domingo, 10 de maio de 2026

MENOS LONGE -

E quando menos se espera
um coração volta a bater

quando menos se espera
o sorriso pode voltar

quando menos se espera
a distância diminui

quando menos se espera
o ceticismo diz "amém"

quando menos se espera
resolvemos esperar


Walter Biancardine 


sábado, 9 de maio de 2026

FALANDO SOZINHO SOBRE VAN GOGH -

Eis a desgraça, Walter:
às vezes a arte acerta

não melhora a conta bancária
não devolve os mortos
não salva casamento
não cura o vazio que fica zumbindo às três da manhã
feito geladeira velha em quitinete barata

mas acerta

por alguns segundos miseráveis
alguém lê uma linha
e percebe que não enlouqueceu sozinho

isso já é muito
mais do que quase todo o resto que vendem por aí
com sorriso branco e frase motivacional

continuo escrevendo

há homens demais fingindo felicidade
e escritores honestos de menos


Walter Biancardine



VAN GOGH 4/4 -



A caneca sem orelha continua ali
parada
imutável
olhando pra nós
com a cara de quem já entendeu tudo
e perdeu a vontade de explicar

você sabe o que é pior?

ela venceu

o pintor apodreceu
os amigos morreram
os bares fecharam
as cartas viraram poeira
os amores envelheceram

mas a maldita caneca continua ali,
firme,
vendida em promoção de Dia dos Namorados

isso devia ofender Deus

há qualquer coisa profundamente obscena
em transformar sofrimento humano
em objeto “fofo”

o homem arrancou um pedaço da própria carne
porque a cabeça dele era um quarto pegando fogo por dentro
e hoje alguém bebe “mocha” de avelã
na cara deformada da tragédia
enquanto escuta jazz instrumental

o inferno realmente existe
ele só ganhou decoração escandinava

e nós também somos assim

olhe pra nós

homens velhos demais pra acreditar em esperança
e covardes demais pra desistir

sobrevivemos à força do hábito
igual barata atrás da geladeira

acordamos
pagamos conta
respondemos mensagens com “kkkk”
fazemos café
olhamos o teto
e lentamente vamos apodrecendo
com uma educação admirável

a vida moderna é isso:
um velório com Wi-Fi

ninguém mais enlouquece direito

antigamente o sujeito bebia absinto,
sumia por três dias
e aparecia nu numa estação de trem
recitando poesia para mendigos

hoje ele posta “dia difícil”
e recebe emoji de coração

a decadência perdeu a elegância

e a arte…
ah, a arte…

a arte é só o barulho que fazemos
pra não ouvir o rangido da própria alma

livros são pessoas sangrando devagar
quadros são gritos que aprenderam a ficar imóveis
poemas são bilhetes suicidas
que desistiram no meio

e mesmo assim
continuamos escrevendo

isso é o mais ridículo

o sujeito trabalha dez horas por dia
tem gastrite
dor na lombar
medo do futuro
uma solidão úmida grudada no peito
feito mofo de banheiro antigo…

e ainda acha necessário
abrir um caderno
pra organizar o desastre em parágrafos

como se palavras fossem impedir
o abismo de mastigar os ossos dele

mas talvez exista alguma dignidade nisso
mínima
suja
quase invisível

igual aquele homem varrendo o chão do bar
às três da manhã
mesmo sabendo
que amanhã haverá mais cinza
mais vômito
mais copos quebrados

ele varre assim mesmo

nós escrevemos assim mesmo

porque no fundo
ninguém acredita realmente na cura

queremos apenas
uma ferida
bonita o bastante
pra merecer ser observada

e a caneca continua ali
sem orelha
sem piedade
sem cura

igual nós


Walter Biancardine



VAN GOGH 3/4 -

 

 

A caneca sem orelha sorri na prateleira
como puta aposentada
que encontrou Jesus
e agora vende artesanato no Instagram

