Cedo ou tarde, quem escreve se dá conta que sua vida é bipolar.
Em um dos polos gasta dias, semanas e até mesmo alguns meses enfurnado em casa, feito um obcecado, desenterrando memórias ou ocupando paredes inteiras da vida com intermináveis equações, tentando explicar de maneira cinematográfica tudo o que se quer dizer.
Escreve o que lembra, o que viu, o que viveu, o que concluiu e – principalmente – páginas e páginas de uma enorme mentira que costura tudo isso, a qual batiza com o nome de “criação”.
O outro polo é a vida real – e, cá pra nós, quanto pior ou mais absurda for, melhor pra ele caso tenha talento.
Sim, é preciso talento para colorir manhãs de estômago vazio em uma conversa que conte, não chore. Há que se ter algum dom para fazer alguém entender o que é pensar no amanhã e concluir que o mesmo não existe – sem esperanças, planos, nada. É, de fato, missão quase impossível provocar a empatia de outros falando de misérias íntimas, de rejeição, de discriminação, incompreensão ou simplesmente repúdio.
Não ter dinheiro pro almoço, não ter com quem conversar, contar quantos cigarros ainda restam no maço pra ver se duram até amanhã – ele se sai melhor ou pior na medida de seu talento ou da compreensão de quem o lê.
Existe, porém, um atalho que não costuma falhar e, por isso, tantos poetas e escritores acabam tomando: falar de amor. É a vaselina da empatia: facilita a entrada, cria a ressonância e gememos juntos; a dor de corno é universal. Funciona e, por isso, sempre é usada.
Seja um amor que se foi ou outro que nos ignora, essa agonia é soberana. E por isso domina o cancioneiro popular, os versos nas páginas de literatura ou mesmo as figurinhas vendidas em lojas – os mais velhos se lembrarão dos infalíveis bonequinhos “Amar é…”
Também escrevo sobre o amor. Mas não como tábua de salvação do náufrago e, sim, como válvula de escape – dor faz pressão; ou escrevo ou explodo, simples assim. Mas este tema não domina minhas linhas. Navego melhor por botequins, acostamentos de estrada, ônibus lotados, calçadas sujas, empregos calcinantes.
E enquanto amores infinitos explodem nos poemas alheios, a hipocrisia e a imundície que escondemos vazam de cada linha que escrevo.
Não tenho a menor vergonha disso.
Apenas um vício de jornalista: relato o que vejo.
Talvez por isso eu não seja benquisto.
Não seja lido.
Não seja citado.
Ninguém fala de calçadas sujas na hora do almoço.
Ninguém cita o cheiro de esgoto em um papo no bar.
Não porque não exista.
Mas porque conhecê-lo já seria uma confissão.
Walter Biancardine