terça-feira, 28 de julho de 2026

BEBEDEIRA COM ESTILO


saí do bar no fim da madrugada
olhei o céu e redemoinhos
chupavam estrelas e luas
a espiral fazia barulho
e tapei meus ouvidos

meus olhos se tornaram
também
redemoinhos e o mar
ficou um azul quase preto

tentei olhar a rua e
os prédios mas eram quadrados
e retângulos
um de cada cor e sem
ordem e sem
lógica

o sol começou a nascer
quis ver as horas
mas o relógio murchava
pingando pela quina
de um móvel

olhei meu reflexo na vitrine
de uma loja que vendia
felicidades e importâncias
e meu nariz estava 
na orelha
do livro que queria
ler
em cubos

nada mais me restava
depois de ver as
lindas mocinhas
pontilhando
patinando
saias voando

fui pra casa
de um lado minha cama
amarela
de outro as duas cadeiras
ao fundo a janela

e pensei

o que fazer
com minha orelha





Walter Biancardine






O SOL QUE CEGA E SARA


tanto escuro e o sol ofusca agora um
monte de coisas pra ver lá fora
e espremo os olhos e tento

olho

nem sei

o que vejo

queria ver cena de anúncio
de margarina 
na TV

crianças brincando
na grama
risos
e mais
risos

mas o que aparece não quero
bocas em arcos
olhos murchos
frustração
pinga
do queixo
ao chão

não quero ver

prefiro

o brilho e raios e estrelas na lata
dos carros em plena luz do dia

não vejo o desgosto
na cara de quem passa
porque quem passa nem vejo 

é tudo luz queimando 
os olhos

o sol é uma bênção porque cega
e não vejo toda

essa merda
 
de sobreviver
mais
um 
dia

bendita cegueira

que nem vejo

a mim

nem nada mais





Walter Biancardine






LUA CHEIA


a lua cheia muda tudo
muda as coisas e as pessoas
e a vida e a rotina sempre
na delegacia ou hospital
tudo muda até em casa

algum animal estranho
renasce dentro de nós
os pelos se arrepiam
o faro se aguça
tensão no ar

como se a água começasse
a ferver e borbulhar
ontem não fervia
e hoje ferve
é lua cheia

pense duas vezes
antes de pensar




Walter Biancardine



A HORA QUE ACORDO


parece que estou saindo de
uma batalha e nem sei
se ganhei ou perdi
nem sei batalha contra
quem ou o quê

sempre dor de cabeça
que não aceita mais abaixar
faz sentido
abaixei demais

preciso uma montanha de
travesseiros e durmo
- se é que durmo -
sentado pra ela
não explodir

a verdade é que entro
no sono pela porta 
de emergência
quase desmaiando
ou começo a pensar
e não durmo

mas acordo assim

as costas quebradas e
meu punho espatifado
mão e queixo e
costela do peito
e joelhos
tudo quebrado
tudo dói

mas o que mais dói
é a vida que me volta
à cabeça quando deito
e a consciência pesa
por nós mesmos

até pra ser um fracasso
fracassei

mas começo a achar que
perdi e que sei
contra quem ou o quê é
essa batalha que saio

todos os dias
quando acordo





Walter Biancardine


INSÔNIA

 
evito remédios pra dormir
pensamentos nunca param
não tem a menor piedade

me pego um idiota 
nessa idade
ansioso 
que coisas aconteçam

a cabeça não desliga 
o interruptor
não funciona mais

beber até desmaiar
é tirar da tomada
funciona
mas sem dinheiro
não dá

fico acordado escrevendo
tomando café
fumando
amaldiçoando
até o fusível queimar

e eu desmaiar
na cama suja
nem sinto o frio

como vou acordar
aí já é outro
problema

um de cada vez
por favor




Walter Biancardine




segunda-feira, 27 de julho de 2026

FEIJOADA NO CAFÉ DA MANHÃ

dizer que não quer ser
reconhecido como escritor
ou poeta é de um cinismo
que merece prêmio

quem escreve quer sempre
senão guardaria tudo na
gaveta ou num pen drive

também quero ser lido
mas sei que não serei
e não é modéstia idiota
é porque sei o que escrevo

não é todo mundo que quer
ler aquilo de pior que tem
dentro de si ou das pessoas
que conhece em forma de
conto ou poema

nem todo mundo aceita ler
versos e páginas gritando
e gemendo as dores que todos
sofrem e todos também escondem

