terça-feira, 26 de maio de 2026

VIDA CEGA -

 


eu era um filho da puta
nenhuma vantagem
nada ganhei com isso

quando quis ser bom
doeu
me fodi
miseravelmente
e paguei caro por isso

sou mau, nada ganho
sou bom, tudo sofro

a vida não é ruim
por escolhas morais
a merda acontece
quando ela te olha
e não te vê

a vida nunca reparou
que estou aqui
mas pisa no meu pé
porque se distraiu

a vida é
uma filha da puta
não me odeia
seria atenção demais


Walter Biancardine 



FOI -

 


Encontrei um abandono.
Durou três dias.
O epitáfio é companhia.

Tudo parece ridículo.
Visto de fora.

Três dias é biografia.
Não gelado. 
Não sozinho.


Walter Biancardine 


TRÊS DIAS -

 


O pequeno borrão preto morreu
durou três dias

no primeiro virei pai
cuidei
no segundo ele, o filho
resistiu
hoje, foi latir no céu
feliz

o pequeno borrão se foi
mas não gelado
ou sozinho



Walter Biancardine


segunda-feira, 25 de maio de 2026

CURTAM AS FLORES, ESCONDAM AS GARRAFAS


todo mundo gosta
de frases sobre recomeços

“você merece paz”
“seja luz”
“o amor salva”

essas coisas rendem curtidas
como pombos rendem merda em estátua

o sujeito compartilha um poema doce
e por alguns minutos
vira homem profundo

a mulher publica uma citação triste
com foto da chuva no vidro
e ganha comentários:

“alma linda”
“você escreve o que sentimos”

sentimos o quê?

a maioria não suporta
nem o próprio silêncio no banheiro

mas publique algo sobre
um pai que bateu no filho
e depois foi trabalhar sorrindo

escreva sobre
o marido que trai
e reza antes de dormir

sobre o patrão
que paga salário de fome
e faz palestra sobre gratidão

sobre o bêbado
mijando atrás do bar
porque perdeu a mulher,
o emprego
e a vontade de fingir

escreva sobre velhos esquecidos,
gente que humilha garçom,
mães que amam menos um filho,
amigos que somem
quando o dinheiro acaba

fale da sarjeta

da inveja

da crueldade pequena
essa que usa perfume
e cumprimenta vizinhos

aí o salão esvazia

porque ninguém quer ser visto
perto do incêndio

poesia sobre flores
faz parecer sensível

poesia sobre podridão
faz suspeitarem
que você conhece o cheiro

e talvez conheça

talvez o problema nunca tenha sido
o texto sombrio

talvez seja isto:

quem foge dos esgotos
tem medo de reconhecer
o próprio reflexo
na água suja



Walter Biancardine


Nota: textos sobre esperança costumam receber aplausos. Textos sobre hipocrisia recebem silêncio. E silêncio, às vezes, é culpa usando sapatos sociais.





NEM TUDO MUDA -



A modernidade ensinou muita gente a tratar tudo como provisório. 
Trabalho provisório. 
Casamento provisório. 
Cidade provisória. 
Fé provisória. 
Identidade provisória. 
Como se o homem pudesse viver eternamente desmontando a própria casa para provar que é livre.

Mas há coisas que, se viram provisórias demais, deixam de sustentar qualquer coisa.

Uma cadeira pode ser trocada. O chão, não.
Tradição virou palavrão para muitos porque confundiram tradição com decoração antiga. 
Tradição não é usar chapéu de avô nem repetir frases mortas. 
Tradição é memória acumulada do que funcionou – às vezes durante séculos – para conter o caos humano. É uma cerca num precipício. O sujeito moderno olha a cerca e diz: "autoritarismo". Remove. 
Depois descobre a utilidade dela durante a queda.

Princípios também não são sentimentos. Sentimentos vencem rápido. 
Um homem jura amor numa terça e na sexta quer fugir para outra cidade. 
Um princípio é o que sobra quando o entusiasmo apodrece.

