quarta-feira, 22 de julho de 2026

CUSTA DEZ CRUZADOS


sexta-feira e eu chegava do trabalho
banho rápido e jantar reforçado
pra não embebedar fácil demais

depois eram perfumes e roupas
e vaidades e mentiras pra mim
mesmo

pegava a chave do carro e o cigarro
nada mais

enquanto o carro à álcool aquecia
ligava o rádio e o locutor falava
demais até

quando eu saía nas ruas finalmente
entrava Paula Toller e seu
Disco Voador

ela tinha a minha idade
eu podia namorar ela

isso era o mais precioso
de meus vinte e poucos
momentos




Walter Biancardine



ME ADMIRO-ME A MIM MESMO

Notei que não tenho mais caminhado nos pastos.
Gostava das estradas de terra, dos pássaros voando em torno, dos bois, vacas e cavalos. Mas tenho me trancado em casa.

Tempos atrás apontaria fácil pra minha depressão.
Mas não é exatamente o que sinto agora – eu sei quando ela bate forte.

Deixo de sair porque prefiro escrever.
Gosto de ler o que faço, de apreciar minha própria expressão, as formas que encontro de narrar, tudo isso.
E isso é de uma vaidade extrema.
Não sou essa lindeza que me acho.

Preciso voltar ao sol, à poeira, viver a vida novamente.
Sei que quinta-feira terei de andar meus vinte quilômetros pra comprar coisas, e isso me irrita.
Preferia escrever.
Mas não posso continuar assim.

Ou em breve estarei em frente ao espelho, me masturbando pra mim mesmo.




Walter Biancardine


NUNCA GOSTEI DE PORCOS


Voei um tempo pra um empresário do agro, que tinha fazendas no Paraná e Mato Grosso.
Ele fazia planos de construir um hotel em uma ilha no Pantanal e eu servia de chofer, voando seu velho Cherokee perna-dura.

Eram fazendas produtivas, principalmente as da região do Alto Taquari e Alto Araguaia. De tanto voar pra lá e ficar hospedado nos alojamentos, acabei arranjando alguns amigos entre os peões e capatazes.

Um dia, Patrão – era assim que eu chamava o feitor, o gerente de lida local – me chamou pra uma comitiva. Seriam uns sete ou oito sujeitos cavalgando por dois dias naquelas matas, só por diversão. Aceitei, pois havia um belo cavalo que eu gostava e eu o montaria.

Patrão me ofereceu uma escolha: uma escopeta calibre 12 Mossberg ou uma Rossi tipo Winchester, daquelas com alavanca de recarga que chamam “lever-action”.
Nunca fui muito bem atirando com balotes, mas o que me fez decidir pela Rossi foi o fato dela calçar munição .357 Magnum – aquilo fura o bloco do motor de um carro, e em boa hora o escolhi.

Já havíamos cavalgado um bocado. Na verdade, eu não sabia se ainda estávamos nas terras de meu chefe ou se teríamos avançado até as matas de Goiás. Muito chão.
Paramos sem desmontar, em uma espécie de clareira pra beber água e aquilo foi pura sorte: sem aviso, um bando de porcos-selvagens – tem gente que chama aquilo de “javaporco” – irrompeu do mato em disparada, furiosos e guinchando, em nossa direção.

Disse que foi sorte estarmos parados porque nossas mãos estavam livres, ao invés de rédeas de cavalos assustados segurávamos apenas os cantis.
Larguei o meu e puxei a espingarda do embornal, tentando manter o sangue frio e só atirar quando o bicho parecesse já estar prestes a me engolir, de tão perto.

Escolhi um, gordo e raivoso, e sentei o dedo.
Na cabeça, entre os olhos.
Caiu duro.
Meu cavalo pulou e deu trabalho segurar.

Maus companheiros atiravam também e, por uns cinco segundos, aquilo virou uma fuzilaria. Os porcos, entretanto, eram ajuizados e bateram em retirada.

E lá estavam três monstros estendidos no chão, além de outro agonizante ao lado, que abati com o revólver.

Nunca fico em pânico na hora do perigo, o problema vem depois.
Mantive minha fama de pistoleiro do velho oeste até retornarmos à fazenda, arrastando o mais gordinho daqueles bichos pra fazer uma churrascada.

