quinta-feira, 9 de julho de 2026

NÃO PEDI NADA DISSO


comecei a fumar
pra imitar os artistas
de cinema

e também beber
saiu por conta
duma vida no 
liquidificador

não é que eu goste
de botequins
gosto da liberdade
que eles têm

e a vaidade se foi
desde o dia
em que me entendi
como feio

não tenho culpa
a vida me moldou

nada disso 
teria problema
tivesse eu
outra profissão

mas nasci escritor
e me apontam o dedo

não tenho culpa





Walter Biancardine




CLEPSIDRA


fechado em casa
em mim mesmo
há dias
e noites também

sem tevê ou relógio
nem calendário
ou jornais
ou internet

sei que é dia
porque tá claro
e noite
pela escuridão

não sei se é
segunda ou sábado
primeiro ou último
dia do mês

muito menos sei
que horas são

meu relógio
é o maço de cigarros
clepsidra que pinga
em meus cinzeiros

quanto mais vazio
mais tarde deve ser

se o cigarro acaba
danou-se




Walter Biancardine




ALICE NO PAÍS DAS CARREIRAS

 
eu era criança
acreditava em tudo
Papai Noel
monstros
pato Donald

cresci e aprendi
que não era tanta
a mentira que diziam

mais grave era
a mentira que
escapava e escondiam

olha pro olho
do coelho da Alice
e me diz

ele tá cheirado?




Walter Biancardine






ÓLEO DE AMÊNDOAS SOBRE TELA


já tive mulheres impressionistas
eram sempre vagas e sutis
tive outras expressionistas
tormenta em fúria

realistas eram perigosas
nunca soube o que era
retrato ou gente de verdade

jovem eu gostava muito
das surrealistas
mas ressaca e larica
tem sua hora

tal como as abstratas
sempre incompreensíveis
citando terapeutas

as pop-art eram vaidosas
consumistas e até 
interesseiras

mas duro mesmo eram as cubistas
exigindo um Picasso
que eu não podia dar

ainda assim melhor é a feiúra
que a triste companhia
de uma natureza-morta



Walter Biancardine



SINTOMAS

 


Ir no botequim tomar um café com pão na chapa sempre foi rotina pra mim. Desde os tempos de escola sou um ávido frequentador de botequins.

Comecei com refrigerantes na infância. Depois, a média com  pão e manteiga me seguiu até a idade adulta.
Mas aí veio o Guaravita. 
E isso mudou tudo.

Quando meu mundo de sonhos desabou e me peguei contando moedas pra inteirar o cigarro, meu universo de possibilidades também encolheu e passei a matar a fome comendo uma coxinha de um real e um Guaravita, que custa dois. Com três reais dava pra segurar a onda até ver o que aparecia  pro almoço.

Já fui Jack Daniel’s.
Depois cerveja. 
Também tenho experiência como água tônica.
Prática em refrigerante e caldo de cana.
Doutorado em café.
Hoje atuo como Guaravita.
É minha biografia líquida.

Me acho um Jack Daniel’s mas não passo de um Guaravita.

O pior é achar esta porcaria saborosa.

Eu, hoje, gosto.



Walter Biancardine



quarta-feira, 8 de julho de 2026

ELES USAM BLACK-TIE


já conheci gente
que por dentro é uma casa abandonada
escuro e vazio e sujo e dá medo

outras ainda tem
um porão mais escuro e mais úmido
e mais sujo que a sala

e ali moram os monstros

todos temos monstros
mas os normais os criam na sala
são os pets da hora do aperto

mas essa gente do porão
não tem monstros de defesa
os seus são canibais
destruidores
chupa-sangue

e são incontroláveis

o engraçado é que
essa gente costuma ser
muito simpática

o carisma é o black-tie
do carrasco da inocência



Walter Biancardine


HOMEM NÃO TRABALHA


Quem acorda de manhã cedo pra ir trabalhar sabe: o ponto de ônibus mais parece um banheiro de mulheres.
Só tem mulher.
Novas, velhas, garotas colegiais, magras, gordas ou feias.
Mas, no fim, só mulheres.

E você entra num escritório qualquer ou mesmo uma loja – só mulheres trabalhando. Muito raramente, um ou outro homem é avistado à distância, fazendo um serviço subalterno qualquer, perdido dos olhares alheios. 

Quando me dei conta disso, cocei a cabeça e pensei: onde diabos estão os homens do Brasil?

Os achei voltando pra minha casa, caminhando pelas calçadas.
Um grupo sentado no meio-fio, uma garrafa de cerveja no chão, e conversando fiado. Rindo muito, todos eles.

Mais à frente um outro grupo. Talvez mais deprimidos.
Sentados no chão, encostados no muro, cabisbaixos e calados, apenas olhavam as pessoas passarem. 

Na esquina, um botequim com mesas de plástico na calçada.
E mais homens, barrigudos, rindo muito e falando alto. Futebol, bundas e outros assuntos dos quais juram ser especialistas.
Em cada mesa, uma pequena coleção de garrafas de cerveja.
E riam. Riam muito.

