domingo, 30 de junho de 2024

O SENTIDO DA VIDA -


Use o que Deus nos deu, único e exclusivo dom humano.

Aproveite seu intelecto, use-o, desenvolva-o, busque as verdades primeiras e conheça o incognoscível.

Não se resuma, entretanto, apenas à razão: mais que um simples raciocínio, desfrute o transcendente. Ouça Mozart, Beethoven, Tchaikovski; leia Shakespeare, os clássicos gregos, poesias.

Veja um por do sol, sinta o vento no rosto, conte as estrelas do céu.
Só a alma humana pode enredar-se no sublime.
Permita-se elevar, sair da brutalidade carnal do cotidiano, pois o espírito é nossa única diferença dos animais.

Ouvir um batidão e acasalar, até as baratas fazem.


Walter Biancardine




FALE SOZINHO EM VOZ ALTA -


O conhecido Siegmund Freud dedicava-se a analisar uma paciente que havia adquirido fobia ao ato de beber água.

Em uma das sessões, sua paciente resolveu narrar tudo o que acontecera e citou que, estando a cozinhar, viu casualmente seu cachorro bebendo água em uma vasilha e, como todo cão, babando e pingando ao redor. Aquilo, segundo ela, havia causado profundo nojo nela. Ato contínuo, pegou um copo de água em cima da mesa e bebeu. Estava curada.

Freud morreu alegando que havia descoberto as virtudes terapêuticas da fala, da discussão consigo mesmo, de dizer em voz alta aquilo que jamais diríamos a ninguém.

O fato é que Siegmund nada descobriu: por diversas vezes relatei o surpreendente poder da solidão, chegando ao ponto de entender o deserto - tão citado na Bíblia - como um verdadeiro personagem das Escrituras. E esta solidão, a possibilidade de confessar - em voz alta - tudo aquilo que jamais diríamos, é um fato espantosamente desconhecido, até mesmo por muitos clérigos e outros que se dizem "espiritualistas".

Meditar não é falar. O que pensamos, normalmente não dizemos, e o silêncio em nada nos eleva.

A peregrinação solitária e compulsória, a vivência desta solidão acompanhada de suas vicissitudes, carências e sofrimentos podem e devem ser canalizadas como impulsionadores desta nossa tão necessária confissão em voz alta.

Só através dela perdi o nojo da vida, o nojo de mim mesmo, o nojo da água.

Freud apenas apropriou-se da sabedoria bíblica.


Walter Biancardine



NINGUÉM PODE ME DAR O QUE TENHO DE NASCENÇA -

A liberdade não é, ao contrário do que artistas, políticos e demagogos pregam, um direito: ela é uma condição natural, inerente à existência do ser humano, que não pode ser negociada, condicionada ou concedida à ninguém, seja através da adesão à ideologias, crenças ou filosofias de vida.

O homem é um animal gregário, seu DNA o impele à vida em sociedade tal qual formigas, elefantes ou macacos; enquanto ajustado ao meio social circundante, tal liberdade será desfrutada de forma natural e inquestionável.

Apenas um comportamento danoso ao bando, à matilha, ao grupo, pode justificar e promover sanções ao infrator, seja através de sua expulsão do meio (animais) ou - em nossas normas jurídicas - sua retirada compulsória do convívio em sociedade.

Abomino e repudio todo e qualquer um que pense ter o poder de me conceder algo que já possuo desde meu nascimento, como seja, minha liberdade.

Igualmente vejo como opressor todo aquele que exclui o meu pensar, meu intelecto, minhas opiniões, conclusões e crenças do conceito de "liberdade", acima descrito.

Quando uma realidade conflitante e prejudicial torna-se um consenso em uma sociedade, expressar nossos julgamentos é parte igual e preponderante de nossa liberdade inerente - mesmo justificada por algo tão frágil quanto o "consenso" - e, por isso, tanto quanto o encarceramento injusto, a censura é uma brutalidade arbitrária contra a condição natural do homem, dada por Deus, de criatura livre e pensante.

