segunda-feira, 27 de julho de 2026

NOTA DE FALECIMENTO

todo dia morre um jovem
não é bala, é agulha
todo dia morre um

todo dia morre um jovem
de repente e sem aviso
todo dia morre um

todo dia morre um jovem
aviso de funeral nas redes
lamentam mas não comentam

todo dia morre um jovem
não é bala, é agulha
é agulha

talvez agora
acreditem




Walter Biancardine 



A PPK DO MEU PAI


meu pai tinha uma PPK
admirada por todos
inclusive por mim

usei sua PPK muitas vezes
tive o prazer de manipular
de tê-la em mãos

quando meu pai faliu
vendeu sua PPK
nada pude fazer
era vender a PPK
e comer

a vida seguiu
e hoje me pego
saudoso
da PPK do meu pai

era uma excelente pistola
calibre .765
e xará dele
que também se chamava
walter

e a cabeça de vocês
todos
é podre




Walter Biancardine




SOLIDÃO IMPOSSÍVEL


abrir o capô do carro
na rua e logo
juntam homens em torno
comentando mas
nunca perguntando
porque todos entendem
muito de carros

antigamente diziam
era o platinado
ou carburador

hoje condenam direto
“é a central”
e insinuam que vai
custar um rim
ou dois

contam que tiveram
um defeito igual
ou pior

que teriam gasto
uma fortuna no conserto
não fosse o cunhado
que resolveu

e ficam em volta
parados
olhando

por horas

acabou a solidão




Walter Biancardine


SOLIDÃO

abrir o capô do carro
logo juntam homens
comentando mas nunca
perguntam porque todos
entendem muito de carros
e motores e sempre
contam que tiveram
um defeito igual
ou pior

acabou a solidão




Walter Biancardine


TUDO IGUAL

 
é uma seqüência de dias pesados
domingo e segunda-feira
genros e noras visitam
sogros e sogras e trazem
aquelas pestes que tudo
destroem e gritam
encolhem a casa

e ai de quem reclamar

na segunda é o festival
de mentiras no trabalho
tentam e juram que seu
fim de semana foi fabuloso
e tomam café com o mesmo
filho da puta que fez
sua caveira
pro chefe

depois choram no banheiro

pensando no dinheiro
que gastaram com as crianças
mal-criadas num fast food 
pagaria o almoço 
da semana na rua

e lembram também
que todos no trabalho
se lixam pra ele
e dele só querem
o lugar

uma boa segunda a todos
se a primeira 
não ardeu





Walter Biancardine



“MALDITOS” DE INSTAGRAM


fiz um perfil numa plataforma
que parece juntar um monte de
escritores ou aspirantes a serem

a maioria são garotos e garotas
muito jovens ainda mas querem
passar a imagem de atormentados

no passado eram os malditos

nada contra porque sempre é bom
ter um charme pra vender
quem sabe até rola um encontro

mas não consigo deixar de rir
comigo mesmo e minha solidão
e meu café e minha cerveja
e meu cigarro

quando me dou conta que são
duas e meia da manhã de domingo
e já estão todos dormindo

malditos também pagam boletos
malditos têm aula amanhã
o herdeiro de Rimbaud ouve da mãe:
“desliga esse celular e vai dormir”

são coisas assim 
que ainda me fazem
sorrir com algum carinho

pela raça humana
e por esses meninos




Walter Biancardine



FEIRA LITERÁRIA PARA TI, NÃO PARA MIM

junta-se uns obcecados doentes 
idênticos a torcedores de futebol 
fanáticos 
e vão infernizar e encher de ideologias 
um evento literário

eu não quero saber se é 
fulano ou beltrano 
se é direita ou esquerda 
pois é tudo 
a mesma merda de sistema 

o que quero é não passar nem perto 
de uma feira literária que julgue 
meus livros pelo “viés ideológico”

