domingo, 1 de fevereiro de 2026

VOLTANDO A MIM -

 


O fracasso pertence aos corajosos, por insistirem em respirar após o abismo.

A vida acontece em surtos, avalanche de pancadas misturadas a momentos de felicidade absurda, e nesse redemoinho se desenrolam todos os dramas, todas as dúvidas, se clamam vitórias ou choram-se derrotas.

Mais de quarenta anos gastei nesta roda-viva, me perdi em filosofias ou questões que transcendiam a porca vida de sempre; me senti forte o bastante para mudar o mundo, acreditei ser minha voz a verdade estampada em papel. E não me arrependo, pois vi que o inimigo é fraco, é falho e é burro – mas também aprendi que somos piores que ele: eu, você, nossos pais, filhos, netos e avós. Ninguém escapou da omissão e do medo, travestidos de prudência.

O preço me saiu caro, mas não escrevo para lamentar e, sim, para estampar a decisão de que está na hora de abandonar o personagem – metade de minha autoria, metade construída por outros – e ser apenas e tão somente eu mesmo.

Sim, esta criatura ambivalente e contraditória, que se embebeda com Bukowski e transcende com Tomás de Aquino; que deposita sua fé na lógica de Aristóteles mas mergulha no pessimismo de Schoppenhauer;

um niilismo que deixou cicatrizes em meu corpo e alma, rodeado pelo cinismo da vontade de apreciar máscaras e falsidades alheias;

a morbidez de enxergar o personagem vitorioso que cada um estampa em suas vidas sociais, contrastando com a angústia de saber-se uma farsa ao trancar-se no banheiro.

Sim, este sou eu; alguém que, um dia, foi amado e odiado.

E um homem que jamais despertou amores e ódios não pode, sequer, dizer-se como tal – é uma vida em branco.

Este lixo maravilhoso, esta excrescência divina, este parvo com o dom de escrever, sentir, intuir e enxergar – para logo depois jogar tudo fora na imundície cética – este, ou isto, sou eu. E não mais tratarei de política, políticos, tribunais ou causas patrióticas, pois ninguém jamais se levantou do sofá – eu, inclusive.

A partir de agora mudo este perfil. A política, o Brasil e o mundo são causas perdidas ao menos por meio século, e isso não mais me interessa. O que me diz respeito são as pessoas, a alma humana, a farsa ou heroísmo embutidos em cada um; o patético da vida e a glória do fracasso – sim, pois da vitória não se extraem lições.

Sento no bar, bebo um trago e tudo o que escrevo é o que vejo, o que sinto e, até, qualquer delírio filosófico que perturbe a santa paz de um atormentado que, finalmente, reconhece seu tamanho, lugar e função.

E o amigo leitor e seguidor terá toda a liberdade de aqui continuar ou ir embora, pois não o julgarei.

Eis que não é outra a essência da vida: partidas e chegadas.


Walter Biancardine


SENTIDO OBRIGATÓRIO

Não faz sentido exigir sentido naquilo que nunca nos prometeu ter: o universo, a vida, o amor.

Não busque respostas.
Viva a pergunta.


Walter Biancardine

SÓ ISSO?

Ninguém cai, colapsa ou enlouquece por uma só razão.

A vida é metódica, detalhista e perfeccionista, pingando a cada dia as gotas do ácido que corroerão nossa estrutura e nos farão desabar.

E quando isso acontecer, quando finalmente você disser que é o bastante e cair no abismo, sempre haverá alguém para se admirar e perguntar, quase debochado:

- Mas é só por isso?


Walter Biancardine

TEMPO

Todo mundo olha o celular.
Espiam as redes, até veem as horas;
Só não enxergam o tempo.
Ele passou e você não viu.

Walter Biancardine

LINHAS TORTAS -

Os erros que cometi, a vida que sempre levei e até as mulheres que amei me destruíram. Mas sem isso eu não teria escrito uma linha sequer.

Não, não quero me curar.

A dor é a mãe da criação, o cotidiano da vida, e a felicidade nunca foi objetivo.

É sempre só um momento.


Walter Biancardine

GRITE BAIXO -

Gritar contra o mundo é perder tempo. O verdadeiro ato de rebeldia, de oposição ao sistema, é continuar sendo você mesmo em silêncio - escrever o que ninguém quer ouvir, viver como ninguém ousa viver. O sistema não sabe lidar com quem não depende dele.

O mundo não persegue o mal, persegue o livre. E o livre incomoda porque é imprevisível: não está à venda, não é convencido nem manipulado, e toda essa maldita engrenagem depende da previsibilidade para existir.

A liberdade de um homem é insulto mortal à sociedade controlada, e por isso homens livres são menosprezados, ridicularizados, sabotados e excluídos porque sua simples presença expõe o quanto os outros vivem de fachada.

E o preço da liberdade é o exílio.


Walter Biancardine


sábado, 31 de janeiro de 2026

MÚSICAS FAZEM O QUE PALAVRAS NÃO ALCANÇAM -

 


TUDO FICA, MENOS NÓS -

 


A vida cobra.
O que se segue não é divagação – é inventário.

É contabilidade moral feita no fim do expediente, quando o caixa não fecha e o sujeito finge que não viu o rombo. Uma ferida antiga, dessas que só doem quando a gente para de correr.

A vida, em certos períodos, deixa de ser narrativa e vira uma sucessão de baixas. Não é um grande desastre, não há música trágica ao fundo. É pior: tudo vai indo embora em silêncio. Primeiro o emprego, que não era vocação, mas pagava as contas e dava alguma dignidade ao cansaço. Depois alguns bens, que não eram luxo, mas eram seus – ou pareciam. Depois as amizades, que não acabam por briga, mas por falta de assunto, por agendas incompatíveis, por um cansaço mútuo de fingir entusiasmo. Por fim, os amores. Esses não vão embora: evaporam. Um dia você acorda e percebe que está sozinho. E não há o que fazer.

Há um momento da vida – geralmente depois da quarta ou quinta grande perda – em que a existência começa a parecer um inventário negativo. Não se soma mais; subtrai-se. A esperança some aos poucos, como uma goteira que a gente aprende a ignorar. E, para não enlouquecer, repetimos a frase anestésica: “a vida é assim mesmo”. É a morfina dos fracos e o álibi dos cansados.

Essa frase é imbecil, mas sempre repetida com a sabedoria de um papagaio budista. Pronto. Fecha-se o caixão do pensamento e segue-se em frente. Ela não explica nada, mas tem uma utilidade preciosa: impede o cálculo. Porque, se você somar de verdade o que perdeu – pessoas, projetos, versões de si mesmo – a conta assusta. Não é pouco. Não é banal. É muito. E aí surge a pergunta que evitamos como quem evita um diagnóstico: se perdi tanto, é porque tive esse tanto. Eu era rico?

