quase todo psicólogo não quer curar ninguém mas a si mesmo assim são os poetas não querem ser compreendidos só entender achar algum sentido em si mesmos no fundo todo mundo quer colo
o mais ridículo da poesia é se derramar todo ficar nu e confessar o inconfessável falar de dores e frustrações e tudo de ruim que nos rói por dentro e depois de tudo isso de toda essa nudez indecente quase um exibicionismo aparecer um qualquer pra fazer pouco e rir debochar e te julgar dizer que sua dor é vulgar o que você sente é pobre é comum e nenhum valor tem e que no fundo o que você faz é chorar de barriga cheia vá arrumar um emprego rapaz já comi uns pastéis iguais a essa gente sem recheio gosto de nada só casca
ser eu é um negócio muito chato nada pra fazer dinheiro pra nada fome na hora errada sempre tarde da noite fora a vontade de comer uma coisa que é sempre o que não tem é muito chato ser eu quando quero beber umas cervejas com os amigos e os amigos sumiram ou foram embora ou morreram ou me evitam porque sou esquisito esse eu veio sem manual e eu não sabia dessa mania de querer o que não posso ter e até
quem não posso ter mas o pior de ser eu é que o prazo venceu e não posso trocar por um modelo melhor vou passar adiante vende-se um eu único dono
a fome escolhe as palavras certas corações rasgados as espalham no papel desesperança poupa linhas e vírgulas e a insônia mistura na loucura chique a miséria a dor e o desalento são autores bons só de longe Walter Biancardine
A cachorra teve filhotes. Me pego gastando tempo olhando os bichinhos. Já tive muitos cachorros. Vi muitos filhotes. Sei o que fazem e como reagem. E sei quase tudo que vai acontecer. Os vi de olhos fechados, sem nada perceber além da fome. Vi seus primeiros passos, achando o próprio chão uma novidade. Nas primeiras brincadeiras percebemos os temperamentos. E as moças e rapazes em volta se encantam com eles. E os levam. Um a um. Sei quase tudo que vai acontecer. Tudo se repete, geração após geração. Me pergunto se Deus também nos olha assim. Seremos crias, destinos traçados? Que minha dona cuide bem de mim. Walter Biancardine
só percebemos a loucura quando nos curamos dela tal como os olhos se acostumam com o escuro e só agradecem a luz quando ela vem não dormir é tortura privação do sono da razão endoidamos aos poucos sem nos darmos conta até dormirmos nos curando depois seria correto pedir perdão por tudo mas se não dormi foi a miséria aplaudida festejada que causou legítima defesa não precisa perdão
tarde assim eu viro o dia como página de livro a diferença é nada ter lido que valesse a pena livro velho folhas amarelas páginas amassadas ainda bem algumas foram jogadas fora no lixo a capa puída no entanto mostra que foi lido e relido mas nada aprendido
basta uma noite uma só noite uma noite apenas sem ela e perco o norte não leio estrelas nem sinto o vento me levar fico aqui só tentando escrever poemas fatais versos infalíveis só sai merda melhor nem dizer ou escrever fiz um verso certamente não falha bastaria ela ouvir e correria de mim tenho que calar aprender a aguentar contar as horas os minutos e os segundos
hoje pela primeira vez alguém me perguntou se eu era o autor do livro Quem Vai Pagar a Quitinete? quase me senti um escritor fiquei feliz por ele lembrar e triste por não ter comprado só vendi um e que eu saiba não foi ele quem comprou
Dei uma folga pra mim. Resolvi ser mais infantil no que escrevo. Mais bobo, ou o que chamam de “espontâneo”. Penso que um homem é como um planeta: se a atmosfera é irrespirável, não há vida possível. E sem vida, não há criação. Por isso me dei essa folga. Na verdade sou um planeta poluído. Tóxico. Mas ainda habitável, pra quem aguentar. Só que nem eu mesmo estava mais me aguentando. E danei a escrever sobre manhãs e entardeceres, dias nublados e outras coisas dessa rotina miserável que chamam de vida. Gasto meus dias escrevendo sobre fracasso. Miséria. Lixo. Sarjeta. A ideia é mostrar que é possível resistir ao sistema. O preço é alto, mas é possível. Mas um dia – e isso sempre acontece – o saco enche e eu pergunto: - Então por que não meto uma bala na testa? É a grande pergunta que se pode fazer a um cético. Ou niilista. A macheza acaba em segundos. E comigo não é diferente. Melhor eu escrever sobre as manhãs nubladas. Ninguém interpreta o papel de “maldito” até o fim. Ninguém quer morrer.
