A decisão veio numa quarta-feira, depois do café.
Não por filosofia, nem por evolução espiritual. Foi cansaço mesmo.
Alfredo percebeu que passava os dias opinando. Sobre política, futebol, preço do arroz, chuva, juventude, velhice, televisão, remédio, imposto, cachorro do vizinho e gente que usava palavras em inglês sem necessidade. Sobretudo isso.
Tinha opinião até sobre quem não devia ter opinião.
Naquela manhã, olhando o café esfriar, pensou uma coisa estranha: "e se eu passasse um dia inteiro sem achar nada sobre coisa nenhuma?"
Pareceu simples. Quase infantil.
Às oito e quinze a esposa apareceu na cozinha.
- Vai chover.
Alfredo abriu a boca. Ia dizer que o tempo andava diferente, que antigamente maio era mais frio, que o desmatamento, que os políticos, que a humanidade...
Parou. Tomou café.
A esposa olhou.
- Tá passando mal?
Ele balançou a cabeça. Primeira vitória.
Às nove e vinte quase perdeu o controle ao ouvir um comentarista no rádio dizer que idosos precisavam se reinventar. Sentiu a resposta subir inteira pelo peito:
"Reinventar uma ova. Homem de sessenta anos quer o INSS e preço baixo no mercado..."
Engoliu. Desligou o rádio.
Percebeu então uma coisa desconfortável: o silêncio fazia barulho.
Passou a manhã evitando pensamentos como quem evita cigarro depois do infarto.
No banco, uma senhora reclamou da demora. Ele concordaria normalmente. Não concordou.
No mercado, ouviu dois jovens discutindo investimentos. Não corrigiu.
O vizinho apareceu dizendo:
- Esse país acabou.
Alfredo respondeu:
- Talvez.
O vizinho ficou olhando alguns segundos. Depois perguntou:
- Você dormiu bem?
Ao meio-dia surgiu um problema inesperado. Sem opiniões, Alfredo começou a notar coisas.
A rachadura perto da janela. O modo como a esposa colocava duas colheres de açúcar no café escondido dele. O fato de que havia anos ninguém perguntava o que ele queria fazer.
Nem ele mesmo.
Descobriu outra coisa pior: durante décadas confundira personalidade com reação. Achava que era firme. Talvez fosse só alguém acostumado a responder.
Às quatro da tarde sentiu medo. Medo verdadeiro.
Porque começou a suspeitar que, retirando opiniões, indignações e explicações, sobrava um homem sentado numa cadeira de plástico olhando o quintal. E ele não sabia quase nada sobre aquele homem.
À noite, a esposa perguntou:
- Você está estranho hoje.
Alfredo pensou bastante antes de responder. Talvez pela primeira vez em muitos anos.
Então disse:
- Acho que passei tempo demais falando do mundo... e esqueci de descobrir se gosto dele.
Ela franziu a testa.
- Que bobagem…
E voltou para a novela.
Alfredo ficou sentado ouvindo o som da televisão vindo da sala.
Sem conclusão.
Sem revelação.
Sem mudança profunda.
Mas com uma sensação nova e desagradável: talvez a velhice começasse no dia em que um homem percebe que passou décadas construindo opiniões e quase nenhum silêncio.
Walter Biancardine







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