As profissões juntas, no mesmo balaio.
Não é o cronista mundano e boa praça, o romancista que sai nos jornais ou os viciosos onanistas dos "dark romances".
Eu falo do insone que chama seus demônios pra resolver as diferenças na porrada, em cada capítulo de seus exorcismos impressos.
Esse é o escritor. E assim é, também, o bluesman.
Os dois com machucados pelo corpo. Dores nas costas, alergias, sangramentos, cascas de feridas. Mãos calejadas e músculos exaustos.
Há fome em comum, angústia, dor na alma, vícios terríveis e medo.
Ônibus lotado, o dinheiro acabou e ainda é dia 15.
A mulher parece não enxergar o que passo, a vida que levo.
Um resmungo indagando se isso é patrão ou feitor.
Onde entrego o currículo?
As vagas já fecharam?
Mosquitos, poeira, sujeira.
Suor, tensão e vontade de chegar em casa.
Que casa?
Pobreza, miséria e a lucidez cruel, que não aponta um bom final - apenas recomenda se embebedar.
De novo.
Mas a bebedeira só te deixa mais realista, lúcido.
E escrevo uma história ou testamento?
Esse bebum toca música ou está ganindo de dor?
Linhas ou gemidos?
Acordes ou agonias?
Em cada linha, cada acorde, há um lamento a suplicar por redenção.
Sempre.
E que a ressaca e o eterno pé na bunda inspirem.
São o ser humano em estado cru.
A fome desespera.
Traz riffs,
versos,
linhas,
parágrafos inteiros de bicho brigando pra sobreviver.
Boca seca.
Gosto ruim.
Dor no estômago.
Que a solidão e o frio da noite uivem nas cordas da guitarra e nas linhas de minhas histórias de desejo, amor, de sexo feroz com quem sequer o enxerga.
O tesão sem recíproca é o acorde dissonante.
Tão ardido quanto a frase terminada em reticências.
É o coito interrompido do fracasso, o colo que recusou o choro.
Mas escrevo.
Sinceridade constrangedora, oração laica imprecando um Deus pagão que alivie a carga.
O bluesman tem uma melodia sussurrando coisas que nenhum parágrafo consegue dizer.
E ambos se unem em desgraça.
Choram por misérias verdadeiras que todos sentem, mas ninguém admite.
Ambos banidos. Ambos fora do páreo.
Muito bons de se ler ou ouvir na vitrola, mas péssimos de se ter por perto.
Só que não existem mais bares ou filosofia de botequim.
Mas os escritores, os bluesman, esses sempre estarão lá.
Pois que as angústias, dores e paixões humanas sempre existirão, sempre doerão.
Enquanto houver um único e maldito ser humano sobre a terra.
E um bar.
Walter Biancardine








