quinta-feira, 30 de maio de 2024

DOMANDO ABISMOS -


É ponto pacífico que ninguém precisa suportar nossos dramas internos, do mesmo jeito que recomenda-se prudência ao compartilharmos eventuais sucessos.

O "Eu Social" deve ser, preferencialmente, como um vendedor de loja: simpático, agradável, prestativo e educado - nada interessando, a quem nos aborda, eventuais apocalipses que nos devastem internamente ou, igualmente, se ganhamos sozinhos na Mega-Sena.

Esta é a convenção social; oportuna, dona de lógica incontestável e que desempenha o papel de verdadeiro óleo lubrificante, permitindo às engrenagens da interação interpessoal seu funcionamento suave e sem atritos.

Se você foi o feliz ganhador de uma bolada lotérica, recomenda-se mudar de cidade e extinguir todas as suas páginas em redes sociais, pois bocas nervosas e ansiosas podem ser, eventualmente, incontroláveis e causadoras de verdadeiras desgraças.

Já na hipótese de um tsunami haver devastado sua vida, procure agir como um Lord inglês - "gentleman just walk, never run" - e mantenha a devida "fleugma": cabeça erguida, ligeiro e confiante sorriso no rosto, postura ereta e fala pausada.

Escrevo tais considerações por crer-me possuir pós grado, doutorado e mestrado em ambas situações, errando em todas elas e pagando preço extremamente caro por tais enganos. Em dias felizes, exibi despudoradamente minha alegria - pouco me importando com tristezas alheias - e mantive tal comportamento errôneo, por outro lado, nos últimos dois anos que foram, indisfarçavelmente, devastadores. Tal cachorro ferido, desandei a ganir aos quatro ventos os efeitos das bombas de Hiroshima e Nagasaki que me implodiram por dentro - e este comportamento apenas revela infantilidade, auto-piedade extrema e gera constrangimento à todos, afinal é justo crer que quem reclama, pede soluções. E quem pode solucionar as hecatombes individuais de nós todos?

Hoje, à duras penas, penso que aprendi o necessário. Tento manter-me o "gentleman" acima citado, escrevo meus artigos e, eventualmente, posto músicas e brincadeiras.

Para quem tem o hábito de ler o que escrevo, peço que não estranhe se um dia publico pesada análise filosófica e, logo depois, posto uma brincadeira ridícula ou, mesmo, um meme.

É a minha maneira de manter a cabeça erguida, ligeiro sorriso no rosto, postura ereta, fala pausada e confiante.

"Gentleman just walk, never run".


Walter Biancardine



quarta-feira, 22 de maio de 2024

CRIANÇAS PRECISAM DE TÉDIO!


Sim, elas precisam por mais absurdo que pareça.

Pais calouros vivem uma vida infernal de sobressaltos, onde o pobre "petit" não pode dar um soluço sequer sem que ambos corram exasperados pelas paredes de casa, entre telefonemas para as respectivas mães e até o pobre pediatra é incluído em tal carnaval. E que dirá do tédio?

Existe a concepção doentia - e atualmente em vigor - de que crianças precisam sorrir (sorrir não, gargalhar) enquanto permanecerem vivas e isso faz com que progenitores menos destituídos de bom senso - ou movidos por secreto desejo de impressionar os outros e a si mesmos - entupam o raio de visão dos guris com toda a espécie de traquitana, uma poluição visual geradora de verdadeira overdose de informações simultâneas as quais, inevitávelmente, resultarão ao menos em uma TDAH - para pasto e gáudio dos pais, pois agora é moda.

Nos anos mais recentes, um novo e fatal veneno foi adicionado ao arsenal dispersante dos filhos: os celulares, games ou mesmo computadores. E isso é o verdadeiro decreto da morte imaginativa, criativa dos pequenos.

Não há o que criar: tudo, nas telinhas, já vem pronto e de modo exuberante, avassalador e viciante, basta clicar.

Um conselho ao casal "nouveau": experimente deixar, por algumas tardes, seus filhos sem nada para fazer - sim, nada, nem TV; tédio mesmo.

