terça-feira, 31 de março de 2026

GARRAFA VAZIA -



Não existe nada mais melancólico que uma garrafa vazia
Feito a mulher bela que ficou feia
Ou o bom amigo que virou militante
Para uns, é como um pai velho, senil

A garrafa vazia é a festa que acabou
Só um traste, inútil, a ocupar lugar
Tal como os sorrisos e gentilezas 
Nessa mesma festa

Garrafas vazias são defuntos
Baixas da guerra contra a dor
É pau, é pedra, é o fim da alegria
E o início da ressaca

É o fim da farsa
E a porta da realidade

É o fim do dinheiro
Os boletos vencem

Garrafas vazias podem ser destino


Walter Biancardine  


FÉ, CARNE E OSSO -

 Os que tem fé acordam
felizes, sabem e confiam que há um deus
que os ama e cuida deles

Eles não o enxergam
nem conversam com ele
embora uns digam que sim, malucos

É a felicidade da fé 
ou seria se enganar para sempre
conforme aprendemos?

Esse deus não responde
não pergunta como vai nem ri
de suas piadas ruins

E me apontam o dedo
por meu credo vacilante, moribundo 
sujeito mau, devia crer

"Você tem que amar a deus"
dizem, como se amar fosse escolha
e nunca o maldito acaso

Pouco me importa 
eu também amo o que não vejo
não me abraça mas é real

Porque conversa comigo
me atura, discute, ri de mim e pra mim
e me dá toda a atenção 

Não a toco mas a tenho
ela está em mim e eu nela
ensinei coisas e dela aprendi

Que hoje será o dia mais feliz 
de toda a minha porca vida
é a força, a fé que preciso

Não escolhi amar
aconteceu, caiu como maçã 
a provar a gravidade

Ela sentirá meu peso
me sentirá sobre si, inteiro
e também crerá em mim

De que adianta ser deus 
se não há sobre quem sê-lo?
mas nossos espíritos voam


Walter Biancardine


sábado, 28 de março de 2026

I WISH YOU WERE HERE -


 
Não tenho mais saudades de lugar algum.

Mas tenho saudades de muitos tempos e quandos. 

ABSTINÊNCIA -

 Uma semana sem escrever.

Sem expurgar. Sem exorcizar. Convivência intensa com meus demônios, não me matei nem matei  ninguém. 

Fim de semana chega. Ao menos resta o sacrossanto direito à bebedeira - se me é difícil vomitar meus males para bois e cavalos, mais fácil se torna em um ambiente que me é familiar: bares, garrafas e a alegria forçada dos vencedores de Instagram.

Aí o assunto flui. A vontade de escrever não acaba.

O que acaba é a sobriedade.

E aí escrevo verdades duras demais para se suportar.

Um brinde a nós.


Walter Biancardine 



domingo, 22 de março de 2026

O ESCRITOR E O BLUESMAN -



As profissões juntas no mesmo título já definem o tipo de escritor a que me refiro.
Não é o cronista mundano, o romancista que sai nos jornais ou os viciosos onanistas dos "dark romances".

Eu falo do temerário, do suicida que chama seus demônios pra resolver as diferenças na porrada, em cada capítulo de seus exorcismos impressos.
Esse é o escritor. E assim é, também, o bluesman.

Há que se escrever com machucados pelo corpo. Dores nas costas, alergias, sangramentos, cascas de feridas. Mãos calejadas e músculos exaustos.
Há que se escrever com angústia, dor na alma, vícios terríveis e medo.

Ônibus lotado, o dinheiro acabou e ainda é dia 15.
Essa mulher parece que não enxerga o que passo! A vida que levo!
Esse merda é patrão ou feitor? 
Onde entrego o currículo?
As vagas já fecharam?

Mosquitos, poeira, sujeira.
Suor, tensão e vontade de chegar em casa. 
Que casa?

Pobreza, miséria e a lucidez cruel, que não aponta um bom final - apenas recomenda se embebedar. 
De novo.
Mas a bebedeira só te deixa mais realista, lúcido. 

E eu escrevo uma história ou um testamento?
Esse crioulo toca música ou está ganindo de dor?
Linhas ou gemidos?
Acordes ou agonias?

