quinta-feira, 17 de setembro de 2026

BEBE MAIS UMA, PARCEIRO


esse infeliz que veio à minha mesa
me pedir cigarro no boteco
eu conheço ele há tempos
nunca foi grande coisa

tinha ideias que achava geniais
quis criar camarão nas antigas salinas
e abrir padarias nos primeiros condomínios
há uns trinta ou quarenta anos atrás

só podia ser maluco mesmo
lembro bem que o povo sempre riu
aliás o povo sempre ria
ria dele, ria de tudo, ria de todos

mas era um cara bonito e por isso
riam escondidos e falavam pelas costas
o tempo passou e ele continuou sonhando
o tempo passou e ele envelheceu

perdeu a serventia
nem a utilidade de ter a casa da mãe
tinha mais

a idade nos leva pro lixo
e ele foi pro dele
ninguém precisava mais
ninguém queria mais

asilo
lixo
dá no mesmo

um parente roubou a mulher dele
quando ele estava trancado no lixo
mas disse que foi
com o maior respeito

ele então fugiu e mandou tudo à merda
veio aqui e pediu cigarros
ofereci alguns e cerveja também
mas fiquei calado

tem merdas que não valem ser lembradas
ou comentadas e mais ainda:
os que fizeram isso com ele
não valem habitar em nosso

desprezo

bebe mais uma, parceiro




Walter Biancardine



DESVIRGINADO PELA PSICÓLOGA


Fui à psicóloga.
Finalmente. Após mais de seis décadas de vida rindo de quem ia. Chamando-os de frescos. Ou de malucos.

Esta última terça-feira foi minha segunda sessão com ela.
Tudo ainda muito no início. Ela nada sabe ainda de mim. Nem eu dela. Qualquer esperança de melhora imediata não passa de rematada idiotice.
Mas há um porém: se meu filho me acompanhasse e se interessasse por ela – afinal, é bonitinha – ainda assim seria nova demais pra ele.
Imagine pra investigar os subterrâneos da alma de um fóssil pré - cambriano como eu?

A verdade é que existem profissões que dependem muito da experiência de vida do profissional. Se eu cometesse um crime e o juiz que me julgasse fosse um guri de 25 ou 26 anos, independente de sentença ou absolvição, eu já consideraria tal julgamento injusto.
O espinhudo togado nada sabe da vida.
Tal como a bonitinha psico.
E isso pode ser perigoso.

Tenho cá comigo seu laudo: “apresenta sinais depressivos”. Me encaminhou ao psiquiatra e estou no aguardo que o SUS se lembre de mim, pobre mortal, e marque finalmente a consulta.
“Sinais depressivos”?
Isso até minha mãe saberia. Embora tenha preferido fingir que não.

Na verdade, aceitei frequentar as sessões porque ando cansado de ter como terapeutas os cavalos e bois e vacas das redondezas.
Eles me ouvem, pacientes. Os bois me encaram estranhamente, sempre olhando fixo pra mim como se eu fosse um tarado. Ao menos, os cavalos me vêem e se aproximam pra esfregar os focinhos em mim.
Mas nenhum deles nada diz.
E a garotinha diplomada pode dizer algo – além de ter o poderoso carimbo que me encaminhou pro CAPS. Agora é aguardar.

Sim, eu tenho preconceitos.
Tive por toda uma vida.
Sempre achei que psiquiatras, psicólogos, psicoterapeutas ou psicanalistas tinham como prioridade se entenderem e se curarem, antes de qualquer um.

Mas os psiquiatras têm um carimbo.
Podem me receitar remédios que me tirem desse inferno.
Que me façam acordar sem a sensação que despertei pro armagedom.
E que me tirem o medo de abrir a porta de casa e ir à rua.

É tudo o que quero.

E aguardo com paciência.




