quinta-feira, 14 de maio de 2026

ELA -

 


Por quê dependo dela?
alguém que nunca vi
nunca toquei, cheirei
ou abracei?

as horas doem

por quê essa dor, essa falta?
se dela só tive a voz e pensamentos
que hoje são os tormentos
que não me deixam dormir?

lembranças doem

pois ela se foi
levou sua voz, seu sorriso
cada um deles um presente
embalado em papel do céu

planos rasgados doem

ela se foi, com tudo o que me dava
quase agradeço não tê-la tocado
não tê-la visto
mordido ou cheirado
ou teria me tirado muito mais

as noites doem

levou seu amor, sua atenção
e arrancou minha carne, minha alma
sem vontade de viver
incapaz de dormir
comer
entender

pensamentos doem

sou um dependente
um homem pela metade
com a melhor parte
levada por ela

a alma dói

me sobrou o pior
o sujo, o que a espantou

o coração dói

não há chances para mim



Walter Biancardine




A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE IRRITA -


Quer entender física quântica
condena remédios como fosse médico
palpita sobre detergente, sobre gente
faz vídeos como herdeiro de Olavo
ou justifica quarenta tipos de sexo

especialista em carro elétrico
sabe segredos de Brasília
tem a chave do sucesso financeiro
emocional, sexual, eventual
sabe de tudo e mais um pouco

acha que faculdade é arena
conscientizar primeiro, estudar depois
ou compara caminhada de políticos
com Jesus entrando em Jerusalém
como cabe tanto em uma só cabeça?

Se diz progressista anti-fascista
ou conservador contra a dor
seja lá o que for
é tudo igual, anormal
vivem pros outros, de favor

enquanto esquartejam inimigos
pelas redes sociais
sua casa desmorona

enquanto exibem seu sucesso
em fotos glamurosas
choram de noite, no banheiro

sabem tudo, não enxergam nada
tudo embalagem, eterna roupagem
não importa o conteúdo e sim, a imagem

tanto tempo não se enxergam
não olham quem está ao lado
que não conhecem ninguém
nem mesmo a si, olhando as redes
dopado, travado, parado

a vida passou
ele morreu
mas nunca soube
que um dia viveu

deixou um pet órfão


Walter Biancardine




FICA -

 


tem mulher
que entra na sua vida
como quem entra num bar vazio
numa terça-feira chuvosa

olha em volta
vê as cadeiras tortas
o chão grudando no sapato
o velho ventilador fazendo mais barulho que vento

e mesmo assim

apesar de tudo
fica

ela é dessas

ela chegou
com jeito de quem pede desculpas
até quando sorri
como se felicidade fosse crime
e amar fosse atravessar uma avenida
com os olhos vendados

eu percebi rápido

ela foge

não de mim.
isso seria simples demais

ela foge quando a coisa começa a ficar bonita
quando o beijo demora meio segundo a mais
quando a conversa entra madrugada adentro
quando percebe que alguém finalmente te olha
sem vontade de te usar
sem vontade de vencer discussão
sem vontade de posar de homem moderno

ela foge
porque sabe

que amor de verdade
não tem filtro bonito

amor de verdade
é feio às vezes

é gente cansada dividindo silêncio
é cigarro na janela
é remédio em cima da pia
é um olhando pro outro
com a cara destruída pela vida
e ainda assim pensando:
“fica”

e eu quero que ela fique

não porque eu seja herói
não sou

já fui derrubado pela vida tantas vezes
que hoje caminho torto até dentro de casa

tenho mais cicatrizes que esperança
mais fracasso que fotografia sorrindo

mas quando ela fala comigo
esse mundo miserável
essa fábrica de gente vazia
esse açougue moderno de relações descartáveis
fica silencioso por alguns minutos

e isso, mulher…
isso vale mais que salvação

eu não quero prometer praia
vida de Instagram
frases motivacionais
nem eternidade

eternidade é conversa de padre bêbado
e poeta querendo comer alguém

o que eu posso prometer
é presença

vou estar ali

sempre
quando o medo mandar ela ir embora

vou estar ali

sempre
quando ela inventar briga por coisa idiota
só pra testar se eu desisto

vou estar ali

sempre
quando ela disser
“é melhor parar por aqui”

porque no fundo
eu vou ouvir o que ela realmente quis dizer:

