domingo, 12 de julho de 2026

ZÉ MANÉ


Não conheço uma só alma que, ao falar sobre o passado, não diga que teve todas as experiências mais absurdas, provou de tudo, era vida louca e comeu todo mundo. Depois desse discurso, sempre se espreguiçam, sorriem e comentam, com ar de satisfeitos:
- Hoje tô sossegado, quero curtir minha casa e minha família…

Devo ser um fracassado.
Até no passado. Retrospecto medíocre.

Lembro quantas vezes deixei de ir à praia pra ler romances ou filosofia. É claro que quem estaria na praia tinha um peso decisivo nessa escolha, mas foi só nas primeiras vezes.
Eu nunca pegava ninguém, então logo aprendi: praia, só com onda.

Ganhei alguns “pegas” (rachas, pros de São Paulo) descendo o Alto da Boa Vista, mas meu Chevette logo desanimava as Marias-Gasolinas da platéia. Preferiam sair com o segundo lugar, afinal um Opala era bem melhor.

Fui um bom boxeador, me achava o máximo. Um dia, quis conquistar uma bonitinha que fazia natação no mesmo clube que eu. Seu namorado chegou e rachou meu maxilar.
A única coisa que posso dizer em minha defesa é que foi uma surpresa absoluta, sequer o vi.
Minto, eu o vi depois indo embora, comigo já no chão.

O grupo Barão Vermelho nem existia e Cazuza era um ilustre desconhecido. Um dia fui ver um ensaio da banda de um amigo, no auditório de um colégio, e quase fui atropelado por ele. Pediu desculpas, me deu uns ingressos pra um showzinho que fariam daí a alguns dias e passei a vê-lo de vez em quando no Baixo Leblon.
Melhor dizendo: muito de vez em quando. Eu não tinha dinheiro pra bancar aquelas contas e nenhuma de suas amigas, atrizes da Globo, sequer notava minha presença.

Pra completar, passava o dia escrevendo ou desenhando. Apenas estudando ou já trabalhando, sempre ia em Ipanema deixar minhas esperanças na portaria do jornal Pasquim.
Nem resposta jamais mereci.
E o mesmo se dava com Jornal do Brasil, O Dia e até O Fluminense, que mandei por carta.

Estranho.
Conheço dezenas de ex-reis da noite, ex-garanhões, ex-rebeldes, ex-foras-da-lei e até ex-telionatários – perdoem o trocadilho.
Mas nunca conheci um ex-Zé Mané.

Deve ser porque um deles resolveu assumir antes de todos.

Sim, eu fui um Zé Mané.



Walter Biancardine



RETO E SECO


Corcovado sem Cristo
Capela Sistina sem afrescos 
Paris sem Torre Eiffel

ouvir um rádio de notícias
sem música ou programas
ou mesmo vinhetas

em casa é tudo reto
móveis sem entalhe
paredes sem quadros

a tevê é como o rádio
só notícias e mais nada
sequer danças ou balé

na cidade não há cinemas
nem teatros nem galerias
nem museus nem grafites
nem estátuas nas praças

por que um piano
sem música?
por que estantes
sem livros?
por que tevê
sem programas?

por que viver
sem arte?




Walter Biancardine





sábado, 11 de julho de 2026

PORQUE HOJE É SÁBADO

 
Hoje é sábado.
Agora é noite.
E agora, sábado? O que tens pra mim?

Meio difícil.
Ou até a velha frase do saco cheio: “complicado, isso aí…”

Queria estar com minha Nana.
Um bar do bairro Passagem, aqui em Cabo Frio.
Casas antigas, construções históricas, um pólo gastronômico – e por que não dizer – etílico também?

Eu a levaria e ouviríamos meu amigo tocar e cantar uma bossa nova no barzinho; o barquinho vai, a cerveja vem. E depois de um dia de luz, festa do sol, a noite que acalma.
Ela me abraça.

Escutai, mortais: é um direito inalienável do homem poder sonhar. Desejar a mulher amada. Imaginar uma noite perfeita.
Escapar dessa vida estreita.

Pois hoje é sábado.
E agora é noite.
Tenho a cidade, tenho o bar, tenho minha Nana.

Só não tenho meios.

É a hora em que o filme acaba e entra o plantão do Jornal Nacional.

Hoje é sábado.

Mas outros virão.