Walter Biancardine



quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SEM NOME

há mais verdade num bar
que em todas as igrejas
lá são ditas e feitas coisas
nunca testemunhadas
por nenhum ungido

a bebedeira não mente
o choro assina

as confissões



Walter Biancardine



HOJE É DIA DE ÓDIO, BEBÊ

hoje é dia de ódio
aqueles dias em que tenho a certeza
porque a lógica esfrega em minha cara
que o mundo e as pessoas cagam e andam
pra mim

dias em que fica evidente
o gozo em humilhar e me lembrar
fui demitido dos afetos
e não mereço
um só segundo de atenção
ou sorrisos
ou mesmo educação
nada

digo alto e bom som
não tenho família nem parentes
a hipocrisia em dentes sorridentes
e todas as mesuras
foram pro lixo

meu sangue é só meu
me recuso a dividir o DNA
com répteis que se esqueceram
de ser primos ou tios 
ou irmãos ou qualquer
merda

não pensaram duas vezes
pois trair é fácil
e se fazer de ofendidos
mais ainda

tudo tem um limite
e o meu chegou afinal
me esqueçam e me deletem
de suas porcas 
e egoístas vidas
acabou

não sou parente de ninguém
muito menos dessa
corja




Walter Biancardine



QUIZÁS, QUIZÁS, QUIZÁS…

 
Um dos esconderijos que tenho é conversar com gente de outros mundos.
Não de outros espaços, mas de outros tempos.

Neste sábado fui em viagem a planetas que há muito não visitava, em companhia de Nélson – meu amigo escritor, que jamais leu um só livro em toda sua vida.

Desembarcamos em um lugar que estava em noite de gala.
Um enorme Cadillac rabo de peixe nos buscou na Estação Espacial.
Motorista de quepe, luvas, e que teve o cuidado de estacionar entre outros enormes Buicks, Oldsmobiles, Studebakers e – é claro – belas senhoritas vestindo finas sedas e Mink Coats por sobre seus delicados ombros.

Trajados com elegantes Tuxedos, eu e Nélson subimos as escadas e adentramos o salão de baile.
“Quizás, quizás, quizas” – especulava o bolero na voz de Bienvenido Granda, nos levando a crer que breve estaríamos acompanhados e imersos em uma nuvem suave de Chanel Nº5.

Whisky com duas pedras, canapés de salmão e seguia a procissão de boleros com Trio Los Panchos enquanto o sonho me embebedava e sussurrava em meu ouvido:
- Aproveite… até que a vida pisque os olhos e te devolva…

E ela me enlaçou em seus braços, sorriu e a inclinação de sua cabeça era o consentimento para que a distância entre os corpos diminuísse e a dança se tornasse uma conversa íntima, onde a gentil senhorita me perguntaria, sempre tímida, e eu responderia em ímpetos atrevidos, rechaçados por seu pudor sorridente.

E eu via Nélson igualmente viajando em sorrisos e lembranças, abraçado à sua doce ninfa, e nos tornamos dois casais a girar e girar, ensandecidos de recuerdos naquela pista, bêbados da mágica do tempo e com Carlos Gardel a reclamar que, fumando, esperava sua vez.

Muitos giros, muitas voltas, muitas histórias e antigos amigos a nos entontecer e fazer as pernas bambearem e as gargalhadas perdiam o sentido e razão; os lustres de cristal brilhavam em volta e o parquet encerado nos fazia deslizar até a porta de saída – sim, já estava na hora do sonho terminar.

As doces damas nos sopraram beijos pelas janelas do enorme Cadillac enquanto o motorista arrancava em nossa viagem de retorno.

E desembarcamos súbito, um baque na alma e nos ossos, quando o garçom nos trouxe a conta e a certeza de termos retornado ao século XXI.

O palacete do baile desapareceu, junto com a noite enluarada em sua varanda. Os boleros se calaram e levaram as danças e as doces ninfas vestidas de seda.

O whisky acabou.

O amargo na boca e na consciência surgiu.

Nos demos um abraço e nos despedimos, companheiros de uma viagem que só gente que já muito viveu poderia embarcar.

Pero no queria volver… 





Walter Biancardine




segunda-feira, 14 de setembro de 2026

FAZENDO NÚMERO


Dias atrás fui chamado pra fazer número num comício.
Não me meto mais em política. Me enojei disso.
Mas devo muitos favores a quem me chamou e, por isso, fui.
Mentira: fui também porque ele prometeu cerveja e cachorros-quentes quando voltássemos.

Moro no meio do mato e, além de mim, meu amigo convocou mais alguns animais silvestres como eu. E pra levar todo mundo, alugou uma van.
Era uma boa van, bem conservada. O candidato deve ter pago.

Lotação completa, fomos a caminho.
E eu observava os outros.
Miseráveis como eu.
Fracassados como eu.
Na maioria, velhos.
Bêbados.
Sem perspectivas nem futuro.
Como eu.
Pagos à troco de cachaça e comida.
Eu, ao menos, devia favores – pensei, tentando me salvar.

