domingo, 3 de maio de 2026

INTERNAUTAS ANÔNIMOS – O vício em dopamina

 


Temos os Alcoólicos Anônimos, que por frescura deixou de usar o termo alcoólatra, e temos mesmo algo semelhante voltado aos viciados em drogas e jogatinas. Como hoje em dia um negócio em alta é inventar doenças, existem também grupos de apoio às mulheres que amam demais, aos viciados em sexo, em descabelar o palhaço no Xvídeos e até em comer cachorro-quente. 

O caso é que já passou da hora de fundarem um grupo de apoio aos viciados em internet – leia-se “viciados em um orgasmo de dopamina a cada quinze segundos”, pois os reels, vídeos do Tik Tok, tweeters ou o tempo que se leva para ler o primeiro parágrafo de uma postagem no Facebook e dar uma resposta furiosa é exatamente esse: quinze segundos.

Na era pré-internet sabíamos das coisas lendo jornais, ouvindo comentários nos botequins, salas de espera do dentista ou mesmo das vizinhas fofoqueiras. E isso tinha seu tempo próprio, um ritmo normal, humano, potável. Um boato por mês? Um escândalo a cada quinze dias? Uma nova fofoca toda semana? Sem problemas, tudo digerível, avaliável, julgável e – principalmente – sabidos de forma absolutamente passiva: sabíamos, nos escandalizávamos, comentávamos com o fofoqueiro e pronto, morria aí o assunto.

Hoje não. Hoje somos “celebrities das redes sociais”, não podemos decepcionar nosso público se não postarmos nossos comentários furibundos e dar a todos o merecido orgasmo de quinze segundos. Sim, somos ídolos. Temos públicos. Viramos, todos, artistas. Até nossa casa é mostrada em fotos, junto com as férias na praia ou o prato cheio na churrascaria.

A verdade é que somos todos doentes, e não nos demos conta.

O viciado nunca admite o vício. O paranóico jamais admite sua patologia. E a cura, infelizmente, será compulsória – tal como a dos citados.

Chegará o dia em que teremos uma guerra. Uma guerra não, uma hecatombe, uma catástrofe – é questão de apenas esperar. E neste dia as redes ficarão fora do ar. Bombardeios, explosões, tudo isso levará pelos ares nosso mundo de fantasias. Deixaremos de ser “celebrities” e passaremos a ser novamente pessoas comuns. Pior: refugiados. Sobreviventes. Nenhum glamour. E sem instagram.

Some as horas em que você passa na internet. Pese quantos quilos de fúria você engole ao ler postagens que te desagradem. E veja o que sobrou de sua vida, de sua cabeça, de sua paz.

Mas sei que perco meu tempo. Eu mesmo estou aqui, na internet.

Mas ao menos jamais escondi meus tombos.

Eu bebo. Eu fumo. E uso a internet.


Walter Biancardine



DONO DE ESCRAVOS -


Princesa Isabel assinou uma lei.
Libertou o povo das senzalas mas a República os prendeu na favela.

Então o brasileiro descobriu que podia ser empresário. E o governo escravizou os empresários, arrancando suas bolas através de impostos. E os empresários escravizaram os empregados pagando salários ridículos – senão o lucro acaba, dizem eles.

Cabeças de merda, nunca imaginaram que seus empregados poderiam ser também consumidores de seus próprios produtos. O lucro acaba, sempre repetem.

Aqui nunca existiu classe média. É a que consome, a que paga impostos.
Não. Aqui, pobre paga imposto também. Aqui se vive da pobreza, da miséria e dos funcionários das estatais e servidores públicos. Aqui se vive da Corte.

Sujeito trabalha o dia todo e seu salário, dividido pelos trinta dias do mês, não compra um frango assado. Escravidão tão boa que vieram as multinacionais – era preciso explorar também. Eles sim, sabem explorar, oferecem alguns mimos e deixam o cativo feliz e se sentindo superior.
E a Corte descobriu que miséria dá voto. Sempre deu. Sempre imploramos por heróis, as novelas da TV mostram isso.

E a Corte quase extinguiu o salário, trocando o contracheque por vale-transporte, vale-gás, bolsa família, bolsa escola, passe gratuito pra idosos, pra deficientes, farmácias que dão remédios gratuitos (comprados pelo Governo em licitações fraudadas), programa Minha Casa Minha Vida – no fim das contas, você descobre que trabalha a troco de casa e comida. Tudo dado pelo governo, comprado com seu dinheiro de impostos. E os empresários nada pagam, além de uma carga tributária trabalhista que esfola o pequeno comerciante. Mas ajuda as grandes empresas, elimina a concorrência.

Aqui, grandes empresas são feudos. Nelas trabalham os privilegiados. Somos servos da gleba e ainda não saímos da era feudal, embora jamais tenhamos atravessados uma Idade Média.
Mas as igrejas nos amansam. As músicas excitam e fazem esquecer a fome – e a vergonha na cara também. As novelas hipnotizam, condicionam e desviam a atenção. O futebol é nosso Coliseu, e o pão e circo come solto.

Se trabalha a troco de teto e comida, a ração é futebol, carnaval e novela e vivemos na senzala do tráfico. Tudo isso pra que, a cada eleição, surja um vigarista prometendo que tudo vai mudar.
E ele se elege. E nada muda, nunca.

Mas a gente acredita. Daqui a quatro anos, vem outro.

Vivemos na Idade Média e tiramos onda de modernos.

E fotos pro Instagram, também.


