segunda-feira, 29 de setembro de 2025

TEM DIA QUE TÁ BRABO -


Sim, com este título capenga, mesmo.
Abro o Facebook agora pela manhã e, sabe-se lá por qual coincidência mórbida do destino, a eterna e infindável sequência de anúncios e sugestões de páginas para seguir só me mostraram mortes.

Da querida atriz e humorista Berta Loran - ao menos foi-se após uma longa vida de 99 anos - até uma moça, curada de câncer, e que seu próprio marido forjou um assalto para matá-la. No meio disso, um jovem e musculoso grandalhão sulista, de uns 34 anos, igualmente morreu após longa internação devido a um acidente de automóvel. O detalhe é que sua mulher, sua filha bebê e mais um casal de amigos, todos no carro, também morreram. E tudo isso me presenteia o Facebook, em um distópico "bom dia", certamente para me animar.

Na TV, o querido Pittoli cumpre sua obrigação e nos traz a quilométrica lista de absurdos, injustiças e perfídias cotidianas da política brasileira, positivamente confirmadas em rápida passada de olhos no X-Twitter. E se minhas esperanças no Brasil são, costumeiramente, próximas ao zero, neste momento acusam como abaixo do mesmo, negativas e mortas.

Inevitavelmente vollto os olhos para mim mesmo, em um gesto involuntário e misto de egoísmo e autoproteção, vendo apenas um velho, feio, pobre e reclamão que, desempregado, gasta seus dias a vociferar, solitário, vitupérios contra o que não pode combater. Minha longa prática em falar verdades inconvenientes fecharam-me as portas profissionais e também tem o condão de afastar quaisquer seres humanos que se aventurem a se aproximar - afinal, ninguém é de ferro e tudo sempre pode ser dito com menos crueza. E, ao fim e ao cabo, também em mim enxergo apenas essa tristeza de fim de festa, a decepção de não ter visto o melhor e a certeza que perdi a chance. Bem apropriado para meu começo de dia, recheado de mortes no Face e impossibilidades noticiadas na Auriverde Brasil.

Mas é hora de começar o dia. Tirar forças de algum lugar. Obrigar-me a crer e ter fé.

E se Deus é, para mim, inatingível, que eu creia haver, em algum lugar, um coração que bata por mim.

E só isso já será motivo para que eu, ao menos, tente.

Bom dia.


Walter Biancardine



sexta-feira, 19 de setembro de 2025

SEXTA-FEIRA: HOJE É DIA DE QUÊ?


Então, finalmente, chegou a sexta-feira.
Nem tiro o carro da vaga, porque o happy hour foi combinado no barzinho da Rua Farani, ao lado do meu trabalho - vou a pé mesmo e, lá chegando, já encontro uns dois ou três exauridos como eu (colarinho aberto, gravatas arregaçadas, paletó perdido algures), que já pedem aquela cerveja "canela de pedreiro".

Muita conversa fiada, gente maldizendo os gastos da mulher no cartão de crédito e outros - eu inclusive - plenos de más intenções, pois o Cajú (sim, aquele Cazuza do Barão) me arrumou meia dúzia de entradas pro show deles, no Noites Cariocas, Morro da Urca.

Findo o chope, rápida passada em casa para um banho - "mas que pressa é essa, meu filho? Não vai comer nada?", cobrava minha mãe, sempre mãe - experimento alguma roupa que me ponha semelhante a um ser humano e já me despeço, saudoso, da vaga que tanto custei arrumar para meu carro. O rumo? Antes das Noites, Baixo Leblon, claro!

Só o bom Deus saberá como cheguei às Noites Cariocas, sequer do bondinho me lembro. E tome show: muito rock pauleira, gritaria, garrafas rolando fígado a dentro e algumas substâncias condizentes com nossa idade inconsequente e irresponsável.

Arranja-se alguma incauta - provavelmente uma estudiosa de biologia, interessada em espécimes exóticos como eu - completa-se o nível alcoólico ao limite insuportável e, já dizia Lobão, "o riso corre fácil quando a grana corre solta": o rumo é o Mirante do Alto da Boa vista, motel gratuito entre então pouquíssimos frequentados trechos daquela estrada serrana, encravada entre a Tijuca e São Conrado.