que vão todos à merda
e enfiem a FLIP no rabo
o mesmo rabo apresentado 
em danças e batuques
roubando a atenção
dos livros

a feira é
lembrem-se
de literatura

aprendam a não misturar 
água e óleo 
arte e política

quero saber o que o velho 
pensa do mar

não da política




Walter Biancardine




ARS GRATIA ARTIS

a fina linha que separa
a genialidade da loucura
é o encanto
só isso

nada intragável é genial
quem diz isso é mentiroso
por interesse
ou vaidade

até o que choca tem limites
existe o chocante que toca
nos acorda e faz
pensar

mas no exagero vaidoso seguem
e chocam até ofender e doer
só causa nojo mas
disfarçamos

no fim o que separa a arte
da loucura e do intragável
e do nojo é apenas
nosso encanto

se não encanta e transcende
não é arte mas agressão
e ninguém me empurra
sem levar de volta

até o que é vulgar
precisa encantar




Walter Biancardine



TÉCNICAS REVOLUCIONÁRIAS DE ESCRITA


vejo gente que escreve
e comenta suas coisas
suas leituras e tarefas
exercícios e estudos
parecem uns alunos

queria ter esse fogo
entusiasmo e deslumbre
descoberta e encanto
de escrever o que pensa
e o que sente

acho que é coisa
de jovens

não faço nada disso
não leio ninguém
nem tenho saco
pra exercitar uma coisa
que já virou lembrança
do que nunca fiz

só sento e escrevo a ânsia
como um vômito de frases
a coisa sai e respinga
em poemas e contos e
histórias que não interessam
ninguém

que sei eu de técnicas
macetes e maneiras e jeitos
pra escrever ou compor ou
seja lá o que for

o que tenho são hábitos
que a vida me empurrou
ver as coisas e rir
e beber e beber e beber
e escrever

não é macete
é teimosia




Walter Biancardine




domingo, 26 de julho de 2026

2:00 AM


sábado e são duas horas da manhã
o povo deve já estar saindo dos bares
bêbados e alegres com a mulher que aceitou
ou só bêbados e sem mulher nenhuma
ou vão beber até o bar fechar

ouviram música ao vivo
e reclamaram do couvert pra pagar
aquele cara do violão com uma moça 
estranha desafinando no falsete
e aplaudiram o intervalo

exatamente agora devem ter
a chave do carro na mão e tentam
abrir a fechadura mas a bebedeira
atrapalha até a mim
que não tenho carro há muito tempo
tanto tempo que ainda acho
que eles têm fechaduras

só que eles estão bêbados e felizes
e eu estou sóbrio e com uma insônia
desgraçada que piora com o café
que bebo e que é o mesmo que eles
vão tomar em casa pra melhorar o porre

eles saíram e se divertiram e ficaram
ou se separaram e brigaram mas saíram
e viram a rua e ouviram música e beberam
e tiveram dinheiro pra pagar a conta

e eu não




Walter Biancardine




A MÃO PELUDA DA PAZ


quero mostrar 
que sou mais forte que você
que posso mandar em todos

quero você
me obedecendo submisso
escravo e humilhado
sem querer nem poder
só se eu deixar

quero as mulheres
me disputando e me querendo
se oferecendo e se atirando
e todos admirando como sou
bem dotado

quero exibir meu dinheiro
meus carros e minhas lanchas
e minhas mansões e meu poder
de mandar até no prefeito e
governadores e presidentes
e no povo todo

quero ir na TV
e ouvirem todos me elogiando
falando de minha beleza e riqueza
e meus músculos e mulheres
e vida boa que tenho

e por isso
declaro guerras e fundo empresas
suborno governos e vendo drogas
até a alma se precisar
porque não posso
ficar pra trás

tudo porque
aquela garota não me quis
riu de meu pau pequeno
não tive dinheiro pra sair
e ela ficou com outro
e fui pro banheiro

