domingo, 24 de maio de 2026

PATERNIDADE IMPROVISADA -

 


Estava em casa esta noite.
Pra variar, escrevendo.

Só sei que ouvi um choro baixo no escuro.
Daqueles sons que parecem erro. Primeiro você pensa ser pássaro. Depois gato. Depois percebe que há desespero ali.

Procurei.
Nada.
Entrei em casa e continuei ouvindo.
Saí outra vez.

No meio da grama encontrei um cachorrinho preto recém-nascido. Tão novo que ainda estava molhado do amniótico e uma tripa à guisa de umbigo. Olhos fechados. Parecia menos um animal e mais um pedaço de noite abandonado no chão.

Pouco antes eu havia visto a cadela grávida, mãe dele, me saudar quando cheguei da rua.
Depois ela desapareceu.

Procurei em todo o sítio.
Andei no escuro chamando uma mãe que misteriosamente evaporou. Sumida. Ou apenas continuando a vida em algum lugar, com os outros filhotes, enquanto um deles tremia sozinho no capim.
Procurei os outros.
Nada. Nem latido. Nem choro. Nem o mato se mexendo.
Só silêncio.
E existe um tipo de silêncio que parece ausência de Deus.

Voltei carregando o cachorro. Ele inteiro cabia em minha mão.

Não tenho quase nada aqui.
Não tenho fogão.
Não tenho geladeira.
Há dias em que minha situação financeira lembra mais um castigo do que uma vida organizada.
Mesmo assim improvisei.

Coloquei espuma de travesseiro dentro de um tanquinho velho.
Lençol usado virou abrigo.
Leite em pó virou tentativa.
O tanquinho virou incubadeira.

Engraçado.
Passamos a vida aprendendo que certas pessoas nasceram para salvar e outras para ser salvas.
Mas às vezes o universo parece bêbado.
Entrega um recém-nascido a um homem quebrado e observa.
Sim, sou um extintor de incêndio: muito útil em emergências, mas quem o quer na sala?
E, ainda por cima, faz apostas.

O cachorro estava frio. Molhado. Chorava forte.
Depois menos.
Depois dormiu.
Cagou na minha mão. Tal qual o mundo cagou – e andou – para ele. Ou para todos.

Era uma substância escura, quase preta. Curioso como até merda vira esperança, dependendo da noite.

Lembro de ter pensado: a vida insiste em funcionar mesmo cercada de razões para desistir. Sequei com um pano velho e esquentei o bicho contra o peito como fazem mulheres, prematuros e desesperados.

Ele se enroscou.
E passei um bom tempo assim.
Esse foi o pior momento.

Porque até então eu estava com raiva do mundo.
Da injustiça.
De Deus.
Da mãe desaparecida.

Mas quando uma criatura de poucas horas procura calor no seu corpo, a raiva muda.
Ela ganha endereço.

Percebi que não estava irritado apenas porque o cachorro podia morrer.
Eu estava irritado porque continuo incapaz de assistir certas coisas sem me importar.

A vida tentou me ensinar o contrário.
Fracassos ensinam.
Pobreza ensina.
Humilhação ensina.
E com o tempo você aprende a endurecer.
Ou finge.

Mas então surge um recém-nascido no meio da grama, numa noite qualquer, e obriga você a descobrir que ainda há algo vivo sob os escombros.
Isso irrita.
Porque sentir custa.
E eu ainda sou uma besta que chora.

Enquanto escrevo, há um cachorro preto dormindo num tanquinho de lavar roupa.
Talvez sobreviva.
Talvez não.
Não sei.

Só sei que hoje o mundo fez o que sempre faz:
Produziu abandono. Cagou e andou.

E eu fiz o que pude: parei.

E isso foi mais do que o mundo faz.


Walter Biancardine


sábado, 23 de maio de 2026

ACOSTAMENTO -

 


Há uma coisa estranha nos acostamentos da estrada.

Enquanto os homens viajam ou correm para empregos, amantes, hospitais ou enterros, alguma parte deles fica para trás.

Uma lata amassada.
Uma lanterna traseira de carro que bateu ali.
Um chinelo infantil sozinho.

Uma caixa de Big Mac.
Pinos de cocaína espalhados perto da curva.

