domingo, 24 de maio de 2026

PATERNIDADE IMPROVISADA -

 


Estava em casa esta noite.
Pra variar, escrevendo.

Só sei que ouvi um choro baixo no escuro.
Daqueles sons que parecem erro. Primeiro você pensa ser pássaro. Depois gato. Depois percebe que há desespero ali.

Procurei.
Nada.
Entrei em casa e continuei ouvindo.
Saí outra vez.

No meio da grama encontrei um cachorrinho preto recém-nascido. Tão novo que ainda estava molhado do amniótico e uma tripa à guisa de umbigo. Olhos fechados. Parecia menos um animal e mais um pedaço de noite abandonado no chão.

Pouco antes eu havia visto a cadela grávida, mãe dele, me saudar quando cheguei da rua.
Depois ela desapareceu.

Procurei em todo o sítio.
Andei no escuro chamando uma mãe que misteriosamente evaporou. Sumida. Ou apenas continuando a vida em algum lugar, com os outros filhotes, enquanto um deles tremia sozinho no capim.
Procurei os outros.
Nada. Nem latido. Nem choro. Nem o mato se mexendo.
Só silêncio.
E existe um tipo de silêncio que parece ausência de Deus.

Voltei carregando o cachorro. Ele inteiro cabia em minha mão.

Não tenho quase nada aqui.
Não tenho fogão.
Não tenho geladeira.
Há dias em que minha situação financeira lembra mais um castigo do que uma vida organizada.
Mesmo assim improvisei.

Coloquei espuma de travesseiro dentro de um tanquinho velho.
Lençol usado virou abrigo.
Leite em pó virou tentativa.
O tanquinho virou incubadeira.

Engraçado.
Passamos a vida aprendendo que certas pessoas nasceram para salvar e outras para ser salvas.
Mas às vezes o universo parece bêbado.
Entrega um recém-nascido a um homem quebrado e observa.
Sim, sou um extintor de incêndio: muito útil em emergências, mas quem o quer na sala?
E, ainda por cima, faz apostas.

O cachorro estava frio. Molhado. Chorava forte.
Depois menos.
Depois dormiu.
Cagou na minha mão. Tal qual o mundo cagou – e andou – para ele. Ou para todos.

Era uma substância escura, quase preta. Curioso como até merda vira esperança, dependendo da noite.

Lembro de ter pensado: a vida insiste em funcionar mesmo cercada de razões para desistir. Sequei com um pano velho e esquentei o bicho contra o peito como fazem mulheres, prematuros e desesperados.

Ele se enroscou.
E passei um bom tempo assim.
Esse foi o pior momento.

Porque até então eu estava com raiva do mundo.
Da injustiça.
De Deus.
Da mãe desaparecida.

Mas quando uma criatura de poucas horas procura calor no seu corpo, a raiva muda.
Ela ganha endereço.

Percebi que não estava irritado apenas porque o cachorro podia morrer.
Eu estava irritado porque continuo incapaz de assistir certas coisas sem me importar.

A vida tentou me ensinar o contrário.
Fracassos ensinam.
Pobreza ensina.
Humilhação ensina.
E com o tempo você aprende a endurecer.
Ou finge.

Mas então surge um recém-nascido no meio da grama, numa noite qualquer, e obriga você a descobrir que ainda há algo vivo sob os escombros.
Isso irrita.
Porque sentir custa.
E eu ainda sou uma besta que chora.

Enquanto escrevo, há um cachorro preto dormindo num tanquinho de lavar roupa.
Talvez sobreviva.
Talvez não.
Não sei.

Só sei que hoje o mundo fez o que sempre faz:
Produziu abandono. Cagou e andou.

E eu fiz o que pude: parei.

E isso foi mais do que o mundo faz.


Walter Biancardine


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