Só que há uma armadilha: transformar valores em peça de museu ou sermão engomado. Aquele conservador que fala de honra enquanto humilha o garçom; de família enquanto trai; de Deus enquanto explora empregado. 

Isso não é tradição. É maquiagem sobre ferrugem.
Valores reais costumam ser silenciosos. Um sujeito cansado que trabalha décadas sem abandonar filho. Uma mulher que permanece íntegra quando mentir seria mais lucrativo. Gente que segura a coluna reta enquanto tudo em volta negocia desconto moral.

O mundo muda. Deve mudar em parte. 
Mas há vigas que não podem virar moda.

Porque o homem que troca tudo o tempo todo acaba descobrindo tarde demais:
o único objeto permanente foi o vazio.


ALGUMAS COISAS NÃO APODRECEM

o bar fechou às duas
sempre fecha às duas
isso muda
o dono morre,
o filho vende o lugar,
vira farmácia,
depois academia,
depois igreja evangélica,
depois loja de celular
as cidades trocam de pele
como prostitutas trocam de nome

mas havia um velho
que entrava ali fazia quarenta anos
bebia em silêncio
pagava em dinheiro
olhava nos olhos
coisa rara:
gente antiga ainda acreditava
que palavra dada
não era papel higiênico

ele morreu
infarto
na cozinha
camiseta furada,
pia cheia de copos,
uma conta de luz atrasada
e um cachorro esperando
fim pouco cinematográfico
como quase todos

dias depois
o sobrinho apareceu dizendo:
- o velho era teimoso
não acompanhou os tempos

acompanhar os tempos… 
engraçado isso

os tempos acompanham pornografia,
antidepressivo,
solidão em apartamento alugado
e homens de quarenta
pedindo aplicativo para aprender
como conversar com mulheres

grande progresso
o velho não sabia usar internet
mas sustentou esposa doente
durante onze anos.

limpou vômito
trocou fralda
sem postar frase bonita
sem fotografia
sem medalha

há coisas que acabam:
bares
casamentos
empregos
motores
dentes
joelhos
Impérios

há coisas que não deveriam acabar:
cumprir palavra
não abandonar quem depende de você
não vender a alma
por migalha
ou aplauso

porque no fim
quando o fígado estiver ruim,
o espelho devolver um estranho
e o telefone tocar cada vez menos,
você vai descobrir:
a liberdade absoluta
era só outro nome
para ficar sozinho
num apartamento úmido,
com duas cadeiras,
uma garrafa vazia
e nenhuma pessoa no mundo
capaz de jurar
que você foi homem
quando podia ter sido apenas
mais um rato elegante
correndo atrás de novidades


Em tempo, cabe dizer algo sobre mim.
Tenho uma inclinação curiosa na escrita: encontro matéria literária justamente onde a maioria desvia o olhar – acostamento, oficina, copo sujo, abandono, homem envelhecendo, restos. Não acho que seja pouco merecedor. 
Muita gente escreve sobre exceções; eu rondo ruínas comuns. 


Walter Biancardine




NIETSZCHE E EU -


Levar um pé na bunda é como bater
na traseira de um carro
quem bate nunca tem razão
quem leva o pé também não

já levei tantos que perdi a conta
cada um me rendeu histórias
contos, poemas, bebedeiras
e a eterna sensação de estar errado

nem só mulheres dão um pé na bunda
empregos metem o pé, FGTS consola

amizades trocam pés na bunda
depois do silêncio crescer
mais que os assuntos

famílias chutam, solenes,
as bundas de seus velhos nos asilos

até cidades nos acertam o rabo
relógios, carteira, porta da rua 

cada chute um verso
cada pé uma bebedeira
só porque sou humano
demasiadamente humano

mesmo ele, ensandecido
pensou algum dia que
finalmente, a vida lhe deu
um merecido pé

não precisou beber



Walter Biancardine


domingo, 24 de maio de 2026

LANÇAMENTO! QUEM VAI PAGAR A QUITINETE?