Às vezes penso que as estradas são museus do fracasso humano.

Cada lixo é uma pista.

Uma dica.

Um recado daquilo que acontecia dentro do carro no instante em que a mão abriu a janela.

Uma discussão.

Um silêncio.

Uma traição.

Ou apenas alguém tentando continuar vivo até segunda-feira.

Outro dia vi três pinos de cocaína no mesmo trecho.

Três.

Fiquei olhando.

A cocaína talvez seja isso:
um empréstimo de grandeza dado a homens que já esqueceram o próprio nome.

Depois vêm os juros.

Os juros costumam comer a casa, o casamento, os dentes.

Mas durante alguns minutos o sujeito sente o peito cheio daquela coragem artificial que faz o fracassado acreditar que ainda derrotará o mundo.

O mundo costuma esperar sentado.

É paciente.

Mais adiante havia uma calcinha vermelha perto do mato.

Pensei: adultério. Depois: prostituição. Depois: uma mulher cansada trocando de roupa para voltar do trabalho. Os adultos passam metade da vida escondendo vergonha e a outra metade fingindo que nunca tiveram nenhuma.

A calcinha ficou.

Testemunha muda.

Às vezes encontro sapatos.

Sapatos abandonados me perturbam mais do que animais mortos.

Porque animais morrem.

Sapatos são deixados.

Um único sapato feminino – sempre um só – na estrada parece dizer:

"Houve confusão aqui."

Ou amor, se for um par deles.

Às vezes dá no mesmo.

Continuei andando.

Veio um caminhão levantando poeira.

Talvez o Brasil não esteja nos discursos nem nas propagandas de banco, onde velhos sorriem andando de bicicleta aos setenta anos.

Talvez esteja no acostamento.

No pino vazio de pó.

Na lata de cerveja.

Na sandália infantil.

Na blusa feminina largada perto do capim.

Na embalagem de Cheetos.

Ou literalmente.

Quem sabe também esteja no sujeito dirigindo à noite, acelerando demais porque ficar parado em casa exige uma coragem que ele não possui.

As estradas sabem de nós.

Sabem quem trai.

Quem bebe.

Quem cheira.

Quem dirige chorando.

Quem pensa em abandonar tudo antes do próximo posto.

Os acostamentos acumulam segredos.

E às vezes, caminhando sozinho, tenho a impressão de que as pessoas não jogam lixo pela janela.

Jogam versões fracassadas delas mesmas.

Deixam pistas.

E o tempo faz um diário.


Walter Biancardine





sexta-feira, 22 de maio de 2026

O DIA QUE ELE PAROU DE OPINAR -


A decisão veio numa quarta-feira, depois do café.
Não por filosofia, nem por evolução espiritual. Foi cansaço mesmo.

Alfredo percebeu que passava os dias opinando. Sobre política, futebol, preço do arroz, chuva, juventude, velhice, televisão, remédio, imposto, cachorro do vizinho e gente que usava palavras em inglês sem necessidade. Sobretudo isso.
Tinha opinião até sobre quem não devia ter opinião.

Naquela manhã, olhando o café esfriar, pensou uma coisa estranha: "e se eu passasse um dia inteiro sem achar nada sobre coisa nenhuma?"
Pareceu simples. Quase infantil.

Às oito e quinze a esposa apareceu na cozinha.
- Vai chover.

Alfredo abriu a boca. Ia dizer que o tempo andava diferente, que antigamente maio era mais frio, que o desmatamento, que os políticos, que a humanidade...
Parou. Tomou café.

A esposa olhou.
- Tá passando mal?

Ele balançou a cabeça. Primeira vitória.

Às nove e vinte quase perdeu o controle ao ouvir um comentarista no rádio dizer que idosos precisavam se reinventar. Sentiu a resposta subir inteira pelo peito:
"Reinventar uma ova. Homem de sessenta anos quer o INSS e preço baixo no mercado..."
Engoliu. Desligou o rádio.

Percebeu então uma coisa desconfortável: o silêncio fazia barulho.
Passou a manhã evitando pensamentos como quem evita cigarro depois do infarto.
No banco, uma senhora reclamou da demora. Ele concordaria normalmente. Não concordou.
No mercado, ouviu dois jovens discutindo investimentos. Não corrigiu.
O vizinho apareceu dizendo:
- Esse país acabou.