A mente recua nesse ponto. Aciona a defesa automática. Não, claro que não éramos ricos. Sempre faltou algo. Sempre houve frustração, limite, desejo não atendido. Mas isso é truque retórico da própria miséria. A verdade incômoda é que, sim, houve riqueza. Não no sentido bancário – esse é o mais vulgar – mas no sentido existencial. Houve abundância de sentido, de presença, de expectativa. Houve dias cheios demais. Houve gente demais. Houve amor suficiente para achar que o mundo tinha um eixo.

Só perde quem possui.
O resto é discurso de pobre espiritual tentando parecer sábio.

Em momentos de maior lucidez – ou de maior exaustão – tentamos o caminho oposto: o da negação radical da posse. Dizemos a nós mesmos que nada é nosso. Que tudo é empréstimo. Que morreremos e os bens ficarão, os amigos seguirão suas vidas, os amores amarão outros corpos com a mesma boca que um dia jurou eternidade. Há uma certa elegância nisso, uma postura quase espiritual. Morremos e tudo fica. Amigos seguem. As mulheres que amamos continuam respirando em outros braços.

O desapego entra em cena como virtude superior, quase um diploma moral. Não se apegar vira sinônimo de maturidade.

É verdade. Tudo isso é verdade. Mas é uma verdade fria, dita de longe, como quem descreve um acidente do outro lado da estrada.

O problema é que essa verdade não anestesia coisa nenhuma quando a perda acontece. Ela só funciona em palestras, livros de autoajuda com capa bege e frases sublinhadas. Na vida real, perder a mulher amada – ou perder uma situação que dava chão ao dia – dói como amputação. E não há filosofia oriental que resolva isso às três da manhã, quando a casa está silenciosa demais e o copo já está vazio demais.

Então aparece o elogio do desapego. Palavra bonita, vendável, que soa elevada. Mas o desapego, quando levado a sério, tem um preço que poucos admitem. Porque não se desapega seletivamente. Quem aprende a não se agarrar, aprende também a não se lançar inteiro. E quem não se lança inteiro vive pela metade. Funciona. Dói menos. Mas também vale menos.

Aí surge a pergunta central, a única que presta: existe um ponto de equilíbrio? É possível amar alguém sabendo – de verdade, não da boca pra fora – que ela nunca será sua? É possível lutar por algo sabendo que, no fim, aquilo será deixado para outros ou dissolvido pelo tempo? Ou toda tentativa de equilíbrio não passa de um cinismo elegante, uma frieza treinada, um jeito de continuar vivo sem se comprometer demais?

A resposta honesta é desagradável: não há equilíbrio confortável. O que há são escolhas trágicas disfarçadas de virtude.

Há quem escolha amar como se fosse eterno, mesmo sabendo que não é. Essas pessoas sangram mais. Bebem mais. Envelhecem mais rápido. Mas vivem com uma intensidade que não cabe em frases de efeito. Sabem que tudo acaba, mas se recusam a viver como se isso fosse a única verdade relevante. Apostam sabendo que vão perder.

E perdem. Repetidas vezes.

Há quem escolha o distanciamento inteligente. Observa, calcula, ironiza. Não se ilude, não promete, não se entrega por completo. Evita o tombo reduzindo a altura do salto. Sofre menos, sem dúvida. Mas passa pela vida como quem passa por um bar ruim: entra, bebe algo morno, vai embora sem lembrar do rosto de ninguém.

E há os que tentam o meio-termo – o mais perigoso de todos. Querem amar, mas com cláusulas. Querem lutar, mas com plano de saída. Querem intensidade com seguro emocional. O resultado costuma ser patético: não vivem de verdade e ainda assim sofrem. Porque o coração não respeita contratos assinados pela razão, ainda que digam que tudo é apenas “resultado de minhas escolhas”.

No fundo, toda essa discussão sobre posse, desapego e equilíbrio é uma tentativa desesperada de domesticar a perda. Mas a perda não é um erro do sistema. Ela é o sistema. A vida não é uma sucessão de perdas por acidente; é uma longa operação de desapropriação. Primeiro tira o supérfluo, depois o necessário, por fim o essencial. E ainda espera que você agradeça pela experiência.

Talvez a única postura minimamente honesta seja aceitar a contradição sem tentar resolvê-la. Amar sabendo que vai perder. Construir sabendo que vai ruir. Lutar sabendo que outro colherá. Não por heroísmo nem por virtude, mas porque a alternativa – o cinismo absoluto – é uma morte antecipada com traje esporte fino.

Isso não é esperança. Esperança é coisa para jovens e religiosos bem resolvidos.
Isso é lucidez suja. Daquelas que não salvam, mas permitem atravessar o dia sem mentir demais para si mesmo.

No fim, a vida não nos pergunta se queremos perder. Ela apenas pergunta quanto estamos dispostos a viver antes da perda. E essa pergunta, infelizmente, não admite resposta inteligente.

Só resposta vivida.

Prefiro esta resposta.


Walter Biancardine



O VÍCIO SOLITÁRIO DA ESCRITA -


Hoje chamam de filosofia um monte de opinião com verniz universitário. Antigamente, filosofar era arriscar a própria alma. Sócrates bebeu cicuta; hoje o sujeito bebe likes. O preço caiu, a ambição também.

Filosofar, no sentido antigo – o único que presta – não é “refletir sobre temas”, é aprender a morrer direito. Platão não escrevia para animar seminário, escrevia para arrancar o homem da caverna nem que fosse à força. Santo Tomás não “dialogava com perspectivas”, ele ordenava o caos. Eclesiastes não fazia autoajuda: ele cuspia na mesa e dizia “tudo é vaidade” para ver quem aguentava ficar de pé depois.

O problema moderno é simples e trágico: trocamos a pergunta “o que é verdadeiro?” por “o que funciona?”. Funciona para ganhar dinheiro, status, seguidores, cargos, teses. Mas a verdade não funciona – ela pesa. Ela exige renúncia, hierarquia, silêncio, disciplina. Coisas fora de moda. A modernidade quer resposta rápida; a verdade exige vida longa, coluna ereta e, por vezes, algumas doses de Jack Daniel’s.

E aqui vai uma heresia necessária: sem tradição não há pensamento, só delírio original. O sujeito que despreza o passado não é ousado, é órfão. A tradição não é um peso morto; é o chão que impede a mente de afundar no pântano do próprio ego. Quem corta raízes chama isso de liberdade; a árvore chama de morte.