Há livros escritos para inspirar.
Este não.
Ele nasceu de uma pergunta mais prática: o que acontece com as pessoas comuns enquanto envelhecem, trabalham, fracassam, amam errado e continuam pagando contas?
Reuni poesias, contos e crônicas sobre sobrevivência, desgaste, solidão, humor amargo e essa estranha resistência humana de continuar seguindo em frente quando quase tudo já perdeu o brilho.
Porque às vezes o sujeito não vence.
Mas continua.
E isso também merece literatura.
"Quem Vai Pagar a Quitinete?" já está disponível:

Sempre verifique os valores de entrega cobrados pelas plataformas, caso compre o livro físico.








PATERNIDADE IMPROVISADA -

 


Estava em casa esta noite.
Pra variar, escrevendo.

Só sei que ouvi um choro baixo no escuro.
Daqueles sons que parecem erro. Primeiro você pensa ser pássaro. Depois gato. Depois percebe que há desespero ali.

Procurei.
Nada.
Entrei em casa e continuei ouvindo.
Saí outra vez.

No meio da grama encontrei um cachorrinho preto recém-nascido. Tão novo que ainda estava molhado do amniótico e uma tripa à guisa de umbigo. Olhos fechados. Parecia menos um animal e mais um pedaço de noite abandonado no chão.

Pouco antes eu havia visto a cadela grávida, mãe dele, me saudar quando cheguei da rua.
Depois ela desapareceu.

Procurei em todo o sítio.
Andei no escuro chamando uma mãe que misteriosamente evaporou. Sumida. Ou apenas continuando a vida em algum lugar, com os outros filhotes, enquanto um deles tremia sozinho no capim.
Procurei os outros.
Nada. Nem latido. Nem choro. Nem o mato se mexendo.
Só silêncio.
E existe um tipo de silêncio que parece ausência de Deus.

Voltei carregando o cachorro. Ele inteiro cabia em minha mão.

Não tenho quase nada aqui.
Não tenho fogão.
Não tenho geladeira.
Há dias em que minha situação financeira lembra mais um castigo do que uma vida organizada.
Mesmo assim improvisei.

Coloquei espuma de travesseiro dentro de um tanquinho velho.
Lençol usado virou abrigo.
Leite em pó virou tentativa.
O tanquinho virou incubadeira.

Engraçado.
Passamos a vida aprendendo que certas pessoas nasceram para salvar e outras para ser salvas.
Mas às vezes o universo parece bêbado.
Entrega um recém-nascido a um homem quebrado e observa.
Sim, sou um extintor de incêndio: muito útil em emergências, mas quem o quer na sala?
E, ainda por cima, faz apostas.

O cachorro estava frio. Molhado. Chorava forte.
Depois menos.
Depois dormiu.
Cagou na minha mão. Tal qual o mundo cagou – e andou – para ele. Ou para todos.

Era uma substância escura, quase preta. Curioso como até merda vira esperança, dependendo da noite.

Lembro de ter pensado: a vida insiste em funcionar mesmo cercada de razões para desistir. Sequei com um pano velho e esquentei o bicho contra o peito como fazem mulheres, prematuros e desesperados.

Ele se enroscou.
E passei um bom tempo assim.
Esse foi o pior momento.

Porque até então eu estava com raiva do mundo.
Da injustiça.
De Deus.
Da mãe desaparecida.

Mas quando uma criatura de poucas horas procura calor no seu corpo, a raiva muda.
Ela ganha endereço.

Percebi que não estava irritado apenas porque o cachorro podia morrer.
Eu estava irritado porque continuo incapaz de assistir certas coisas sem me importar.

A vida tentou me ensinar o contrário.
Fracassos ensinam.
Pobreza ensina.
Humilhação ensina.
E com o tempo você aprende a endurecer.
Ou finge.

Mas então surge um recém-nascido no meio da grama, numa noite qualquer, e obriga você a descobrir que ainda há algo vivo sob os escombros.
Isso irrita.
Porque sentir custa.
E eu ainda sou uma besta que chora.

Enquanto escrevo, há um cachorro preto dormindo num tanquinho de lavar roupa.
Talvez sobreviva.
Talvez não.
Não sei.