Se seu garoto começar a destruir os carrinhos para ver como funcionam ou mesmo para montar outros; se sua menininha recortar as folhas de sua revista predileta para fazer vestidinhos para as bonecas, parabéns: você acaba de salvar o cérebro de seus filhos.

E tudo isso graças ao tédio.


Walter Biancardine



terça-feira, 21 de maio de 2024

EU BUSQUEI A PALAVRA MAIS CERTA -


Qualquer ser humano se aborrece quando escreve algo pensado, ponderado – grave e profundo, mesmo – e a seriedade do que expôs não é compreendida obtendo, em resposta, algumas palavras de consolo, estímulo ou mesmo críticas, sem que as houvesse pedido.

Tais contratempos, eventuais na vida dos indivíduos, tornam-se uma constante quando nascemos com o incômodo traço de personalidade que nos leva a sempre perguntar o porquê de tudo, a buscar a verdade primeira e a expressá-la com as palavras exatas, cuidadosamente escolhidas para que não existam interpretações dúbias – estas pessoas adotaram, conscientemente ou não, a filosofia como modo de vida.

Sim, a filosofia é um modo de vida e nunca uma profissão. Quem assim se intitula não passa de um arrogante pretensioso pois, já dizia meu professor Olavo de Carvalho, “o verdadeiro filósofo filosofa para sua própria salvação”.

Assim, tal traço de personalidade – que, nos dias de hoje, mais soa como um desvio irritante de caráter – nada mais é do que o resultado da liberdade que alguns adultos se deram ao manter uma das principais e melhores características humanas, manifestadas a princípio na juventude de seus cinco, seis anos de vida – sim, crianças nascem com o germe da filosofia, é a “idade dos porquês” e quem é pai ou mãe bem sabe disso.

Abro aqui um parêntese para recordar minha infância, repelido de quaisquer círculos de conversas adultas (que eu adorava imiscuir-me) pelo meu deseducado hábito de sempre perguntar – “Mas, por quê?”

Tão exasperante era esta minha característica que, em boa hora, minha mãe lembrou-se da enorme enciclopédia “Tesouro da Juventude”, cujos fascículos colecionara dedicadamente de 1956 até 1960, a fim de saciar a mesma sede de porquês (embora infinitamente menor, ou seja, uma sede normal) de meus irmãos mais velhos. E tais volumes foram meus “amigos imaginários” da infância, cujos ensinamentos reli incontáveis vezes, principalmente seu conveniente tópico, o “Livro dos Porquês” – para alegria e sossego de meus pais e irmãos.

Tal enciclopédia abriu-me as portas para, ao fim e ao cabo, com menos de 13 anos de idade já haver lido toda a vasta biblioteca que dispúnhamos em casa, pouco me importando se os livros abordavam temas adultos (sic) como sociologia, política (e mesmo aí cabe um Shakespeare, os Anais de Tácito, etc.) ou ainda voltados à medicina, psicologia e direito – verdadeiro cupim de livros, a tudo devorei, quis mais e meu contágio pelo germe da alta cultura tornou-se irreversível. Cresci e a patologia permaneceu: praia de dia, Platão de noite – ou Platão de dia mesmo, a depender de quem estivesse lá no Posto 4, em Copacabana.

Pessoas com a mesma trajetória de vida pagam um preço e ele é cobrado de duas formas: primeiramente, seus dias serão escassos de amigos, companhias, gente em torno – na verdade os interesses deslocam-se, deslocando também os assuntos e conversas; as amizades, se não impossíveis, tornam-se raras e difíceis. E, em segundo lugar, quem muito quer saber precisa igualmente muito bem saber expressar o que aprendeu, e aí entra o inevitável mergulho de cabeça na língua portuguesa e seus luminares. Adicione-se a isso a precisão no expressar-se, exigida por qualquer tese ou mesmo pensamento, criado desde jovem em cultura filosófica (ou mesmo para os que se aventuram na área jurídica), e você certamente ficará bastante irritado quando seus interlocutores não derem o devido peso e significado a cada palavra que você escolheu, ainda que manifestando um sentimento aparentemente banal como, por exemplo, “- Estou no limite de minha solidão”.