Em cada linha, cada acorde, há um lamento a suplicar por redenção.  Sempre.
E que a ressaca e o eterno pé na bunda inspirem, pois são o ser humano em seu estado mais cru de puro e natural egoísmo. 

A fome desespera. Traz riffs, versos, linhas, parágrafos inteiros de luta animal pela sobrevivência. 
Boca seca. 
Gosto ruim. 
Dor no estômago. 

Que a solidão e o frio da noite entoem longos uivos nas cordas da guitarra e nas tortas linhas de minhas histórias de desejo, amor, de sexo feroz com quem sequer o enxerga - o tesão sem recíproca é o acorde dissonante, tão ardido quanto a frase terminada em reticências. 
É o coito interrompido do fracasso, o colo que recusou o choro.

Esse escritor escreve blues em forma de livros. Neles, sangra sua alma e pede redenção. 
Sinceridade constrangedora, oração laica imprecando um Deus pagão que alivie sua carga.

O bluesman é um escritor com mais sorte - a melodia sussurra coisas, estados de espírito que nenhum parágrafo jamais dirá. 
Mas ambos se unem em desgraça. 
Choram por misérias verdadeiras que todos sentem, mas ninguém admite.

Ambos banidos. Ambos outsiders. 
Muito bons de se ler ou ouvir na vitrola, mas péssimos de se ter por perto - a menos que sejam de sua turma,  no bar.

Só que não existem mais turmas, não existem mais bares, sequer o papo furado, a filosofia de botequim.

Mas os escritores, os bluesman,  esses sempre estarão lá. 
Pois que as angústias, dores e paixões humanas sempre existirão,  sempre doerão.

Enquanto houver um único e maldito ser humano sobre a terra.


Walter Biancardine


sábado, 21 de março de 2026

CAMISA DE FORÇA - OU DE VÊNUS

 

Almoço e bebedeira com amigos.
O cantor chega. Traz consigo a melancolia do ontem.

Bebidas rolam.

Não é saudades de alguém. 
É saudades de um "quando".
Muito pior.

O cantor diz: "é preciso saber viver".
E respondo: "só espalho cores sobre um chão de giz".

Amiúde.


Walter Biancardine 



SOBREVIVÊNCIA

A chuva voltou. 
O chão do local onde durmo começou a inundar novamente.
Paredes verdes de limo e umidade. O preto do bolor forma figuras esfumadas, expressionistas, no rebôco. 
O teto, forro quebrado e laje aparecendo, permanece pingando. As janelas, embaçadas, vazam.
E não há portas - tenho de entrar e sair pela janela molhada.

Não tenho energia elétrica, então sequer posso ler. Mas não há o que ler: todos os meus livros, a biblioteca de uma vida inteira, ficaram pra trás, juntamente com a história de minha existência - roupas, ferramentas, lembranças de bons momentos, utensilios de cozinha, sapatos, cobertores, lençóis, travesseiros e o bendito ventilador - ninguém ofereceu um carro para me ajudar a trazer - sim, sou o vilão de um drama contado por uma boca maldita.

Vim com uma muda de roupa dividida em duas bolsas, mais o notebook. E, se não há energia elétrica, então não há internet. 
Ele jaz esquecido no fundo da mochila. 

Também não há água na construção, tenho de me valer de um cano solto em meio ao mato - banho, escovar os dentes, tudo. Seja noite, dia, com chuva, frio, não importa.
E mesmo que houvesse condições no prédio, nele não existem banheiros ou cozinha - trata-se de uma velha bilheteria que vendia ingressos de um parque aquático, em ruínas, após anos de abandono.
Mas é um teto.
E um teto situado dentro de terras não é uma marquise - sempre serei grato por isso.

E se tenho o chão sempre alagado por dois dedos de água, ao menos descobri uma velha maca de ferro - atendimento de emergência de banhistas afogados - que é bem alta e me mantém a uma boa distância do chão. Nela tento, desesperadamente, deitar e dormir - sem ventilador, com calor, suor e mosquitos. 

A privação do sono, sabidamente, enlouquece. O humor fica instável e imprevisível, o cérebro trava, a lucidez é um desafio e a burrice nos amarra mãos e pés. O quadro de tortura medieval se completa com o chão alagado, paredes mofadas, bolor, insetos e uma enlouquecedora coceira pelo corpo.
Sim, o nome é tortura - por mais que eu seja grato pelo teto - e sob ela me encontro há uns vinte dias.
Quantos mais virão?
Quantos ainda resistirei?