Os poucos homens trabalhando que encontrei dirigiam caminhão, eram camelôs ou subiam em postes pra consertar a rede elétrica.
Ou trabalhavam em obras.

Todos pobres. 
Mas riem. 
Riem muito.

Quando um homem tem vergonha de estudar e acha que isso é coisa de mulherzinha, acabou de decretar sua miséria.
Acham o máximo serem ignorantes. 
Barrigudos de bermudas e sandálias havaianas.
Ogros.

E se passam na porta de uma faculdade e veem as moças saindo de lá, eles riem.
Riem muito.

É só o que fazem.



Walter Biancardine


TALANAFILA

 


em minha imaginação meu livro
venderia e seriam milhões
de espermatozóides
a fecundar cabeças

mas desses milhões na verdade
apenas um entra no óvulo
e o fecunda
ou não

um exemplar
apenas um único
e mísero exemplar
e não entrou no óvulo

e pensar que eu ria
de candidatos a vereador
que conseguiam apenas
um único voto

sequer pai e mãe
ou irmãos
votaram nele

sou um vereador 
das letras
mereço uma placa
na parede da editora

“apenas um e único”
longe de ser elogio
mas vergonha

ao menos o editor
não me processou

aliás
nem ligou




Walter Biancardine




É A VIDA

 


vi uma foto
de um homem que faz frete
recolhe entulho e roça quintais
com fé em Deus

o rosto diz tudo
cara talhada na faca
em pedra e madeira
a vida esculpiu

vi a foto nas redes
e vi mais coisas
também

todo mundo guarda
um universo inteiro
dentro de si

a cara talhada na faca
diz muito mais
sobre essa vida de merda
que a gente nem nota

e esconde o universo
que poderia dar tanto

me pergunto
quantas crianças
poderiam ter sido

um Mozart?




Walter Biancardine



PERDEU A HORA

 


sujeito orgulhoso é convidado
para uma grande festa
tira do armário
um antigo terno lindo e caro
que chamava atenção de todos

descobriu horrorizado
o terno caríssimo estava puído
comido por traças e manchado
amarrotado e com mofo
imprestável e feio

o tempo passou e o sujeito
que era orgulhoso
não viu

não viu nem mesmo que ele
depois de tantos anos
ficou igual ao seu terno
amarrotado de rugas
imprestável pela artrite
e feio de velhice

quando pensava em si
era como um homem de trinta
e poucos anos e ativo

mas só até olhar o espelho

a maldita cabeça é jovem
não acompanhou o corpo
fez de um homem sério
o tio do churrasco

e só seu terno
podre de velho
conseguiu mostrar
a verdade




Walter Biancardine




ELES USAM BLACK-TIE

 


já conheci gente
que por dentro é uma casa abandonada
escuro e vazio e sujo e dá medo

outras ainda tem
um porão mais escuro e mais úmido
e mais sujo que a sala

e ali moram os monstros

todos temos monstros
mas os normais os criam na sala
são os pets da hora do aperto

mas essa gente do porão
não tem monstros de defesa
os seus são canibais
destruidores
chupa-sangue

e são incontroláveis

o engraçado é que
essa gente costuma ser
muito simpática

o carisma é o black-tie
do carrasco da inocência




Walter Biancardine



ARQUIVO MORTO


um amigo disse
que o papel é um depósito
cemitério de versos
funeral quase vazio

otimista,
não quis piorar

o papel também
sepulta dores
sonhos
amores
desejos
amarguras
solidões
vidas

não leem sequer
manual de instruções

morreremos inéditos
abraçados
a pilhas de papel
imundo



Walter Biancardine



PRIORIDADES


o que me preocupa de verdade
é o que vou comer amanhã
ou se vão me mandar 
sair de onde moro

não sei se é um nirvana
dos subúrbios da Leopoldina
mas se nada tenho
nada posso
nada quero
então não há nada
com que me preocupar

só um teto
e um prato e
se der

uma cerveja



Walter Biancardine



terça-feira, 7 de julho de 2026

LÁ PRAS NEGAS DELE

 


Fico besta de ver
quanta gente se acha importante
vão pras redes e escrevem
frases lapidares
verdades absolutas
conselhos e sabedorias
tentando transpirar
alguma macheza e rudeza
esculpida pela vida dura
que nunca tiveram

são os cripto-coaches
com vergonha de vender cursos
se refugiam na falsa amargura
dos heróis frios dos filmes
e disparam rajadas
de opiniões não pedidas

fingem ser escritores
aconselhando estagiários de escritores
e dizem que o que inspira
é o trabalho duro
num emprego qualquer

eles acham o trabalho
o pior castigo do mundo
e impõem aos outros
como punição e amadurecimento

isso mostra que são uns frouxos
cuja pior coisa que imaginam
é trabalhar

o pinto nem saiu do ovo
e já quer ensinar
a ciscar



Walter Biancardine



MÉDIA


É preciso se juntar 
a um grupo de gente 
que se acha artista
para que você
não se sinta
tão mal

ouvindo o absurdo
o impensável
a estupidez
mediocridade
ou puro mau-gosto
travestido de
parecer à frente
de seu tempo

só assim
seu olhar será
mais benevolente
consigo mesmo

talvez até
descubra um talento
promissor
em sua cabeça

a média humana
é medíocre




Walter Biancardine


RETÓRICA

 