Ora, fosse banal para mim e eu não o manifestaria!

A absoluta maioria das pessoas se valeria da expressão acima apenas para dizer que está sentindo falta de uma namorada/namorado, que os amigos estão longe há tempos e que uma mistura de vazio e tédio os irrita, ou ainda outras desventuras de nossas vidas sociais ou mesmo amorosas.

Mas não aqueles que trilharam o mesmo tortuoso caminho intelectual que eu: a palavra “limite” é literal, expressa horas, dias, meses ou anos sofrendo, cumulativamente, os efeitos psicológicos e emocionais que tal condição impõe e nossa inevitável incapacidade de continuar lidando com isso, racionalmente, dentro de pouco tempo. Um fusível psíquico queimado será algo certo de acontecer, não se trata de usual desabafo, tal como um “estou de saco cheio” que, à primeira vista e normalmente, todos interpretariam.

Do mesmo modo emprego a palavra “solidão” tendo o significante apontado, explicitamente, para o significado: um cotidiano sem seres humanos interagindo, sem um trivial “bom dia” ou – pior – sem tê-los em seu campo de visão, para assegurar que você ainda vive em um planeta habitado. As consequências em seu estado emocional e psíquico sempre serão quase impossíveis de avaliar, por terceiros, dado que pouquíssimos seres humanos neste planeta enfrentaram – compulsoriamente, não por livre desejo de isolar-se – tal deserto em suas vidas.

Até recentemente atrevia-me, ainda, a escrever sobre temas de minhas desventuras pessoais, mas os aboli tão logo dei-me conta do quanto de autopiedoso e narcisista tal comportamento se afigurava. Entretanto e por óbvio, não apenas em meus antigos queixumes tencionava eu empregar a palavra exata, o termo preciso e insubstituível – cheguei mesmo a escrever artigo no qual ressentia-me do desconhecimento em línguas estrangeiras, por impedir-me redigir com a mesma pontaria que possuo, na língua portuguesa – mas tais termos, precisos e exatos, igualmente uso ao compor (é a palavra certa: textos são compostos, não escritos. Precisam de métrica, ritmo, sonoridade e conteúdo) meus artigos sobre política, sociologia, filosofia ou teologia.

Creio que, para aqueles dotados de infinita paciência e que acompanham meus escritos há anos, seja algo de fácil identificação o momento em que escrevo algo sério ou – também sou humano – apenas divirto-me, publicando descalabros e bobagens diversas nas redes sociais. A diferença de “clima”, de ritmo ou, por vezes, até de linguagem são evidentes, quero crer que ninguém fará tal confusão – embora, quando da publicação de meu livro “Pretérito Perfeito”, algumas pessoas tenham me perguntado se tentei me suicidar ou, pasmem, se o governo militar havia me perseguido.

A intenção deste artigo é, em suma, pedir aos mesmos seres excepcionais, dotados de paciência infinita para lerem o que escrevo, que entendam os artigos que produzo sempre em seu sentido literal – raramente usarei expressões de “sentido figurado” e, se o fizer, as destacarei com as devidas aspas.

Ao lerem meus artigos, peço que assim façam lembrando-se de Maria Bethania e seu “Grito de Alerta”:


Veja bem, eu usei a palavra mais certa,

Vê se entende o meu grito de alerta.




Walter Biancardine




quinta-feira, 16 de maio de 2024

CHUTANDO CACHORRO MORTO -


Eu sou o cachorro morto.

Digno de estudos psiquiátricos e sociológicos é o impulso que algumas pessoas sentem em terminar de moer quem já está, publicamente, estraçalhado.

Uns desferem seus pontapés como tardia vingança pelo atrevimento que tive em expor, sem nenhumas reservas, a vida feliz que um dia desfrutei. Outros - não sei se mais ou menos doentes - acertam seus chutes somente pelo prazer sádico de soterrar quem não pode reagir. Em menor número, existem aqueles que agridem pelo simples fato de - mesmo sob tamanha decadência - termos o atrevimento de aparentar um mínimo de dignidade - o que, aos olhos dessa raça, soa como insuportável arrogância.

