sexta-feira, 10 de julho de 2026

TBT

 

Creio passar por um claro momento de retorno.
As redes sociais têm me enojado ao ponto de engulhos, e nelas só permaneço pela divulgação de meu trabalho.
A tal ponto cheguei que comprei uma máquina de escrever.
Não é boçalidade, mas uma conclusão lógica.

Se escrevo no computador, tenho a compulsão de olhar as redes (“só uma espiadinha”) a cada meia hora, e isso empata meu trabalho e atrofia a criação – a dispersão não fecunda.
Por outro lado, batendo à máquina estou isolado do mundo virtual.
O computador está fora de alcance e a tentação não me atinge.

Olho as teclas.
Eu e a máquina, olhos nos olhos.
Intimidade.
Nada me distrai, a cabeça trabalha.
Aspiro o cheiro de óleo Singer.
Boto o papel no carro da máquina.
E meu ato de escrever pode ser ouvido do lado de fora da casa.

Datilografar não é digitar.
Digitar pode ser descuidado e aleatório, pois sempre existe o “backspace” e somente um “salvar” definirá se nossos erros e acertos serão exibidos.
Datilografar exige disciplina.
Cada palavra precisa ser pensada, antes que estrague a lauda inteira e você tenha de bater tudo de novo – e gastar mais papel.

Há um silêncio. Não de barulhos, mas de ruídos visuais; informação desnecessária e dispersiva seduzindo você nas telas. Só atrapalha.
E isso devolve à composição escrita sua verdadeira dimensão: imersiva, reflexiva, profunda – e se escrevemos bobagens, sempre serão lastreadas por tudo isso. Não há como subverter regras sem conhecê-las à exaustão.
E por isso volto a escrever tal qual fiz metade da vida: à máquina.

Não se trata de abominar computadores.
Continuarei precisando deles para enviar o que escrevo para as editoras e até para postagens de divulgação, nas redes.

Mas não mais os usarei no ato de criar.

Toda concepção nasce de algo íntimo.
Não de algoritmos.





Walter Biancardine





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