Só sei que hoje o mundo fez o que sempre faz:
Produziu abandono. Cagou e andou.

E eu fiz o que pude: parei.

E isso foi mais do que o mundo faz.


Walter Biancardine


sábado, 23 de maio de 2026

ACOSTAMENTO -

 


Há uma coisa estranha nos acostamentos da estrada.

Enquanto os homens viajam ou correm para empregos, amantes, hospitais ou enterros, alguma parte deles fica para trás.

Uma lata amassada.
Uma lanterna traseira de carro que bateu ali.
Um chinelo infantil sozinho.

Uma caixa de Big Mac.
Pinos de cocaína espalhados perto da curva.

Às vezes penso que as estradas são museus do fracasso humano.

Cada lixo é uma pista.

Uma dica.

Um recado daquilo que acontecia dentro do carro no instante em que a mão abriu a janela.

Uma discussão.

Um silêncio.

Uma traição.

Ou apenas alguém tentando continuar vivo até segunda-feira.

Outro dia vi três pinos de cocaína no mesmo trecho.

Três.

Fiquei olhando.

A cocaína talvez seja isso:
um empréstimo de grandeza dado a homens que já esqueceram o próprio nome.

Depois vêm os juros.

Os juros costumam comer a casa, o casamento, os dentes.

Mas durante alguns minutos o sujeito sente o peito cheio daquela coragem artificial que faz o fracassado acreditar que ainda derrotará o mundo.

O mundo costuma esperar sentado.

É paciente.

Mais adiante havia uma calcinha vermelha perto do mato.

Pensei: adultério. Depois: prostituição. Depois: uma mulher cansada trocando de roupa para voltar do trabalho. Os adultos passam metade da vida escondendo vergonha e a outra metade fingindo que nunca tiveram nenhuma.

A calcinha ficou.

Testemunha muda.

Às vezes encontro sapatos.

Sapatos abandonados me perturbam mais do que animais mortos.

Porque animais morrem.

Sapatos são deixados.

Um único sapato feminino – sempre um só – na estrada parece dizer:

"Houve confusão aqui."

Ou amor, se for um par deles.

Às vezes dá no mesmo.

Continuei andando.

Veio um caminhão levantando poeira.

Talvez o Brasil não esteja nos discursos nem nas propagandas de banco, onde velhos sorriem andando de bicicleta aos setenta anos.

Talvez esteja no acostamento.

No pino vazio de pó.

Na lata de cerveja.

Na sandália infantil.

Na blusa feminina largada perto do capim.

Na embalagem de Cheetos.

Ou literalmente.

Quem sabe também esteja no sujeito dirigindo à noite, acelerando demais porque ficar parado em casa exige uma coragem que ele não possui.

As estradas sabem de nós.

Sabem quem trai.

Quem bebe.

Quem cheira.

Quem dirige chorando.

Quem pensa em abandonar tudo antes do próximo posto.

Os acostamentos acumulam segredos.

E às vezes, caminhando sozinho, tenho a impressão de que as pessoas não jogam lixo pela janela.

Jogam versões fracassadas delas mesmas.

Deixam pistas.

E o tempo faz um diário.


Walter Biancardine





sexta-feira, 22 de maio de 2026

O DIA QUE ELE PAROU DE OPINAR -


A decisão veio numa quarta-feira, depois do café.
Não por filosofia, nem por evolução espiritual. Foi cansaço mesmo.

Alfredo percebeu que passava os dias opinando. Sobre política, futebol, preço do arroz, chuva, juventude, velhice, televisão, remédio, imposto, cachorro do vizinho e gente que usava palavras em inglês sem necessidade. Sobretudo isso.
Tinha opinião até sobre quem não devia ter opinião.

Naquela manhã, olhando o café esfriar, pensou uma coisa estranha: "e se eu passasse um dia inteiro sem achar nada sobre coisa nenhuma?"
Pareceu simples. Quase infantil.

Às oito e quinze a esposa apareceu na cozinha.
- Vai chover.