Walter Biancardine






ME DÁ OUTRA CERVEJA


não temos data de validade
impressa em nós
nem um marcador de gasolina
pra acusar reserva

por isso todo mundo acha
e o pior é que vive
pensando que vai durar
até uns 120 anos

se começamos a calcular
nossa expectativa de vida
logo nos chamam de 
mórbidos

mas é melhor crer que vou morrer
aos 60 e passar direto
do que imaginar chegar aos 100
e não alcançar a metade

pra mim tanto faz
durar 200 anos 
encarquilhado
não faz sentido

melhor só os 50
mas em plena forma
mas se estou em forma
morri de quê?

só se foi acidente
e acidentes doem
e toda dor
é uma merda

então dá no mesmo

melhor voltar
à minha cerveja




Walter Biancardine





SEGUNDA LINHA

 


olho o papel em branco
e sempre acho que vou 
escrever alguma coisa
profunda e tocante
imortal

eu era jovem e percebia
só depois de tudo escrito
que estava uma merda

cresci e comecei a notar
a ruindade na metade
do caminho

agora velho já percebo
na segunda linha
que nada tinha
a dizer



Walter Biancardine



HIPÓCRITAS


qualquer um que tenha
um dom artístico

e pouco importa ser
pintar ou atuar ou
esculpir ou escrever

se acha dono da verdade
e se envaidece disso

acredita de coração
que sua obra será
“ponto de inflexão”
da arte que pratica
e da vida no planeta

mas quando vão à tevê
e se fazem de modestos
e humildes
eu os vejo e tomo um gole

tão modestos
tão humildes
que juram não haver
ninguém
mais modestos
e humildes
que eles

eu escrevo
quero ser lido
me acho muito bom

só não sou

hipócrita





Walter Biancardine










ONDE AS CALÇADAS ACABAM


No caminho físico eu suei.
Andei muito. Vi lixo nas sarjetas, gente dormindo nas marquises. Trancas e cadeados em todas as portas. Grades, muitas grades.
Tudo separando a rua imunda da santidade que dizem ser um lar.
Também andei em estradas. Acostamentos. Retas sem fim que mais pareciam vigarice, prometendo alguma coisa que nunca pude ver nem saber o que é.
Só esperança.

Era o caminho da vida, essas estradas.
Tem um fim. Claro que tem. Mas ninguém sabe onde nem quando. Ou enlouqueceríamos. Mas tem um fim e isso basta ao desatino.
Ultimamente nem olho o asfalto.
Só acostamentos.
E o que vejo são histórias que jogaram pela janela dos carros.
Talvez minha sina seja catar esses lixos e reciclar em forma de poemas ou contos ou – apenas – amargura.

E há também o caminho espiritual, mas esse não conheço.
Deus não atende minhas ligações nem responde meu Zap.
Chamo de longe, aceno.
E Ele finge que nem viu.

Por isso acostamentos de estrada me bastam.
São largos o suficiente pra quem anda só.

Melhor que as calçadas arrogantes da cidade.




Walter Biancardine




APORIA


verdade primeira
busquei todas as formas
os porquês pediam
respostas

há de haver
tem de ter
uma verdade
por trás de tudo

segui caminhos
me perdi em veredas
tentei atalhos
sedutores

o caminho é um só
na verdade 
não há caminhos




Walter Biancardine



DEVAGAR COM O ANDOR…

 


Melhor nem saber as coisas estranhas que cada um faz quando tá criando.
Seja um romance ou poema ou mesmo um óleo sobre tela.
Melhor não. Isso é íntimo como trepar. 
Manda a discrição que a gente nem olhe.

Mas preciso revelar uma pequena mania que adquiri recentemente, com relação a este mesmo processo criativo: quando termino de escrever algo, eu copio o arquivo e colo no ChatGPT pra que ele corrija as crases que nunca aprendi a colocar, mais outros pequenos escorregões gramaticais. E depois da correção, peço a ele que me faça uma imagem alusiva ao texto apresentado.

Mas o mais estranho aconteceu um dia quando, nem sei por quê, colei meu texto antes de ter pedido à plataforma que fizesse as correções gramaticais: do nada, a mesma se saiu com uma verdadeira crítica literária e derramou toneladas de elogios aos meus rabiscos.

Confesso que foi gostoso. Fez bem ao ego.

Se existe algo raro em minha vida são elogios – talvez por minha arrogância – e, por isso, fiquei tentado a repetir esse processo com outras poesias ou artigos meus, pra ver se o mesmo se dava. E sim, se repetiu. E me senti um verdadeiro Carlos Drummond de Andrade.

É incrível como elogios podem corromper. Talvez o GPT faça o mesmo com qualquer um. Mas, quando a vaidade está com fome, ela não pergunta de onde veio o banquete.
 