a tristeza com que me despedi da manhã agora dá lugar a ânsia do entardecer ultimamente vejo que o sol não me agrada o corpo tão fraco tem cedido à alma manhãs e tardes e dias nublados claridades difusas tudo isso certamente quer dizer alguma coisa minha idade entardece e o espírito nubla talvez sim ou não mas foi o que me veio ao que resta da cabeça
busco em minha editora algo sobre as vendas dos meus livros mais parecem as antigas pirâmides imóveis há cinco mil anos na verdade os acho umas porcarias e a vergonha manda que os recolha mas se for assim também acho uma merda tudo o que escrevi há mais de uma hora pouco vai sobrar e se a vida do que escrevo é tão curta pra quê escrever? que fiquem lá e um dia os descubram fósseis terão algum valor
demoro a acordar são dez da manhã começo a escrever e logo é tarde não dura nada minha manhã nublada encantada que tanto inspira culpo a madrugada que me enrola numa conversa sem fim é ciumenta disputa com a manhã o prazer de me espremer pra ver o que sai
preciso escrever logo e antes que o sol saia ele ameaça o cinza deprime e inspira porque traz lembranças elas doem a chuva caindo nos encharca de passado os dias nublados poupam olhos que lembram e o vento frio enche os pulmões de vozes finalmente livres pra irem embora
odeio o desalento que os dias nublados trazem pra mim mas a melancolia em poemas compulsivos fazem gosto tão bom escrever que o gostar ou não do cinza lá fora já pouco me importa e mesmo o desalento melancolia ou tristeza bem gosto se me ajudam não me importo comigo mas com o que crio e escrevo eu gosto de dias nublados
ouvi uma música “cariocas não gostam de dias nublados” mas eu gosto descobri doendo que não sinto falta de minha cidade o que me falta não é aonde mas o quando vivi por lá o tempo faz a água alisar e moldar uma pedra o que não faria comigo que sou bem mais mole dias nublados e o frio me agradam é um bom final pra esse filme já longo demais
devia ser proibido precisa uma lei contra fazer barulho de manhã cedo nada pior que acordar e ter alguém gritando discutindo ou rindo e jogando coisas isso não é natural o sono é um abrigo quieto e seguro e silencioso e quente e de repente alguém aparece e grita ou joga uma lata de lixo no chão pior as exclamações o falatório contigo como se todo o mundo acordasse com eles é uma gente sem mãe não sabem ir aos poucos é do cobertor ao freezer de uma só vez
filme no quarto à noite inteira não é distração é solidão o mesmo de sempre no Facebook ninguém pra falar é solidão disfarça e ri são só manias não são é solidão mente brilhante subiu alto demais olhou em volta é solidão juventude foi embora interesseiros ao lado a graça acabou é solidão nada interessa nada tem pressa não faz mais sentido é solidão seguir o destino cumprir a missão é o que resta é solidão
é como ser feio e ter olho azul de nada adianta ser um bom patrão é como se apaixonar pela piranha do bairro cedo ou tarde leva uma mas é melhor ser patrão ou bom funcionário que viver na merda rebeldia é como espinhas passa com a idade e se não passar te apontam na rua
vivo tanto no meu mundo quase sem janelas pra vida normal dos outros que me surpreende ao ler o que outros escrevem e lembro que são todos adultos algo não tá certo mulheres confundem feminino com ser menina e homens tentam ser profundos e se vestem como malditos redações da quinta série pornografia à parte devem ser mais adultas Shakespeare e Camões Bukowski e Pessoa na mesma turma da creche sem a Tia Walter Biancardine
tem hora que nada mais sai a intenção é até boa mas não adianta você espreme a cabeça tenta criar escrever e nada mas quando acontece o tempo passa e não notamos escrever e criar e fazer compor e arrumar e rimar qualquer coisa qualquer coisa desde que o tempo passe e eu não veja o hoje já cansou quero o amanhã me iludindo que será melhor e todo dia é assim Walter Biancardine
um dia tudo acaba você sai de casa desempregado sem ter pra onde ir mochila nas costas anda e anda e anda a cidade é pequena não vale a vergonha vai pra estrada e anda e anda e anda sem rumo e sem fé a sandália se desfaz segue descalço pés imundos furado por pedras o respeito vai embora continua andando as roupas rasgam sujas e manchadas hora de dormir procura um mato acostamento salva bichos pinicam a fome começa dia amanhece barba cresce roupa em farrapos descalço e sujo te oferecem um café salvou a manhã e a fome a dignidade vai embora e continua andando acha uma bituca fuma sem medo higiene também foi embora ganha um resto de uma quentinha come com gosto amor próprio se foi senta no mato pensa na vida como desceu tanto assim não tem amigos não tem parentes não tem ninguém que lembre ou se importe não tem resposta um conhecido passa você tenta fugir ele te chama te aconselha a dar um jeito nessa vida procurar um trabalho como não pensei nisso antes? com minha boa aparência vai ser fácil o sujeito não merece que eu estrague meu “réu primário” sigo em frente me oferecem um teto e vou ainda querem que eu seja normal que seja otimista agradeça a Deus não posso culpar são gente normal nunca souberam o que é essa vida eles não sabem algumas cicatrizes nunca e nunca nunca mais saem da pele e da alma Walter Biancardine
mais um dia chega ao fim e percebi que novamente não fiquei rico então escurece e tudo fecha dá tristeza saber só amanhã ficarei rico a noite é uma agonia ansioso que chegue minha riqueza ou que a farmácia entregue o Gardenal
preencha o formulário nome do pai e da mãe identidade e CPF entregue na sala 4 na sala 4 pedem um carimbo da sala 3 e você vai mas o rapaz deu uma saidinha você espera 20 minutos o rapaz volta e vê fica 10 minutos olhando decidindo se seu papel merece seu maravilhoso carimbo você volta na sala 4 mas falta comprovante de renda e residência volte amanhã mas você é prevenido já tinha tudo na pasta a mulher não esconde a raiva que ficou ela junta tudo leva pro chefe leva meia hora conversando e volta vitoriosa porque falta o atestado de bons antecedentes dia seguinte você leva mas tem que preencher tudo de novo é norma preencha o formulário nome do pai e do filho e até do Espírito Santo quem sabe agora vai? Amém