Alfredo abriu a boca. Ia dizer que o tempo andava diferente, que antigamente maio era mais frio, que o desmatamento, que os políticos, que a humanidade...
Parou. Tomou café.

A esposa olhou.
- Tá passando mal?

Ele balançou a cabeça. Primeira vitória.

Às nove e vinte quase perdeu o controle ao ouvir um comentarista no rádio dizer que idosos precisavam se reinventar. Sentiu a resposta subir inteira pelo peito:
"Reinventar uma ova. Homem de sessenta anos quer o INSS e preço baixo no mercado..."
Engoliu. Desligou o rádio.

Percebeu então uma coisa desconfortável: o silêncio fazia barulho.
Passou a manhã evitando pensamentos como quem evita cigarro depois do infarto.
No banco, uma senhora reclamou da demora. Ele concordaria normalmente. Não concordou.
No mercado, ouviu dois jovens discutindo investimentos. Não corrigiu.
O vizinho apareceu dizendo:
- Esse país acabou.

Alfredo respondeu:
- Talvez.

O vizinho ficou olhando alguns segundos. Depois perguntou:
- Você dormiu bem?

Ao meio-dia surgiu um problema inesperado. Sem opiniões, Alfredo começou a notar coisas.
A rachadura perto da janela. O modo como a esposa colocava duas colheres de açúcar no café escondido dele. O fato de que havia anos ninguém perguntava o que ele queria fazer.
Nem ele mesmo.

Descobriu outra coisa pior: durante décadas confundira personalidade com reação. Achava que era firme. Talvez fosse só alguém acostumado a responder.
Às quatro da tarde sentiu medo. Medo verdadeiro.
Porque começou a suspeitar que, retirando opiniões, indignações e explicações, sobrava um homem sentado numa cadeira de plástico olhando o quintal. E ele não sabia quase nada sobre aquele homem.

À noite, a esposa perguntou:
- Você está estranho hoje.

Alfredo pensou bastante antes de responder. Talvez pela primeira vez em muitos anos.
Então disse:
- Acho que passei tempo demais falando do mundo... e esqueci de descobrir se gosto dele.

Ela franziu a testa.
- Que bobagem… 

E voltou para a novela.

Alfredo ficou sentado ouvindo o som da televisão vindo da sala.
Sem conclusão.
Sem revelação.
Sem mudança profunda.

Mas com uma sensação nova e desagradável: talvez a velhice começasse no dia em que um homem percebe que passou décadas construindo opiniões e quase nenhum silêncio.


Walter Biancardine



CASUARINAS

 


As casuarinas de Cabo Frio me apresentaram à solitude
somente nas praias ainda desertas
eu podia ouvir o uivo do vento em seus ramos
deitava nas areias, fechava os olhos
e ouvia

uivando, uivando…

minha casa era cercada por elas, muro de sentinelas
vento sudoeste forte, chuva, e elas uivando
pinheiro praiano, insinuante,
quase ameaçadora e fantasmagórica
e eu gostava

só aqui as encontrava, nunca vi em outro lugar
um dia homens vieram
mediram, marcaram troncos
falavam baixo, apontavam mapas
depois vieram motosserras

as dunas também ganharam cercas
placas, avisos
o mato subiu nelas devagar
até esquecerem o movimento
e endurecerem

mataram minhas amigas
casuarinas, dunas
só restou o vento e o mar
prédios barram o vento
o mar vira lama

mataram minhas amigas

eu ainda estou aqui




Walter Biancardine



CURRÍCULO DE UM EX-COMBATENTE -

  


Tenho sessenta e dois anos e um problema moderno:

quando digitam meu nome no Google,

não encontram apenas um homem


encontram trincheiras

encontram fumaça

encontram artigos escritos às duas da manhã,

quando eu ainda acreditava que palavras eram marretas

e que uma frase correta

podia endireitar o mundo


passei anos discutindo com desconhecidos,

defendendo causas,

apanhando,

batendo,

colecionando inimigos que jamais me pagaram aluguel

nem apareceram quando a geladeira fez aquele silêncio

de viúva


hoje envio currículos


engraçado

a palavra currículo

soa limpa,

passada,

engomada

mas o meu vem com cheiro de pólvora antiga


talvez algum rapaz de RH,

mais jovem que meus textos,

abra meu perfil e pense:

- Esse homem parece cansado de guerra

homens cansados de guerra às vezes explodem por pouco


e fecha a aba


sem entrevista

sem café

sem saber

que já faz tempo

que troquei os tiros

por contemplar chuva fina caindo sobre telhados velhos

      

há dias em que me sinto como uma ex-puta

Madalena arrependida que largou o ofício

mas ninguém acredita

porque as meias de renda ainda aparecem

por debaixo do vestido recatado


só que não vendia o corpo

vendi convicções,

minha juventude,

minhas amizades,

o benefício da dúvida


agora abandonei o meretrício ideológico,

mas o bairro ainda cochicha:

- Conhecemos você

sabemos quem foi


o passado não larga o tornozelo

      

penso nos homens antigos

operários

motoristas

meu pai


homens que envelheciam

e ainda eram vistos como úteis


hoje envelhecemos online

há prints da nossa fúria

arquivos da nossa arrogância


enterramos opiniões,

mas elas continuam respirando em servidores


o século XXI inventou fantasmas permanentes

      

mas talvez eu não seja uma ex-puta

talvez seja pior:

um ex-boxeador

nariz torto

mãos endurecidas

olhos procurando adversários

em salas onde só há gente falando sobre metas trimestrais


perguntam:

- Trabalha bem em equipe?

e dentro de mim

uma parte responde:


sobrevivi sozinho


outra,

mais baixa,

quase infantil,

sussurra:


aprenderia

ainda aprenderia

      

porque eis a humilhação que ninguém admite:

o homem envelhece,

as certezas apodrecem,

e um dia ele descobre

que queria menos vencer debates

e mais sentar numa varanda,

ao lado de alguém,

segurando café quente,

sem precisar convencer ninguém de nada

      

talvez seja tarde

talvez não

os velhos conhecem uma verdade

que os jovens desprezam:

há árvores que parecem mortas no inverno

e passam meses inteiros

sem dar sinal


depois,

quase por teimosia,

uma folha


só uma


e já basta

para desmentir o machado



Walter Biancardine




quinta-feira, 21 de maio de 2026

SÓ PRA LEMBRAR, NADA MAIS DIREI -

  


Prometi a mim mesmo não falar mais de política mas, dada a enormidade de ignorâncias que tenho visto, acho que ainda faltou dizer uma coisa.

A direita brasileira sempre foi magrela, esquálida e desnutrida, mas sobreviveu até o regime militar acabar com ela. Limar nomes como Carlos Lacerda e Ademar de Barros foi o golpe de misericórdia dos generais positivistas – e se alguém ainda acha que Juscelino Kubitschek era direita, precisa visitar o hospício.

Sim, pra ficar somente em dois pequenos pontos, criar a indústria automobilística brasileira (sob a bandeira brizolista de “evasão de divisas”) e a industrialização súbita do país nada mais foi que criar uma “classe operária”, fabril, pronta e ávida pelos discursos da esquerda urbana e fedendo a países europeus. Essa classe pariu e amamentou Lula. 

E o outro ponto foi Brasília. Isolar a “corte” do alcance da plebe era a meta (“50 pessoas fazem barulho neste país, da zona sul do Rio de Janeiro”, JK) e Juscelino ainda arrematou com chave de ouro stalinista, convocando Oscar Niemeyer para lá construir sua Stalingrado arquitetônica particular – puro concreto e gigantismo, a nos lembrar como somos pequenos diante do Estado.

Voltando ao caso. Não há direita no Brasil hoje que não deva até os fundilhos das calças a Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro. Se é analista político, youtuber, “celebritie” das redes e é de direita, cedo ou tarde usará argumentos pescados nos vídeos de Olavo (que assistiram, sôfregos, umas 350 vezes cada um e se acham, hoje, sucessores dele), e se é do ramo do baixo lenocínio – política – será eternamente devedor a Bolsonaro.