Não há nenhum pensamento filosófico que justifique ou embase a censura. A mesma é fruto direto de criações humanas como ideologias e suas leis resultantes, o que - no mais das vezes - sempre são diametralmente opostas aos absolutos divinos.

"É necessário que hajam dores, mas ai daqueles por quem as dores vem", diz a Bíblia.

E que Deus tenha piedade de tais pessoas, as quais são sobejamente conhecidas por nós.


Walter Biancardine





sábado, 29 de junho de 2024

PENA CAPITAL PARA BEBÊS E 40 GRAMAS LIBERADOS -

Em intervalo de tempo espantosamente curto, os integrantes da junta governativa da ditadura brasileira – leia-se STF – demoliram dois dos mais significativos e conhecidos valores de nossa sociedade, ao liberarem o aborto e as drogas.

A rapidez com que assim agiram demonstra a certeza de nenhumas satisfações terem a nos dar – afinal, somos uma ditadura – bem como revelam o cinismo e desfaçatez ao alegarem ser tudo “em consequência da imobilidade do Congresso”.

Pois bem, analisemos tal e esfarrapada desculpa: em primeiro lugar o poder Judiciário não é um “jogador no banco de reservas” do parlamento, entrando em campo quando este não apresenta “os resultados esperados”. Se deputados federais e senadores não se mexeram sobre tais temas, assim foi sua vontade e reflete a postura cautelosa diante de pautas tão delicadas, controversas (por conta exclusivamente da esquerda, que não aceita o consenso) e caras ao povo brasileiro que, em sua maioria absoluta, repudia drogas e aborto.

Em segundo lugar, não bastasse tal repulsa ser pública e notória, a decisão do STF é exatamente o oposto da vontade popular e esfrega em nossa cara que tais Ministros são cúmplices, partícipes dos grandes traficantes internacionais de drogas, conhecidos financiadores das esquerdas latino-americanas há décadas, bem como evidencia a subserviente vassalagem togada aos ditames da Escola de Frankfurt – “destruição total de tudo para que, do caos econômico e social resultante, algo novo e melhor emerja” – proposta essa seguida à risca por esquerdistas e globalistas, estes últimos de grande destaque como “Big Techs” e “Meta Capitalistas”.

A ânsia deste caos frankfurtiano pelos Ministros do STF pode ser sentida, de imediato, pelos absurdos resultantes: uma gestante – criminosa – que autorize o assassinato de seu bebê, com sete meses e meio de gravidez, é tão assassina quanto os que ordenaram essa morte, os Ministros supremos, ambos portadores de sociopatia terminal que – em condições normais de temperatura e pressão – os condenaria à reclusão perpétua em um sanatório para doentes mentais perigosos.

Não podemos esquecer dos médicos, os agentes do assassinato e sempre mais zelosos com suas carreiras que com o Juramento de Hipócrates que, igualmente, se acumpliciam como autores materiais da sentença de morte expedida pela Corte Suprema.

Assim, com o concurso de três cúmplices – a grávida (porque mãe não é), STF e suas excelências, os doutores médicos – uma injeção letal provocou a morte do bebê de sete meses, repito à exaustão, por assistolia, prática tão dolorosa e cruel que foi abolida mesmo em procedimentos veterinários de emergência, pelo tanto de sofrimento e dor absurdas que provocam nas vítimas.

Mas esta foi a vontade da grávida, do STF e dos médicos, todos aplaudidos de pé pela satânica e vitoriosa esquerda brasileira e mundial.

Vamos agora à questão das drogas. As mesmas são consideradas ilícitas em nosso Código Penal, sendo penalizados seu comércio, uso e posse – até ontem, agora não mais.

O tráfico de drogas é considerado crime hediondo no Brasil mas a proibição de seu porte, uso e comércio parece pouco ou nada ter pesado, na decisão do Supremo. Assim, o cidadão poderá carregar consigo até quarenta gramas de maconha – muito embora o Ministro Dias Toffoli tenha lamentado e julgado, para quem quisesse ouvir, que tal decisão deveria liberar igualmente todas as outras drogas.