se eu fosse mais vezes
não haveria guerras
nem nada




Walter Biancardine


sábado, 25 de julho de 2026

SOU SÓ ISSO

não leio Dostoievski
fé cada vez mais fraca
sem paciência pra Bach
Mozart ou quem for

nunca aprendi crase
nem tenho escritório
com paredes forradas
de madeira

livros enfeitando estantes

trago comigo apenas
uma muda de roupa 
um notebook e uma
máquina de escrever

são todos os meus bens

e vejo tantos
fumando charutos
paletós e echarpes
barba bem aparada

se dizem escritores

em meu fedor de
garapa e roupa suja
cheiro de cigarro
vagabundo e suor

penso em meus livros
meus artigos e ensaios
minhas teses e contos
poesias e desencontros

devo ser qualquer coisa
menos escritor




Walter Biancardine




GAMBIARRA

existem tempos em que parece
termos saído dos trilhos
tudo cheira diferente e fora de lugar
o que fazemos tem cara de falso
improviso ou gambiarra

a rotina do dia fica torta
nada que fazíamos sempre
é feito 
e se for 
sai ruim
o pior é isso acontecer sem que
a gente perceba ou queira

parece que soltou um parafuso
dentro de nós e tudo desandou

olho o que escrevo e nem 
parece que fui eu
estranho e leio
outra voz
no papel

não tenho me visto
em meus poemas e ainda
pior fico nos meus contos
nada consigo fazer
só agora me dei conta


criação não aceita conselhos
me larguei de mim
e esse estranho que sou
não gosto

não sei como nem por quê
isso aconteceu

só sei que é uma merda





Walter Biancardine




PAI DOS BURROS


Google era chamado “pai dos burros”
tomou o apelido dos dicionários
era vergonhoso consultar
mas ninguém criava
nada com ele

IA dá no mesmo pra mim
consulto na cara de pau
fatos e dados e até
meu português ruim
maldita crase

mas escrever um conto
uma crônica ou poesia
botar o nome embaixo
e dizer que é seu
aí é demais

criação é biológica
o que criamos vive
ou só é montagem
de uma máquina
de impressionar




Walter Biancardine



FARMAR O SACO


Tem palavras ou frases que viram moda. E é uma merda.
Pior do que ouvir a mesma expressão mil vezes é perceber que tem gente forçando a barra só pra poder usar.

Foi assim com “tipo”.
O infame “então” pra começar frases.
Com “parada” – “vamos conferir aquela ‘parada’ ali”.
Ou mesmo o “nada a ver”, que acabou se empobretizando no “nada aver” ou, pior, no “nadaver” dos piores WhatsApps.

Agora é a ver do “farmar”. E sua pior variante: “farmar aura” – fazer tipo, tirar onda, botar banca de ser ou ter algo.

Então: eu poderia dizer que estou, tipo assim, conferindo essa parada nadaver dessa gente que fica farmando aura por aí.
Mas não farei isso.

Deixei a adolescência há quase cinquenta anos.

Muitos por ai, ainda não.




Walter Biancardine



sexta-feira, 24 de julho de 2026

BOA NOITE VIETNÃ


tentei me alistar
na guerra das Malvinas
me mandaram procurar
o que fazer

nunca estive no front
mas hoje me parece
que vivo em um país
em guerra

como via nos filmes
americanos na TV
e imaginava telegramas
chegando pras mães

a guerra lembra que existe
com os telegramas das redes
anunciando mais uma morte
precoce de um jovem

não há um só dia
que eu não veja o aviso
funeral de um jovem
que partiu de repente

são muitos e diários
e ninguém parece notar
deve ser vergonha
do quanto acusaram

pois nem todos 
acreditaram no inimigo
e acolheram a agulha
confiando nos homens

todos os dias nas redes
os telegramas da morte

como estarão
essas mães e pais
dormindo à noite?

