Bebidas rolam.
Não é saudades de alguém.
É saudades de um "quando".
Muito pior.
O cantor diz: "é preciso saber viver".
E respondo: "só espalho cores sobre um chão de giz".
Amiúde.
Poucas frases me tocam tão fundo quanto esta.
Um velho cascudo de mais de metro e oitenta se sente desmontar, com o cheiro reconfortante, quente como um abraço.
A boa conversa com um amigo velho, de pé ao balcão do botequim.
A segurança de uma mãe, feito sempre e pontualmente às 5 da tarde.
E as frases com variações sutis, mínimas, a traduzir um mundo, uma vida, uma história:
- É isso... vamos pra casa tomar um café, diz o pai ao final de um longo dia junto ao seu filho.
Sempre importante é o momento de por ordem nos pensamentos. Ao suspiro profundo, segue-se a sentença - vou tomar um café.
É o longo ponto e vírgula necessário aos que vivem da escrita. A pausa que arruma as ideias, sempre amparada por cigarros, café e a caminhada pela casa. E tudo se arruma como num passe de mágica, nos reabastecendo com disposição suficiente para varar a madrugada a catar milho nos teclados.
Mas o melhor de todos - aquele pelo qual temos a certeza de valer a pena estar vivo - é aquele comentário discreto em meio a uma conversa com a amada, algo quase casual mas positivamente convidativo:
- Fiz um café fresquinho...
É a deixa. A frase incompleta. O chamado. O coração de portas abertas.
Feliz do homem que ouve isso de sua eleita.
Que ele tenha juízo.
E dê o devido valor.
Walter Biancardine
Chuva furiosa e contínua, aqui.
Acordei 5:30 já chovendo forte. São 11:40, permanece igual.
Aqui, desbarranca-se uma encosta. As águas levam mourões e o farpado da cerca, tudo embora, descida abaixo.
No Rio de Janeiro, ruas alagam. Táxis somem e dobram de preço. Ônibus lotados embaçam seus vidros, com tanta gente enlatada. E os carros, sempre com um ar superior, seguem blindados e isolados por vidros, climatizadores e Insulfilm.
Aqui é respirar fundo, consertar o estrago e vida que segue. É a natureza, as coisas são assim mesmo apesar de nossos xingamentos.
No Rio, chega-se atrasado no trabalho. Chefe olha com cara feia - se ele estiver lá. A roupa, molhada da chuva, faz o pobre e promissor profissional congelar no ar-condicionado. Talvez a única coisa humana naquele ambiente asséptico seja o café. Mas que seja breve.
É proibido fumar. Conversar atrasa a produção. Rir não combina com relatórios. E as mesas são limpissimas às custas de Veja Multi-Uso.
Sem marcas de trabalho. Sem riscos, desgastes ou rachaduras de esforço. Sem manchas de suor ou dedos sujos. Um porta-retrato com o cônjuge e Fluffy, seu filhinho pet.
Aqui é um barracão de madeira que serve de oficina e depósito. As tábuas cruas e grossas da bancada não tem mais ângulos retos ou rebarbas, os anos de uso arredondaram todas as quinas.
Chão preto de graxa e óleo motor, polvilhado com serragem e muita lama trazida nas botas. Tudo cheira a gasolina. Luz, quando há, é sempre uma só lâmpada e mal posicionada.
E na porta desse barraco tomamos café - forte e quente - sem nenhuma pressa, observando a chuva e o frio que ela traz. Quem sabe quando vai estiar é São Pedro, não nós.
No Rio a chuva passa e ninguém nota. Os olhos só enxergam a tela azul do computador. No máximo, um prefeito sobe numa favela em busca de demagogia e noticiário na Globo. E continuamos na tela. Produzir é tudo.
Aqui, a chuva espera até que acabemos nosso café, o cigarro e a prosa. E então ela passa.
Hora de consertar os estragos, lama até as canelas, músculos, suor e testosterona.
Tudo igual, desde que o mundo é mundo e homens são homens.
Vida que segue.
Continuo escrevendo.
Walter Biancardine
Me dei conta hoje que metade do Brasil tem, atualmente, o dom da escrita.
Vejo postagens no Facebook muito bem redigidas, bem estruturadas, pontuação certeira - mas sem alma, sem vida, sem consistência ou emoção humana.
A verdade é que, se faltar luz, a burrice desabará sobre esse povo feito uma laje de concreto.
Tipo professores cheios de títulos e diplomas, que não apenas fraudam seus artigos como - pior - até seus comentários são paridos por um ChatGPT. Por isso jamais aceitariam um debate ao vivo, no YouTube, para defender suas posições.
Para o ser humano médio contemporâneo, a eletricidade é mais vital que a própria água ou o ar que respira.