“por favor
não me ignore, não me use igual os outros”

e eu não vou

talvez um dia ela acorde
olhe pra mim
pra minha cara cansada
pras minhas mãos velhas
pro meu jeito bruto

e perceba uma coisa terrível:

ninguém nunca a quis tão inteira

nem tão viva

nem tão humana

e talvez ela chore

não de tristeza

mas porque passou tempo demais
tentando sobreviver
quando tudo o que precisava fazer
era deixar alguém a amar



Walter Biancardine




VAZIO FAZ ECO -

 



tem dia que é foda

não sei se é ressaca

ou minha cabeça, que tá mal


mas tudo encrenca

você pede, você tenta

e no fim

fecham a porta na sua cara


ninguém te ouve

ninguém te vê

feito fumaça de cigarro

eles atravessam

torcendo o nariz


eu ligo

deixam tocar até morrer

peço e “hoje não tenho”

ofereço e não querem

ou ignoram


o sol lá fora é o mesmo

os carros passam iguais

o mundo segue sua marcha

e ninguém sabe de você

saber pra quê?


o pior é a ironia

vez em quando ouvir perguntas

por onde andei, que eu sumi

mandar à merda vem à boca

mas sorrio


mas o que era sina virou gosto

falar sozinho é rotina

beber sozinho também

virei meu melhor amigo


hoje vou almoçar comigo

o cara é gente boa

vocês precisam conhecer

cara legal


só paguem a conta pra ele

inventou de escrever

de pensar, olhar

isso não é coisa de pobre


quem escreve é rico

não precisa trabalhar

pobre não lê, só escreve

quando manda currículo


e muito menos pensa

só por isso sobrevive


Hemingway deu um jeito

Janis Joplin também

tudo gente que gritou

o tempo passou

e tudo igual: ninguém


mas eu ainda tô aqui

um péssimo hábito

sobrevivi


Janis e Hemingway, não



Walter Biancardine





quarta-feira, 13 de maio de 2026

MACHO ÔMEGA -

quem é o juiz

entre um homem e uma mulher?

é a fraqueza

ela aponta o perdedor


o perdedor é sempre o homem

arrogante predador

que cerca, faz graça, fala bobagem

e no fim pede, implora


quem pede, perde

quem concede, ganha

esse é o jogo do amor


já começamos perdendo

achando que ganhamos

quando não passa de concessão


nos concederam o direito

de pedir em namoro

de pedir ir pra cama

de pedir pra casar


nos concederam o direito

de calar a boca

pra não piorar

se esconder no banheiro e chorar


nos concederam o direito

de encher a cara no bar

escrever besteiras

chorar com músicas

testa, cotovelo e bunda

causa mortis do homem


e o arrogante que a cercava

que era o melhor

o mais esperto

mais sabido

mais bonito

cata migalhas no chão

vigia foto no WhatsApp


testa, cotovelo e bunda

chifres, dor e pé

basta um só deles

pra liquidar o pavão


pois toda a felicidade do homem

depende de um simples

sim ou não



Walter Biancardine





OS CÃES SEMPRE PRECISAM DE UM BÊBADO -

 


condenado pelo passado
o que é engraçado
porque o passado geralmente é só
uma pilha de contas velhas
mulheres cansadas
e gente da família
apontando o dedo
com bafo de intriga requentada

criticado no presente
porque o presente é um açougue
e todo mundo quer vender
um pedaço da sua carne
como lição de moral

desacreditado no futuro
isso foi meu favorito
o futuro
essa puta manca
que nunca apareceu aqui em casa

meu nome?
não importa

serve apenas nos almoços de domingo
como exemplo do que não fazer:
“não beba”
“não escreva”
“não abandone empregos”
“não fique sozinho”
“não pense demais”

e eles dizem tudo isso
com os olhos mortos
de quem acorda há 30 anos
pro mesmo despertador