boa noite
Vietnã




Walter Biancardine




FUNDO DO POÇO

não conte quantos e quais
os pecados cometeu
ou nenhuma esperança
restará

se só um milagre salva
não lembre o quanto deve
ou seu pedido nem sai
da boca

feliz de quem
acredita na corda
na escada
em qualquer coisa

que disfarce o
implorar perdão
e pedir tudo
a Deus




Walter Biancardine



DEUS E OS POLÍTICOS NA TERRA DO SOL


quem não acredita em Deus
reclama que nada fez por ele
quem crê aponta o céu e os
bichos e tudo que há

ninguém chega a conclusão
alguma e bebem uma cerveja

mas os dois acreditam
em política e nos políticos
seja de que lado forem
a merda é igual

também nada concluem
mas se xingam e se matam

pois que me apontem
que diabos algum político fez
além de nos foder dia e noite

é deus ou diabo?



Walter Biancardine


JOGO SUJO


de uma hora pra outra
uma mulher se lembra
de se orgulhar de tudo
o que faz uma mulher

de uma hora pra outra
um negro se lembra 
de se orgulhar por ter
nascido assim

de uma hora pra outra
o gay faz igual e
também se orgulha
por ter nascido gay

jogo sujo

porque se eu me orgulhar
de ser branco e hétero
fazer o que sempre fiz
e ter nascido assim

serei processado
arrancarão meu dinheiro
perderei a liberdade
serei perseguido
e excluído

por aqueles
que reclamam
de serem
perseguidos
e excluídos



Walter Biancardine




DE PROFUNDIS


o ser humano é maravilhoso
em sua baixeza

de profundis transcende 
o buraco segue
ultrapassa o inferno

sai do outro lado
do mundo
e espalha o mal

sobre a terra




Walter Biancardine


quinta-feira, 23 de julho de 2026

FUMAÇA NAS ÁGUAS


havia uma beleza imortal
na vigarice de ser hippie
era ideologia com flores
vencendo o canhão

mas um mundo foi criado
ultrapassou os criadores
um sonho nasceu e viveu
the dream isn’t over

na vida no campo
nas comunidades unidas
hortas e festas
consciência e juventude

sonhadores hoje
são velhos ou se foram
mas são uma lembrança
incômoda e tentadora

de que ainda há
uma saída pra nós

be sure to wear
some flowers
in your hair




Walter Biancardine


PEDINDO VIEWS

talvez não seja indiferença
eu me foder e o mundo seguir
são obrigações de cada um
não podem parar por mim

parece aridez e crueldade
mas é só a vida real
não é contar no celular que
quebramos um copo e todos

curtem e compartilham

acho que me contaminei
e fiquei mal acostumado
sempre me fodi e tudo seguiu

e agora eu estranho
querer chorar e não ter
plateia pra aplaudir e consolar

curta e compartilhe




Walter Biancardine


MÁQUINA

um bicho nasce
cresce 
e se reproduz 
gasta a vida 
comendo e acasalando

a gente faz igual 

gasta o corpo 
a cabeça 
e a alma 
uns comem haddock 
no Leblon 
e trepam em sedas
 
outros 
um podrão na comunidade 
num colchão seboso 
o verniz muda 
o ciclo não 

ninguém criou nada 
a urgência era outra
bastava um emprego 
ou a empresa 
mantendo a máquina 

Saint-Exupéry perguntou 
quantos Mozart existiriam 
nas crianças espalhadas 
pelas ruas 

elas cresceram 
comeram 
e treparam 





Walter Biancardine


quarta-feira, 22 de julho de 2026

A FILA ANDA

Andando lá fora, fingindo que rondo.
O tempo mudou.
Sem vento, noite quente e clara, por conta da lua.
Nuvens se espalham como se um cachorro houvesse destruído um travesseiro no céu.

Subi na laje pra sentir a maresia, que vinha de leve.
Olho os campos, as árvores longe, o açude e as casinhas distantes, luzes acesas avisando que estão ali e vivas.
E tudo isso me entristece. Melancolia calma.

