um dia tudo acaba
você sai de casa
desempregado
sem ter pra onde ir
mochila nas costas
anda e anda e anda
a cidade é pequena
não vale a vergonha
vai pra estrada
e anda e anda e anda
sem rumo e sem fé
a sandália se desfaz
segue descalço
pés imundos
furado por pedras
o respeito vai embora
continua andando
as roupas rasgam
sujas e manchadas
hora de dormir
procura um mato
acostamento salva
bichos pinicam
a fome começa
dia amanhece
barba cresce
roupa em farrapos
descalço e sujo
te oferecem um café
salvou a manhã
e a fome
a dignidade vai embora
e continua andando
acha uma bituca
fuma sem medo
higiene também foi
embora
ganha um resto
de uma quentinha
come com gosto
amor próprio se foi
senta no mato
pensa na vida
como desceu
tanto assim
não tem amigos
não tem parentes
não tem ninguém
que lembre
ou se importe
não tem resposta
um conhecido passa
você tenta fugir
ele te chama
te aconselha
a dar um jeito
nessa vida
procurar um trabalho
como não pensei
nisso antes?
com minha boa aparência
vai ser fácil
o sujeito
não merece
que eu estrague
meu “réu primário”
sigo em frente
me oferecem um teto
e vou
ainda querem
que eu seja normal
que seja otimista
agradeça a Deus
não posso culpar
são gente normal
nunca souberam
o que é essa vida
eles não sabem
que cicatrizes
nunca e nunca
nunca mais
saem da pele
e da alma
Walter Biancardine

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