sexta-feira, 17 de julho de 2026

BESTICE

 


Sou um pobre metido à besta. 
Aliás, mais que pobre: um quase-indigente. 
Mas a bestice fica.
Adesiva. Tatuagem.
Quase um sinal de nascença.

Pobre bebe cachaça. 
Praianinha. 
Daquelas que corroem a glote e fazem o bebedor cuspir fogo como dragão. 
Já eu, gosto de whisky. 
Ou melhor, Tennessee whiskey. 
Mais precisamente, Jack Daniel’s. 

Caso não tenha, cerveja serve. 
Mas que seja, ao menos, uma Stella Artois.

Ao comparar minhas condições financeiras com meus gostos a conclusão talvez me desabone, pois seria algo como uma loucura em fase terminal.

Ganhei um dinheiro extra, por esses dias. 
Também recentemente decidi parar de inundar as redes com meus surtos literários, ou nenhum material inédito terei para meus livros. Igualmente existe o fato de que nunca confiei em computadores – engolem arquivos contra nossa vontade – e por isso tomei uma decisão radical: comprei uma máquina de escrever. 

Sim, creiam.
Não é piada, saudosismo ou tentativa de lançar tendências, é pura precaução. 

Agora, além do HD externo, tenho o papel como arquivo de minhas misérias e não me distraio com o panis et circensis digital.
E quem nunca interrompeu o que escrevia no computador para “dar uma olhadinha nas redes” que atire a primeira pedra.

Como sou besta, escolhi uma Hermès Baby – a mesma máquina icônica que Ernest Hemingway usava pra escrever sobre sinos que dobram, velhos e mares.
Steinbeck, Sartre, William S. Burroughs e até o lisérgico Jack Kerouac também a utilizaram e a tornaram famosa, desejada.
E cara.

Sim, também é saudosismo, eu confesso.
Afinal, trabalhei anos com elas.

Existe, também, o benefício extra de uma fisioterapia gratuita em meu braço, punho, mão e dedos esquerdos. Não ando de moto há muito tempo e creio que, sem uma embreagem pra apertar, eles foram perdendo a força após meu acidente.
Quem sabe possa eu voltar até a tocar um violão?

Mas o que esperar de alguém como eu, que bebe Guaravita, fuma um cigarro de cinco reais mas gosta de uísque e agora batuca textos em uma Hermès? 

Que voltou pra Cabo Frio deixando todos os seus bens pessoais e até roupas pra trás, mas acha perfeitamente possível recomprar tudo de novo – menos as histórias, o valor emocional daquilo que perdi?

Que mora no fim de um buraco na roça do Estado do Rio de Janeiro mas ama – e quer ir buscar – preciosa donzela que habita as cercanias do pantanal de Mato Grosso, presenteá-la com rosas e tocar violão pra ela?

Que tá na reta final da vida e ainda acredita que terá uma coisa estranha e grandiosa, a qual poetas e sonhadores apelidaram de “futuro”?

É um quadro clínico preocupante.

Cá entre nós e de volta à realidade, o melhor que pode acontecer é eu me tornar famoso depois de morto.

Afinal, somos especialistas em louvar cadáveres.
Cedo ou tarde serei um.
E terei alguma relíquia a ser leiloada.

Menos a bestice.
Essa é pessoal e intransferível.




Walter Biancardine


HISTÓRICO ESCOLAR


estudei em um bom 
colégio primário
por coincidência passei 
pro ginasial
justo quando inaugurou 
sua primeira turma

fui cobaia
e era uma merda

fiz a quinta série
uma merda
fiz a sexta 
repeti de ano
e implorei
à minha mãe

me tire de lá
quero um bom colégio
puxado e exigente
eu não sei fazer
regra de três

ela achava que
era vergonha minha
mas era aflição
quase
premonição

na verdade eu era
um maluco que lia
o dia todo

entendia da Apolo 11
o pouso na lua
trilobites
os dinossauros
e todas as
enciclopédias

