Sempre fui assim, desde criança.
Me chamavam de mimado, depois egoísta e, finalmente, intratável. Variou conforme a idade avançava.
Nunca mudei e sempre desobedeci a tudo aquilo que eu sentia me amarrar, fosse numa escola primária ou trabalhando no Corpo Diplomático, pilotando um avião ou escrevendo em jornais.
De uma maneira quase inconsciente eu dizia: não me prendam.
Não me domestiquem.
Não me amoldem a padrões que não são meus.
Isso sempre traz problemas, a menos que você fique famoso.
Aí você vira vanguardista.
Revolucionário.
Uma cabeça à frente de seu tempo.
Uma alma livre.
Mas se você é um merda obscuro como eu, o tratamento é conhecido: vagabundo.
Não quer nada com coisa nenhuma.
Acha que sabe mais que os outros.
E concluem, vitoriosos: é por isso que é pobre.
Ser como sou não é receita de sucesso.
É um sintoma de quem, desde muito cedo, provou e gostou da liberdade.
Sim, liberdade.
Ela é inegociável.
Não abro mão dela por nada.
É a única e maldita coisa que jamais puderam me arrancar, mesmo na indigência em que vivo.
Por isso, não seguir regras nem chega a ser escolha.
Apenas um instinto básico, que aprendi cedo.
Perdi coisas, perdi oportunidades, perdi amigos por conta disso, eu sei.
Mas não perdi a mim mesmo.
Ainda estou em minhas mãos.
Enquanto isso me apetecer.
Walter Biancardine





