domingo, 19 de julho de 2026

QUANDO CHEGUEI TUDO ERA MATO


quando comecei a vir aqui
ainda não havia nada…
é o que todos dizem
sugerindo que são
visionários de faro
apurado e conseguiram
enxergar as maravilhas
antes de todos

agora é fácil
falta que digam

o que nunca dizem
é que começaram a
ir em tais lugares
porque foi o que
restou
o dinheiro deu
ou acaso

desbravadores
me dão sono




Walter Biancardine


sábado, 18 de julho de 2026

LITURGIA ETÍLICA ou O Ritual da Bebedeira


começa sempre com a primeira frase
imperativa e alegre: “campeão!” ou pode ser
também “meu chefe” ou “consagrado” ou até
“pinguim” para os já íntimos

pede-se então as “loiras”, as “cervas”
as “geladas” e sempre com a recomendação
que estejam como “canela de pedreiro”

ao chegar vem a última frase litúrgica
que é “vamos abrir os trabalhos”
e os copos vão sendo enchidos de acordo
com a ordem da demagogia ou intimidade
e apreço daquele que a serve

a primeira fase é de falatório e risadaria
tudo muito alto como que testando os
vizinhos de mesa

depois a coisa se acalma um pouco
conta-se casos ou explicam-se vexames
ou situações ou mal-entendidos
e até por vezes brotam oportunidades
e oferecimentos

depois vem a fase da revolta
onde todos ficam radicais e bradam
em resumo que “é do jeito que eu quero
ou foda-se tudo”
enquanto todos riem

após isso e já mais pesados
surgem alguns lamentos amorosos
segredos do casamento e até
alguns casos extra-conjugais
que ninguém sabia
pois o corno confessa
terem sido dela
e ele ficou
“mas foi pelas crianças”
sempre
e sempre

já chegando ao final as amizades
se exacerbam e todos desde sempre
são “seu amigo pra caraaalho” e te
“consideram pra caraaalho” e dão
a vida por você
e pela bebida que você pagou

e vem o penúltimo ato
triunfante como uma obra de Wagner
e a transcendência de Bach
trazendo Amado Batista à mesa
entoando “aqui nessa mesa de bar”
e todos cantando abraçados
enlevados por aquela
sublime amizade

e eis que chega o réquiem desta
ópera bufa dos botequins mais imundos
que se repete todos os dias
por todo o Brasil

a conta chega e como vamos dividir?

súbito quase todos tornam-se
sóbrios e tentam escapulir
alegam só terem tomado
dezoito cervejas mas sempre
e sempre tem um que
permanece chapado
e diz com autoridade
“essa é comigo”

e fecham-se as cortinas

e nos banheiros de cada casa
os vômitos se cumprimentam
telepaticamente

enquanto mulheres furiosas
veem TV e dizem que
“amanhã ele vai ver”





Walter Biancardine



PEIXES E PARAFUSOS


Afastado da costa, mal se vê terra.
Não precisa fundear, deixa à deriva.
Motor desligado, solta as linhas de isca e abre uma cerveja e senta na cadeira no convés de popa. 

Uma tainha morde e é boa. Gorda.
A fome bate, acendo o fogareiro de carvão e faço ela na brasa.
Limão, muito limão em cima.
Sal, é claro, nem precisa aqui na região.
E mais cerveja pra rebater a tainha.

Uma outra morde e é quase um incômodo, por estar sentado e comendo e bebendo, feito um poderoso que olha o mar. Mas recolho ainda assim e seu destino é o mesmo: frigideira.

Barriga cheia.
Cerveja e peixe.
Me sinto tão onipotete que lembro de levar alguns peixes para os pobres mortais que ficaram em terra.
As linhas permanecem na água.

Entra um vento sul repentino.
Mau sinal.
A água ficou cinza, hora de zarpar de volta.
Mas o motor não liga.
Tento e tento e tento. Nada.
Melhor parar antes que a bateria descarregue.

Vou buscar a caixa de ferramenta e me dou conta que a larguei em meu apartamento, no condomínio Casa Grande.
O negócio é improvisar.

Havia centelha. Bom sinal.
Abro o distribuidor. Giro o motor com a mão.
Platinado não abre. Colado. Matei a charada.
Mas não tinha chave de fenda.
A solução foi a peixeira, um facão de cinquenta centímetros.