Walter Biancardine










sábado, 2 de maio de 2026

BRASILEIROS E BRASILEIRAS -


Ouçam o que digo
Tomem energéticos
Comprem um copo Stanley
Fiquem no vídeo game até amanhecer

Sejam pais de pets
Mães de plantas
Amorosos herbívoros
Soltem pombas pela paz

Abracem a lagoa
Deixem a barba crescer
Arranjem um coach
Façam cursos de tudo

Chorem no Zap
Tirem a foto do perfil
Se ofendam com o que digo
Comprem um Renegade

Abominem o cigarro
Não bebam álcool
Só energéticos, anfetaminas
E soja transgênica

Proíbam os homens machos
Banheiros pra quem quiser
Mulheres pagando
Anúncio de margarina

Matem os velhos
Abortem crianças
Prendam os brancos
E héteros

A vida é de vocês
E podem fazer o que quiserem
Só nunca mais se metam
Em política nas redes

Ou na vida.


Walter Biancardine



quarta-feira, 29 de abril de 2026

É ISSO QUE VOCÊS QUEREM? -


O circo pegou fogo – e ninguém quer apagar. 
O novo coliseu cabe na palma da mão e atende pelos nomes de Instagram, Facebook ou Twitter.

O picadeiro agora é uma arena de bolso, onde covarde vira gladiador de comentário e imbecil vira juiz de execução. 
Sem pudor, sem freio, sem vergonha. 
Só uma turba elétrica, histérica, mastigando nomes como se fossem ossos.

Querem sangue.
Não é metáfora. É fetiche.
Não há mais lado. Não há mais causa. Há só dentes rangendo, olhos vidrados e uma fome que não é de justiça – é de carne.
Querem sangue.

O de Luiz Inácio Lula da Silva, servido quente, de preferência em transmissão ao vivo.
O dos ministros do Supremo Tribunal Federal, em fatias, com comentários e emojis.
Mas isso já era esperado. O problema – o câncer mesmo – é outro.
A faca virou para dentro.

Seguidores de Allan dos Santos babam pela queda de Kim Paim.
Seguidores de Kim contam os minutos pra ver Allan afundar.
Não é divergência.
É linchamento recreativo.

Em Minas Gerais, querem Romeu Zema na guilhotina.
Na outra esquina, Flávio Bolsonaro na fogueira.
E os filhos de Jair Bolsonaro? Viraram menu degustação. 
Um por noite, com direito a avaliação nos comentários: “crocante por fora, sangrando por dentro”.

É isso que chamam de “direita”?
Um bando de gente que não consegue sustentar uma ideia por cinco minutos sem precisar arrancar o fígado de alguém?
Isso não é força. É fraqueza berrada.
É covardia com filtro.

Enquanto a turba se delicia, o sujeito que um dia concentrou tudo isso – Jair Bolsonaro – vai sendo mastigado vivo. 
Não por inimigos – por fãs. 
Não por oposição – por plateia. 
O fim mais baixo: virar esquecimento em câmera lenta.
E ninguém pisca.
Porque o show não pode parar.

Querem Nikolas Ferreira fazendo caminhada como se fosse Jesus entrando em Jerusalém.
Processo contra Gustavo Gayer vira episódio, com teoria conspiratória de quinta.

A cada notificação, uma execução simbólica. 
A cada like, um empurrão a mais na beira do abismo.
E ainda têm a pachorra de falar em liberdade.
Liberdade de quê?
De destruir o próprio campo?
De transformar aliado em inimigo com a mesma facilidade com que troca de camisa?
Chamam isso de conservadorismo?
Conservar o quê – a burrice? A vaidade? O vício em espetáculo?

E no meio disso – essa palavra que adoram usar quando convém – a “ditadura” – ela vai passando como um garçom invisível. 
Ninguém olha. Ninguém chama. Ninguém paga a conta.
Porque o importante não é a liberdade.
É o espetáculo.

Não querem vitória.
Querem vingança.
Não querem ordem.
Querem catarse.
Não querem verdade.
Querem um inimigo novo a cada manhã, como quem precisa de café pra acordar.

A verdade nua: não querem vencer. Não querem governar. Não querem sequer entender.
Querem sentir.
Aquela descarga curta, suja, barata – o prazer de ver alguém cair. 
Hoje o outro. Amanhã o próprio.
Porque esse tipo de fome não sacia. Só aumenta.

Enquanto isso, o cenário fecha, aperta, sufoca. 
Pode chamar do que quiser – o nome pouco importa quando a corda está no pescoço.
Mas a turba não vê a corda.
Está ocupada pedindo mais sangue.
Mais cortes.
Mais escândalos.
Mais degolas virtuais.

A velha Roma pelo menos sabia que aquilo era barbárie. Hoje se chama isso de “conteúdo”.
E seguem pedindo mais.
Sempre mais sangue.
Até não sobrar ninguém – nem cabeças para cortar.

E então vem o silêncio.
A ressaca.
O vazio.

Mas aí já será tarde. 
Sempre é.

Uma velha lei esquecida: quem vive de assistir execução acaba na fila da espada – e ainda acha que é entretenimento até o último segundo.

Então, sem teatro, sem lirismo, sem a desculpa confortável da ignorância:

É isso mesmo que vocês querem?

Sangue?



Walter Biancardine



SEM TEMPO -

 


O tempo melhora o uísque, 
melhora o vinho,
mas esquenta a cerveja,
e aquele resto no copo.

Amargo como a vida,
saideira intragável, 
nos mostrando coisas 
que seria melhor não saber.

Esfria o café,
esfria o convite,
esfria o encontro,
resto no copo.

Entope cinzeiros e artérias,
cigarros e corações frustrados,
deleta amores, exclui amigos,
o tempo é senhor da paixão.

O tempo pouco se importa,
segue sua marcha, e eu
pendurado nele,
como pingente no trem.

Porque nunca há vagas
para viajar confortável.

Tempo é dor
com pitadas felizes
num relógio de camelô.

E a bateria acaba.


Walter Biancardine




terça-feira, 28 de abril de 2026

CHUTAR CACHORRO MORTO: COISA DE CONSERVADOR? -

 


Não falha: digo que esquerda e direita são, em muitos casos, apenas a mesma porcaria com sinais trocados mas logo aparecem direitistas raivosos, negando o óbvio.