Sequer o provei.
Passei um bom tempo disfarçando o tremor nas mãos segurando copos de garapa ou cerveja, enquanto eles riam e cantavam como se nada de anormal houvesse acontecido.

Cachaça salvadora.
A melhor parte de desmaiarmos bêbados é que não precisamos responder perguntas nem mentir por causa disso.

Só acordei no dia seguinte, com uma ressaca desgraçada e meu chefe me dizendo pra aprontar o avião, pois era hora de voltarmos a Maringá.

O povo de lá passou a me respeitar, e me cumprimentavam.

Essa foi a melhor parte.

Nunca gostei de porco, mesmo.





Walter Biancardine




HERMÈS SE VIRA


Os antigos sabem que a maioria das máquinas de escrever não tem o número 1 nem o ponto de exclamação.
Como muita gente, elas aprenderam a se virar usando outra coisa no lugar do que lhes faltava.

Se quero dizer “em 10 minutos”, uso a letra L no lugar do número 1.
Se escrevo “corra!”, digito o ponto final, volto um espaço e, por cima dele, bato o apóstrofo.
A exclamação sai estranha, meio remendada – mas sai e ninguém nunca se importou com isso.

Ninguém me dá emprego.
Meu amigo Dail me arrumou um pequeno bico aos domingos, que paga as despesas da semana.

Não tenho casa.
Meu amigo Alair me deixou ocupar novamente uma das cabanas em suas terras.

Não tenho carro.
Mas tenho saúde, fôlego e disposição pra caminhar os vinte quilômetros de ida e volta até o bairro mais próximo, onde faço compras.

E tenho também alguns cachorros, cavalos, bois e vacas pra me fazer companhia quando a solidão aparece pra um café.

Aprendi a usar a letra L.
Aprendi a usar ponto e apóstrofo.
Aprendi a me virar.

Minha Hermès não nasceu completa.

Eu também não.




Walter Biancardine



terça-feira, 21 de julho de 2026

NEURODIVERGENTE FASHION

 


A internet adora rótulos.
Pior: transforma tudo em moda, tal qual fizeram com raças de cachorro ou receitas culinárias.
Agora fazem isso com doenças.

E a moda é dizer-se “neurodivergente” – sendo ou não.

As redes sociais transformam confusão em pertencimento. 
Antigamente o sujeito era “esquisito”, “avoado”, “tímido”, “hiperativo” ou simplesmente “complicado”. 
Hoje aparece um vídeo de 30 segundos e esse sujeito conclui que tem três transtornos e uma coleção de siglas.

Há um exagero real. 
Nem toda distração é TDAH. 
Nem toda introversão é autismo. 
Nem toda dificuldade social é “neurodivergência”.
E essa frescura rebaixa e vulgariza uma condição clínica que merece a devida atenção – e não ser mera “moda do verão 2026/2027”.
 
Às vezes a pessoa só dorme mal, vive no celular, não lê um livro desde a escola e tem a capacidade de atenção carbonizada por notificações das redes sociais.

Mas ser neurodivergente tá na moda.
Disputando focinho a focinho com asperger.

Tivessem um boleto pra pagar, um uísque pra beber e alguém pra trepar, não perderiam tempo com essa merda.



Walter Biancardine




VENTOS DE AGOSTO


agosto chega de viagem
traz na mala o frio
dias cinzas e os ventos
os ventos de agosto

esse mês é uma viúva
que nos visita trazendo
uma renca de filhos
insuportáveis

a viuvez traz tristezas
e traineiras no porto
e as crianças são
os ventos

que não param
não cansam e passam
desarrumando tudo o que
levamos o ano arrumando

crianças arteiras
que levantam saias
de mulheres distraídas
e roubam chapéus

ao menos em setembro
podemos arrumar toda
a bagunça que agosto
deixou sem se importar

as flores ajudam
o sol nos anima
e nos faz lembrar
que tudo sempre

sempre volta

até agosto
ano que vem




Walter Biancardine





BRIGUEM, MISERÁVEIS


escrevo
como quem precisa vomitar
na cara de quem olha
o fracasso e ri

ninguém precisa de tudo
pobreza é a condição
natural do ser humano
ele nasce sem nada

mas cresce e segue a vida
e a vida o segue
e persegue
e ele fica sem nada

não quero ser rico
nem dono de coisa alguma
mas os donos não entendem
eu podia comprar deles

mas não posso
porque sou miserável
então pra qual filho da puta
eles fabricam suas coisas?