Sim, ele, Jair, foi o primeiro a ter culhões e bater no peito dizendo “eu sou de direita”, enquanto outros se borravam ou aderiam discretamente à bandalha vigente. Qualquer candidato de direita hoje, tem por obrigação se retirar da disputa e apoiar o insípido Flávio Bolsonaro – única e exclusivamente pelo fato de seu pai o haver escolhido. Se ele achasse o Zema bom, teria indicado ele. Se achasse o Caiado bom, a mesma coisa.

E aos cretinos ignorantes do YouTube, Facebook ou seja lá qual rede for, que se acham (em secreto, pois jamais diriam isso em público) “sucessores de Olavo” – em especial gente metida a erudita, mestres, doutores, sapiência máxima e fonte da verdade, cheios de diplomas que melhor serventia teriam se usados como supositórios e que se dão ao desplante de hoje defender Zema, uso algo típico do Olavo: dizer que Zema “é um homem íntegro, honesto e correto” é ARGUMENTO AD HOMINEM, tal qual os xingamentos da esquerda que nunca rebatem propostas, apenas desqualificam o proponente. 

Sim o cara pode ser honesto, mas e daí? Qual a proposta? O que ele pretende? E outra: como ele se explica por ter apoiado a criminosa vacinação contra a COVID em MG, e até ignorado servidores que não se submeteram a essa barbaridade?

Caiam na real: a direita no Brasil não existe e está quase em vias de extinção. Olavo já cantou pra subir, e se Bolsonaro for atrás, babou.

Eu voto em Flávio. É um imbecil. Mas é o nosso imbecil – e escolhido por Bolsonaro, o último direitista deste país.

Era o que eu tinha pra dizer. 

Vocês, que defendem candidatos com mais fúria que defendem as famílias, que se entendam.


Walter Biancardine



SISTEMA -

 


Quando digo que tenho horror ao sistema, uns e outros acham muito vago. Que é um disfarce só pra posar de contestador. Que se eu fosse contra mesmo, eu criticaria Lula, Bolsonaro, STF ou seja lá o que esteja em moda atualmente, o último capítulo dessa novela que o povo assiste com fanatismo todos os dias.

Hoje, nem ligo. Que se danem.

Mas sempre terei horror a algo que obriga um idoso a saber usar celulares e aplicativos para acessar seus próprios direitos. O cara que carregou os tijolos dessa alvenaria agora é barrado na casa porque não sabe baixar um app.

E quando falo “idoso” acho que dá pra incluir o povo da roça, o pessoal rural, que nunca teve tempo pra gastar visitando a Google Play e saber das últimas novidades. Aí a sacanagem não tem idade, é democrática. Esses também estão de fora.

Daria pra escrever uma enciclopédia de 30 volumes falando mal do sistema, mas me resumo a esses dois pontos porque o primeiro deles – idosos obrigados a acessarem e entenderem de apps – eu vi numa postagem aqui do Facebook, mas não lembro o nome de quem postou. E achei uma queixa justa, tocando num tema em que eu, realmente, nunca havia pensado.

Não sou ainda um “idoso oficial”, tenho menos de 65 anos e nem passe livre em ônibus desfruto. Mas tenho idade suficiente – ou “tenho muita experiência”, como dizem os garotos do RH – para ser solenemente rejeitado em todas as minhas pretensões de emprego. E também, sou semi-analfabeto digital. Então sei o que os idosos e o povo da roça passam.

Pra mim, nenhuma diferença faz se o governo é de direita ou de esquerda. Ambos – se são governo – são “sistema”. Posso preferir um ou outro por questões filosóficas, sociológicas ou até mesmo pela mais pura e bruta experiência de vida: sei, de antemão, que aquela merda não dá certo. Mas o fato é que tanto um quanto outro nos usam, nos esfolam e nos chupam – no pior sentido – até nada sobrar. E isso eu não aceito.