São os bits e bytes que, de fato, hoje os definem como indivíduo. Supostamente pensante.
Somos mantidos vivos às custas de aparelhos.
Telefones celulares, para ser exato.
Walter Biancardine
Recentemente repeti uma verdade antiga para mim: quem se dedica ao trabalho intelectual precisa, sempre, do trabalho braçal como complemento - ou perderá contato com a imundície a qual chamamos "realidade".
É algo que, estou seguro, é uma verdade incontestável.
Mas sou um hipócrita e não a sigo assim, tão na risca.
Recentemente ajudei um vizinho a destelhar sua varanda, coberta por velhas e podres Eternit's.
Após isso, instalamos as novas e levamos as antigas para um novo e suntuoso chiqueiro que ele está construindo - certamente para porcos de alta classe, bacons de elite que não se satisfazem com nada menos que a melhor das imundícies.
Lá, ajudei a instalar as pesadas peças de fibrocimento e agora posso responder onde está minha hipocrisia: se encontra no fato de que estou morto. Dolorido. Enferrujado. Decrépito.
Deixei o Rio de Janeiro com apenas uma mochila e duas bolsas. E por ter gasto o dia as carregando, cheguei aqui em Cabo Frio fisicamente destroçado. E veio o chiqueiro, para piorar minha situação.
Sim, é fácil recomendar, pregar, falar.
Difícil é fazer.
Não sou mais um garoto. 62 anos já me pesam nas costas e não possuo mais as antigas forças e resistência.
Tudo dói. Tudo range. Tudo estala.
Mas, ao menos, tento.
Se o amigo leitor é um trabalhador intelectual reclamando que tem de ir ao mercado e trazer as sacolas até sua casa, fica a dica: você já morreu.
Desmorra antes que seja tarde, ou suas criações estarão cada vez mais distantes da realidade.
Levanta, Lázaro!
Walter Biancardine
Ultimamente tenho dedicado os dias à me readaptar. Até a roça muda e descobri algo que, na vez anterior que vivi aqui, não havia obtido: um ponto milagroso, na linha de visada de distante antena de celular, onde às vezes consigo captar algo da internet.
É bom. Posso mostrar que ainda vivo e me mantenho sabendo vagamente das coisas - embora a maioria delas não mais me interesse.
Soube, por exemplo, que o povo do Irã - creio somado a um empurrãozinho de Trump - parece estar tentando dar um pé na bunda daquela maldita raça dos Aiatolás.
De fato, lembro quando essas viboras tomaram o poder em 1979. O Irã era um país rico - lógico, pois quem deseja o poder em um país quebrado? - altamente ocidentalizado nas mãos do Xá Reza Pahlevi. Ostentava uma impressionante quantidade de mulheres lindas - fantásticas mesmo - a desfilar suas abundâncias nas ruas. Tinham dinheiro, deusas das Mil e Uma Noites nos braços e uma vida boa. E isso incomodava os Aiatolás, raça possuidora de evidente patologia contra o sexo oposto e a felicidade alheia, como um todo - tal qual os esquerdistas.
Em 1979 eu era um jovenzinho de 15 anos. Inocente, irresponsável, cujas únicas preocupações eram se meus artigos seriam aceitos no Pasquim ou JB, bem como pegar onda na praia, ler e planejar viagens de bicicleta. Eu era um guri quando os Aiatolás tomaram o poder.
Hoje, 2026, estes mesmos facínoras tem seu reinado aparentemente encurralado - e eu sou já um velho.
E se eu fosse iraniano?
Teria gasto os melhores anos de minha vida tolhido por uma ditadura. Não poderia falar. Não poderia escrever. Não poderia sequer ter sexo, a depender de minhas escolhas ou hábitos. Uma vida inteira útil jogada no lixo, tal qual fiz com a minha no Brasil.
A diferença é que aqui, se joguei tudo fora, foi por minhas escolhas. Eu decidi. Eu arrisquei. Não posso culpar ninguém.
Mas no Irã eu poderia, pois teriam decidido por mim, escolhido por mim e até, quem sabe, ter sido castrado por meus desvairios sexuais ou condenado a 100 chibatadas diárias por minhas bebedeiras.
Vejo hordas de imbecis babando o Ladrão de 9 dedos. Eles sabem muito bem que a esquerda, o "progressismo", tem como principal objetivo a implantação de ditaduras - mas fingem ser mentira. Esse povinho militante e das redes sociais quer, sim, uma ditadura. Os patifes creem piamente que ganharão cargos muito bons na mesma, por gratidão dos poderosos. De fato, ditaduras são ótimas. Para quem vive delas.