Alfredo respondeu:
- Talvez.

O vizinho ficou olhando alguns segundos. Depois perguntou:
- Você dormiu bem?

Ao meio-dia surgiu um problema inesperado. Sem opiniões, Alfredo começou a notar coisas.
A rachadura perto da janela. O modo como a esposa colocava duas colheres de açúcar no café escondido dele. O fato de que havia anos ninguém perguntava o que ele queria fazer.
Nem ele mesmo.

Descobriu outra coisa pior: durante décadas confundira personalidade com reação. Achava que era firme. Talvez fosse só alguém acostumado a responder.
Às quatro da tarde sentiu medo. Medo verdadeiro.
Porque começou a suspeitar que, retirando opiniões, indignações e explicações, sobrava um homem sentado numa cadeira de plástico olhando o quintal. E ele não sabia quase nada sobre aquele homem.

À noite, a esposa perguntou:
- Você está estranho hoje.

Alfredo pensou bastante antes de responder. Talvez pela primeira vez em muitos anos.
Então disse:
- Acho que passei tempo demais falando do mundo... e esqueci de descobrir se gosto dele.

Ela franziu a testa.
- Que bobagem… 

E voltou para a novela.

Alfredo ficou sentado ouvindo o som da televisão vindo da sala.
Sem conclusão.
Sem revelação.
Sem mudança profunda.

Mas com uma sensação nova e desagradável: talvez a velhice começasse no dia em que um homem percebe que passou décadas construindo opiniões e quase nenhum silêncio.


Walter Biancardine



CASUARINAS

 


As casuarinas de Cabo Frio me apresentaram à solitude
somente nas praias ainda desertas
eu podia ouvir o uivo do vento em seus ramos
deitava nas areias, fechava os olhos
e ouvia

uivando, uivando…

minha casa era cercada por elas, muro de sentinelas
vento sudoeste forte, chuva, e elas uivando
pinheiro praiano, insinuante,
quase ameaçadora e fantasmagórica
e eu gostava

só aqui as encontrava, nunca vi em outro lugar
um dia homens vieram
mediram, marcaram troncos
falavam baixo, apontavam mapas
depois vieram motosserras

as dunas também ganharam cercas
placas, avisos
o mato subiu nelas devagar
até esquecerem o movimento
e endurecerem

mataram minhas amigas
casuarinas, dunas
só restou o vento e o mar
prédios barram o vento
o mar vira lama

mataram minhas amigas

eu ainda estou aqui




Walter Biancardine



CURRÍCULO DE UM EX-COMBATENTE -

  


Tenho sessenta e dois anos e um problema moderno:

quando digitam meu nome no Google,

não encontram apenas um homem


encontram trincheiras

encontram fumaça

encontram artigos escritos às duas da manhã,

quando eu ainda acreditava que palavras eram marretas

e que uma frase correta

podia endireitar o mundo


passei anos discutindo com desconhecidos,

defendendo causas,

apanhando,

batendo,

colecionando inimigos que jamais me pagaram aluguel

nem apareceram quando a geladeira fez aquele silêncio

de viúva


hoje envio currículos


engraçado

a palavra currículo

soa limpa,

passada,

engomada

mas o meu vem com cheiro de pólvora antiga


talvez algum rapaz de RH,

mais jovem que meus textos,

abra meu perfil e pense:

- Esse homem parece cansado de guerra

homens cansados de guerra às vezes explodem por pouco


e fecha a aba


sem entrevista

sem café

sem saber

que já faz tempo

que troquei os tiros

por contemplar chuva fina caindo sobre telhados velhos

      

há dias em que me sinto como uma ex-puta

Madalena arrependida que largou o ofício

mas ninguém acredita

porque as meias de renda ainda aparecem

por debaixo do vestido recatado


só que não vendia o corpo

vendi convicções,

minha juventude,

minhas amizades,

o benefício da dúvida


agora abandonei o meretrício ideológico,

mas o bairro ainda cochicha:

- Conhecemos você

sabemos quem foi


o passado não larga o tornozelo

      

penso nos homens antigos

operários

motoristas

meu pai


homens que envelheciam

e ainda eram vistos como úteis


hoje envelhecemos online

há prints da nossa fúria

arquivos da nossa arrogância


enterramos opiniões,

mas elas continuam respirando em servidores


o século XXI inventou fantasmas permanentes

      

mas talvez eu não seja uma ex-puta

talvez seja pior:

um ex-boxeador

nariz torto

mãos endurecidas

olhos procurando adversários

em salas onde só há gente falando sobre metas trimestrais


perguntam:

- Trabalha bem em equipe?

e dentro de mim

uma parte responde:


sobrevivi sozinho


outra,

mais baixa,

quase infantil,

sussurra:


aprenderia

ainda aprenderia

      

porque eis a humilhação que ninguém admite:

o homem envelhece,

as certezas apodrecem,

e um dia ele descobre

que queria menos vencer debates

e mais sentar numa varanda,

ao lado de alguém,

segurando café quente,

sem precisar convencer ninguém de nada

      

talvez seja tarde

talvez não

os velhos conhecem uma verdade

que os jovens desprezam:

há árvores que parecem mortas no inverno

e passam meses inteiros

sem dar sinal


depois,

quase por teimosia,

uma folha


só uma


e já basta

para desmentir o machado



Walter Biancardine




quinta-feira, 21 de maio de 2026

SÓ PRA LEMBRAR, NADA MAIS DIREI -

  


Prometi a mim mesmo não falar mais de política mas, dada a enormidade de ignorâncias que tenho visto, acho que ainda faltou dizer uma coisa.

A direita brasileira sempre foi magrela, esquálida e desnutrida, mas sobreviveu até o regime militar acabar com ela. Limar nomes como Carlos Lacerda e Ademar de Barros foi o golpe de misericórdia dos generais positivistas – e se alguém ainda acha que Juscelino Kubitschek era direita, precisa visitar o hospício.

Sim, pra ficar somente em dois pequenos pontos, criar a indústria automobilística brasileira (sob a bandeira brizolista de “evasão de divisas”) e a industrialização súbita do país nada mais foi que criar uma “classe operária”, fabril, pronta e ávida pelos discursos da esquerda urbana e fedendo a países europeus. Essa classe pariu e amamentou Lula. 

E o outro ponto foi Brasília. Isolar a “corte” do alcance da plebe era a meta (“50 pessoas fazem barulho neste país, da zona sul do Rio de Janeiro”, JK) e Juscelino ainda arrematou com chave de ouro stalinista, convocando Oscar Niemeyer para lá construir sua Stalingrado arquitetônica particular – puro concreto e gigantismo, a nos lembrar como somos pequenos diante do Estado.

Voltando ao caso. Não há direita no Brasil hoje que não deva até os fundilhos das calças a Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro. Se é analista político, youtuber, “celebritie” das redes e é de direita, cedo ou tarde usará argumentos pescados nos vídeos de Olavo (que assistiram, sôfregos, umas 350 vezes cada um e se acham, hoje, sucessores dele), e se é do ramo do baixo lenocínio – política – será eternamente devedor a Bolsonaro.

Sim, ele, Jair, foi o primeiro a ter culhões e bater no peito dizendo “eu sou de direita”, enquanto outros se borravam ou aderiam discretamente à bandalha vigente. Qualquer candidato de direita hoje, tem por obrigação se retirar da disputa e apoiar o insípido Flávio Bolsonaro – única e exclusivamente pelo fato de seu pai o haver escolhido. Se ele achasse o Zema bom, teria indicado ele. Se achasse o Caiado bom, a mesma coisa.

E aos cretinos ignorantes do YouTube, Facebook ou seja lá qual rede for, que se acham (em secreto, pois jamais diriam isso em público) “sucessores de Olavo” – em especial gente metida a erudita, mestres, doutores, sapiência máxima e fonte da verdade, cheios de diplomas que melhor serventia teriam se usados como supositórios e que se dão ao desplante de hoje defender Zema, uso algo típico do Olavo: dizer que Zema “é um homem íntegro, honesto e correto” é ARGUMENTO AD HOMINEM, tal qual os xingamentos da esquerda que nunca rebatem propostas, apenas desqualificam o proponente. 