Tal quantidade de maconha é suficiente para ser embalada em “tijolos” e rende até, aproximadamente, cem “baseados”. Se cada “baseado” é vendido à R$10,00 o “inocente” e “inimputável” portador do “tijolo” de maconha transportará por aí, livremente, uma carga no valor de uns R$1.000,00, para pasto e gáudio do gerente de sua “boca”.

Ora, a definição deste peso de 40 gramas é uma evidente liberação do tráfico de drogas – mas “só um pouquinho”, como diria a Ministra Carmem Lúcia, ao aprovar a censura – e seu livre transporte por todo o país. Em resumo, os Ministros do STF liberaram o tráfico de drogas, bem como seu consumo – a venda não vale à pena, pois traficante não gosta de pagar imposto, tirar alvará e correr o risco de seu “vapor” o processar na Justiça do Trabalho.

Mas onde entra a alegada “inação” do Congresso nessa história?

Não houve. A proposta foi apresentada por um pequeno e minoritário partido de esquerda, e foi fragorosamente derrotada em plenário – o Congresso, a voz do povo, o rejeitou.

Bastou, entretanto, que tal partido – minoritário por vontade do povo, que não elegeu seus candidatos – recorresse ao STF para que sua PROPOSTA rejeitada fosse transformada em LEI embora, teoricamente, a Corte Suprema “não legisle”. Deste modo temos a prova, esfregada em nossas caras, que o Supremo FECHOU o Parlamento e vivemos, de fato, em uma ditadura juristocrática.

Aliás, tantas e tão repetidas vezes propostas absurdas de partidos inexpressivos – ou de outros maiores, mas que foram derrotadas no Congresso – de esquerda foram “transformadas em lei” pelo STF que nos é lícito suspeitar que, na realidade, tais propostas seriam encomendadas pelo próprio Supremo aos venais parlamentares, a fim de emprestar mínima e tênue aparência de legalidade aos seus arbítrios autocráticos, bem como sua obediência à pautas obscuras, esquerdistas e globalistas, vindas do exterior ou de poderosos chefões internacionais das drogas.

Que o leitor tenha em conta, entretanto, que não é intenção deste artigo “vitimizar” o Congresso, pois toda essa inação deve-se à pencas de processos que os parlamentares respondem – ou responderão, caso se rebelem – ao STF, bem como ao tsunami de dinheiro do pagador de impostos, liberados pelo nosso Presidente comunista aos seus apoiadores do conhecido e majoritário “Centrão”, justamente para garantir um rebanho bovino e dócil.

Vivemos em uma situação extrema e paradoxal, cuja única solução talvez seja a “profetizada” pelo General Olímpio Mourão Filho, em 1964, ao dizer que “a continuar este sistema de governo o gangsterismo e a máfia se unirão, uma longa noite descerá sobre o Brasil até que uma guerra, acionando forças exógenas, venha a libertá-lo”.

É um paradoxo a covardia do Congresso, mas muitos foram comprados.

É um paradoxo a inação das Forças Armadas, mas sua cúpula foi cooptada – e, de todas as soluções esta seria a pior pelo positivismo de seus integrantes, que já experimentamos antes e resultou no que hoje vivemos.

Mas igualmente é um paradoxo nossa apatia, alegando temer prisões e mortes – as quais, sem agirmos, já acontecem.

Uma coisa é certa: sem dor, sofrimento e sacrifício – heroísmo, enfim – não sairemos dessa jamais.

Mas o brasileiro médio morre de vergonha – e medo – de ser herói.



Walter Biancardine



quarta-feira, 26 de junho de 2024

O GOLPE NA BOLÍVIA -


Não percam seu tempo se acham que comentarei sobre os acontecimentos de hoje na bela e andina Bolívia.


Golpe? Que golpe?

Que eu saiba - e todos nós somos experimentados golpistas - um verdadeiro golpe de estado se dá com velhinhas de Bíblia na mão e segurando o terço, bem como escrevendo frases com batom em estátuas.

Aqueles amadores bolivianos teriam tentado dar um golpe de estado usando blindados, armas e soldados?

Sua principal presa política, Jeanine Añez Chávez, ainda mantém sua conta no X-Twitter e diz que é contra?