Filosofar hoje, se for para valer, é um ato de resistência. É dizer “não” ao ruído, “não” à pressa, “não” à psicologia barata travestida de metafísica. É sentar, ler um morto mais inteligente que você, aceitar a humilhação intelectual e, só então, arriscar uma frase própria. Todo o resto é teatro acadêmico ou militância de bar.

Não espero multidões lendo o que escrevo – minhas verdades nunca foram esporte de massa. Se tocar dois ou três, já cumpriu mais função do que mil textos feitos para agradar algoritmos. A maioria vai ler e passar. Alguns vão sentir um incômodo rápido e chamar de “clima pesado”. Um ou outro – o raro –  vai reconhecer algo próprio ali e ficar em silêncio por uns minutos. Esse é o benefício real.

Bons escritos não consolam, não resolvem, não mobilizam. 

Eles deslocam. Tiram o sujeito um centímetro do lugar onde estava. 

Às vezes, um centímetro é tudo o que separa um homem da perda total. 

É a minha aposta.


Walter Biancardine




TUDO CERTO. SÓ NÃO FAZ SENTIDO -


A cidade grande não olha para ninguém. Ela contabiliza. O homem comum aprende cedo que não é presença, é registro. Um número que entra, outro que sai. Se falha, é excluído. Não há drama, apenas atualização de sistema. A cidade não odeia; isso seria pessoal demais. Ela simplesmente não se importa.

O desempregado descobre algo pior que a miséria: a irrelevância. Não falta apenas dinheiro – falta lugar. Ele continua acordando cedo porque o corpo não desaprende a servidão tão facilmente. Caminha entre prédios altos demais, feitos para esmagar qualquer pretensão de singularidade. Passa por gente que o atravessa com o olhar como se ele fosse fumaça. A pobreza extrema ainda causa incômodo; a inutilidade social, não.

Quando arruma trabalho, não sente alegria. Sente alívio, que é a forma mais triste de felicidade. Volta a existir oficialmente. Recupera o direito de ser explorado, cobrado, pressionado. Aprende rápido a calar certas perguntas. Questionar demais não combina com folha de pagamento. A lucidez é um luxo que o expediente não tolera.

Então começa a farsa da individualidade. O sujeito precisa acreditar que é único, caso contrário enlouquece. Compra uma roupa que “diz quem ele é”, mas diz o mesmo sobre milhões. Veste a própria uniformização com orgulho. Escolhe músicas repetitivas, batidas hipnóticas, feitas não para escutar, mas para ocupar espaço mental. A música não eleva; ela abafa. É trilha sonora para evitar o encontro consigo mesmo – encontro sempre constrangedor.

Financia um carro em sessenta, setenta parcelas. O banco chama isso de conquista; o tempo chama de hipoteca da juventude. O sujeito dirige feliz nos primeiros meses, depois dirige cansado, depois dirige resignado. O carro envelhece antes dele terminar de pagar. Como quase tudo. É símbolo de sua liberdade estacionada. Ele dirige muito, chega sempre atrasado e nunca chega a lugar algum. O volante gira, mas o destino é fixo.

Nos encontros com amigos, o teatro atinge seu auge. Todos chegam tensos demais para serem sinceros. Falam de sucesso porque admitir fracasso exige intimidade consigo mesmo, coisa rara. Mentem com educação. Sorriem com técnica. Cada um exibe a versão socialmente aceitável do próprio naufrágio. A felicidade virou um dever cívico, uma norma de etiqueta e convívio: quem não aparenta estar bem é visto como ameaça.

Ninguém diz que acorda vazio. Que trabalha sem acreditar. Que sente inveja de quem morreu cedo demais. Essas confissões não combinam com cerveja nem com as selfies para o Instagram. A verdade estraga o convívio. Melhor seguir com frases prontas, risadas ensaiadas e histórias infladas. A mentira coletiva mantém o grupo unido. A sinceridade o dissolveria.

À noite, quando o barulho baixa e sobra apenas o teto e o cansaço, algo escapa. Uma sensação sem nome. Não é tristeza clara, nem desespero teatral. É uma percepção seca: isso não vai a lugar nenhum. A vida não se revela, não se explica, não se justifica. Ela apenas continua, como um erro que ninguém se deu ao trabalho de corrigir.

O homem comum sente isso por segundos. Logo empurra para baixo. Amanhã tem trabalho. Amanhã tem conta. Amanhã tem mais uma rodada. Pensar demais não muda nada e ainda atrapalha o sono. A lucidez não paga aluguel.

A cidade ajuda a empurrar. Oferece distração contínua, ruído permanente, estímulo infinito. Tudo para evitar o silêncio – porque o silêncio faz perguntas. E algumas perguntas não têm resposta, apenas constatação. Que a vida não prometeu nada. Que não há propósito oculto. Que sobreviver talvez seja o máximo que se pode exigir.

Não há redenção esperando no fim da linha. Não há sentido guardado para quem “aguenta firme”. Isso é consolo barato para manter o sujeito funcional. A existência não recompensa, não pune, não explica. Ela apenas consome tempo e corpos, um após o outro, com eficiência admirável.

E ainda assim – ironia final – o homem continua. Não por esperança, mas por hábito. Não por fé, mas por inércia. Vive porque parar exige um gesto que quase ninguém tem coragem de fazer. Segue adiante com pequenas anestesias diárias: café, ruído, tarefas, promessas vagas.

Talvez haja uma dignidade mínima nisso tudo. Não a dignidade heroica dos discursos, mas uma dignidade seca: atravessar a vida sem acreditar nas mentiras oficiais, sem esperar que ela faça sentido, sem pedir que seja justa. Aceitar que viver é suportar, e suportar já é trabalho suficiente.

Amanhã o despertador toca.
E o homem levanta.
Não porque acredita –
mas porque ainda não caiu.


Walter Biancardine



quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O PRÓXIMO, POR FAVOR -

 


Se entrega o currículo.
Preenche a ficha: nome, sexo, data de nascimento - aqui vou me ferrar.
Aguarde um minuto por favor, logo será chamado.

Me chamam.
Por quê quer trabalhar aqui?
Tem experiência?
Tudo certo, guarde o protocolo e aguarde nossa resposta.

Nunca vem.
Nunca vem.
Nunca veio. Nem na primeira, na décima ou milésima vez.
Nunca veio.

Mas tenho o protocolo.
E toda a minha vida se resume a isso: um número.
A minha vida. A vida das dezenas de derrotados que estavam comigo.
Nem esperanças. Só um número.

Então por quê tentar?
Pela mesma razão de estar vivo - não faz sentido, não há propósito.
Apenas continuar.

Por que, se der certo, talvez pague o teto, o almoço e a bebida.