a doença tem nome
se chama sistema
é feito pra te manter
indigente

trabalhe a troco
de vale-comida
vale-transporte
vale-qualquer-merda

e sorria porque
tá bom demais
você é um
privilegiado

eu vejo isso no bar
indigentes orgulhosos
porque pagam cerveja
eu bebo e bebo

e vomito
escrevendo

o problema não é ser pobre
é ser miserável
e achar que um sujeito
eleito resolve

se ele é candidato
não importa de onde
então já vendeu
sua alma ao sistema

e o povo vai pras redes
e se xinga e brigam
por candidatos e times
de futebol

não fosse a burrice
subiríamos de vida
e seríamos pobres
com orgulho

briguem, idiotas
briguem

o champagne
e as apostas
são deles

eu só bebo
e escrevo
enquanto vocês se matam 
por quem já vendeu a alma




Walter Biancardine


segunda-feira, 20 de julho de 2026

SEGUNDA-FEIRA

segunda-feira
maldita segunda

dia tão ruim
que de primeira
não foi



Walter Biancardine

DIA DO AMIGO

dia do amigo

um bom dia
pra mandar todos
à puta que os pariu

são amigos
vão entender

e rir



Walter Biancardine

VENTO SUDOESTE NÃO VAI EMBORA


Fiz muita coisa na vida.
Até porque não sabia o que fazer, depois que meu pai faliu.
Uma coisa, entretanto, que sempre me persegue foi escrever.
E fui jornalista por décadas.
Analista político.

A vida passou.
A política me tirou quase tudo.
Acidente de moto em 2016.
O mundo foi embora e eu fiquei.
Vivendo numa cabana abandonada no meio do mato.
Vigia noturno. Oriento carros aos domingos, num restaurante.

Minha vida é a máquina de escrever, botequins com gente tão quebrada quanto eu, o mar, embarcações, rádio AM, ossos partidos, caminhões, madrugadas, estradas.
E o vento sudoeste, que entrou e não vai embora.

Mexi recentemente com um cartucho de calibre 12 e lembrei da primeira vez que desmontei um para usar as esferas numa espingarda de ar comprimido. 
A infância, às vezes, é só um ensaio do estrago.

Mar, caminhões, estrada, vento.
Madrugadas.
Botequins.
Bebida. Muita bebida.
Vento sudoeste.

Aí então, escrevo.

Datilografo histórias.
Porque guardo os papéis na gaveta.
Não posso fazer isso com gente.




Walter Biancardine





DOZE


um amigo me mostrava
sua escopeta calibre 
doze
o buraco do cano
não é
nem metade
do que ela abre
em você

com um cartucho
nas mãos
me lembrei criança
desmontei um
e usei as bolas
na minha espingarda
de ar comprimido
calibre certo

perdido na infância
lembrei de minha vida
hoje e velho

olhei a escopeta
resolvia tudo

mas Hemingway
era muito melhor

que eu



Walter Biancardine


TUBARÕES, MORÉIAS E FACAS


Havíamos zarpado, eu e um amigo, pra pescarmos nos costões da Ilha dos Papagaios, bem perto do litoral.
Ele tinha uma boa lancha Carbrasmar, ainda daquelas de madeira e motor de centro, que dava conta do recado e possuía conveniente plataforma na popa, pra podermos mergulhar e voltar por ali.

Não usávamos garrafas de oxigênio. Era fôlego puro.
Máscara, snorkel e pés de pato. Normalmente eu teria nas mãos o arpão e, na cintura, a faca de mergulho. Naquele dia, entretanto, resolvi atender o pedido de uma mocinha e desci somente com a faca, pra extrair mexilhões das pedras.
Seriam os ingredientes de uma prometida sopa.

