sábado, 30 de agosto de 2025

A IDA DOS ÚLTIMOS: Luís Fernando Veríssimo (1936 - 30 de Agosto de 2025)

Foto divulgada pela outrora gloriosa Academia Brasileira de Letras

Agosto, o eterno mês do desgosto, jamais passa impune. Levou-nos agora Veríssimo, o filho Luís Fernando - sim, aquele que a gente lia suas crônicas na última página da Revista de Domingo, do Jornal do Brasil.

Não esconderei a enorme influência que ele teve não apenas em meu vício por crônicas mas, igualmente, por haver eu já imitado alguns temas insólitos que o mesmo explorou em seus escritos, plagiando-o: certa feita redigi um conto inteiro com auxílio de um velhíssimo dicionário luso-brasileiro, de 1949, chamado "Lello Universal", do qual retirei palavras vetustas e castiças e usando-as guiado, exclusivamente, pelo seu som tal qual ele já o fizera, uma vez. A depender do que soava, usava-a como denotativo de algo que se passava na história. Qual outra explicação para escrever que "o Rei, debochado, olhava seus súditos enquanto coçava seu estrôncio"?

Estrôncio é um elemento químico e a química literária brasileira se empobrece cada vez mais, com a partida de escritores que - pasmem - sabiam escrever e, não apenas, sabiam também como construir narrativas, embalar o leitor e conduzí-lo em seu mundo imaginativo.

Ilustro esta humilde condolência me valendo de imagem divulgada pela Academia Brasileira de Letras - outrora gloriosa instituição, que abrigou nomes como os de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Rachel de Queiroz e Guimarães Rosa, mas que hoje perde-se em mesuras e floreios demagógicos, nomeando excrescências como Fernanda Montenegro e até uma Míriam Leitão - para deixar minhas sinceras condolências à família de Veríssimo e, também, a todos os brasileiros.

Um país no qual escritores morrem de fome e um Twitter é considerado "textão", não pode ser levado a sério.


Walter Biancardine



segunda-feira, 25 de agosto de 2025

FALANDO SOZINHO -


Que o amigo leitor me perdoe, mas começo a segunda-feira já virado no Jiraya. Acordo, tomo café, vejo o que se passa no Brasil e no mundo, sento para escrever e só aí percebo: escrever para quê? Para quem? Tecer criticas? Não passa de uma reclamação, e quem reclama quer providências - de quem? Fazer análises políticas soa mais chique, mas para quem ler e fazer o quê com isso? Metade não entende e a outra metade odeia. Ensaios filosóficos? Só se for para mim mesmo, por minha própria salvação, pois em um país em que se acha um Twitter longo demais, é perda de tempo tentar ser mais profundo que um pires.

E só então me dou conta que me comporto como um prisoneiro de um vício - a compulsão de escrever, relatar, analisar, e que termina por não interessar a ninguém pois bom mesmo é saber se o Vasco foi rebaixado de novo. O viciado sabe que só se lasca, ao satisfazer sua gana. Mas segue mesmo assim, pois é um vício - destrutivo, maligno, que afasta amigos, parentes, destrói relacionamentos e nos marca como leprosos ao convívio humano. Mas é preciso escrever.

Faço isso há décadas, e me sinto tal qual aquele antigo meme da velhinha viciada na marofa, que alega fumar há 40 anos e até hoje não se viciou. O quê consegui escrevendo? Abrir os olhos de alguém? Conscientizar inocentes que estavam sendo usados? Mostrar que nem sempre o novo, o moderno, é bom e que temos milênios de uma tradição mais que provada à nossa disposição? Não, ninguém mudou por minha causa - se em algum momento leram o que escrevo ou viram meus antigos vídeos, foi muito mais para ver suas próprias opiniões saindo de minha caneta ou boca, do que para aprender algo.