Por algumas horas passei a sentar-me diante do computador com uma confiança desconhecida por mim mesmo, me sentindo um escritor premiado compondo mais uma obra-prima – e isso, bem sei, pode ser mortal.

Em toda minha vida apenas duas pessoas elogiaram meu trabalho: um conhecido – e já falecido – intelectual de minha cidade e o editor de uma editora independente. E acreditei neles, pois nada tinham a ganhar com isso.

Mas agora vem essa, do ChatGPT serpentear árvore abaixo e me oferecer a maçã do conhecimento e da vaidade.

Me lembrei do imperador romano Júlio César, que mantinha a seu lado um servo que sempre repetia, quando ele desfilava em triunfo pelas ruas de Roma:
- Lembre-se que você é baixinho, careca e barrigudo…

Minha autocrítica sempre fez isso. Mas confesso ter pensado em demití-la recentemente.

Devagar com o andor que o santo é de barro, dizia vovó.




Walter Biancardine




BEZERROS DE OURO

 


vi gente postando fotos
da mesa de Hilda Hilst
ou da bengala 
de Virgínia Woolf

quem sabe acreditem
que talento e dom
passam como um vírus
impregnado nessas coisas

ou seja isso um método
à moda Stanislavski
vestir um personagem
ganhar um dom de brinde

eu mesmo sou apontado
bebedeiras de Bukowski
pessimismo de Schopenhauer
uma máquina Hermès 
como Hemingway

sem contudo herdar
o talento de nenhum deles

talvez me falte o pincenê 
de Machado de Assis

ou um vodu de Shakespeare





Walter Biancardine








BANHEIROS E RASCUNHOS

 
no banheiro sozinhos
fazemos coisas que nunca
jamais e de jeito algum
faríamos diante dos outros

homens gastam tempo
medindo o pinto
com fita métrica

mulheres levantam os peitos
e empinam a bunda
só pra ver como seria

o mesmo se daria
ler as folhas da lixeira
dos grandes escritores

e percebermos absurdos
platitudes ou besteiras
feitas por gente premiada

não sei qual maior vergonha
me pegarem no banheiro me medindo
ou lerem tudo aquilo que

ainda bem

joguei no lixo




Walter Biancardine 




sexta-feira, 10 de julho de 2026

GRATILUZ O MEU OVO


agradeça ao filho da puta
que te sacaneou feio
graças a ele
você descobriu a bondade
em quem te ajudou

um mundo sem guerras
sem crimes ou ódio
sem violência
nivelaria a todos
na vala comum
do insosso

o virtuoso é dependente
da maldade alheia
ou jamais será
revelado



Walter Biancardine



SALDO

 


não é coragem, é ser temerário
não é temeridade, é ausência de medo
não é não ter medo, mas
não ter mais porra nenhuma
a perder



Walter Biancardine



CEMITÉRIO DE FRASES

 


platitudes
isso é tudo o que vejo
na literatura e poesia

mais parece
que nunca houve
uma civilização na terra

deve existir
uma papelaria com xerox
copiando tantas frases

o banal é descoberta
o fútil é sabedoria
e costuram tudo isso

no ChatGPT




Walter Biancardine






HOMENS TRABALHANDO

 
olhar uma tela
ou papel em branco

dá medo

é bom ter
tudo na cabeça
antes de escrever
ou pintar

criar enquanto faz
é acaso

feito dono de terras 
olhando a vastidão 
e decidindo

farei minha casa

se fizerem bem feito
irão embora
e suas obras

ficarão



Walter Biancardine


TBT

 

Creio passar por um claro momento de retorno.
As redes sociais têm me enojado ao ponto de engulhos, e nelas só permaneço pela divulgação de meu trabalho.
A tal ponto cheguei que comprei uma máquina de escrever.
Não é boçalidade, mas uma conclusão lógica.

Se escrevo no computador, tenho a compulsão de olhar as redes (“só uma espiadinha”) a cada meia hora, e isso empata meu trabalho e atrofia a criação – a dispersão não fecunda.
Por outro lado, batendo à máquina estou isolado do mundo virtual.
O computador está fora de alcance e a tentação não me atinge.

Olho as teclas.
Eu e a máquina, olhos nos olhos.
Intimidade.
Nada me distrai, a cabeça trabalha.
Aspiro o cheiro de óleo Singer.
Boto o papel no carro da máquina.
E meu ato de escrever pode ser ouvido do lado de fora da casa.

