Levar um pé na bunda é como bater
na traseira de um carro
quem bate nunca tem razão
quem leva o pé também não
na traseira de um carro
quem bate nunca tem razão
quem leva o pé também não
já levei tantos que perdi a conta
cada um me rendeu histórias
contos, poemas, bebedeiras
e a eterna sensação de estar errado
nem só mulheres dão um pé na bunda
empregos metem o pé, FGTS consola
amizades trocam pés na bunda
depois do silêncio crescer
mais que os assuntos
famílias chutam, solenes,
as bundas de seus velhos nos asilos
até cidades nos acertam o rabo
relógios, carteira, porta da rua
cada chute um verso
cada pé uma bebedeira
só porque sou humano
demasiadamente humano
mesmo ele, ensandecido
pensou algum dia que
finalmente, a vida lhe deu
um merecido pé
não precisou beber
Walter Biancardine

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