quarta-feira, 17 de junho de 2026

SEMPRE COM FOME

 


Não são poucos os pequenos
miseráveis e mesquinhos
urubus secando a carcaça
apontando você

já te julgaram inteiro
sua vida inteira não escapa
biografia é folha corrida
você não vale nada

se você não reclama
então é feliz
ou faria um drama
de ator ou atriz

a costura mal feita
remédios e rezas
a insônia escondida
isso ninguém quer ver

ou verão que sua vida
é muito pior e você
é muito melhor
que eles

que se danem os miseráveis
apontam dedos podres
que logo cairão

que se danem os miseráveis
pois vivem de nossos incômodos
mas se nada nos importa
morrem secos e com fome

que se danem os miseráveis
invejosos e mesquinhos
morram secos

e sempre com fome



Walter Biancardine



CONSERTOS EM GERAL -

 


Ler muito cansa os olhos
precisamos de óculos

a idade cansa as pernas
andamos de bengala

amores destroem corações
bebemos e mentimos



Walter Biancardine



QUANDO MAIS PRECISO


Meio da estrada
horas dirigindo sem nada à volta 
deserto

preciso de café
de gasolina
de banheiro e um pão na chapa

quero lavar a cara
refazer as forças
respirar fundo e prosseguir

e aquele posto de gasolina está lá
sempre está
sempre esteve e estará

dia ou noite

é o mais perto que consegui
pra definir o que é o amor



Walter Biancardine






terça-feira, 16 de junho de 2026

CICATRIZES NAS COISAS


Nunca vi sua poltrona predileta
nem a marca que deixou na almofada 
ainda assim me afundaria nela
a cara enterrada no vazio que a moldou
 
nunca vi seu colchão
mas nesse vale há um lago
onde você dorme sozinha 

iria empurrar esses montes
abrir espaço no escuro
onde a gente pudesse ficar 

não conheço seu cheiro
nem o peso do seu corpo
meu tato e minha boca
continuam famintos 

só me resta
sua voz
e um retrato 

aqui acaba o que tenho




Walter Biancardine







PRA FALAR A VERDADE -

 


Hoje o dia inteiro disfarcei
falei do tempo, desse frio
ofereci minha rabugice
como prova de vida

fui na rua e comprei
voltei pra casa e deixei
olhei pro teto e pensei
“não sei”

todo o dia sendo forte
cara de mau e olhos franzidos
e firmeza e queixo erguido

mas agora desmontei
porque tenho sofrido
e quero chorar mas não posso

gastei internet
gastei meu fígado
gastei cigarros
gastei toda a minha esperança

só quero chorar
mas não posso

que ela venha em meus sonhos
lamber minhas lágrimas
curar minhas mágoas
dos dias medonhos

queria chorar

que ela venha em meus sonhos
pois queria chorar
lamber minhas lágrimas
porque eu não posso
curar minhas mágoas
sozinho não dá

eu só quero chorar
pelos dias medonhos



Walter Biancardine 




HIGHLANDS DOS LAGOS -

 


Amanheceu um gelo. 
Poderia dizer que chove fino o dia todo, mas não é chuva e sim quase um vapor gelado, de tão fina. E o vento nos molha de baixo para cima. 

Vento sul, indica permanência do tempo fechado.

No Arraial do Cabo, baleias cachalote se divertem – para elas é verão – enquanto um Leão Marinho desembarca nas praias de Tamoios. Ainda não tive notícia dos pinguins, mas breve chegarão. Sempre passam por aqui, no inverno. Essa turma toda vem de carona na Corrente das Malvinas, então o bonde tá formado.

Só que eu moro na zona rural da cidade, a praia mais perto (em linha reta) é a da Rasa, em Armação dos Búzios, mas nem a maresia chega ao meu nariz aqui. Só o frio. Frio de rachar.
É o nome da cidade. Faz sentido.

Bois, vacas, cabras, cavalos e até as galinhas tratam de suas vidas com discrição, naquele vai-vem amuado e silencioso dos dias gélidos. Só as garças se exibem, junto com os marrecos que chegam e um ou outro pica-pau em busca de vida fácil, martelando troncos de coqueiro.