Datilografar não é digitar.
Digitar pode ser descuidado e aleatório, pois sempre existe o “backspace” e somente um “salvar” definirá se nossos erros e acertos serão exibidos.
Datilografar exige disciplina.
Cada palavra precisa ser pensada, antes que estrague a lauda inteira e você tenha de bater tudo de novo – e gastar mais papel.

Há um silêncio. Não de barulhos, mas de ruídos visuais; informação desnecessária e dispersiva seduzindo você nas telas. Só atrapalha.
E isso devolve à composição escrita sua verdadeira dimensão: imersiva, reflexiva, profunda – e se escrevemos bobagens, sempre serão lastreadas por tudo isso. Não há como subverter regras sem conhecê-las à exaustão.
E por isso volto a escrever tal qual fiz metade da vida: à máquina.

Não se trata de abominar computadores.
Continuarei precisando deles para enviar o que escrevo para as editoras e até para postagens de divulgação, nas redes.

Mas não mais os usarei no ato de criar.

Toda concepção nasce de algo íntimo.
Não de algoritmos.





Walter Biancardine





LATTES


cerveja quente
café frio
sopa aguada
pipoca sem sal
primeira fatia
do pão de forma

seis décadas
resumidas em
seis linhas



Walter Biancardine


ATÉ QUANDO?


até quando vale a pena
acordar de madrugada
tomar café ruim
água fria pra lavar a cara
sair no escuro
medo no ponto de ônibus?

até quando vale a pena
levar mais tempo
de casa ao trabalho
que numa viagem de férias?

até quando vale a pena
chegar no trabalho e ver
os mesmos sorrisos falsos
as mesmas facadas nas costas
gente serrando o pé
da sua cadeira
e te dando bom dia?

até quando vale a pena
trabalhar até mais tarde
não ganhar hora extra
ouvir esporros à toa
ordens burras
e tudo isso
pra não ser demitido?

até quando vale a pena
descer pra tomar um café
se dar conta que uma pizza
é mais cara que seu dia
de trabalho
e voltar ao escritório
e ver a cara de bunda
do chefe?

até quando vale a pena
se orgulhar disso
e chamar escravidão
de “responsabilidade”
varrendo pro canto
sua vida e
sua alma?

até quando vale a pena
fingir que nada nos obriga
a vender a alma ao capeta
pra sobreviver
e sermos aceitos?

até quando vale a pena
essa pena?



Walter Biancardine




DESCOMPASSO


no Substack os jovens
maravilham-se consigo mesmos

se deslumbram entre
“como consegui fazer isso?”
ou o velho
“como consegui sentir isso?”

feito colegiais excitadas
comentando os melhores
momentos do filme
que acabaram de assistir

não condeno nem acho errado
não faço piada e aprecio
todo entusiasmo é bom
descobrir é uma conquista

apenas que sou um velho
muitos quilômetros nas costas
e me sinto só
já cansado da vida
junto a outros
descobrindo viver

eu queria companhia
mas são jovens



Walter Biancardine





FAZ-SE FRETE


Eu tinha uma Kombi furgão.
Eram cinco horas da manhã e eu já entrava na Dutra.
Noite fechada. Inverno.
Frio.

Levava 800 kg de papel de impressão para computadores.
Naquele tempo as folhas eram enormes, perfuradas nas laterais.
Eram pesadas também.
E o destino era São Paulo, Marginal Pinheiros.

Chuva e vento.
Ao menos o peso da carga mantinha o furgão na trajetória.
Ainda escuro. As faixas no asfalto serviam de guia.
Mas também hipnotizavam.
Asfalto molhado chupa o farol e você fica cego.

Ouvidos atentos ao motor.
De vez em quando, uma leve pisada no freio – só por via das dúvidas.
Rádio ligado baixinho.
E o apresentador, do nada, gritava: “acoooordaaa!”
O povo todo do trecho o respeitava por isso.

Velocímetro cravado em 80 Km/h.
A viagem ia demorar.
Na época não havia radares. Era instinto de sobrevivência mesmo.

Descia a Serra das Araras mais devagar que a subia. Segunda marcha engrenada servindo de freio motor. Gambiarra pura, mas ajudava.
E as faixas do asfalto continuavam passando.

Com elas passavam também as placas.
São Paulo 320 Km
Depois 280
Mais à frente 200
Dia já claro, mas a chuva não cedia.

Hora do café.
Escolhia um posto de gasolina com bastante caminhões encostados.
Prudência elementar.
E pedia meu café – copo grande – com um pão na chapa.
Depois banheiro, lavar o rosto, acendia um cigarro ao sair.