Desde que saímos um pobre infeliz reclamava ao meu amigo:
- Meu patrão, pára aí no boteco pra eu tomar uma cachaça!

E meu amigo ralhava com ele como se fosse uma criança:
- Sossega, rapaz! Senta aí e depois a gente bebe!

E aquele diálogo paternal se repetiu durante os quase cinquenta minutos de viagem, do meio do mato até o Centro da cidade – cidade essa que meus companheiros sequer sabiam andar, pois jamais haviam saído do mato.

O evento aconteceu num clube popular. E logo encheu.
As deslumbretes de aluguel – aquelas barangas (sempre barangas) que tocam cornetas, agitam bandeiras, colam adesivos de campanha em nosso peito e gritam a plenos pulmões “êêêêêhhhhhhh!!!!” a cada ordem do monitor, já faziam seu escândalo insuportável.
Foram pagas pra isso.
Ou não. Afinal todos que ali estavam, sem exceção, queriam um emprego ou um favor ou um contrato ou um “jeitinho” ou mesmo tijolos e telhas.
Alguma vantagem queriam.
Menos eu.
Eu só queria sumir.
Mais de três pessoas, pra mim, já é multidão.

Dei um basta.
Casa cheia, meu amigo nem veria se eu saísse e fosse na padaria tomar uma cerveja. E foi o que fiz.

Na saída e por coincidência o prefeito – cercado por “seguranças” de mãos dadas – vinha entrando e cruzei com ele justo no apertado corredor de acesso.

Ele me viu.
Parou e estendeu a mão, me cumprimentando.
Fui a única pessoa que ele cumprimentou.
Mas não porque sou especial, e sim porque recentemente sua esposa faleceu e, mesmo brigado com ele, enviei minhas sinceras condolências.
Ele, ao menos, deve ter se lembrado disso.
Achei bacana de sua parte.
E fui tomar minha cerveja.

Pouco me importa que idealismo não exista. Que todos ali só foram por interesse ou demagogia. Não quero mais saber.
Desgracei minha vida por isso.
Na verdade, fiquei pensando nos meus colegas da van.
Um punhado de velhos bêbados, sobrevivendo de subempregos e carpindo roça aqui, cavando valas ali ou plantando mandioca.
E bebendo. Bebendo muito.
Estão certos. Precisam beber.

Eu os julguei, confesso: não sabem ler nem escrever ou, sequer, pensar e falar.
O mundo os esqueceu – jamais fizeram parte de nada pra que pudessem dizer que foram excluídos. São só lixo.
Como eu.
Esperando o caminhão da morte nos recolher pro depósito.

E as pessoas morrem todos os dias em acidentes, AVCs, assaltos, infartos e isso sempre nos sobressalta e entristece. Até nos surpreende:
- Como assim morreu? Tão de repente…!

Mas nos recusamos a ver esse povo todo bebendo até cair, comendo lixo e vivendo em chiqueiros. Eles estão se matando.
Eles vão morrer e todo mundo sabe disso.
Mas ninguém faz nada.

Minto, fazem sim: quando o caseiro de seu sítio morre – aquele senhorzinho muito simpático – os hipócritas transformam suas bocas em caçapas de bilhar e exclamam, algo como “surpresos”:
- Como assim morreu? Tão de repente…! – tal como eu disse.

Deu a hora de ir embora.
Fui pra porta do clube e embarcamos de volta na van.
Ela foi deixando cada um deles em frente às suas casas. No mato. Só mato e escuro.
Me deixou em frente às terras onde moro, também.

Fui pra casa e só depois lembrei:
- E meu cachorro quente?





Walter Biancardine




EM TUDO DE MIM HÁ VERGONHA

com tudo é possível se acostumar
o fracasso vira rotina e incorporamos na cabeça
a humilhação, a miséria e até mesmo a fome
e dor
a dor da fome e da vergonha

mas existem dias diferentes
sequer lembramos do cotidiano miserável
porque algo caiu lá do alto em cima de nós
nos quebrou
achatou e partiu em mil pedaços

e tudo aquilo que passamos uma vida achando grande
- tudo o que sempre escrevi sem descanso ao reclamar -
e que me desesperou e enlouqueceu e me fez até
pensar o pior
parece choro de criança diante
da morte

não a minha, que tantas vezes cogitei como chantagem
mas a de outros, que me deixaram ver o estrago e a dor
nos que ficaram aqui, a chorar e gritar e desatinados
eles eram diferentes
alguém os amava e a tormenta sempre é
de quem fica

