A vida cobra.
O que se segue não é divagação – é
inventário.
É contabilidade moral feita no fim do expediente, quando o caixa
não fecha e o sujeito finge que não viu o rombo. Uma ferida antiga,
dessas que só doem quando a gente para de correr.
A vida, em certos períodos, deixa de ser narrativa e vira uma
sucessão de baixas. Não é um grande desastre, não há música
trágica ao fundo. É pior: tudo vai indo embora em silêncio.
Primeiro o emprego, que não era vocação, mas pagava as contas e
dava alguma dignidade ao cansaço. Depois alguns bens, que não eram
luxo, mas eram seus – ou pareciam. Depois as amizades, que não
acabam por briga, mas por falta de assunto, por agendas
incompatíveis, por um cansaço mútuo de fingir entusiasmo. Por fim,
os amores. Esses não vão embora: evaporam. Um dia você acorda e
percebe que está sozinho. E não há o que fazer.
Há um momento da vida – geralmente depois da quarta ou quinta
grande perda – em que a existência começa a parecer um inventário
negativo. Não se soma mais; subtrai-se. A esperança some aos
poucos, como uma goteira que a gente aprende a ignorar. E, para não
enlouquecer, repetimos a frase anestésica: “a vida é assim
mesmo”. É a morfina dos fracos e o álibi dos cansados.
Essa frase é imbecil, mas sempre repetida com a sabedoria de um
papagaio budista. Pronto. Fecha-se o caixão do pensamento e segue-se
em frente. Ela não explica nada, mas tem uma utilidade preciosa:
impede o cálculo. Porque, se você somar de verdade o que perdeu –
pessoas, projetos, versões de si mesmo – a conta assusta. Não é
pouco. Não é banal. É muito. E aí surge a pergunta que evitamos
como quem evita um diagnóstico: se perdi tanto, é porque tive esse
tanto. Eu era rico?
A mente recua nesse ponto. Aciona a defesa automática. Não,
claro que não éramos ricos. Sempre faltou algo. Sempre houve
frustração, limite, desejo não atendido. Mas isso é truque
retórico da própria miséria. A verdade incômoda é que, sim,
houve riqueza. Não no sentido bancário – esse é o mais vulgar –
mas no sentido existencial. Houve abundância de sentido, de
presença, de expectativa. Houve dias cheios demais. Houve gente
demais. Houve amor suficiente para achar que o mundo tinha um eixo.
Só perde quem possui.
O resto é discurso de pobre
espiritual tentando parecer sábio.
Em momentos de maior lucidez – ou de maior exaustão –
tentamos o caminho oposto: o da negação radical da posse. Dizemos a
nós mesmos que nada é nosso. Que tudo é empréstimo. Que
morreremos e os bens ficarão, os amigos seguirão suas vidas, os
amores amarão outros corpos com a mesma boca que um dia jurou
eternidade. Há uma certa elegância nisso, uma postura quase
espiritual. Morremos e tudo fica. Amigos seguem. As mulheres que
amamos continuam respirando em outros braços.
O desapego entra em cena como virtude superior, quase um diploma
moral. Não se apegar vira sinônimo de maturidade.
É verdade. Tudo isso é verdade. Mas é uma verdade fria, dita de
longe, como quem descreve um acidente do outro lado da estrada.
O problema é que essa verdade não anestesia coisa nenhuma quando
a perda acontece. Ela só funciona em palestras, livros de autoajuda
com capa bege e frases sublinhadas. Na vida real, perder a mulher
amada – ou perder uma situação que dava chão ao dia – dói
como amputação. E não há filosofia oriental que resolva isso às
três da manhã, quando a casa está silenciosa demais e o copo já
está vazio demais.
Então aparece o elogio do desapego. Palavra bonita, vendável,
que soa elevada. Mas o desapego, quando levado a sério, tem um preço
que poucos admitem. Porque não se desapega seletivamente. Quem
aprende a não se agarrar, aprende também a não se lançar inteiro.
E quem não se lança inteiro vive pela metade. Funciona. Dói menos.
Mas também vale menos.
Aí surge a pergunta central, a única que presta: existe um ponto
de equilíbrio? É possível amar alguém sabendo – de verdade, não
da boca pra fora – que ela nunca será sua? É possível lutar por
algo sabendo que, no fim, aquilo será deixado para outros ou
dissolvido pelo tempo? Ou toda tentativa de equilíbrio não passa de
um cinismo elegante, uma frieza treinada, um jeito de continuar vivo
sem se comprometer demais?
A resposta honesta é desagradável: não há equilíbrio
confortável. O que há são escolhas trágicas disfarçadas de
virtude.
Há quem escolha amar como se fosse eterno, mesmo sabendo que não
é. Essas pessoas sangram mais. Bebem mais. Envelhecem mais rápido.
Mas vivem com uma intensidade que não cabe em frases de efeito.
Sabem que tudo acaba, mas se recusam a viver como se isso fosse a
única verdade relevante. Apostam sabendo que vão perder.
E perdem. Repetidas vezes.
Há quem escolha o distanciamento inteligente. Observa, calcula,
ironiza. Não se ilude, não promete, não se entrega por completo.
Evita o tombo reduzindo a altura do salto. Sofre menos, sem dúvida.
Mas passa pela vida como quem passa por um bar ruim: entra, bebe algo
morno, vai embora sem lembrar do rosto de ninguém.
E há os que tentam o meio-termo – o mais perigoso de todos.
Querem amar, mas com cláusulas. Querem lutar, mas com plano de
saída. Querem intensidade com seguro emocional. O resultado costuma
ser patético: não vivem de verdade e ainda assim sofrem. Porque o
coração não respeita contratos assinados pela razão, ainda que
digam que tudo é apenas “resultado de minhas escolhas”.
No fundo, toda essa discussão sobre posse, desapego e equilíbrio
é uma tentativa desesperada de domesticar a perda. Mas a perda não
é um erro do sistema. Ela é o sistema. A vida não é uma sucessão
de perdas por acidente; é uma longa operação de desapropriação.
Primeiro tira o supérfluo, depois o necessário, por fim o
essencial. E ainda espera que você agradeça pela experiência.
Talvez a única postura minimamente honesta seja aceitar a
contradição sem tentar resolvê-la. Amar sabendo que vai perder.
Construir sabendo que vai ruir. Lutar sabendo que outro colherá. Não
por heroísmo nem por virtude, mas porque a alternativa – o cinismo
absoluto – é uma morte antecipada com traje esporte fino.
Isso não é esperança. Esperança é coisa para jovens e
religiosos bem resolvidos.
Isso é lucidez suja. Daquelas que
não salvam, mas permitem atravessar o dia sem mentir demais para si
mesmo.
No fim, a vida não nos pergunta se queremos perder. Ela apenas
pergunta quanto estamos dispostos a viver antes da perda. E essa
pergunta, infelizmente, não admite resposta inteligente.
Só resposta vivida.
Prefiro esta resposta.
Walter Biancardine