sexta-feira, 22 de maio de 2026

CURRÍCULO DE UM EX-COMBATENTE -

  


Tenho sessenta e dois anos e um problema moderno:

quando digitam meu nome no Google,

não encontram apenas um homem


encontram trincheiras

encontram fumaça

encontram artigos escritos às duas da manhã,

quando eu ainda acreditava que palavras eram marretas

e que uma frase correta

podia endireitar o mundo


passei anos discutindo com desconhecidos,

defendendo causas,

apanhando,

batendo,

colecionando inimigos que jamais me pagaram aluguel

nem apareceram quando a geladeira fez aquele silêncio

de viúva


hoje envio currículos


engraçado

a palavra currículo

soa limpa,

passada,

engomada

mas o meu vem com cheiro de pólvora antiga


talvez algum rapaz de RH,

mais jovem que meus textos,

abra meu perfil e pense:

- Esse homem parece cansado de guerra

homens cansados de guerra às vezes explodem por pouco


e fecha a aba


sem entrevista

sem café

sem saber

que já faz tempo

que troquei os tiros

por contemplar chuva fina caindo sobre telhados velhos

      

há dias em que me sinto como uma ex-puta

Madalena arrependida que largou o ofício

mas ninguém acredita

porque as meias de renda ainda aparecem

por debaixo do vestido recatado


só que não vendia o corpo

vendi convicções,

minha juventude,

minhas amizades,

o benefício da dúvida


agora abandonei o meretrício ideológico,

mas o bairro ainda cochicha:

- Conhecemos você

sabemos quem foi


o passado não larga o tornozelo

      

penso nos homens antigos

operários

motoristas

meu pai


homens que envelheciam

e ainda eram vistos como úteis


hoje envelhecemos online

há prints da nossa fúria

arquivos da nossa arrogância


enterramos opiniões,

mas elas continuam respirando em servidores


o século XXI inventou fantasmas permanentes

      

mas talvez eu não seja uma ex-puta

talvez seja pior:

um ex-boxeador

nariz torto

mãos endurecidas

olhos procurando adversários

em salas onde só há gente falando sobre metas trimestrais


perguntam:

- Trabalha bem em equipe?

e dentro de mim

uma parte responde:


sobrevivi sozinho


outra,

mais baixa,

quase infantil,

sussurra:


aprenderia

ainda aprenderia

      

porque eis a humilhação que ninguém admite:

o homem envelhece,

as certezas apodrecem,

e um dia ele descobre

que queria menos vencer debates

e mais sentar numa varanda,

ao lado de alguém,

segurando café quente,

sem precisar convencer ninguém de nada

      

talvez seja tarde

talvez não

os velhos conhecem uma verdade

que os jovens desprezam:

há árvores que parecem mortas no inverno

e passam meses inteiros

sem dar sinal


depois,

quase por teimosia,

uma folha


só uma


e já basta

para desmentir o machado



Walter Biancardine




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