O dia já está clareando quando aponto a frente do carro já na descida da Niemeyer, entrando na Delfim Moreira e planejando comer um "Levanta Lázaro" de fim de noite, no indefectível Cervantes, lá nas alturas da indecente Prado Júnior. Barriga cheia e energia já na reserva, deixo a gentil e caridosa senhorita na portaria de seu prédio, rumo para casa e, por sorte, encontro uma bela e acolhedora vaga bem em frente aonde moro.

E desabo na cama, de roupa e tudo.

No dia seguinte, acordo e vejo que estou aqui - 40 anos se passaram em uma só noite de esbórnia, e de minha protegida juventude em Copacabana, repentinamente me desperto um velho, tossindo e rangendo juntas, em uma casinha no Segundo Distrito de Cabo Frio.

A vida é assim: por vezes passa tão veloz que não temos reflexos rápidos o suficiente para desviar da pancada.

E a pancada é forte.

Lembranças, tal como sonhos, ainda são gratuitas.


Walter Biancardine



terça-feira, 16 de setembro de 2025

CONTAGEM REGRESSIVA -

 


Longe de mim ser, ou sequer parecer, ingrato aos generosos William Saliba (Carta de Notícias), Paulo Hasse (ContraCultura) ou Hermínio Naddeo e Maria Rosa (No Ponto do Fato), que me estenderam generosas mãos para me resgatarem do limbo e me levarem de volta à mídia, oferecendo-me espaços irrestritos em suas prestigiadas publicações para que, neles, cometesse meus desatinos. Não, isso nunca.

A verdade, entretanto, é que por questões de coerência e manutenção de um mínimo de qualidade ao oferecer algo ao leitor, mandou-me a prudência que renunciasse a tais honras – mais verdade ainda é o fato que se escreve com a cabeça, motivado pelo espírito (inspiração) e dispensando horas em retoques destinados às devidas clareza de expressão, ritmo da narrativa e, se possível, alguma musicalidade e compasso no texto – somados aos compromissos da pontualidade, dos prazos de entrega e da já citada qualidade, que jamais seriam cumpridos uma vez que vivo, agora, sob agonizante contagem regressiva, a qual pouca folga oferece para que me sinta à vontade em escrever.

Se tenho alguma tradição a manter é a de que jamais escondi meus sucessos e fracassos – até mesmo por comezinhas questões políticas locais, pois todos sabemos que a chantagem é usual neste meio. Assim, não seria agora que começaria a fazê-lo, esperando que o leitor, ao ler este relato, jamais o interprete como lamúria, vitimismo ou um cínico e disfarçado pedido de ajuda – não mesmo, até porque todos os pedidos que eu poderia fazer, já os gastei.

O fato é público e notório: não tenho emprego, ofereci um total de mais de 250 currículos mas a idade – somada às minhas notórias posições políticas – barraram quaisquer pretensões; de uma mesa de revisor ou copidesque ao balcão de lojas de ferragens, a negativa – ou pior, o silêncio – foi unânime.

Sim, tive bons momentos quando a generosa Doutora Professora PhD Miss Jay encantou-se com meus devaneios filosóficos e convidou-me para uma série de palestras – das quais auferi dinheiro suficiente para comprar meu pobre carro, iludido por boa fé no vendedor – e, em sequência, contratou-me como seu professor on-line de filosofia – e este é meu rendimento atual.

Não posso, entretanto, condená-la a ser minha aluna para todo o sempre. Findo este ano letivo, a mesma voltará para seu distante local de moradia, assumirá novos e importantes encargos e nosso contrato terminará – e, com este contrato, cessará também todo o resto: meu aluguel e a vida quase civilizada que consegui desfrutar por estas breves “férias”, após anos morando no meio do nada e cercado por bois e vacas.

Esta é a contagem regressiva, e também razão de não mais conseguir me comprometer com prazos ou mesmo qualidade daquilo que escrevo. Cada dia é menos um, no qual pude viver de maneira quase normal e, por mais que a vida tenha me endurecido (e o niilismo tenha feito com que eu beirasse o cinismo), confesso não mais ter forças suficientes para não me deixar afetar – sim, estou velho, 61 anos não são 61 dias.

Ao fim e ao cabo, resta-me a obrigação moral de dar alguma satisfação aos poucos abnegados que ainda gastam seu tempo e fosfato lendo meus devaneios, pois ao findar o mês de novembro, entregarei a casa, não mais terei meios de escrever e desconheço o que virá depois.

