terça-feira, 31 de dezembro de 2024

31 DE JANEIRO DE 2024: O SOFRIMENTO ACABOU?


Parece que 2024, ao menos aqui na região, quis se despedir com sol - sol não, um maçarico bico 8 na vertical, torrando tudo e todos que ousem se expor.

Se ontem relatei, com raiva, o festival de gente atafulhando-se nas estradas, chafurdando no barro, bebendo cerveja até azedar e ouvindo pancadões, hoje meu desgosto atingiu o paroxismo: sim, o verão faz o brasileiro entrar no cio e o sol propicia a busca de semelhantes para acasalar.

Mas o desejo procriatório de tais espécies me irrita? Não exatamente, o que me tira do sério são seus rituais e danças de acasalamento.

"Senta, senta, senta, senta, senta" repetidos, como inspirado refrão, 948 vezes ao longo da música - minto, dos guinchos gravados que clamam por fêmeas - acompanhados sempre de um baixo sintético, cuja potência nos sons graves sempre desmonta peças e partes da lataria dos carros nos quais são instalados, e tocados em um volume que julgo ser possível ouví-los de Piracicaba - SP, isso sim é o que me irrita.

Mas está sol, é virada de ano e não só jovens nóias dedicam-se à busca do acasalamento: circunspectos adultos - em seus eternos uniformes de bermudas cargo, camisa sem mangas e sandálias Havaianas - também se dedicam, discretamente, a sacudirem suas enormes barrigas e insinuarem que "estão na pista pra negócio". Por óbvio que tais "amadurecidos" anseiam por uma "novinha", que os faça abandonar seu casamento de 20 anos, comprar um carro novo (velho), óculos escuros, correntes prateadas e desfilar nas melhores ruas de chão das redondezas exibindo a ambos - a novinha e os velhinhos (carro e motorista).

É tiro e queda, pois em questão de minutos - principalmente se um nóia der sobregiro em sua potente CG125 e fizer o escape dar tiros - legiões de periguetes se aproximarão, na intenção de escolherem quem de pior puderem encontrar. Sim, sempre o pior, ou não terão como engravidar, fazer os pais construírem um puxadinho pra ela, o nóia meter o pé no mundo e ela poder viver sozinha e sair quando quiser, dando pra quem quiser. Ah, claro: as pensões alimentícias se acumulam e ajudam muito no orçamento. Aliás, são o único orçamento.

Tais rituais de acasalamento, sempre aumentados no verão e carnaval, são reproduzidos desde a grande mutação genética do brasileiro, ocorrida em meados da virada dos anos 70 para os 80, do século passado, quando o cromossomo VNC (Vergonha Na Cara) evoluiu para as variantes TNA (Tô Nem Aí) e QSF (Que Se F*), dando origem a toda essa nova espécie.

É certo que a mutação não se deu, ainda, por completo pois muitos pais e mães de família ainda votam em Bolsonaro, aplaudem o mito, frequentam até mesmo igrejas e anseiam por um Lula na cadeia.

Mas sempre terão uma filha, galinha e grávida, a exigir o tal puxadinho e um filho nóia, que trabalha no nobre ofício de "vapor", para "aqueles minino" alí de baixo.

Assim, o Brasil cumpre sua sina de deixar entrar e sair os anos, sem que nada mude ou melhore na qualidade da população que o habita. O país pode até mudar, mas o povo, jamais.

Não perca tempo desejando entregar um mundo melhor para seus filhos.

Crie vergonha na cara e entregue filhos melhores ao mundo.



Walter Biancardine



domingo, 29 de dezembro de 2024

A ROTINA DO BRILHO -


Todo aquele que trabalha ou pratica atividades sujeitas ao julgamento do público já se deu conta - e cuidadosamente "esqueceu" de comentar - que é impossível ser "brilhante" todos os dias.

Artistas, escritores, atletas ou mesmo advogados (submetidos à julgamentos muito mais fatais) sabem perfeitamente quando apresentam um desempenho fantástico, que arranque aplausos de admiração, e quando arrastam-se em meio à mediocridade de ideias, cabeça vazia e árida de inspiração. Sim, naquele dia específico, o cidadão "não estava bem" e ponto, assim é a vida.

O problema é a avaliação e cobrança daqueles que nos assistem ou mesmo lêem: é uma cobrança, ao fim das contas, até justa pois vendemo-nos como um "produto para consumo", e o comprador não aceita pagar mais por menos.