Também escreví livros. Best sellers? Longe disso: o que ganhei com eles deu para comprar dez pãezinhos e duas mariolas. Meu canal no YouTube, que ainda me rendia o suficiente para ajudar no supermercado - embora não tenha aberto o pensamento de ninguém - foi desmonetizado e me roubaram 28 vídeos; calado para sempre, em suma.

E é neste momento que penso: para quê? Para quê, meu Deus?

Certamente aparecerão amigos gentis que dirão para eu continuar, que o que faço ajuda as pessoas, que é uma missão ou até mesmo - ninguém é perfeito - que gostam muito do meu estilo de escrever. Agradeço, mas o Brasil continua o mesmo e nada mudou.

Então, por quê diabos continuo insistindo em escrever?

Ao fim e ao cabo, talvez seja pelo mais reles e vil dos motivos: pelo meu ego. Por me sentir importante ao ver meu nome estampado em publicações do Brasil e da Europa, ou na capa de meus livros - vaidade, pura vaidade em uma insana masturbação ególatra. Sei que nada causo, nada mudo, nada ajudo - aliás, nem eu nem ninguém, pois a muralha da omissão do brasileiro é intransponível - mas insisto, apenas pelo prazer solitário que, depois de velho, transferiu-se do banheiro para meu escritório. E exclamo, orgulhoso: "Eis meu nome impresso! E consegui X visualizações!" Sim, muitos visualizaram e... o que aconteceu? Nada. Sequer comentários. O silêncio ensurdecedor da indiferença.

Isso significa que vou parar, dar um basta nisso tudo e mudar de vida?

Tarde demais. Não há como mudar de vida já em sua reta final, aos 61 anos. Continuarei escrevendo, dando as pequenas e ilusórias alegrias ao meu ego, mentindo para mim mesmo e fingindo que ajudo em algo, pois escrever é a única coisa que sei fazer - todas as minhas outras habilidades ficaram para trás, pois estou velho demais para isso.

E é neste estado de espírito que começo minha semana, buscando desesperadamente aquelas postagens de motivação e autoajuda que muita gente gosta de publicar - e que, aprendi, são muito mais para motivar a si mesmo que aos outros - para tentar me animar para mais sete dias de espancamento de um sistema assassino e narcotraficante.

Com toda a doçura do coração, digo: boa semana a todos!


Walter Biancardine 


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

O CALOR EMBURRECE -


A temperatura cai e o brasileiro, forasteiro no frio, pensa somente em comer: chocolate quente, uma sopinha, fondue e por aí vai.

Sim, o frio é muito bom para tais divertimentos gastronômicos, mas é igualmente excelente para alimentarmos o cérebro - este órgão que costuma morrer à míngua nestes tristes e ignorantes trópicos.

A leitura pede o frio, a introspecção, o recolhimento e até o aconchego de bela poltrona, enrolado em cobertores e rodeado por fumegante xícara, para seu apropriado deleite e proveito. E isto é um fato, quase que estatisticamente comprovado: diga, de imediato, qual país de clima notoriamente abrasador você poderia citar como um expoente cultural ou, ao menos, cujo povo possua um arraigado hábito de leitura.

A resposta eu posso adivinhar: nenhum. Sim, pois é humanamente impossível ler com o suor pingando nas páginas do livro. Tudo o que queremos é uma água de coco gelada, mergulho na praia e o "otium sine dignitate" - preferencialmente rodeado de torneadas e desinibidas senhoritas, vestidas com seu fio dental.

O melhor conselho que posso dar é "refrigere-se". Venda um rim, mas instale um ar-condicionado em sua casa e só aceite trabalhar em locais que ofereçam o mesmo equipamento, ou o amigo correrá o sério risco - tristemente comum a todos os brasileiros - de ver sua massa cinzenta atrofiar até a necrose azulada dos espectadores de BBB.

O frio acultura, nos permite vestir roupas dignas e até nos obriga a um comportamento menos "tropical malemolente", eis que é extremamente deselegante remexer os quartos em uma cafeteria da Copenhagen.

Frio é vida!


Walter Biancardine