Sim o cara pode ser honesto, mas e daí? Qual a proposta? O que ele pretende? E outra: como ele se explica por ter apoiado a criminosa vacinação contra a COVID em MG, e até ignorado servidores que não se submeteram a essa barbaridade?

Caiam na real: a direita no Brasil não existe e está quase em vias de extinção. Olavo já cantou pra subir, e se Bolsonaro for atrás, babou.

Eu voto em Flávio. É um imbecil. Mas é o nosso imbecil – e escolhido por Bolsonaro, o último direitista deste país.

Era o que eu tinha pra dizer. 

Vocês, que defendem candidatos com mais fúria que defendem as famílias, que se entendam.


Walter Biancardine



SISTEMA -

 


Quando digo que tenho horror ao sistema, uns e outros acham muito vago. Que é um disfarce só pra posar de contestador. Que se eu fosse contra mesmo, eu criticaria Lula, Bolsonaro, STF ou seja lá o que esteja em moda atualmente, o último capítulo dessa novela que o povo assiste com fanatismo todos os dias.

Hoje, nem ligo. Que se danem.

Mas sempre terei horror a algo que obriga um idoso a saber usar celulares e aplicativos para acessar seus próprios direitos. O cara que carregou os tijolos dessa alvenaria agora é barrado na casa porque não sabe baixar um app.

E quando falo “idoso” acho que dá pra incluir o povo da roça, o pessoal rural, que nunca teve tempo pra gastar visitando a Google Play e saber das últimas novidades. Aí a sacanagem não tem idade, é democrática. Esses também estão de fora.

Daria pra escrever uma enciclopédia de 30 volumes falando mal do sistema, mas me resumo a esses dois pontos porque o primeiro deles – idosos obrigados a acessarem e entenderem de apps – eu vi numa postagem aqui do Facebook, mas não lembro o nome de quem postou. E achei uma queixa justa, tocando num tema em que eu, realmente, nunca havia pensado.

Não sou ainda um “idoso oficial”, tenho menos de 65 anos e nem passe livre em ônibus desfruto. Mas tenho idade suficiente – ou “tenho muita experiência”, como dizem os garotos do RH – para ser solenemente rejeitado em todas as minhas pretensões de emprego. E também, sou semi-analfabeto digital. Então sei o que os idosos e o povo da roça passam.

Pra mim, nenhuma diferença faz se o governo é de direita ou de esquerda. Ambos – se são governo – são “sistema”. Posso preferir um ou outro por questões filosóficas, sociológicas ou até mesmo pela mais pura e bruta experiência de vida: sei, de antemão, que aquela merda não dá certo. Mas o fato é que tanto um quanto outro nos usam, nos esfolam e nos chupam – no pior sentido – até nada sobrar. E isso eu não aceito.

Li na Bíblia: “ganharás o pão com o suor de teu rosto”, e não “ganharás teu pão ao preço de sua vida, dignidade e personalidade”.

E nisso vai toda a diferença.



Walter Biancardine


quarta-feira, 20 de maio de 2026

VIDAS BALDIAS -

 


Sempre há algo de melancólico em qualquer local abandonado.

Seja uma casa, um parque de diversões ou mesmo um teatro, sempre haverá tristeza pingando do suor da construção.

Coisa engraçada: o campo, por mais esquecido que seja, nunca dá ares de abandono.

Não passa ninguém, ninguém o conhece ou lá deixa suas pegadas, fogueiras ou troncos cortados. E mesmo assim sempre parece novo, arrumado, em ordem. Muitos diriam que o deserto é o campo abandonado, a melancolia do verde, mas nem de longe é.

O deserto é templo. Personagem bíblico. 

Homens entram no deserto e voltam ouvindo vozes.

Digo isso por conta da chuva de hoje, que me obrigou a trabalhos de reparação onde vivo.

Transito entre um empreendimento abandonado – e melancólico – e os pastos sempre novos, promissores.

Andei por um, andei por outro, e senti o cheiro pesado de um passado nas alvenarias, bem como a vida brotando dos marrecos na lagoa.

E senti, também, uma calma antiga a divagar sobre dias chuvosos, xícaras de café, conversas lentas, lembranças de mil anos e a mulher amada ao meu lado.

Eu não mais sou abandono.

Só agora enxerguei o que me cerca.