Nunca é demais repetir: este artigo é tão somente uma satisfação que dou aos leitores, jamais um sonso e disfarçado pedido de ajuda, pois nada é mais desprezível do que o vitimismo que tanto critico em minhas linhas, o qual sempre sobrevive e lucra – da forma mais abjeta – com a piedade alheia. Nada quero e nada peço, e isto resume tudo.

Minha moral com Deus é zero, jamais fui um bom rapaz e – com justiça – pouco posso ou devo esperar. Resta, ainda assim e por questões de sanidade mental, a confortável fuga de contar com a piedade Divina. Sim, quem sabe?

Se eu puder, estejam certos: voltarei a escrever. Se não, então será o rotineiro “tudo como dantes, no quartel de Abrantes” – nenhuma novidade que eu já não tenha experimentado.

Um grande abraço, querido e abnegado leitor.


Walter Biancardine



sexta-feira, 12 de setembro de 2025

EMPURRADO PELA VIDA -



Por mais previsível que fosse a farsa dantesca, encenada ontem no palco da Primeira Turma do STF, ainda assim os efeitos sobre mim ultrapassaram o que esperava.

Sim, era pública, notória e sabida a condenação de Jair Messias Bolsonaro à guilhotina suprema, mas confesso que – talvez pelo acúmulo de enorme sucessão de absurdos jurídicos, políticos e criminais nestes tristes dias – a sentença, lida e saboreada com gosto pelos canibais de notória ignorância jurídica, tenha desabado com tamanho peso em minha cabeça. Para piorar, o assassinato do jovem e conhecidíssimo ativista conservador norte-americano Charlie Kirk – acontecido simultaneamente – disparou um inevitável retrospecto mental, que concluiu estarmos sendo, nós conservadores, caçados e exterminados um por um.

Tivemos a garotinha escocesa – 12 anos – que defendeu a si e sua irmã com um machado contra agressores muçulmanos e foi presa por isso; a menina refugiada ucraniana, esfaqueada no Metrô; candidatos à Presidência da República conservadores mortos a tiros, atentados contra Donald Trump e o próprio esfaqueamento de Bolsonaro – e ainda somos tratados pela maldita e porca grande mídia como “extremistas” ou “radicais” da “extrema-direita”, tal como anunciaram a morte de Kirk, pai de duas filhas e com apenas 31 anos.

Em boa hora penso ter renunciado às mãos que se estenderam em meu caminho – Carta de Notícias, ContraCultura e No Ponto do Fato – eis que o comprometimento de escrever exige o compromisso da periodicidade, e eu teria sido obrigado a escrever e comentar – entre todas as barbáries anunciadas acima – ainda sobre este meticuloso esquartejamento do cadáver político de Bolsonaro, e eu não teria estômago para tanto.

Digno de nota é percebermos que a guerra contra nossos expoentes – alguns já atingidos e mortos, enquanto outros jazem, agora, moribundos – configuram baixas idênticas naqueles alistados em seus propósitos. E assim me sinto.

Tal como algum circunspecto senhor, em aventura amorosa frustrada, se põe a murmurar que “isso nunca me aconteceu antes”, assim me surpreendo com minha própria reação: tais trevas jamais se abateram antes, sobre mim.

Tenho décadas de jornalismo e de análises políticas, já me engajei em lutas inglórias nas quais tudo perdi mas, ainda assim, continuei escrevendo, analisando e comentando – mas neste momento, faltam-me forças. Creio que a dimensão mundial da luta que travamos me era, anteriormente, um tanto quanto vaga e difusa, algo que mais soava como argumento que constatação – mas agora vejo sangue por toda a parte. Sim, o inimigo hoje aparece claramente, sem vergonha de exibir seus chifres e cascos, pois que já se considera vitorioso e pode mostrar sua verdadeira face – e ele nos persegue, com desejo insaciável de extermínio, em qualquer lugar do mundo em que estejamos: Escócia, Estados Unidos, Brasil – pouco importa.

Assisto, com um misto de piedade pela inocência evidente e raiva por suspeita de má-fé, discursos de gente anunciando providências jurídicas contra o STF, ou até mesmo pretensões de anistia e outros tantos, sem perceber que não se luta contra demônios usando armas de anjos.

Também vejo o povo inerme – o qual me incluo – apático e omisso, apenas aguardando seus bovinos líderes políticos ou religiosos apontarem o melhor caminho para o matadouro, esquecendo-se que Moisés não teria libertado os judeus do Egito se obedecesse, passivo, as leis do Faraó.

