segunda-feira, 13 de julho de 2026

IMPREGNADO

 
tenho privilégios
escrevo de porta aberta
da minha mesa vejo o lago
cavalos pastando
carpas saltando
vento batendo as janelas
e não uso luz

tudo é silêncio
só bois mugindo
relinchos e latidos
e minha insistência
barulhenta
de escrever

insisto 
porque não esqueço
não esqueço 
porque não resolvo
não resolvo
porque nada muda

olho pastos
e lembro sarjetas
os lagos trazem
as poças sujas
das ruas
mugidos e relinchos
apontam gritos
buzinas e sirenes

e as carpas
me dão fome

não será só um banho
que vai me limpar
dessa imundície

preciso 
de muito sabão
muita água
usar perfume
roupa limpa
e ter
a cabeça areada

até que o cheiro
de toda a desgraça
de minha vida
saia de dentro
de mim



Walter Biancardine




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