Que aprendam conosco, os verdadeiros golpistas, que temos canais fechados, contas bloqueadas, prisões sentenciadas a 17 anos, mortes na cadeia, exilados políticos e tudo isso graças à nossa heróica ação de fazer passeatas e acampar em frente aos quartéis!

Os militares bolivianos, igualmente, são uns primários: bons são os nossos, que utilizam as mais modernas estratégias de perfídia - sem falar nas corajosas pinturas de meio-fio - para deter os insanos que "atentam violentamente contra o estado democrático de direito"!

Ainda falta muito para que os pobres bolivianos se comparem ao nosso brilho!


Walter Biancardine



O MUNDO ACABA E CABO FRIO NEM AÍ -


A ditadura judicial não mais disfarça e abate, com sua mão pesada, os poucos corajosos que dela discordam.

De ontem para hoje, tivemos 24 horas de terror ao vermos nossas publicações excluídas e mesmo a Rádio Auri Verde Bauru noticiou, nesta manhã, a perseguição e exclusão que tem sido vítima.

Mas o quadro não se resume a isso: temos presos políticos como Filipe G. Martins - encarcerado sem nenhuma razão plausível - bem como idosos e mães de filhos pequenos igualmente presos, junto com doentes e que precisam de cuidados especiais.

Já tivemos um morto - o "Clezão" - e ficou por isso mesmo. Ninguém lembra ou menciona ter sido o pobre homem vítima desta ditadura.

Nosso Congresso foi fechado por aquele órgão de três letras, cujo nome sequer pode ser mencionado, e que descaradamente distorce as leis existentes, dando às mesmas o sentido ideológico que lhes convém.

Não temos liberdade de falar, de opinar, de discordar, de protestar e, alguns, sequer de ir e vir ou voltar ao Brasil - exilados políticos que são.

O Brasil esfacela-se sob este pesado bombardeio do sistema, naufraga economica e democraticamente, o povo empobrece, não pode reclamar e o quê os jornais, TV's e rádios de Cabo Frio fazem?

NADA.

Tenho amigos no meio radiofônico, televisivo e jornalistico mas a compulsão em falar a verdade já me fez perder muitos deles - apenas não será agora, em um momento tão grave, que agirei diferente: a mídia cabofriense está muda, finge que não vê porque É COVARDE! E tal adjetivo igualmente se aplica a muitos políticos locais, que prudentemente disfarçam seu horror em "estarem ocupados com outras importantes funções".

O Brasil naufraga, e nossa mídia fala que tal praia "ganhou a bandeira azul" dos tarados ambientais ou mesmo que sediaremos "evento com foco no turismo e tecnologia" - NEM UMA LINHA SEQUER SOBRE NOSSO PAÍS MERGULHANDO NO CAOS DITATORIAL!

É certo que mídias locais devem, preferencialmente, tratar dos assuntos pertinentes à comunidade mas a hipocrisia é evidente, a covardia é explícita e - sou capaz de apostar - caso um dia a liberdade venha a renascer sobre nosso país, tais medrosos prontamente vestirão a capa de "heróis da resistência"!

HIPÓCRITAS! COVARDES!

Que o leitor destas linhas saiba: de nada adianta assistir a TV Alto Litoral, ler Folha dos Lagos ou ouvir rádios - pouco importa o programa ou apresentador: VOCÊ ESTÁ SENDO ENGANADO por gente que, sequer, tem coragem para assinar o que pensa!

Um dia, quem sabe, teremos gente com testosterona novamente em Cabo Frio.

Até lá, que Deus tenha piedade de nós, e do Brasil.


Walter Biancardine 



domingo, 9 de junho de 2024

A CAVERNA DE PLATÃO E O CAMINHÃO FENEMÊ -

Tão poderosa foi a impressão causada pelo extinto e saudoso caminhão FNM (Fenemê, para os íntimos) em tempos idos que, até hoje, decorridos quase setenta anos de seu lançamento, ainda provoca sorrisos evocativos e serve como referência de força, brutalidade e poder.