“edição limitada”
claro
até a loucura virou linha premium

o sujeito arrancou um pedaço da própria cabeça
e cem anos depois
algum publicitário de tênis branco
transformou aquilo
em brinde de cafeteria gourmet

isso é a civilização moderna:
pegar sofrimento verdadeiro
e colocar código de barras nele

há gente agora tomando cappuccino vegano
na cara de um homem
que morreu fedendo a tinta, febre e fracasso

poético
quase cristão

o problema da arte
é que ela nunca nasceu do bem-estar

ninguém escreve um grande romance
depois de oito horas de sono
hidratação adequada
e um casamento funcional

felicidade serve pra reprodução
pra comprar air fryer
pra escolher piso de porcelanato

a desgraça, não
a desgraça escreve sinfonias
com unha quebrada, na parede do quarto

o artista verdadeiro
não quer inspirar ninguém

ele quer sobreviver até terça-feira

o resto é palestra TED

e essa conversa romântica sobre sofrimento criativo
também é uma bela mentira
dor não transforma ninguém em gênio

dor transforma gente em caixa de farmácia 24 horas
em alcoólatra de bar iluminado por lâmpada triste
em homem olhando faca de cozinha tempo demais

de vez em quando
só de vez em quando
um desgraçado consegue transformar isso em arte

só isso

o resto morre anônimo
com gastrite emocional
e senha errada do banco

mas as pessoas adoram consumir tragédia
adoram

amam o artista morto
porque cadáver não pede pro aluguel
nem fala palavrão no jantar

o artista vivo incomoda
cheira a cigarro
faz perguntas erradas
bebe demais
fala da morte durante o café
e estraga aniversários

por isso o mundo prefere pendurar quadros dele
em parede branca de apartamento minimalista

a humanidade sempre gostou dos loucos
depois que eles param de gritar

e enquanto isso
algum rapaz de trinta anos
está sozinho num quarto mofado agora
tentando escrever alguma coisa honesta
enquanto escuta o vizinho fodendo
o cachorro latindo
e o banco ameaçando bloquear a conta

talvez ele produza uma obra-prima

talvez só desenvolva hipertensão

estatisticamente,
a hipertensão lidera disparado

e no fim é isso:
arte não salva ninguém

arte só deixa o naufrágio
com uma iluminação melhor


Walter Biancardine



VAN GOGH 2/4 -


A caneca sem orelha estava sobre a mesa
feito um santo mutilado
vendido em loja de presentes cult
por cento e vinte reais
em doze vezes sem juros

a tragédia sempre encontra um jeito
de virar decoração de cozinha

alguma moça tira foto dela agora
posta com filtro sépia
escreve:
“café, arte e gratidão”

e um pintor morto
revira no túmulo
como frango na máquina de padaria

a verdade é simples:
ninguém quer a dor
o que as pessoas querem
é a legenda da dor
depois que ela já passou

querem parecer profundos
sem nunca dormir bêbados no chão do banheiro
abraçados à própria vergonha

o sujeito perde a orelha
e vira estampa de ecobag

você perde a sanidade
e ganha um afastamento pelo INSS

essa é a diferença

todo mundo ama a ideia do artista miserável
até o artista pedir dinheiro emprestado
ou esquecer de tomar banho por três dias

aí o gênio vira “energia pesada”

as pessoas dizem:
“o sofrimento produz arte”

não
o sofrimento produz alcoolismo
divórcio
remédio tarja preta
cinzeiro cheio
e gente falando sozinha no mercado

arte acontece às vezes
como vazamento em prédio velho

a maior parte dos escritores
não está criando obras-primas agora

está olhando pra parede
coçando uma tristeza antiga
e fingindo que o boleto não venceu

mas existe uma coisa engraçada nisso tudo

o homem feliz demais
não escreve nada que preste

o sujeito espiritualmente resolvido
produz frase motivacional de calendário
e vídeo ensinando a “manifestar abundância”

já o outro – 
o quebrado
o humilhado
o abandonado às traças do próprio quarto –
esse pelo menos escreve frases
que fazem alguém largar o celular por cinco segundos
e pensar:
“merda…”

a arte nunca nasceu da paz
paz produz condomínio
produz cadeira gamer
produz reunião no Zoom

a arte nasce quando alguma coisa apodrece dentro do sujeito
e ele percebe
que não consegue mais esconder o cheiro

então escreve
ou pinta.
ou toca violão num bar imundo
pra quatro bêbados e uma garçonete deprimida

porque criar
é só uma forma elegante
de sangrar em público
sem assustar tanto os vizinhos


