começa sempre com a primeira frase
imperativa e alegre: “campeão!” ou pode ser
também “meu chefe” ou “consagrado” ou até
“pinguim” para os já íntimos
pede-se então as “loiras”, as “cervas”
as “geladas” e sempre com a recomendação
que estejam como “canela de pedreiro”
ao chegar vem a última frase litúrgica
que é “vamos abrir os trabalhos”
e os copos vão sendo enchidos de acordo
com a ordem da demagogia ou intimidade
e apreço daquele que a serve
a primeira fase é de falatório e risadaria
tudo muito alto como que testando os
vizinhos de mesa
depois a coisa se acalma um pouco
conta-se casos ou explicam-se vexames
ou situações ou mal-entendidos
e até por vezes brotam oportunidades
e oferecimentos
depois vem a fase da revolta
onde todos ficam radicais e bradam
em resumo que “é do jeito que eu quero
ou foda-se tudo”
enquanto todos riem
após isso e já mais pesados
surgem alguns lamentos amorosos
segredos do casamento e até
alguns casos extra-conjugais
que ninguém sabia
pois o corno confessa
terem sido dela
e ele ficou
“mas foi pelas crianças”
sempre
e sempre
já chegando ao final as amizades
se exacerbam e todos desde sempre
são “seu amigo pra caraaalho” e te
“consideram pra caraaalho” e dão
a vida por você
e pela bebida que você pagou
e vem o penúltimo ato
triunfante como uma obra de Wagner
e a transcendência de Bach
trazendo Amado Batista à mesa
entoando “aqui nessa mesa de bar”
e todos cantando abraçados
enlevados por aquela
sublime amizade
e eis que chega o réquiem desta
ópera bufa dos botequins mais imundos
que se repete todos os dias
por todo o Brasil
a conta chega e como vamos dividir?
súbito quase todos tornam-se
sóbrios e tentam escapulir
alegam só terem tomado
dezoito cervejas mas sempre
e sempre tem um que
permanece chapado
e diz com autoridade
“essa é comigo”
e fecham-se as cortinas
e nos banheiros de cada casa
os vômitos se cumprimentam
telepaticamente
enquanto mulheres furiosas
veem TV e dizem que
“amanhã ele vai ver”
Walter Biancardine

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