segunda-feira, 29 de junho de 2026

O BOM DA LOUCURA

 
em alguns momentos percebemos 
como é fácil enlouquecer
basta relaxar
cerrar os olhos
deixar um músculo ceder
e pronto: caímos no abismo da loucura

acreditar que morri
e não teria fome
não seria feio
sem ser comparado 
a ninguém

sem julgamentos
sem solidão
e não sofreria 
amores

é fácil e podemos chegar perto
alguns dias quase mandam
baixe a guarda
respire fundo
e enlouqueça

já experimentou?
pode ser gostoso
é tentador
então por que não faço?

pela vaidade
e teimosia
mais que teimosia
birra

sou uma criança birrenta
ainda quero
nem sei como 
mas quero

e sou vaidoso
loucos são feiosos
os outros fogem





NINGUÉM ME AVISOU QUE MORRI -

 


Morri há quase dez anos. Em setembro de 2016, num acidente de moto.
Até hoje não o entendi, de tão besta que foi.

Passava por quebra-molas na estrada, devagar, e simplesmente desmaiei.
E quando acordei novamente, o inferno começou.
Já não era mais o mesmo eu.

Creio que perceber-me morto seja o maior lampejo de lucidez que eu tenha conseguido, nesses últimos anos. De lá pra cá, minha vida – chamemo-la assim – desmoronou.
Desci a uma miséria que jamais vivi. Perdi todos os meus poucos bens. Hoje restam um laptop – que é do meu irmão – e uma muda de roupa. E isso é tudo. Nada mais.

Nada.

Perdi a mulher com quem fui casado por quinze anos. E talvez o mesmo deus que a livrou de mim tenha afastado a única mulher que amei depois disso – sim, é um deus protetor. 
A poupou.

Olho à volta e não tenho amigos. Um sujeito comum não me quer como colega.
Também olho ao redor e percebo que nenhuma mulher aceitaria um velho, ainda mais agravado pelo fato de ser quem sou – um subproduto de tantas introspecções, delírios filosóficos e teológicos que tomei por virtudes. Não. Misteriosamente, uma mão invisível me moldou para que me livrasse da armadura, do verniz social.

E hoje me dei conta: não era questão de melhorar mas, sim, de me acordar e aceitar que eu havia morrido naquela tarde de setembro, em 2016.

O que vivo hoje, de tão miserável, mais parece pesadelo. Algo irreal, que facilmente entendo como condenação por tantos erros cometidos na vida. Isso faz sentido. 

Mas, e os livros que escrevi? Defuntos não escrevem livros. 
E a mulher que ainda amo? Cadáveres nada sentem.
Isso faz parte deste pesadelo. É o toque de realismo necessário para que a tortura funcione. Sim, cedo ou tarde, confirmarão minha morte e isso se tornará inegável. Finalmente, talvez, meus livros sumam e este amor deixe meu peito.

Tenho pena de minha ex-mulher. Só hoje entendo que ela é minha viúva.
Também tenho pena da mulher que hoje amo. Talvez nunca tenha sabido. Amou uma assombração.
Quanto ao meu filho, não sei se faço grande falta.

Já os parentes e amigos podem ir à merda. Nenhum deles se deu ao trabalho de me avisar que morri. Apenas agiram como se eu jamais houvesse existido. 
E só hoje entendi.
Entendi até que, talvez, tenham achado melhor assim.

Creio ser besteira esperar essa confirmação explícita de minha morte.

Afinal, hoje sigo como uma alma penada.

Penando.





Walter Biancardine






ESQUEÇA

 


olhar a mulher e pedir um abraço
um beijo e que fique junto
é mais honesto que escrever
fazer aquela choradeira
achar que vai comover

a mulher pode dizer não
bem na sua cara
e tudo se resolve na hora
escrever é protelar
viver às custas da demora

mais que protelar
é arrogância
enfeitar seu tormento
pensando que outros
verão algum talento

resta ter vergonha na cara
se não a encontra se cale
e não fique se exibindo
mostrando a todo mundo
o que você está sentindo

não fale
não sinta
esqueça
e não escreva

desapareça





Walter Biancardine




SUBORNOU-SE A SI MESMO

  


Seu Nélson – o escritor que nunca leu um livro – me contou. Se é conversa fiada, é dele.