tem gente que finge nem saber
que fedor é esse porque
se mostrarem conhecer saberão
que já esteve no esgoto

não posso culpar ninguém

não se lê Biancardine 
no café da manhã de domingo
do mesmo jeito que não
se toma café antes de dormir

simplesmente não dá

“não sou vendável”
dizem os editores

sou obrigado a concordar





Walter Biancardine


THE END


já fui em lugares que pareciam
cenários de filme americano
fazendo coisas de filme americano
mergulhando no oceano ou voando
e pilotando um avião ou
viajando por estradas com uma
reta sem fim

já vivi dramas de filme americano
mortes em família ou de amigos
acidentes e dores trágicas
brigas e cadeiras quebradas
nas costas e polícia
e namorada acabando tudo
comigo desempregado

imito os filmes americanos
querendo um trabalho que aqui
não existe e insisto em ser
escritor passando fome
e usando máquina de escrever
e se embebedando e
esperando pelo final
feliz

mas a vida não é filme americano
o final está cada vez mais perto
e de nada vale minhas bebedeiras
nem minha máquina de escrever 
nem eu me prestar ao papel 
de tentar fazer
da minha vida um filme
porque este filme não é 
nem nunca será
americano

aqui não tem final feliz
com sorte terei
apenas ressaca
e fome




Walter Biancardine


NOTA DE FALECIMENTO

todo dia morre um jovem
não é bala, é agulha
todo dia morre um

todo dia morre um jovem
de repente e sem aviso
todo dia morre um

todo dia morre um jovem
aviso de funeral nas redes
lamentam mas não comentam

todo dia morre um jovem
não é bala, é agulha
é agulha

talvez agora
acreditem




Walter Biancardine 



A PPK DO MEU PAI


meu pai tinha uma PPK
admirada por todos
inclusive por mim

usei sua PPK muitas vezes
tive o prazer de manipular
de tê-la em mãos

quando meu pai faliu
vendeu sua PPK
nada pude fazer
era vender a PPK
e comer

a vida seguiu
e hoje me pego
saudoso
da PPK do meu pai

era uma excelente pistola
calibre .765
e xará dele
que também se chamava
walter

e a cabeça de vocês
todos
é podre




Walter Biancardine




SOLIDÃO IMPOSSÍVEL


abrir o capô do carro
na rua e logo
juntam homens em torno
comentando mas
nunca perguntando
porque todos entendem
muito de carros

antigamente diziam
era o platinado
ou carburador

hoje condenam direto
“é a central”
e insinuam que vai
custar um rim
ou dois

contam que tiveram
um defeito igual
ou pior

que teriam gasto
uma fortuna no conserto
não fosse o cunhado
que resolveu

e ficam em volta
parados
olhando

por horas

acabou a solidão




Walter Biancardine


SOLIDÃO

abrir o capô do carro
logo juntam homens
comentando mas nunca
perguntam porque todos
entendem muito de carros
e motores e sempre
contam que tiveram
um defeito igual
ou pior

acabou a solidão




Walter Biancardine


TUDO IGUAL

 
é uma seqüência de dias pesados
domingo e segunda-feira
genros e noras visitam
sogros e sogras e trazem
aquelas pestes que tudo
destroem e gritam
encolhem a casa

e ai de quem reclamar

na segunda é o festival
de mentiras no trabalho
tentam e juram que seu
fim de semana foi fabuloso
e tomam café com o mesmo
filho da puta que fez
sua caveira
pro chefe

depois choram no banheiro

pensando no dinheiro
que gastaram com as crianças
mal-criadas num fast food 
pagaria o almoço 
da semana na rua

e lembram também
que todos no trabalho
se lixam pra ele
e dele só querem
o lugar

uma boa segunda a todos
se a primeira 
não ardeu





Walter Biancardine



“MALDITOS” DE INSTAGRAM


fiz um perfil numa plataforma
que parece juntar um monte de
escritores ou aspirantes a serem

a maioria são garotos e garotas
muito jovens ainda mas querem
passar a imagem de atormentados

no passado eram os malditos

nada contra porque sempre é bom
ter um charme pra vender
quem sabe até rola um encontro

mas não consigo deixar de rir
comigo mesmo e minha solidão
e meu café e minha cerveja
e meu cigarro

quando me dou conta que são
duas e meia da manhã de domingo
e já estão todos dormindo

