segunda-feira, 20 de julho de 2026

VENTO SUDOESTE NÃO VAI EMBORA


Fiz muita coisa na vida.
Até porque não sabia o que fazer, depois que meu pai faliu.
Uma coisa, entretanto, que sempre me persegue foi escrever.
E fui jornalista por décadas.
Analista político.

A vida passou.
A política me tirou quase tudo.
Acidente de moto em 2016.
O mundo foi embora e eu fiquei.
Vivendo numa cabana abandonada no meio do mato.
Vigia noturno. Oriento carros aos domingos, num restaurante.

Minha vida é a máquina de escrever, botequins com gente tão quebrada quanto eu, o mar, embarcações, rádio AM, ossos partidos, caminhões, madrugadas, estradas.
E o vento sudoeste, que entrou e não vai embora.

Mexi recentemente com um cartucho de calibre 12 e lembrei da primeira vez que desmontei um para usar as esferas numa espingarda de ar comprimido. 
A infância, às vezes, é só um ensaio do estrago.

Mar, caminhões, estrada, vento.
Madrugadas.
Botequins.
Bebida. Muita bebida.
Vento sudoeste.

Aí então, escrevo.

Datilografo histórias.
Porque guardo os papéis na gaveta.
Não posso fazer isso com gente.




Walter Biancardine





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