Não conheço uma só alma que, ao falar sobre o passado, não diga que teve todas as experiências mais absurdas, provou de tudo, era vida louca e comeu todo mundo. Depois desse discurso, sempre se espreguiçam, sorriem e comentam, com ar de satisfeitos:
- Hoje tô sossegado, quero curtir minha casa e minha família…
Devo ser um fracassado.
Até no passado. Retrospecto medíocre.
Lembro quantas vezes deixei de ir à praia pra ler romances ou filosofia. É claro que quem estaria na praia tinha um peso decisivo nessa escolha, mas foi só nas primeiras vezes.
Eu nunca pegava ninguém, então logo aprendi: praia, só com onda.
Ganhei alguns “pegas” (rachas, pros de São Paulo) descendo o Alto da Boa Vista, mas meu Chevette logo desanimava as Marias-Gasolinas da platéia. Preferiam sair com o segundo lugar, afinal um Opala era bem melhor.
Fui um bom boxeador, me achava o máximo. Um dia, quis conquistar uma bonitinha que fazia natação no mesmo clube que eu. Seu namorado chegou e rachou meu maxilar.
A única coisa que posso dizer em minha defesa é que foi uma surpresa absoluta, sequer o vi.
Minto, eu o vi depois indo embora, comigo já no chão.
O grupo Barão Vermelho nem existia e Cazuza era um ilustre desconhecido. Um dia fui ver um ensaio da banda de um amigo, no auditório de um colégio, e quase fui atropelado por ele. Pediu desculpas, me deu uns ingressos pra um showzinho que fariam daí a alguns dias e passei a vê-lo de vez em quando no Baixo Leblon.
Melhor dizendo: muito de vez em quando. Eu não tinha dinheiro pra bancar aquelas contas e nenhuma de suas amigas, atrizes da Globo, sequer notava minha presença.
Pra completar, passava o dia escrevendo ou desenhando. Apenas estudando ou já trabalhando, sempre ia em Ipanema deixar minhas esperanças na portaria do jornal Pasquim.
Nem resposta jamais mereci.
E o mesmo se dava com Jornal do Brasil, O Dia e até O Fluminense, que mandei por carta.
Estranho.
Conheço dezenas de ex-reis da noite, ex-garanhões, ex-rebeldes, ex-foras-da-lei e até ex-telionatários – perdoem o trocadilho.
Mas nunca conheci um ex-Zé Mané.
Deve ser porque um deles resolveu assumir antes de todos.
Sim, eu fui um Zé Mané.
Walter Biancardine
- Hoje tô sossegado, quero curtir minha casa e minha família…
Devo ser um fracassado.
Até no passado. Retrospecto medíocre.
Lembro quantas vezes deixei de ir à praia pra ler romances ou filosofia. É claro que quem estaria na praia tinha um peso decisivo nessa escolha, mas foi só nas primeiras vezes.
Eu nunca pegava ninguém, então logo aprendi: praia, só com onda.
Ganhei alguns “pegas” (rachas, pros de São Paulo) descendo o Alto da Boa Vista, mas meu Chevette logo desanimava as Marias-Gasolinas da platéia. Preferiam sair com o segundo lugar, afinal um Opala era bem melhor.
Fui um bom boxeador, me achava o máximo. Um dia, quis conquistar uma bonitinha que fazia natação no mesmo clube que eu. Seu namorado chegou e rachou meu maxilar.
A única coisa que posso dizer em minha defesa é que foi uma surpresa absoluta, sequer o vi.
Minto, eu o vi depois indo embora, comigo já no chão.
O grupo Barão Vermelho nem existia e Cazuza era um ilustre desconhecido. Um dia fui ver um ensaio da banda de um amigo, no auditório de um colégio, e quase fui atropelado por ele. Pediu desculpas, me deu uns ingressos pra um showzinho que fariam daí a alguns dias e passei a vê-lo de vez em quando no Baixo Leblon.
Melhor dizendo: muito de vez em quando. Eu não tinha dinheiro pra bancar aquelas contas e nenhuma de suas amigas, atrizes da Globo, sequer notava minha presença.
Pra completar, passava o dia escrevendo ou desenhando. Apenas estudando ou já trabalhando, sempre ia em Ipanema deixar minhas esperanças na portaria do jornal Pasquim.
Nem resposta jamais mereci.
E o mesmo se dava com Jornal do Brasil, O Dia e até O Fluminense, que mandei por carta.
Estranho.
Conheço dezenas de ex-reis da noite, ex-garanhões, ex-rebeldes, ex-foras-da-lei e até ex-telionatários – perdoem o trocadilho.
Mas nunca conheci um ex-Zé Mané.
Deve ser porque um deles resolveu assumir antes de todos.
Sim, eu fui um Zé Mané.
Walter Biancardine

Nenhum comentário:
Postar um comentário