O tempo de labuta e a experiência, entretanto, acabam por nos fornecer algumas saídas - gambiarras, é a verdade - das quais podemos nos valer, em tais e secos momentos.

No meu caso, como escritor, jornalista e aprendiz estagiário "trainee" na filosofia, também desenvolvi meus próprios macetes: em tais dias, busco textos antigos e os refaço ou mesmo misturo dois ou mais artigos pretéritos; recorto trechos dos mesmos e os compilo em forma de "reflexões" e rezo para que ninguém note aquilo que eu mesmo considero quase uma fraude - nada pior que um elevado padrão de qualidade, auto-imposto.

Mas é quando adentro na seara filosófica que a coisa se torna pior pois, para mim, o filosofar é quase oriundo de uma "inspiração"; como se fosse eu um poeta e vagasse em busca das musas, que me elevariam às alturas necessárias para a composição de minhas - no caso - teses.

Aprendi, com meu professor Olavo de Carvalho, a filosofar para minha própria salvação e sobrevivência. Mas, a bem da verdade, não são todos os dias que estou disposto a salvar-me. Assim, posso assumir a obrigação de escrever artigos e crônicas diárias e, neles, me sairei melhor ou pior segundo as vicissitudes que já mencionei.

Mas, para este pobre e porco aprendiz de filósofo, não há como filosofar 365 dias por ano. Nem mesmo pela salvação de meu espírito e psique - e talvez, por isso, eu seja o que sou.

Esta confissão profissional é uma dívida que tento pagar aos meus escassos leitores que, certamente, já se deram conta da montanha-russa contida na qualidade de meus escritos.

Com tal obrigação moral cumprida, sinto-me mais à vontade para seguir em frente, pedindo a Deus - e às musas também - que iluminem as trevas que em mim habitam, para continuar produzindo artigos e teses - vá lá - que sejam úteis e acrescentem alguma coisa aos caridosos que ainda gastam seu tempo comigo.

Um feliz e inspirado 2025 para todos nós!



Walter Biancardine




sábado, 28 de dezembro de 2024

COMO FOI SEU 2024? COMO SERÁ SEU 2025?


Livre arbítrio é tudo aquilo que planejamos, prometemos ou idealizamos, principalmente nestas vésperas de Révéillon: novo emprego, dietas, novos amores e por aí vai.

Nos sentimos poderosos, donos de nossos próprios narizes, firmes e determinados no novo ano que inicia - mas, por via das dúvidas, pulamos sete ondas, usamos branco ou amarelo e pedimos a Deus que tudo se realize. E isto configura nosso livre arbítrio e o novo 2025.

Determinismo - o velho e cruel destino - encarna-se, nestes dias, no terrível 2024 que passamos. Sonhos e casamentos desfeitos, empregos perdidos, saldos bancários hemorrágicos e toda uma série de desgraças que, conformados, suspiramos: "era o destino, mesmo".

Do triunfante livre arbítrio ao desconsolado determinismo, onde ficamos? O quê escolhemos?

Pedir a Deus um bom novo ano? Mas não temos livre arbítrio?

Esconjurar um 2024 maldito, cuja força do destino sobrepujou nossas mais fervorosas orações?

E nossas vitórias no ano que agora finda? Não temos mérito? Foi apenas o destino?

O que escolher? Deus, livre arbítrio, determinismo ou os três juntos?

Pois esta é a maior "pegadinha" filosófica já lançada, e que incontáveis pensadores insistem em cair.

Como a mesma não tem solução lógica, tranque-se no banheiro e reflita quando puder.



Walter Biancardine



quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

FELIZ NATAL E UM PRÓSPERO 1957!

 



Abundam no YouTube canais como este acima, principalmente em épocas natalinas.

Em ousados sonhos, mesclam estilos e lembranças de um passado seguro, acolhedor, com elementos futuríscos exatamente ao estilo dos antigos filmes de ficção científica dos anos 50/60.

Como não notar os enormes automóveis rabos-de-peixe? Os eletrodomésticos e utensílios de cozinha que nós, os mais velhos, assistiamos nossas mães servirem-se? A maneira de se vestir nestes vídeos, tanto de homens quanto mulheres, nos chuta violentamente ao glamour de um passado em que sonhávamos ser logo adultos e poder, finalmente, adentrar aquele fantástico mundo dos adultos.

Tais filmes nos esfregam na cara o charme, a sofisticação e a sensação de segurança e acolhimento do passado - e isso não significa riqueza, mas hábitos e pessoas decentes.

