas e grossas da bancada não tem mais ângulos retos ou rebarbas, os anos de uso arredondaram todas as quinas.
Chão preto de graxa e óleo motor, polvilhado com serragem e muita lama trazida nas botas. Tudo cheira a gasolina. Luz, quando há, é sempre uma só lâmpada e mal posicionada.
E na porta desse barraco tomamos café - forte e quente - sem nenhuma pressa, observando a chuva e o frio que ela traz. Quem sabe quando vai estiar é São Pedro, não nós.
No Rio a chuva passa e ninguém nota. Os olhos só enxergam a tela azul do computador. No máximo, um prefeito sobe numa favela em busca de demagogia e noticiário na Globo. E continuamos na tela. Produzir é tudo.
Aqui, a chuva espera até que acabemos nosso café, o cigarro e a prosa. E então ela passa.
Hora de consertar os estragos, lama até as canelas, músculos, suor e testosterona.
Tudo igual, desde que o mundo é mundo e homens são homens.
Vida que segue.
Continuo escrevendo.
Walter Biancardine
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