Tempos idos, lá pelos anos 60 ou 70, sua esposa tinha uma confecção; ele, uma Kombi. Foram ao Centro da cidade, onde ela compraria tecidos e aviamentos. Enquanto ela fazia as compras, restou a Nélson a missão de encontrar uma vaga. Não encontrou. Parou em fila dupla.

Surgiu um guarda. Os antigos lembrarão da figura: quepe branco, pesando doze arrobas, andar paquidérmico. Advertiu Nélson, ainda dentro da Kombi e pensando na vida:
- A sua pessoa não pode estacionar aí, prejudica o trânsito…
- Sim, seu guarda. É que minha mulher foi ali comprar uns tecidos e o fardo é pesado. Não tem vaga, então fiquei aqui pra ajudar.
- Entendo… mas se a patrulha passar, vai dar “pobrema”…
- Te prometo que, se ela passar, eu tiro o carro daqui.

Ficaram combinados e o mamute fardado continuou sua caminhada.
A mulher de Nélson demorava.
O guarda voltou:
- A sua pessoa vai prejudicar a comunidade… a patrulha vai passar…

Nélson, vivido, se achegou ao guarda e começou a contar dos problemas que sua mulher causava com aquela confecção. O guarda, solidário, começou a segredar os que ele enfrentava com a sua também, até que nosso amigo escritor – que jamais leu um livro – propôs:
- Vamos fazer o seguinte: vamos ali no botequim tomar um café.

Lá chegando, havia uma vitrine lotada de salgados e sanduíches, que imediatamente prenderam os olhos do servidor da Lei. Malandríssimo, nosso escritor convidou:
- Pode escolher o que quiser! Coma o que tiver vontade e pegue uns pra viagem!

Naquele tempo, o "café do guarda" fazia parte da paisagem. Aceitou sem hesitar.

A conversa continuou. Reclamaram da vida, da mulher, do futebol, do Brasil, de tudo. Depois de tanto papo, confidências e até piadas, estavam quase se tornando compadres e só não pediram uma cerveja em respeito à farda.

Ao fim da conversa, o guarda já sobraçava os pacotes quentinhos e gordurosos e viu o português, dono do boteco, trazer a conta para Nélson – que se deu conta de um esquecimento:
- Rapaz… a minha mulher foi comprar as coisas, me pediu o dinheiro e eu dei a carteira pra ela… ela levou tudo, não tenho um tostão!

Silêncio. 

Nélson continuou:
- Paga isso aí que, quando minha mulher voltar, eu te reembolso!

Eram agora compadres, e o Rio era outro.

O guarda pagou seu próprio suborno.




Walter Biancardine




DE VOLTA AO CAMINHO

 


não faz muito tempo
eu tentava entender meus erros
não só pra melhorar mas
também por amor a ela
sim

entenderia o fim
não a pensaria injusta
podem ser boas razões

mas isso acabou
não tenho mais que entender
porra nenhuma
não me lembro de entenderem
a mim

não sou jovem
muitos dedos apontados
e isso cansa

se faço um balanço
vem o resultado engraçado
tudo sempre
foi culpa minha
dizem

o Ministério da Saúde adverte
eu faço mal à saúde
então melhor ser sozinho

como havia decidido
tempos atrás




Walter Biancardine






Receita do dia: DERRIÈRE AU GRATIN -

 


Pegue um quilo de pé na bunda
e escolha bem as partes. 
Use cortes ainda latejantes.

Fatie fino, quase transparente,
como coisa que a gente finge que esqueceu
mas continua guardada na gaveta de frios.

Tempere com ansiedade – pouca, porque estraga o resto.
Prefira angústia no lugar da pimenta, arde mais.
Saudade, essa vai no olho junto com o sal, sem piedade.

Acrescente mal-entendidos picados,
escolhendo aqueles que nasceram pequenos e cresceram tortos
só pra virar briga em dia de chuva.

Unte tudo com solidão,
gordura lenta que não sai nem com água quente,
e deixe cada pedaço bem coberto de desânimo,
banhado em esquecimento na prateleira da vida.

Leve ao forno em fogo máximo de velhice.
Não abra a porta.
Velhice não gosta de ser interrompida.

Asse por 62 anos
ou até que o cheiro pare de doer – o que vier depois.

Sirva frio com uma garrafa de Dor de Corno, safra do dia,
e talheres de memória ruim.