Por sorte sou sozinho, não tenho ninguém a pedir-me um amor e atenção que se secou em mim; também não tenho amigos que venham me visitar, chamar ao telefone ou obrigar-me a sorrisos impossíveis; e mesmo a casa onde habito é o retrato do que se passa pela alma, com o chão estalando de sujeira e descaso ao caminhar por ele.

E as panelas e pratos, empilhados na pia, são o saldo negativo das derrotas acumuladas.

Nenhuma intenção de varrer, lavar ou mesmo escrever.

Este artigo foi um surto.


Walter Biancardine



sábado, 6 de setembro de 2025

GLORY DAYS -


Lembranças não são privilégios de vitoriosos em descanso.
Também são a agonia cotidiana de velhos fracassados, a revolver o solo seco dos dias presentes.
Todos as temos, uns mais e outros menos; uns relembram por saudosismo, outros por fuga.

Em qual curva da estrada os fracassados se desviaram do caminho? Ambos tiveram bons dias, dias de glória, felicidade e realizações - mas, para uns, tudo se desfez em um piscar de olhos.

Quais olhos poderosos piscaram assim, como sentença?

Talvez os meus próprios.

"Glory days
Well, they'll pass you by, glory days
In the wink of a young girl's eye, glory days" (Bruce Springsteen)


Walter Biancardine



GAVETAS VAZIAS -

 


Não há currículo que resista ao calendário: o mercado é um circo para adolescentes, exigindo corpos em forma, sorrisos falsos, gírias que envelhecem em uma semana e a inevitável postura lacradora. Eu, com meus excessivos anos empilhados, sou considerado um móvel pesado que ninguém quer carregar para o próximo apartamento. Preferem o plástico descartável, fácil de empurrar para o lixo; e por tantas e infrutíferas vezes que tentei, seria estupidez não concluir que estou fora do jogo.

Carrego o rótulo de “conservador” como se fosse lepra. Não importa se o que digo tem lógica ou se apenas repito o óbvio: se não concordo com as besteiras do momento, sou carimbado como intolerante, insuportável, contraproducente e até mesmo – palavra da moda – “tóxico”. Todos gritam “diversidade”, mas querem todos iguais, repetindo as mesmas frases de efeito. Eu, que já vivi mais do que eles suportariam, sei que nada disso é tolerância – é só mais uma forma de linchamento mas sem corda no pescoço, apenas com o silêncio, a separação, o cancelamento e o desemprego.

Amigos? Família? Tais palavras soam como piadas de mau gosto. A verdade é que ninguém suporta por muito tempo um homem que não serve mais para concordar com tudo o que dizem em reuniões sociais ou para pagar contas – por mais que neguem de maneira veemente. Aos poucos, percebi a coreografia: sorrisos diminuindo, telefonemas rareando, “sumiços” – pois estão sempre “muito ocupados” – até restar apenas o eco da própria voz.

Os mais próximos, aqueles em quem eu deveria confiar, descobriram que traição e egoismo rendem mais dividendos do que lealdade, inclusive satisfazendo invejas e recalques secretos e inconfessáveis. Sorriram enquanto mediam o quanto poderiam arrancar de mim, daquele que eu fui enquanto “potável” aos olhos alheios – hábitos, preferências, gostos, amores e até minha própria personalidade: tudo me foi tomado, copiado, invejado da forma mais vil e hoje não mais sei se tenho parentes ou clones, xerox ambulantes de quem, um dia, tive o atrevimento de ser.

Aprendi a dormir com a faca no estômago e a acordar fingindo que não sangro, apesar do deprimente espetáculo diário da traição familiar: ser enganado em negócios ou mesmo assistir parentes tomarem a mulher de outros parentes – tudo isso se tornou rotineiro, aceitável e normal, neste admirável mundo novo.

Restam-me dois irmãos e uma irmã – um deles, atolado nas próprias e pesadas obrigações, não pode estender a mão. Não culpo, compreendo: cada um carrega seu inferno particular e o dele é, por demais, difícil e penoso. Mas a solidão se torna ainda mais aguda quando a última presença confiável está ausente por obrigação, não por escolha. Digo “última” porque o outro já sofreu a mais cruel das traições: vive hoje interno em um asilo – ninguém quer um móvel velho e quebrado. Já a irmã, tão afastada, dissonante e dominada por filhos, apenas o sangue comum nos une.