A minha pele já está tomada por bolhas e ferimentos. A coceira - em todo o corpo - infernal, incessante e diuturna, me faz coçar até sangrar e arrancar nacos de pele.
Não durmo porque coço. Porque suo. Porque tusso. Porque os mosquitos me atacam.
E a privação do sono, como disse, enlouquece. 

Os dias seguem com bichos andando ao redor e a escuridão encobrindo insetos impensáveis e dolorosos.
Chão sempre alagado, não posso pisar descalço - o que pouco se me dá, pois minhas Havaianas arrebentaram.
O que sei é que mofo, bolor, umidade, calor ou frio são a receita certa para celas solitárias em um bom romance russo de terror político.
Mas eu sou o personagem. O condenado. 

Se a morte é meu destino, um eventual perdão poderá vir do tempo, entretanto - do quão rápido eu consiga sair daqui.

Sou realista, não teatral - ninguém lê esta merda, o Google Analytics me vedou o acesso após estuprar meu YouTube, roubar 28 vídeos meus e me privar da renda (ninguém faz pix para quem escreve, o que importa é a dopamina dos videos) - e assim escrevo para mim mesmo, uma espécie de diário. Nem tudo o que posto aqui eu publico no Facebook - e este desabafo é um exemplo. 

E meu realismo me diz que não vou durar muito - seja física ou mentalmente - aqui. Ninguém duraria. É uma câmara de tortura sub-humana. Uma fossa mortal.

Mas ainda me restam forças e, com elas, a chance de conseguir um emprego. E o emprego pode trazer uma quitinete salvadora - chão seco, casa limpa, sem umidade. E luz elétrica, água quente, potável, banho, cozinha - dormir limpo e com ventilador. 
Geladeira, fogão e internet. 
E saúde, novamente. 

Meu prazo é curto.
Mas sigo tentando. 

Pela minha vida, e pelo único amor que me resta nela.

Amores não morrem.


Walter Biancardine 




sexta-feira, 20 de março de 2026

NÃO IMAGINO, NÃO CREIO -

 

Certos dias rio pra não gritar,
Piadas em lugar da morte,
Pois o riso é feito de lágrimas 
Destiladas ao mais alto grau de dor.

Que não me entendam,
Que não vejam coerência quando rio no luto,
Não preciso que me justifiquem, 
Nenhuma satisfação preciso dar.

Só conseguimos imaginar
Aquilo que nos cabe na cabeça, 
Por isso mentiras loucas
Expulsam as verdades absurdas.

Assim, existem dores que é melhor não contar,
Sofrimentos que muito bem ficam ocultos,
Vivências insanas que devemos esquecer,
Não cabem em ninguém, ninguém acreditaria.

E o tempo se encarrega de apagar
Junto com os risos de anestesia
E das lágrimas de alto teor alcoólico,
Que bebemos de um só gole.

A ressaca a gente vê amanhã, 
Tão inevitável quanto os dias, as noites,

E os sofrimentos da vida.


Walter Biancardine


sexta-feira, 13 de março de 2026

FIZ UM CAFÉ FRESQUINHO


Poucas frases me tocam tão fundo quanto esta.

Um velho cascudo de mais de metro e oitenta se sente desmontar, com o cheiro reconfortante, quente como um abraço. 

A boa conversa com um amigo velho, de pé ao balcão do botequim.

A segurança de uma mãe, feito sempre e pontualmente às 5 da tarde.

E as frases com variações sutis, mínimas, a traduzir um mundo, uma vida, uma história:

- É isso... vamos pra casa tomar um café, diz o pai ao final de um longo dia junto ao seu filho.

Sempre importante é o momento de por ordem nos pensamentos. Ao suspiro profundo, segue-se a sentença - vou tomar um café. 

É o longo ponto e vírgula necessário aos que vivem da escrita. A pausa que arruma as ideias, sempre amparada por cigarros, café e a caminhada pela casa. E tudo se arruma como num passe de mágica, nos reabastecendo com disposição suficiente para varar a madrugada a catar milho nos teclados.