Na realidade, o mesmo contava com um resistente motor de seis cilindros, fabricado sob licença da Alfa Romeo italiana, mas que entregava apenas 150 HP – potência bastante razoável para a época, mas nenhum exemplo de força exacerbada, já que os modestos Mercedes chegavam aos 100 HP.

Nos dias atuais podemos ver com facilidade, nas estradas, cavalos-mecânicos da Scania, Volvo ou mesmo Mercedes, arrastando incontáveis reboques – os famosos nove-eixos – com trinta metros de comprimento, mais de 70 toneladas sobre o lombo e despejando gloriosos 600 a 700 HP em nosso pobre asfalto. Mas, nem de longe, emanam a mesma impressão de força bruta e poder dos inesquecíveis FNM, cuja humilde potência era anabolizada por miraculoso conjunto de caixa de marchas e diferencial. Ora, ponha-se um Scania e um FNM, lado a lado e com motor ligado, e adivinhe qual dos dois irá impressionar mais o aficcionado? Sem dúvidas, nosso vovô das estradas.

E por quê? Por causa de seu impressionante ronco – um baixo-profundo em compasso lento e majestoso, poderoso barítono que, em rotações mais altas, fazia estremecer vidraças e corações ao ouvi-lo. Seu verdadeiro poder era “sensorial”.

É neste exato momento que entram Platão e sua famosa (no bom sentido, é claro) caverna.

Sem complicar demais, podemos dizer que as “sombras” projetadas nas paredes das cavernas – projetadas pelo que acontece na vida real, que se passa no exterior da mesma – podem ser entendidas como tudo o que sabemos do mundo através da grande mídia, sem jamais vermos com os próprios olhos o que realmente se passa. Uso essa interpretação, que também é válida, para direcionar o foco deste artigo e ainda acrescentar que esta mesma percepção – as sombras – podem igualmente ser lidas como as nossas impressões “sensoriais”.

E onde entra o “sensorial”, na atual conjuntura?

Ora, temos um consórcio midiático a mostrar tudo o que se passa sob uma única ótica, tendenciosa e ideológica. Do mesmo modo, toda a indústria cultural – cinema, teatro, livros, artes em geral – igualmente ecoa tais tendências. Considerando a carência de fontes alternativas, que empreste à realidade outros pontos de vista, nada mais natural ao ser humano que entender o exibido pelo grupo acima citado como “a verdade” e, pior, um “consenso” já estabelecido por pessoas “respeitáveis” e que jamais endossariam atos ou intenções – e ações – deploráveis e criminosas.

Vamos ao âmago da questão: qual o número de pessoas que, de fato, escrevem reportagens, livros, peças de teatro, pintam quadros, atuam em novelas de TV, cantam músicas ou – em posição supostamente superior – atuam politicamente em cargos públicos, eletivos ou não? Contando todo o contingente, disperso pelos diversos países do planeta Terra, chegaria a dois milhões?

Pois bem, tomemos este número. Se tanto, dois milhões de pessoas controlam, manipulam e moldam as opiniões, gostos, preferências, religiões e até a sexualidade de oito bilhões de pessoas (segundo estatísticas da ONU) em nosso planeta, e o número de “controladores” certamente é bem menor, pois a grossa maioria deste contingente é formado por pessoas já devidamente “hipnotizadas” doutrinariamente, e não daqueles que realmente decidem e mandam – estes não chegarão a uns 600 mil em toda a Terra. Seiscentos mil mandando em oito bilhões.

E temos, diante de nossos olhos, um Fenemê social a exibir potência e força que realmente não dispõe – os tais e pobres 150 HP, turbinados pela caixa de marchas chamada “grande mídia” e “cultura de massa”. O ronco impressiona, o barulho intimida. Mas é só.

Para exemplificar de modo mais palpável, suponhamos que o leitor faça uma determinada postagem em suas redes sociais. Logo depois, uma chuva de trinta, quarenta ou mais comentários aparecem, execrando seu ponto de vista e condenando o pobre coitado de todas as maneiras e adjetivos possíveis. A mais humana das reações será a certeza de que seu pensamento ou opinião postada é um absurdo completo, perversão condenável, e ele jamais se atreverá a cometer outra sandice como aquela, resguardando prudente silêncio ou, pior, fingindo concordância com o que não acredita.

