tenho privilégios
escrevo de porta aberta
da minha mesa vejo o lago
cavalos pastando
carpas saltando
vento batendo as janelas
e não uso luz
tudo é silêncio
só bois mugindo
relinchos e latidos
e minha insistência
barulhenta
de escrever
insisto
porque não esqueço
não esqueço
porque não resolvo
não resolvo
porque nada muda
olho pastos
e lembro sarjetas
os lagos trazem
as poças sujas
das ruas
mugidos e relinchos
apontam gritos
buzinas e sirenes
e as carpas
me dão fome
não será só um banho
que vai me limpar
dessa imundície
preciso
de muito sabão
muita água
usar perfume
roupa limpa
e ter
a cabeça areada
até que o cheiro
de toda a desgraça
de minha vida
saia de dentro
de mim
Walter Biancardine

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