O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso foi recentemente interditado por seus filhos em decorrência do avançado estágio do Mal de Alzheimer, que o abate. E muitos ditos "conservadores" logo se precipitaram sobre FHC proferindo toda a sorte de xingamentos e maldições.
Mas não perdem a chance de reclamarem, horrorizados (?) quando a esquerda faz o mesmo com alguém de direita.

Sim, FHC foi, politicamente, um câncer. Ele foi o principal responsável pela verdadeira praga gramscista que assola a TV brasileira desde a virada do século - ele sempre defendeu essa linha de atuação e, para Roberto Marinho (então dono das Organizações Globo e sem um pingo de caráter ideológico) foi fácil apontar seus veículos de comunicação nesse sentido. 
E as outras emissoras, rebanho em busca de audiência, simplesmente seguiram a líder.

Por outro lado, FHC foi o homem que estabilizou uma inflação crônica, lançando o Plano Real - é certo que com a pior das intenções, pois visava apenas criar uma calmaria financeira que permitisse a perfeita adesão do Brasil ao Mercosul, que era o então embrião da sonhada "Pátria Grande", "Unasul".

Sim, ele foi uma peste. Mas o verbo está no passado, hoje é um inválido, senil, e não se chuta cachorro morto - estarei sendo grosseiro aos olhos de quem amaldiçoa FHC, se uso esta expressão? Caso sim, teremos mais um exemplo flagrante da hipocrisia dos "Conservadores de Instagram", que tanto denuncio e me enoja.

Pois apontem suas botas para José Dirceu - este sim, vivo, lúcido e pleno em sua malignidade; cabeça pensante e atuante do Foro de São Paulo e ainda perfeitamente capaz de conduzir o Brasil e seu povo a um verdadeiro matadouro das liberdades e garantias individuais.

Por quê se esquecem de Dirceu?

Porque ele não é o capítulo de hoje da novela.
Hoje é dia de falarmos da briga entre Flávio Bolsonaro, Zema, Kim Paim, Rodrigo Constantino, Allan dos Santos - ou seja: é dia de nos preocuparmos com coisas absolutamente inócuas, que em nada nos ajudam de maneira concreta.

Mas é a novela de hoje, e o brasileiro adora novela.
E assim será, até que toda uma nação - covarde e passiva - descubra quem matou Odete Roitmann.


Walter Biancardine 



segunda-feira, 27 de abril de 2026

LUA CHEIA -

Rondando agora a noite pelo pasto, sozinho.
Olho o céu. Estrelas que não são vistas nas cidades, as vejo pela escuridão em torno.

Lua, estrelas, constelações, nebulosas. É a fantástica obra de Deus.
Incompreensível, inalcançável, bela e aterradora ao mesmo tempo, por sua grandeza.

É algo divino, acima do entendimento, portanto não me serve - apenas me admiro e curvo em sinal de respeito.
Senti isso quando pilotava aviões. Algo grandioso, sufocantemente belo. Mas também não me servia. Apenas admirava.

Abro uma cerveja e penso: nossa vida é um "quase". "Quase" entendemos, intuímos - mas nunca alcançamos.
Somos divinos o bastante para perceber, mas demasiadamente humanos para desfrutar.

E me lembro que amanhã tenho de pagar a conta de meu celular.
Grana curta, comprei um óculos para ler de perto. Difícil.

Me lembro do céu, da lua, de Deus.
E também dos boletos.

Humano.
Demasiadamente humano.


Walter Biancardine  



SISTEMA -

 


Sempre reclamo do sistema. Ele é mau, ruim, sanguessuga e limitador.
Mas de qual sistema reclamo? Do atual?

Sim. Mas ele é o mesmo, desde as pirâmides do Egito, impérios babilônicos, césares romanos ou barões feudais e capitães da indústria. Sempre o sistema. O mesmo sistema.

O que temos são requintes de crueldade nos dias de hoje, proporcionados pela tecnologia e pelas comunicações de massa, que nos tornaram escravos e felizes com isso. Séculos atrás, ao menos achávamos que era o destino, ou Deus. Nos confortava.

Hoje carregamos pedra e nos orgulhamos disso.
E o que há a fazer? Combater o sistema?

Não. Sozinho é perda de tempo e mesmo em massa, a história mostra que ele é imutável.
O que podemos fazer é sabotar.

Sabotar os abusos, a lavagem cerebral da mídia, a escravidão do trabalho remoto, os escravos digitais ideológicos - toda essa imundície surgida na virada do século anterior para o atual.
E só o cinismo, aliado ao ceticismo, pode fazer esse trabalho.
Não é o niilismo - isso é tudo o que o sistema quer, niilistas vazios.

Me refiro ao cinismo debochado, ao ceticismo duro de negociar, que dificulta o sorriso dos poderosos.
Mas toda a luta precisa ser interna. Sair por aí postando "olha como sou cínico e cético" de nada adianta. Seremos um arremêdo dos "conservadores de Instagram".

Seja cínico e cético com seu patrão. Com sua empresa. Com as leis. Com os impostos. Com as autoridades e tudo o que represente o sistema - empresários, governos, tudo.

Nada abala mais um poderoso que o deboche.

Cínico e cético.


Walter Biancardine 



TENHO ME IRRITADO COMIGO -

 


Sempre gostei de solidão, de ficar sozinho.
Minha vida atual não é novidade, recentemente atravessei alguns anos assim.
E eu falava comigo mesmo, caminhando nos pastos desertos. 
Tinha assunto, verdadeiros insights aconteciam; na verdade eu transcendia.
E me deslumbrava comigo mesmo.

Sozinho, debati filosofia, teologia, sociologia, antropologia – e escrevi muito, tudo saído dessas conversas. Dois livros, pelo menos, resultaram disso.
Depois caí no mundo, caí na conversa e passei um bom tempo de vida “normal”.