Devemos notar, entretanto, que tal intimidação partiu de um universo de trinta ou quarenta pessoas, de algum modo relacionadas ao autor ou a amigos do autor. Pois bem, e os outros? E os outros (para ficarmos só no Brasil) 230 milhões de brasileiros, o que achariam de suas opiniões? Ele não sabe e, considerando seu trauma, provavelmente jamais saberá. Assim, em pequena escala, tivemos o mesmo “efeito Fenemê” do parágrafo anterior, exibindo um poder numérico que não tem e um suposto – mas inexistente – consenso dos “homens de bem”.

O fato é que o povo – seja em qualquer país ou sob qualquer regime – sempre será um Scania a carregar, com seus 700 HP, toda uma nação e governo nas costas mas deixando-se impressionar – e intimidar – pelos parcos 150 HP de um Fenemê, pilotado por meia dúzia de degenerados mas que conhecem muito bem, e sabem usar, todo o poder “impressionista” de seu ronco de trovão.

Que, aliás, é seu único poder.



Walter Biancardine



sábado, 8 de junho de 2024

A FOME INSACIÁVEL DE DINHEIRO -


O advento do Rock in Rio marca, ao menos no Brasil, o fim das apresentações tradicionais de cantores ou bandas, em casas de show consideradas “normais” para a época. Este “normal” significava uma lotação entre 200 a 700 pessoas, sendo capacidades como a última citada um mote de venda e oferecidas como “mega-shows”.

Aliado ao acima citado, a legislação de então permitia que candidatos a cargos eletivos, bem como prefeituras e governos estaduais, contratassem artistas pagos pelos dinheiros públicos – uma prévia da Lei Rouanet e, igualmente, verdadeiro sorvedouro monetário.

E isso foi o suficiente para que – cobiça desperta – o desejo de levar sua arte ao povo e o reconhecimento pelo mesmo fossem prontamente substituídos por obscenas visões de cordilheiras de dinheiros, proporcionadas por tais espetáculos que comportavam, por vezes, centenas de milhares de pessoas. As tradicionais “temporadas” de três, quatro meses – ou mesmo mais, em caso de grande sucesso – em casas de shows desapareceram, bem como as mesmas (citaria, no RJ, Canecão e Scala), desprezadas que hoje são por tais artistas, cujo foco não é mais o público: são multidões.

Tempos idos, sucesso era uma longa temporada de seis, sete meses com casa lotada – 600 pessoas por noite, e artistas trabalhando dura e diariamente, tal como o comum dos mortais. A recompensa era o reconhecimento público, muitas vezes com fãs que iam uma dúzia de vezes assistir o mesmo show, bem como generosa e merecida cobertura nos cadernos culturais de jornais e revistas. E o dinheiro, obviamente, além de merecido era bastante compensador.

Atualmente, a meca artística são eventos públicos – micaretas, révéillons, datas politicamente significativas, etc. Caso não estejam disponíveis ou haja algum impedimento legal, a mesma estrutura de lobby político que assessora tais artistas (sim, empresários foram trocados por lobistas) trata de conchavar com a grande mídia uma única e colossal apresentação, sempre em locais que impressionem o comum dos mortais, tais como estádios de futebol, praias de grande extensão ou mesmo logradouros públicos, desde que comportem multidões dignas de saírem no Jornal Nacional. E está feita a mágica: trabalha-se uma única noite e ganha-se milhões, não apenas do público mas, também e principalmente, de direitos de imagem, transmissão ou de patrocinadores, que lá estacionam seus pontos de venda, dos mais variados artigos – mais “variados” mesmo, acredite.

E o quê esse público vê, ou ouve? Nada. A experiência em um “mega-show” resume-se a enxergar o artista (distante uns 300 metros) pelo telão e ouvir um som péssimo, defasado e sem sincronia com o que acontece no palco – qualidade precária, aliada ao desconforto de hordas ensandecidas massacrando-nos com seus pulos e urros tribais, causando até ferimentos. Vale a pena?