coisas terríveis acontecem com boas pessoas e todos dizem:
“por quê aconteceu isso?” ou “ele não merecia ter esse fim”
e é sempre bom lembrar
 que merecer
nada tem com isso
porque a vida não premia nem castiga
a vida fode todo mundo

sem distinção de raça, sexo, classe social ou credo

então maldito seja eu, que fiz da vida um palco pro meu drama
malditos sejam todos, que pensam em extremos apenas porque
nada sabem de si, de seus gostos, dos que os cercam
e até de seu sexo
e me dei conta de ser criança igual
porque isso é a vida
e eu brincava com ela

alguma alma neste mundo sentirá dor por mim se eu partir
(quero crer)
então mais essa vergonha e tormento não causarei
apenas me reservo o direito de ir ao bar, pedir cerveja e cachaça
- é o café da manhã
daqueles que o glaucoma da vida não impediu
de enxergar e rir

e escrever
e beber
e debochar,
sarcásticos,
dessa vida de merda
igual pra todos

minhas dores não são piores que as de ninguém
nem as suas, parceiro

cala a boca e bebe
e escreve






Walter Biancardine










domingo, 13 de setembro de 2026

METAFÍSICA ON THE ROCKS

dizem por aí que não morremos
enquanto somos lembrados

hipoteticamente
mas só hipoteticamente:

e se alguém jamais 
tiver sido lembrado
desde que nasceu?

seria uma alma
bêbada?




Walter Biancardine



A VELHA SENHORA: UMA CAFETINA DE LÁGRIMAS

nunca me dei bem com a morte
é uma filha da puta que nunca
me causou luto ou dó ou pena
me deu sempre e somente ódio

não fui mais que um desgraçado
chorando autopiedade 
chantageando e ameaçando
quando quem eu mais quis matar
era ela

minha autopiedade de merda
só acorda no choque
na realidade brutal de quem
resolve ir embora por conta
própria
e vai

não reajo como gente normal
fico é puto da vida
como alguém faz acordo
com essa desgraçada?
como alguém foge
pros braços dela?

ela não vale
e nunca valeu
os corpos que leva




Walter Biancardine



PODE COPIAR, SÓ NÃO FAZ IGUAL


a criança na aula de artes
faz o desenho que a tia pede
seus colegas admiram
e pedem também
ela faz e entrega
feliz
o resultado
todos aplaudem

o jovem cheio de espinhas
olha os mais populares
de sua turma e percebe
tem olheiras e cabelos tortos
cigarro no canto da boca
um ar sempre descontente
e falas melancólicas

e no dia seguinte ele aparece
cheio de olheiras e desgrenhado
cigarro babado e deprimido
com resmungos

desde criança 
tudo o que aprendeu
é imitar quem admira

nas vestes e gestos
e amores e ódios
e prazeres e tédios

depois envelhece
bate no peito
e se gaba

“sempre fui eu mesmo”

a ciência diz que
não existem dois
seres humanos iguais

a vida me mostra
que não existem dois
diferentes




Walter Biancardine



sábado, 12 de setembro de 2026

LINHAS MOLHADAS


agarraria você pelos braços
com toda sua fineza e 
sofisticação
e te espremeria na parede
até seu perfume pingar
junto com seu suor

enfiaria minha coxa 
entre suas pernas pra separar
e saber que estou certo
ao sentir a quentura molhada
em mim

eu riria de sua cara aflita
preocupada com virtudes
e satisfações a dar pra outros
mas com olhos revirando
e suspirando
no “foda-se” mais sincero
que já vi

você chupa minha língua
como um picolé
até que te viro de cara
pra parede e arrebito sua bunda
e abro suas pernas
já abertas

e descubro dentro de você
todo seu universo
de sonhos e fantasias
e ilusões e esperanças
quase infantis dos
contos de fadas

porque você agora
aberta pra mim
faz com que eu seja
sua vida inteira de sonhos
encarnada em um
cafajeste

e no último beijo
olhando seus olhos
embaçados e vesgos
de olhar os meus
vou ler
envergonhado
o soneto de amor
mais lindo e sincero

