sexta-feira, 10 de julho de 2026

MANUSCRITOS

 
primeiro foi uma Remington
daquelas com o carro grande
eu batia conhecimentos de carga
e depois o manifesto de carga
que os discriminava

teclas pesadas e barulhentas
mesmo com caminhões acelerando
no galpão eu a ouvia
socar o papel e tocar seu sino

cheiro de óleo
dela e dos brutos lá fora

fim do expediente
dedos exaustos
ia pra casa

no meu quarto era uma Olivetti
portátil com maleta
resma de papel A4 ao lado
café e cigarros
batia o que via nas viagens
de minha cabeça

madrugada adentro
teclas barulhentas
sinos avisando o fim
da linha
e o mesmo cheiro
de óleo

caminhoneiros botavam 
os conhecimentos e os
manifestos nas bolsas
partiam pra ganhar a vida
nas estradas

eu botava minhas páginas
na minha pasta fichário
tentando uma chance
jornais ou revistas
sempre porta na cara

esses papéis devem
existir até hoje
em algum lugar

tem cheiro e toque
poeira e histórias
manchas que testemunham

impossível deletar



Walter Biancardine



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