Leia o aviso na embalagem:
não contém cura.
Material reciclado.

Nos siga para mais dicas de baixa gastronomia.




Walter Biancardine



VIDINHA

 


Quero dormir.
Sem pensar, sem penar, sem o balancete de todas as noites.
O faço, dormindo ou não.

Queria apagar. Sumir. Desligar, só isso.
Des-existir.
Mas sei que não vou.
Grilos e sapos riem até o amanhecer.
Até me fartar. Até enlouquecer.
Só vejo paredes.

E odeio a mim mesmo.
Uma besta que ama. 
Um imbecil que sofre.
Um idiota que daria sua vida pela dela.

É por conta disso que não durmo.
Odeio balancetes.
Quero matar grilos e sapos.
E me escondo escrevendo.

Fosse eu um alcoólatra e estaria no chão.
Dúzias de garrafas ao lado.
Ou um drogado com sorte, uma overdose.
Mas são coisas demais pra uma vida pequena.

Medíocres só não dormem,
Resmungam, choram, rabiscam versos.
Só isso que fazem.

Sequer conseguem ser cafajestes.




Walter Biancardine



domingo, 28 de junho de 2026

PAZ

 


só peço paz
silencio e calma
afago e afeto
sorrisos

olho notícias
“morreu no local”
“deixou três filhos”
“tropas bombardearam”

e eventualmente
“quem vota nisso
é um imbecil
tem que morrer”

e eu só quero paz
silêncio e calma
afago e afeto
da mulher que amo



Walter Biancardine








FIZ UM ELETRO

 

É piscar os olhos
e cair do céu 
direto ao inferno

da felicidade plena
que nos estufa por dentro
ao vazio escuro
que leva o rumo

o problema
é quando tudo
repete e repete
até virar rotina

como será amanhã?
caminhar com anjos
ou fugir dos diabos?

montanha russa todo dia
enjoa e corrói e destrói
sobra um caco de gente

procurando uma faca
pra extrair todo o amor
de meu peito

melhor viver vazio
que louco e sem norte

nunca pensei
eletrocardiograma
é um garrancho do amor



Walter Biancardine



BRAÇOS ABERTOS

 


o Rio não te recebe
tem trancas
grades nos prédios
portas de aço

não tem banco
nas praças
sobrou a marquise
disputada
alugada
sangrada

e se faz a sujeira
em volta
calçada encardida
se pede dinheiro
na marquise

o Rio não te recebe
nunca recebeu
de braços abertos

é só uma estátua



Walter Biancardine




DOR EM CAPA DURA

 


verso filho da fome
hemorragia disfarçada
de conto

quentinha com Guaravita
fosse em Paris
seria vinho

estrofes fraturadas
capítulos enfartados
dor em capa dura

o SUS não atende
não dá atestado
não tem remédio

a agonia grita
sofre os hematomas
em verso e prosa

sem nenhum pudor

escrever não é limpo
letras pingam como sangue
histórias fedem

uma linha é muito
pra se ler
um livro é pouco
pra comer

cabelo desgrenhado
no bolso uma chave
dinheiro da passagem

o ônibus nunca vem

o defunto não se enterra
os livros ficaram
por aí




Walter Biancardine








sábado, 27 de junho de 2026

MÁQUINA DO TEMPO

 


Algumas músicas são
como máquinas do tempo
máquinas do quando
máquinas de sentir
de novo

do nada
de repente
nos pegam pelos cabelos
e nos levam de volta
a uma felicidade
que esquecemos

empilhando discos
na vitrola  
vendo caírem
um por um

tempo feliz
dias bons
pais e mães e irmãos
e proteção

é uma pancada
quando a música acaba
e voltamos ao hoje

alguns não tiveram
esse passado feliz
isso dói

eu tive
e ver de longe
sem volta

dói também



Walter Biancardine




ESQUECENDO O ÓBVIO

 


Não sou diferente de ninguém.
Quando leio os grandes escritores – Orwell, Hemingway, Virginia Woolf ou mesmo Camus – penso igual a todo mundo e tenho a certeza que tudo o que escreveram na vida foi obra de gênio – até a lista de compras do supermercado seria um best seller.

Mas não é a verdade. O mesmo homem capaz de escrever “Por Quem os Sinos Dobram” talvez tenha escrito muitas merdas – e vou além: merdas horríveis, inacreditáveis, agravadas pelo seu alcoolismo e depressão. 
Mas, diferente de mim, acertou o suficiente pra ser eterno.
E esta é toda a diferença entre o gênio e o medíocre.