Walter Biancardine




VAN GOGH - 1/4



A caneca me encarava
com aquele olho de quem pagou aluguel atrasado,
enterrou amigos
e bebeu café frio às seis da manhã
porque o mundo não dá intervalo
nem para os santos
nem para os bêbados

Van Gogh perdeu a orelha
hoje perderia o financiamento do carro
a conta do streaming
e metade dos seguidores

a evolução é magnífica

O sujeito pinta girassóis
porque o silêncio na cabeça dele
late mais alto que cachorro na rua

ninguém cria por equilíbrio
equilíbrio serve para escritório
foto de casal sorrindo no réveillon
e coach vendendo curso
com pulseirinha de couro no pulso

arte nasce da rachadura
do copo lascado
do homem que fuma na janela
olhando a chuva cair no estacionamento vazio
como se Deus tivesse abandonado o turno da noite

todo grande livro
tem cheiro de derrota antiga

todo poema honesto
foi escrito por alguém
que já quis sumir
mas resolveu antes abrir outra garrafa
e procurar um verbo

é por isso que desconfio
dessas pessoas excessivamente felizes
ninguém escreve “Crime e Castigo”
depois de uma aula de mindfulness
e um suco detox

a dor não melhora ninguém
isso é mentira de padre cansado
e terapeuta de Instagram

a dor só faz uma coisa:
arranca a tinta da parede
e mostra o mofo

alguns enlouquecem
outros viram funcionários do mês
uns poucos
pegam o mofo
e escrevem nele

Van Gogh cortou a orelha
Bukowski bebeu até apodrecer
e o resto de nós
fica aqui
tomando café em canecas quebradas
tentando transformar abandono
em parágrafo

às vezes funciona

na maioria das vezes
só sobra o café, frio mesmo


Walter Biancardine



TRAJE ESPORTE FINO -

 


Já me preocupei com o que vestir, que impressão iria causar.
Escutava que a roupa é o cartão de visitas de uma pessoa, sua aparência define como vão te tratar.
De um modo geral estão certos. 
Concordo com essa regra, desde que pros outros. 
Não pra mim.

Não frequento altas rodas de negócios nem reuniões de trabalho – meus bicos se resumem a cortar árvores, carregar troncos, rastelar gramados, receber pessoas no restaurante de seu Dail e minha profissão é escrever, algo que é solitário por natureza.
 
Tirando a ocupação no restaurante, nenhum dos outros trabalhos me exige boa apresentação. E ter nascido escritor também me fez perceber que o que falo define muito mais quem eu sou do que aquilo que visto. 
Uma lástima, já que as pessoas sempre veem mas nunca escutam.

Desde jovem eu já andava desleixado – a menos que houvessem mulheres perto. Aí eu tentava dar um jeito, mas nunca consegui enganar meu espelho. 
Logo desisti.

O jeito esmulambado que ando serve pra mim – nada espero, não há quem seduzir nem tenho emprego – mas não pros outros. 
Digo isso porque nossas ruas já são feias o suficiente.

Sempre fui assim. 
Parece que estou piorando, com a idade.

E por falar em idade, muito menos tento seduzir alguém. 
Se eu fizer uma cara sexy para uma mulher, ela vai ligar pro SAMU pensando que estou tendo um AVC.

Sim, a piada é velha.

Como eu.