Mas o mar já batia e sacudia tudo.

Fechei a porta do porão de proa, mas o motor teve de ficar aberto enquanto eu tentava desparafusar o pequeno platinado com uma faca de cortar pescoços de girafas.

E tudo sacudia. E borrifos de água começaram a entrar pelo costado.
Mar grosso.

Consegui tirar a peça. Agora é lixar, mas não tenho lixa.

Lembrei de minha caixa de fósforos.
Arranquei a parte em que se risca os palitos e improvisei.
Funcionou. O contato ficou limpo e passava corrente.
E o melhor: descolado.

Agora é parafusar de volta.
Com o facão enorme e o mar sacudindo tudo.

O que poderia ser feito em quinze minutos levou quase uma hora.
Uma hora de mar batendo, vento uivando, peças caindo e rolando pelo convés e água entrando e molhando coisas que não podiam ser molhadas.

Mas parafusei.
E tirei um litro de gasolina do tanque.
Enxarquei um pano com a gasolina e passei nas peças que a água do mar molhou.

Montei tudo, virei a chave e apertei o botão de partida.

E funcionou.

Agora era voltar, encarando aquele mar bravo de vento sul e deixando pra recolher panelas, restos de peixe, temperos e talheres pra quando atracasse de volta.

Tudo tem sua hora.

Inclusive a de aprender que quando você olha pro mar e não vê nenhum barco de pesca, não é à toa.

Fique em terra.




Walter Biancardine



VINCENT


perspectiva de um bêbado
e o chão torto não faz
sentido com a parede
de um vermelho que grita
ensurdece meus olhos em 
lágrimas

mortos e mortos e mortos
numa guerra sem fim de
todos os jornais e dias
outro vermelho berrando
e correndo do asfalto
pro meio fio e pro ralo
mas saiu no jornal
que absurdo e onde vamos
parar ou nunca vamos parar
é o problema

o dia amanhece e já odeio
sou como todo mundo que
odiar com manteiga e café
faz um dia feliz e fora
todo mundo e morra quem
não pensa ou não gosta
do que eu gosto e acho
que penso

palavras me ofendem mas
o buraco de bala cheio
de sangue e carne parece
dar tesão e querem mais
e mais e nem ligam
porque reclamar é moda
e me traz amigos
que me mostram que sou
normal igual aos que
dividem a cela com eles

descobri o segredo de ser
querido e admirado e pedido
por todos e é simples pois
é só eu ser qualquer coisa
estranha e reclamar e reclamar
que se foda tudo e todos
o importante é proteger
e ninar a coisa estranha
que eu e mais uns somos

é o segredo do sucesso
e nem precisei pagar a
entrada nem dei
a ficha como o holandês
que pagou com a orelha
e nem viveu pra ver
por isso sou esperto
e ficar de quatro é
sensual




Walter Biancardine


A RIMA COMO ELA É


e então conhecemos 
um poeta
ou uma poetisa 
e o choque vem

o imaginamos um sábio
transcendente em luz
idoso ou de uma beleza
incômoda pra nós
muito machos

o mesmo com a poetisa
seria uma ninfa alada
fada divina e suave
a perfumar nossa alma
de imagens e cheiros

mas ela é gorda e feia
tem papada e verrugas
óculos fundo de garrafa
mau hálito e maus modos
suavidade de um trem

e ele é um semi-gay
alcoólatra e mal banhado
com manias estranhas
roupas sujas e ar sombrio
pedindo café fiado

as maravilhas que escrevem
não combinam com o fedor
que exalam
nem com a aparência
de tudo menos

divinos



Walter Biancardine



sexta-feira, 17 de julho de 2026

NANA FELIZ


quis fazer um poema
escrito na máquina
pra agradar a ela

mas tive ideia melhor

e ela ficou feliz
e eu me senti
tão feliz por ver
alguém tão feliz

com o que fiz

pouco importa os
ossos doerem ou
os dedos sem força

ela está feliz

e isso é todo o ar
e a luz e a vida
e o motivo que basta

o céu por um triz




Walter Biancardine


BESTICE

 


Sou um pobre metido à besta. 
Aliás, mais que pobre: um quase-indigente. 
Mas a bestice fica.
Adesiva. Tatuagem.
Quase um sinal de nascença.