O próximo, por favor.


Walter Biancardine



terça-feira, 27 de janeiro de 2026

SEGUINDO EM FRENTE -

 

A vida não se sustenta, ela apenas continua.
Existe uma diferença básica entre estes dois conceitos. Se sustentar exige intenção, propósito. E continuar é só o resultado da inércia.
Eu não me sustento. Minha vida não se sustenta. Apenas continuo.
Minha vida continua.

Não cobro a ninguém que me compreenda, pois sei que tiveram vidas normais.
Vidas difíceis, vidas de lutas e sacrifícios. Mas normais.
Eu não. E pouco me importa que me apontem como culpado - é o que ouço desde a infância.

Só quem viveu o que vivi entende o absurdo. Ou o nada. Ou não haver dia seguinte.
Ou não ter planos. Não, jamais cobrarei isso de ninguém.
Apenas continuo.

Ando devagar porque já tive pressa. Eu nada sabia, eu tinha pressa.
Apenas continuo. Seguindo em frente.

Materialmente podem me apontar como o perfeito exemplo do fracasso.
Mas ainda sou eu mesmo, para o melhor ou pior.
Quantos podem dizer o mesmo?

Apenas sigo em frente.
Uma casinha na roça. Escrever meus livros.
Contas pagas. Só.

Apenas sigo em frente.


Walter Biancardine



sábado, 24 de janeiro de 2026

UM SÁBADO À NOITE -


Chovendo lá fora.
Aliás, já chove há três dias. Nenhuma diferença faz.
Nenhuma companhia, ninguém para sair, cama vazia igual meus dias.
Sem conversas ou confidências, sem sorrisos ou lágrimas.
Sem colo ou sexo.

Corro aos braços da minha analista, a escrita. Ela é feia, antipática mas me acolhe, ouve minhas queixas, me deixa falar.
Me vitimizo, me apiedo de mim mesmo e botar a culpa no mundo parece diminuir meus erros.
Sim, funciona. Por isso todo mundo faz igual.
E ela aceita. Esse é o papel dela.

Escrevo, escrevo e escrevo. A garrafa de Jack na minha frente, vida demais às minhas costas.
Dentro de casa a solidão, na rua é pagar ou morrer.
Igual ao amor que mata a alma.
Mas chove lá fora.

As horas passam, os olhos se enevoam na medida em que a garrafa esvazia.
Mas a cabeça se torna clara, ao ponto de me fazer condescendente.
Sim, nesse ponto me entendo, me aceito, me suporto.
E até quase me perdoo.

Mas o perdão tem prazo.
Termina amanhã, com a penitência da ressaca.
E se você nunca teve ressaca, você não é humano.
Nunca viveu.

Tenho ressacas e vergonhas.
Tenho uma longa estrada de erros.
Litros de justificativas.
Laudas de explicações e livros de bravatas.
Mas não muito tempo a mais.

Que este sábado suma logo de uma vez.
E venha a abençoada ressaca, a me redimir de mim mesmo.


Walter Biancardine



quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O AMOR TEM SEDE DE SANGUE -

 


O amor entrou no quarto com botas de chuva, pisou o tapete da inocência e estourou o vidro da janela. Se vestia de riso, trouxe a cicuta, o sono leve e o pensamento pesado.

Você quis um alguém para sempre – imbecil de fé – que veio como espelho quebrado, te refletindo mil vezes e devolvendo metade com cortes, com sangue e rotina.
Sussurrou juras de amor e você engoliu, sorrindo, sem ver o limo da promessa.
E você virou mesa posta, prato servido, a comida que gosta – e o garfo tremeu antes do brinde.

Porque amar é isso: domar o fogo com as mãos nuas, servir a ceia e ter sede no meio da festa.
O amor dói quando nos joga na cara: imortais só quando sonhamos – e quando a chama apaga, sobra a fuligem da pele desejada, só as gotas da vela fumegante são testemunhas.

Se deite no colo, encontre abrigo, e acorde no abismo da própria ausência.
Sangue escorre, não só da carne, mas da alma que se jurou indestrutível.
O tempo é carrasco e amante, vestido de sonho, fez ar condicionado no inferno, cantou “amor, amor” e fechou a porta.
Almas certas chegam tarde – uma tombou, outra foi embora. Uma traz o alforje, a outra os grilhões.
E o amor humano, esse pobre idólatra, sempre perde contra o relógio.

Mas eu digo verdades, o amor vale mesmo assim. Vale porque é o bom combate, vale porque, no fim, sobreviver ao amor não é fugir da dor – é dançar com ela, olhar nos olhos e dizer: “sou teu espelho quebrado, ainda assim me refaço”.

Então sim: o amor tem sede de sangue, que só se sacia na febre.
Porque amar é morrer todos os dias, querer levantar para o café da manhã com o outro.
O amor bebe ternura – e no fel, na ferida, encontra-se o resíduo de divino: todo amor que houver nessa vida.

E algum trocado, pra dar garantia.


Walter Biancardine 



terça-feira, 20 de janeiro de 2026

MEUS DISCOS, MEUS LIVROS, E NADA MAIS -

  


Concordo com Bukowski: a literatura é o último refúgio dos que não se encaixam. Por isso ela é minha analista. Os teclados são meu divã e as histórias, a terapia. 

O conteúdo delas é o melhor diagnóstico que posso pagar.

Não gosto de rótulos. Se me acham conservador, se deve ao resto de normalidade que tenho. Mas nem em tudo concordo. Aliás, uma boa parte discordo. E pior fica quando vejo alguns "conservadores" - os "sepulcros caiados" que Jesus Cristo falou: se fantasiam de fariseus e vestem virtudes como roupas, pregando uma moral que nunca seguiram.

Mas a rebeldia é necessária, o sistema é um mal. Um mal desnecessário.

Foi uma alegria que vi uma tarde, voltando do trabalho em um ônibus lotado, um garoto de uns 18 a 20 anos sentado e lendo um livro. Sim, ao invés de um celular, ele lia um livro. O título seria, por si, um meme naquela situação: "Como Deixar de Ser Pobre".

Eu poderia ter escrito aquilo, se acreditasse mesmo que o sucesso tudo resolve.

Mas o lado bom é que ele lia. Poderia estar lendo algo meu, um "Pretérito Perfeito" mostrando que os "anos dourados" não foram tão dourados assim. Mas é um progresso, é uma esperança. Se a juventude lê - ainda que buscando bolsos cheios - isso é rebeldia e  pode trazer alguma curiosidade sobre outras coisas, até romances ou histórias tortas como as minhas.

