sábado, 30 de setembro de 2023

HERANÇAS -


Meu pai deixou-me uma caixa de ferramentas e o único bilhete que escreveu, em vida, para mim.
Minha mãe deixou-me uma Bíblia e, igualmente, o único bilhete - além de listas de compras no supermercado - que escreveu, em vida, para mim.
Meu pai pedia que eu tivesse fé, enquanto minha mãe rogava que Deus me acompanhasse por minha vida.
Ele me deixou ferramentas; ela, a proteção de Deus.
Fé e trabalho, é tudo o que tenho.
É tudo que preciso.
Mas, o que deixarei para meu filho?


Walter Biancardine




domingo, 10 de setembro de 2023

COM QUEM VOCÊ SE CONFRONTA?

Somente a solidão pode nos proporcionar o confronto único e exclusivo com o que somos, a oportunidade de encontrarmos nossa essência. Se, por mais sozinhos que estejamos, conseguimos alguns poucos amigos - um pequeno círculo - nossa busca terminará por ser a adequação á esse grupo, ao consenso dominante.

Escrevi já algumas vezes que uso minha solidão como um silício, a penitência de alma que proporciona o postar-me diante do Único, o Onisciente do qual nenhuns pecados meus - e minha essência - poderei esconder. Quando adotamos tal parâmetro para a unidade de nosso próprio conhecimento (e, consequentemente, de nós mesmos), o universo de nossos pensamentos, valores e objetivos transcende o cotidiano que a busca do pão de cada dia nos limita e impinge. Ao fim e ao cabo, o perdão de Deus é a maior graça que podemos e devemos buscar.

Mas existem efeitos colaterais adversos, dentre eles - e muitos devem estar fartos de ver-me exibi-los - a depressão, auto crítica exacerbada e a adoção de um determinismo que beira o eclesiástico (do Eclesiastes) - fatalista, quase pessimista e cruel em conclusões.

Isto, entretanto, é um processo; sigo á meio caminho e somente Deus sabe se o concluirei.

As contingências de minha vida pessoal agravam tal quadro mas, paradoxalmente, são tais vicissitudes que me proporcionaram esta oportunidade - muito difícil recomendá-la a outros.




 

sábado, 9 de setembro de 2023

PEQUENAS ALEGRIAS


De volta aos escritos, após longo e negro túnel, motivado por tocante coincidência de pequenos detalhes. Para alguns, pouco ou nada podem significar mas, para mim, carregam em si o resumo de uma felicidade que há muito joguei fora.

Cerca de quinze minutos atrás liguei a cafeteira para passar um novo e fresco café, tendo saído logo em seguida para buscar o almoço, sempre generosamente fornecido por seu Dail de quinta á domingo. Ao voltar e abrir a porta de casa - eram exatas 17:05h - o cheiro do café recém coado invadiu-me as narinas, o coração e a alma.

Tal como acontecia quando jovem, voltando da padaria e com minha mãe tirando o café da velha Bender.

Tal como acontecia até recentemente quando, ao voltar da rua trazendo paçoquinhas, minha (ex) mulher cobria a mesa com a toalha e lá colocava a garrafa térmica recém abastecida, um cesto de pães e manteiga "Aviação".

Tal como acontecia quando eu era homem, gente, indivíduo prestante, com gente que eu amava ao meu redor.

Sozinho, sentei na cama, sorri e agradeci a Deus.

Muitos sequer boas lembranças possuem.

Amanhã é outro dia.



terça-feira, 5 de setembro de 2023

A CORAGEM DE SER COVARDE

 


É um crepúsculo que não me abandona, trazendo sempre noites de culpa e remorso.

Busco permanecer em pé convencendo-me que, se não há mais razões para perambular pelos vazios que me cercam, devo eu, entretanto, o pagamento por tantos males que causei. Sim, preciso me redimir, penso, emprestando um nome mais bonito às tais pendências e tentando crer que, antes de ir, manda a vergonha que eu as pague.

Olho o passado e dou conta de ter vivido tal como um drogado, alguém cujo egoísmo o entorpeceu durante décadas e que, só agora, beirando a sobriedade da velhice e internado em solidão, percebe o desprezível que foi e o farrapo moral que tornou-se.

Sim, são muitas dívidas, há muito o que pagar – ou do que me redimir, como digo em franca auto piedade.

Mas sei somar 2 + 2, compreendi minhas limitações, fraquezas e incapacidades. E, em um raciocínio puramente contábil, concluo que a quitação de tais débitos é impossível – é hora de declarar falência e retirar-me do ramo.

Não tenho, entretanto, coragem – o paradoxo de faltar bravura para ser covarde.

Permanecerei tal qual pano de chão, esquecido em algum canto, até que um desespero impulsivo seja mais forte que a resiliência que traveste o medo.

Sigo cumprindo minha longa sentença de entardeceres.

Não preciso de um 6 de setembro para lembrar de comprar o pão.


A solidão e o tempo
trouxeram a aridez
em minha vida;
Não foram escolhidas,
ao gosto do freguês,
Nem o tempo, a miséria,
muito menos a solidão sofrida.