Tempos atrás lia um Bukowski. Excessos, excessos, excessos.
Mas às vezes ele esquecia disso. E o gênio se fazia presente.
Toda a aflição do leitor escapava pela fresta entre duas frases do autor.
Isso é talento.

Não quero dizer que todo gênio tem um lado podre.
Meu objetivo é – isso sim – fazer quem me lê aceitar as porcarias que escrevo, na esperança que um dia eu mostre algo genial e ele possa dizer, com ar superior: “farejei o gênio antes de todos”.
 
Como se diz na rua Barreiros, lá em Olaria, o nome é “conto do vigário”.

Afinal, preciso vender meus livros.




Walter Biancardine



RUAS SEM NOME

 


a vida não tem mapa
ninguém sabe o caminho
quem acertou foi por acaso
não adianta perguntar

passei muito tempo
decorando
ruas, vielas e avenidas

por um tempo até
foi bom e não me perdia
tanto

hoje uso óculos pra ler
não enxergo os mapas
estou meio surdo
não escuto as dicas

a vida não tem mapa
ninguém sabe o caminho
ninguém chegou




Walter Biancardine




OLIVETTI, MARLBORO E JACK DANIEL’S

 


Quase uma garrafa inteira de Jack Daniel’s me fez acreditar.
Queria escrever um romance, obra épica, lendária. 
Quem sabe seiscentas páginas que seriam um divisor de águas na literatura mundial, um Guernica das letras, deixando Hemingway humilhado em seus chinelos?

A ideia estava toda em minha cabeça. Personagens, trama principal, núcleos auxiliares, falso epílogo, tudo. A velha Olivetti portátil era de uma ex-mulher, mas eu a usava descaradamente – quase um dote de casamento ao contrário – e estava já municiada: resma de papel, fitas corretoras, bloco com caneta, uma garrafa térmica cheia de café recém coado e três maços de Marlboro.
E coroando isso tudo, abri mais um litro do velho Jack.

Me sentia anabolizado. Brigas acumuladas. Frustrações também, e a certeza de ter me casado apenas pra provar a mim mesmo que eu podia. 

E eu escrevia. E bebia.
Escrevia mais e bebia mais.
Acendia um cigarro, coçava os olhos – um café pra segurar a onda – e voltava à Olivetti.

Não sei por que diabos, mas, no meio do caminho, me veio uma ideia sobre um poema. Nem tirei a folha: como fosse continuação das minhas misérias, espalhei versos sobre a história como um asfalto quente em cima do chão de terra batida.
E não achei nada de errado nisso.

Outro copo do amigo JD. Olhos embaçados. E agora não eram mais poemas: uma letra de música cairia bem nesse clima. E emendei, salpicando um arremedo de blues perneta.
Usar a fitinha corretora estava fora de questão – não conseguia mais enxergar as letras.

Tentei voltar à minha história fantástica, mas a achei uma merda.
Arranquei a folha, joguei no lixo.
E pra lata foram também meus poemas e o blues perneta – vala comum da bebedeira e frustração.
Nem reparei.

A última coisa que lembro foi colocar outra folha de papel na máquina de escrever.
E acordar no dia seguinte com uma bomba de Hiroshima explodindo dentro de minha cabeça.
A de Nagasaki veio comigo na cozinha, tomando uma aspirina e ouvindo a bronca de minha então mulher.

Fui um radioativo literário por quase dez anos.
Apagão completo.
Nojo total.
Descrença – ou juízo.
Só voltei a escrever já morando em Cabo Frio, ao trabalhar como repórter de uma rádio local.

Apenas dois amigos permaneceram comigo: o maço de Marlboro e o Jack Daniel’s.
Na alegria ou na tristeza.
Na saúde ou na doença.

E se alguém teve algo contra esta união, preferiu se calar para sempre.