Porém, a tal nível de deslocamento da realidade chegamos que, ao vermos um artista tocar e cantar em tímidos bares ou quiosques, sem tal aparato megalomaníaco e midiático, e concentrando-se em dar o que tem de melhor a seu público – cem, duzentas pessoas, uma “miséria” para os padrões atuais – o primeiro e automático sentimento que nos desperta é quase de piedade com tal “pobre alma”.

Mas não, esta é a verdadeira arte; é ir – como um dia disse Milton Nascimento – aonde o povo está.

O resto, que a Globo anuncia e transmite, é investimento.

Ou, pior, ação política.


Walter Biancardine



sexta-feira, 7 de junho de 2024

O SONHO DE UM FILME, A REALIDADE DO LIVRO -

 


Pouco importam severa autocrítica ou um niilismo pessimista com os quais sempre disfarcei, pretensamente frio e superior, uma despropositada e teimosa esperança em finais felizes – verdadeiro vício dos que tem a escrita por ofício.

Tamanho deslocamento da realidade, ao menos no tocante àquilo que de mais íntimo tento proteger, igual e certamente tem a companhia de outro cacoete profissional, acostumado que sou à vida sendo impressa em minha alma por experiências de terceiros: a absorção de personagens da ficção, atores políticos ou participantes de acontecimentos grandes o suficiente para merecerem livros, análises ou reportagens. Um longo viver termina por obrigar-nos a perguntar se o que vimos e achamos assim o fizemos por nós mesmos, ou através de olhos alheios.

Situações particularmente difíceis, aliadas à solidão compulsória e longa demais para suportarmos com a devida dignidade podem, eventualmente, causar a corrupção de nossos princípios e sentimentos mais secretos e fazer com que nos entreguemos à prostituição, à vida fácil do amor por determinados livros, filmes e histórias. Uma psique em fuga da realidade não encontra conforto apenas em seu conteúdo mas também – e pervertidamente – em seus personagens, violentando suas essências, personalidades e, baseando-nos apenas em situações ficcionais vagamente similares, emprestamos às suas personas a figura inalcançável ou mesmo inesquecível, irrecuperável, de um amor perdido para sempre.

Ultimamente tenho revisto, com bastante assiduidade, o antigo filme “Breakfast at Tiffany’s” (Bonequinha de Luxo), baseado em pequena novela do controverso escritor norte-americano Truman Capote. Assisti o mesmo pela primeira vez ainda adolescente, treze ou quatorze anos, em uma daquelas intermináveis reprises da TV passadas ao final da noite e, na ocasião, uma Audrey Hepburn silfídica, luxuosamente embalada por vestidos e roupas de Givenchy coroadas por sua beleza, alternante entre angelical e tentadora, imediatamente remeteu meus sentimentos mais escondidos a um amor, por mim considerado impossível, que cultivava desde tenra infância.

Sim, um verdadeiro escritor traz estes traços de nascença, mesmo antes de exercer sua profissão e isso pode ser uma lástima, a confundir todos os seus anos de vida posteriores, ainda que jamais adote – por prudência ou incompatibilidade com a pobreza – tal ofício.

É preciso dizer que a personagem, no filme, foi severamente “atenuada” por seus produtores em relação à obra original de Capote. Tal fato, aliado ao charme e à beleza exuberante da atriz e mais toda a atmosfera que a envolvia – o desejo indisfarçável por glamour, luxo e beleza – adesivaram à protagonista o status de “inatingível”, “inalcançável”, tal e qual sempre havia enxergado meu citado “amor impossível”.

Sim, da mesma maneira que o comum dos mortais suspirava diante das telas ao admirar uma Audrey, léguas acima de nossas pobres realidades cotidianas, também eu sonhava secretamente – e me conformava – com aquela que jamais poderia ter; bela habitante de um mundo superior e merecedora do mesmo por suas próprias qualidades, infinitamente mais refinadas e nobres que meus toscos mundo e viver.

E este foi o filme, este foi meu sonho.