é engraçado ouvir isso
de gente que odeia a própria vida
com a disciplina de um relógio suíço

não existe conversa sobre mim
sem uma pequena execução pública

se eu errei, apontam
se eu acertei, silenciam
o silêncio é a vaia educada da família

isso vindo de pessoas
que tremem
quando o wi-fi cai
por cinco minutos

dizem que minha vida é fácil
claro
não bato cartão
não sorrio pra gerente
não vendo a alma por vale-refeição
e uma confraternização de natal
com frango seco e música ruim

então acham que estou de férias
não veem as noites sem dormir
não veem os remédios
a bebedeira
não veem o cansaço grudado no osso
não veem a vontade diária
de mandar o mundo inteiro
enfiar a própria opinião
no fundo do cu

mas precisam de mim

toda família precisa
de um fracasso oficial
tudo bem

as pessoas precisam sim

precisam de alguém
pra apontar na mesa
entre a farofa e a sobremesa

“olha ali”
“terminou daquele jeito”

os cães sempre precisam
de um bêbado na rua
pra latirem juntos

um sujeito meio torto
para os outros parecerem retos

sou o espantalho emocional deles

sem mim,
teriam de olhar
pra própria mediocridade

e isso, meu velho,
assusta muito mais
do que um bêbado sincero

então não perca seu tempo comigo

não sou amigo
mentor
exemplo
nem inimigo digno de filme barato

sou apenas um homem cansado
tentando atravessar a própria fumaça
sem pedir licença
a ninguém


Walter Biancardine 



domingo, 10 de maio de 2026

MENOS LONGE -

E quando menos se espera
um coração volta a bater

quando menos se espera
o sorriso pode voltar

quando menos se espera
a distância diminui

quando menos se espera
o ceticismo diz "amém"

quando menos se espera
resolvemos esperar


Walter Biancardine 


sábado, 9 de maio de 2026

FALANDO SOZINHO SOBRE VAN GOGH -

Eis a desgraça, Walter:
às vezes a arte acerta

não melhora a conta bancária
não devolve os mortos
não salva casamento
não cura o vazio que fica zumbindo às três da manhã
feito geladeira velha em quitinete barata

mas acerta

por alguns segundos miseráveis
alguém lê uma linha
e percebe que não enlouqueceu sozinho

isso já é muito
mais do que quase todo o resto que vendem por aí
com sorriso branco e frase motivacional

continuo escrevendo

há homens demais fingindo felicidade
e escritores honestos de menos


Walter Biancardine



VAN GOGH 4/4 -



A caneca sem orelha continua ali
parada
imutável
olhando pra nós
com a cara de quem já entendeu tudo
e perdeu a vontade de explicar

você sabe o que é pior?

ela venceu

o pintor apodreceu
os amigos morreram
os bares fecharam
as cartas viraram poeira
os amores envelheceram

mas a maldita caneca continua ali,
firme,
vendida em promoção de Dia dos Namorados

isso devia ofender Deus

há qualquer coisa profundamente obscena
em transformar sofrimento humano
em objeto “fofo”

o homem arrancou um pedaço da própria carne
porque a cabeça dele era um quarto pegando fogo por dentro
e hoje alguém bebe “mocha” de avelã
na cara deformada da tragédia
enquanto escuta jazz instrumental

o inferno realmente existe
ele só ganhou decoração escandinava

e nós também somos assim

olhe pra nós

homens velhos demais pra acreditar em esperança
e covardes demais pra desistir

sobrevivemos à força do hábito
igual barata atrás da geladeira

acordamos
pagamos conta
respondemos mensagens com “kkkk”
fazemos café
olhamos o teto
e lentamente vamos apodrecendo
com uma educação admirável

a vida moderna é isso:
um velório com Wi-Fi

ninguém mais enlouquece direito

antigamente o sujeito bebia absinto,
sumia por três dias
e aparecia nu numa estação de trem
recitando poesia para mendigos

hoje ele posta “dia difícil”
e recebe emoji de coração

a decadência perdeu a elegância

e a arte…
ah, a arte…

a arte é só o barulho que fazemos
pra não ouvir o rangido da própria alma

livros são pessoas sangrando devagar
quadros são gritos que aprenderam a ficar imóveis
poemas são bilhetes suicidas
que desistiram no meio

e mesmo assim
continuamos escrevendo

isso é o mais ridículo

o sujeito trabalha dez horas por dia
tem gastrite
dor na lombar
medo do futuro
uma solidão úmida grudada no peito
feito mofo de banheiro antigo…

e ainda acha necessário
abrir um caderno
pra organizar o desastre em parágrafos

como se palavras fossem impedir
o abismo de mastigar os ossos dele

mas talvez exista alguma dignidade nisso
mínima
suja
quase invisível

igual aquele homem varrendo o chão do bar
às três da manhã
mesmo sabendo
que amanhã haverá mais cinza
mais vômito
mais copos quebrados

ele varre assim mesmo

nós escrevemos assim mesmo

porque no fundo
ninguém acredita realmente na cura

queremos apenas
uma ferida
bonita o bastante
pra merecer ser observada

e a caneca continua ali
sem orelha
sem piedade
sem cura

igual nós


Walter Biancardine



VAN GOGH 3/4 -

 