que uma alma humana
uma alma de mulher
já escreveu

e terei vergonha
vergonha de mim
muita vergonha

e serei obrigado
a tentar ser
melhor

o melhor que puder




Walter Biancardine








sexta-feira, 11 de setembro de 2026

PERDÃO


tudo o que quero é o perdão
porque sei o que fiz
hoje sinto em mim o que levei
e pago o preço por isso

grito e imploro perdão
tirei dela a segurança 
e referências de vida
e sua história
abriu mão de seu único abrigo
por mim

todo mundo sabia e eu também
o lar era tudo pra ela
era seu mundo e sua vida
e por mim ela desistiu

família é uma máquina sádica
um conjunto de selvagens egoístas
que se moem uns aos outros
tal como eu fiz
e achava certo

mal me dei conta que a condenei
sem seu teto ela morreria
como morreu

sou um maldito sem perdão
que matou a mãe de desgosto
e solidão e tristeza
e cumpro hoje uma pena
igual a que impus 

e ainda tenho o desplante
de implorar perdão e tentar
me redimir de ser um desgraçado
quando devia calar a boca
engolir o choro

e achar até pouco

família é máquina de moer gente
não fui o único filho da puta
mas hoje vejo
fui o pior

me mande um sinal
qualquer sinal
sou seu filho e vou saber
que me perdoou

eu imploro o perdão
me perdoa, mãe




Walter Biancardine


TRAVESSEIRO


mais um dia cinza e nublado
sentei na praia e olhei o mar
sempre fiz isso e ele nunca respondeu
mas pareço um filósofo e disfarço
minha miséria

e toda a insônia e agonia
me faziam olhar as águas e ondas
quando o mar se abriu e ela veio
uma iara rainha das águas sorrindo
olhando meus olhos

abriu sua boca carnuda e percebi
que queria me devorar mas não liguei
esqueci seus dentes e vi sua língua
uma enorme e macia e quente língua
e nela encostei minha cabeça

eu senti seu calor e carinho
você fechou a boca suavemente também
e sentiu a forma e o tamanho e a dor
fechei os olhos naquele ninho
onde finalmente teria paz

e numa convulsão de alívio
meu choro veio e chorei e chorei
enchi sua boca de lágrimas quentes
em seu amor você as engoliu todas
e me trouxe a paz

e tirou minha cabeça de sua boca
e sussurrou em meu ouvido:

“dorme em paz, meu amor”

e, finalmente,

dormi





Walter Biancardine



quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A CERTEZA DE NÃO TER CERTEZA

não tenho a pretensão de dizer
ensinar ou definir 
mesmo que só pra mim 
o que é o amor

não mando nele e também
não tenho nem quero ter
muita intimidade
com quem só me bate

o máximo que posso dizer
é que me parece uma casa
que me abriga e dá um teto
protege da noite e durmo

um monte de poetas por aí
se apega e diz que o amor
se esconde nos detalhes
mas não pra mim

prefiro essa casa
que me acolhe e pouco 
me importa se a cor da
parede não combina com
a fachada ou se o piso
tá rachado ou uma
lâmpada queimou

contabilizar detalhes
pra mim não é amor
é cobrança pro ego
porque não se decide
amar

amo por que amo e pronto
não escolhi nem decidi
então não faço vistoria
nem contabilizo

nunca soube
que diabos é
o amor

só sei que dói




Walter Biancardine


DOR DE BARRIGA NÃO DÁ SÓ NOS OUTROS

não tive vergonha de uma vez
chorar e mostrar lágrimas
e fala embargada no desafino
do desespero sem rumo

não escondi os cortes profundos
os lanhos que mostram os ossos
as carnes expostas e o sangue
muito sangue a empestar o chão

queria paredes acolchoadas
que não me fizessem depois
me arrepender de me destroçar
mãos e cabeça e corpo nelas

nunca fiz isso à toa
sempre foi no pior dos tormentos
mas os tormentos foram muitos
se repetiam e repetiam

mas ninguém que viu jamais ligou
sempre acharam que era cena
melodrama de um fresco mimado
um birrento que só queria tudo

pois achem o que quiserem
maldita hora em que me viram
assim

apenas não me cobrem
se hoje vejo choros e dor
e penso a mesma coisa




Walter Biancardine



RENASCIDO EM ÓDIO


me declaro inocente
porque estava morto
quieto no meu canto
quando ela apareceu

eu era só um amontoado
de carne e ossos e alma
triturados no moedor
da vida que pouco ou nada
sobrou

mas ela veio mesmo assim
mirou nos destroços e
sem se preocupar se entendi
me deu o enésimo pé na bunda
o pé na bunda da sucata