Casa, comida e a fatal mudança pro Rio de Janeiro.
A verdade é que me vendi.
Formigueiro de gente, rodoviária de vaidades, Maracanã de farsas derrotadas, fingindo sucesso.
Eu, inclusive. Burro, uma besta enganada, manipulada. 
Mas descobri.
E voltei pro mato.

Achei que seria tranquilo, já conhecia essa vida.
Sim, conhecia essa vida e também muita gente por aqui.
Só não sabia que eu tinha me tornado um chato pra mim mesmo.

Que novidades conto pra mim?
Que sacadas tenho hoje, ao longo de meus passeios solitários?
Brotam ideias? Intuições? Inspiração?
Nada. Nada vezes nada.
Acho que tudo o que eu tinha pra me dizer, já me disse.

Não sei se um fusível queimou, ou um neurônio.
Mas preciso de gente agora, pra conversar.
Pior: eu, exigente e fresco, preciso de gente pra ouvir, falar, observar – e só depois criar.
Pior ainda: cairia bem alguns que falem de arte – mas artistas nunca falam de arte, só reclamam do governo – qualquer governo – que nunca ajuda.
Gente que fale de poesia, pintura, música e arranjos; gente que tenha o sacrossanto – saco santo – de se perder comigo em teses filosóficas ou discussões teológicas – mas com proibição expressa de se falar em política.

Ou a cereja do Martíni: gente que fale de suas misérias, de seu emprego torturante ou de sua mulher medíocre.

Que fale de seu mecânico explorador querendo enganá-lo, ou do eletricista que tentou o mesmo, só pra trocar os disjuntores da casa. Ou da louca com quem casou, que já gastou dois meses de seu salário no cartão de crédito.

Pessoas que, depois da quinta ou sexta dose, confessem sua falta de perspectiva; suas frustrações nos planos de vida – sonharam com a estratosfera mas raspam a barriga no quebra-molas.

Que descobriram que o sucesso é ser o melhor serviçal – sem vida própria, saído de uma linha de montagem: mesmos gostos, hábitos, roupas, carros, opiniões e ambições. E se deram conta disso, e por isso bebem.
Ou choram escondidos, no banheiro.

Que o chefe é um vampiro e sugou sua alma.
Que o sistema só dá “quase” o que ele busca, nunca o “tudo” – pois, se der, ele pára.
Que o sistema não o quer parado. Que ele é uma peça, só uma peça, dessa máquina.
Que a vitória nada ensina, só as derrotas.

Gente que frequente bares e botequins. Que beba qualquer merda – até uma Glacial.
Copos de plástico. Churrasquinhos de gato. 
Que saibam jogar esse pingue-pongue da vida.

Mas não há bares por aqui, na roça.
Apenas portas, onde só se vende biscoitos e cachaça. 
E mandioca.
Como escrever sobre a vida sem ninguém vivo, ao redor?

Aqui não vejo vidas, só existências;
Não há queixas ou conclusões.
Só submissão.
Submissão ancestral, de um Brasil escravagista.

Não tenho com quem falar.
Vida urbana também é escravagista. Mas é meu território.

Só que não aguento mais meus próprios assuntos.

Aceito companhia pra beber.
De preferência, pagando a conta.


Walter Biancardine



CABEÇAS PRÉ-MOLDADAS -

 


“Eh, vida de gado… povo marcado, povo feliz”.
Zé Ramalho acertou em cheio, inclusive nomeando a obra como “Admirável Gado Novo”, parodiando o livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley.
Se minha cabeça não é de gado, a vida que levo é.

Balançava meus tormentos e rugas em pé, no ônibus, pelas estradas rurais de Cabo Frio – nada de asfalto; chão puro, lama e poeira divididas com cavalos, bois, galinhas e vacas – enquanto ouvia um senhor tentar converter uma senhorinha, certamente ainda não doutrinada. 
Ou escolada demais pela vida:
- Mas o correto é dar o dízimo. Tem que dar pra Deus, pra Ele te abençoar.

A velhinha, incrédula:
- Então, se eu não pagar, Deus não me abençoa?

O estagiário de pastor gaguejou e saiu-se com essa:
- Deus abençoa tudo que a gente faz pelos outros, mas tem que dar o dízimo.

Não convenceu a velha. 
Muito menos a mim.
Sempre fui alérgico a instituições. Elas são feitas de homens, e homens são sempre animais quebrados, tentado aparentar normalidade, honestidade e alegria. 
Nunca funciona.
E não será um surto de Lutero que irá me convencer do contrário.

Fiquei o resto da esburacada viagem pensando o que Deus faria com os cinco reais que eu daria de dízimo.

Compraria um sacolé para algum querubim pidão?
Faria uma “inteira” pro vinho, com os anjos?
Ou daria de gorjeta para o anjinho que dá um trato, polimento, nas auréolas?

Saltei do ônibus no Jardim Esperança e fui no mercado comprar açúcar, café e outras coisas.

Gastei meus cinco reais tomando café na padaria.


Walter Biancardine




sábado, 25 de abril de 2026

TRINCHEIRA VAZIA -

 


Ernest Hemingway escreveu como quem já tinha sentido o cheiro da pólvora junto ao suor de gente que não veria no dia seguinte:

“Quem está contigo aí na trincheira?”
“E isso importa?”
“Mais que a própria guerra.”

E é aí que tudo apodrece.

Porque a guerra – qualquer guerra – sempre é uma desculpa bonita para canalhas bem vestidos e idiotas barulhentos brincarem de heroísmo, de serem líderes, sem nunca terem sangrado de verdade. A direita que eu vejo – essa que me fez largar o campo, os “Conservadores de Instagram” – não caiu lutando. Caiu rindo alto, apontando o dedo, repetindo slogans como um bêbado repete a mesma piada sem graça.
Ou sequer sabe que caiu, o que é pior.

Mudaram os rótulos, não a alma. É a mesma fome de aplauso, o mesmo vício em plateia, a mesma necessidade de parecer certo em vez de estar certo e os mesmos gritos, a mesma fúria que tanto condenamos na esquerda. Esquerda, direita… no fim das contas, dois espelhos rachados refletindo a mesma vaidade grotesca.