O maior peso que vem com a idade é saber que o prazo é cada dia mais curto. E tudo isso que vejo, que gosto, em breve não verei mais.
Uma tristeza de perda.
Mais uma perda.

Meu santo não cruza com o da morte.
Não vou com a cara dela e acho que é recíproco.

Perdi quase todos os amigos, perdi tios e primos, irmã, pai e mãe e sei que provavelmente ainda terei de ver mais gente ir embora, até que chegue minha vez. 
Mas nunca choro. Não é esse meu luto.

A morte me dá raiva.
Ódio.
Me sinto ofendido, vilipendiado, roubado e desacatado.
Pudesse, daria uma sequência de diretos de direita em sua cara até provocar um afundamento de crânio.
Mas não quero matar a morte.

Apenas não gosto de ser roubado.

E quando olho os pastos em volta, a mulher que eu amo e meu filho, eu sei que serei.
Em breve serei.

Mas a morte é útil.
Tem muita gente por aí precisando ir embora.

O problema é que estou na fila também.




Walter Biancardine




LENÇOL DE ELÁSTICO

existem pessoas que são
como lençóis de elástico
só fazem sentido
se usadas

nas suas funções
são maravilhosas
e confiáveis

mas guardadas 
viram um estorvo
amarrotam
ficam feias

ninguém sabe dobrar
e enfiam no fundo
da gaveta

fingem não ver

eu sou uma 
dessas pessoas



Walter Biancardine


COMO CONFUNDIR O INIMIGO

“Sorte no jogo, azar no amor” – era o que diziam antigamente.
Besteira.
Sempre me lasquei de verde e amarelo, igualmente, em ambos.

A verdade é que nunca fui um bom jogador.
Aliás, posso dizer que sempre fui péssimo. Sequer aqueles brindes toscos de festa junina eu conseguia ganhar.
E eu cresci, mas nada mudou.

Na época da Loteria Esportiva meu recorde foram quatro acertos – até aceitável, já que eu nada entendia de futebol.
Aí veio a Loto e, de cinco números, eu acertava um ou dois.
Mega-Sena sempre foi um vexame e tentar uma fezinha no bicho – o desespero faz dessas coisas – ficou fora de questão: eu estava me tornando motivo de piada pro apontador do jogo, lá perto de casa.

Com as mulheres era igual.
As que eu queria sempre tinham alguém – ou eram simplesmente gentis, não caindo na gargalhada que as outras não conseguiam segurar.

Três casamentos.
Três falências completas, bancarrotas das quais saí com meus poucos pertences e roupas.
E também três chances que dei à cirrose e ela não apareceu.
Talvez tenha se condoído com minha situação e feito vistas grossas pra inumerável quantidade de bebida sobre a mesa do bar.

Agora tenho uma namorada e a amo. Mas ela mora do outro lado do país, onde até o fuso horário é diferente.
Como posso trazê-la pra cá?

Minha vida, às vezes, mais parece um monumento ao cinismo.
Resolvi apostar num milagre: ganhar na Mega-Sena e ir buscá-la.

Seria um final surrealista. O azarado no jogo ganhando um prêmio que resolveria seu azar no amor.

Pura estratégia.

Na falta de opções, confunda o destino.




Walter Biancardine



CUSTA DEZ CRUZADOS


sexta-feira e eu chegava do trabalho
banho rápido e jantar reforçado
pra não embebedar fácil demais

depois eram perfumes e roupas
e vaidades e mentiras pra mim
mesmo

pegava a chave do carro e o cigarro
nada mais

enquanto o carro à álcool aquecia
ligava o rádio e o locutor falava
demais até

quando eu saía nas ruas finalmente
entrava Paula Toller e seu
Disco Voador

ela tinha a minha idade
eu podia namorar ela

isso era o mais precioso
de meus vinte e poucos
momentos




Walter Biancardine