quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

NANA NATAL -

 


Pai do céu, 

Pai Noel,

Protege em seus braços 

Quem tanta dor já sofreu;

Livrai do mal que viveu,

Soltai esses laços, 

Derramai o seu mel.


Traga um presente,

Nos dê sorridente,

Em seu amor que não cobra;

Acolhe no colo,

Raízes no solo,

E a vida desdobra

Nessa noite tão quente.


E se Noel não existe

O sonho insiste,

Pois o céu nos abriga;

Ressona em meu peito,

O mal é desfeito,

O amor já nos liga

E Deus nos assiste.


Walter Biancardine 




terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NATAL COM UM AMIGO -


Nunca fui referência para ninguém; toda a minha vida sempre foi estranha e contraditória e mesmo tantos anos frequentando redes sociais - os quais acabaram por situar-me como um "conservador" aos olhos alheios - jamais conseguiram aprisionar meu monstro interior em rótulos, embalagens e definições, as quais apenas tornam todo o universo que habita a alma humana em um porco e simplório estereótipo.

Onde um conservador - dos atuais, daqueles que postam no Instagram e estão a apenas um degrau abaixo da santidade do padre Pio de Pietrelcina - se embebedaria até cair desmaiado, em casa? Onde um legítimo guardião da moral e dos bons costumes espiaria, sedento, a bunda de sua linda amada em qualquer descuido que ela desse, mesmo não sendo ainda casado com ela? Em que hipótese apocalíptica este conservador - bastião da correção de atitudes - jamais teria oferecido uma "merreca" pro guarda liberar seu carro com IPVA atrasado?

Sim, esta coisa imunda, abominável, falha e quase inviável - também chamada de "ser humano médio" - sou eu, e por isso o cotidiano hipócrita da "direita conservadora" (essa, a do Instagram) tem me enojado e forçado a conclusão de que a mesma é apenas uma esquerda com sinal trocado.

Se a esquerda tem papagaios que apenas repetem slogans e palavras de ordem, os "conservadores de Instagram" são capazes de repetir artigos, textos ou até videos inteiros, como fossem de sua autoria. Repetem ad nauseam temas que já passaram, se detém em factóides que são, claramente, "false flags" - a sandália Hawaiana é um deles, pois enquanto todos repetiam opiniões alheias, ninguém comentou a sobretaxa de 30% de imposto em bebidas alcoólicas (o "Imposto do Pecado", aprovado pelos deputados Federais) ou a nova lei que invalida a CNH de devedores.

E então chega o Natal, data que a vida já se encarregou - com soberba competência - de retirar todo o significado para mim e transformou a Noite Feliz em um enorme e empoeirado galpão de lembranças inúteis. Olho para o que fiz, no inevitável balanço de fim de ano, e descubro que passei uma vida lutando contra o inimigo errado: soubesse eu o que sei hoje e jamais teria desperdiçado tanto tempo lutando contra ideologias, quando o maior problema é a falta de caráter dominante.
E me sento no sofá.

Quis o bom Deus que eu tivesse ao menos um amigo fiel, o bom e velho Jack, e com ele me consolasse de tais desvios do destino.

Sim, Jack - o Daniel's - é um bom sujeito: me dá a liberdade de falar o que sequer sabia que poderia, me deixa à vontade para me perder em galanteios chorosos pela amada que não me quer, me faz esquecer uma lenda chamada dinheiro - sim, em minha vida é lenda - e me dá a coragem necessária para dizer um amplo, sonoro e corajoso "dane-se" para todas as minhas dívidas, minhas lutas inglórias, minhas asneiras olímpicas e toda a ampla coleção de equívocos que me tornaram isso que sou: alguém que chamam de "conservador" mas não passa de imundo pecador.

Sim, pois não tenho estofo d'alma para preencher os requisitos morais do conservadorismo do Instagram.

Resta-me eu, o amigo Jack e uma boa ressaca no dia 25.

Feliz Natal a todos!


Walter Biancardine


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

BERCEUSE POUR NANA -


Nana neném, meu bem,
o mundo é rude - eu sei -
mas nada te alcança além
do abraço que te dei.

Nana, neném e flor leve,
que a noite não te assombra;
se algum temor se atreve,
eu o calo antes da sombra.

Dorme sem peso, enfim,
que eu guardo o que te falta;
se o mal vier contra ti,
em mim se sobressalta.

Dorme, amor meu, Nana assim,
tranquila, mansa, serena;
pois tudo em mim diz por mim
que te amar é a minha pena -
e a minha alegria também.


Walter Biancardine


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

“PODERIA TER SIDO” NÃO SUSTENTA UMA VIDA -


Não é novidade para a meia dúzia de almas que me seguem o fato de eu sempre ter sido alguém com uma quase mórbida fixação no passado. Já escrevi artigos, ensaios e mesmo um livro, cujo tema central era a fixação do protagonista com os dias idos, onde ele imaginava terem sido melhores e que, tivesse agido de outra forma, o presente seria diferente e bom.


Não vejo problemas em apreciar antiguidades, automóveis vintage, músicas de outras décadas – até porque as atuais não merecem assim serem classificadas – e demais apetrechos da rotina de outrora. Uma pessoa que não valoriza aquilo de bom que já foi feito não possui base para julgar o que lhe é oferecido nos dias atuais, e assim, satisfaz-se com qualquer coisa.

A preocupação começa quando começamos a achar os dias passados – memórias, em suma – melhores do que a árdua tarefa de viver o presente, e isso pode se configurar em verdadeira patologia, a depender do grau atingido.

Pois esta patologia atinge seu grau máximo quando gastamos os dias que Deus nos deu a lamentar por amores perdidos – na verdade, perdido está quem assim age, pois sofre de uma dor que se condenou a não mais parar de sentir. “E se eu não tivesse feito isso?” Ou “e se eu houvesse agido diferente?” E esta é uma sentença que pode ser perpétua, se o condenado não enxergar que – não importam as causas – o amor se foi e nada mais pode ser feito.

Sim, todo amor que acaba é triste e um luto deve ser cumprido, mas tal resguardo não pode se transformar em um museu de sentimentos, no qual estaremos servindo como meros visitantes das obras ali expostas – posso ver, mas não tocar. Isso é torpe, cruel ainda que autoimposto, e deve ter um fim no mais breve tempo possível. Gastar uma vida entre lamentos e saudades é condenar-se à estagnação e, queiramos ou não, os dias passam.

Falar é fácil, entretanto. Para alguém como eu, que reconhece a própria doença, torna-se quase um cinismo – a apostasia dos mal amados, como já escrevi. Mas gastei décadas de minha vida entre fracassos e lembranças, poucos anos me restam e não pretendo gastá-los na ante sala de um museu.

Também escrevi, em um arroubo de raiva, que sinto saudades apenas de quem ainda não conheci – mas logo caí em mim e confessei ser a saudade mais dolorosa a que sentia de mim mesmo, de minha inocência e ilusões. Pois que esta última seja jogada no lixo – sou o que sou, um amontoado de defeitos e qualidades e não vou mais me importar com isso.

Que me reste a saudade de quem não conheço – e Deus sabe o esforço que faço por este otimismo.

Um novo dia sempre vem.

Há de vir.


