Cenário 1: um sujeito abre uma portinha pra vender coisas.
Lugar humilde, prateleiras parafusadas nas paredes ou aquelas estantes de perfis de aço exibindo açúcar, marcas desconhecidas de café e incontáveis rótulos de salgadinhos do tipo "química-pura" (Cheetos e outros completamente estranhos).
No fundo, uma fatiadora elétrica dá conta dos 100 gramas de mortadela, pois presunto é pra rico. Uns 100 gramas de queijo às vezes acompanham, e isso é só nos fins de semana.
Em um enorme cesto de palha ao fundo, a estrela da casa: pães franceses.
Com uns 30 reais você compra pão, mortadela, queijo e forra a barriga.
Talvez ainda faça uma extravagância e leve uma garrafa de Dolly.
Nome do lugar: "Padaria El Shaday" - porque se fosse anos atrás seria "São Jorge".
Cenário 2: um "empreendedor" abre uma loja em rua nobre no Leblon, Rio de Janeiro, também pra vender coisas.
Muita madeira na decoração, emprestando um ar rústico e clima de fazenda onde prateleiras de pinho de terceira da obra - disfarçado com generoso verniz matizado - abrigam artigos de delicatessen como patês (não de foie-gras, pois foi proibido e eles são "salve o verde"), queijos os mais diversos e caros, azeitonas importadas, azeites do tipo "juro-que-sou-virgem" e até mesmo uma sortida cave, detentora de boas safras de vinhos de rótulos nobres. Poderoso ar-condicionado rebaixa a temperatura local ao clima de outono suiço.
No luxuoso balcão ao fundo, pães italianos, croissants e diversas variedades - até mesmo arremedos de baguetes de trufas negras - sempre infestadas de gergelim e apregoadas como "artesanais".
Mais ao fundo, humilde e um tanto envergonhado, os tradicionais pães franceses.
Sim, por via das dúvidas o pãozinho nosso conhecido está lá exposto à venda e - pasmem - é o mais vendido. Os outros, chiques, só quando "tem uma reuniãozinha lá em casa, leva um vinho!"
É justo cobrar os olhos da cara por uma baguete de trufas negras, até pelo custo exigido em sua feitura. Mas, e o pãozinho francês? Aquele que eu e você, pobres mortais, compramos? Quanto custa?
Pão francês custa um rim.
Margarina Qualy nem tem.
Manteiga Aviação - vá lá - custa um fígado.
O empresário (não é mais o Manoel da padaria) não está errado: se você vai num lugar assim e comprar uns pães, queijos e um vinho, a conta vai beirar os 300 reais. Isso, sendo comedido. E ele não está errado porque tudo o que querem é pose. Pagam - caro - para serem vistos lá dentro comprando e, ao receber amigos em casa, exibir "descuidadamente" os papéis de embrulho da loja como sinal de refinamento e riqueza.
Nome do local? Algo como "Emporio Toscano" ou algo assim.
O nome vale ouro.
O sabor diferenciado? Paladar para distinguir? Esqueça.
O que importa é que, ao menos naquela noite, você ganhou o concurso de quem tem o pinto maior entre seus amigos.
E assim segue a vida de um habitante típico das zonas nobres das metrópoles.
Nada mais digo porque não sou sociólogo, sou só um velho que orienta carros estacionando no restaurante onde faço bicos, nos domingos.
Agora, com licença que vou comer um Cheetos e tomar um Guaravita.
Walter Biancardine











