Quem acorda de manhã cedo pra ir trabalhar sabe: o ponto de ônibus mais parece um banheiro de mulheres.
Só tem mulher.
Novas, velhas, garotas colegiais, magras, gordas ou feias.
Mas, no fim, só mulheres.
Só tem mulher.
Novas, velhas, garotas colegiais, magras, gordas ou feias.
Mas, no fim, só mulheres.
E você entra num escritório qualquer ou mesmo uma loja – só mulheres trabalhando. Muito raramente, um ou outro homem é avistado à distância, fazendo um serviço subalterno qualquer, perdido dos olhares alheios.
Quando me dei conta disso, cocei a cabeça e pensei: onde diabos estão os homens do Brasil?
Os achei voltando pra minha casa, caminhando pelas calçadas.
Um grupo sentado no meio-fio, uma garrafa de cerveja no chão, e conversando fiado. Rindo muito, todos eles.
Mais à frente um outro grupo. Talvez mais deprimidos.
Sentados no chão, encostados no muro, cabisbaixos e calados, apenas olhavam as pessoas passarem.
Na esquina, um botequim com mesas de plástico na calçada.
E mais homens, barrigudos, rindo muito e falando alto. Futebol, bundas e outros assuntos dos quais juram ser especialistas.
Em cada mesa, uma pequena coleção de garrafas de cerveja.
E riam. Riam muito.
Os poucos homens trabalhando que encontrei dirigiam caminhão, eram camelôs ou subiam em postes pra consertar a rede elétrica.
Ou trabalhavam em obras.
Todos pobres.
Mas riem.
Riem muito.
Quando um homem tem vergonha de estudar e acha que isso é coisa de mulherzinha, acabou de decretar sua miséria.
Acham o máximo serem ignorantes.
Barrigudos de bermudas e sandálias havaianas.
Ogros.
E se passam na porta de uma faculdade e veem as moças saindo de lá, eles riem.
Riem muito.
É só o que fazem.
Walter Biancardine

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