Costas já doendo. Bunda também.
Então chego na empresa. Quase meio-dia, hora de almoço.
Entregar a nota e esperar descarga.

Duas da tarde, tudo resolvido.
“Frete pago destino”, saía com dinheiro no bolso.
Agora, mais 400 Km de volta ao Rio.
Sem chuva, carro vazio, arriscava entre 90 e 100 Km/h.
Numa Kombi é aventura.

Seis da tarde descendo pela avenida Francisco Bicalho, no Mangue.
Tudo parado, engarrafado.
Hora do rush.

Subia o viaduto Paulo de Frontin, túnel Rebouças, Humaitá, Botafogo, túnel Velho e pronto: rua Santa Clara. Minha casa.
O dinheiro dava pra reabastecer, completar o óleo e sobrava pra cerveja – era já sexta-feira e eu era jovem, irresponsável e despreocupado.
Davam nove da noite, o Caneco 70 me esperava.

O tempo passou como as faixas do asfalto. 
A Kombi se foi, bem como minha juventude. Acho que as faixas me hipnotizaram.
Não notei a distância que andei.
Não reparei o tempo passar.
Nunca soube ganhar dinheiro.

Mas me diverti.



Walter Biancardine 




MANUSCRITOS

 
primeiro foi uma Remington
daquelas com o carro grande
eu batia conhecimentos de carga
e depois o manifesto de carga
que os discriminava

teclas pesadas e barulhentas
mesmo com caminhões acelerando
no galpão eu a ouvia
socar o papel e tocar seu sino

cheiro de óleo
dela e dos brutos lá fora

fim do expediente
dedos exaustos
ia pra casa

no meu quarto era uma Olivetti
portátil com maleta
resma de papel A4 ao lado
café e cigarros
batia o que via nas viagens
de minha cabeça

madrugada adentro
teclas barulhentas
sinos avisando o fim
da linha
e o mesmo cheiro
de óleo

caminhoneiros botavam 
os conhecimentos e os
manifestos nas bolsas
partiam pra ganhar a vida
nas estradas

eu botava minhas páginas
na minha pasta fichário
tentando uma chance
jornais ou revistas
sempre porta na cara

esses papéis devem
existir até hoje
em algum lugar

tem cheiro e toque
poeira e histórias
manchas que testemunham

impossível deletar



Walter Biancardine



TENTO, LOGO EXISTO


cantar e não ser ouvido
pintar e não ser visto
escrever e não ser lido

variações do mesmo tema

viver e não ser notado



Walter Biancardine




quinta-feira, 9 de julho de 2026

NADA PRA LER


Tive de me desfazer – desfazer não, largar pra trás – todos os meus livros. Sobraram os PDF’s, formato que não suporto.
Então criei um perfil no Substack.

Teoricamente é uma plataforma voltada pra escritores, leitores, aspirantes a escritor ou poetas.
Lá eu poderia ler o que essa garotada – e até alguns velhos – escreve e, quem sabe, descobrir gente interessante e talentosa pra ler.

Francamente, me arrependi.
A quase totalidade de tudo o que li não passa de um misto entre redações da sexta série com cartas de amor pras namoradas e ghost-writer gratuito de ChatGPT. Uma decepção.

Descobri sim, uns dois caras muito talentosos mas que cederam ao sucesso fácil, o riso.
E aí a coisa fica forçada. Imagino que até a lista de compras deles deve ter uma piada ou trocadilho.

O mais triste disso tudo é que só agora fui entender o sr. Nélson – o escritor que jamais leu um livro.


Walter Biancardine


NA BEIRADA

 


existem pensamentos perigosos
todo mundo sabe disso
o instinto avisa

mas às vezes o cansaço
a revolta e desesperança
insinuam um atalho

um vil atalho

todos um dia explodem
por questões acumuladas
destruindo tudo à volta

o problema é a repetição
tantas vezes explodi
que nada mais há

para destruir

só a mim mesmo
mas não quero
dor à toa não quero

apenas farto de ser
um vegetal
não posso querer
nem planejar
nem sonhar
nem fazer
ou tentar

como houvesse uma mãe
castigando e mandando
“vá pro quarto e fique lá
quietinho”

estou quietinho
nesse quarto 
desde sempre

por conta disso tudo
já explodi mil vezes
e também estou farto

farto de frustrações
farto de explodir
e também desse grilo falante
em minha cabeça
avisando

“pensamentos perigosos”

não acordei bem hoje
amanhã passa

ainda bem que sou
covarde



Walter Biancardine