Walter Biancardine


domingo, 16 de novembro de 2025

CADA VEZ MENOS JORNALISTA -


Primeiro veio o cansaço após um dia de trabalho duro, e deixei para escrever de noite.
Depois veio a falta de internet, que durou até agora há pouco, e deixei para escrever de tarde.
Agora a tarde chegou e nada quero escrever, mesmo com um Brasil em chamas e a vergonha de comemorarmos um golpe de Estado que depôs um Imperador amado, tudo por culpa de chifres remoídos e recalcados.

Não, nada quero escrever. O ímpeto jornalístico está cada vez mais fraco, em proporção direta aos meus naufrágios pessoais - e isto, profissionalmente, é péssimo: como confiar em alguém assim? E os prazos? E o sempre explosivo factual das matérias? E o leitor?

Me sinto cada vez menos jornalista e cada vez mais mergulhado no egoísmo do escritor, a trabalhar somente sob o tacão das musas ou das desventuras, tudo isso como corolário de um enorme e narcísico ego que viciou-se a usar a escrita como divã de analista. E isso é inviável, intragável e - pior - inaproveitável, editorialmente falando.

Neste momento não quero escrever. Aliás, sequer desejo existir. Todo meu desejo se resume a possuir um botão "on/off" para desligar ou, ao menos, um "reboot" que reinicie meu coração, que salve minha alma, que me conceda a redenção.

Desejo ou redenção?

Para mim, o livro que escreví - "Pretérito Perfeito" - quase me pareceu uma profecia que se cumpria, mas creio que meus poderes mediúnicos sempre foram abaixo da média - e, por mais que parecesse, tudo se resumiu a nada. Apenas a pergunta - desejo ou redenção - permanece, por mais que me doa ter julgado encontrar ambos em uma só alma.

Mas não somos donos da alma de ninguém - eu, sequer da minha - e nenhuma vontade tenho de fazer jornalismo.

O antigo iceberg derreteu.

E manchou a cama.


Walter Biancardine



quinta-feira, 6 de novembro de 2025


Escrevi que Deus não usa relógio. Tentei até explicar amores. Muita gente não entendeu. Eu não me entendi. Muitos não sabem. Eu também não - mas sou teimoso.

Por isso piso, repiso, bato no mesmo prego e esmurro a mesma ponta de faca.
Eu tento.

O AMOR, O RELÓGIO E ALGUM TROCADO PRA DAR GARANTIA -
Muito já se disse sobre o amor, mas quase tudo foi ruído de ferida. Poetas o cantaram, santos o ofereceram, filósofos o desconfiaram – e no fim ninguém saiu ileso. Porque o amor, quando é verdadeiro, não é um sentimento: é uma ferida aberta por onde o eterno tenta entrar.

Amar é sempre sofrer um pouco – não por castigo, mas por grandeza. Só o que ultrapassa os limites da carne pode doer assim. O amor é o peso do infinito sobre um coração finito.

Santo Agostinho, que sabia mais de lágrimas do que de definições, dizia que “amamos para não morrer”. E estava certo: o amor é a recusa da morte. É o protesto do espírito contra o relógio. Todo amante, no fundo, quer que o instante dure para sempre – e é por isso que ele se desespera.

Mas Deus, com sua ironia amorosa, fez o tempo para ensinar-nos a esperar. E é aí que o amor se torna mais divino: quando aprende a ser paciente sem deixar de arder.

As almas certas nem sempre se encontram na hora certa. Às vezes o amor chega tarde, como uma bênção fora de sincronia. Um está preso a deveres, o outro a feridas; um está pronto, o outro já cansado. E o mundo, cruelmente pontual, fecha as portas que o coração abriu.

Não é tragédia – é liturgia. O amor humano é sacramento imperfeito do Amor divino: contém a forma da eternidade, mas dentro de um vaso que se quebra. E cada desencontro é um lembrete de que o Céu ainda não começou.

Pascal escreveu que “o coração tem razões que a razão ignora”.
Talvez a razão do amor seja justamente essa ignorância: amar é aceitar o mistério de não entender, e ainda assim permanecer.

C.S. Lewis via no amor a escola da renúncia: não para sufocar o desejo, mas para purificá-lo. Ele dizia que o amor só é pleno quando suporta o risco da perda.
E esse é o ponto em que o humano se toca com o divino – quando amamos não para possuir, mas para servir, para permanecer mesmo na ausência.

Há quem diga que o amor é só uma ilusão biológica. Pobre ilusão essa, que atravessa séculos, destrói impérios e consola moribundos.

Rilke, que sabia das solidões humanas, dizia que amar é “guardar o outro no coração como uma tarefa”. E é isso: uma tarefa. Sagrada, cansativa, luminosa.
O amor não é um consolo, é convocação.
Não é uma pausa na vida, é o próprio campo de batalha onde alma e tempo duelam pelo direito de permanecer.

Deus não nos quer anestesiados de felicidade, mas maduros de esperança.
E maturidade, neste mundo, é saber sofrer com elegância, sem se embrutecer.
Porque o cinismo é a apostasia dos que amaram mal.

No fim, o amor é a pedagogia mais sublime da perda. Ensina-nos a morrer um pouco a cada dia – e ainda assim agradecer pela vida.
Chorar é rezar com os olhos.

E o amor, mesmo quando falha, não é um fracasso – é um ensaio da eternidade.
Que ele doa, sim. Mas que doa como um coração crescendo.


O AMOR TEM SEDE DE SANGUE -
O amor entrou no quarto com botas de chuva, pisou o tapete da inocência e estourou o vidro da janela. Se vestia de riso, trouxe a cicuta, o sono leve e o pensamento pesado.

Você quis um alguém para sempre – imbecil de fé – que veio como espelho quebrado, te refletindo mil vezes e devolvendo metade com cortes, com sangue e rotina.

Sussurrou juras de amor e você engoliu, sorrindo, sem ver o limo da promessa.

E você virou mesa posta, prato servido, a comida que gosta – e o garfo tremeu antes do brinde.

Porque amar é isso: domar o fogo com as mãos nuas, servir a ceia e ter sede no meio da festa.

O amor dói quando nos joga na cara: imortais só quando sonhamos – e quando a chama apaga, sobra a fuligem da pele desejada, só as gotas da vela fumegante são testemunhas.
Se deite no colo, encontre abrigo, e acorde no abismo da própria ausência.
Sangue escorre, não só da carne, mas da alma que se jurou indestrutível.

O tempo é carrasco e amante, vestido de sonho, fez ar condicionado no inferno, cantou “amor, amor” e fechou a porta.
Almas certas chegam tarde – uma tombou, outra foi embora. Uma traz o alforje, a outra os grilhões.
E o amor humano, esse pobre idólatra, sempre perde contra o relógio.

Mas eu digo verdades, o amor vale mesmo assim. Vale porque é o bom combate, vale porque, no fim, sobreviver ao amor não é fugir da dor – é dançar com ela, olhar nos olhos e dizer: “sou teu espelho quebrado, ainda assim me refaço”.

Então sim: o amor tem sede de sangue, que só se sacia na febre.

O amor bebe ternura – e no fel, na ferida, encontra-se o resíduo de divino: todo amor que hover nessa vida.

Porque amar é morrer todos os dias, querer levantar para o café da manhã com o outro.

E algum trocado, pra dar garantia.