malditos também pagam boletos
malditos têm aula amanhã
o herdeiro de Rimbaud ouve da mãe:
“desliga esse celular e vai dormir”

são coisas assim 
que ainda me fazem
sorrir com algum carinho

pela raça humana
e por esses meninos




Walter Biancardine



FEIRA LITERÁRIA PARA TI, NÃO PARA MIM

junta-se uns obcecados doentes 
idênticos a torcedores de futebol 
fanáticos 
e vão infernizar e encher de ideologias 
um evento literário

eu não quero saber se é 
fulano ou beltrano 
se é direita ou esquerda 
pois é tudo 
a mesma merda de sistema 

o que quero é não passar nem perto 
de uma feira literária que julgue 
meus livros pelo “viés ideológico”

que vão todos à merda
e enfiem a FLIP no rabo
o mesmo rabo apresentado 
em danças e batuques
roubando a atenção
dos livros

a feira é
lembrem-se
de literatura

aprendam a não misturar 
água e óleo 
arte e política

quero saber o que o velho 
pensa do mar

não da política




Walter Biancardine




ARS GRATIA ARTIS

a fina linha que separa
a genialidade da loucura
é o encanto
só isso

nada intragável é genial
quem diz isso é mentiroso
por interesse
ou vaidade

até o que choca tem limites
existe o chocante que toca
nos acorda e faz
pensar

mas no exagero vaidoso seguem
e chocam até ofender e doer
só causa nojo mas
disfarçamos

no fim o que separa a arte
da loucura e do intragável
e do nojo é apenas
nosso encanto

se não encanta e transcende
não é arte mas agressão
e ninguém me empurra
sem levar de volta

até o que é vulgar
precisa encantar




Walter Biancardine



TÉCNICAS REVOLUCIONÁRIAS DE ESCRITA


vejo gente que escreve
e comenta suas coisas
suas leituras e tarefas
exercícios e estudos
parecem uns alunos

queria ter esse fogo
entusiasmo e deslumbre
descoberta e encanto
de escrever o que pensa
e o que sente

acho que é coisa
de jovens

não faço nada disso
não leio ninguém
nem tenho saco
pra exercitar uma coisa
que já virou lembrança
do que nunca fiz

só sento e escrevo a ânsia
como um vômito de frases
a coisa sai e respinga
em poemas e contos e
histórias que não interessam
ninguém

que sei eu de técnicas
macetes e maneiras e jeitos
pra escrever ou compor ou
seja lá o que for

o que tenho são hábitos
que a vida me empurrou
ver as coisas e rir
e beber e beber e beber
e escrever

não é macete
é teimosia




Walter Biancardine




domingo, 26 de julho de 2026

2:00 AM


sábado e são duas horas da manhã
o povo deve já estar saindo dos bares
bêbados e alegres com a mulher que aceitou
ou só bêbados e sem mulher nenhuma
ou vão beber até o bar fechar

ouviram música ao vivo
e reclamaram do couvert pra pagar
aquele cara do violão com uma moça 
estranha desafinando no falsete
e aplaudiram o intervalo

exatamente agora devem ter
a chave do carro na mão e tentam
abrir a fechadura mas a bebedeira
atrapalha até a mim
que não tenho carro há muito tempo
tanto tempo que ainda acho
que eles têm fechaduras

só que eles estão bêbados e felizes
e eu estou sóbrio e com uma insônia
desgraçada que piora com o café
que bebo e que é o mesmo que eles
vão tomar em casa pra melhorar o porre

eles saíram e se divertiram e ficaram
ou se separaram e brigaram mas saíram
e viram a rua e ouviram música e beberam
e tiveram dinheiro pra pagar a conta

e eu não




Walter Biancardine




A MÃO PELUDA DA PAZ


quero mostrar 
que sou mais forte que você
que posso mandar em todos

quero você
me obedecendo submisso
escravo e humilhado
sem querer nem poder
só se eu deixar

quero as mulheres
me disputando e me querendo
se oferecendo e se atirando
e todos admirando como sou
bem dotado

quero exibir meu dinheiro
meus carros e minhas lanchas
e minhas mansões e meu poder
de mandar até no prefeito e
governadores e presidentes
e no povo todo

quero ir na TV
e ouvirem todos me elogiando
falando de minha beleza e riqueza
e meus músculos e mulheres
e vida boa que tenho

e por isso
declaro guerras e fundo empresas
suborno governos e vendo drogas
até a alma se precisar
porque não posso
ficar pra trás