Walter Biancardine




DIAS DE CHUVA, DIAS DE PAZ -

 


Chove, aqui. 
A chuva me marca desde criança. Bons momentos, maus momentos. 
Do cheiro de gasolina em uma casinha onde guardávamos motonetas, na minha infância, à simples contemplação da grama encharcada – triste por não poder sair, feliz por me sentir protegido. 
Sempre há grama em lembranças antigas. 
Nunca pensei nisso antes. 

A chuva faz pensar essas bobagens. 
Ou verdades. 
Às vezes são a mesma coisa.

Também me vem o sentimento de, já mais velho, conversar com amigos em varandas ou mesmo bares com mesas na calçada e abrigadas por marquises. 

Conversa fiada, 
sempre mais lenta e calma que em dias de sol. 
Um vagar no ar, ouvir gente respirar fundo olhando pro nada…  
demora em responder…
Conversas que não precisavam chegar a lugar nenhum. E talvez por isso fossem boas.

Em dias chuvosos os homens desaceleram.
Olham mais.
Respondem depois.
Respiram fundo antes de terminar frases simples.
Como se houvesse uma espécie de acordo silencioso entre o tempo e a água:
hoje ninguém precisa correr.

Não raro, um café vinha no lugar da cerveja. Um cigarro amigo, sempre parceiro no nada, e eu olhando para sua fumaça –
 
sem nada pensar, 
nada temer 
ou ansiar. 

Adultos quase nunca conseguem não pensar.
Mas às vezes eu conseguia, olhando a fumaça, ouvindo chuva,

sendo apenas um homem parado
sem defender passado
nem organizar futuro.

Mesmo viagens em motocicletas, na chuva, eram apavorantes e fascinantes ao mesmo tempo. 

As gotas em minha cara se transformavam em pequenas agulhas me picando, 
e os cheiros da estrada vinham mais fortes. 

Mas hoje, tanto tempo passado, 
me volta a lembrança a velha varanda, 
gotas gordas pingando das telhas no gramado ensopado, 
e minha Nana trazendo um café…  quentinho…  só para mim. 

O melhor de tudo: ela senta ao meu lado e me aquece. 
Talvez não pensemos em nada.
Talvez estejamos apenas existindo.
Expressão estranha.

E ali ficamos, olhando o frio, contando gotas e pensando em algo tão além que nunca sabemos o que é.

Hoje chove. Estou aqui. E não há tristeza nisso.

Esperando.

Ainda feliz
por estar protegido.


Walter Biancardine




terça-feira, 19 de maio de 2026

AMORES E BRISAS -

 


Que se vá a juventude
não preciso dela para amar
a brisa também canta
e encanta minha Nana

que chegou num sopro
folhas secas se foram
a lua chegou e ela
ela, que amo, juntas

que se vá a juventude
pois tenho hoje a manhã
e o amanhã, que ela traz
sem dor, só amor

amor que emana
que nunca engana
amor de Nana
Fica


Walter Biancardine



DEPRESSA DEMAIS -

 


Acordar é a pior parte do dia

levantar da cama

e enfrentar o medo

na cama estou protegido

mas não sei por quem

ou o quê


me levanto, tomo café

olho pra porta

e o medo aponta pra rua

medo da rua

uma selva de bichos

que irão me atacar

e comer


vou à rua

mas isso já é tarde

e vejo que não era tão ruim

sobrevivo e volto pra casa

olho a hora, o dia passou

todo dia é assim



Walter Biancardine




segunda-feira, 18 de maio de 2026

QUEM VAI PAGAR A QUITINETE? – LANÇAMENTO 24 DE MAIO


Passei anos escrevendo enquanto o mundo exigia currículo, sorriso corporativo e entusiasmo por reuniões às oito da manhã.
E falhei em quase tudo o que costuma render medalha social.

Então fiz o que homens cansados às vezes fazem:
transformei derrota em papel.
E papel em livro.

Este aqui não promete enriquecer ninguém, curar traumas ou ensinar sete hábitos de pessoas felizes que acordam sorrindo pra correr no parque.