A regra básica do mergulho é nunca descer sozinho e estar sempre à vista, um do outro. Mas eram costões de pedra e nem sempre podíamos nos enxergar. E eu, munido de minha faca – que tenho até hoje – tratava de arrancar aquelas afiadas conchas das pedras.
Era um costão irregular, muitas fendas, pontas e até pequenas cavernas e tocas que, imprudente, passava em frente segurando a bela e cromada lâmina. Erro grave.

Senti apenas o impacto e, creiam, ouvi o som dos dentes de uma enorme moréia baterem no aço da faca.

Rápido como um clarão de luz, o bicho saíra da toca. Ele havia sido atraído pelo brilho da arma e, por sorte, mirara nela e não em minha mão – ou eu não mais a teria hoje.

Lívido, subi à bordo e declarei encerrado – ao menos pra mim – o mergulho do dia. A sopa ficou pra depois.

Tempos depois estava embarcado em pequena traineira aberta que me havia sido emprestada pelo falecido Seu Vasco, um amigo pescador. 
Não me interessava pescar, entretanto.

Andava às voltas com uma grande curiosidade a respeito de três pontas de pedra que emergem do mar, bem juntas à uma cavidade no costão de pedra logo ao lado da boca da barra, na entrada do canal do Itajurú.

Havia um misto de histórias envolvendo o naufrágio do vapor Carolina – bem ali, naquelas pedras – e restos de saques de corsários franceses, afundados naquelas costas. E eu queria saber, é claro.

Mergulhei e ali não era tão fundo, mal chega aos dez metros em alguns pontos. Água clara, gelada como sempre, mas sem muito empuxo que me jogasse às pedras. Isso era bom, pois eu havia fundeado perto do costão e mergulhava bem rente.

E, remexendo no fundo da areia, tive a infeliz surpresa de ver o maior tubarão que já havia me deparado, em toda a vida.
O monstro, com bem uns quatro metros de comprimento, passou com aquele ar distraído e blasé que fazem, após terem farejado um incauto como eu.
Era uma questão de um minuto ou dois até que aquela boca se abrisse, seus olhos ficassem brancos e fosse o fim da linha pra mim – almoço de tubarão.

Naquele dia eu estava mergulhando com garrafas de ar mas, por sorte, a profundidade mal chegava aos dez metros – apenas uma atmosfera, sem necessidade de descompressão.
Jamais subi tão rápido do fundo do mar.

A impressão é que, se eu pudesse, teria aflorado na superfície e continuado voando até o convés da traineira, mas tive de juntar todo meu sangue frio – e que o bicho não sentisse o cheiro dele – pra nadar até a escada no costado, que me embarcaria em segurança.

A moréia e o tubarão vieram em minha vida numa questão de meses.

Foi o suficiente pra me manter em terra por mais de um ano.

Peixe, só o da peixaria.




Walter Biancardine





domingo, 19 de julho de 2026

ATRAIO TRALHAS


Existia um botequim que eu gostava. Ficava na esquina da rua 5 de Julho com Santa Clara, em Copacabana. Eu estudava na 5 de Julho, mas só ia ao botequim à noite.

Um sábado, depois de convidar todas as garotas que eu conhecia pra sair e elas, sem exceção, caírem na gargalhada, apareci por lá e comecei a tomar umas cervejas.
Não estava chateado com nenhuma mulher olhar pra mim. Isso era normal. Eu estava é entediado.
Jovem, ainda bem disposto e sem nada pra fazer justo em um sábado. É claro que o orçamento quase inexistente estreitava bastante as opções, então me restou o botequim.

Minha mesa já parecia o fundo de uma pista de boliche – várias garrafas derrubadas – quando o maluco apareceu.
Sim, e aqui abro um parêntese pra falar desse tipo. 

Por quê diabos, em um bar apinhado de gente e com pessoas com aspectos muito mais higiênicos e financeiramente saudáveis do que eu, os malucos sempre – invariavelmente – escolhem a mim para segredar seus delírios?

O caso é que o maluco chegou e, sem sequer um “boa noite”, começou a desfiar uma longa teoria sobre sei lá o quê. Ele falava, eu bebia. E sabia que ele ia pedir um gole, afinal me viu beber.