minha mãe não quis
meu pai nem ligou
lá fiquei
até repetir 
a oitava série

fui pro supletivo
na rua da maconha

acho que uma
boa pessoa

morreu na quinta série




Walter Biancardine


quinta-feira, 16 de julho de 2026

VENTO FORTE


construção abandonada
muito alta
o ponto mais alto
de tanta planície
e pastos e matas
à volta

noite escura
sem lua mas cheia
de estrelas
vento forte
muito forte
furioso
e gelado

sento no concreto
me encolho em meu casaco
o vendaval me balança
gela meus ossos
tenho de segurar
meu chapéu

olho as estrelas
uma ou outra luz
de uma casa feliz
espalhadas longe
no horizonte

quase morbidez
desejar dormir aqui
mas desejo
só não faço
porque sei na pele
como é ruim
dormir sem teto

só um louco
desejaria isso
e fico pensando
se não sou louco
e no fundo desejei
a merda que estou





Walter Biancardine


RONDA


fazia a ronda agora à noite
é o meu emprego
vento forte e gelado e subi na construção
a mais alta que restou aqui
onde nada mais tem forma
nem sentido

então não preciso também  dar forma
só sentido naquilo que escrevo
porque é muito
mais que vejo em volta
nesse deserto gelado e escuro
que ando passeando e mentindo
fingindo que é ronda

tem estrelas no céu e nada dizem
tem luzes distantes de casas
com gente encolhida e feliz
ou não e não me interessa
mas estão com a família

entre as paredes
e eu aqui e de propósito
no vento gelado e forte
empoleirado na construção mais alta
onde posso ver tudo mesmo no escuro
e me sinto poderoso porque
do alto é tudo mais perto
e se é perto eu posso ir

e quando volto sempre me bate
aquela sensação de chegar em casa
e sentir o cheiro do café
e ouvir minha mãe reclamar de alguma
coisa que não fiz e eu só
resmungar e ir pro quarto
quente e meu
e que eu reclamava
e agora não tenho

pra quê fazer sentido
ou dizer coisa com coisa
ter juízo é uma responsabilidade
que preferia dispensar na lixeira
da loucura

é a hora que fico farto
mando tudo à merda
e paro de escrever
meu trabalho

amanhã é outro dia




Walter Biancardine




DAR UMA VOLTA


Tem horas em que não é pra escrever.
Sem vontade, sem assunto, sem saco.

Tivesse eu um carro e o pegaria pra dar uma volta.
Iria ao centro de Cabo Frio ver os pinguins no canal, encostaria no Tia Maluca e tomaria uma bela e gelada cerveja – nesse frio faz bem.

Talvez, após a cerveja, fosse ao barbeiro cortar o cabelo.
Já passei do limite do ridículo.
Depois certamente iria ao podrão, perto da rodoviária, e pediria um X-Monstro. Seria uma boa.

Pra terminar a noite, seria só vagar por aí, perambular a pé.
Olhar as lojas, as pessoas, a praia e o mar.
Dando sorte, encontraria algum conhecido e, novamente, beberíamos umas cervejas. O assunto renderia piadas, indiscrições, fofocas e alguma coisa pra escrever.

Depois, iria na padaria comprar pão, queijo e presunto.
Poria no carro, o cheirinho me daria fome e iria de volta pra casa arrancando nacos daquele pão quentinho, esfarelando o chão do carro.
Rádio ligado, música boa.

Um passeio.
Uma pequena voltinha. Arejar.
Às vezes é tudo o que precisamos pra manter a sanidade mental e não pularmos da ponte.
E não é preciso ser rico pra fazer isso.

É só ser normal.

E ter uma vida digna.