Este livro tem contos, crônicas e poemas.
Tem ferrugem.
Tem humor quando a vida escorrega na própria casca de banana.
Tem gente tentando sobreviver.
Tem pequenas tragédias de aluguel vencido, orgulho ferido, amores tortos e pensamentos que aparecem às três da manhã quando até o cachorro do vizinho desistiu de latir.

"Quem Vai Pagar a Quitinete?" nasceu pra quem gosta de literatura sem maquiagem.
Para leitores que ainda acreditam no estranho prazer de abrir um livro num sábado chuvoso, servir um café – ou algo mais forte – e esquecer por algumas horas o circo contemporâneo.

Se você vai viajar nas férias: leve.
Se vai ficar em casa olhando o teto: leve também.
Às vezes um livro é companhia melhor que certas pessoas.
E custa menos que terapia.

Dia 24 de maio.
O livro chega ao mundo.
Eu também apareço – ainda sem garantia de estabilidade emocional mas o oferecendo nas redes, pois a editora jamais faria uma noite de autógrafos pra mim.

Compre. Leia. Critique. Odeie. Ame.

Mas faça o favor de não deixar este velho escritor morrer apenas em silêncio.

WALTER BIANCARDINE
Quem Vai Pagar a Quitinete?
contos, crônicas e poemas.

Porque alguém precisa pagar a quitinete.
E a literatura raramente paga.

Consulte as páginas do Facebook https://web.facebook.com/walterbiancardine




INEMPREGÁVEL -

 


tem algo bonito
em entrevistas de emprego depois dos 60

é quase teatro experimental

você coloca a melhor camisa
passa perfume barato
alisa o cabelo como quem arruma
as flores num caixão
e vai

entra numa sala gelada
onde um garoto de 24 anos
com barba de lenhador vegano
e currículo de curso online
olha pra você
como se você tivesse chegado montado
num dinossauro.

vejo que o senhor tem experiência.

experiência…

essa palavra que eles usam
como quem fala de uma doença terminal

você trabalhou quarenta anos
não matou ninguém
não roubou banco
acordou cedo
engoliu chefe burro
bateu ponto
pagou imposto
e agora senta diante de um idiota
que usa tênis sem meia
e diz “mindset
como se tivesse descoberto o fogo

a verdade?

eles não querem experiência

experiência lembra tempo
tempo lembra velhice
velhice lembra morte

empresa nenhuma quer contratar
alguém que faz o estagiário lembrar
que um dia ele também vai virar
uma ameixa seca
tomando remédio pra pressão

mas talvez não seja só a idade

talvez seja sua cara mesmo
essa cara de quem já entendeu tudo
e gente que entendeu tudo
é péssima pra reuniões motivacionais

você não sorri na hora certa
não vibra com “metas agressivas
não chama escravidão de
desafio profissional

isso assusta

o mercado gosta de gente adestrável
gente que fala “show!
quando recebe mais trabalho
e menos salário

gente que aceita humilhação
como quem ganha cupom de pizza

você não

você tem aquele olhar perigoso
de quem já viu o truque por trás do mágico

e é pior se você lê

pior ainda se escreve

isso é imperdoável

o RH sente o cheiro de pensamento
como cachorro sente medo

eles percebem rápido
que você não vai participar
do amigo oculto corporativo
com brilho nos olhos

que você não vai usar crachá
como se fosse medalha de guerra

que você sabe
que “somos uma família
significa apenas
vamos destruir sua coluna
e sua alma
antes do natal

então recusam você

educadamente

sempre educadamente

porque crueldade moderna
usa powerpoint, IA
e café gourmet

no fim
você volta pra casa
olha o espelho
acende um cigarro imaginário
porque até fumar ficou caro
e pensa:

talvez eu devesse ter sido mais burro

mas não foi

azar o deles

e, principalmente, o seu


Walter Biancardine



sábado, 16 de maio de 2026

CEDILHA -


Çebastião era um literato. Muito culto, escrevia, lia, comentava e era reconhecido por sua erudição.

Mantinha, entretanto, um estranho hábito: predileção – ou melhor, verdadeira fixação – na letra cê com cedilha. Jamais explicara por quê, apenas a usava em tudo o que escrevia e mesmo seu nome fora alterado, em cartório, para a estranha versão que passou a ostentar.