E percebi isso – tarde o bastante para doer, cedo o bastante para conseguir escapar com alguma dignidade.

Porque trincheira não é lugar de discurso. É lugar de homem confiável. De silêncio pesado. De olhar que não foge quando o mundo começa a cair aos pedaços. Quando olhei ao lado… não havia ninguém. Só caricaturas. Só gente performando coragem como quem posta foto de academia, exigindo obediência cega “democraticamente”, xingando e se enfurecendo contra quem prefere o verde-musgo ao verde-bandeira. Petistas de sinal trocado.

E aí a frase do Hemingway deixa de ser literatura. Vira sentença:
“Importa mais que a guerra.”

Importa tanto que, se não houver ninguém de valor ao nosso lado, a guerra perde o sentido. Vira teatro barato. Vira circo ideológico com ingresso grátis e dignidade cara demais para pagar.

Não abandonei a análise política, mas um bando de farsantes. E há uma diferença – e é algo que poucos têm coragem de admitir, porque exige engolir o orgulho, cuspir a própria história e aceitar que se lutou, por um tempo, ao lado de gente pequena.

Isso corrói.
Mas também limpa.

Melhor uma trincheira vazia do que uma cheia de covardes barulhentos. Melhor o silêncio honesto do que o grito ensaiado. Melhor a solidão de quem enxerga do que a companhia de quem apenas imita.

A verdade crua? Guerra nenhuma vale a pena se os homens ao nosso lado não prestam.
E quando não prestam, o único ato digno não é resistir – é sair.

Sem discurso. Sem despedida. Sem olhar para trás.
Só sair.
E deixar que eles gritem sozinhos, ecoando no vazio que merecem.

Eu fiz o movimento mais raro – não mudei de lado, eu saí do teatro. Isso custa caro, mas preserva o único capital que ainda importa: lucidez.

Se um dia eu voltar à trincheira, que seja por causa dos homens ao lado.

Nunca mais pela guerra.


Walter Biancardine



ENTRE DOIS FOGOS IGNORANTES - Conto

 


Finalmente um jornal corajoso publicou uma matéria minha, criticando a hipocrisia desse pessoal que se diz “conservador” apenas por moda. Sim, lá estava meu nome, bem grande, “Wilson Pagani”, a assinar a matéria que redigi, com a mesma contundência com que sempre critiquei a esquerda.

Não tardaram os comentários enfurecidos para o jornal. Nem os li. O que me deixou puto foi encontrar com dois amigos no shopping, um canhoto e outro de direita – ao mesmo tempo, pra cúmulo do azar. Digo azar porque são brasileiros médios e o QI dessa raça não costuma ultrapassar 83. Interpretar texto então, é desafio. Enfim, chegou o Oduvaldo, canhotaço e que, logo após os cumprimentos, já veio com seu bombardeio:

- Pagani, meu velho, por quê faz isso? Não percebe que está sendo um fascista? Dando corda pra esse bando de nazistas, que querem transformar o país num quartel?

Mal pronunciei a primeira frase e Tadeu, um amigo direitista, me cumprimentou já furioso, interrompendo o assunto sem cerimônia:

- Wilsinho, você é um bosta! Que merda é essa? Virou comunista? Vá pra Cuba que o pariu, cara! Como teve coragem de escrever aquilo?

E Oduvaldo, por sua vez:

- Nazista! Fascista! Você devia ter responsabilidade com o que escreve num meio de comunicação!

Tadeu não ficou atrás:

- Então você vai lá e escreve que a gente é hipócrita? Tu é petralha agora?

Tentei ponderar com meu amigo direitista, perguntando se ele havia lido realmente a matéria, se havia interpretado o texto – e Tadeu, furioso, sequer parou de me xingar enquanto isso.

- Tá me chamando de analfabeto? Ignorante é você, que critica a direita!

E Oduvaldo:

- Tu é fascista, nazista, homofóbico, racista…

Dei um pulo:

- Ei! Onde foi que falei de gays e negros na matéria?

Ambos:

- Não interessa!

E então me dei conta que aquilo não era uma discussão, mas somente uma sessão de catarse dos recalques e frustrações de cada um deles, vomitando na minha orelha tudo aquilo que jamais tiveram coragem de falar pros patrões, esposas, filhos… para a vida, enfim.

Deixei ambos me xingando, saí da portaria do shopping, atravessei a rua e fui pegar o ônibus.

Lá, duas jovens de cabelo azul, universitárias, me reconheceram e resmungaram:

- Olha o fascista aí, disseram, cochichando entre si.

E uma senhora, típica tia do zap sentada no banquinho, rosnou:

- Francamente… virou comunista…

Saí do ponto de ônibus e fui pro bar tomar umas Brahmas.


Wilson Pagani

(Meu alter ego)



sexta-feira, 24 de abril de 2026

SEXTA FEIRA, CERVEJA NA MESA, CANTORES E ESCRITORES DESTRINCHADOS – JOHNNY CASH E CHARLES BUKOWSKI: TREVAS GÊMEAS

 


Johnny Cash não foi um artista. Foi um campo de batalha. Deus de um lado, vício do outro, e no meio um sujeito com voz de túmulo tentando negociar paz.

Johnny nasceu em 1932, no Arkansas – miséria rural, algodão, suor e hinos religiosos. Filho de agricultores pobres, cresceu ouvindo salmos e lamentos. Nada de glamour.
E aí vem o golpe que marca o resto da vida: o irmão Jack morre num acidente brutal, ainda jovem.
Esse evento não só feriu – moldou, definiu o homem. Cash carregou aquilo como um tipo de culpa silenciosa. Se você quer entender Johnny Cash, imagine um homem que nunca superou um trauma – só aprendeu a cantar sobre ele.