Walter Biancardine



sexta-feira, 8 de maio de 2026

BAR SÃO JORGE -

 


Sentado sozinho
eu e as garrafas
que molham tudo
e pingam na calça

Mesa de plástico
cadeira de plástico
coração de papel
não pode molhar

Peço um salgado
um cachorro vem junto
guardanapo e focinho
estou sozinho

Agonia não passa
traz outra cerveja
molha a mesa
guardo o cigarro

O coração fica
não tem onde guardar
cachorro abana o rabo
não tem onde ficar

Nem eu
nem eu, meu amigo
nem eu

Coração desmanchou
o cachorro ficou
não estou mais sozinho

Me fazem companhia
garrafas de cerveja
e um focinho

Ele não tem pra onde ir
nem eu, meu amigo
nem eu


Walter Biancardine



CASAL DIGITAL -

 


Segurava sua mão
Olhava seus olhos
Beijava sua boca

Mãos tremiam
Olhos embaçavam
Bocas molhavam

Sentia seu cheiro
Cheiro de nervoso
Com perfume bom

Sua voz tremia
Medo e vontade
Acontecia

Olhe em volta
Ninguém olha
Só pra si mesmos

O amor morreu
Distância em tudo
Mas tem mil seguidores

Um casal de sucesso
Não se toca
Não se olha

Não se ama


Walter Biancardine



DIAS NUBLADOS E MUDANÇAS -

 


Diz a letra de uma música que "cariocas não gostam de dias nublados". Mentira. Sou carioca da gema e gosto.
O dia mais fresco, brisa fria e até uma garoa me tornam mais reflexivo, calmo, quase em paz comigo mesmo. O suor é uma abominação. Só na cama, em companhia da eleita. 

Prefiro escrever em dias nublados ou chuvosos, se não puder escrever à noite. A coisa estranha disso tudo é como mudei. Gostava de sol, embora nunca do calor. Detestava entardeceres - e agora amo. Abandonei meus contos, romances, poesias. E voltei a eles, filho pródigo que gastou tudo na orgia política.

A tal ponto mudei que meus últimos entardeceres os gastei terminando meu livro - nunca mais política, filosofia ou teologia - um estranho misto de contos, crônicas e poemas. Uma salada, vamos ver se aprovam essa mistura.

Sim, tal como meus livros "Pretérito Perfeito", um romance, e "Gislaine dos Três Verões", coletânea de contos, reuni algumas poesias, contos e mesmo crônicas, que nem de longe abordam aquilo que me fez conhecido pelos meus seguidores.

Irão comprar? Se comprarem, gostarão? Ou deixarão de me seguir, comprando ou não o livro?

Não sei. O que sei é que não posso mais continuar traindo a mim mesmo, mantendo a antiga e frustrante vida de falar apenas para uma bolha de já convertidos. O que eu tinha a dizer, já sabem. E se não sabem, nada valeu a pena. Por isso volto aos romances, contos e poesias.

Em breve pretendo lançá-lo. 

Vamos ver se levam fé.


Walter Biancardine 



quinta-feira, 7 de maio de 2026

JÁ GASTEI, AGORA É TARDE -

Não sei o que é pior: viver em uma terra onde tudo pode ser pirateado na cara dura - Brasil - ou ter a autoestima mais baixa que a altura dos rodapés da minha casa.

O caso é que estou terminando os últimos preparativos para meu novo livro - o sétimo, número cabalístico - e me vi às voltas com procedimentos como o registro da obra, ISBN, ficha catalográfica e código de barras.
Tudo isso preserva meus direitos. Resguarda minha autoria.
Impede cópias não autorizadas.
E custa dinheiro.

E minha autoestima, metros abaixo do nível do mar, me fez pensar: "mas quem diabos iria me copiar?"
A verdade é que, pra um ilustre desconhecido como eu e - pior - dotado de talento apenas mediano, gastar dinheiro com essas proteções soa quase como arrogância, algo típico de um metido, alguém que "se acha".
Mas paguei. Sou um boçal.

Agora é ver se o tal livrinho vende, ao menos quantidade suficiente pra eu me ressarcir dessas despesas de soberba.

Vamos ver que bicho dá.


