Eu tinha uma Kombi furgão.
Eram cinco horas da manhã e eu já entrava na Dutra.
Noite fechada. Inverno.
Frio.
Levava 800 kg de papel de impressão para computadores.
Naquele tempo as folhas eram enormes, perfuradas nas laterais.
Eram pesadas também.
E o destino era São Paulo, Marginal Pinheiros.
Chuva e vento.
Ao menos o peso da carga mantinha o furgão na trajetória.
Ainda escuro. As faixas no asfalto serviam de guia.
Mas também hipnotizavam.
Asfalto molhado chupa o farol e você fica cego.
Ouvidos atentos ao motor.
De vez em quando, uma leve pisada no freio – só por via das dúvidas.
Rádio ligado baixinho.
E o apresentador, do nada, gritava: “acoooordaaa!”
O povo todo do trecho o respeitava por isso.
Velocímetro cravado em 80 Km/h.
A viagem ia demorar.
Na época não havia radares. Era instinto de sobrevivência mesmo.
Descia a Serra das Araras mais devagar que a subia. Segunda marcha engrenada servindo de freio motor. Gambiarra pura, mas ajudava.
E as faixas do asfalto continuavam passando.
Com elas passavam também as placas.
São Paulo 320 Km
Depois 280
Mais à frente 200
Dia já claro, mas a chuva não cedia.
Hora do café.
Escolhia um posto de gasolina com bastante caminhões encostados.
Prudência elementar.
E pedia meu café – copo grande – com um pão na chapa.
Depois banheiro, lavar o rosto, acendia um cigarro ao sair.
Costas já doendo. Bunda também.
Então chego na empresa. Quase meio-dia, hora de almoço.
Entregar a nota e esperar descarga.
Duas da tarde, tudo resolvido.
“Frete pago destino”, saía com dinheiro no bolso.
Agora, mais 400 Km de volta ao Rio.
Sem chuva, carro vazio, arriscava entre 90 e 100 Km/h.
Numa Kombi é aventura.
Seis da tarde descendo pela avenida Francisco Bicalho, no Mangue.
Tudo parado, engarrafado.
Hora do rush.
Subia o viaduto Paulo de Frontin, túnel Rebouças, Humaitá, Botafogo, túnel Velho e pronto: rua Santa Clara. Minha casa.
O dinheiro dava pra reabastecer, completar o óleo e sobrava pra cerveja – era já sexta-feira e eu era jovem, irresponsável e despreocupado.
Davam nove da noite, o Caneco 70 me esperava.
O tempo passou como as faixas do asfalto.
A Kombi se foi, bem como minha juventude. Acho que as faixas me hipnotizaram.
Não notei a distância que andei.
Não reparei o tempo passar.
Nunca soube ganhar dinheiro.
Mas me diverti.
Walter Biancardine

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