Ele pediu. De propósito acendi um cigarro.
Ele pediu também.

É nessas horas que, felizmente, existe a violência para sanar os problemas quase insolúveis. Não a violência física, mas a verbal.
Perguntei a ele:
- Se eu puser meu pau em cima da mesa o senhor vai querer também?

O maluco se revoltou.
Saiu resmungando e bracejando. Mas era maluco e resolveu reclamar e dizer desaforos contra o dono do estabelecimento.

Manoel era conhecido por ter “a gangue dos dobbermann” – alusão a um filme muito famoso na época, mas era devida aos seus dois negões de estimação, que cuidavam da paz local à troco de cerveja gratuita.

O maluco nunca mais voltou.

E as garotas continuaram me ignorando.




Walter Biancardine



QUANDO CHEGUEI TUDO ERA MATO


quando comecei a vir aqui
ainda não havia nada…
é o que todos dizem
sugerindo que são
visionários de faro
apurado e conseguiram
enxergar as maravilhas
antes de todos

agora é fácil
falta que digam

o que nunca dizem
é que começaram a
ir em tais lugares
porque foi o que
restou
o dinheiro deu
ou acaso

desbravadores
me dão sono




Walter Biancardine


sábado, 18 de julho de 2026

LITURGIA ETÍLICA ou O Ritual da Bebedeira


começa sempre com a primeira frase
imperativa e alegre: “campeão!” ou pode ser
também “meu chefe” ou “consagrado” ou até
“pinguim” para os já íntimos

pede-se então as “loiras”, as “cervas”
as “geladas” e sempre com a recomendação
que estejam como “canela de pedreiro”

ao chegar vem a última frase litúrgica
que é “vamos abrir os trabalhos”
e os copos vão sendo enchidos de acordo
com a ordem da demagogia ou intimidade
e apreço daquele que a serve

a primeira fase é de falatório e risadaria
tudo muito alto como que testando os
vizinhos de mesa

depois a coisa se acalma um pouco
conta-se casos ou explicam-se vexames
ou situações ou mal-entendidos
e até por vezes brotam oportunidades
e oferecimentos

depois vem a fase da revolta
onde todos ficam radicais e bradam
em resumo que “é do jeito que eu quero
ou foda-se tudo”
enquanto todos riem

após isso e já mais pesados
surgem alguns lamentos amorosos
segredos do casamento e até
alguns casos extra-conjugais
que ninguém sabia
pois o corno confessa
terem sido dela
e ele ficou
“mas foi pelas crianças”
sempre
e sempre

já chegando ao final as amizades
se exacerbam e todos desde sempre
são “seu amigo pra caraaalho” e te
“consideram pra caraaalho” e dão
a vida por você
e pela bebida que você pagou

e vem o penúltimo ato
triunfante como uma obra de Wagner
e a transcendência de Bach
trazendo Amado Batista à mesa
entoando “aqui nessa mesa de bar”
e todos cantando abraçados
enlevados por aquela
sublime amizade

e eis que chega o réquiem desta
ópera bufa dos botequins mais imundos
que se repete todos os dias
por todo o Brasil

a conta chega e como vamos dividir?

súbito quase todos tornam-se
sóbrios e tentam escapulir
alegam só terem tomado
dezoito cervejas mas sempre
e sempre tem um que
permanece chapado
e diz com autoridade
“essa é comigo”

e fecham-se as cortinas

e nos banheiros de cada casa
os vômitos se cumprimentam
telepaticamente

enquanto mulheres furiosas
veem TV e dizem que
“amanhã ele vai ver”





Walter Biancardine



PEIXES E PARAFUSOS


Afastado da costa, mal se vê terra.
Não precisa fundear, deixa à deriva.
Motor desligado, solta as linhas de isca e abre uma cerveja e senta na cadeira no convés de popa. 

Uma tainha morde e é boa. Gorda.
A fome bate, acendo o fogareiro de carvão e faço ela na brasa.
Limão, muito limão em cima.
Sal, é claro, nem precisa aqui na região.
E mais cerveja pra rebater a tainha.