Eu aqui, olhando tudo isso.
Queria um jipe.
Nem sei pra onde iria.
Mas queria.

Queria uma casa, cozinha com o amarelo das lâmpadas incandescentes iluminando o café, servido direto do bule fumacento, pães franceses quentinhos e um bom queijo polenghi derretido.

Sim: lâmpadas incandescentes são de casa, com sua luz amarelada. Luz branca, led, é pra escritório, repartição pública ou gente de dinheiro novo.

Um bom café às 5 da tarde, pão quentinho, o amarelo das lâmpadas e um leve cheiro de gasolina do Jeep estacionado no terreno de chão, lá fora.

Dia nublado, névoa de chuva e o vento cortante.

E, já que estou sonhando, que seja com ela me servindo o café e provando o polenghi comigo.

É pelo sonho que prefiro dormir.




Walter Biancardine



FRIO

O homem suporta muito desconforto. 
Dorme mal, come mal, envelhece, trabalha demais. 
O que ele não suporta é não ter pra quem dizer:
- Olha só esse frio danado.
E ouvir:
- Pois entra logo que o café tá pronto.

É uma frase banal. 
Mas metade da literatura existe por causa dela.



Walter Biancardine




HOJE

 


Sempre amanhece. E eu sempre tenho de acordar.
Levanto da cama e tomo o café horrível.
Os remédios de velho.
Lavo o rosto no fiapo de água. Gelada.
Mas já não xingo.

Antes eu xingava.
Hoje, nem isso.

Sento ao notebook, o ligo e fico olhando pro nada, enquanto a velha máquina dá a partida.
Olho as redes.
Gente brigando com estranhos.
Gente exibindo felicidades de vitrine.
Fecho tudo.
Em desespero olho meu e-mail. Nada.
E o WhatsApp sequer considero.
Ele teria me avisado.

Estranha tranquilidade sinto pela certeza de que o pior sempre virá.
Abro o Word. Tento escrever.
Sai isso.

Ligeira agonia.
Tamborilo os dedos na mesa. Acendo outro cigarro e olho em volta, como que buscando.
Não há ninguém.
Nem nada.
Esse frio na espinha é o mais perto do desespero que hoje consigo chegar.

Olho de novo pro texto.
Tem que sair algo que preste.
Vamos ver.

Acendo mais um cigarro e tomo outro café.
Horrível.

Ainda tenho toda a merda do dia pela frente.

E ela foi embora.



Walter Biancardine



SUDOESTE

 


A mais linda escuna
içou as velas e partiu
mar sem fim

bem quis embarcar
não posso
sou seu porto

em mim há segurança
proteção e calma
não pra isso ela nasceu

a felicidade está nos mares
não nas docas
e meus ratos subindo 
em seu cordame

a escuna ama o porto
o porto ama a escuna
mas não se podem

não faltou amor
faltou destino



Walter Biancardine



PÉSSIMA NOITE

 


Há noites que não pedem coragem.
Pedem que eu não faça nenhuma besteira definitiva.

Queria ter uma vitrola velha, uma garrafa pela metade e um maço quase vazio.
Sentar sozinho.
Escutar aquele cearense bigodudo cantar que o passado foi melhor porque já passou.
E beber devagar, como quem dá esmolas ao próprio fracasso.

Mas não tenho vitrola.
Nem a mulher.
Nem a dignidade inteira.

O amor, descobri tarde, não acaba quando acaba.
Acaba pra um.
Pro outro vira infiltração.
A pessoa vai embora e deixa um mofo crescendo dentro da gente.
Alguns pintam a parede, trocam os móveis. 

Eu escrevo poemas.
Mas o mofo continua ali.

Olho pro cinzeiro.
Bitucas.
Olho pra mesa.
Marcas do copo na madeira.
Olho pra mim.
Um sujeito de sessenta anos conversando com fantasmas
e fingindo acreditar
que três minutos de música
podem salvar uma noite inteira.

É ridículo.
Mas quase tudo que mantém um homem vivo é ridículo.

A esperança é ridícula.
O amor é ridículo.
Escrever poemas… 
isso é uma doença.