O resumo é um cara como eu, 62 anos e em pé no ônibus, feliz por ver um garoto lendo. Este mesmo velho do ônibus também nada mais quer, desse mundo maravilhoso da NetFlix e do Instagram. Aliás, não sei dizer se um dia quis isso por inteiro.

Tudo o que desejo é uma casinha na roça, minha onça pantaneira ao meu lado me aquecendo no clima frio e tempo de vida para escrever tudo o que quero.

Só isso. Uma casinha, meus discos, meus livros e nada mais.

Nos dias de hoje, isso é pura rebeldia.


Walter Biancardine 



sábado, 17 de janeiro de 2026

DOIS VELHOS BÊBADOS -

 


Era noite.
A lua estava cheia e minha vida, vazia.
A lua era nova e meus dias, velhos.
A lua era crescente e minhas esperanças minguavam. 
A lua era minguante, e eu...


Walter Biancardine



CONTRAMÃO -

 


Desisti do céu, mas você pediu a lua,
Eu te dei e vi suas lágrimas;
Não queria mais andar, você quis um passeio,
Eu andei e te vi soluçar;

Te queria feliz, daria minha vida,
Trouxe a lua, caminhei contigo,
Onde o fogo? Onde o querer?
Mais eu fiz, menos você teve;

Se desisto, ganho piedade,
Se revivo, te vejo murchar;
Dois caminhos, dois compassos,
Onde iremos parar?


Walter Biancardine



A CIDADE QUE NUNCA DORME -

  


Sob a lua cheia, os telhados da cidadezinha eram como cobertores que agasalhavam seu sono.

Na cidade grande, a mesma lua vê os prédios e arranha-céus como um imenso porco-espinho, sempre eriçando farpas ao alto, a se defender de si mesmo.

Por isso não dormem.


Walter Biancardine

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

NORMAL POR QUÊ? -


A normalidade é uma gaiola.
Homens normais são passarinhos, que cantam disfarçando a dor da prisão.
Quem olha, acha o canto belo, invejável e pensa como deve ser feliz.

Fingem amores que não sentem, riem em festas que não encontram amigos, bradam bravuras que não tem e escondem a flacidez na mentira de um passado ereto, glorioso, desses que os garotos de hoje jamais conseguiriam viver.

Não entendem o que leem, não entendem sequer o que ouvem - como poderiam entender o que veem e sofrem na pele? Apenas esbravejam, clamam, gritam uma virilidade defunta e organizam opiniões como torcidas de futebol: a favor ou contra, o resto é traíra.

Pobres homens que não pensam. Pobres homens que não ousam. Pobres homens que não enlouquecem. Que vida miserável devem levar.

O fim inevitável da lucidez é a solidão, mas ela é o único lugar onde temos uma companhia que nada precisamos explicar ou mentir: nós mesmos, pois o vazio é o lugar onde a alma mora.

Mas trocamos tudo isso por aplausos, por curtidas, pertencimento, inclusão, reconhecimento. Tudo em nossa vida é externo, agrega-se valor como se coloca acessórios em um carro, esquecendo que o motor é o mesmo e ele não vai correr mais por isso.

Mas só queremos o aplauso, porque nossa alma já nos trata - há anos - com profunda indiferença.

Sim, nós matamos nossa alma.

Por isso não entendemos um simples texto.


Walter Biancardine



terça-feira, 13 de janeiro de 2026

MEUS UÍSQUES COM BUKOWSKI -


Não se bebe para esquecer, mas para suportar lembrar.

Um bom uísque destila a hipocrisia, dissolve as máscaras e deixa o homem nu, diante de si mesmo. E isso causa dor.

A dor é o idioma da verdade. Ela fala baixo, mas quem a escuta, desperta. E quem desperta, nunca mais volta a dormir.

Quem não dorme vê que o trabalho é o disfarce da escravidão - não a do corpo, mas a da mente.
É a prisão invisível que transforma o homem em engrenagem: quanto mais ele trabalha, mais pobre se torna de si mesmo.

São rostos em ônibus, olhares vazios nas ruas, conversas bestas sobre o tempo ou salário. E quem não dorme sabe que a rotina é a assassina da alma. O tédio é mortal, mata homens e mulheres, e a rotina é a morte lenta e inexorável.

Todo dia é igual, todo sonho é adiado, toda alegria é parcelada - e ninguém percebe, porque o mundo chama isso de "normalidade".

O trabalho é necessário, mas a necessidade - tal como o medo - é uma grande forma de controle. Quem tem medo de perder o emprego obedece, quem depende do salário se cala, e quem cala se esquece quem é - e até quem já foi.

Você, útil cidadão, tem seu trabalho como religião. Chefes são sacerdotes, metas são dogmas e a exaustão, penitência. Só que, ao contrário das igrejas, esta religião não promete salvação.

Desde crianç
a você é treinado para obedecer, estudar, produzir e consumir. É um ciclo sem significado, sustentado por medo e culpa.
Você aprende, te dão um emprego e chamam isso de "vida".

E você fica ocupado demais para pensar. Se você der tempo a um homem para pensar, ele vai perceber que está sendo enganado. E essa é a tragédia moderna: todos estão ocupados, mas ninguém está vivo.

O homem nasce selvagem, mas morre domesticado.


Walter Biancardine

(Baseado em produção do canal Mente Filosófica)






domingo, 11 de janeiro de 2026

1964 PARA QUEM QUISER SABER -


Antes de confiar em versões pasteurizadas de professores doutrinários ou na completa ficção histórica que documentários e filmes da grande mídia promovem, sempre é bom lembrar que ainda temos fontes confiáveis de informação sobre os idos de 31 de março de 1964 – como seja, a fonte primária, os diários do General Olympio Mourão Filho, o principal motor deste acontecimento e que, posteriormente, foi escanteado pelo Alto-Comando do Exército brasileiro.

Eu poderia retroceder à gênese mais primária, revolvendo acontecimentos que se acumularam desde o governo Juscelino Kubitschek, mas para uma concisão que torne este artigo mais breve, potável e digerível, meu ponto de partida será o fatídico comício do então Presidente do Brasil, João Goulart, realizado na Central do Brasil em 13 de março de 1964, onde ele defendeu suas "Reformas de Base" (incluindo reforma agrária) e assinou um decreto impondo tais pontos, sendo visto como um desafio aos setores conservadores ainda existentes, bem como uma parte dos militares que – timidamente – tentavam organizar a derrubada do governo. E para nos situarmos bem, devemos recorrer a Olavo de Carvalho e seu testemunho sobre quem realmente era Jango:

Goulart fez tudo o que podia para fechar o Congresso, mandou invadir com tropas militares o Estado da Guanabara, fortaleza da oposição, e prender o governador Carlos Lacerda, matando-o se resistisse (a operação falhou por um triz). Não hesitou mesmo em usar contra esse Estado o recurso stalinista da ‘arma da fome’, vetando, através do seu cunhado Leonel Brizola, o fornecimento do arroz gaúcho que era uma das bases da alimentação do povo carioca. Como se isso não bastasse, protegeu a intervenção armada de Cuba no território brasileiro, ocultando as provas e enviando-as, por baixo do pano, a Fidel Castro. É eufemismo dizer que Goulart tramava um golpe de Estado: seu mandato foi uma sucessão de golpes de Estado abortados.