Um dia, entretanto, farão ou falarão alguma besteira. Algo que desagradará o Todo-Poderoso vigente. E cairão em desgraça - proscritos, conhecerão o outro lado da moeda. O lado podre.
E finalmente torcerão pelo fim da ditadura.
Se derem muita sorte, este fim chegará com eles - e nós - ainda vivos. Vivos mas velhinhos. Decrépitos. Vida jogada fora.
E aprenderão, tarde demais, que não se brinca com a liberdade - estamos sempre a uma simples eleição de perdê-la.
Como já a perdemos, por aqui.
Só o martírio nos compra a dignidade de volta.
Nunca é fácil.
Nunca é com eleições.
Nunca é sem dor.
Nunca é sem sacrifício.
Nunca é sem sangue.
Walter Biancardine
Existe um local por aqui onde consigo acesso a internet. Isso é bom. Podem saber que estou vivo.
Sim, estou vivo. E repito o que sempre disse: quem vive de um trabalho intelectual tem por obrigação - obrigação - gastar o corpo em serviços braçais.
O cérebro seduz. A cabeça é traiçoeira. A inteligência envaidece.
E logo perdemos, facilmente, o contato com a realidade.
A suja, dolorida e porca vida real.
Essa imundície é a essência da lucidez.
Walter Biancardine
Este é o manga larga marchador de um vizinho, grande amigo.
Chamo o bicho de Blasé pois, como todo cavalo de raça, é metido a besta e sofisticadissimo.
Imagino que use ferraduras cromadas e, no lugar do bom e velho colonião, só coma ração enriquecida com Ômega 3, Magnésio e Tadalafila.
Lindo, mas muito metido.
Não quer nada comigo.
Walter Biancardine
Walter Biancardine
Olho o relógio. Meio dia e vinte e quatro. Eu seria capaz de jurar serem mais de 14h.
Acordo agora ainda noite. O dia amanhece em minutos. Fica longo.
Em poucas horas perdi a conta de quantos cumprimentos parei para dar. Em um local tão isolado, difícil entender como conheço tanta gente.
O motorista do ônibus. A dona da banca de jornal que me vende cigarros. Fora o resto todo que anda por aqui, mais perto. Vizinhos, se é que posso chamar assim.
E tem os cavalos. Revi o meu Baião, à distância. Meu amigo boiadeiro, seu Jó, não trabalha mais na fazenda aqui ao lado.
Ele deixava Baião comigo e me dava queijos, frescos, lá produzidos.
Sem condução e sem queijo.
Mas tenho agora um trio de cães, no lugar do sr. Wilson: TDAH, Cara Larga e Piranha, três cadelas que por aqui habitam e conversam comigo, na falta de orelhas e garrafas disponíveis.
Me dei conta de que, aqui, conheço tudo e todos. Me dei conta que o Rio de Janeiro que me doía o coração era apenas uma lembrança. Mais de um quarto de século se passou e o que eu sentia falta - pessoas, lugares e objetos - morreram, foram demolidos ou tiveram o lixo como destino - não necessariamente nesta ordem. Minhas saudades se resumiam a lembranças.
E eu, burro, não enxerguei isso.
Apenas ainda não entendi como me enraizei tão rápido aqui na roça.
Mas sei que tem algo a ver com a amplidão, com horizontes infinitos, silêncio absoluto e animais como amigos sinceros.
Apenas preciso conciliar isso com eventuais visitas aos meus amigos Carlos Bara e Ricardo Preto.
Sem eles, as bebedeiras não fazem sentido.
Sim, ando devagar porque já tive pressa.
Walter Biancardine
Eu vi coisas que vocês não querem ver.
Vi multidões ajoelhadas diante de homens medíocres só porque
gritavam mais alto.
Vi bandeiras erguidas como se fossem
relíquias sagradas – e rasgadas na semana seguinte para virar pano
de chão.
Eu vi heróis nascerem às oito da manhã…
…e serem
executados às cinco da tarde por aqueles mesmos que pediram sua
salvação.
Vocês sempre querem um salvador.
Alguém para culpar quando
falha.
Alguém para apedrejar quando não cumpre o milagre
prometido.
Eu vivi para conhecer o ciclo.
É sempre o mesmo.
Primeiro, o entusiasmo – aquele calor juvenil, quase
religioso.
Depois, a idolatria cega.
Então, a suspeita.
A
decepção.
E por fim, o descarte.
Vocês não querem heróis.
Querem anestesia.
Querem alguém que carregue o peso da própria covardia enquanto
vocês assistem de braços cruzados.
E quando esse homem
fraqueja – porque todo homem fraqueja – vocês o transformam em
prova de que não vale a pena acreditar em nada.
Eu vi líderes que pareciam montanhas.
Desmoronaram como
areia molhada.
