Não é difícil romantizar e tentar ser poeta falando de aviação, dos voos e dos céus.
Eles trazem já, em si, toda a poesia embutida.
Não resisti a tentação e andei cometendo um texto no qual lembrava de meu primeiro solo a bordo de uma tosca aeronave de treinamento, um pau velho que envergonharia Santos Dumont.
Mas não me saí mal.
Afinal eu falava dos céus e da grandeza que nos acomete quando voamos, junto com a repentina vocação poética.
Eles trazem já, em si, toda a poesia embutida.
Não resisti a tentação e andei cometendo um texto no qual lembrava de meu primeiro solo a bordo de uma tosca aeronave de treinamento, um pau velho que envergonharia Santos Dumont.
Mas não me saí mal.
Afinal eu falava dos céus e da grandeza que nos acomete quando voamos, junto com a repentina vocação poética.
Difícil é ser poeta ao volante de um Fenemê.
Ou de uma Terezona, o Mercedão.
Aí o bicho pega.
Todo o sublime se recolhe ao para-choque traseiro, em frases curtas.
Não há divino na poeira.
No calor de rachar, no motor que queima sua perna direita ou no frio congelante das madrugadas – e aquela muriçoca não tem calefação.
Mas é preciso procurar poesia.
Talvez ela esteja nas longas retas de uma estrada deserta.
Quilômetros e quilômetros sem cruzar com uma alma viva sequer.
Ou nas noites em que sempre vemos uma mulher de branco à beira da estrada.
Ou subindo a serra de madrugada, com o cano de descarga incandescente por conta do motor berrando – bem no seu joelho.
Não, pobre demais.
Quem sabe a poesia se esconda no posto de gasolina, onde almoçamos e encontramos colegas que só veremos novamente daqui há uns seis meses.
Mas o assunto volta sempre e exatamente de onde paramos.
Talvez esteja no horizonte – sim, é lá que a longa reta termina – e haja finalmente uma resposta ou recompensa para tudo.
Mas nunca há.
O que existe é o frete de volta, com sorte.
Ou voltar vazio, batendo carroceria.
Quem sabe seja a voz do rádio, o único amigo que nos acompanha.
Se o rádio pegar alguma estação, naquele fim de mundo.
Ou se esconda no ronco do motor, ladainha interminável como uma novena de seis ou oito enormes cilindros, orando por uma viagem segura, enquanto nos deixamos sair de nós mesmos e sermos levados pelas mãos do rugido mecânico.
Também não.
Na frente, o asfalto cinza.
Aos lados, o barro do acostamento – quando há.
Uma salvadora barraca de caldo de cana e pastel.
E a gentileza do caboco que nos serve.
Depois, é estrada e poeira.
Poeira, poeira e poeira.
Muita poeira.
Só poeira.
Talvez esta seja a poesia.
Walter Biancardine





