E veio a guerra. Ele entra na Força Aérea, vai parar na Alemanha. Lá, entre sinais interceptados e silêncio europeu, começa a escrever músicas.
Não é coincidência.
Solidão é o melhor professor de composição, depois da dor.

Quando volta, Memphis o espera. E Memphis, naquela época, era o inferno criativo do mundo.
Na Sun Records, ao lado de gente como Elvis Presley e Jerry Lee Lewis, ele grava: “I Walk the Line”, “Folsom Prison Blues” e “Hey, Porter”. Tudo seco. Minimalista.
A banda – Tennessee Two (depois Three) – soava como locomotiva: tchac-tchac-tchac.
Era música de trabalhador, de preso, de pecador.
Não de gente feliz.

Chegam os anos 60, Cash atinge um sucesso absurdo e, junto com ele, vem o pacote padrão: anfetaminas, álcool, colapsos e shows caóticos. A carreira começa a desmoronar. Aqui está a verdade nua: Johnny Cash não caiu por acidente, ele se jogou.

Então entra em cena June Carter Cash.
Ela não foi só esposa. Foi freio. Foi ordem. Foi quase uma enfermeira espiritual.
Casam-se em 1968. Ela o empurra para tratamento.
Mas não romantize: não foi redenção limpa. Foi recaída, luta, recaída de novo.
Amor não salva ninguém. Só dá uma chance extra.

Mas uma decisão que tomou foi salvadora: os álbuns “At Folsom Prison” (1968) e “At San Quentin” (1969), foram gravados dentro de presídios, diante de criminosos reais. Isso não foi marketing – foi identificação. Johnny cantava pra homens que tinham feito o que ele só pensou em fazer.
Resultado: ressurreição artística.

Agora, vamos ao que interessa pra um homem que leva música a sério: sua discografia.
Cash não teve carreira. Teve uma avalanche. Números crus: 130 álbuns, 160 singles e mais de 50 anos de atividade. Suas fases essenciais foram:

1. Era Sun (anos 50)
Johnny Cash with His Hot and Blue Guitar (1957)
The Fabulous Johnny Cash (1958)
Tudo cru, direto, seminal.

2. Era Columbia (anos 60–80)
Ring of Fire: The Best of Johnny Cash
At Folsom Prison (1968)
At San Quentin (1969)

Aqui ele vira mito.

3. Declínio (anos 80)
Esquecido pela indústria. Velho demais pro novo, novo demais para morrer.

4. Ressurreição – American Recordings (anos 90 – 2000)
Com Rick Rubin:

* American Recordings (1994)
* Unchained (1996)
* American III: Solitary Man (2000)
* American IV: The Man Comes Around (2002)

E nesta fase ele vira algo raro: um velho relevante.

Falando sobre suas músicas – o pecado em forma de som: são temas recorrentes a culpa, redenção, morte, fé ou mesmo a prisão (literal e moral). Ele cantava como quem confessa. São destaques inevitáveis:

* “I Walk the Line” – disciplina contra o caos
* “Ring of Fire” – paixão como condenação
*“Man in Black” – manifesto moral
* “Hurt” – epitáfio

Essa última não é cover. É, digamos, confissão final.

O tempo passa e June morre em 2003. Johnny vai atrás poucos meses (três, creio) depois. Como se o contrato tivesse vencido. Então ele encontrou redenção? Resposta honesta? Depende do que você chama de redenção. Se for pureza, não. Se for luta constante contra a própria lama, então sim.

Johnny Cash nunca virou santo. Virou algo mais raro: um pecador consciente. E isso, convenhamos, é muito mais útil. Ele vestia preto porque dizia cantar pelos esquecidos. Mas a verdade é mais dura: ele vestia preto porque nunca saiu completamente do luto. Nem pelo irmão. Nem por si mesmo.

E agora entra um homem chamado Charles Bukowski, o espelho literário do atormentado musical.
São dois homens que olharam pro mesmo buraco – só que um levou um violão, o outro uma máquina de escrever. E ambos sabiam que aquele buraco olha de volta.

A matéria-prima de ambos era o fracasso, não o sucesso. Bukowski nunca escreveu sobre vencedores porque desprezava a mentira do triunfo. Cash nunca cantou como vencedor porque sabia que não era um. Os dois entendiam uma coisa que hoje virou heresia: o homem é, por padrão, um animal quebrado tentando parecer inteiro.
Bukowski descreve o sujeito que bebe porque perdeu. Cash canta o sujeito que peca porque não consegue parar. É a mesma história, só muda o instrumento.

Bukowski era direto: luxúria, álcool, sujeira, solidão. Nada de pedir desculpa.
Cash, mais contido – herança do sul, da Bíblia, do pudor – fazia algo mais perigoso: se confessava. E aqui está a diferença essencial: Bukowski aceita a lama. Cash luta contra ela. Mas ambos não fingem que ela não existe.
Hoje, o mundo vive de filtro e pose. E esses dois viviam de exposição crua.

Bukowski não confiava em Deus. Achava que, se existisse, estava ocupado ou bêbado demais para se importar. Cash, ao contrário, passou a vida tentando falar com Ele. Mas veja o detalhe importante – o ponto onde os dois quase se tocam: Cash não era um homem de fé tranquila. Era um homem em negociação permanente. Quase um cliente inadimplente batendo na porta do céu. Ele não dizia: “sou salvo”. Ele dizia: “estou tentando não me perder de novo”. Bukowski, se estivesse ouvindo, provavelmente daria um meio sorriso e diria: “Boa sorte, parceiro.”

Ambos envelheceram bem – e isso é raro. Não no sentido físico. No sentido estético. Bukowski velho ficou mais seco, mais preciso. Cash, velho, virou uma espécie de profeta cansado. A voz de Cash, no fim, digamos que aquilo não é canto. É um relatório de danos.
E Bukowski teria respeitado isso. Porque ele também acreditava que, no fim, só sobra o que resistiu à vida – não o que brilhou nela.