Uma outra morde e é quase um incômodo, por estar sentado e comendo e bebendo, feito um poderoso que olha o mar. Mas recolho ainda assim e seu destino é o mesmo: frigideira.

Barriga cheia.
Cerveja e peixe.
Me sinto tão onipotete que lembro de levar alguns peixes para os pobres mortais que ficaram em terra.
As linhas permanecem na água.

Entra um vento sul repentino.
Mau sinal.
A água ficou cinza, hora de zarpar de volta.
Mas o motor não liga.
Tento e tento e tento. Nada.
Melhor parar antes que a bateria descarregue.

Vou buscar a caixa de ferramenta e me dou conta que a larguei em meu apartamento, no condomínio Casa Grande.
O negócio é improvisar.

Havia centelha. Bom sinal.
Abro o distribuidor. Giro o motor com a mão.
Platinado não abre. Colado. Matei a charada.
Mas não tinha chave de fenda.
A solução foi a peixeira, um facão de cinquenta centímetros.

Mas o mar já batia e sacudia tudo.

Fechei a porta do porão de proa, mas o motor teve de ficar aberto enquanto eu tentava desparafusar o pequeno platinado com uma faca de cortar pescoços de girafas.

E tudo sacudia. E borrifos de água começaram a entrar pelo costado.
Mar grosso.

Consegui tirar a peça. Agora é lixar, mas não tenho lixa.

Lembrei de minha caixa de fósforos.
Arranquei a parte em que se risca os palitos e improvisei.
Funcionou. O contato ficou limpo e passava corrente.
E o melhor: descolado.

Agora é parafusar de volta.
Com o facão enorme e o mar sacudindo tudo.

O que poderia ser feito em quinze minutos levou quase uma hora.
Uma hora de mar batendo, vento uivando, peças caindo e rolando pelo convés e água entrando e molhando coisas que não podiam ser molhadas.

Mas parafusei.
E tirei um litro de gasolina do tanque.
Enxarquei um pano com a gasolina e passei nas peças que a água do mar molhou.

Montei tudo, virei a chave e apertei o botão de partida.

E funcionou.

Agora era voltar, encarando aquele mar bravo de vento sul e deixando pra recolher panelas, restos de peixe, temperos e talheres pra quando atracasse de volta.

Tudo tem sua hora.

Inclusive a de aprender que quando você olha pro mar e não vê nenhum barco de pesca, não é à toa.

Fique em terra.




Walter Biancardine



VINCENT


perspectiva de um bêbado
e o chão torto não faz
sentido com a parede
de um vermelho que grita
ensurdece meus olhos em 
lágrimas

mortos e mortos e mortos
numa guerra sem fim de
todos os jornais e dias
outro vermelho berrando
e correndo do asfalto
pro meio fio e pro ralo
mas saiu no jornal
que absurdo e onde vamos
parar ou nunca vamos parar
é o problema

o dia amanhece e já odeio
sou como todo mundo que
odiar com manteiga e café
faz um dia feliz e fora
todo mundo e morra quem
não pensa ou não gosta
do que eu gosto e acho
que penso

palavras me ofendem mas
o buraco de bala cheio
de sangue e carne parece
dar tesão e querem mais
e mais e nem ligam
porque reclamar é moda
e me traz amigos
que me mostram que sou
normal igual aos que
dividem a cela com eles

descobri o segredo de ser
querido e admirado e pedido
por todos e é simples pois
é só eu ser qualquer coisa
estranha e reclamar e reclamar
que se foda tudo e todos
o importante é proteger
e ninar a coisa estranha
que eu e mais uns somos

é o segredo do sucesso
e nem precisei pagar a
entrada nem dei
a ficha como o holandês
que pagou com a orelha
e nem viveu pra ver
por isso sou esperto
e ficar de quatro é
sensual