Pobre bebe cachaça. 
Praianinha. 
Daquelas que corroem a glote e fazem o bebedor cuspir fogo como dragão. 
Já eu, gosto de whisky. 
Ou melhor, Tennessee whiskey. 
Mais precisamente, Jack Daniel’s. 

Caso não tenha, cerveja serve. 
Mas que seja, ao menos, uma Stella Artois.

Ao comparar minhas condições financeiras com meus gostos a conclusão talvez me desabone, pois seria algo como uma loucura em fase terminal.

Ganhei um dinheiro extra, por esses dias. 
Também recentemente decidi parar de inundar as redes com meus surtos literários, ou nenhum material inédito terei para meus livros. Igualmente existe o fato de que nunca confiei em computadores – engolem arquivos contra nossa vontade – e por isso tomei uma decisão radical: comprei uma máquina de escrever. 

Sim, creiam.
Não é piada, saudosismo ou tentativa de lançar tendências, é pura precaução. 

Agora, além do HD externo, tenho o papel como arquivo de minhas misérias e não me distraio com o panis et circensis digital.
E quem nunca interrompeu o que escrevia no computador para “dar uma olhadinha nas redes” que atire a primeira pedra.

Como sou besta, escolhi uma Hermès Baby – a mesma máquina icônica que Ernest Hemingway usava pra escrever sobre sinos que dobram, velhos e mares.
Steinbeck, Sartre, William S. Burroughs e até o lisérgico Jack Kerouac também a utilizaram e a tornaram famosa, desejada.
E cara.

Sim, também é saudosismo, eu confesso.
Afinal, trabalhei anos com elas.

Existe, também, o benefício extra de uma fisioterapia gratuita em meu braço, punho, mão e dedos esquerdos. Não ando de moto há muito tempo e creio que, sem uma embreagem pra apertar, eles foram perdendo a força após meu acidente.
Quem sabe possa eu voltar até a tocar um violão?

Mas o que esperar de alguém como eu, que bebe Guaravita, fuma um cigarro de cinco reais mas gosta de uísque e agora batuca textos em uma Hermès? 

Que voltou pra Cabo Frio deixando todos os seus bens pessoais e até roupas pra trás, mas acha perfeitamente possível recomprar tudo de novo – menos as histórias, o valor emocional daquilo que perdi?

Que mora no fim de um buraco na roça do Estado do Rio de Janeiro mas ama – e quer ir buscar – preciosa donzela que habita as cercanias do pantanal de Mato Grosso, presenteá-la com rosas e tocar violão pra ela?

Que tá na reta final da vida e ainda acredita que terá uma coisa estranha e grandiosa, a qual poetas e sonhadores apelidaram de “futuro”?

É um quadro clínico preocupante.

Cá entre nós e de volta à realidade, o melhor que pode acontecer é eu me tornar famoso depois de morto.

Afinal, somos especialistas em louvar cadáveres.
Cedo ou tarde serei um.
E terei alguma relíquia a ser leiloada.

Menos a bestice.
Essa é pessoal e intransferível.




Walter Biancardine


HISTÓRICO ESCOLAR


estudei em um bom 
colégio primário
por coincidência passei 
pro ginasial
justo quando inaugurou 
sua primeira turma

fui cobaia
e era uma merda

fiz a quinta série
uma merda
fiz a sexta 
repeti de ano
e implorei
à minha mãe

me tire de lá
quero um bom colégio
puxado e exigente
eu não sei fazer
regra de três

ela achava que
era vergonha minha
mas era aflição
quase
premonição

na verdade eu era
um maluco que lia
o dia todo

entendia da Apolo 11
o pouso na lua
trilobites
os dinossauros
e todas as
enciclopédias

minha mãe não quis
meu pai nem ligou
lá fiquei
até repetir 
a oitava série

fui pro supletivo
na rua da maconha

acho que uma
boa pessoa

morreu na quinta série




Walter Biancardine


quinta-feira, 16 de julho de 2026

VENTO FORTE


construção abandonada
muito alta
o ponto mais alto
de tanta planície
e pastos e matas
à volta

noite escura
sem lua mas cheia
de estrelas
vento forte
muito forte
furioso
e gelado

sento no concreto
me encolho em meu casaco
o vendaval me balança
gela meus ossos
tenho de segurar
meu chapéu

olho as estrelas
uma ou outra luz
de uma casa feliz
espalhadas longe
no horizonte

quase morbidez
desejar dormir aqui
mas desejo
só não faço
porque sei na pele
como é ruim
dormir sem teto

só um louco
desejaria isso
e fico pensando
se não sou louco
e no fundo desejei
a merda que estou