se ela achou que mortos
não se mexem ou reagem
dessa vez se enganou
pois reagi e urrei

não pelo amor pois
ela o comeu

mas pelo abuso
pelo desplante
por me achar um brinquedo
amar não é ser marionete
e gritei

agora sou eu que chuto
de volta e digo
suma de minha vida
de meu coração e lembranças

você azedou a única coisa
doce que ainda havia
em mim

não ia escrever nem falar
nem sofrer e nem existir
mas você ressuscitou
o cadáver
não por amor mas
por ódio

não há mais espaço
pra mulheres e sonhos
e amores e planos
e momentos doces

isso é anúncio de
margarina

e minha vida sempre foi
plantão do jornal

saiam de perto




Walter Biancardine



terça-feira, 8 de setembro de 2026

CRÉDITOS NO FINAL


um bom escritor ou poeta escreve coisas
e as pessoas buscam pra ler
comentar ou mesmo criticar
mas buscam

se eu escrevo alguma coisa e publico
e ninguém busca ou lê ou
comenta ou critica
o problema sou eu

muitos acham fácil se fazerem de
incompreendidos mas eu já vivi
e sei que o buraco é mais
embaixo

se não me lêem ou buscam é preciso
admitir que o que faço não agrada
e qual é o problema nisso?
ninguém agrada a todos

o problema não é eu não agradar
é ser insistente e continuar
publicando e ocupando espaço
que outros melhores poderiam
brilhar

não é melodrama nem coitadismo
apenas realismo quando vejo
que minha melhor obra
certamente será
sair de cena




Walter Biancardine



ME ACHAM BURRO OU É CARA DE PAU MESMO


algumas verdades são loucas
não importa que estejamos doidos
ou sãos

acham verdades loucas porque
todos são pessoas boas
menos eu

então quando digo que pressinto
que não querem me ver e me evitam
estou louco

não sei porque ainda insisto
em queixas sem sentido pois
sou errado

e me dei conta que cada vez
me torno menor ao reclamar
então me calo

e vi que meu sofrimento virou
piada ou desconforto alheio
basta

nunca em minha vida levaram
nada meu a sério e por isso
me viro

boca calada e nada mais
que vão todos pro inferno
ainda é pouco

enquanto cumpro minha maldita
sentença que chamam de vida
calado

e resistindo a tentação
de apertar aquele botão
“off”

não vou dar esse gostinho
a nenhum filho da puta
dizendo

“viu? era maluco mesmo”




Walter Biancardine



segunda-feira, 7 de setembro de 2026

SADISMO SLOW MOTION

seria hoje o mais longo dos uivos
daqueles que o fôlego parcela a dor
em noites de gritos
a pior das noites

cada rosto que vejo me assusta
parece um aviso que morreu
inclusive o meu porque
morrer nunca foi
novidade 
pra mim

e os gritos dos porcos morrendo
ainda estão em minha cabeça
porque morro com eles
porque os comeria
mesmo chorando
merda de fome
sempre a fome

tudo se embaralha e nada faz sentido
só quero dormir e nada mais sentir
nem fome nem dor nem culpa
nem solidão nem tudo
o que me fizeram
sentir sem eu
pedir

isso tem que ter um fim e meu grito
não é pros outros porque nada adianta
meu grito é pra Deus e pra vida
deixem de ser miseráveis
me levem logo daqui
só quero a piedade
de um dedo desligando
o botão
“off”




Walter Biancardine



PORCOS GRITAM

saio pra comer alguma coisa
um frio que nunca vi por aqui
portão trancado
preciso dar a volta

no caminho escuto porcos 
eles gritam no chiqueiro
são criados pra isso
os comemos

mas aqueles gritos nunca mais
vão sair de minha cabeça
chego ao outro portão
trancado

volto pra casa ainda escutando
os gritos de agonia deles
e a fome que sinto lembra
que os como

mas assim é a vida normal
do mesmo jeito que me comem
sem dó nem piedade
só que não grito

não mais

ninguém lembrou que existe
um filho da puta morando aqui
então trancaram tudo
ele não grita

não mais

prisioneiro de minha própria
miséria e insignificância
tem horas que me farto
e sei que não existo

não mais

e o dia que já estava péssimo
consegue ficar ainda pior
ao menos tenho café
e uns cigarros

cara de sorte





Walter Biancardine