domingo, 26 de novembro de 2023

ALTER EGO

 


Se existe uma característica que procuro manter como jornalista, analista político, escritor ou mesmo mero cronista de "faits divers" é a de jamais apagar o que escrevi.

Por mais errados ou embaraçosos que sejam tais escritos - merecedores de um "delete" nas redes - penso que os mesmos tem o condão de expor ao leitor os impulsos, enganos, raivas, mágoas ou mesmo entusiasmos que põem o sangue dos mortais comuns, dentre os quais me incluo, em ebulição.

O ser humano é, por vezes, mero joguete de tais fluxos e refluxos emocionais, e ter a pretensão de expor-me como um robô - frio, mecânico, isento de emoções e capaz de opiniões infalíveis - não faz parte de minha lista de ambições e, sequer, considero um objetivo louvável. Meus erros e deslizes, tais como filmes do XVideos, são explícitos.

Andei, nas últimas semanas, vitimado por enxaquecas, furiosa dor de dentes e uma gripe cavalar, as quais prostraram-me na cama sustentado apenas por poderoso e lisérgico medicamento que, ao menos, aliviava tais mazelas.

Tão logo senti-me em forma, recebí a visita de meu irmão, a qual foi objeto de artigo o qual somente agora dei-me conta de haver escrito.

https://walterbiancardine.blogspot.com/2023/11/exagerado-jogado-aos-seus-pes.html 

Sim, pois não me recordo do quanto ou do quê bebi, mas seja lá o quê ou quanto foi, o álcool contido nos mesmos disparou o gatilho alucinógeno dos medicamentos.

Sensação estranha, de filme de terror psicológico, a de sentir-se um passageiro de si mesmo, aparentando normalidade absoluta (ao menos isso: sou um bêbado digno) mas com a consciência orbitando o planeta Saturno.

Talvez tenha eu falado um pouco demais, exagerado além da conta, insinuado tormentas sentimentais, mas não importa: tal comportamento não faz parte de meu cotidiano e deslizes assim, eu espero, podem ser perdoados.

Não apagarei o que escrevi - penso até que meu alter ego lisérgico tem algum talento, embora repita muitas palavras - nem pedirei desculpas por eventuais monstros subterrâneos meus, que tenham escapado momentaneamente.

Encerro esta dirigindo-me aos jovens, que apreciam tal combinação - álcool X medicamentos - para adverti-los a ter cuidado: após uma boa noite de farras, poderão acordar no dia seguinte cursando humanas na faculdade e votando no PT.

Quem avisa amigo é.

.

Walter Biancardine



sábado, 25 de novembro de 2023

EXAGERADO, JOGADO AOS SEUS PÉS -


Não vivi seis décadas para ser intimidado por dogmas mundanos.

Tudo pode me fazer mal, envenenar, aumentar meu colesterol, minha pressão ou encurtar minha vida. O que ninguém tem a sacrossanta coragem de dizer é O QUANTO disso preciso comer, beber, fumar ou fazer para que me prejudique.

Saí com meu irmão. Comi o que quis, bebi o que deu tempo, ri o que pude e guardei o choro no bolso.

O significado disso é muito maior que o atrevimento de qualquer poeta ou prosador, a passear sobre as alegrias ou desgraças alheias.

O valor disso é muito superior a quaisquer avisos sinistros e carontianos que todos os doutos, amparados pela magna ciência, tenham a autoridade de julgar.

Em meu cotidiano de náufrago em ilha deserta, tenho a autoridade moral - e física - para empanturrar-me, embebedar-me ou esvair-me em palavrório desconexo, pois tal não é minha rotina e, muito menos, o alvo de minhas atenções estava presente.

Hoje tive essa oportunidade, e valho-me de uma rede social para esfregar isso nos olhos daqueles que condenem os excessos.

Desvairios não matam.

Torná-los hábito, sim.

Salvo a ressaca, amanhã acordarei ótimo!


Walter.
Biancardine, eu acho.



domingo, 12 de novembro de 2023

AOS JOVENS DE HOJE, QUE INGRESSAM NO MERCADO DE TRABALHO:

 

Quando em um debate xingarem sua mãe, apontarem seu pé chato, hábitos sexuais ou uma legião de antigos relacionamentos que não te querem nem pintado de ouro, isto significa que seu adversário não tem nada de concreto, real, contra você, suas posições ou atitudes – isto se chama "argumentum ad hominem".

Igualmente, tal adversário pode estar tomado por sentimentos pessoais – raiva, despeito, frustração, inveja – ou, simplesmente, ter um QI de samambaia de plástico.

Ou tudo isso junto.

Por isso meu caro jovem, que agora ingressa no mercado de trabalho: se, em uma discussão, xingarem sua mãe, parabéns: você está com a razão e venceu a demanda!


Walter Biancardine



quarta-feira, 8 de novembro de 2023

MESSAGE IN A BOTTLE

 


Minha vocação é a escrita: jornalismo, teses, ensaios, livros, análises políticas, romances e até versinhos de pernas tortas, quando em agonia sentimental.

Muitos, porém, não entendem e creem ser estratégia de disfarce de um caráter duvidoso o fato de nenhuns pudores eu sentir em expor o que tenho de pior.

Acreditem: o que carrego de decrépito, mostro. E, se entre tantos deméritos um caráter vago, mau ou ausente existir, o mesmo poderá ser facilmente identificado no que escrevo.

E qual a razão de mostrar meu mais abominável?

Simples, pois tais desabonos são publicados entre diversos artigos que produzo e, assim, o leitor poderá ter a certeza de minhas linhas serem plenas de sinceridade - desejos de glória, reconhecimento ou elogios são, tais como os citados, inexistentes.

Se não há reconhecimento no que faço, igualmente não o procuro.

Minha ambição está quilômetros acima, objetivando que as pessoas raciocinem por si mesmas, que não sejam mais marionetes da grande mídia e que enxerguem versões censuradas de vergonhas públicas e explícitas.

E quem me lê saberá que nada ganho com tais atividades, que o desinteresse pessoal é absoluto - afinal, o quê um bosta como eu, já velho e acabado, poderia desfrutar disso?

O Brasil pede socorro, a inteligência humana envia seu S.O.S. e eu sou apenas a garrafa que carrega a mensagem.


Walter Biancardine



quarta-feira, 1 de novembro de 2023

FERIADO

 


Sem nenhum pudor escrevo sobre esta véspera, mesmo sabendo o significado do dia de amanhã. Sim, pois dores de perdas não serão amenizadas chorando sobre túmulos que muita gente visita (quando visita) apenas anualmente.

Não, a dor que quero falar é outra: é a dor da solidão; de não ter ninguém para sair, relaxar, conversar bobagens, fazer planos loucos ou mesmo engrenar em desafios intelectuais que, fatalmente, desembocariam em uma cama selvagem e plena de admiração.

Véspera de feriado, quero sair e não tenho como.

Véspera de feriado, quero beber um chope e não tenho com quem.

Véspera de feriado, quero um fim de noite com beijos mas não existem bocas.

Não existem bocas, não existem perfumes, não existem graça, encantamento, doçura e companhia.

Véspera de feriado, descubro que o finado sou eu.


Walter Biancardine