Walter Biancardine


RONDA


fazia a ronda agora à noite
é o meu emprego
vento forte e gelado e subi na construção
a mais alta que restou aqui
onde nada mais tem forma
nem sentido

então não preciso também  dar forma
só sentido naquilo que escrevo
porque é muito
mais que vejo em volta
nesse deserto gelado e escuro
que ando passeando e mentindo
fingindo que é ronda

tem estrelas no céu e nada dizem
tem luzes distantes de casas
com gente encolhida e feliz
ou não e não me interessa
mas estão com a família

entre as paredes
e eu aqui e de propósito
no vento gelado e forte
empoleirado na construção mais alta
onde posso ver tudo mesmo no escuro
e me sinto poderoso porque
do alto é tudo mais perto
e se é perto eu posso ir

e quando volto sempre me bate
aquela sensação de chegar em casa
e sentir o cheiro do café
e ouvir minha mãe reclamar de alguma
coisa que não fiz e eu só
resmungar e ir pro quarto
quente e meu
e que eu reclamava
e agora não tenho

pra quê fazer sentido
ou dizer coisa com coisa
ter juízo é uma responsabilidade
que preferia dispensar na lixeira
da loucura

é a hora que fico farto
mando tudo à merda
e paro de escrever
meu trabalho

amanhã é outro dia




Walter Biancardine




DAR UMA VOLTA


Tem horas em que não é pra escrever.
Sem vontade, sem assunto, sem saco.

Tivesse eu um carro e o pegaria pra dar uma volta.
Iria ao centro de Cabo Frio ver os pinguins no canal, encostaria no Tia Maluca e tomaria uma bela e gelada cerveja – nesse frio faz bem.

Talvez, após a cerveja, fosse ao barbeiro cortar o cabelo.
Já passei do limite do ridículo.
Depois certamente iria ao podrão, perto da rodoviária, e pediria um X-Monstro. Seria uma boa.

Pra terminar a noite, seria só vagar por aí, perambular a pé.
Olhar as lojas, as pessoas, a praia e o mar.
Dando sorte, encontraria algum conhecido e, novamente, beberíamos umas cervejas. O assunto renderia piadas, indiscrições, fofocas e alguma coisa pra escrever.

Depois, iria na padaria comprar pão, queijo e presunto.
Poria no carro, o cheirinho me daria fome e iria de volta pra casa arrancando nacos daquele pão quentinho, esfarelando o chão do carro.
Rádio ligado, música boa.

Um passeio.
Uma pequena voltinha. Arejar.
Às vezes é tudo o que precisamos pra manter a sanidade mental e não pularmos da ponte.
E não é preciso ser rico pra fazer isso.

É só ser normal.

E ter uma vida digna.




Walter Biancardine



MARGEM DE ERRO

 
eu era a margem de erro
lembrado no inesperado
só visto no imprevisto
quebra galho

não havia mais ninguém
então era eu mesmo
pra arredondar

depois do incêndio
guardavam o extintor
tiravam aquele horror
da sala

um dia fui pro lixo
confesso até reclamei
mas depois eu notei
pararam de usar

mais honesto ignorar
que sorrir pra agradar

parabéns





Walter Biancardine




ALVURA


olhar o papel em branco me traz paz
o que já escrevi é só sujeira
amontoado de tormentos e queixas
papel higiênico da alma

olho o papel em branco
é como olhar um lençol limpo
estendido na cama pela amada
tudo pureza e amor

ainda que se manche tudo
que se molhe e lambuze o lençol
numa noite de amor

sempre será mais limpo e puro
que o papel imundo e escrito
com o que não mais cabia