Walter Biancardine


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

DEUS NÃO USA RELÓGIO -


I – O tempo que não passa em Deus
Deus não usa relógio.
Essa frase, dita ao acaso, soa como consolo de beato – mas é, na verdade, um abismo metafísico.
O homem mede tudo em horas; Deus, em essências.
O que para nós é demora, para Ele é medida justa. O que chamamos de acaso, Ele chama de providência.

Santo Tomás de Aquino, na Summa Theologica (I, q.10, a.1), define a eternidade como “posse total, simultânea e perfeita da vida sem fim”.
A eternidade, portanto, não é tempo estendido ao infinito; é ausência de tempo.
Deus, sendo ato puro, não “espera” nada, pois já contém em Si toda a plenitude do ser.
Mas nós esperamos.

E nesse hiato entre o eterno e o temporal se instala a tragédia humana.
Deus traça o fio da providência sobre uma tapeçaria que só vemos pelo avesso: nós enxergamos o nó, Ele vê o desenho.

II – A lentidão divina e a pressa humana
Deus governa o tempo sem ser governado por ele – e isso fere a alma moderna, que só sabe amar o que é instantâneo, imediato, bom para sair no Instagram.

Vivemos sob o tirano tique-taque da urgência metabolizada pelo vício em dopamina cibernética. Queremos promessas com prazo de entrega, bênçãos com data de validade, amores sem espera.

Nosso drama é exigir que o eterno se comporte como um aplicativo, bastando clicar e obter.
Mas a Providência, ensina Santo Agostinho, é uma pedagogia e Ela não se apressa, eis que o tempo é uma ferramenta educativa. Em Confissões (XI, 13), o bispo de Hipona escreve:

“O que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei.”

Eis o espanto de quem compreende que o tempo é o lugar da nossa ignorância.


A eternidade, para nós, é incomunicável; só a sentimos em lampejos – na oração, no amor, na arte, no arrependimento. E Deus nos educa por meio desses mesmos lampejos: ora atrasando, ora adiantando, suspendendo o relógio, até que o coração aprenda o ritmo certo.

III – O descompasso das bênçãos tardias
Quantas vezes o homem recebe tarde demais aquilo que mais desejou?
A oportunidade que chega depois da juventude, o reconhecimento quando o vigor já secou, o amor quando o corpo já cansou – é a maldição do “tarde demais”, que tantos tomam por crueldade divina.

Mas talvez não seja crueldade – talvez seja uma forma superior de justiça.
Santo Tomás de Aquino, ao tratar da providência (Summa contra Gentiles, III, 94), explica que Deus permite certos males aparentes para um bem maior, invisível a quem sofre, pois a alma que recebe tarde aprende a desejar corretamente. O atraso pode educar o coração e fazê-lo desapegar-se do tempo, desejando o que é permanente.

E, se quisermos ser francos, o contrário também é verdadeiro: quantos foram destruídos por receber cedo demais o que pediram? A bênção adiantada costuma se tornar veneno e o tempo, portanto, não seria castigo e, sim, cura. Mais lógico concluir que Deus não se atrasa; nós é que nos adiantamos.

IV – O relógio do amor: desencontros e ironias
Eis o ponto mais cruel e mais humano deste mistério: o amor e seus desencontros.
Se o tempo divino não obedece ao nosso, o amor se torna a mais delicada vítima do descompasso.

Chegam tarde as almas certas. Encontram-se, por vezes, quando já não podem se possuir. Um está casado, o outro velho, um livre demais, o outro ferido demais. Parece ironia, mas é estrutura da realidade: o amor humano é sujeito ao tempo, e o tempo é servo de Deus.

Em O Banquete, Platão já intuía que o amor é um desejo de eternidade: amamos para vencer o tempo, para dar permanência ao que perece. Mas o amor humano, sendo sombra do Amor divino, sempre será condenado à frustração.

E o que chamamos de “amor impossível” seria, na verdade, um lembrete: a eternidade ainda não começou.

Dante, ao ver Beatriz na Vita Nuova, compreendeu que o amor é teofania – um lampejo do eterno.

Mas Deus, que nos permite o relâmpago, nos nega o raio contínuo. O amor é sagrado justamente porque é passageiro e, se dura, é porque aprendeu a morrer todos os dias – sem reclamar da hora.

No extremo oposto, meu velho conhecido Bukowski, esse santo bêbado de Los Angeles, dizia:

“O amor é uma névoa que queima na primeira luz da realidade.”


Ele tinha razão a seu modo: quando o amor se prende ao relógio, evapora. E a única maneira de amar de verdade é aceitar o tempo como campo de batalha – e não como juiz.
Os desencontros amorosos são, portanto, uma espécie de provação divina: um treino de eternidade.

Deus nos deixa perder o que mais amamos para que aprendamos a amá-Lo acima de tudo.
É um sadismo pedagógico, sim, mas é também o único modo de purificar o amor humano de sua idolatria.

O tempo, aqui, é o bisturi da alma: corta para curar.
E sempre deveremos saber que o verdadeiro amor deve saber morrer todos os dias pelo ser amado, dentro do cruel campo de batalha de nossas vidas.

V — A pedagogia da perda
Agostinho chora por Mônica, Jó por seus filhos, e nós por nossas oportunidades mortas, mas o pranto, na economia divina, é argumento.
Chorar é rezar com os olhos.

As perdas temporais – inclusive as amorosas – são o sórdido material que Deus usa para fabricar o ouro da eternidade de nossa alma. É ruim, é péssimo – mas é bom.
A bênção tardia, vista de fora, parece punição, mas vista de dentro, é convite à purificação.
Deus não nos quer felizes apenas: quer-nos maduros.
E maturidade, neste vale de lágrimas, é saber perder sem se tornar cínico – ou um arremedo de Bukowski.

Há um tipo de graça que só floresce sobre a ruína: os santos chamam isso de felix culpa – a “culpa feliz”. A falha, o desencontro, o tempo perdido – tudo pode ser transformado em matéria de redenção. O atraso divino, assim, é a oportunidade de descobrir que a vida não é um cronograma que obedece ao nosso script, mas sim uma provação contínua.

VI – O relógio e a cruz
A cruz é o grande relógio de Deus.
Nela, a eternidade e o tempo se cruzam literalmente – uma haste vertical e outra horizontal.
No alto, o eterno; na base, o instante – e Cristo é o ponto onde Deus se deixa medir em horas.
Três horas de agonia: o tempo entrou em Deus.
Desde então, nenhuma espera é absurda, nenhum atraso é vão.
Deus se atrasou três dias para ressuscitar – e mudou o conceito de “tarde demais”, para os atentos.

Por isso, quando um homem diz “já não há tempo”, o céu sorri com ironia: há sempre tempo, pois há a eternidade por detrás.
Mas a eternidade, sendo o inverso da pressa, exige paciência.
E a paciência é a virtude mais humilhante, porque obriga o orgulho a esperar – todos sabemos disso por experiências próprias, não é preciso ensinar.

VII – Quando o relógio para
Deus não usa relógio porque não precisa medir o que já possui.
Nós, sim, precisamos – porque ainda não somos o que devemos ser.
A diferença entre o tempo divino e o humano é, em última análise, a diferença entre o ser e o vir a ser.
Deus é.
Nós, estamos sendo.

E enquanto estivermos sendo, o relógio baterá – não como inimigo, mas como lembrete: há um sentido a cumprir.

Quando o último segundo cair, e o tempo se dissolver na eternidade, compreenderemos que cada bênção tardia era um sinal do cuidado perfeito – e cada desencontro amoroso, uma lição de desapego, eis que o “tarde demais” já não existe.

