Sempre há algo de melancólico em qualquer local abandonado.
Seja uma casa, um parque de diversões ou mesmo um teatro, sempre haverá tristeza pingando do suor da construção.
Coisa engraçada: o campo, por mais esquecido que seja, nunca dá ares de abandono.
Não passa ninguém, ninguém o conhece ou lá deixa suas pegadas, fogueiras ou troncos cortados. E mesmo assim sempre parece novo, arrumado, em ordem. Muitos diriam que o deserto é o campo abandonado, a melancolia do verde, mas nem de longe é.
O deserto é templo. Personagem bíblico.
Homens entram no deserto e voltam ouvindo vozes.
Digo isso por conta da chuva de hoje, que me obrigou a trabalhos de reparação onde vivo.
Transito entre um empreendimento abandonado – e melancólico – e os pastos sempre novos, promissores.
Andei por um, andei por outro, e senti o cheiro pesado de um passado nas alvenarias, bem como a vida brotando dos marrecos na lagoa.
E senti, também, uma calma antiga a divagar sobre dias chuvosos, xícaras de café, conversas lentas, lembranças de mil anos e a mulher amada ao meu lado.
Eu não mais sou abandono.
Só agora enxerguei o que me cerca.
Walter Biancardine



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