A modernidade ensinou muita gente a tratar tudo como provisório.
Trabalho provisório.
Casamento provisório.
Cidade provisória.
Fé provisória.
Identidade provisória.
Como se o homem pudesse viver eternamente desmontando a própria casa para provar que é livre.
Mas há coisas que, se viram provisórias demais, deixam de sustentar qualquer coisa.
Uma cadeira pode ser trocada. O chão, não.
Tradição virou palavrão para muitos porque confundiram tradição com decoração antiga.
Tradição não é usar chapéu de avô nem repetir frases mortas.
Tradição é memória acumulada do que funcionou – às vezes durante séculos – para conter o caos humano. É uma cerca num precipício. O sujeito moderno olha a cerca e diz: "autoritarismo". Remove.
Depois descobre a utilidade dela durante a queda.
Princípios também não são sentimentos. Sentimentos vencem rápido.
Um homem jura amor numa terça e na sexta quer fugir para outra cidade.
Um princípio é o que sobra quando o entusiasmo apodrece.
Só que há uma armadilha: transformar valores em peça de museu ou sermão engomado. Aquele conservador que fala de honra enquanto humilha o garçom; de família enquanto trai; de Deus enquanto explora empregado.
Isso não é tradição. É maquiagem sobre ferrugem.
Valores reais costumam ser silenciosos. Um sujeito cansado que trabalha décadas sem abandonar filho. Uma mulher que permanece íntegra quando mentir seria mais lucrativo. Gente que segura a coluna reta enquanto tudo em volta negocia desconto moral.
O mundo muda. Deve mudar em parte.
Mas há vigas que não podem virar moda.
Porque o homem que troca tudo o tempo todo acaba descobrindo tarde demais:
o único objeto permanente foi o vazio.
ALGUMAS COISAS NÃO APODRECEM
o bar fechou às duas
sempre fecha às duas
isso muda
o dono morre,
o filho vende o lugar,
vira farmácia,
depois academia,
depois igreja evangélica,
depois loja de celular
as cidades trocam de pele
como prostitutas trocam de nome
mas havia um velho
que entrava ali fazia quarenta anos
bebia em silêncio
pagava em dinheiro
olhava nos olhos
coisa rara:
gente antiga ainda acreditava
que palavra dada
não era papel higiênico
ele morreu
infarto
na cozinha
camiseta furada,
pia cheia de copos,
uma conta de luz atrasada
e um cachorro esperando
fim pouco cinematográfico
como quase todos
dias depois
o sobrinho apareceu dizendo:
- o velho era teimoso
não acompanhou os tempos
acompanhar os tempos…
engraçado isso
os tempos acompanham pornografia,
antidepressivo,
solidão em apartamento alugado
e homens de quarenta
pedindo aplicativo para aprender
como conversar com mulheres
grande progresso
o velho não sabia usar internet
mas sustentou esposa doente
durante onze anos.
limpou vômito
trocou fralda
sem postar frase bonita
sem fotografia
sem medalha
há coisas que acabam:
bares
casamentos
empregos
motores
dentes
joelhos
Impérios
há coisas que não deveriam acabar:
cumprir palavra
não abandonar quem depende de você
não vender a alma
por migalha
ou aplauso
porque no fim
quando o fígado estiver ruim,
o espelho devolver um estranho
e o telefone tocar cada vez menos,
você vai descobrir:
a liberdade absoluta
era só outro nome
para ficar sozinho
num apartamento úmido,
com duas cadeiras,
uma garrafa vazia
e nenhuma pessoa no mundo
capaz de jurar
que você foi homem
quando podia ter sido apenas
mais um rato elegante
correndo atrás de novidades
Em tempo, cabe dizer algo sobre mim.
Tenho uma inclinação curiosa na escrita: encontro matéria literária justamente onde a maioria desvia o olhar – acostamento, oficina, copo sujo, abandono, homem envelhecendo, restos. Não acho que seja pouco merecedor.
Muita gente escreve sobre exceções; eu rondo ruínas comuns.
Walter Biancardine