Eu tinha uns vinte e poucos anos.
Era fácil brigar com os pais e sair de casa.
Todo jovem afronta seus pais achando que sempre será perdoado e acolhido.
Não fui diferente.
Deixei o lar paterno em Copacabana e vim morar num pequeno apartamento que eu tinha, num charmoso condomínio em Cabo Frio, chamado Casa Grande – obra do genial Lian Pontes de Carvalho, que também construiu o Clube do Canal.
Nesse meio tempo conheci um navegador, dono de um veleiro, e ficamos amigos. Sim, a amizade brota fácil quando se é jovem.
Zarpávamos do canal Itajurú e fazíamos vela ao livrar a boca da barra. A partir daí, não havia destino, só o tempo.
Lembro de uma das muitas noites no mar.
Ele bêbado, dormindo em sua cabine, e eu no convés divagando entre as estrelas, ventos e ondas.
Bêbado também, mas era um bom conhaque.
Um frio de gelar os ossos.
Cheiro de maresia.
O barco apenas balançava ao sabor das vagas.
Não adernava.
Árvore seca.
Olhava o céu. As estrelas.
Tentava me imaginar com trinta, quarenta anos.
Dava uma boa ansiedade.
Imaginava também quem seria a mulher que me acompanharia pelo resto de meus dias.
Relembrava minhas pequenas frustrações de jovem adolescente e achava que já tinha sofrido meu quinhão; que dali pra frente seriam apenas vitórias e alegrias.
Sim, eu não sabia de nada.
Às vezes um peixe-voador passava feito bala perdida por sobre o convés do veleiro. Outras, algum peixe grande – nunca conseguia ver qual espécie – saltava sobre as águas e eu só o percebia pelo barulho ao mergulhar de volta.
E o vento não parava.
Vento gelado, comia meu cigarro e deixava o conhaque melhor.
Meu isqueiro era um Zippo, o único que acende sob vendavais. Havia recebido de meu pai e, ao olhar pra ele, me lembrava que meu futuro estava garantido: havia uma empresa de transporte para tocar adiante, filiais em São Paulo, Espírito Santo, e clientes poderosos.
Pura associação de ideias: Zippo – meu pai – empresa – futuro garantido.
Como disse, eu não sabia de nada.
Tenho hoje saudades daquelas navegações.
Uma semana embarcado.
Veleiro bom.
Mares épicos.
E uma indecente inocência.
Walter Biancardine
Era fácil brigar com os pais e sair de casa.
Todo jovem afronta seus pais achando que sempre será perdoado e acolhido.
Não fui diferente.
Deixei o lar paterno em Copacabana e vim morar num pequeno apartamento que eu tinha, num charmoso condomínio em Cabo Frio, chamado Casa Grande – obra do genial Lian Pontes de Carvalho, que também construiu o Clube do Canal.
Nesse meio tempo conheci um navegador, dono de um veleiro, e ficamos amigos. Sim, a amizade brota fácil quando se é jovem.
Zarpávamos do canal Itajurú e fazíamos vela ao livrar a boca da barra. A partir daí, não havia destino, só o tempo.
Lembro de uma das muitas noites no mar.
Ele bêbado, dormindo em sua cabine, e eu no convés divagando entre as estrelas, ventos e ondas.
Bêbado também, mas era um bom conhaque.
Um frio de gelar os ossos.
Cheiro de maresia.
O barco apenas balançava ao sabor das vagas.
Não adernava.
Árvore seca.
Olhava o céu. As estrelas.
Tentava me imaginar com trinta, quarenta anos.
Dava uma boa ansiedade.
Imaginava também quem seria a mulher que me acompanharia pelo resto de meus dias.
Relembrava minhas pequenas frustrações de jovem adolescente e achava que já tinha sofrido meu quinhão; que dali pra frente seriam apenas vitórias e alegrias.
Sim, eu não sabia de nada.
Às vezes um peixe-voador passava feito bala perdida por sobre o convés do veleiro. Outras, algum peixe grande – nunca conseguia ver qual espécie – saltava sobre as águas e eu só o percebia pelo barulho ao mergulhar de volta.
E o vento não parava.
Vento gelado, comia meu cigarro e deixava o conhaque melhor.
Meu isqueiro era um Zippo, o único que acende sob vendavais. Havia recebido de meu pai e, ao olhar pra ele, me lembrava que meu futuro estava garantido: havia uma empresa de transporte para tocar adiante, filiais em São Paulo, Espírito Santo, e clientes poderosos.
Pura associação de ideias: Zippo – meu pai – empresa – futuro garantido.
Como disse, eu não sabia de nada.
Tenho hoje saudades daquelas navegações.
Uma semana embarcado.
Veleiro bom.
Mares épicos.
E uma indecente inocência.
Walter Biancardine

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