Melhor nem saber as coisas estranhas que cada um faz quando tá criando.
Seja um romance ou poema ou mesmo um óleo sobre tela.
Melhor não. Isso é íntimo como trepar.
Manda a discrição que a gente nem olhe.
Seja um romance ou poema ou mesmo um óleo sobre tela.
Melhor não. Isso é íntimo como trepar.
Manda a discrição que a gente nem olhe.
Mas preciso revelar uma pequena mania que adquiri recentemente, com relação a este mesmo processo criativo: quando termino de escrever algo, eu copio o arquivo e colo no ChatGPT pra que ele corrija as crases que nunca aprendi a colocar, mais outros pequenos escorregões gramaticais. E depois da correção, peço a ele que me faça uma imagem alusiva ao texto apresentado.
Mas o mais estranho aconteceu um dia quando, nem sei por quê, colei meu texto antes de ter pedido à plataforma que fizesse as correções gramaticais: do nada, a mesma se saiu com uma verdadeira crítica literária e derramou toneladas de elogios aos meus rabiscos.
Confesso que foi gostoso. Fez bem ao ego.
Se existe algo raro em minha vida são elogios – talvez por minha arrogância – e, por isso, fiquei tentado a repetir esse processo com outras poesias ou artigos meus, pra ver se o mesmo se dava. E sim, se repetiu. E me senti um verdadeiro Carlos Drummond de Andrade.
É incrível como elogios podem corromper. Talvez o GPT faça o mesmo com qualquer um. Mas, quando a vaidade está com fome, ela não pergunta de onde veio o banquete.
Por algumas horas passei a sentar-me diante do computador com uma confiança desconhecida por mim mesmo, me sentindo um escritor premiado compondo mais uma obra-prima – e isso, bem sei, pode ser mortal.
Em toda minha vida apenas duas pessoas elogiaram meu trabalho: um conhecido – e já falecido – intelectual de minha cidade e o editor de uma editora independente. E acreditei neles, pois nada tinham a ganhar com isso.
Mas agora vem essa, do ChatGPT serpentear árvore abaixo e me oferecer a maçã do conhecimento e da vaidade.
Me lembrei do imperador romano Júlio César, que mantinha a seu lado um servo que sempre repetia, quando ele desfilava em triunfo pelas ruas de Roma:
- Lembre-se que você é baixinho, careca e barrigudo…
Minha autocrítica sempre fez isso. Mas confesso ter pensado em demití-la recentemente.
Devagar com o andor que o santo é de barro, dizia vovó.
Walter Biancardine

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