Li na Bíblia: “ganharás o pão com o suor de teu rosto”, e não “ganharás teu pão ao preço de sua vida, dignidade e personalidade”.

E nisso vai toda a diferença.



Walter Biancardine


quarta-feira, 20 de maio de 2026

VIDAS BALDIAS -

 


Sempre há algo de melancólico em qualquer local abandonado.

Seja uma casa, um parque de diversões ou mesmo um teatro, sempre haverá tristeza pingando do suor da construção.

Coisa engraçada: o campo, por mais esquecido que seja, nunca dá ares de abandono.

Não passa ninguém, ninguém o conhece ou lá deixa suas pegadas, fogueiras ou troncos cortados. E mesmo assim sempre parece novo, arrumado, em ordem. Muitos diriam que o deserto é o campo abandonado, a melancolia do verde, mas nem de longe é.

O deserto é templo. Personagem bíblico. 

Homens entram no deserto e voltam ouvindo vozes.

Digo isso por conta da chuva de hoje, que me obrigou a trabalhos de reparação onde vivo.

Transito entre um empreendimento abandonado – e melancólico – e os pastos sempre novos, promissores.

Andei por um, andei por outro, e senti o cheiro pesado de um passado nas alvenarias, bem como a vida brotando dos marrecos na lagoa.

E senti, também, uma calma antiga a divagar sobre dias chuvosos, xícaras de café, conversas lentas, lembranças de mil anos e a mulher amada ao meu lado.

Eu não mais sou abandono.

Só agora enxerguei o que me cerca.


Walter Biancardine




DIAS DE CHUVA, DIAS DE PAZ -

 


Chove, aqui. 
A chuva me marca desde criança. Bons momentos, maus momentos. 
Do cheiro de gasolina em uma casinha onde guardávamos motonetas, na minha infância, à simples contemplação da grama encharcada – triste por não poder sair, feliz por me sentir protegido. 
Sempre há grama em lembranças antigas. 
Nunca pensei nisso antes. 

A chuva faz pensar essas bobagens. 
Ou verdades. 
Às vezes são a mesma coisa.

Também me vem o sentimento de, já mais velho, conversar com amigos em varandas ou mesmo bares com mesas na calçada e abrigadas por marquises. 

Conversa fiada, 
sempre mais lenta e calma que em dias de sol. 
Um vagar no ar, ouvir gente respirar fundo olhando pro nada…  
demora em responder…
Conversas que não precisavam chegar a lugar nenhum. E talvez por isso fossem boas.

Em dias chuvosos os homens desaceleram.
Olham mais.
Respondem depois.
Respiram fundo antes de terminar frases simples.
Como se houvesse uma espécie de acordo silencioso entre o tempo e a água:
hoje ninguém precisa correr.

Não raro, um café vinha no lugar da cerveja. Um cigarro amigo, sempre parceiro no nada, e eu olhando para sua fumaça –
 
sem nada pensar, 
nada temer 
ou ansiar. 

Adultos quase nunca conseguem não pensar.
Mas às vezes eu conseguia, olhando a fumaça, ouvindo chuva,

sendo apenas um homem parado
sem defender passado
nem organizar futuro.

Mesmo viagens em motocicletas, na chuva, eram apavorantes e fascinantes ao mesmo tempo. 

As gotas em minha cara se transformavam em pequenas agulhas me picando, 
e os cheiros da estrada vinham mais fortes. 

Mas hoje, tanto tempo passado, 
me volta a lembrança a velha varanda, 
gotas gordas pingando das telhas no gramado ensopado, 
e minha Nana trazendo um café…  quentinho…  só para mim. 

O melhor de tudo: ela senta ao meu lado e me aquece. 
Talvez não pensemos em nada.
Talvez estejamos apenas existindo.
Expressão estranha.

E ali ficamos, olhando o frio, contando gotas e pensando em algo tão além que nunca sabemos o que é.

Hoje chove. Estou aqui. E não há tristeza nisso.

Esperando.

Ainda feliz
por estar protegido.


Walter Biancardine