Fácil é concluir que vivemos em uma sociedade esquizofrênica, onde a grande maioria de nós anseia retornar ao "way-of-life" de anos passados, mas a grande mídia e a cultura de massa nos violentam - diuturna e incansavelmente - à promiscuidade holocáustica, suja, escura, dos escombros de uma civilização que eles, e só eles, rejeitam.

Temo a reação do leitor ao afirmar que o mundo precisa, realmente, de uma guerra - uma grande, devastadora e apocalíptica guerra que nos faça reerguer, das sobras de um mundo podre e destruído por tais tarados ideológicos, como um novo e lindo lugar para se viver, com valores e princípios regendo a vida que realmente queremos.

O ambiente nos contamina, a grande mídia e a cultura de massa dão o toque final.

Havemos, pois, que impor o que, de fato, queremos.

Tenham um bom Natal ouvindo discos em suas vitrolas, tirando os presentes das crianças da mala de seus rabos-de-peixe e presenteando suas esposas com gracioso colar de pérolas, enquanto ela ajeita sua gravata e oferece-lhe um vinho.

Tal como um dia foi.

Feliz Natal e próspero 1957!


Walter Biancardine






segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

TIC-TAC


O papel é meu melhor amigo: com ele desabafo, conto meus medos, fracassos, vitórias e até alguns planos. Nele também deposito minhas neuras, tornando-o diplomado na nobre terapêutica dos malucos sem fundos suficientes para um analista de carne e osso.

E é hora da terapia, já que a angústia pré-natalina se apossou do meu ser, fazendo com que eu deseje adiantar o relógio - bem como o calendário - para meados de janeiro, ao menos.

Não, não quero saber de sinos badalando, árvores de Natal - até porque não tenho nenhuma - renas ou mesmo presentes, que só um amigo muito oculto (tão oculto que sequer conseguiria vê-lo por perto) traria para mim.

Do mesmo modo o Ano-Novo, atualmente, me repugna: mais um ano que se vai, menos um ano que tenho de vida - comemorar o quê?

Os finais de ano se transformaram, para mim, em dolorosa expectativa de uma aniquiladora explosão de lembranças, coisas mal-resolvidas, obrigação em ser gentil e sinto-me, na verdade, como se estivesse acorrentado a frente de uma bomba-relógio, que tudo destruirá na sequência de três detonações fatais: Natal, Ano Novo e aniversário - e eis a tríade do terror.

Desejo a todos um Feliz Natal e próspero Ano Novo, mas não os quero. Na realidade, sequer desejo o verão - a sempre suarenta e superpovoada estação de alucinados, cumprindo suas obrigações de gritarem e mostrarem ao mundo como são felizes e ricos.

O que quero é a paz do inverno, e seu frio que acorda minha alma.

Cobertores, café quente e livros são coisas que só podem ser verdadeiramente desfrutadas à sós, e sob temperaturas glaciais.

Suar é para adolescentes, e a introspecção trazida pela solidão exige o frio.

Anseio pelas águas de março, fechando o verão.


Walter Biancardine



domingo, 22 de dezembro de 2024

KEEP ON BURNING...



"Keep boiling", they say...
"Keep on burning", they say...
I'm trying...
I swear I'm trying...
But the past turn off my fire.

Walter Biancardine



SE FECHAR OS OLHOS, O NATAL PASSA MAIS RÁPIDO?



O glorioso dia do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo tem, para minhas empedernidas lembranças de infância, somente o gosto de casa cheia, mesa farta e presentes - previamente suplicados durante o ano inteiro.

Nenhuma criança imagina-se já velho, nenhum adolescente especula como será sua ceia aos sessenta anos e todo jovem crê-se imune à solidão - eu, inclusive.

Pois eis que é chegada a hora; olho em volta e nada ou ninguém vejo. Impossibilitado momentaneamente de ver meu filho - novamente uma calamidade imperdoável - sigo derivando e relembrando os antigos natais de infância. E é aí que o bicho pega.

Refugio-me vivendo uma ceia virtual, de hologramas da memória, pois as árvores que me cercavam e davam sua sombra se foram, todas.

Natal é família; pais, filhos e netos reunidos, e nada sobrou da minha.

Natal é hora de rever amigos, brindar com eles e não tenho mais nenhum.

Natal é hora do suave vinho com a amada, e sou só.

Talvez fechando os olhos passe mais rápido, e eu só acorde em 2025.

Feliz Natal para quem tem o privilégio e o tormento de ter uma família - bebam um Jack Daniel's por mim!


Walter Biancardine