Para Mourão Filho, entretanto, tal comício não foi nenhuma novidade. Ele bem sabia das articulações internacionais da esquerda com o propósito de transformar o Brasil em uma enorme Cuba – cabeça-de-ponte ameaçadora contra os Estados Unidos da América – e apenas aguardava um motivo publicamente forte, que não tardou a acontecer com este evento na Central do Brasil.

A verdade é que a cúpula militar estava onde está até hoje: acomodada em conveniências, alugando suas armas ao melhor pagador, e poucos comandantes de tropa se solidarizaram com os intentos de Mourão. Ao contrário do que se divulga, não havia nenhuma interferência norte-americana a favor da derrubada de Goulart – de fato, não havia um único agente da CIA no Brasil, ao contrário das centenas de agentes soviéticos já identificados mas cuidadosamente escondidos pela história brasileira e, muito menos, a tão famosa fragata americana fundeada em nossas costas.

Sempre bom abrir um parêntese para falar de algumas das inúmeras lendas – tal como a citada acima – plantadas pela esquerda e que, até hoje são ensinadas como “história oficial”. Podemos começar pelo hoje famoso telefonema do Embaixador norte-americano ao Presidente dos EUA, Lyndon Johnson, informando a deposição de Goulart: sua resposta, acordado de surpresa, foi “ - Que merda é essa, rapaz?” Ou seja, ele não sabia de nada. Ainda assim, cumprindo sua obrigação de Chefe do Poder Executivo, determinou o envio de uma flotilha de navios militares – conforme determina a Constituição norte-americana – para salvaguardar os cidadãos daquele país, eventualmente em perigo. Tal comboio, entretanto, levaria uma semana para chegar ao Brasil e só chegaria por volta de 11 de abril mas, como os idos de março transcorreram em absoluta tranquilidade, Johnson ordenou que retornassem aos EUA – e a mesma sequer chegou a tocar em águas territoriais brasileiras. Esta, porém, foi a origem da mentira que até hoje a esquerda se agarra: navios americanos em nossas costas, para apoiar o “golpe” de 64.

Outro ponto, firmemente agarrado pelas esquerdas e jurado de pés juntos por “pesquisadores” e professores que se dizem sábios é a famosa “Operação Brother Sam”: alegam estes que desejam mudar o passado para justificar o presente um fato que jamais aconteceu, que seria um suposto apoio dos EUA ao “golpe” (segundo o Google) militar através de telegramas secretos, relatórios e até diários de bordo de navios, oriundos do que tais elementos alegam ser “arquivos desclassificados” da Biblioteca Lyndon Johnson e Arquivo Nacional dos EUA, detalhando o envio de apoio logístico – combustíveis, armamentos – e planos de contingência da Força-Tarefa Naval americana em apoio à derrubada de Goulart. O problema é que, além desta história ser uma farsa conforme demonstrado acima, nenhuma prova física os tais “historiadores” e professores possuem, se resumindo tudo às suas declarações e à suposta isenção ideológica dos mesmos.

Pois bem, voltemos ao assunto: e com quem Mourão contava? Poucos, na verdade. O Governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, era um deles juntamente com um entrevado Assis Chateaubriand (dono dos Diários Associados, vitimado por violenta trombose mas ainda detentor de grande poder sobre a opinião pública brasileira) e Ademar de Barros, Governador de São Paulo. Fora esses, apenas um punhado de generais sem comando de tropa e coronéis, nenhum deles contaminado pelo corrosivo positivismo que empesteou a farda, derrubou um Império consagrado e nos jogou na cleptocracia que vivemos hoje. E, munido apenas disso e quase infartando (segundo os relatos em seu diário, “A Verdade de um Revolucionário”, compilado por Hélio Silva, ed. L&PM, 1977), Mourão desceu de Minas Gerais com suas tropas rumando para o Rio de Janeiro.

Seguido por uma fileira de Jeeps, tanques de guerra, caminhões de suprimentos e transporte de tropas, Mourão já havia atingido as imediações da cidade de Petrópolis, RJ, no dia 1º de abril de 1964 quando, ao chegar ao Belvedere (ponto turístico bastante popular na época) teve notícias que o General Amaury Kruel, Comandante das tropas do poderoso II Exército sediado em São Paulo, estava vindo ao seu encontro, igualmente seguido por tropas e blindados, sem informar suas intenções – e este foi um ponto crucial que ninguém aborda, pois Kruel era amigo pessoal de Goulart e jamais se manifestara contra o governo. Estávamos à beira de uma guerra civil, esta era a verdade.

A mensagem de rádio enviada por Mourão a Amaury foi breve: “ - Estou descendo para o Rio, você vem comigo?” No que se seguiu a resposta de Kruel: “ - Tome a dianteira, sigo atrás”, disse ele, aliviando toda a tensão e aderindo à Mourão que, por via das dúvidas, cortou toda e qualquer comunicação rádio com ele, pois não queria “acordos”.

Neste meio tempo, João Goulart já havia embarcado em um avião particular rumo às suas fazendas no Uruguay – Goulart era um imenso latifundiário e, “curiosamente”, defendia a reforma agrária – enquanto seu cunhado, Leonel Brizola (um louco incendiário nos moldes de José Dirceu, conforme já vimos) escapava do país vestido de mulher. Eles conheciam Mourão, sabiam de suas origens como seminarista e que jamais fora um positivista “negociável”, portanto não estava para brincadeiras – Augusto Comte jamais venceria Santo Tomás de Aquino. Com a Presidência abandonada por Goulart, o senador Aldo Moura de Andrade a declarou vaga e assumiu o vice-Presidente, Ranieri Mazzilli.

Ao chegar à então sede do I Exército, na av. Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, Mourão logo adentrou o prédio mas teve a pior das surpresas, ao encontrar lá dentro – já prontos para anular aquele que entrou na cidade em operação de guerra – os generais Costa e Silva e mais alguns. Ele conhecia muito bem todos ali, mas sabia da hierarquia: Costa e Silva era de graduação superior e, portanto e muito à contragosto, Mourão passou o comando das operações para o mesmo.