Até lá, meu humilde conselho é bastante simples: ore, trabalhe, ame sem cronômetro, e desconfie dos relógios demais certos – eles mentem mais que o diabo.

Porque o diabo obedece o tempo, é pontual – e Deus, nunca. Pois é o dono dele.


Walter Biancardine

PEQUENOS COMENTÁRIOS SOBRE A IDIOTICE : É RIR PARA NÃO CHORAR -


Se há algo que salta aos olhos logo em uma primeira e infeliz visão é a feiúra - não a feiúra genética, pois esta é aleatória e meu próprio aspecto não me deixa muito à vontade para comentar - mas a feiúra proposital, deliberada, buscada com o objetivo de agredir a todos em volta: é a agressão pela agressão, a ofensa visual, o choque, o escândalo estético.

A pobre coitada é feia, e sabe disso. Talvez tenha sido essa a origem de todas as suas patologias mentais. Isso posto e sentindo-se plenamente justificada por uma ideologia que promove sua feiúra como virtude, tratou de piorar o que já era péssimo: cabelos cor de água de salsicha, um par de óculos que - propositalmente - fazem seus olhos parecerem desalinhados e tortos e ainda reforça tal danação visual esbugalhando estes mesmo olhos, grandes de natureza, de forma a demonstrarem explicitamente toda a sua ira contra a beleza, acompanhados pelo esgar de sua boca babada de raiva. A pobre é um aborto estético e uma ofensa ameaçadora em suas intenções. Funcionou, portanto.

Uma vez explanado todo o tormento visual da pobre, passemos ao pior: os claros sinais de demência - ou entorpecimento artificial - que este escombro humano exibe em suas falas, exemplificadas pelos recortes da fotografia que ilustra este ensaio sobre a feiúra e frustração.

1 - "Os policiais não precisam ficar ostentando um fuzil. Isso tem baixo rendimento criminal"

Vamos por partes: "ostentar um fuzil". Ok, mas os traficantes também os "ostentam", e de uma forma muito mais explícita e ameaçadora, desfilando em bondes armados pelas ruas das favelas e dando tiros à esmo para o alto, até em comemoração por um simples gol de seu time. Eles podem, mas os policiais não. É isso que esta dismórfica quer dizer?

A outra parte: "Isso tem baixo rendimento criminal". Quanto a tal frase, só posso atribuir semelhante disparate ao uso de drogas ou simples demência senil. O que é um "baixo rendimento criminal"? Os policiais são criminosos e os fuzis seriam sua "ferramenta de trabalho", agora por ela definidos como de "baixo rendimento"? Ou que os tais fuzis, simplesmente e mais de acordo com a doentia ideologia que habita as trevas de sua cabeça, seriam apenas algo que "não funcionam contra o crime"? Talvez esta última esteja mais de acordo, eis que a mesma doente advoga o uso de pedras - ao melhor estilo da Lei Sharia muçulmana - para combater hordas de traficantes armados até com bazucas anti-aéreas.

2 - "O criminoso com um fuzil na mão é facilmente rendido por uma pistola". Tal afirmação mostra claramente que mesmo a mais empedernida esquerdista assistiu, quando jovem, os filmes policiais norte-americanos, onde o herói assim fazia e obtinha êxito. Sim, pois somente em produções de Hollywood ou no total e absurdo desconhecimento - isso para não falar da falta de senso lógico - de quaisquer questões sobre Segurança Pública alguém poderia proferir tamanho disparate. Cabe notar que, mesmo assim, a TV a apresentou como alguém apta a opinar sobre a Segurança Pública do Rio de Janeiro, e até do Brasil como um todo.

3 - "Enquanto ele (o traficante) tá tentando levantar o fuzil, alguém já o derrubou com uma pedra". Sim, o leitor não compreendeu errado: ela disse isso. "Tentando levantar o fuzil"? quantos quilos esta imbecil pensa que pesa uma arma desta? Uns 50, 60 quilos? E pior: "alguém já o derrubou com uma pedra". Meu Deus, então as indústrias bélicas no mundo inteiro gastam milhões de dólares com armas que podem ser facilmente neutralizadas por um calhau nas fuças? Isso significa que poderemos ter, em breve, a obrigatoriedade do "Porte de Pedras"? Caminhões basculantes terão de ser acompanhados por escolta militar? Pedreiras serão área de segurança máxima? Ou é simplesmente uma tosca felação aos xiitas muçulmanos que ela tanto admira e que já executaram milhares de mulheres, gays e loucos como ela, à base de linchamento por pedradas? Sim, amigos. O caso é de hospício, mas foi à TV como referência em Segurança Pública!

4 - "E sobre os drones, drone é apenas um brinquedo que você usa e ele quebra". Não há muito o que comentar sobre isso, até pela exaustão que a demência incensada pela grande mídia me provoca. Apenas fico pensando na perda de tempo que tantos exércitos recentemente sofreram, ao bombardearem cidades inteiras, matarem civis e militares - mas tudo isso com um "brinquedo que vc usa e ele quebra". Encerro este apenas declarando minha piedade por tal criatura, a qual certamente valeu-se de "brinquedos que vc usa e ele quebra" em seus momentos de mais profunda e íntima solidão, causada pelas escolhas de vida que adotou.

Arrisco dizer que é de tal frustração que nasceu este conceito.

Não vá o amigo leitor me julgar por escrever laudas e laudas sobre uma demente, que deveria estar internada em um manicômio. Apenas devolvo, na mesma moeda, o tanto de tempo e importância que a grande mídia usou para tentar nos obrigar a levar a demência como ponto de referência na formação de nossas opiniões.

Sim, a grande mídia tem certeza que somos completamente idiotas.

Tal como a louca entrevistada.


Walter Biancardine

terça-feira, 4 de novembro de 2025

A TORMENTA É BELA QUANDO ESCRITA, NÃO QUANDO VIVIDA -


Todo aquele que possui uma sensibilidade ligeramente mais apurada pode encontrar beleza e, talvez, até mesmo lições ao ler os escritos de um atormentado. A aflição nos despe da vergonha, do pudor, e passamos a exorcizar de forma pública - eis que ao redor nada ou ninguém resta - os fantasmas que perseguem nossa alma.

Sim, a depender do talento e sensibilidade do atormentado, realmente poderemos colher algumas preciosidades, entre os escombros daquilo que o pobre infeliz chama de "vida" e na qual desfilam procissões de sofrimentos, dúvidas, aflições, frustrações e angústias. Tais hemorragias - causadas por fraturas expostas de sua alma - eventualmente nos oferecem lições, conselhos ou mesmo servem como tema de meditações mais pessoais e profundas, naquele buraco infinito que todos temos na alma, mas a ninguém confessamos.

Eis que é bom e belo lê-lo; jamais queira vivê-lo, entretanto.

Dores não podem ser compartilhadas nem sentidas por outrem - a empatia tem um cada vez mais curto limite - e tudo o que o infeliz escritor faz não é reclamar e, sim, extravasar. Quem reclama busca solução, mas quem desabafa já desistiu das mesmas há tempos e tudo o que faz é escrever - escrever para não explodir, rabiscar linhas como se o papel fosse lixeira, a vomitar tudo o que de pior tal alma carrega dentro de si.