Mas o melhor de todos - aquele pelo qual temos a certeza de valer a pena estar vivo - é aquele comentário discreto em meio a uma conversa com a amada, algo quase casual mas positivamente convidativo:

- Fiz um café fresquinho...

É a deixa. A frase incompleta. O chamado. O coração de portas abertas.

Feliz do homem que ouve isso de sua eleita.

Que ele tenha juízo.

E dê o devido valor.


Walter Biancardine



segunda-feira, 9 de março de 2026

SÃO AS ÁGUAS DE MARÇO -



Chuva furiosa e contínua, aqui.

Acordei 5:30 já chovendo forte. São 11:40, permanece igual. 

Aqui, desbarranca-se uma encosta. As águas levam mourões e o farpado da cerca, tudo embora, descida abaixo.

No Rio de Janeiro, ruas alagam. Táxis somem e dobram de preço. Ônibus lotados embaçam seus vidros, com tanta gente enlatada. E os carros, sempre com um ar superior, seguem blindados e isolados por vidros, climatizadores e Insulfilm.

Aqui é respirar fundo, consertar o estrago e vida que segue. É a natureza, as coisas são assim mesmo apesar de nossos xingamentos. 

No Rio, chega-se atrasado no trabalho. Chefe olha com cara feia - se ele estiver lá. A roupa, molhada da chuva, faz o pobre e promissor profissional congelar no ar-condicionado. Talvez a única coisa humana naquele ambiente asséptico seja o café. Mas que seja breve.

É proibido fumar. Conversar atrasa a produção. Rir não combina com relatórios. E as mesas são limpissimas às custas de Veja Multi-Uso.

Sem marcas de trabalho. Sem riscos, desgastes ou rachaduras de esforço. Sem manchas de suor ou dedos sujos. Um porta-retrato com o cônjuge e Fluffy, seu filhinho pet.

Aqui é um barracão de madeira que serve de oficina e depósito. As tábuas cruas e grossas da bancada não tem mais ângulos retos ou rebarbas, os anos de uso arredondaram todas as quinas.

Chão preto de graxa e óleo motor, polvilhado com serragem e muita lama trazida nas botas. Tudo cheira a gasolina. Luz, quando há, é sempre uma só lâmpada e mal posicionada.

E na porta desse barraco tomamos café - forte e quente - sem nenhuma pressa, observando a chuva e o frio que ela traz. Quem sabe quando vai estiar é São Pedro, não nós. 

No Rio a chuva passa e ninguém nota. Os olhos só enxergam a tela azul do computador. No máximo, um prefeito sobe numa favela em busca de demagogia e noticiário na Globo. E continuamos na tela. Produzir é tudo.

Aqui, a chuva espera até que acabemos nosso café, o cigarro e a prosa. E então ela passa.

Hora de consertar os estragos, lama até as canelas, músculos, suor e testosterona.

Tudo igual, desde que o mundo é mundo e homens são homens.

Vida que segue.

Continuo escrevendo.


Walter Biancardine



sexta-feira, 6 de março de 2026

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, BURRICE NATURAL -

Me dei conta hoje que metade do Brasil tem, atualmente, o dom da escrita.

Vejo postagens no Facebook muito bem redigidas, bem estruturadas, pontuação certeira - mas sem alma, sem vida, sem consistência ou emoção humana.

A verdade é que, se faltar luz, a burrice desabará sobre esse povo feito uma laje de concreto.

Tipo professores cheios de títulos e diplomas, que não apenas fraudam seus artigos como - pior - até seus comentários são paridos por um ChatGPT. Por isso jamais aceitariam um debate ao vivo, no YouTube, para defender suas posições. 

Para o ser humano médio contemporâneo, a eletricidade é mais vital que a própria água ou o ar que respira.

São os bits e bytes que, de fato, hoje os definem como indivíduo.  Supostamente pensante.

Somos mantidos vivos às custas de aparelhos.

Telefones celulares, para ser exato.


Walter Biancardine



quinta-feira, 5 de março de 2026

EU, SONSO -

 Recentemente repeti uma verdade antiga para mim: quem se dedica ao trabalho intelectual precisa, sempre, do trabalho braçal como complemento - ou perderá contato com a imundície a qual chamamos "realidade".