Sim, isto foi um grande erro e o próprio Mourão admitiria isso em seu diário: bastaria meter a pistola no peito de Costa e Silva e prendê-lo, pois o chefe revolucionário (Mourão) estava em plena operação de guerra – mas ele não o fez, levado por um pesado senso de disciplina que sempre nos conduz, aleatoriamente, para o melhor ou pior. Em entrevista posterior, afirmou: “ - Em política, sou uma vaca fardada”.

O resto sabemos: o Presidente interino Ranieri Mazzilli convocou eleições e tornou-se público que o Exército “queria Castelo” (Castelo Branco, mais moderado que Costa e Silva mas, ainda assim, positivista), sendo o mesmo declarado vencedor e empossado logo depois – só para morrer estranhamente em um acidente de avião, abalroado por um caça da FAB no Ceará, ao visitar a escritora Rachel de Queiroz após o término de seu mandato.

E este foi o Exército que, curiosamente, expulsou os comunistas mas adotou todas as suas plataformas de governo: estatização brutal, censura, criação de ninhos esquerdistas como a Embrafilme, o MEC (segundo o general Golbery do Couto e Silva, tais ninhos seriam a “válvula da panela de pressão” da esquerda, para que não perturbassem mais o país) e, por fim, terminamos onde estamos hoje. Na verdade, o comunismo jamais desagradou o Exército, apenas as guerrilhas causavam preocupação.

Sabedor que o positivismo e o comunismo são primos consanguíneos, por diversas vezes tentou Olavo de Carvalho realizar palestras para o Alto Comando, obtendo apenas desdém e resultados pífios. Mesmo eu, o autor destas linhas, também escrevi um livro sobre isso sob o título de “Mais Olavo, Menos Olivahttps://clubedeautores.com.br/livro/mais-olavo-menos-oliva-2 , Editora Clube de Autores, ou na Amazon https://a.co/d/59inQbX , no qual discorro com profundidade sobre esta orfandade filosófica do Exército brasileiro e seus incontáveis exemplos de traição ao Brasil.

As Forças Armadas brasileiras – mais especificamente o Exército – tem longo e infeliz currículo de traições à Pátria, na maioria das vezes jamais vistas como tal pela total incompreensão dos fatos e razões das mesmas, por parte do povo. Neste livro enumero e explico todos estes atos, com base no que aprendi com o filósofo Olavo de Carvalho e mesmo por experiência própria, ao longo de tantos anos de jornalismo. As verdadeiras causas de tais traições, o retrato sem retoques da mentalidade militar expostos nesta obra mostrarão ao leitor as razões jamais discutidas sobre aqueles que portam as armas que defendem a nós e nossa família.

Cabe agora ao leitor saber que as informações existem, estão publicadas em livros e a verdade não é uma seita para iniciados. Basta saber onde procurar, ler, concluir e saber.
E nunca mais repetir o que já fizemos um dia.


Walter Biancardine



sábado, 10 de janeiro de 2026

CONSERVADORISMO DE INSTAGRAM -


Há algo de profundamente falso - e, portanto, profundamente moderno - no modo como parte do pensamento conservador brasileiro resolveu se apresentar ao mundo nos últimos anos. Falso no tom, falso na postura, falso na memória. É o conservadorismo de vitrine, higienizado, plastificado, pensado não para a vida real, mas para o algoritmo. Um conservadorismo que não cheira a suor, a rua, a erro, a queda - só a incenso digital.

Olavo de Carvalho - convém repetir, porque há gente que cita sem ter lido - jamais defendeu o afastamento da vida concreta. Ao contrário: insistia nos clássicos porque sabia que só quem enraíza o espírito no alto consegue manter os pés firmes no chão. Livro bom não é fuga do mundo; é treino para encará-lo sem babar hipocrisia. A leitura séria era, para ele, instrumento de lucidez - não de esterilização moral.

O que colhemos, porém, foi outra coisa. Um tipo humano novo, curioso, meio risível, meio trágico: o Conservador de Instagram. Ele vive de frases lapidares, fotos com cara grave ou enrolado na bandeira do Brasil; citações bíblicas fora de contexto e uma moralidade que não resiste a um jantar em família, quanto mais a um botequim às dez da noite. Fala de virtude como quem fala de dieta: sempre para os outros.

Esse conservadorismo não vai às ruas a não ser que seja para motociatas fotografáveis. Não escuta o povo fedorento. Não conhece o padeiro, o taxista, o camelô, o sujeito que trabalha doze horas por dia e só quer chegar em casa em paz. Ele prefere a bolha dos convertidos, onde todos concordam, todos se elogiam e todos fingem que são melhores do que realmente são. É uma seita de bons costumes performáticos, não uma tradição viva. Um "Imbecil Coletivo" de sinal trocado.

E aqui começa a hipocrisia - aquela velha conhecida da história moral humana. Os mesmos senhores de meia-idade que hoje exigem uma postura de monge medieval para qualquer jovem que se diga conservador são, não raro, os mesmos que nos anos 80 subiam o Morro da Urca ouvindo Barão Vermelho, ficavam alegremente bêbados, pegavam onda no Arpoador, davam "doiszinho" num baseado e colecionavam histórias que hoje seriam consideradas “escândalo moral intolerável”. Eram jovens? Sim. Erraram? Claro. E daí? A vida acontece assim. Sempre aconteceu.

O problema não é o passado. O problema é fingir que ele não existiu. O problema é transformar a conversão - se e quando houve - em espetáculo de pureza retroativa. Como se a virtude fosse um figurino novo comprado depois dos quarenta, e não uma batalha longa, cheia de tropeços, recaídas e vergonha.

O conservadorismo verdadeiro nunca foi isso. Nunca foi moralismo histérico. Nunca foi pose de sacristia. Burke não era um adolescente assustado. Tácito não escrevia para agradar ninguém. Santo Agostinho - convém lembrar aos devotos seletivos - conheceu o abismo por dentro, pegou todas e se entregou aos excessos antes de falar de graça. A tradição conservadora sempre soube que o homem é torto. Por isso mesmo defendia limites, instituições, hábitos e freios. Não porque acreditasse em santos automáticos, mas porque conhecia bem os demônios.

O conservador de Instagram, ao contrário, parece acreditar numa humanidade dividida entre puros e impuros - sendo ele, claro, parte dos puros. Vive obcecado com vigilância moral alheia, enquanto ignora a própria biografia. Não constrói pontes com o povo; constrói tribunais. Não educa; fiscaliza. Não orienta; cancela, bloqueia e exclui.