Falemos agora de uma canção capital em toda essa história e que, em minha opinião, os une indissoluvelmente: “Deus vai te alcançar” (God’s Gonna Cut You Down) – a moral nua, sem anestesia.

Esta música, na voz de Cash, é o que Bukowski escreveu a vida inteira: inventário de erros, ausência de ilusões, solidão como estado natural. Não há glamour. Não há redenção hollywoodiana.
Só um homem olhando para o que sobrou. E dizendo: “foi isso.”

“God’s Gonna Cut You Down”, na voz de Johnny Cash, não é música. É sentença. E, se Charles Bukowski estivesse vivo, ouviria isso com um copo na mão e diria: “finalmente alguém dizendo a verdade sem pedir desculpa.”

A letra é simples, quase primitiva: “You can run on for a long time… sooner or later God’ll cut you down”. Traduzindo sem poesia: corra o quanto quiser – a conta chega. Bukowski concordaria com metade disso. Ele diria: “a conta chega sim, mas talvez não tenha ninguém cobrando do outro lado.”
Cash discorda. Pra ele, há um cobrador. E ele não negocia.

A música não fala de assassinos de filme. Fala de gente comum: o fofoqueiro, o mentiroso, o hipócrita, o sujeito que vive dobrando regras pequenas. Mais comum, impossível. Bukowski escreveria sobre esse homem num quarto sujo, suando ressaca. Cash o coloca diante de Deus. Mas é o mesmo sujeito. Talvez você. Talvez eu. Provavelmente os dois.

Nada de orquestra sentimental nesta música. Ela bate seca, repetitiva, quase tribal. É um ritual, não uma performance. Bukowski fazia isso com frases curtas. Cash fazia com batida e voz. Ambos entenderam algo que muita gente esqueceu: a verdade não precisa ser bonita – só precisa insistir. Não parar, não precipitar, não retroceder, diria um outro velho, lá da Virgínia.

Justiça – o ponto de ruptura entre os dois, o duelo filosófico: pra Cash existe justiça final. Pode demorar, mas vem. Pra Bukowski, se existe justiça, ela é cega, bêbada ou atrasada demais pra importar. E, honestamente? A vida cotidiana dá munição para os dois lados. Você vê canalhas prosperando mas também vê quedas brutais que ninguém previu. A música aposta numa ordem moral invisível. Bukowski apostaria no acaso cruel.

O tom geral: advertência, não esperança, e isso é importante. A canção não diz: “arrependa-se e será salvo.” Ela diz: “continue assim e você será pego.” É quase um aviso de beira de estrada:
“ponte quebrada à frente.” O problema? Quase todo mundo acelera mesmo assim.

Se Bukowski reescrevesse isso, ele tiraria Deus da equação. Mas manteria a queda. Ficaria algo como:

“Você pode beber, mentir, enganar,
e ninguém vai te parar.

Até o dia em que seu corpo cansa,
seus amigos somem,
e você percebe – tarde demais –
que foi você quem cavou o buraco.”

Menos metafísico. Mais sujo. Mas o destino? Parecido.

Pra mim, “God’s Gonna Cut You Down” é o encontro improvável entre o pregador cansado (Cash) e o cínico lúcido (Bukowski). Um diz: “Deus vai te julgar.” O outro responderia: “a vida já fez isso – e foi suficiente.”

No fim, a música não quer te consolar. Quer te lembrar de uma coisa que o homem moderno odeia ouvir: há consequências. Se vêm do céu ou da própria vida, aí já é uma briga que nem Cash nem Bukowski conseguiram encerrar.
E talvez nem você consiga.

A diferença final entre os dois é simples: Bukowski morreu aceitando o caos. Cash morreu tentando dar sentido a ele. Quem estava certo? Provavelmente nenhum.
Ou os dois, cada um à sua maneira.

Porque no fundo – e aqui vai a frase que nenhum dos dois negaria – redenção não é um lugar onde você chega. É o esforço ridículo de continuar andando, mesmo sabendo que vai falhar de novo.

Bukowski beberia com Cash.
Cash tentaria fazê-lo ir à igreja.
Os dois falhariam.

E depois escreveriam sobre isso – cada um transformando o fracasso em alguma forma de verdade.

E mais não escrevo porque a cerveja é numerosa e não sei se terei dinheiro pra pagar a conta.

E fiado, só amanhã.


Walter Biancardine


Para ouvir a música, clique no link -



SEXTOU! UM JAZZ QUE OUVI NUM ENCONTRO DE MOTOS -

 


Sexta-feira, a semana termina. A noite de hoje é para música, drinks e uma boa companhia.
Que tal “Take Five”?

Boa escolha; não é de elevador.
É coisa de gente que já percebeu que o elevador nunca chega.
Para meu espanto, escutei a mesma quando fui no Ostras Cycle, o encontro de motos recentemente realizado em Rio das Ostras, Rio de Janeiro.

Se você vai sair com sua eleita esta noite e pretende escutá-la, não deixe de conferir o que segue abaixo – sim, já tive bons dias e parabenizo o amigo pela diversão de hoje.

A canção nasce dentro de um disco que, por si, já é um tapa na cara do ouvinte acomodado: “Time Out”, do Dave Brubeck. Mas a peça em questão, poucos sabem, é do Paul Desmond – um sujeito que tocava como quem pedisse desculpa por existir… e ainda assim hipnotizava a sala inteira.

Para os amantes da música, antes de me perder em filosofias de botequim – sim, tenha paciência e chegarei lá – começarei falando do compasso: a vida manca.

“Take Five” está em 5/4, e isso já diz tudo.
A maioria da música popular é quadrada, obediente, marchando como empregado de fábrica em segunda-feira: 4/4. Você conta, você prevê, você se entorpece. Aqui não. Aqui falta um pedaço. Ou sobra. Depende do humor e do uísque.
Cinco tempos é o sujeito que tenta andar reto depois da terceira dose. Um passo a mais, um tropeço elegante. A música balança, mas não cai. É o retrato de uma dignidade precária.
É quase filosófico: me perdoe Roger Scruton, mas a beleza nasce da assimetria. A perfeição é coisa de catálogo – a vida real é manca.