Walter Biancardine





sexta-feira, 26 de junho de 2026

SEM SOCOS, SÓ VERSOS

 


Já escrevi abatido
depressivo
triste

também escrevi
bêbado
chutado
rejeitado
mal amado

escrevi solitário
desalentado
sem esperanças
vazio

mas nunca escrevi
com raiva
furioso

não dá certo
hoje vejo

as teclas não são
os dentes do safado





Walter Biancardine






MINDSET

 


Se você quer ter sucesso
aprenda nas redes sociais

todo dia aparece alguém
que ganhou um pão
e fez dele um milhão

sempre o mesmo enredo
igual novela

mostram o impossível
aí um detalhe
uma insistência
e o milagre acontece

sempre igual

pelo que vi
milionário sempre vem
do pior cenário

então quero crer
julgando por mim
que o dinheiro vai chover

mal posso esperar
pra comprar o meu Jaguar



Walter Biancardine



A OITAVA FACE

 


nunca me veio um anjo
dizer nos meus ouvidos
"vá ser gauche na vida"

com um deles deu certo

não sou tímido
nem canhoto
nem desastrado

falhei diferente

só sei meu lugar
me olham estranho
e minha vida deu nisso

preferia ter sido gauche
do que traste



Walter Biancardine



CONFISSÃO DE CULPA

 


sempre reclamo e esculhambo
gente falsa e fingidora
usa ChatGPT pra escrever
e se acha gênio

eu uso essa plataforma
pra corrigir português
até hoje não sei
onde a crase vai

por pura preguiça
colei um poema
só queria corrigir
os erros

veio a surpresa

um monte de elogios
texto formoso
sou bonito e gostoso

quase virei
Fernando Pessoa

plataforma safada

não bastasse fabricar
talento e glória

ainda alisa e lambe
a autoestima
dessa gente

quase justifica
tamanha pilantragem

se as editoras usassem
eu já teria sido aceito

eu acho




Walter Biancardine




SÍMBOLOS DAS HORAS

 


São 10h18.
Criança ainda, era a hora em que acordava e ia ver desenhos na TV.
Adolescente, hora do recreio e de tentar, pela enésima vez, um olhar da mocinha.

Cresci e fui trabalhar.
Se tornou o horário do café. Às vezes com pão na chapa.
Pausa pequena e providencial no serviço. A voz sádica da consciência a perguntar:
- Sentiu a pressão? Pois toma fôlego que ainda tem muito mais!

Me tornei jornalista. Passei por rádios, TVs e jornais.
E era a hora em que eu chegava no serviço. E ai de quem reclamasse, após ter ficado madrugada adentro fechando a edição ou terminando matérias.

Depois vieram as portas fechadas.
Em casa, se tornou a hora de acordar e escrever diatribes.
Contra a política, as pessoas, o mundo.
Desliguei as redes. 
As pessoas continuaram gritando.

E a velhice chegou.
Talvez seja a hora de novamente acordar e ver desenhos na TV.

Mas não tenho TV.




Walter Biancardine





QUERO OLHAR EM VOLTA

 


Chegamos ao terceiro dia de chuva.
Direto e consecutivo. Não pára.
Os cavalos se conformam, pingam e pastam. Quietos.
E o cachorro que apareceu, acabou ficando. 
Batizei de Nhonho. 
Um nome bobo, feito ele e sua cara.

Tudo se encharca, à volta. Um quadro de verde pesado, empapado, com jeito de tudo atrasar.
Mas atrasar o quê?
De meu, nada existe a atrasar. Não tenho patrão, horários ou prazos de entrega.
Só meu espírito que atrasa.

Fico em casa olhando o teto. Ou o pasto. 
Não vejo gente. Nada acontece.
Então não escrevo sobre o sol. Escrevo sobre minha própria pele, ardendo dele.

Prefiro escrever sobre o que vivo, sobre as coisas estranhas alheias, apontar os defeitos e manias dos outros e as hipocrisias nos lares, bares e jantares. 
Mas, trancado em casa pela chuva, só me resta olhar para mim mesmo e resmungar – tal qual esses “góticos do Facebook”, os “dark people”, existencialistas de carpete e ar condicionado.
Sangram suco de tomate, feito filmes de terceira, e confundem queixumes com literatura.

Existe um mundo de merda e misérias lá fora. Coisas muito mais merecedoras de páginas que meus abismos. Há que se contá-las, apontá-las e até – quem sabe das dores dos outros? – louvá-las.

Mas as chuvas me entrincheiraram. 
Estou sozinho.

E Hemingway me vem à cabeça, quando perguntou:
- Quem está contigo na trincheira?
- E isso importa?
- Mais que a própria guerra.




Walter Biancardine