 

A caneca sem orelha sorri na prateleira
como puta aposentada
que encontrou Jesus
e agora vende artesanato no Instagram

“edição limitada”
claro
até a loucura virou linha premium

o sujeito arrancou um pedaço da própria cabeça
e cem anos depois
algum publicitário de tênis branco
transformou aquilo
em brinde de cafeteria gourmet

isso é a civilização moderna:
pegar sofrimento verdadeiro
e colocar código de barras nele

há gente agora tomando cappuccino vegano
na cara de um homem
que morreu fedendo a tinta, febre e fracasso

poético
quase cristão

o problema da arte
é que ela nunca nasceu do bem-estar

ninguém escreve um grande romance
depois de oito horas de sono
hidratação adequada
e um casamento funcional

felicidade serve pra reprodução
pra comprar air fryer
pra escolher piso de porcelanato

a desgraça, não
a desgraça escreve sinfonias
com unha quebrada, na parede do quarto

o artista verdadeiro
não quer inspirar ninguém

ele quer sobreviver até terça-feira

o resto é palestra TED

e essa conversa romântica sobre sofrimento criativo
também é uma bela mentira
dor não transforma ninguém em gênio

dor transforma gente em caixa de farmácia 24 horas
em alcoólatra de bar iluminado por lâmpada triste
em homem olhando faca de cozinha tempo demais

de vez em quando
só de vez em quando
um desgraçado consegue transformar isso em arte

só isso

o resto morre anônimo
com gastrite emocional
e senha errada do banco

mas as pessoas adoram consumir tragédia
adoram

amam o artista morto
porque cadáver não pede pro aluguel
nem fala palavrão no jantar

o artista vivo incomoda
cheira a cigarro
faz perguntas erradas
bebe demais
fala da morte durante o café
e estraga aniversários

por isso o mundo prefere pendurar quadros dele
em parede branca de apartamento minimalista

a humanidade sempre gostou dos loucos
depois que eles param de gritar

e enquanto isso
algum rapaz de trinta anos
está sozinho num quarto mofado agora
tentando escrever alguma coisa honesta
enquanto escuta o vizinho fodendo
o cachorro latindo
e o banco ameaçando bloquear a conta

talvez ele produza uma obra-prima

talvez só desenvolva hipertensão

estatisticamente,
a hipertensão lidera disparado

e no fim é isso:
arte não salva ninguém

arte só deixa o naufrágio
com uma iluminação melhor


Walter Biancardine



VAN GOGH 2/4 -


A caneca sem orelha estava sobre a mesa
feito um santo mutilado
vendido em loja de presentes cult
por cento e vinte reais
em doze vezes sem juros

a tragédia sempre encontra um jeito
de virar decoração de cozinha

alguma moça tira foto dela agora
posta com filtro sépia
escreve:
“café, arte e gratidão”

e um pintor morto
revira no túmulo
como frango na máquina de padaria

a verdade é simples:
ninguém quer a dor
o que as pessoas querem
é a legenda da dor
depois que ela já passou

querem parecer profundos
sem nunca dormir bêbados no chão do banheiro
abraçados à própria vergonha

o sujeito perde a orelha
e vira estampa de ecobag

você perde a sanidade
e ganha um afastamento pelo INSS

essa é a diferença

todo mundo ama a ideia do artista miserável
até o artista pedir dinheiro emprestado
ou esquecer de tomar banho por três dias

aí o gênio vira “energia pesada”

as pessoas dizem:
“o sofrimento produz arte”

não
o sofrimento produz alcoolismo
divórcio
remédio tarja preta
cinzeiro cheio
e gente falando sozinha no mercado

arte acontece às vezes
como vazamento em prédio velho

a maior parte dos escritores
não está criando obras-primas agora

está olhando pra parede
coçando uma tristeza antiga
e fingindo que o boleto não venceu