E esta é a necessidade de escrever: ou escrevo ou explôdo, e isso se torna claro em simples contabilidade bibliográfica que façam sobre minha pessoa, onde textos personalíssimos, intimistas - ainda que temperados pela inevitável filosofia adotada como modus vivendi - são muito mais numerosos que análises políticas, ensaios filosóficos ou mesmo os velhos e divertidos (ao menos para mim) textos onde me entregava, sem pudores, à mais escrachada gaiatice.

Haverão alguns, temerários, que eventualmente apreciarão as linhas deste velho atormentado - o qual gasta dias se irmanando aos inomináveis Bukowski ou Schoppenhauer - e, por isso, me honrem seguindo-me. À eles, agradeço do fundo de meu coração, pois ouvir (ou ler) lamentos alheios é a suprema solidariedade, limitado que estamos às redes sociais. Mas deixo, entretanto, um conselho que considero valiosíssimo: tormentos alheios podem ser-nos úteis ou até soarem belos, mas nem em seus piores pesadelos queiram romantizar a situação deste escriba e, porventura, vivê-los.

Ser escritor, ter tal defeito como profissão - piorada pela minha formação jornalística - já é uma condenação à pobreza e frustração, e as tempestades que varrem minha cabeça ainda tornam tal sina vocacional ainda mais empedrada. Por isso, principalmente em um país como o Brasil, não percam tempo ou gastem neurônios no caminho das letras.

Elas nada significam numa terra de emojis.


Walter Biancardine


terça-feira, 21 de outubro de 2025

MINHA ALMA CANTA...VEJO O RIO DE JANEIRO -


Estou morrendo de saudades, Rio teu mar, praias sem fim, Rio você foi feito pra mim...
Sim, pois chegou a minha vez de cantar o refrigerante “Samba do Avião”, do mesmo Tom Jobim que ensinou meu quase irmão Luís Antônio – "The House of Rock and Roll” – a tocar piano.

E eis que me encontro tal qual o Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara, sorvendo cada gole de uma tardia mas bem-aventurada volta à minha terra natal, me sentindo novamente nativo a xingar os engarrafamentos, a debutar no estranhíssimo BRT e tendo sempre à mão o deslumbrante caos luminoso da Avenida das Américas, à noite, uma vez já instalado em meu simpático apartamento no Recreio dos Bandeirantes…

Uma outra cidade, outrora capital do glorioso Império do Brasil e também – nada é perfeito – desta soluçante República; uma outra atmosfera, outras pessoas, outras modas, vestimentas, maneiras de falar, linguagem do corpo, dos sons e dos cheiros – tudo isso soube eu no passado, mas duas décadas e meia de exílio deslocaram e quase sepultaram a gênese carioca e estapafúrdia deste que ora vos escreve.

Este artigo é só porquê/ Rio eu gosto de você/ A morena vai sambar/ Seu corpo todo balançar” enquanto eu, da janela do carro, as vejo em um desfile propositalmente blasé, pela orla da praia.

Então, na crônica diária de minha vida, uma nova página se abre e me pego exercitando as pernas no contínuo sobe-e-desce pelas escadas deste duplex – povoado somente por mim, subitamente desperto na vaidade de saber se tais escadas melhorarão o triste aspecto de minhas pernas, em intempestiva volta à adolescência. O amigo leitor não deverá se iludir, se neste momento considera que desfruto de férias cariocas: não, há trabalho – e muito – que ainda me espera.

Trata-se, porém, do saudoso abraço que dou à cidade que me pariu, mostrou a vida e pôs-me a correr o mundo. E a quanto tempo não a via…

Rio de sol, de céu, de mar… Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão…
Aperte o cinto, vamos chegar… E vamos aterrar.


Estou de volta, Rio.


Walter Biancardine



sábado, 4 de outubro de 2025

A LONG WAY HOME -


E de repente tudo muda: uma vida inteira dá meia volta, e novas estradas se abrem diante de nós mostrando que a viagem ainda não acabou.

Na verdade talvez mal tenha começado, e todo aquele caminho cheio de tombos, buracos, quedas e machucados esteja ficando para trás.

O dia está chegando, muito próximo, o tanque está cheio e a rota na cabeça.

Agora é quicar a moto, acender um charuto e desfrutar desta "long way home".

Até chegar, beber meu Jack Daniel's e brindar: de volta ao lar.


Walter Biancardine


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

FENIX -


Tempos idos, tinha minha enorme moto custom e nela me divertia com meus cabelos longos, colete do motoclube, charuto nos dentes - pois cigarros apagam com o vento - e minhas tatuagens, dentre elas a Fênix, o lendário pássaro que morre e renasce das cinzas.

Não à toa a fiz: muito mais que uma capacidade autoproclamada, era prece e esperança. E neste momento me vejo tal como ela, a renascer de minhas cinzas quase já frias, sentindo outra vez o calor do sol, aspirando o ar à minha volta, sentindo meus músculos novamente fortes - eu, redivivo, renascido e repaginado, com sangue nas veias e um homem novamente.

Bastou uma notícia, uma mão estendida - e seu autor não citarei, por não ter pedido autorização - para que, tal como Lázaro, me levantasse e caminhasse para fora da cova ao encontro dos vivos.

Confesso que jamais me senti assim. Todos sofremos altos e baixos, temos picos e vales mas, desta vez, há algo acima e além. Novamente compromissos, responsabilidades, tarefas, obrigações e a alegria de cumpri-las - mas o corpo não engana, há algo mais e melhor.

A alma volta e quer escrever - e voltarei, pois meus editores aceitaram que retornasse - e me descubro pleno de gasolina para queimar, nesta longa estrada que o Brasil sofre caminhar. A cabeça desperta e volta a trabalhar, com responsabilidades que breve assumirei. E o corpo volta a existir, me dando conta que o mesmo havia me abandonado há anos e sequer percebi.

Mas bastou um chamado.


Walter Biancardine



segunda-feira, 29 de setembro de 2025

TEM DIA QUE TÁ BRABO -


Sim, com este título capenga, mesmo.
Abro o Facebook agora pela manhã e, sabe-se lá por qual coincidência mórbida do destino, a eterna e infindável sequência de anúncios e sugestões de páginas para seguir só me mostraram mortes.

Da querida atriz e humorista Berta Loran - ao menos foi-se após uma longa vida de 99 anos - até uma moça, curada de câncer, e que seu próprio marido forjou um assalto para matá-la. No meio disso, um jovem e musculoso grandalhão sulista, de uns 34 anos, igualmente morreu após longa internação devido a um acidente de automóvel. O detalhe é que sua mulher, sua filha bebê e mais um casal de amigos, todos no carro, também morreram. E tudo isso me presenteia o Facebook, em um distópico "bom dia", certamente para me animar.

Na TV, o querido Pittoli cumpre sua obrigação e nos traz a quilométrica lista de absurdos, injustiças e perfídias cotidianas da política brasileira, positivamente confirmadas em rápida passada de olhos no X-Twitter. E se minhas esperanças no Brasil são, costumeiramente, próximas ao zero, neste momento acusam como abaixo do mesmo, negativas e mortas.