Em seus últimos dias de vida andava cabisbaixo, triste, e os amigos se preocupavam com isso. Após seu falecimento, uma moça desconhecida apareceu em seu velório e distribuiu aos presentes cópias de uma última carta, que Çebastião havia escrito.

Segue o texto:

A quem intereçar poça:

Çei que pode pareçer estranho, mas a vida não faz mais çentido para mim.

Os amigos çabem que há alguns anos, desde que conheçi e me intereçei profundamente pela minha amada Aleçandra – esta que ora vos entrega esta miçiva – igualmente dominou-me a fixação pelo çedilha. Çim, adquiri esta predileção de minha querida companheira.

Tanto eu quanto ela, entretanto, éramos inoçentes quanto ao feitiço embutido nesta maldita particularidade de noço çoberano idioma: poucos meses depois de perçeber-me já dominado pelo çedilha, notei que meu vigor çexual desabou.

Cada dia mais mole, mais fláçido, çerpenteante e desanimador.

Em minhas leituras descobri que o formato deste açento – pendente abaixo da letra – poçui um estranho e poderoso çimbolismo que influençia diretamente noça maçaroba. Em vão busquei remédios, poções e até mesmo çimpatias para reerguer a çulapa, mas tudo foi em vão.

Foi quanto, em reçente converça com um renomado Pai de Çanto, ele deu-me a triste notíçia de que tal feitiço não tem reverção: açim permaneçeria eu pelo resto de minha existênçia.

Çei que compreenderão meu gesto. Çei que açeitarão ter eu preferido me retirar da arena do leito a ter de me conformar em usar apenas a língua – a mesma língua cujo estudo obçeçivo me levou à incurável impotênçia.

Espero apenas que me perdoem e rezem uma miça por minha alma, tão atraveçada de dores.

Do amigo

Çebastião

Deste triste caso nos fica a lição que a língua portuguesa pode ser perigosa, para aqueles que com ela brincam ou se descuidam.

Açeitem meu conçelho.


Walter Biancardine




SONETO DO AMOR QUE NÃO ENVELHECE -

 


trazes nos ombros o dever dos dias,
o peso manso das horas cumpridas,
mas amas como amam as meninas:

sem cálculo, defesa ou despedidas

há no teu peito um sol que não declina,
mesmo após tantas sombras percorridas;
e enquanto o mundo aprende as fugas frias,
teu coração insiste – e ilumina

não és pérola: és diamante
desses que Deus ocultou da própria terra

por medo que o rumor deste instante
ferisse a delicadeza que não erra

pois raro é ver, no corpo de uma mulher,
um amor que ainda crê no que quiser


Walter Biancardine



sexta-feira, 15 de maio de 2026

AINDA AQUI -

 


Quantas vezes vou morrer amanhã?
Quantas vezes o Juízo Final vai trovejar nos céus pra mim? 

Sim, eu morro todos os dias 
Sim, eu me acabo diariamente
Mas insisto em permanecer – se não vivo, ao menos cínico
Só pra ver onde essa merda vai dar

eu pergunto isso
mas já sei a resposta

muitas

porque morro quando acordo
e percebo que nada aconteceu
ou aconteceu tudo

não

só mais um dia
mais café ruim
mais gente ensinando sucesso
sem nunca ter carregado um fracasso de verdade
rejeição, pé na bunda

eu morro quando olho no espelho
e vejo o acúmulo
não rugas
acúmulo

nomes esquecidos
humilhações guardadas
portas fechadas
desculpas esfarrapadas

sim
eu me acabo diariamente

um pouco em cada silêncio
um pouco em cada espera
um pouco quando percebo
que certas pessoas só queriam
o que eu podia oferecer
ou elogiar

vida é palavra bonita

às vezes significa apenas:
“não morra até aparecer algo melhor”

permaneço por teimosia
por cinismo

permaneço porque quero assistir

ver até onde vai essa decadência
até onde o corpo aguenta
até onde a dignidade aceita desconto

quero ver o último pedaço cair

o último entusiasmo
a última ilusão
o último “vai dar certo”

e quando tudo acabar
talvez eu ria

não porque venci

não porque entendi

mas porque passei a vida inteira
esperando o juízo final

e descobri no fim

que ele acontecia
toda manhã
confirmando o que eu sabia



Walter Biancardine