Bukowski dizia que alguns nascem para carregar o peso e outros para cuspir no rosto de quem carrega. Schopenhauer lembrava que a vida oscila entre o tédio e a dor, e eu acrescentaria: na velhice, os dois se tornam vizinhos de quarto. Kierkegaard falava da desesperança como uma doença mortal e sinto que já fui diagnosticado há anos, só que sem atestado formal ou minha própria percepção do fato. Vivo, mas não estou vivo. Caminho, mas não vou a lugar algum. Muito mais fácil ser rotulado como “narcisista”, “egoísta” ou outras pérolas fáceis de digerir.

Não há nada heroico nisso. Jamais esperei reconhecimento, tampouco compaixão. Longe de mim esperar algo de alguém, pois estas linhas são apenas um desabafo que faço à única coisa que aceita, ainda, meus queixumes: o notebook. Apenas sigo, como um fantasma que arrasta correntes enferrujadas, sem que ninguém as escute além de mim.

A cada dia, todo maldito dia, sento diante do teclado pelo mais torpe dos vícios: escrever. Acendo um cigarro, abro a gaveta vazia de possibilidades, olho o nada acumulado e fecho de novo, sabendo que amanhã será idêntico.

Talvez um dia não precise mais fechar a gaveta.



Walter Biancardine




sexta-feira, 5 de setembro de 2025

ESTOU DE AVISO PRÉVIO -


Passei uma vida tentando escrever com algum estilo, ritmo e até buscando vaga musicalidade; considerava eu que tais caprichos ajudariam a tornar potáveis os devaneios que meus pensamentos, uma vez publicados e oferecidos aos leitores, carregavam. Mas agora tais cuidados me são psicologicamente inviáveis e peço perdão aos que venham, por ventura, ler estas mal-traçadas – não se trata de desonrar meu próprio passado, mas de impossibilidade pura e simples.

Vou direto ao assunto e título deste: considero-me em aviso prévio. O contrato estabelecido, entre mim e a generosa pós-PhD para ministrar-lhe aulas de filosofia, encerra-se nesta virada de novembro para dezembro. Na realidade, o mesmo teria sido cumprido em março deste ano mas, generosa e atendendo meus pedidos, esta mesma doutora concordou em prorrogar este compromisso até dezembro, data em que voltará para seu Estado.

Meu pedido de prorrogação tinha como base o aluguel da casa onde moro, que terminará na mesma data e, deste modo, poderei honrá-lo até seu término. E a partir daí, amigo leitor, não tenho a menor ideia do que farei e, sendo franco, a exaustão me leva a pouco me importar.

Tal prostração se deve – quem acompanha meus escritos bem o sabe – a todo meu recente (e longo) passado de penúrias, privações e sofrimento absolutamente solitário, afinal foram anos morando de favor em uma cabana no meio de um pasto e tendo por companhia apenas bois, vacas, um cachorro e outros animais menos recomendáveis. E isso me exauriu muito mais do que eu próprio poderia imaginar, descobrindo só agora a completa falta de forças que me abate – ou, seja lá como for, o fato de também estar farto de tanto nada, tanta falta de perspectivas e caminhos.

Sim, Deus sabe que tentei. Deus também sabe que até mesmo me deixei iludir, crendo em portas abertas para retomada de minha carreira e acreditando que seria inclusive – pasmem – remunerado por isso. Mas não, nunca o fui. Todo meu salário se originava das aulas de filosofia, nenhuma promessa se concretizou e, ainda por cima, cometi a suprema asneira de confiar em parente próximo para comprar um carro – estupidez que me sangrou o nenhum orçamento que tinha, destruiu o resto de fé na família que insistia eu em manter e que, hoje, levou tal pesadelo sobre quatro rodas à venda – o que me oferecerem, aceito.

Resumindo tudo, apenas declaro que não tenho mais forças. Aliás, se falta-me esperança para enxergar algum futuro para mim, muito mais necessito para manter-me em pé, lutando por meus ideais e pelo Brasil. E por isso, superiormente por impossibilidade psicológica que por decisão racional, vejo que é hora de parar de escrever. Aliás, não só de parar com a escrita mas, igualmente, dar por encerrada esta derradeira tentativa de voltar a ser um indivíduo normal, com uma vida normal, problemas normais, vitórias igualmente normais e até um fim de vida normal.

Não, tal privilégio me foi negado – não por Deus, mas por consequência de meus próprios desatinos ao longo da vida. E por isso, não posso reclamar de nada; toda a intenção deste artigo é apenas informar ao leitor sobre estar eu deixando as páginas do Carta de Notícias, do ContraCultura e do No Ponto do Fato – pois não se escreve com os dedos mas, sim, com a cabeça e espírito, ambos os quais não mais os tenho em condições. Quanto à TVD News, infelizmente foi a possibilidade que acreditei mas não se cumpriu, o que é uma pena.