É algo que, estou seguro, é uma verdade incontestável. 

Mas sou um hipócrita e não a sigo assim, tão na risca.

Recentemente ajudei um vizinho a destelhar sua varanda, coberta por velhas e podres Eternit's. 

Após isso, instalamos as novas e levamos as antigas para um novo e suntuoso chiqueiro que ele está construindo - certamente para porcos de alta classe, bacons de elite que não se satisfazem com nada menos que a melhor das imundícies. 

Lá, ajudei a instalar as pesadas peças de fibrocimento e agora posso responder onde está minha hipocrisia: se encontra no fato de que estou morto. Dolorido. Enferrujado. Decrépito. 

Deixei o Rio de Janeiro com apenas uma mochila e duas bolsas. E por ter gasto o dia as carregando, cheguei aqui em Cabo Frio fisicamente destroçado. E veio o chiqueiro, para piorar minha situação. 

Sim, é fácil recomendar, pregar, falar.

Difícil é fazer.

Não sou mais um garoto. 62 anos já me pesam nas costas e não possuo mais as antigas forças e resistência. 

Tudo dói. Tudo range. Tudo estala.

Mas, ao menos, tento.

Se o amigo leitor é um trabalhador intelectual reclamando que tem de ir ao mercado e trazer as sacolas até sua casa, fica a dica: você já morreu.

Desmorra antes que seja tarde, ou suas criações estarão cada vez mais distantes da realidade.

Levanta, Lázaro!


Walter Biancardine



UM XÁ DE CADEIRA -

Ultimamente tenho dedicado os dias à me readaptar. Até a roça muda e descobri algo que, na vez anterior que vivi aqui, não havia obtido: um ponto milagroso, na linha de visada de distante antena de celular, onde às vezes consigo captar algo da internet. 

É bom. Posso mostrar que ainda vivo e me mantenho sabendo vagamente das coisas - embora a maioria delas não mais me interesse.

Soube, por exemplo, que o povo do Irã - creio somado a um empurrãozinho de Trump - parece estar tentando dar um pé na bunda daquela maldita raça dos Aiatolás. 

De fato, lembro quando essas viboras tomaram o poder em 1979. O Irã era um país rico - lógico, pois quem deseja o poder em um país quebrado? - altamente ocidentalizado nas mãos do Xá Reza Pahlevi. Ostentava uma impressionante quantidade de mulheres lindas - fantásticas mesmo - a desfilar suas abundâncias nas ruas. Tinham dinheiro, deusas das Mil e Uma Noites nos braços e uma vida boa. E isso incomodava os Aiatolás, raça possuidora de evidente patologia contra o sexo oposto e a felicidade alheia, como um todo - tal qual os esquerdistas.

Em 1979 eu era um jovenzinho de 15 anos. Inocente, irresponsável, cujas únicas preocupações eram se meus artigos seriam aceitos no Pasquim ou JB, bem como pegar onda na praia, ler e planejar viagens de bicicleta. Eu era um guri quando os Aiatolás tomaram o poder.

Hoje, 2026, estes mesmos facínoras tem seu reinado aparentemente encurralado  - e eu sou já um velho.

E se eu fosse iraniano?

Teria gasto os melhores anos de minha vida tolhido por uma ditadura. Não poderia falar. Não poderia escrever. Não poderia sequer ter sexo, a depender de minhas escolhas ou hábitos. Uma vida inteira útil jogada no lixo, tal qual fiz com a minha no Brasil. 

A diferença é que aqui, se joguei tudo fora, foi por minhas escolhas. Eu decidi. Eu arrisquei. Não posso culpar ninguém. 

Mas no Irã eu poderia, pois teriam decidido por mim, escolhido por mim e até, quem sabe, ter sido castrado por meus desvairios sexuais ou condenado a 100 chibatadas diárias por minhas bebedeiras. 

Vejo hordas de imbecis babando o Ladrão de 9 dedos. Eles sabem muito bem que a esquerda, o "progressismo", tem como principal objetivo a implantação de ditaduras - mas fingem ser mentira. Esse povinho militante e das redes sociais quer, sim, uma ditadura. Os patifes creem piamente que ganharão cargos muito bons na mesma, por gratidão dos poderosos. De fato, ditaduras são ótimas. Para quem vive delas.