Inevitavelmente vollto os olhos para mim mesmo, em um gesto involuntário e misto de egoísmo e autoproteção, vendo apenas um velho, feio, pobre e reclamão que, desempregado, gasta seus dias a vociferar, solitário, vitupérios contra o que não pode combater. Minha longa prática em falar verdades inconvenientes fecharam-me as portas profissionais e também tem o condão de afastar quaisquer seres humanos que se aventurem a se aproximar - afinal, ninguém é de ferro e tudo sempre pode ser dito com menos crueza. E, ao fim e ao cabo, também em mim enxergo apenas essa tristeza de fim de festa, a decepção de não ter visto o melhor e a certeza que perdi a chance. Bem apropriado para meu começo de dia, recheado de mortes no Face e impossibilidades noticiadas na Auriverde Brasil.

Mas é hora de começar o dia. Tirar forças de algum lugar. Obrigar-me a crer e ter fé.

E se Deus é, para mim, inatingível, que eu creia haver, em algum lugar, um coração que bata por mim.

E só isso já será motivo para que eu, ao menos, tente.

Bom dia.


Walter Biancardine



sexta-feira, 19 de setembro de 2025

SEXTA-FEIRA: HOJE É DIA DE QUÊ?


Então, finalmente, chegou a sexta-feira.
Nem tiro o carro da vaga, porque o happy hour foi combinado no barzinho da Rua Farani, ao lado do meu trabalho - vou a pé mesmo e, lá chegando, já encontro uns dois ou três exauridos como eu (colarinho aberto, gravatas arregaçadas, paletó perdido algures), que já pedem aquela cerveja "canela de pedreiro".

Muita conversa fiada, gente maldizendo os gastos da mulher no cartão de crédito e outros - eu inclusive - plenos de más intenções, pois o Cajú (sim, aquele Cazuza do Barão) me arrumou meia dúzia de entradas pro show deles, no Noites Cariocas, Morro da Urca.

Findo o chope, rápida passada em casa para um banho - "mas que pressa é essa, meu filho? Não vai comer nada?", cobrava minha mãe, sempre mãe - experimento alguma roupa que me ponha semelhante a um ser humano e já me despeço, saudoso, da vaga que tanto custei arrumar para meu carro. O rumo? Antes das Noites, Baixo Leblon, claro!

Só o bom Deus saberá como cheguei às Noites Cariocas, sequer do bondinho me lembro. E tome show: muito rock pauleira, gritaria, garrafas rolando fígado a dentro e algumas substâncias condizentes com nossa idade inconsequente e irresponsável.

Arranja-se alguma incauta - provavelmente uma estudiosa de biologia, interessada em espécimes exóticos como eu - completa-se o nível alcoólico ao limite insuportável e, já dizia Lobão, "o riso corre fácil quando a grana corre solta": o rumo é o Mirante do Alto da Boa vista, motel gratuito entre então pouquíssimos frequentados trechos daquela estrada serrana, encravada entre a Tijuca e São Conrado.

O dia já está clareando quando aponto a frente do carro já na descida da Niemeyer, entrando na Delfim Moreira e planejando comer um "Levanta Lázaro" de fim de noite, no indefectível Cervantes, lá nas alturas da indecente Prado Júnior. Barriga cheia e energia já na reserva, deixo a gentil e caridosa senhorita na portaria de seu prédio, rumo para casa e, por sorte, encontro uma bela e acolhedora vaga bem em frente aonde moro.

E desabo na cama, de roupa e tudo.

No dia seguinte, acordo e vejo que estou aqui - 40 anos se passaram em uma só noite de esbórnia, e de minha protegida juventude em Copacabana, repentinamente me desperto um velho, tossindo e rangendo juntas, em uma casinha no Segundo Distrito de Cabo Frio.

A vida é assim: por vezes passa tão veloz que não temos reflexos rápidos o suficiente para desviar da pancada.

E a pancada é forte.

Lembranças, tal como sonhos, ainda são gratuitas.


Walter Biancardine



terça-feira, 16 de setembro de 2025

CONTAGEM REGRESSIVA -

 


Longe de mim ser, ou sequer parecer, ingrato aos generosos William Saliba (Carta de Notícias), Paulo Hasse (ContraCultura) ou Hermínio Naddeo e Maria Rosa (No Ponto do Fato), que me estenderam generosas mãos para me resgatarem do limbo e me levarem de volta à mídia, oferecendo-me espaços irrestritos em suas prestigiadas publicações para que, neles, cometesse meus desatinos. Não, isso nunca.

A verdade, entretanto, é que por questões de coerência e manutenção de um mínimo de qualidade ao oferecer algo ao leitor, mandou-me a prudência que renunciasse a tais honras – mais verdade ainda é o fato que se escreve com a cabeça, motivado pelo espírito (inspiração) e dispensando horas em retoques destinados às devidas clareza de expressão, ritmo da narrativa e, se possível, alguma musicalidade e compasso no texto – somados aos compromissos da pontualidade, dos prazos de entrega e da já citada qualidade, que jamais seriam cumpridos uma vez que vivo, agora, sob agonizante contagem regressiva, a qual pouca folga oferece para que me sinta à vontade em escrever.

Se tenho alguma tradição a manter é a de que jamais escondi meus sucessos e fracassos – até mesmo por comezinhas questões políticas locais, pois todos sabemos que a chantagem é usual neste meio. Assim, não seria agora que começaria a fazê-lo, esperando que o leitor, ao ler este relato, jamais o interprete como lamúria, vitimismo ou um cínico e disfarçado pedido de ajuda – não mesmo, até porque todos os pedidos que eu poderia fazer, já os gastei.

O fato é público e notório: não tenho emprego, ofereci um total de mais de 250 currículos mas a idade – somada às minhas notórias posições políticas – barraram quaisquer pretensões; de uma mesa de revisor ou copidesque ao balcão de lojas de ferragens, a negativa – ou pior, o silêncio – foi unânime.

Sim, tive bons momentos quando a generosa Doutora Professora PhD Miss Jay encantou-se com meus devaneios filosóficos e convidou-me para uma série de palestras – das quais auferi dinheiro suficiente para comprar meu pobre carro, iludido por boa fé no vendedor – e, em sequência, contratou-me como seu professor on-line de filosofia – e este é meu rendimento atual.

Não posso, entretanto, condená-la a ser minha aluna para todo o sempre. Findo este ano letivo, a mesma voltará para seu distante local de moradia, assumirá novos e importantes encargos e nosso contrato terminará – e, com este contrato, cessará também todo o resto: meu aluguel e a vida quase civilizada que consegui desfrutar por estas breves “férias”, após anos morando no meio do nada e cercado por bois e vacas.

Esta é a contagem regressiva, e também razão de não mais conseguir me comprometer com prazos ou mesmo qualidade daquilo que escrevo. Cada dia é menos um, no qual pude viver de maneira quase normal e, por mais que a vida tenha me endurecido (e o niilismo tenha feito com que eu beirasse o cinismo), confesso não mais ter forças suficientes para não me deixar afetar – sim, estou velho, 61 anos não são 61 dias.

Ao fim e ao cabo, resta-me a obrigação moral de dar alguma satisfação aos poucos abnegados que ainda gastam seu tempo e fosfato lendo meus devaneios, pois ao findar o mês de novembro, entregarei a casa, não mais terei meios de escrever e desconheço o que virá depois.

Nunca é demais repetir: este artigo é tão somente uma satisfação que dou aos leitores, jamais um sonso e disfarçado pedido de ajuda, pois nada é mais desprezível do que o vitimismo que tanto critico em minhas linhas, o qual sempre sobrevive e lucra – da forma mais abjeta – com a piedade alheia. Nada quero e nada peço, e isto resume tudo.

