segunda-feira, 13 de julho de 2026

CICATRIZ


um dia tudo acaba
você sai de casa
desempregado
sem ter pra onde ir

mochila nas costas
anda e anda e anda
a cidade é pequena
não vale a vergonha

vai pra estrada
e anda e anda e anda
sem rumo e sem fé
a sandália se desfaz

segue descalço
pés imundos
furado por pedras
o respeito vai embora

continua andando
as roupas rasgam
sujas e manchadas
hora de dormir

procura um mato
acostamento salva
bichos pinicam
a fome começa

dia amanhece
barba cresce
roupa em farrapos
descalço e sujo

te oferecem um café
salvou a manhã
e a fome
a dignidade vai embora

e continua andando
acha uma bituca
fuma sem medo
higiene também foi
embora

ganha um resto
de uma quentinha
come com gosto
amor próprio se foi

senta no mato
pensa na vida
como desceu
tanto assim

não tem amigos
não tem parentes
não tem ninguém
que lembre
ou se importe

não tem resposta
um conhecido passa
você tenta fugir
ele te chama

te aconselha
a dar um jeito
nessa vida
procurar um trabalho

como não pensei
nisso antes?
com minha boa aparência
vai ser fácil

o sujeito
não merece
que eu estrague
meu “réu primário”

sigo em frente
me oferecem um teto
e vou

ainda querem
que eu seja normal
que seja otimista
agradeça a Deus

não posso culpar
são gente normal
nunca souberam
o que é essa vida

eles não sabem
que cicatrizes
nunca e nunca
nunca mais

saem da pele
e da alma



Walter Biancardine



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