em mim





Walter Biancardine



FOME


fome dá frio
fome dá dor de estômago
fome dá dor de cabeça
fome dá gosto ruim na boca
fome dá pressa
fome dá irritação
fome dá vontade de fumar
fome dá vontade de chorar
fome não deixa dormir
nem pensar

quem diz que passou fome
e não sabe disso
é só um mentiroso




Walter Biancardine





NEM PERGUNTO

 
O que seria de minha educação sem a hipocrisia?
Não foram poucas as vezes que, sentado sozinho no bar, sábado de manhã, chegou um inconveniente alegre demais.
Dana a perguntar coisas.
Como vou. O que tenho feito.
Que fim levou aquele carro que eu tinha.
Se estou trabalhando.
E aquela mulher.

O normal seria mandar tomar no cu.
Não é amizade. Nem gentileza.
É interrogatório pra fazer fofoca depois.
Eu sei e ele sabe que eu sei.
Então dou respostas mais vazias que a carteira dele.
E que a minha, claro.

O que seria de mim sem essa hipocrisia?
Esse mesmo sujeito, pé no saco, já me pagou bebida.
Me deu carona num dia ruim.
Até cedeu lugar na fila do banco.
Mas eu nunca quis saber nada dele.
Pouco me importa se ele levou chifre. Ou tem diarréia.
Ou se o chefe dele é um saco.
Nada disso me interessa.
Não pergunto.

Por isso me acham distante. 
Frio. 
Arrogante.
Parece que o certo é estar inteirado até de quantas vezes o sujeito vai ao banheiro por dia, e se lava as mãos ou não ao sair.

Pois que me deixem com minha frieza e arrogância.

Se eu souber dessas coisas de banheiro, nunca mais cumprimento. 




Walter Biancardine




NA PAZ DE DEUS

 
me sentei à beira do lago
buscando o clichê da paz
mas lembrei dos peixes
girinos e bichos estranhos
que se comem e se matam
sem parar

mas na superfície 
é tudo
paz

lembrei das fachadas de casas
que vi olhando de fora
gente brigando e apanhando
disputando e gritando
e se matando
dia e noite

mas olhando da rua
é tudo
paz

e viva a santidade
da natureza
e do lar




Walter Biancardine




BREAKING NEWS


jornalistas imitam cachorros
que de repente se alertam
latem e rosnam e correm
como fosse uma urgência
pra uma coisa que ninguém
viu ou vê ou verá

jornalistas fazem manchetes
anunciando o apocalipse
gritam e choram e clamam
como fosse novidade
uma coisa que se faz
desde os tempos das cavernas

jornais vivem do susto
jornais vivem do medo
jornais vivem de você
sofrendo e querendo
se esconder

o cachorro latiu
corra primeiro
pergunte depois




Walter Biancardine



TESTE VOCACIONAL

 
dia estranho
acordei e nada escrevi
vou tomar um café
e já volto

voltei
e o dia continua
diferente e bom
sem dor nem temor

tenho medo
sem ter sofrimento
quais os tormentos
porei no papel?

um poeta
que não sangra 
nem chora
talvez seja a hora

mudar de profissão




Walter Biancardine



GRATILUZ


sempre sorriem
vida parece perfeita
mas só eles sabem
o inferno que é

não me engano
essa vida de Instagram
encharca o tapete
nos banheiros que choram

o sono leve
da consciência pesada
voa à menor brisa
na cama dos culpados

a mentira não dorme
nem deixa dormir




Walter Biancardine



EM PEDRA, BRONZE E CARNE


um homem 
se sentou numa pedra
e pensou
o tempo passou
até hoje pensa

é o pensador

outro
se sentou num banco
versejou
o tempo passou
até hoje o lemos

é o poeta

já eu
caí no meio-fio
vomitei
a cerveja acabou
cheguei em casa

é uma vergonha





Walter Biancardine





quarta-feira, 15 de julho de 2026

LUZ AMARELA


as poucas luzes
das poucas casas
na roça

são mais urgentes
que a cegueira
urbana

uma só e amarela
aponta o caminho
dá a direção
reconforta

há gente ali
uma família
um socorro

e quando falta
mesmo olhos
acostumados
se afligem

parece que 
a pouca vida
se foi

noite sem lua
sem luz nas casas
agonia e medo
solidão
sem rumo




Walter Biancardine