Walter Biancardine


A RIMA COMO ELA É


e então conhecemos 
um poeta
ou uma poetisa 
e o choque vem

o imaginamos um sábio
transcendente em luz
idoso ou de uma beleza
incômoda pra nós
muito machos

o mesmo com a poetisa
seria uma ninfa alada
fada divina e suave
a perfumar nossa alma
de imagens e cheiros

mas ela é gorda e feia
tem papada e verrugas
óculos fundo de garrafa
mau hálito e maus modos
suavidade de um trem

e ele é um semi-gay
alcoólatra e mal banhado
com manias estranhas
roupas sujas e ar sombrio
pedindo café fiado

as maravilhas que escrevem
não combinam com o fedor
que exalam
nem com a aparência
de tudo menos

divinos



Walter Biancardine



sexta-feira, 17 de julho de 2026

NANA FELIZ


quis fazer um poema
escrito na máquina
pra agradar a ela

mas tive ideia melhor

e ela ficou feliz
e eu me senti
tão feliz por ver
alguém tão feliz

com o que fiz

pouco importa os
ossos doerem ou
os dedos sem força

ela está feliz

e isso é todo o ar
e a luz e a vida
e o motivo que basta

o céu por um triz




Walter Biancardine


BESTICE

 


Sou um pobre metido à besta. 
Aliás, mais que pobre: um quase-indigente. 
Mas a bestice fica.
Adesiva. Tatuagem.
Quase um sinal de nascença.

Pobre bebe cachaça. 
Praianinha. 
Daquelas que corroem a glote e fazem o bebedor cuspir fogo como dragão. 
Já eu, gosto de whisky. 
Ou melhor, Tennessee whiskey. 
Mais precisamente, Jack Daniel’s. 

Caso não tenha, cerveja serve. 
Mas que seja, ao menos, uma Stella Artois.

Ao comparar minhas condições financeiras com meus gostos a conclusão talvez me desabone, pois seria algo como uma loucura em fase terminal.

Ganhei um dinheiro extra, por esses dias. 
Também recentemente decidi parar de inundar as redes com meus surtos literários, ou nenhum material inédito terei para meus livros. Igualmente existe o fato de que nunca confiei em computadores – engolem arquivos contra nossa vontade – e por isso tomei uma decisão radical: comprei uma máquina de escrever. 

Sim, creiam.
Não é piada, saudosismo ou tentativa de lançar tendências, é pura precaução. 

Agora, além do HD externo, tenho o papel como arquivo de minhas misérias e não me distraio com o panis et circensis digital.
E quem nunca interrompeu o que escrevia no computador para “dar uma olhadinha nas redes” que atire a primeira pedra.

Como sou besta, escolhi uma Hermès Baby – a mesma máquina icônica que Ernest Hemingway usava pra escrever sobre sinos que dobram, velhos e mares.
Steinbeck, Sartre, William S. Burroughs e até o lisérgico Jack Kerouac também a utilizaram e a tornaram famosa, desejada.
E cara.

Sim, também é saudosismo, eu confesso.
Afinal, trabalhei anos com elas.

Existe, também, o benefício extra de uma fisioterapia gratuita em meu braço, punho, mão e dedos esquerdos. Não ando de moto há muito tempo e creio que, sem uma embreagem pra apertar, eles foram perdendo a força após meu acidente.
Quem sabe possa eu voltar até a tocar um violão?

Mas o que esperar de alguém como eu, que bebe Guaravita, fuma um cigarro de cinco reais mas gosta de uísque e agora batuca textos em uma Hermès? 

Que voltou pra Cabo Frio deixando todos os seus bens pessoais e até roupas pra trás, mas acha perfeitamente possível recomprar tudo de novo – menos as histórias, o valor emocional daquilo que perdi?

Que mora no fim de um buraco na roça do Estado do Rio de Janeiro mas ama – e quer ir buscar – preciosa donzela que habita as cercanias do pantanal de Mato Grosso, presenteá-la com rosas e tocar violão pra ela?

Que tá na reta final da vida e ainda acredita que terá uma coisa estranha e grandiosa, a qual poetas e sonhadores apelidaram de “futuro”?

É um quadro clínico preocupante.

Cá entre nós e de volta à realidade, o melhor que pode acontecer é eu me tornar famoso depois de morto.

Afinal, somos especialistas em louvar cadáveres.
Cedo ou tarde serei um.
E terei alguma relíquia a ser leiloada.

Menos a bestice.
Essa é pessoal e intransferível.




Walter Biancardine