Resultado? Fala sozinho. Grita para a bolha. Perde a rua, perde a linguagem comum, perde o senso de proporção. O povo olha, escuta cinco segundos e pensa: “Isso não é para mim”. E está certo. Não é. É para uma pequena elite ressentida que trocou a antiga boemia por uma nova vaidade - a vaidade da retidão exibida.

E aqui vai a frase dura, mas necessária: conservadorismo que não suporta a vida real não é conservadorismo - é medo travestido de moral. É incapacidade de lidar com o trágico da existência humana. É pânico diante da carne, do conflito, da ambiguidade. É uma fuga - só que com Bíblia na mão e filtro sépia na foto.

O Brasil real é barulhento, contraditório, imperfeito. Mistura fé com gambiarra, devoção com pecado, família com bagunça. Sempre foi assim. Quem não entende isso não vai liderar nada, não vai convencer ninguém, não vai salvar tradição alguma. Tradição não se preserva com pose; preserva-se com presença.

Se o pensamento conservador quiser voltar a ter algum futuro, terá primeiro de recuperar o passado de verdade - não o passado idealizado, mas o vivido. Terá de descer do púlpito digital, tirar o dedo acusador e reaprender a falar como gente grande, para gente comum. Terá de aceitar que a virtude nasce do combate interior, não da encenação pública.

Menos mosteiro imaginário. Mais rua. Menos pureza performática. Mais honestidade biográfica. Menos filtro. Mais carne e osso.

O resto é teatro moral - e teatro, cedo ou tarde, o público abandona.


Walter Biancardine



quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O AMANHÃ NUNCA CHEGOU -

 

Tantas vezes prometi a mim mesmo que amanhã seria outro dia,
um novo ar, sangue a pulsar, decidido a ganhar.
Mas só vontade não basta, os ares não sustentam, o sangue a pingar.

Deixava minha cama sem saber o que fazer, olhar no espelho e chorar,
depois rir a lembrar que ontem era igual, mas o amanhã acabou.
Veio o novo dia, permanece a agonia e não sei onde vou.

Prometi ao amor que seria diferente, nunca mais insistente,
e tudo isso no amanhã, o melhor dia dessa vida poente.
Mas nem na vida ou no amor, o amanhã nunca chegou.

Eu iria melhorar, voce iria se alegrar,
Mas o amanhã nunca chegou.

Sento, espero, sonho e tolero o que sou,
Melhor mentir, acreditar no amanhã,
Mas o amanhã nunca chegou.

Já fui jovem, hoje sou velho,
e o amanhã nunca chegou.


Walter Biancardine 



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

MÃOS


Onde ponho minhas mãos
Que não se queimem de medo,
Que não deixe os anéis 
Para salvar os dedos?

Onde ponho minhas mãos 
Que não sangrem o que toquei,
Não esmaguem o que agarrei?

Onde ponho minhas mãos 
Que não pareça sem ter onde usá-las,
Que não seja para dá-las

Em adeus a quem se foi?


Walter Biancardine



A ESTUPIDEZ HUMANA -



A burrice é o mais democrático dos defeitos, atingindo a todos independentemente de raça, credo, nacionalidade ou escolha sexual.

Veja por exemplo o povo dos EUA, que construiu a maior potência que este planeta já viu: suas mulheres urbanas, na faixa dos 20/30 anos e com boas colocações no mercado de trabalho corporativo - portanto o discernimento deveria ser item obrigatório - elegeram para a cidade de Nova Yorque um prefeito muçulmano.

Estas mulheres lutam contra o patriarcado, mas o Islã é patriarcal até a raiz dos cabelos - e das barbas.

Estas mulheres eram recém nascidas ou crianças quando muçulmanos lançaram aviões contra as Torres Gêmeas e mataram mais de 4000 habitantes da mesma cidade que elas moram - e nada viram de errado em colocar outro muçulmano após um deles matar 4000 vizinhos seus.

E tudo isso acontece na maior potência do planeta.

Quem sou eu para condenar o anencéfalo que segue a cartilha esquerdista?

Quem sou eu para criticar o gado de corte que segue cegamente os milhares de flautistas de Hamelin da direita, que encantam seus seguidores repetindo as opiniões de seus próprios inscritos ou vendendo cursinhos, livrinhos chupados de outros ou outras enganações?

Quem sou eu para apontar o dedo para os infames "coachs", que nos ensinam tudo - desde andar de cabeça erguida e sermos quem nunca quisemos ser, até coisas básicas como o sentido correto do papel higiênico ao limpar a bunda? E pagamos por isso!

Quem sou eu para condenar quem não tem vida própria e corre atrás das opiniões alheias para formar a sua?

Não sou ninguém e nem tenho nenhuma moral para isso, pois quem não tem onde cair morto é por sua idêntica burrice em jamais ter conseguido prover a si próprio.

Apenas dou graças a Deus de estar já no fim desta terrível viagem.


Walter Biancardine



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O QUE SE QUER É DINHEIRO -


O sujeito faz uma página nas redes sociais dizendo que está fornecendo informação confiável; que naquele site somente a verdade tem lugar e que os valores que você busca estão todos ali, à sua disposição. Leia, leia e leia!

Ótimo, o cidadão faz sucesso e seu perfil lotou.

Qual é a providência seguinte? Fazer um Clube de Assinantes, um Sócio Premium ou qualquer outra palhaçada que pareça importante e faça de você uma pessoa exclusiva, que terá informações exclusivas, comentários exclusivos e bastidores exclusivos. É só pagar.

Mas...e o resto dos mortais, que não querem ou podem pagar?

Estes ficam com as sobras, com as migalhas que caíram da mesa...que, se você pensar bem, certamente eram as mesmas migalhas que ele oferecia antes de seu clube VIP, e que serão iguais às que ele cobra aos trouxas - pagam para ter o mesmo, apenas com palavras diferentes e gestos teatrais.

Assinatura? Clube de Assinantes? Área VIP?

O mais refinado conto do vigário, onde idiotas pagam por algo que não custou um centavo ao pilantra que o oferece.

Pense bem antes de assinar qualquer coisa.


Walter Biancardine



A MAIS FÁCIL DAS MULHERES -


A todos aceita,
A todos se impõe;
Não faz distinções 
Se homem bonito
Ou mulher de ladrões;

Ela deseja, ela quer
E sempre vem buscar,
Pobres, ricos, bons 
Ou maus;

Santos e pecadores,
Milionários ou perdedores,
Pretos ou brancos,
Agiotas e devedores;

Ela não falha, sempre vem,
Insaciável, aparece quando convém;
Cedo ou tarde, mal ou bem;

Dela ninguém foge;
A mais democrática, 
A puta inevitável, 
Sem azar ou sorte;

Ela atende
Pelo nome de Morte.


Walter Biancardine