Anos mais tarde, já adulto, li a pequena novela e vi que a personagem Holly Golightly (Audrey Hepburn) era apresentada em incontáveis degraus abaixo da encantadora garota mostrada no filme, sendo o mesmo livrinho recheado de sutis sugestões a temas que, depois, seriam – são, para ser exato – martelados por políticos, grupos e organizações de esquerda. Isso à parte, a mulher em si tal como é descrita, não apenas tem um fim diverso ao mostrado por Hollywood como, igualmente, exibe um comportamento bastante vulgar – para a época – e impermeável ao verdadeiro amor. Ou seja, do sonho cinematográfico despencamos para a história de uma garota de programa, sequer tão bela quanto a atriz que a encarnou. Sem querer emprestar demasiada “intensidade” à historieta de Truman Capote, ver o filme e só depois ler o livro seria como despertar de um sonho para a horrível realidade das carências humanas, em seu mais amplo espectro.

Seria um desacato – verdadeira calúnia – pretender aludir quaisquer deficiências de caráter a um amor que fracassou, apenas descrevo en passant o teor literário por desejar, com tal queda, significar a escuridão pessoal atravessada por aqueles que perderam amores; a queda do paraíso ao inferno, sem escalas, e a expulsão de um sonho para o ingresso ao pesadelo, ao desamparo e solidão – não à toa empreguei, no parágrafo acima, a expressão “a horrível realidade das carências humanas”.

Em meus cacoetes de escritor vejo, hoje, que passei uma juventude a sonhar com um filme; maravilhado e feliz vivi o mesmo já adulto mas, na velhice, ele acabou e sobrou-me apenas um livro, por demais desagradável – e sem nenhum personagem feminino, apenas a feira de vaidades e interesses que cercavam o protagonista, um aspirante a escritor o qual sequer chamava-se Fred.

E este foi o livro, este é meu pesadelo.

Ao menos, para o bem da sanidade mental, meu nome é verdadeiro.

Depois de tudo visto, tudo lido e vivido, aceitaria um café…



Walter Biancardine






quinta-feira, 6 de junho de 2024

LAMENTO, A TIFFANY’S FECHOU -


Existem certos insights que muitos de nós temos, de maneira eventual e sem nenhuma prévia e aparente razão, que por vezes nos fazem vislumbrar e compreender, deslumbrados, todo o aspecto de determinada situação. Em outras ocasiões tal epifania não se afigura tão maravilhosa – pelo contrário, nos ensombrece diante do triste, ou mesmo terrível, daquilo contido em tal e súbita percepção.

E o mesmo se deu comigo hoje, em uma manhã perfeitamente normal, na qual estava eu a escrever com uma das mãos e tomar o café da manhã com a outra. 

TV ligada, a desfilar vídeos aleatórios do YouTube sem que eu desse atenção, até que a escutei tocar a indefectível música Moon River. Neste momento abateu-se sobre mim, sobre o que ainda me resta de puro e verdadeiro nos sentimentos, a sombria certeza de que, para sempre, tomarei café sozinho: não mais uma Tiffany’s ao meu redor, não mais uma Audrey Hepburn a dar-me, com esmeraldas ainda sonolentas, seu doce “bom dia”. Não mais; nunca mais.

No filme “Breakfast at Tiffany’s” o personagem do ator George Peppard descobre-se apaixonado pela bela Audrey Hepburn e seus olhos de gazela. Reluta contra tais sentimentos, chega a abordar os mesmos com cinismo, pois bem sabe quem é a mulher que o destino irônico o fez amar, e tal luta interna – a inseparável distância – se desenrola ao longo da história. Mas havia um futuro pela frente, a insubstituível perspectiva de ainda ter tempo e vida diante de si.

Em meus dias não há mais Tiffany’s. Em lugar do cinismo adotei o escapismo, pois bem enxergo a viuvez por um coração que ainda vive e palpita – a inseparável distância.

E não há um futuro pela frente; meu insight foi a terrível certeza que os dias, os anos, o tempo, tudo passou e nada mais resta. 

A loja fechou, as prateleiras estão vazias, não há mais Audreys, fim do expediente.

Restam-me músicas e lembranças.

Coisa de velho.


There are no Audrey Hepburns in my Moonriver. 
The Tiffany's in my life went bankrupt.


Walter Biancardine