Walter Biancardine


quarta-feira, 6 de maio de 2026

LINHA DO EQUADOR - Um poema da quinta série -


Queria ser um trator
e esmagar as pedras em seu caminho
ou toneladas de areia
tornando os buracos impossíveis de cair

Queria ser um polvo
estendendo quantos braços precisasse
e te envolvendo em um abraço 
impossível e infinito

Queria ser seu travesseiro
com sua cabeça a sonhar
secando as lágrimas
colhendo seus sorrisos

Mas sou só um número
na agenda de seu celular
uma voz sem rosto
existo mas não sou visto


Walter (cheio de espinhas)


POR DO SOL -

 


Andava agora à noite pelos pastos. Faço sempre isso.
Longe, no poente, ainda um ligeiro clarão vermelho, quase apagado, que nada ilumina mas mostra o oeste e faz do céu um quadro de Rembrandt - claros e escuros impossíveis de reproduzir.

Vi minha primeira estrela, e fiz o pedido. Depois veio Vênus. e mais outras. E outras. A imensidão do céu enegrecia e brotavam estrelas que não se pode ver sob a luz das cidades.

Muito longe, à direita do nascente, um vago claro apontava Cabo Frio. À esquerda, o Segundo Distrito e Barra de São João. 
Longe, indiferente diante das horas, pastavam bois, vacas e cavalos. Mais cavalos. O gado tem hora de se recolher.

A vastidão do céu nos curva em direção à humildade.
E eu ali, só eu, sem ninguém pra compartilhar aquilo. 
Não posso dar tal grandeza de presente, mas poderia dividir o deslumbre com alguém.
Mas não havia ninguém.

Se não dividem minhas dores, também é certo que não participam de meus prazeres.

A dor, a agonia, nada disso é diário - embora muito mais frequente que gostaria. Mas o por do sol é.
Sempre.

E, enquanto eu estiver aqui, sozinho, só pra mim.


Walter Biancardine



NASCI DOENTE -


Ninguém se torna escritor. Se nasce assim.
Tal qual nascer com pés chatos, desvio na coluna ou miopia. Eu sei porque nasci com esses quatro defeitos: sim, também nasci escrevendo.

Um escritor vive uma vida esquizofrênica, e precisa lidar com ela tal qual alguém que é bissexual. Se é casado, vai trair a mulher com um homem. Se estiver com um homem, vai traí-lo com uma mulher. Se é escritor, vai trair sua escrita sendo balconista de uma loja. E se for balconista, vai trair seu emprego gastando as noites escrevendo.

É um defeito de nascença, uma praga genética que condena o infeliz a ser sempre um miserável, pobre e espancado por alguns casamentos. A imaginação não cabe nem mesmo em Bodas de Ouro. E quem pensa demais não casa. A não ser gente com tendências kamikazes como eu, que atira o coração deliberadamente contra o costado de um navio chamado “Amor”. 
Morte inevitável. 
Sobra o fígado, com cirrose.

Ser escritor não é profissão, é sina. E das piores. Se seu filho ou neto se mostra muito à vontade escrevendo redações, dê a ele um celular, computador, tablet – qualquer coisa que esvazie a pobre cabecinha de tais pensamentos. O final é sempre a indigência, solidão e bebedeira.

Sim, existem Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo – mas gente assim são as infalíveis exceções, que somente servem pra comprovar a regra.

Escrever também é como um vício: ou você escreve ou morre. 
Ou mata alguém. 
Ou enlouquece. 

E esse povo hoje, que posa de “escritor” deixando tudo nas mãos de um ChatGPT e enche os bolsos das editoras pagando revisão, diagramação, capa e até noite de autógrafos na FLIP, não passa de vaidosos. Para eles, escrever um livro é como comprar um carro zero. 
Vaidade. 
Só pra agregar valor. 
Nada sofrem. 
Nunca sofreram.

Se seu filho é bom em redação, dê uma surra de chinelos nele e diga – desta vez cheio de razão – que é para o bem dele.


Walter Biancardine



segunda-feira, 4 de maio de 2026

NADA



Walter Biancardine

QUARTO 7



Tem um barulho aqui.
Não sei de onde.
Parece rádio, mas não tem rádio.
Fica vindo e indo. Às vezes some. Às vezes fica alto.
Hoje tá baixo.
Melhor.

Tem um homem na outra cama. Ele levanta toda hora. Vai até a porta. Volta.
Acho que ele trabalha.
Ninguém manda, mas ele vai.
Deve ser coisa importante.
Eu fico.