Um dia, entretanto, farão ou falarão alguma besteira. Algo que desagradará o Todo-Poderoso vigente. E cairão em desgraça - proscritos, conhecerão o outro lado da moeda. O lado podre.

E finalmente torcerão pelo fim da ditadura. 

Se derem muita sorte, este fim chegará com eles - e nós - ainda vivos. Vivos mas velhinhos. Decrépitos. Vida jogada fora.

E aprenderão, tarde demais,  que não se brinca com a liberdade - estamos sempre a uma simples eleição de perdê-la. 

Como já a perdemos, por aqui.

Só o martírio nos compra a dignidade de volta.

Nunca é fácil. 

Nunca é com eleições. 

Nunca é sem dor.

Nunca é sem sacrifício. 

Nunca é sem sangue.



Walter Biancardine





DOR E SUJEIRA -

Existe um local por aqui onde consigo acesso a internet. Isso é bom. Podem saber que estou vivo.

Sim, estou vivo. E repito o que sempre disse: quem vive de um trabalho intelectual tem por obrigação - obrigação - gastar o corpo em serviços braçais.

O cérebro seduz. A cabeça é traiçoeira. A inteligência envaidece.

E logo perdemos, facilmente, o contato com a realidade.

A suja, dolorida e porca vida real.

Essa imundície é a essência da lucidez. 


Walter Biancardine



MANGALARGA


Este é o manga larga marchador de um vizinho, grande amigo.

Chamo o bicho de Blasé pois, como todo cavalo de raça, é metido a besta e sofisticadissimo. 

Imagino que use ferraduras cromadas e, no lugar do bom e velho colonião, só coma ração enriquecida com Ômega 3, Magnésio e Tadalafila.

Lindo, mas muito metido.

Não quer nada comigo.


Walter Biancardine



OUTDOOR -

Não existem mais pessoas.
Existem outdoors.

De ideologias, neuroses, condições sociais, preferências e hábitos sexuais.

Roupas não são mais questão de praticidade ou elegância. 
Acessórios não são mais meros adereços.

Tudo é propaganda. 
Marketing.

Um "statement" ambulante.


Walter Biancardine



domingo, 1 de março de 2026

RETOMANDO DE ONDE PAREI

 


Olho o relógio. Meio dia e vinte e quatro. Eu seria capaz de jurar serem mais de 14h.

Acordo agora ainda noite. O dia amanhece em minutos. Fica longo.

Em poucas horas perdi a conta de quantos cumprimentos parei para dar. Em um local tão isolado, difícil entender como conheço tanta gente. 

O motorista do ônibus. A dona da banca de jornal que me vende cigarros. Fora o resto todo que anda por aqui, mais perto. Vizinhos, se é que posso chamar assim.

E tem os cavalos. Revi o meu Baião, à distância. Meu amigo boiadeiro, seu Jó, não trabalha mais na fazenda aqui ao lado.

Ele deixava Baião comigo e me dava queijos, frescos, lá produzidos. 

Sem condução e sem queijo.

Mas tenho agora um trio de cães, no lugar do sr. Wilson: TDAH, Cara Larga e Piranha, três cadelas que por aqui habitam e conversam comigo, na falta de orelhas e garrafas disponíveis. 

Me dei conta de que, aqui, conheço tudo e todos. Me dei conta que o Rio de Janeiro que me doía o coração era apenas uma lembrança.  Mais de um quarto de século se passou e o que eu sentia falta - pessoas, lugares e objetos - morreram, foram demolidos ou tiveram o lixo como destino - não necessariamente nesta ordem. Minhas saudades se resumiam a lembranças. 

E eu, burro, não enxerguei isso.

Apenas ainda não entendi como me enraizei tão rápido aqui na roça. 

Mas sei que tem algo a ver com a amplidão,  com horizontes infinitos, silêncio absoluto e animais como amigos sinceros.

Apenas preciso conciliar isso com eventuais visitas aos meus amigos Carlos Bara e Ricardo Preto.

Sem eles, as bebedeiras  não fazem sentido.

Sim, ando devagar porque já tive pressa.


Walter Biancardine