E o sax? Nada mais que um homem que não levanta a voz.

Desmond entra com aquele sax alto (“alto” é o tipo do instrumento, não o volume usado) suave, limpo, indecentemente pudico de tão contido.
Nada de virtuosismo espalhafatoso. Nada de “olhem pra mim”. Ele toca como quem sabe que ninguém está realmente ouvindo – e, ainda assim, insiste.
Sim, essa é a vida de quem toca em bares.
É o tipo de som que Chet Baker aprovaria: melancolia sem maquiagem, uma tristeza educada, de terno passado. Se fosse gente, seria o sujeito no bar que fala baixo mas, quando fala, você cala.

Agora é a vez do piano: a ordem no caos.

Brubeck – que todo mundo credita a música – entra como um arquiteto tentando organizar um prédio que já nasceu torto.
Os acordes são blocos. Firmes. Quase teimosos. Ele segura a estrutura enquanto o sax vagueia. É o velho conflito: razão tentando domesticar a emoção, sem nunca conseguir totalmente.
E isso é bonito.
Porque a graça não está em resolver. Está em sustentar esse conflito sem desmoronar.
E não há algo de perigosamente excitante nisso?

Chegou a hora da loucura, a bateria: o coração que tropeça.

E então vem Joe Morello.
A bateria não marca tempo – ela negocia com ele. O famoso solo não é exibição: é um diálogo interno. Um homem discutindo com o próprio pulso.
Não acelera. Não força. Ele persuade o ritmo. Num mundo que vive correndo atrás de relógio, Morello faz o Rolex pedir licença.

E agora o principal, a filosofia de botequim (a única que presta).

“Take Five” é, no fundo, uma pequena rebelião.
Não grita. Não quebra nada. Não levanta bandeira. Só se recusa a ser previsível.
E isso, amigo leitor, é mais subversivo do que qualquer discurso inflamado.
Porque o mundo moderno adora padrão: horário, produtividade, opinião pronta, emoção de vitrine. Tudo em 4/4.
“Take Five” entra, acende um cigarro imaginário e diz:
“Hoje não.”

Se eu tivesse capacidade e talento para compor um jazz, seria algo assim.
Sem heroísmo. Sem redenção. Só um fluxo honesto de tempo mal resolvido. Um copo meio cheio – não de esperança, mas de resignação lúcida.

“Take Five” não te leva a lugar nenhum.
E é exatamente por isso que ela presta.
Porque, no fim das contas, ninguém está indo a lugar nenhum mesmo – só estamos tentando manter o ritmo sem cair da própria vida.
E, convenhamos, em 5/4 isso fica até mais sincero.

Para ser mais claro:

“Take Five” não começa. Ela se infiltra.
Você não aperta o play – ela já está lá, como um cheiro antigo de cigarro impregnado na madeira. Um resto de noite que não foi embora. E quando percebe, já está sentado, olhando um copo qualquer, desses que sempre têm uma marca de dedo que não é sua.

O mundo lá fora segue em 4/4 — ônibus, relógios, gente fingindo que sabe para onde vai. Aqui dentro, não. Aqui o tempo manca. Cinco passos. Um a mais. Ou um a menos. O suficiente para te lembrar que a vida nunca fecha a conta.

E isso incomoda.
Porque você percebe que passou a vida inteira tentando explicar sua própria existência como se fosse uma tese. Como se alguém estivesse avaliando. Como se houvesse banca. Não há. Nunca houve. Só o ruído – e, de vez em quando, uma linha de sax atravessando o nada com uma elegância que beira o insulto.

A música não lamenta. Insiste. Bate, organiza, empilha acordes como um sujeito que ainda acredita que dá para pôr ordem no caos – mesmo depois de já ter perdido essa aposta umas cinquenta vezes.
É o homem que ainda arruma a cama sabendo que vai dormir mal.

Não é questão de ritmo – é pura negociação. Um sujeito conversando com o próprio coração: “calma, velho, não pare ainda”.
E o coração responde: “não prometo nada”.

Há algo de profundamente humano nisso. Nada de heroísmo. Nada de catarse. Só continuidade. Só o esforço meio ridículo de manter o pulso enquanto tudo em volta sugere desistência.

“Take Five” não te salva. Não te consola. Não te dá respostas.
Ela faz companhia.
E isso, num mundo que vive vendendo soluções, é quase obsceno.

Essa música soa como uma mulher que você nunca teve competência para amar direito. Não porque ela fosse complicada – mas porque você era.
E aí está o truque.

A música não é sobre o compasso. Nem sobre técnica. Nem sobre inovação.
É sobre deslocamento.
Você está sempre meio fora do lugar. Meio fora do tempo. Meio fora de si. Cinco tempos quando o mundo exige quatro.
E passa a vida tentando corrigir isso.

“Take Five” faz o oposto: ela te dá permissão para continuar torto.
Sem redenção. Sem discurso. Sem aplauso.
Só aquele sax atravessando a noite como uma faca talhando sem pressa –
e você ali, finalmente sem precisar fingir que está inteiro.

No fim, quando a música acaba, nada muda.
Mas alguma coisa em você pára de resistir.
E isso já é uma pequena vitória. Ou uma derrota bem aceita – que, convenhamos, às vezes é a única forma honesta de vitória que existe.

Escute a música e vá com calma – o mundo vai continuar em 4/4, batendo ponto e fingindo sentido. Você sabe: às vezes o sujeito sobrevive melhor quando aceita o próprio descompasso… e segue andando mesmo assim.

Ela não tem letra, nada diz.

Mas fala o bastante.

Quer escutar essa obra de arte? Clique neste link: https://youtu.be/ryA6eHZNnXY?si=gVJ6hNog_1V8UMG8


Walter Biancardine