quarta-feira, 1 de julho de 2026

SEM ARMÁRIO

 


Escrever com sono. Com fome. Dor de cabeça. Sem cigarros ou dinheiro pra nada. Nem mesmo uma Aspirina.
Olho a mesa. Não tenho armário pra guardar comida.
Sem comida nem fogão ou geladeira, pra quê armário?
Roupas na cadeira – ocupam duas cadeirinhas de plástico – seguem a mesma ideia: por que me preocupar onde deixar uma só muda de roupa?
A calça é a mesma. Nem sei há quanto tempo. Podre de suja.
Aliás, eu estou igual.
A água aqui é um fio. Mal lava os olhos.
Mas tenho um notebook. O celular faz a internet.
Escrevo. Mas preferia estar bêbado. Escreveria melhor e sem pensar.
Não penso nem tenho dinheiro.
Escrevo mal por vergonha, mesmo.
Ninguém aqui.
Hoje, por milagre, veio um amigo. 
Mas ele já foi. Ficaram os cachorros. E os cavalos.
E eu voltei aqui, sentei e escrevo agora.
Tenho sono. Muito sono. 
Dormir é bom.
A fome passa, economizo cigarros e me poupo do vexame que minha compulsão em escrever me traz todos os dias.
Como se eu fosse um maníaco que precisasse sair nu nas ruas todas as horas.
Faz muita falta não ter nada a esperar.
Esperança ocupa tempo e cabeça. E coração.
Se nada esperamos, parece que morremos.
E se penso em morrer, lembro do sono.
Dormir é morte provisória.
Funciona às vezes.
Pior que a nudez da escrita, que a fome ou ninguém à volta, é acordar.
Acordo. Olho pros meus pés no chão.
Respiro fundo, e vem a oração de sempre:
- Puta que pariu… que merda…
O Senhor seja louvado.
Eu acho.


Walter Biancardine


OS BENEFÍCIOS DA SARDINHA EM LATA

 


Fui comprar comida
queria comer peixe
vi merluzas lindas
mas dá muito trabalho

olhei na prateleira
sardinhas em lata
muito mais prático
e barato também

só abrir e amassar
com maionese
tenho uma pasta
deliciosa e econômica

o objetivo final
era encher minha barriga
e consegui

igual ao dono da empresa
tirando você da lata
do sistema de ensino

você fica mais macio
é muito mais barato
e enche a barriga igual

as merluzas ocupam
diretoria e presidência




Walter Biancardine



CHEIRO DE RUA

 


Cedo ou tarde, quem escreve se dá conta que sua vida é bipolar.
Em um dos polos gasta dias, semanas e até mesmo alguns meses enfurnado em casa, feito um obcecado, desenterrando memórias ou ocupando paredes inteiras da vida com intermináveis equações, tentando explicar de maneira cinematográfica tudo o que se quer dizer.

Escreve o que lembra, o que viu, o que viveu, o que concluiu e – principalmente – páginas e páginas de uma enorme mentira que costura tudo isso, a qual batiza com o nome de “criação”.

O outro polo é a vida real – e, cá pra nós, quanto pior ou mais absurda for, melhor pra ele caso tenha talento.

Sim, é preciso talento para colorir manhãs de estômago vazio em uma conversa que conte, não chore. Há que se ter algum dom para fazer alguém entender o que é pensar no amanhã e concluir que o mesmo não existe – sem esperanças, planos, nada. É, de fato, missão quase impossível provocar a empatia de outros falando de misérias íntimas, de rejeição, de discriminação, incompreensão ou simplesmente repúdio. 

Não ter dinheiro pro almoço, não ter com quem conversar, contar quantos cigarros ainda restam no maço pra ver se duram até amanhã – ele se sai melhor ou pior na medida de seu talento ou da compreensão de quem o lê.

Existe, porém, um atalho que não costuma falhar e, por isso, tantos poetas e escritores acabam tomando: falar de amor. É a vaselina da empatia: facilita a entrada, cria a ressonância e gememos juntos; a dor de corno é universal. Funciona e, por isso, sempre é usada.

Seja um amor que se foi ou outro que nos ignora, essa agonia é soberana. E por isso domina o cancioneiro popular, os versos nas páginas de literatura ou mesmo as figurinhas vendidas em lojas – os mais velhos se lembrarão dos infalíveis bonequinhos “Amar é…” 

Também escrevo sobre o amor. Mas não como tábua de salvação do náufrago e, sim, como válvula de escape – dor faz pressão; ou escrevo ou explodo, simples assim. Mas este tema não domina minhas linhas. Navego melhor por botequins, acostamentos de estrada, ônibus lotados, calçadas sujas, empregos calcinantes.
E enquanto amores infinitos explodem nos poemas alheios, a hipocrisia e a imundície que escondemos vazam de cada linha que escrevo.
Não tenho a menor vergonha disso. 
Apenas um vício de jornalista: relato o que vejo.

Talvez por isso eu não seja benquisto. 
Não seja lido. 
Não seja citado.

Ninguém fala de calçadas sujas na hora do almoço. 
Ninguém cita o cheiro de esgoto em um papo no bar. 
Não porque não exista.

Mas porque conhecê-lo já seria uma confissão.




Walter Biancardine



LEMBRO DE GENTE E DE COISAS

 


grades feitas imperfeitas
de defeitos que me prendem
e lembranças que me soltam

os rostos lisos e sorrisos
amarelaram, apagaram, se foram
outros ainda enferrujam aqui
não sei

o que fiz vem à cabeça
o que não fiz ainda me dói
renderam sonhos acordados
e delírios apagados

e depois do horizonte
o passado sempre chama
a alma voa com as lembranças
o corpo fica com os erros

defeitos que me prendem
erros bons de cometer
liberdade condicional

memória e retratos
são janelas da cela




Walter Biancardine