Não vejo mais como honrar os compromissos de dias especificados para a publicação de artigos em uma ou outra revista e, muito menos, como escrever curvado sob um tema que, hoje, já não me importa. Enquanto meu contrato de aluguel estiver vigente – o mesmo se encerra na virada de novembro para dezembro, como já disse – eventualmente escreverei nesta minha página pessoal, no Facebook, Twitter ou até LinkedIn, mas sem me importar mais com periodicidade ou temas. Apenas rabiscarei sobre o que eu quiser, e quando tiver vontade.

Pouco me importa, também, ser chamado de covarde por abandonar a luta pelo meu país ou, pior, desistir de meus caminhos: fui constantemente chamado - ou julgado como - coisa muito pior por leitores, amigos, pessoas próximas, familiares e até ex-mulheres, e tal adjetivo soa-me quase um eufemismo elogioso. Nem de longe meu ego, que sobrevive por aparelhos (tal como este aparelho chamado notebook, com o qual escrevo), sentirá qualquer incômodo por isso, uma vez que ainda posso afagá-lo pelos meios usuais - como seja, escrevendo meus vaidosos artigos.

Mas, em breve, não terei mais laptop e, muito menos, de onde escrever.

O quê farei após o término de meu aluguel?

Esta é a pergunta de um milhão de dólares: não sei e, francamente, pouco me importa.

Foi bom enquanto durou.



Walter Biancardine



quinta-feira, 4 de setembro de 2025

TEMPO, TEMPO, TEMPO…

 


Por vezes penso na vida como uma rodovia, na qual trafegamos ao longo de nossa existência, com o tempo vindo na direção contrária pela outra pista. Na juventude o vemos de frente, vindo para nós com uma bela fachada sugerindo sonhos e promessas, realizações e conquistas.

Ao nos tornarmos adultos é o momento em que cruzamos na pista, nós seguindo em um sentido e o tempo em outro, mas nos perdemos tentando controlar o carro em meio ao turbilhão de ventos, barulhos, fumaças e a inevitável fuligem, que cega nossos olhos e os fazem lacrimejar.

A velhice chega quando este cruzamento já se deu e vemos o tempo pelas costas, se afastando, cada vez mais distante, menos barulhento – e nesta imagem se resume a vida de alguém feliz. É o momento de aproveitar o que nos resta de estrada, sentir seus cheiros, apreciar suas curvas e a bela paisagem em volta. Mas, como disse, tal se dá apenas com os felizes, os bem-resolvidos, aqueles que venceram.

Para alguns, como eu, a coisa desenrola de modo diferente. Após o turbilhão do cruzamento, percebi que meu carro acabou a gasolina e tive de encostá-lo no acostamento. Olhei para trás e vi o tempo – um enorme, poeirento e sinistro caminhão – igualmente estacionando, mantendo o motor ligado e sem nada dizer ou mostrar.

Pessoas como eu não conseguem deixar de escutar o motor deste bruto, murmurando ameaçador, em marcha lenta, a responder coisas que jamais tive a coragem – ou a perspicácia – de perguntar. A lufada de vento de seu deslocamento não pára, inexplicavelmente. Permanece jogando poeira em meus olhos, fazendo meu corpo balançar – um passado que nunca acaba, jamais fica para trás.

É como se fosse um caminhão mal-assombrado, povoado pelos fantasmas de meu passado que se recusaram a seguir estrada e resolveram ali parar, para me infernizar. Lembranças, arrependimentos, culpas – tudo ressurge, tudo reaparece, tudo renasce e re-machuca.

Amaldiçoo a vida, meu destino, mas lembro que a culpa sempre será minha: tive todas as chances de abastecer meu carro, de prepará-lo para a viagem, mas dispensei em minha imprudência e arrogância.

Agora, resta-me a sentença de permanecer ali, enguiçado e sendo obrigado a assistir a maratona de fantasmas que tal e sinistro caminhão jamais desistirá de me esfregar na cara.

Passei por todos os postos de gasolina, tive todas as chances e oportunidades, mas não parei em nenhum.

Agora é ficar aqui, até que a noite inevitável chegue e leve tudo embora.

Será um alívio.



Walter Biancardine