Vi um cavalo ser espancado e enlouqueci
acordei nas ruas com roupas de outro
e nunca soube explicar
acordei nas ruas com roupas de outro
e nunca soube explicar
bebo litros de um café de trinta anos
na caverna de meu quarto
forrada de cortiça
tentei escrever em pé e contar palavras
mas a página venceu
andei quilômetros com Dickens
dormi com uma colher Dalí
da cozinha
pra comer as maçãs podres
de Schiller
sou demasiadamente humano
e busquei o tempo perdido
que Proust não achou
sou um velho e amo o mar
mas não explodi minha cabeça
com um tiro
e preciso de minhas duas orelhas
para segurar os óculos
e imaginar girassóis
Walter Biancardine

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