tudo porque
aquela garota não me quis
riu de meu pau pequeno
não tive dinheiro pra sair
e ela ficou com outro
e fui pro banheiro

se eu fosse mais vezes
não haveria guerras
nem nada




Walter Biancardine


sábado, 25 de julho de 2026

SOU SÓ ISSO

não leio Dostoievski
fé cada vez mais fraca
sem paciência pra Bach
Mozart ou quem for

nunca aprendi crase
nem tenho escritório
com paredes forradas
de madeira

livros enfeitando estantes

trago comigo apenas
uma muda de roupa 
um notebook e uma
máquina de escrever

são todos os meus bens

e vejo tantos
fumando charutos
paletós e echarpes
barba bem aparada

se dizem escritores

em meu fedor de
garapa e roupa suja
cheiro de cigarro
vagabundo e suor

penso em meus livros
meus artigos e ensaios
minhas teses e contos
poesias e desencontros

devo ser qualquer coisa
menos escritor




Walter Biancardine




GAMBIARRA

existem tempos em que parece
termos saído dos trilhos
tudo cheira diferente e fora de lugar
o que fazemos tem cara de falso
improviso ou gambiarra

a rotina do dia fica torta
nada que fazíamos sempre
é feito 
e se for 
sai ruim
o pior é isso acontecer sem que
a gente perceba ou queira

parece que soltou um parafuso
dentro de nós e tudo desandou

olho o que escrevo e nem 
parece que fui eu
estranho e leio
outra voz
no papel

não tenho me visto
em meus poemas e ainda
pior fico nos meus contos
nada consigo fazer
só agora me dei conta


criação não aceita conselhos
me larguei de mim
e esse estranho que sou
não gosto

não sei como nem por quê
isso aconteceu

só sei que é uma merda





Walter Biancardine




PAI DOS BURROS


Google era chamado “pai dos burros”
tomou o apelido dos dicionários
era vergonhoso consultar
mas ninguém criava
nada com ele

IA dá no mesmo pra mim
consulto na cara de pau
fatos e dados e até
meu português ruim
maldita crase

mas escrever um conto
uma crônica ou poesia
botar o nome embaixo
e dizer que é seu
aí é demais

criação é biológica
o que criamos vive
ou só é montagem
de uma máquina
de impressionar




Walter Biancardine



FARMAR O SACO


Tem palavras ou frases que viram moda. E é uma merda.
Pior do que ouvir a mesma expressão mil vezes é perceber que tem gente forçando a barra só pra poder usar.

Foi assim com “tipo”.
O infame “então” pra começar frases.
Com “parada” – “vamos conferir aquela ‘parada’ ali”.
Ou mesmo o “nada a ver”, que acabou se empobretizando no “nada aver” ou, pior, no “nadaver” dos piores WhatsApps.

Agora é a ver do “farmar”. E sua pior variante: “farmar aura” – fazer tipo, tirar onda, botar banca de ser ou ter algo.

Então: eu poderia dizer que estou, tipo assim, conferindo essa parada nadaver dessa gente que fica farmando aura por aí.
Mas não farei isso.

Deixei a adolescência há quase cinquenta anos.

Muitos por ai, ainda não.




Walter Biancardine



sexta-feira, 24 de julho de 2026

BOA NOITE VIETNÃ


tentei me alistar
na guerra das Malvinas
me mandaram procurar
o que fazer

nunca estive no front
mas hoje me parece
que vivo em um país
em guerra

como via nos filmes
americanos na TV
e imaginava telegramas
chegando pras mães

a guerra lembra que existe
com os telegramas das redes
anunciando mais uma morte
precoce de um jovem

não há um só dia
que eu não veja o aviso
funeral de um jovem
que partiu de repente

são muitos e diários
e ninguém parece notar
deve ser vergonha
do quanto acusaram

pois nem todos 
acreditaram no inimigo
e acolheram a agulha
confiando nos homens

todos os dias nas redes
os telegramas da morte

como estarão
essas mães e pais
dormindo à noite?

boa noite
Vietnã




Walter Biancardine




FUNDO DO POÇO

não conte quantos e quais
os pecados cometeu
ou nenhuma esperança
restará

se só um milagre salva
não lembre o quanto deve
ou seu pedido nem sai
da boca

feliz de quem
acredita na corda
na escada
em qualquer coisa

que disfarce o
implorar perdão
e pedir tudo
a Deus




Walter Biancardine