Minha perna não gosta de mim.
A cabeça também não ajuda muito.
Mas eu lembro das pessoas.
Isso eu lembro.
Demora um pouco, mas vem.
Veio hoje.
Ele entrou.
Ficou parado na porta, meio torto.
Eu conheço ele.

Esperei.
A cara veio primeiro. O nome não.
Mas não precisa nome.
- Ô… você.
Ele falou que era ele.
Eu sabia.

Ele sentou.
Trouxe cheiro de rua. Poeira. Sol.
Aqui não tem isso.
Aqui tem cheiro de limpeza. Limpa demais.
- Trouxe cigarro?
Ele disse que não pode.
Nunca pode nada.
Antes podia.
Antes eu fazia o que queria.
Ou acho que fazia.
Agora eu não lembro direito.

- Que dia é hoje?
Ele falou.
Domingo.
Domingo é bom.
Sempre foi.
Acho.

Perguntei dos meninos.
Eles tão grandes.
Um casou.
Casar é bom.
Dá trabalho, mas é bom.
O outro tá longe.
Trabalhando.
Trabalhar é bom também.
Cansa, mas passa o tempo.

Aqui o tempo não passa.
Ele fica parado olhando.
Às vezes eu durmo pra ver se ele anda.
Acordo e ele tá no mesmo lugar.

Tem um cara aqui que trabalha.
João.
Ele anda muito.
Deve estar cheio de serviço.
Ninguém ajuda ele.
Falei isso e ri.
Ele riu também, mas meio errado.
Acontece.

Perguntei onde ele mora.
Ele disse longe.
Longe é um lugar ruim.
As pessoas somem quando vão pra longe.
Mas ele veio.
Então não sumiu.
Ainda.

A cabeça falha um pouco.
Às vezes dá um branco.
Eu sei que deu ruim aqui.
Bati na testa.
- Deu problema.

Ele falou que deu.
Eu ri.
Não sei por quê.
Talvez porque é verdade.
Quando é verdade, às vezes dá vontade de rir.
Ou chorar.
Confunde.

Ele ficou quieto.
Ele fica quieto bastante.
Eu também.
Não precisa falar sempre.
Só precisa ter alguém ali.

Segurei o braço dele.
Firme.
Pra ver se ele era de verdade.
Era.
- Vou ganhar um dinheiro e sair daqui.

Eu falei baixo.
Não queria que os outros ouvissem.
Ele respondeu alguma coisa.
Não entendi direito.
A cabeça falhou de novo.
Mas a mão dele tava ali.
Depois não tava mais.
Acontece rápido.
As coisas somem rápido agora.

Ele levantou.
Disse que voltava.
Volta.
As pessoas falam que voltam.
Algumas voltam.
Outras ficam no “depois”.
Eu espero.
Dá pra esperar.
Aqui tem tempo.
Muito tempo.

Deitei.
Olhei pro teto.
Tem uma mancha lá.
Parece um mapa.
Já vi esse mapa antes.
Não lembro onde.

Fechei o olho.
O barulho do rádio voltou.
Sem rádio.
Fiquei escutando.
Esperando.

Ele volta.
Eu sei que volta.
Só não sei quando.

Mas domingo é bom.
Acho que é domingo.


Walter Biancardine




DOMINGO NO ASILO -


Fui visitar meu irmão.
O lugar cheira a desinfetante e tempo perdido.
Não tem outra palavra.
Tempo ali não passa. 
Ele fica. Gruda nas paredes. E na pele.

Assinei um papel na entrada. Sempre tem um papel. 
Nome, documento, horário. Como se alguém fosse fugir dali.
Uma moça de jaleco me deu um sorriso rápido. Cansado. Não era pra mim. Era automático.
- Quarto 7.

Fui andando pelo corredor. Portas abertas. Gente sentada olhando pro nada. Um velho ria sozinho. Uma mulher falava com alguém que não tava ali.
Ninguém parecia com pressa.
Cheguei.

Ele tava na cama. Magro. Mais baixo do que eu lembrava. Como se tivesse encolhido por dentro.
Olhou pra mim.
Demorou meio segundo.
- Ô… você.