Walter Biancardine



MARGEM DE ERRO

 
eu era a margem de erro
lembrado no inesperado
só visto no imprevisto
quebra galho

não havia mais ninguém
então era eu mesmo
pra arredondar

depois do incêndio
guardavam o extintor
tiravam aquele horror
da sala

um dia fui pro lixo
confesso até reclamei
mas depois eu notei
pararam de usar

mais honesto ignorar
que sorrir pra agradar

parabéns





Walter Biancardine




ALVURA


olhar o papel em branco me traz paz
o que já escrevi é só sujeira
amontoado de tormentos e queixas
papel higiênico da alma

olho o papel em branco
é como olhar um lençol limpo
estendido na cama pela amada
tudo pureza e amor

ainda que se manche tudo
que se molhe e lambuze o lençol
numa noite de amor

sempre será mais limpo e puro
que o papel imundo e escrito
com o que não mais cabia

em mim





Walter Biancardine



FOME


fome dá frio
fome dá dor de estômago
fome dá dor de cabeça
fome dá gosto ruim na boca
fome dá pressa
fome dá irritação
fome dá vontade de fumar
fome dá vontade de chorar
fome não deixa dormir
nem pensar

quem diz que passou fome
e não sabe disso
é só um mentiroso




Walter Biancardine





NEM PERGUNTO

 
O que seria de minha educação sem a hipocrisia?
Não foram poucas as vezes que, sentado sozinho no bar, sábado de manhã, chegou um inconveniente alegre demais.
Dana a perguntar coisas.
Como vou. O que tenho feito.
Que fim levou aquele carro que eu tinha.
Se estou trabalhando.
E aquela mulher.

O normal seria mandar tomar no cu.
Não é amizade. Nem gentileza.
É interrogatório pra fazer fofoca depois.
Eu sei e ele sabe que eu sei.
Então dou respostas mais vazias que a carteira dele.
E que a minha, claro.

O que seria de mim sem essa hipocrisia?
Esse mesmo sujeito, pé no saco, já me pagou bebida.
Me deu carona num dia ruim.
Até cedeu lugar na fila do banco.
Mas eu nunca quis saber nada dele.
Pouco me importa se ele levou chifre. Ou tem diarréia.
Ou se o chefe dele é um saco.
Nada disso me interessa.
Não pergunto.

Por isso me acham distante. 
Frio. 
Arrogante.
Parece que o certo é estar inteirado até de quantas vezes o sujeito vai ao banheiro por dia, e se lava as mãos ou não ao sair.

Pois que me deixem com minha frieza e arrogância.

Se eu souber dessas coisas de banheiro, nunca mais cumprimento. 




Walter Biancardine




NA PAZ DE DEUS

 
me sentei à beira do lago
buscando o clichê da paz
mas lembrei dos peixes
girinos e bichos estranhos
que se comem e se matam
sem parar

mas na superfície 
é tudo
paz

lembrei das fachadas de casas
que vi olhando de fora
gente brigando e apanhando
disputando e gritando
e se matando
dia e noite

mas olhando da rua
é tudo
paz

e viva a santidade
da natureza
e do lar




Walter Biancardine




BREAKING NEWS


jornalistas imitam cachorros
que de repente se alertam
latem e rosnam e correm
como fosse uma urgência
pra uma coisa que ninguém
viu ou vê ou verá

jornalistas fazem manchetes
anunciando o apocalipse
gritam e choram e clamam
como fosse novidade
uma coisa que se faz
desde os tempos das cavernas

jornais vivem do susto
jornais vivem do medo
jornais vivem de você
sofrendo e querendo
se esconder

o cachorro latiu
corra primeiro
pergunte depois




Walter Biancardine



TESTE VOCACIONAL

 
dia estranho
acordei e nada escrevi
vou tomar um café
e já volto

voltei
e o dia continua
diferente e bom
sem dor nem temor

tenho medo
sem ter sofrimento
quais os tormentos
porei no papel?

