A hipocrisia parece ter se tornado uma pandemia. Os algoritmos detectam o que gosto, o que leio, e me empurram perfis ditos “conservadores”. Isso acontece no Facebook ou no X (Twitter), as únicas redes que ainda tenho. E o que vejo nestes perfis?
Em primeiro lugar, uma fantasia: todos usam barba. Todos tem o cabelo cortado com o pé raspado e pequeno topete. Todos estão uns dez quilos acima do peso. Todos usam bermuda cargo e camisas de malha, tão limpinhas que quase sinto o cheiro do amaciante de roupas da mamãe. Todos tem uma SUV. Todos postam foto ao lado da mulher e do cachorro – ou do filho, para os mais corajosos – tal como os antigos anúncios de margarina. Todos bonitinhos. Promissores. A mesma esquizofrenia postural: carreiras em ascensão, mas já realizados. Iguais. Feitos em série.
E isso é só a embalagem, não importa tanto. O pior é o que vem agora.
Sabem reclamar, mas só socialmente. Reclamam com moderação, como bebericassem uma longneck de Stella Artois. Educadamente – vai que o chefe lê? Vai que os amigos (aqueles que interessam, vantajosos para sua carreira) discordam? Se vende muito mais como “postura crítica” do que como alguém que foi realmente enrabado uma vida inteira por uma loucura ideológica, que literalmente fodeu o maior país da América Latina – e a ele mesmo, só que se recusa a ver. Não, isso não importa. Isso é coisa de radicais, “eu não sou como esses fanáticos aí” – diz ele aos amigos, dando pequenos goles em um energético, no seu copo Stanley.
Não é reclamação. É rosnar. É marketing. Só isso.
No trabalho se amolda. Se submete. Abaixa a cabeça, bajula fingindo dedicação e não percebe que continua o mesmo adolescente, que teve de se rebaixar – se humilhar – para ser aceito pela turma que desejava participar. O que fez por pertencimento aos quinze anos, repete sob a desculpa de pragmatismo aos trinta. Se vende. Vende a alma. E qualquer argumento contra isso logo o julgará como “pensamento esquerdista”, pois a Bíblia diz que “ganharás o pão com o suor de teu rosto”. Esqueceu a diferença entre esforço e dignidade. O que importa é fotografar seu progresso no Instagram.
Os mais aventureiros – ou com respaldo paterno ou familiar – empreendem. E repetem todo o comportamento predatório de seus antigos patrões. Mas isso é ser conservador. É prover. Mesmo que custe seu amor próprio e o faça chorar de frustração e amargura no chuveiro.
Levados por impulsos momentâneos ou pelos amigos, comparecem à passeatas. Motociatas. Levam a mulher, o pet – ou até o único filho – a mãe, avô e todos se enrolam na bandeira do Brasil. Escutam discursos, aplaudem, e a cada pequeno orgasmo ideológico proferido no palanque, novas fotos para o Instagram. Batem no peito, urram seu conservadorismo, sua macheza – jamais exibida diante dos patrões. E depois, findo o ato, vão todos em alegre caminhada até uma boa churrascaria comer o almoço. Picanha. Cupim. Pão de alho. Alguém sempre pega petiscos japoneses. Cachorrinho preso pela coleira na guarda da cadeira. Crianças ao redor – filhos dos outros conservadores – gritam e brincam.
E este é o fim de um dia feliz. Patriótico. Conservador.
Voltam para casa, nunca pensando ou aceitando que estamos em guerra há quarenta anos. Ninguém aceita que nosso maior inimigo é o sistema. Ninguém vê a doutrinação de seus filhos na escola. Ninguém combate os conceitos destrutivos que nos empurram (à força, com raiva cada vez maior) todos os dias, pela mídia, rádios ou mesmo carnaval. Ninguém enxerga a agressividade explícita dos atos do governo – pois, se enxergarem, só restará o combate.
E ninguém quer combater.
A testosterona acabou. Homens meio gordos com tetas, quadris largos, voz fina, expressões e postura femininas. Nenhum deles jamais seguraria um fuzil nem buscaria tal circunstância. Recusam-se a ver, como crianças, para que o mal se vá por si só. E mentem. Juram de pés juntos que nada está tão grave a esse ponto. E amanhã tem reunião no escritório.
O conservador de Instagram é o conservador passivo. Sempre de quatro, mas com um ar “levemente agressivo” para mostrar com tem consciência dos problemas (sim, chamam de “problemas” uma situação de guerra) do Brasil.
Estes são, em tese, a elite pensante do país. A classe média alta, a camada da qual, teoricamente, deveria transpirar o conceito dominante para a maioria miserável verde e amarela.
Deveria, mas não transpira. A maioria miserável está onde sempre esteve: no bloco, no pagode, no baile funk, no churrasco de carne de terceira aos domingos. Na fuga desesperada alcançada no “pão e circo” do sistema, que se repete desde a Roma antiga. E isso molda o caráter – ou a falta dele.
Elites frouxas vivem como fossem “celebrities”. Povo vive como animais, acasalando, comendo e dormindo – e gargalhando desesperadamente.
Nenhum dos dois tem o menor vestígio de caráter. O prognóstico é péssimo. Somos doentes terminais.
Quanto à mim, não sou um conservador na totalidade. Concordo com muitas coisas, discordo de outras – a única coisa que sei é possuir QI suficiente para jamais ser um esquerdista.
Mas isso não me impede de enxergar. De criticar. De ver claramente o beco sem saída em que estamos, dada nossa frouxidão – e isso não é “desunir a direita”, é ser consciente e enxergar a conjuntura social. E não vejo saída.
Por isso pouco se me dá como me enxergam. Como me julgam.
A régua que usam para me medir é completamente errada.
É a própria, a que se medem.
Walter Biancardine