Mesmo assim escrevo.
Porque enquanto eu estiver enchendo um copo,
rabiscando versos tortos
e mentindo pra mim mesmo
que amanhã será diferente,
a derrota ainda não venceu completamente.

Ela tá ganhando.
Mas ainda não venceu.

E amanhã vou acordar cansado. 
Mal-humorado.
De orelhas baixas como um cachorro abandonado.

Vou fazer café.

Talvez chore.
Talvez olhe no espelho
e encontre aquele velho conhecido:
o sujeito que estraga tudo
e depois escreve poemas
como se isso resolvesse alguma coisa.

E depois sigo.

Não porque sou forte.
Porque o mundo tem essa mania vulgar de continuar existindo.

E, infelizmente,
eu também.




Walter Biancardine







segunda-feira, 15 de junho de 2026

TUDO O QUE PEÇO

 


é que Deus me ajude
a partir de hoje
já conheço a estrada
e sei que dói

peço piedade
peço clemência
misericórdia
insistência

não reclame se me afundo
não me julgue se me jogo
no fundo de um copo
se não há fundo de um corpo

tudo o que peço
é continuar
tudo o que quero
é respirar
tudo o que tenho
o emprego de viver

tudo o que quero
é você
meu bem







O MOÇO DO BIGODE ME AJUDOU

 


meu bem
queria falar com você
contar o que tenho feito
no entanto fico sem jeito
sem te ouvir primeiro falar

meu bem
me diz agora o que esconde
me explica que lágrima é essa
fale bem antes que eu peça
nada vou dizer, só te abraçar

meu bem
eu não sei ler os olhos

meu bem
não posso guardar sua brisa

meu bem
não consigo entrar em você
sou só seu cobertor

meu bem
vem viver comigo
vem morrer comigo



Walter Biancardine



PODRÃO -

 


tem dias em que tudo sai pobre
tudo de espirituoso gastei ontem
e tento cozinhar os restos
no que escrevo

tipo geladeira vencida
sachês de catchup e mostarda
um limão e a Super Bonder
é o que tem pra hoje

podia inventar desculpas
bloqueio criativo
mas fracasso aqui
é produção artesanal

rimas vencidas
versos azedos
estrofes com mofo
pode até fazer mal

então esquece
a mistura é de sobras
e o podrão tá feito
moço, me dá uma Coca



Walter Biancardine




RAROS MOMENTOS QUE GOSTO DO BRASIL -

A excelente dupla (pai e filha) Ben and Zara, lá da "down under" Austrália, que ficou famosa no mundo inteiro por seus shows de lip sync, pegou a música do síndico Tim Maia e, mesmo sem saber uma só palavra de português, criou essa divertida esquete!

Parabéns!

CACHORRO DO MATO -


Sempre tenho de andar até o bairro mais próximo. Fica a 10km. Ida e volta, 20.

Tem horas que não tenho paciência. Poupo alguns quilômetros atravessando as fazendas vizinhas.
E no meio da planície encontrei o cachorro-do-mato da foto.

Achei que estava morto, mas agonizava. Me viu e gemeu. E quando gemeu chamou sua turma.

Veio um bando, furioso, me cercando e latindo.
Parei de andar. Sentei no mato. Olhei pra baixo.
Ao fazer isso eu buguei a cabeça deles.

Silêncio total.

Quase os via coçar a cabeça ou fazer aquela virada de lado típica de cães curiosos.
Mas esses não eram cães, eram selvagens. E fiquei ali, parado.
E eles em silêncio.

Uns bufavam, outros cheiravam o amigo moribundo, outros ainda foram se afastando.

Enquanto esperava, me distraí acendendo um cigarro e um dos cachorros até se interessou pela fumaça. Mas ele não era amigo. Ainda.

Se dispersaram.

Me levantei, bati a areia da bunda e ouvi uns latidos resmungando, distantes.
Dei uma última olhada para o moribundo.

Morrera.

Ao menos estive ao seu lado quando fechou os olhos.

Segui meu caminho.