um poeta
que não sangra 
nem chora
talvez seja a hora

mudar de profissão




Walter Biancardine



GRATILUZ


sempre sorriem
vida parece perfeita
mas só eles sabem
o inferno que é

não me engano
essa vida de Instagram
encharca o tapete
nos banheiros que choram

o sono leve
da consciência pesada
voa à menor brisa
na cama dos culpados

a mentira não dorme
nem deixa dormir




Walter Biancardine



EM PEDRA, BRONZE E CARNE


um homem 
se sentou numa pedra
e pensou
o tempo passou
até hoje pensa

é o pensador

outro
se sentou num banco
versejou
o tempo passou
até hoje o lemos

é o poeta

já eu
caí no meio-fio
vomitei
a cerveja acabou
cheguei em casa

é uma vergonha





Walter Biancardine





quarta-feira, 15 de julho de 2026

LUZ AMARELA


as poucas luzes
das poucas casas
na roça

são mais urgentes
que a cegueira
urbana

uma só e amarela
aponta o caminho
dá a direção
reconforta

há gente ali
uma família
um socorro

e quando falta
mesmo olhos
acostumados
se afligem

parece que 
a pouca vida
se foi

noite sem lua
sem luz nas casas
agonia e medo
solidão
sem rumo




Walter Biancardine




PERFECCIONISTA

 


MAR GROSSO


Meu pai teve uma lancha tipo baleeira. Fina e longa, parecia uma agulha. Uns doze metros de comprimento e, no máximo, dois e pouquinho de largura. Afan era o nome. Nome feio.
Mas ela era bonita, costado muito baixo, cabinada, tinha um mastro e um belo timão, igual aos dos navios-pirata dos filmes.
.
Eu tinha medo dela. Por ser estreita, achava que iria emborcar na primeira onda que viesse. Mas gostava mesmo assim, e um dia meu pai me chamou para darmos um passeio até a Ilha da Âncora, em boa distância da costa de Cabo Frio.
Junto, embarcou seu amigo Dalton – conhecido como “o homem que jamais trabalhou um só dia na vida”, uma lenda nos bares e botequins da cidade.

A ida foi sem problemas. Vagas longas, altas mas mansas.
Fundeamos na costa da ilha, pescamos um pouco e notamos que o tempo começava a fechar.
Era levantar âncora e voltar.
Mas não percebemos a virada em tempo.

Tanto o céu quanto o mar ficaram cinzas. Um vento sudoeste forte começou a soprar e as ondas subiram.
Agora era mar grosso. Tivemos de abrir as janelas dianteiras para que não quebrassem com o impacto da água, e logo o convés encheu.
Bomba acionada, dava vazão.

Porta da cabine fechada, vedando a inundação. Motor à meia potência, aproado direto pro Forte São Mateus – ou ao que achávamos ser ele, no meio da neblina difusa de água e vento.

A cada onda que subíamos, a proa apontava pro céu. E cada descida era uma barrigada no cavado, uma pancada forte e seca que impedia ficarmos em pé.
E o vento soprava, uivava e eu pensando: se uma onda nos pega de lado, viramos e tudo se acaba.

Eu ainda não conhecia o mar.
E seguimos em frente, cortando as vagas à 45° e preocupados com o tempo, que só piorava.

Pior que o tempo, entretanto, foi o leme de nossa lancha. O cabo de aço que ligava o timão ao leme rompeu, e não era mais possível guiar o barco de dentro da cabine.

Dalton, o homem que jamais trabalhou na vida e era famoso nos botequins da cidade, se pendurou na popa do barco e, descalço, agarrou o leme com o dedão do pé. Agora tínhamos novamente controle.
Enquanto seus pés resistissem ou ele não caísse no mar.

Meu pai explicou: meia potência subindo as ondas, corta na descida. E foi o que fiz, enquanto ele também foi pra popa e enlaçou Dalton com uma corda – só pra garantir, pensei.

Essa agonia durou umas três horas.
Três horas da mais longa viagem de barco que eu já tivera, até então.

Por fim chegamos ao deck do Clube do Canal. Dalton ainda manobrando, eu no acelerador, meu pai jogando a corda pra amarrar.
E os pés do coitado viraram um amontoado de sangue.
Junto com suas costas, lanhadas como se tivesse sido chibateado, por conta da corda que o segurava.

A lancha que eu temia era a certa. Cortava o mar grosso como agulha, era só saber passar.
O cachaceiro que jamais trabalhara nos serviu de leme até atracarmos.
Na verdade, ele salvou a todos nós.
E eu, que nunca havia dirigido um carro, fiz minha parte no acelerador.

Os vidros não quebraram.
O convés não inundou.

