Tenho sessenta e dois anos e um problema moderno:
quando digitam meu nome no Google,
não encontram apenas um homem
encontram trincheiras
encontram fumaça
encontram artigos escritos às duas da manhã,
quando eu ainda acreditava que palavras eram marretas
e que uma frase correta
podia endireitar o mundo
passei anos discutindo com desconhecidos,
defendendo causas,
apanhando,
batendo,
colecionando inimigos que jamais me pagaram aluguel
nem apareceram quando a geladeira fez aquele silêncio
de viúva
hoje envio currículos
engraçado
a palavra currículo
soa limpa,
passada,
engomada
mas o meu vem com cheiro de pólvora antiga
talvez algum rapaz de RH,
mais jovem que meus textos,
abra meu perfil e pense:
- Esse homem parece cansado de guerra
homens cansados de guerra às vezes explodem por pouco
e fecha a aba
sem entrevista
sem café
sem saber
que já faz tempo
que troquei os tiros
por contemplar chuva fina caindo sobre telhados velhos
há dias em que me sinto como uma ex-puta
Madalena arrependida que largou o ofício
mas ninguém acredita
porque as meias de renda ainda aparecem
por debaixo do vestido recatado
só que não vendia o corpo
vendi convicções,
minha juventude,
minhas amizades,
o benefício da dúvida
agora abandonei o meretrício ideológico,
mas o bairro ainda cochicha:
- Conhecemos você
sabemos quem foi
o passado não larga o tornozelo
penso nos homens antigos
operários
motoristas
meu pai
homens que envelheciam
e ainda eram vistos como úteis
hoje envelhecemos online
há prints da nossa fúria
arquivos da nossa arrogância
enterramos opiniões,
mas elas continuam respirando em servidores
o século XXI inventou fantasmas permanentes
mas talvez eu não seja uma ex-puta
talvez seja pior:
um ex-boxeador
nariz torto
mãos endurecidas
olhos procurando adversários
em salas onde só há gente falando sobre metas trimestrais
perguntam:
- Trabalha bem em equipe?
e dentro de mim
uma parte responde:
sobrevivi sozinho
outra,
mais baixa,
quase infantil,
sussurra:
aprenderia
ainda aprenderia
porque eis a humilhação que ninguém admite:
o homem envelhece,
as certezas apodrecem,
e um dia ele descobre
que queria menos vencer debates
e mais sentar numa varanda,
ao lado de alguém,
segurando café quente,
sem precisar convencer ninguém de nada
talvez seja tarde
talvez não
os velhos conhecem uma verdade
que os jovens desprezam:
há árvores que parecem mortas no inverno
e passam meses inteiros
sem dar sinal
depois,
quase por teimosia,
uma folha
só uma
e já basta
para desmentir o machado
Walter Biancardine

Nenhum comentário:
Postar um comentário