Tentamos explicar e não conseguimos
buscamos alguém e ela não está
pedem nossa opinião e não ouvem
corremos atrás e não alcançamos

argumentamos
discutimos
demonstramos

nada

felizmente existe a violência




Walter Biancardine



FIMOSE

 


quando conhecemos cada rachadura
e buraco das calçadas mas
nunca reparamos nas lojas

ou avaliamos o sacrifício
desumano que será
ir à padaria comprar pão

a postura nos faz gêmeos
de um pau mole
curvos e flácidos
com a gola da camisa
como fimose

o olhar não é um charme
é fotofobia mesmo
após tanto tempo no quarto

às vezes uma camisa do avesso
ou blusa amassada
as mesmas por um mês

a vida cobra alegria
é obrigatória
a quietude afasta 
acham contagioso
no país da malemolência

por isso prefiro
uma vez mole
ficar na cueca




Walter Biancardine



ANDO EM BOA COMPANHIA

 


Vi um cavalo ser espancado e enlouqueci
acordei nas ruas com roupas de outro
e nunca soube explicar

bebo litros de um café de trinta anos
na caverna de meu quarto
forrada de cortiça

tentei escrever em pé e contar palavras
mas a página venceu

andei quilômetros com Dickens
dormi com uma colher Dalí
da cozinha
pra comer as maçãs podres
de Schiller

sou demasiadamente humano
e busquei o tempo perdido
que Proust não achou

sou um velho e amo o mar
mas não explodi minha cabeça
com um tiro

e preciso de minhas duas orelhas
para segurar os óculos
e imaginar girassóis




Walter Biancardine




RESSACA

 


bebedeira custa caro
em todos os sentidos

a fuga tem um preço
esquecer custa dinheiro
saúde e até dignidade

nossos rastros no banheiro
lembram mais um aterro
sanitário

mas ainda são mais limpos
que os rastros
da noite anterior

sempre dói lembrar
algumas coisas que nos
escaparam
entre a boca e o copo

sincericídios
gafes
lágrimas

não se bebe pra esquecer
mas pra entender
o problema vem depois

a dor de cabeça
e o fígado em revolta
doem menos
que as lembranças

por isso
tenho bebido
sozinho




Walter Biancardine




VERDADE ON THE ROCKS

 


O melhor do bar
é beber e calar
olhar
confirmar

o frígido chora
o honesto confessa
o macho senta
gostoso

beber
olhar
confirmar

sem nada falar




Walter Biancardine



COMPLEXO DE X

existe gente que arruma briga
até em missa
discute na fila
resmunga no elevador

são os mesmos que empestam
redes sociais xingando
reclamando de tudo
de todos e das redes

nenhuma rede pediu
que entrasse
ou fizesse perfil

seus xingamentos
ou opiniões
raivosas

enfie no cu




Walter Biancardine



ELES SAEM DE CASA

  


Não sei por que essa gente sai de casa.
Cara amarrada. 
A boca mais parece um esfíncter.
Não saem por obrigação.
Saem pra ir a um restaurante ou bar ou loja, tanto faz – a cara de cu é a mesma.

Não fala com funcionários. 
Não fala com a ralé. 
Não fala com ninguém que não esteja à sua altura – nem mesmo Deus. 
Ele é só na missa.

Mas antes falava. Só que ninguém lembra.
E falava muito.
Sorria. 
Agradecia até o não feito.
Abocanhava o saco do chefe e engolia as duas bolas.
E acha que ninguém notou.

Essa gente não vale sequer as bolas que lambeu.
Mas pra reclamar são bons.

Basta alguém feliz por perto.




Walter Biancardine



ANTES DO PRIMEIRO CIGARRO


não existe coisa pior

recém-acordado
ofuscado pelo dia
e gritos perfuram 
rapidez assusta

o imbecil chega

falando alto
cheio de pressa
cobrando coisas
que nunca pediu

fala com um e outro

e eu mal saído
da cama e olhos
franzidos

ouvidos sensíveis
do silêncio do sono
vendo aquilo

cada gesto, um susto
cada grito, um ódio

eu o mataria
em legítima defesa

e voltaria pra cama




Walter Biancardine




NÃO ERA UÍSQUE

 


acordei de ressaca
não por bebedeira
mas ressaca boa
de perfume

o cheiro me cobriu
a noite inteira

era ela ao lado
acordei acompanhado

mas só



Walter Biancardine