O motor não morreu.





Walter Biancardine








FARINHA POUCA


quase todo psicólogo
não quer curar ninguém
mas a si mesmo

assim são os poetas
não querem ser 
compreendidos

só entender
achar algum sentido
em si mesmos

no fundo
todo mundo
quer colo




Walter Biancardine



À TOA

 
o mais ridículo da poesia
é se derramar todo
ficar nu e confessar 
o inconfessável
falar de dores e frustrações
e tudo de ruim
que nos rói por dentro

e depois de tudo isso
de toda essa nudez indecente
quase um exibicionismo
aparecer um qualquer
pra fazer pouco e rir
debochar e te julgar

dizer que sua dor é vulgar
o que você sente é pobre
é comum e nenhum valor tem
e que no fundo o que você faz
é chorar de barriga cheia

vá arrumar um emprego
rapaz

já comi uns pastéis
iguais a essa gente
sem recheio
gosto de nada

só casca




Walter Biancardine



NEGÓCIO DA CHINA

 
ser eu
é um negócio muito chato
nada pra fazer
dinheiro pra nada

fome na hora errada
sempre tarde da noite
fora a vontade
de comer uma coisa
que é sempre o que
não tem

é muito chato ser eu
quando quero beber
umas cervejas 
com os amigos
e os amigos
sumiram ou foram embora
ou morreram
ou me evitam
porque sou esquisito

esse eu
veio sem manual
e eu não sabia
dessa mania 
de querer
o que não posso ter
e até 
quem
não posso ter

mas o pior de ser eu
é que o prazo venceu
e não posso trocar
por um modelo melhor

vou passar adiante
vende-se
um eu
único dono




Walter Biancardine







BEST SELLER


a fome escolhe
as palavras certas
corações rasgados
as espalham no papel

desesperança poupa
linhas e vírgulas
e a insônia mistura
na loucura chique

a miséria
a dor
e o desalento

são autores 
bons só de longe



Walter Biancardine



NINHADA

 
A cachorra teve filhotes.
Me pego gastando tempo olhando os bichinhos.
Já tive muitos cachorros. Vi muitos filhotes. Sei o que fazem e como reagem. E sei quase tudo que vai acontecer.

Os vi de olhos fechados, sem nada perceber além da fome.
Vi seus primeiros passos, achando o próprio chão uma novidade.
Nas primeiras brincadeiras percebemos os temperamentos.
E as moças e rapazes em volta se encantam com eles.
E os levam.
Um a um.

Sei quase tudo que vai acontecer.
Tudo se repete, geração após geração.

Me pergunto se Deus também nos olha assim.

Seremos crias, destinos traçados?

Que minha dona cuide bem de mim.




Walter Biancardine




SONO LEVE


só percebemos a loucura
quando nos curamos dela
tal como
os olhos se acostumam
com o escuro e só
agradecem a luz
quando ela vem

não dormir é tortura
privação do sono
da razão
endoidamos aos poucos
sem nos darmos conta
até dormirmos
nos curando

depois seria correto
pedir perdão por tudo
mas se não dormi
foi a miséria
aplaudida
festejada
que causou

legítima defesa
não precisa
perdão




Walter Biancardine



MENOS UM DIA


tarde assim
eu viro o dia
como página de livro

a diferença
é nada ter lido
que valesse a pena

livro velho
folhas amarelas
páginas amassadas

ainda bem
algumas foram
jogadas fora no lixo

a capa puída
no entanto mostra
que foi lido e relido

mas nada aprendido




Walter Biancardine





terça-feira, 14 de julho de 2026

VERSO INFALÍVEL


basta uma noite
uma só noite
uma noite apenas
sem ela

e perco o norte
não leio estrelas
nem sinto o vento
me levar

fico aqui só
tentando escrever
poemas fatais
versos infalíveis

só sai merda

melhor nem dizer
ou escrever

fiz um verso
certamente não falha
bastaria ela ouvir
e correria de mim

tenho que calar
aprender a aguentar

contar as horas
os minutos

e os segundos




Walter Biancardine