Walter Biancardine



domingo, 14 de junho de 2026

UM CAFÉ, POR FAVOR -

 


aeronaves batem entre si

nos céus

como passarinhos nunca fizeram


jogam a moça sem cordas

bungee jump fatal

esqueceram dela


isso choca 

sai nos jornais


a velha cai na rua e se quebra

fingem não ver

seguem adiante


doentes derretem feito gelo

nas macas dos corredores

do SUS e morrem


isso não sai no jornal

moço, me vê um café


somos boas pessoas




Walter Biancardine






RECEITA DE DOMINGO – Quase deu certo

 


Acordei com o despertador. Nenhuma vontade de levantar da cama pela manhã.
Mas levantei.
Café horrível, fiapo de água lavando o rosto.
Fui trabalhar.

Às vezes a alegria alheia me contagia.
Chupei sorrisos dos outros, ri risadas que não eram minhas e não é que melhorei?

No restaurante tem música ao vivo e hoje foi dia de bossa nova, MPB e fiquei preocupado. Algumas bossas – ao menos pra mim – não são novas há anos.
O casal tempera os pratos da casa com ela cantando e ele ao violão. É bom de ouvir.
Mas eu, egoísta em meus problemas, não decorei o nome deles.

Violonista, guitarrista e baixista afastado dos afazeres por justa causa – punho quebrado – não resisti em vegetar um pouco daquele ambiente que, um dia, já me foi tão familiar – e acabei lembrando da amiga Stella e pedi uma música cantada por sua mãe, Nana Caymmi.

Por alguns minutos voltei ao antigo The House of Rock and Roll, do finado amigo Luís Antônio, onde eu chegava e ele cantava o que eu gostava, por me conhecer bem – overdose de Creedence Clearwater.
Fiquei feliz e comentei com uma colega de trabalho.

Por um desses acasos da vida, ela havia trabalhado no The House, em Búzios, justo nos anos em que eu era assíduo na casa – mas confesso não ter lembrado dela.
Eu não sabia. Uma boa novidade.
As lembranças também me deixaram feliz.

Expediente terminando, povo indo embora e ganhei gorjetas.
A felicidade aumentou, é claro.

Almocei, dei enorme prejuízo no estoque de cervejas e vim, sorridentemente cambaleante, para casa. E ainda feliz.

Cheguei em casa, tirei a roupa, lavei o rosto e tomei um café – ainda horrível.
Entrei nas redes, postei o vídeo da moça cantando e me dei conta de nada mais ter a fazer.
Nem ninguém para conversar. Comentar o dia.
Falar mal de alguém, sei lá.

Ninguém por perto.
Nem longe.

E a tristeza, que me subloca um cômodo na alma, me ofereceu um cigarro.

Amanhã é segunda feira.



Walter Biancardine



sábado, 13 de junho de 2026

NOTURNO VAZIO

 


À noite fui para o pasto.
Não havia lua. Nem vontade de voltar.

Ventava frio. 
Grilos faziam o concerto desafinado que só eles entendem. 
Parei no meio da vastidão. Sempre me seduziu. 
E fiquei ali respirando fundo. 
Tentando descobrir se o mundo ainda guardava 
alguma surpresa pra mim.

Senti um perfume.
Não de flores.
Sem jardim por ali.

Talvez não fosse lembrança.
Algumas lembranças doem 
antes de perfumar.

Era um cheiro de mulher.
Ou de esperança.
Nessa altura da vida 
já não sei diferenciar.

Abri os braços 
como quem espera um abraço 
atrasado desde que nasci.

Nada.
Só vento.
Mas permaneci ali.

Há algo de antigo nesse gesto de aspirar a noite.
Quase ninguém faz isso.
Hoje cheiram telas, 
notificações, 
estatísticas, 
opiniões alheias.

Eu fui para o pasto e cheirei o vento.
Parece bobagem.
Mas quem sabe?

Talvez os homens não morram 
quando lhes falta amor.
Talvez morram no dia 
em que já não esperem sentir 
do nada
um perfume.