Minha moral com Deus é zero, jamais fui um bom rapaz e – com justiça – pouco posso ou devo esperar. Resta, ainda assim e por questões de sanidade mental, a confortável fuga de contar com a piedade Divina. Sim, quem sabe?

Se eu puder, estejam certos: voltarei a escrever. Se não, então será o rotineiro “tudo como dantes, no quartel de Abrantes” – nenhuma novidade que eu já não tenha experimentado.

Um grande abraço, querido e abnegado leitor.


Walter Biancardine



sexta-feira, 12 de setembro de 2025

EMPURRADO PELA VIDA -



Por mais previsível que fosse a farsa dantesca, encenada ontem no palco da Primeira Turma do STF, ainda assim os efeitos sobre mim ultrapassaram o que esperava.

Sim, era pública, notória e sabida a condenação de Jair Messias Bolsonaro à guilhotina suprema, mas confesso que – talvez pelo acúmulo de enorme sucessão de absurdos jurídicos, políticos e criminais nestes tristes dias – a sentença, lida e saboreada com gosto pelos canibais de notória ignorância jurídica, tenha desabado com tamanho peso em minha cabeça. Para piorar, o assassinato do jovem e conhecidíssimo ativista conservador norte-americano Charlie Kirk – acontecido simultaneamente – disparou um inevitável retrospecto mental, que concluiu estarmos sendo, nós conservadores, caçados e exterminados um por um.

Tivemos a garotinha escocesa – 12 anos – que defendeu a si e sua irmã com um machado contra agressores muçulmanos e foi presa por isso; a menina refugiada ucraniana, esfaqueada no Metrô; candidatos à Presidência da República conservadores mortos a tiros, atentados contra Donald Trump e o próprio esfaqueamento de Bolsonaro – e ainda somos tratados pela maldita e porca grande mídia como “extremistas” ou “radicais” da “extrema-direita”, tal como anunciaram a morte de Kirk, pai de duas filhas e com apenas 31 anos.

Em boa hora penso ter renunciado às mãos que se estenderam em meu caminho – Carta de Notícias, ContraCultura e No Ponto do Fato – eis que o comprometimento de escrever exige o compromisso da periodicidade, e eu teria sido obrigado a escrever e comentar – entre todas as barbáries anunciadas acima – ainda sobre este meticuloso esquartejamento do cadáver político de Bolsonaro, e eu não teria estômago para tanto.

Digno de nota é percebermos que a guerra contra nossos expoentes – alguns já atingidos e mortos, enquanto outros jazem, agora, moribundos – configuram baixas idênticas naqueles alistados em seus propósitos. E assim me sinto.

Tal como algum circunspecto senhor, em aventura amorosa frustrada, se põe a murmurar que “isso nunca me aconteceu antes”, assim me surpreendo com minha própria reação: tais trevas jamais se abateram antes, sobre mim.

Tenho décadas de jornalismo e de análises políticas, já me engajei em lutas inglórias nas quais tudo perdi mas, ainda assim, continuei escrevendo, analisando e comentando – mas neste momento, faltam-me forças. Creio que a dimensão mundial da luta que travamos me era, anteriormente, um tanto quanto vaga e difusa, algo que mais soava como argumento que constatação – mas agora vejo sangue por toda a parte. Sim, o inimigo hoje aparece claramente, sem vergonha de exibir seus chifres e cascos, pois que já se considera vitorioso e pode mostrar sua verdadeira face – e ele nos persegue, com desejo insaciável de extermínio, em qualquer lugar do mundo em que estejamos: Escócia, Estados Unidos, Brasil – pouco importa.

Assisto, com um misto de piedade pela inocência evidente e raiva por suspeita de má-fé, discursos de gente anunciando providências jurídicas contra o STF, ou até mesmo pretensões de anistia e outros tantos, sem perceber que não se luta contra demônios usando armas de anjos.

Também vejo o povo inerme – o qual me incluo – apático e omisso, apenas aguardando seus bovinos líderes políticos ou religiosos apontarem o melhor caminho para o matadouro, esquecendo-se que Moisés não teria libertado os judeus do Egito se obedecesse, passivo, as leis do Faraó.

Por sorte sou sozinho, não tenho ninguém a pedir-me um amor e atenção que se secou em mim; também não tenho amigos que venham me visitar, chamar ao telefone ou obrigar-me a sorrisos impossíveis; e mesmo a casa onde habito é o retrato do que se passa pela alma, com o chão estalando de sujeira e descaso ao caminhar por ele.

E as panelas e pratos, empilhados na pia, são o saldo negativo das derrotas acumuladas.

Nenhuma intenção de varrer, lavar ou mesmo escrever.

Este artigo foi um surto.


Walter Biancardine



sábado, 6 de setembro de 2025

GLORY DAYS -


Lembranças não são privilégios de vitoriosos em descanso.
Também são a agonia cotidiana de velhos fracassados, a revolver o solo seco dos dias presentes.
Todos as temos, uns mais e outros menos; uns relembram por saudosismo, outros por fuga.

Em qual curva da estrada os fracassados se desviaram do caminho? Ambos tiveram bons dias, dias de glória, felicidade e realizações - mas, para uns, tudo se desfez em um piscar de olhos.

Quais olhos poderosos piscaram assim, como sentença?

Talvez os meus próprios.

"Glory days
Well, they'll pass you by, glory days
In the wink of a young girl's eye, glory days" (Bruce Springsteen)


Walter Biancardine



GAVETAS VAZIAS -

 


Não há currículo que resista ao calendário: o mercado é um circo para adolescentes, exigindo corpos em forma, sorrisos falsos, gírias que envelhecem em uma semana e a inevitável postura lacradora. Eu, com meus excessivos anos empilhados, sou considerado um móvel pesado que ninguém quer carregar para o próximo apartamento. Preferem o plástico descartável, fácil de empurrar para o lixo; e por tantas e infrutíferas vezes que tentei, seria estupidez não concluir que estou fora do jogo.

Carrego o rótulo de “conservador” como se fosse lepra. Não importa se o que digo tem lógica ou se apenas repito o óbvio: se não concordo com as besteiras do momento, sou carimbado como intolerante, insuportável, contraproducente e até mesmo – palavra da moda – “tóxico”. Todos gritam “diversidade”, mas querem todos iguais, repetindo as mesmas frases de efeito. Eu, que já vivi mais do que eles suportariam, sei que nada disso é tolerância – é só mais uma forma de linchamento mas sem corda no pescoço, apenas com o silêncio, a separação, o cancelamento e o desemprego.

Amigos? Família? Tais palavras soam como piadas de mau gosto. A verdade é que ninguém suporta por muito tempo um homem que não serve mais para concordar com tudo o que dizem em reuniões sociais ou para pagar contas – por mais que neguem de maneira veemente. Aos poucos, percebi a coreografia: sorrisos diminuindo, telefonemas rareando, “sumiços” – pois estão sempre “muito ocupados” – até restar apenas o eco da própria voz.

Os mais próximos, aqueles em quem eu deveria confiar, descobriram que traição e egoismo rendem mais dividendos do que lealdade, inclusive satisfazendo invejas e recalques secretos e inconfessáveis. Sorriram enquanto mediam o quanto poderiam arrancar de mim, daquele que eu fui enquanto “potável” aos olhos alheios – hábitos, preferências, gostos, amores e até minha própria personalidade: tudo me foi tomado, copiado, invejado da forma mais vil e hoje não mais sei se tenho parentes ou clones, xerox ambulantes de quem, um dia, tive o atrevimento de ser.