Ainda lembrava.
- Sou eu.

Ele abriu um sorriso torto. Faltava um dente. Não lembro quando perdeu.
- Veio?
- Vim.

Sentei numa cadeira dura. Daquelas que não deixam ninguém confortável tempo demais.
- Trouxe cigarro?
- Aqui não pode fumar.
- Ah.

Ficou quieto. Mexeu no lençol. As mãos tremiam um pouco.
- Que dia é hoje?
- Domingo.
- Bom.

Não sei por que era bom.
Ficamos ali. O silêncio não incomodava ele. Em mim, raspava.
- E os meninos? Meus filhos? - ele perguntou.
- Tão por aí.
- Trabalhando?
- Você sabe… Um tá fora, morando em Londres. Outro casou agora, você deve lembrar.
- Casou… é mesmo… - ele repetiu, como se testasse a palavra.
- É.
- Não vieram?
- Não.

Ele pensou um pouco. Ou fingiu.
- Devem tá ocupados.
- Devem.

Ele assentiu. Aceitou rápido demais.
Isso doeu mais do que se tivesse reclamado.
- Aqui é bom - ele disse, olhando pro teto.
- É?
- Tem comida na hora. Ninguém enche o saco.
- Olha aí.
- Tem um cara aqui… o João… - ele riu - ele acha que ainda trabalha.
- E trabalha?
- Trabalha nada. Fica andando pra lá e pra cá. Igual doido.

Rimos. Meio sem graça.
Ele esqueceu do João logo depois.
- Você tá morando onde?
- Longe. São Jacinto.
- Com quem?
- Com ninguém. Só eu, as vacas e os cavalos.
- Melhor - e deu uma risada.

Ele fechou os olhos um pouco. Abriu de novo.
- Eu fiquei doente, né?
- Ficou.
- Foi do nada.
- Foi.
- Cabeça…

Apontou pra própria testa. Deu um tapinha leve.
- Deu ruim aqui. Mas vou melhorar.
- Claro que vai.

Ele riu. Aquela risada meio boba, leve demais pra situação.
- Ainda bem que você veio.
- É difícil, moro muito longe, mas quando dá eu venho.
- Não sempre.
- É como eu disse, não dá sempre.
- Eu sei.

Não parecia saber.
Uma enfermeira apareceu na porta.
- Hora do remédio.

Ele fez careta.
- Já?
- Já.

Ela veio, deu os comprimidos, água. Ele engoliu sem reclamar. Bom paciente.
Ela saiu.
- Você vai embora?
- Daqui a pouco.
- Fica mais.
- Sem problema.

Fiquei.
Sem falar muito. Ele também não.
Em algum momento, ele segurou meu braço.
Forte.
- Estou vendo um negócio, vou ganhar muito dinheiro e vou sair daqui.

Veio baixo. Quase certo.
Fiquei olhando pra mão dele.
- Primeiro você tem que se tratar, ficar bem de novo…
 
Ele não reagiu.
Talvez não tenha entendido.
Talvez tenha entendido demais.
- É mesmo - ele disse.

Soltou meu braço.
Olhou pro teto de novo.
Como se já tivesse ido embora dali.
Fiquei mais um pouco. Não sei quanto.
Levantei.
- Eu volto qualquer dia.
- Volta?
- Volto.

Ele assentiu. Confiante. Como criança.
Saí do quarto.
O corredor continuava igual. Ninguém indo a lugar nenhum.
Assinei outro papel na saída.
Sempre tem um papel.

Lá fora tinha sol. Mas a rua era vazia, isolada na cidade. 

Andei como um condenado, debaixo do sol, até o ponto de ônibus mais perto.
Entrei no ônibus.
Sentei perto da janela, lado contrário ao sol.

Fiquei pensando no “vou ganhar muito dinheiro e vou sair daqui”.
Não era sonho. Nem plano.
Era só… o que sobrou.

Olhei pra rua.
Eu também não tinha pra onde levar ele.
E isso é o tipo de coisa que ninguém gosta de dizer em voz alta.

Não havia inocentes.
Nunca houve.


Walter Biancardine