Vi jovens inflamados jurarem que mudariam o
mundo…
e envelhecerem confortavelmente defendendo o mesmo
sistema que juraram destruir.
O povo ama o fogo, mas tem medo da chama constante.
Prefere o
clarão do fósforo – dramático, breve – ao calor disciplinado
da fogueira que exige lenha, esforço, vigilância.
Eu sobrevivi aos entusiasmos coletivos.
Sobrevivi aos
fanatismos que prometiam eternidade e duraram uma estação.
Sobrevivi
às revoluções que terminavam em promoção de cargos.
Restou o silêncio.
Não o silêncio da derrota.
Mas o silêncio de quem
aprendeu.
Os heróis não falham porque são fracos.
Falham porque são
humanos – e vocês querem deuses descartáveis.
Não espero nada da multidão.
Tem memória curta e paixão
volátil.
Hoje ela aclama.
Amanhã exige sangue.
Tudo que vi – todas aquelas marchas, discursos, promessas
inflamadas —
vão desaparecer.
Como lágrimas na chuva.
Mas não por tragédia.
Por hábito.
Porque esquecer é mais confortável que enxergar.
E talvez…
talvez o maior heroísmo não seja salvar
ninguém.
Seja resistir à tentação de ser adorado.
"Eu vi coisas que vocês, humanos, nem iriam acreditar. Naves de ataque pegando fogo na constelação de Órion. Vi Raios-C resplandecendo no escuro perto do Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva.
Hora de morrer."
(Replicante Roy Batty, Blade Runner – Rutger Hauer)
Walter Biancardine
Acadêmicos de Niterói - aquela, a do desfile pré eleitoral do Ladrão - foi rebaixada, ficou em último lugar em uma das piores classificações da história.
E daí?
Os dias passam. Abro o Facebook e leio algum artigo que achei interessante.
Gosto de plástico.
Insosso. Sem vida. Sem personalidade. Sem estilo – ou até sem a falta dele.
Aliás, há sim um estilo: chame de “Algorithmic design”, o estilo ChatGPT.
Natural como peitos de silicone. Como as caras de Ozempic. Ou as barbas e topetes dos “Conservadores de Instagram”.
Páginas ditas “sérias”, que tratam de assuntos ditos “sérios” – filosofia, política, sociologia ou história – já não se envergonham em ter o GPT como autor. E como redator, revisor e até diagramador.
Também serve de muletas para medíocres.
Toneladas de diplomas na parede e nenhum talento na alma.
Usam para escrever o que não conseguem. Ou não sabem.
E aparecem arrotando seus títulos e graduações.
Conheci gente assim.
Boa escrevendo. Num debate ao vivo, no YouTube, chamariam mamãe.
Cérebros na geladeira. Junto com os estudos acadêmicos.
Intuição, sentimentos e até opiniões jogados no freezer. O algoritmo é tucano: morde (educadamente) e assopra (socialmente), tentando parecer gente.
No máximo, um redator de O Globo.
O dom, o talento, a vocação não são mais necessários.
Sacrifício de espremer a cabeça em vácuo criativo? Cabular almoço, janta e rua com amigos? Noites sem dormir despejando ideias compulsivas?
Maços e maços de cigarro com litros de café?
Pra quê?
Tião da Obra ou MC da Pedra podem discorrer sobre Schoppenhauer.
Mudam a roupa. Deixam barba. Foto no Novo Leblon ou na Paulista.
Pronto.
E tudo sai com o mesmo gosto.
Sanduíche do Mc Donald’s.
Gostoso mas sem nenhum tempero.
Sem sinal de vida.
Artigos, ensaios ou mesmo respostas em comentários nas redes.
Estudos, teses e até romances, livros.
Tudo com o GPT na autoria.
A Feira Literária de Paraty (FLIP) não sabe o que está perdendo.
Um grande autor.
Não bebe, não fuma e não toma café.
Mas escreve feito uma máquina!
Walter Biancardine
Um casamento de quinze anos acabou.
Me custou um frete para levar minhas coisas.
Fui para o mato.
Acreditei ter saído do naufrágio. Me mudei para uma casa.
Precisei fazer quatro viagens. Carro emprestado.
Minhas coisas ocupavam lugar.
Saí dessa casa e vim para o Rio de Janeiro – chance de ouro?
Dois carros para trazer tudo.
Agora volto para o mesmo mato.
Apenas uma mochila nas costas.
Seis décadas de vida.
Me renderam uma muda de roupa.
Toalha de banho. Escova de dentes.
Nem travesseiros nem panelas.
Nem livros.
Nem lembranças.
Nada.
Sou a encarnação do Nirvana.
Não reclamo. Só registro.
Vida que segue.
Walter Biancardine