Walter Biancardine



INCENSO, OURO E CAMA -

 


sonhei que ela me engolia
enquanto eu dirigia
numa longa estrada escura

sonhei que eu a devorava
ela e sua vida e seus ossos 
quebrados
na cama da desforra

sonhei que eu caía
correndo atrás dos cachorros
meus e dela
numa casa feliz

sonhei com ela
seu incenso
e sua paz


Walter Biancardine


PERFUME, TALVEZ

 


no meio do mato 
agora à noite
senti um perfume de mulher

não eram flores
não sei de onde veio

talvez de minha solidão
da falta de amores 
ao lado
e tanto espaço
à minha volta

a cabeça prega peças
e o coração
trouxa
sempre cai

mais um pouco
aqui sozinho
e nem isso lembrarei



Walter Biancardine




PARA PAPAI NOEL, COM AMOR E AUTOCRÍTICA -

 

Desesperança. É o que me faz sempre olhar a primeira estrela da noite.
E peço. Peço muito, porque um dia ela já me atendeu.
E Deus está de mal comigo.
Mas ela finge que não me ouve. Então peço ao primeiro que passar:
Deus, estrela, santos, meteoros, extraterrestres – qualquer coisa.
Até Papai Noel.
Mesmo fora de hora.

PARA PAPAI NOEL, COM AMOR E AUTOCRÍTICA -
querido papai Noel
tudo o que eu queria
era um teto
geladeira cheia
escrever o que sinto
e um amor
que cuidasse de mim

mas vivo no nada
e não há como querer
algo
onde não existe
nada



Walter Biancardine



CORES E PEDRAS -

 


ontem vi um arco íris
daqueles inteiros
ponta a ponta no céu
nunca vi antes
me emocionei

ainda existem 
novidades pra mim
nem tudo é a mesma
porca miséria dos dias

ainda há beleza
ventos frios 
garoa
poesia 
entardeceres

só não sei o que fazer
com isso que me tornei

vencido 
com pedras nas mãos
olhando flores morrerei

privações e margaridas
no mesmo coração
e barriga



Walter Biancardine



SÓ QUERIAM -

 

Hemingway
Mayakovsky

Frida Kahlo
Van Gogh
Basquiat

Stefan Zweig
ou mesmo
Nicolai Gogol

este último matou-se de fome
mas não queria comida
só queria

o que todos pediram
falaram
gritaram
e ninguém ouviu

ou quis ouvir

Mozart compunha
e dizia “vamos brincar
nunca entendemos
a arte
nem os artistas

só olhamos nosso umbigo
nos masturbamos no espelho
o resto do mundo não existe
nem essa raça
que gritou

e não ouvimos

não há diálogo
com quem escolhe a surdez

monólogos
podem ser fatais



Walter Biancardine



HOMENS DE BEM -

 

Já ouvi muita gente tentar me dar esporro. 

Diziam que eu precisava ser como eles. Levantar às 5 da manhã e ir trabalhar e só chegar de volta às 7 da noite. E trabalhar sábado. E domingo inventar um monte de obrigações na rua.

Eram trabalhadores. Bons maridos. Não tinham descanso, coitados.
Tudo pela família.
Sim.

O que alguns não diziam é que odiavam suas mulheres.
Boa parte não sabia viver com elas e a rua era melhor. Ou tinham amantes.
Ou a amante era a cachaça.

O que muitos escondiam é que achavam os filhos uns parasitas. Só pediam.
Na cabeça deles, com uns seis ou sete anos já deveriam varrer casa ou ir às compras.

E trabalhavam, sim. Descontado o tempo gasto com amantes ou fugindo de mulher e filhos, trabalhavam demais.

Porque queriam ter mais que os amigos. Mais do que a família. Calar a boca de pais, irmãos e primos e tios e avôs e avós.
Queriam mostrar que eram melhores. O pinto deles era maior.
Venceram.

Envelheceram. Filhos sumiram. E a mulher virou colega de apartamento.
Na melhor das hipóteses.

Conheci gente assim. A vida deles era um inferno.

Travestiam fuga como responsabilidade, disciplina e amor ao trabalho.
Bons chefes de família.

Sempre fui um fracasso.
Um irresponsável.
Vagabundo.

Graças a Deus.



Walter Biancardine