mas existe uma coisa engraçada nisso tudo

o homem feliz demais
não escreve nada que preste

o sujeito espiritualmente resolvido
produz frase motivacional de calendário
e vídeo ensinando a “manifestar abundância”

já o outro – 
o quebrado
o humilhado
o abandonado às traças do próprio quarto –
esse pelo menos escreve frases
que fazem alguém largar o celular por cinco segundos
e pensar:
“merda…”

a arte nunca nasceu da paz
paz produz condomínio
produz cadeira gamer
produz reunião no Zoom

a arte nasce quando alguma coisa apodrece dentro do sujeito
e ele percebe
que não consegue mais esconder o cheiro

então escreve
ou pinta.
ou toca violão num bar imundo
pra quatro bêbados e uma garçonete deprimida

porque criar
é só uma forma elegante
de sangrar em público
sem assustar tanto os vizinhos


Walter Biancardine




VAN GOGH - 1/4



A caneca me encarava
com aquele olho de quem pagou aluguel atrasado,
enterrou amigos
e bebeu café frio às seis da manhã
porque o mundo não dá intervalo
nem para os santos
nem para os bêbados

Van Gogh perdeu a orelha
hoje perderia o financiamento do carro
a conta do streaming
e metade dos seguidores

a evolução é magnífica

O sujeito pinta girassóis
porque o silêncio na cabeça dele
late mais alto que cachorro na rua

ninguém cria por equilíbrio
equilíbrio serve para escritório
foto de casal sorrindo no réveillon
e coach vendendo curso
com pulseirinha de couro no pulso

arte nasce da rachadura
do copo lascado
do homem que fuma na janela
olhando a chuva cair no estacionamento vazio
como se Deus tivesse abandonado o turno da noite

todo grande livro
tem cheiro de derrota antiga

todo poema honesto
foi escrito por alguém
que já quis sumir
mas resolveu antes abrir outra garrafa
e procurar um verbo

é por isso que desconfio
dessas pessoas excessivamente felizes
ninguém escreve “Crime e Castigo”
depois de uma aula de mindfulness
e um suco detox

a dor não melhora ninguém
isso é mentira de padre cansado
e terapeuta de Instagram

a dor só faz uma coisa:
arranca a tinta da parede
e mostra o mofo

alguns enlouquecem
outros viram funcionários do mês
uns poucos
pegam o mofo
e escrevem nele

Van Gogh cortou a orelha
Bukowski bebeu até apodrecer
e o resto de nós
fica aqui
tomando café em canecas quebradas
tentando transformar abandono
em parágrafo

às vezes funciona

na maioria das vezes
só sobra o café, frio mesmo


Walter Biancardine



TRAJE ESPORTE FINO -

 


Já me preocupei com o que vestir, que impressão iria causar.
Escutava que a roupa é o cartão de visitas de uma pessoa, sua aparência define como vão te tratar.
De um modo geral estão certos. 
Concordo com essa regra, desde que pros outros. 
Não pra mim.

Não frequento altas rodas de negócios nem reuniões de trabalho – meus bicos se resumem a cortar árvores, carregar troncos, rastelar gramados, receber pessoas no restaurante de seu Dail e minha profissão é escrever, algo que é solitário por natureza.
 
Tirando a ocupação no restaurante, nenhum dos outros trabalhos me exige boa apresentação. E ter nascido escritor também me fez perceber que o que falo define muito mais quem eu sou do que aquilo que visto. 
Uma lástima, já que as pessoas sempre veem mas nunca escutam.

Desde jovem eu já andava desleixado – a menos que houvessem mulheres perto. Aí eu tentava dar um jeito, mas nunca consegui enganar meu espelho. 
Logo desisti.

O jeito esmulambado que ando serve pra mim – nada espero, não há quem seduzir nem tenho emprego – mas não pros outros. 
Digo isso porque nossas ruas já são feias o suficiente.

Sempre fui assim. 
Parece que estou piorando, com a idade.

E por falar em idade, muito menos tento seduzir alguém. 
Se eu fizer uma cara sexy para uma mulher, ela vai ligar pro SAMU pensando que estou tendo um AVC.

Sim, a piada é velha.

Como eu.


Walter Biancardine