Aprendi a dormir com a faca no estômago e a acordar fingindo que não sangro, apesar do deprimente espetáculo diário da traição familiar: ser enganado em negócios ou mesmo assistir parentes tomarem a mulher de outros parentes – tudo isso se tornou rotineiro, aceitável e normal, neste admirável mundo novo.

Restam-me dois irmãos e uma irmã – um deles, atolado nas próprias e pesadas obrigações, não pode estender a mão. Não culpo, compreendo: cada um carrega seu inferno particular e o dele é, por demais, difícil e penoso. Mas a solidão se torna ainda mais aguda quando a última presença confiável está ausente por obrigação, não por escolha. Digo “última” porque o outro já sofreu a mais cruel das traições: vive hoje interno em um asilo – ninguém quer um móvel velho e quebrado. Já a irmã, tão afastada, dissonante e dominada por filhos, apenas o sangue comum nos une.

Bukowski dizia que alguns nascem para carregar o peso e outros para cuspir no rosto de quem carrega. Schopenhauer lembrava que a vida oscila entre o tédio e a dor, e eu acrescentaria: na velhice, os dois se tornam vizinhos de quarto. Kierkegaard falava da desesperança como uma doença mortal e sinto que já fui diagnosticado há anos, só que sem atestado formal ou minha própria percepção do fato. Vivo, mas não estou vivo. Caminho, mas não vou a lugar algum. Muito mais fácil ser rotulado como “narcisista”, “egoísta” ou outras pérolas fáceis de digerir.

Não há nada heroico nisso. Jamais esperei reconhecimento, tampouco compaixão. Longe de mim esperar algo de alguém, pois estas linhas são apenas um desabafo que faço à única coisa que aceita, ainda, meus queixumes: o notebook. Apenas sigo, como um fantasma que arrasta correntes enferrujadas, sem que ninguém as escute além de mim.

A cada dia, todo maldito dia, sento diante do teclado pelo mais torpe dos vícios: escrever. Acendo um cigarro, abro a gaveta vazia de possibilidades, olho o nada acumulado e fecho de novo, sabendo que amanhã será idêntico.

Talvez um dia não precise mais fechar a gaveta.



Walter Biancardine




sexta-feira, 5 de setembro de 2025

ESTOU DE AVISO PRÉVIO -


Passei uma vida tentando escrever com algum estilo, ritmo e até buscando vaga musicalidade; considerava eu que tais caprichos ajudariam a tornar potáveis os devaneios que meus pensamentos, uma vez publicados e oferecidos aos leitores, carregavam. Mas agora tais cuidados me são psicologicamente inviáveis e peço perdão aos que venham, por ventura, ler estas mal-traçadas – não se trata de desonrar meu próprio passado, mas de impossibilidade pura e simples.

Vou direto ao assunto e título deste: considero-me em aviso prévio. O contrato estabelecido, entre mim e a generosa pós-PhD para ministrar-lhe aulas de filosofia, encerra-se nesta virada de novembro para dezembro. Na realidade, o mesmo teria sido cumprido em março deste ano mas, generosa e atendendo meus pedidos, esta mesma doutora concordou em prorrogar este compromisso até dezembro, data em que voltará para seu Estado.

Meu pedido de prorrogação tinha como base o aluguel da casa onde moro, que terminará na mesma data e, deste modo, poderei honrá-lo até seu término. E a partir daí, amigo leitor, não tenho a menor ideia do que farei e, sendo franco, a exaustão me leva a pouco me importar.

Tal prostração se deve – quem acompanha meus escritos bem o sabe – a todo meu recente (e longo) passado de penúrias, privações e sofrimento absolutamente solitário, afinal foram anos morando de favor em uma cabana no meio de um pasto e tendo por companhia apenas bois, vacas, um cachorro e outros animais menos recomendáveis. E isso me exauriu muito mais do que eu próprio poderia imaginar, descobrindo só agora a completa falta de forças que me abate – ou, seja lá como for, o fato de também estar farto de tanto nada, tanta falta de perspectivas e caminhos.

Sim, Deus sabe que tentei. Deus também sabe que até mesmo me deixei iludir, crendo em portas abertas para retomada de minha carreira e acreditando que seria inclusive – pasmem – remunerado por isso. Mas não, nunca o fui. Todo meu salário se originava das aulas de filosofia, nenhuma promessa se concretizou e, ainda por cima, cometi a suprema asneira de confiar em parente próximo para comprar um carro – estupidez que me sangrou o nenhum orçamento que tinha, destruiu o resto de fé na família que insistia eu em manter e que, hoje, levou tal pesadelo sobre quatro rodas à venda – o que me oferecerem, aceito.

Resumindo tudo, apenas declaro que não tenho mais forças. Aliás, se falta-me esperança para enxergar algum futuro para mim, muito mais necessito para manter-me em pé, lutando por meus ideais e pelo Brasil. E por isso, superiormente por impossibilidade psicológica que por decisão racional, vejo que é hora de parar de escrever. Aliás, não só de parar com a escrita mas, igualmente, dar por encerrada esta derradeira tentativa de voltar a ser um indivíduo normal, com uma vida normal, problemas normais, vitórias igualmente normais e até um fim de vida normal.

Não, tal privilégio me foi negado – não por Deus, mas por consequência de meus próprios desatinos ao longo da vida. E por isso, não posso reclamar de nada; toda a intenção deste artigo é apenas informar ao leitor sobre estar eu deixando as páginas do Carta de Notícias, do ContraCultura e do No Ponto do Fato – pois não se escreve com os dedos mas, sim, com a cabeça e espírito, ambos os quais não mais os tenho em condições. Quanto à TVD News, infelizmente foi a possibilidade que acreditei mas não se cumpriu, o que é uma pena.

Não vejo mais como honrar os compromissos de dias especificados para a publicação de artigos em uma ou outra revista e, muito menos, como escrever curvado sob um tema que, hoje, já não me importa. Enquanto meu contrato de aluguel estiver vigente – o mesmo se encerra na virada de novembro para dezembro, como já disse – eventualmente escreverei nesta minha página pessoal, no Facebook, Twitter ou até LinkedIn, mas sem me importar mais com periodicidade ou temas. Apenas rabiscarei sobre o que eu quiser, e quando tiver vontade.

Pouco me importa, também, ser chamado de covarde por abandonar a luta pelo meu país ou, pior, desistir de meus caminhos: fui constantemente chamado - ou julgado como - coisa muito pior por leitores, amigos, pessoas próximas, familiares e até ex-mulheres, e tal adjetivo soa-me quase um eufemismo elogioso. Nem de longe meu ego, que sobrevive por aparelhos (tal como este aparelho chamado notebook, com o qual escrevo), sentirá qualquer incômodo por isso, uma vez que ainda posso afagá-lo pelos meios usuais - como seja, escrevendo meus vaidosos artigos.

Mas, em breve, não terei mais laptop e, muito menos, de onde escrever.

O quê farei após o término de meu aluguel?

Esta é a pergunta de um milhão de dólares: não sei e, francamente, pouco me importa.

Foi bom enquanto durou.



Walter Biancardine