Nada posso fazer, não tenho meios de reagir sem que minha situação piore ainda mais. Aguento calado, pois, todos os inúmeros e quase cotidianos desaforos e ameaças, respirando fundo e fingindo que não doeu.

Entretanto, sempre bom é lembrar que dor de barriga não dá só nos outros. Os dias passam e tudo pode mudar.

Se e quando isso acontecer, o sangue calabrês falará mais alto. E haverá choro, ranger de dentes; muita gente aos prantos, dizendo-se injustiçada.

Mas somente se e quando o vento mudar.

Até lá, sofro em silêncio.


Walter Biancardine



segunda-feira, 13 de maio de 2024

TEMPOS MODERNOS -


Nos tempos do Império Romano os cidadãos que caíam em desgraça - fosse por atos vis de traição, por conspirarem contra o Imperador ou mesmo por insuflarem revoltas civis - eram banidos de Roma, suas casas demolidas e sal era jogado sobre os escombros para que nada mais nascesse ali. Igualmente, eram apagados da Acta Populi quaisquer registros que incluissem seu nome, eventuais estátuas suas eram derrubadas e sua memória, abolida do Senado.

Note-se que tais atitudes eram reservadas para personagens proeminentes e que cometessem atos além de qualquer perdão. 

Não há como acusar os antigos romanos de rancorosos ou cruéis, pois tais extremos - ao que parece - são inerentes à raça humana: nos dias atuais as relações desfeitas - sejam amizades ou mesmo namoros e casamentos - acabam por resultar no mesmíssimo processo de "abolição da memória", quando maridos ou mulheres, incapazes de admitir seu próprio passado, acabam por bloquear seu (sua) ex no WhatsApp, Twitter, Telegram, Facebook, Instagram e qualquer outra rede social com alguma popularidade.

Abolem o passado, apagam sua memória, jogam sal em seus próprios corações, matando todo o amor que juravam sentir e, por vezes, mudam o nome e endereço - passado morto, enterrado e vendido aos mais próximos como "página virada".

Darwin foi muito otimista em seu evolucionismo, pois atitudes assim mostram que somos os mesmos de 2000 anos atrás: negamos nossos conflitos e cremos, desesperadamente, que os resolvemos.

Para os que ambicionam a felicidade, agir como os antigos romanos é a receita certa para a estagnação bárbara e a morte do próprio coração. 

Fica o conselho: não tenha medo de seu passado. 

Ou jamais haverá um amanhã. 


Walter Biancardine



quinta-feira, 9 de maio de 2024

AOS 60, LEMBREI QUE NOS 80 EU TINHA 20 -

 


"Deixa as vinte?" - era a senha para a socialização dos cigarros e o que mais fizesse fumaça, "rodando na carioca", nos enlouquecidos anos oitenta.

Juventude e hormônios nos traziam a posse de verdades esculpidas em versos, contos, músicas, e mesmo parábolas, pelos mais atrevidos. 

E vomitavamos certezas e absolutos descontroladamente, todos os dias e em todos os lugares, para quem quisesse - ou não quisesse - ouvir. E o Baixo Leblon era o palco.

Pouco provável que sobreviventes destes anos lembrem o que fizeram naquele indefectível e lotado cruzamento de ruas, iluminado pelos neons da Pizzaria Guanabara e outros tantos. Lembrar como chegamos, com quem fomos, é fácil. O que fizemos, quem beijamos, abraçamos ou mesmo com quem fomos embora - ou se fomos embora - são outros quinhentos, para arrematar lembranças tão cheias de números.

Quem, nos dias de hoje, usaria uma sunga de crochê? Quem ainda acharia normal sair da praia já de noite - e o Arpoador era o local - e rumar, corpo salgado mas de carnes firmes, direto para o Baixo? Pior: não era programa de fim de semana, era a rotina de nossos dias (in)úteis.

Éramos eternos, imortais e lindos. Sabíamos de todas as verdades da vida - aliás, ela era nossa - e o futuro estava muito, muito distante. Tinhamos todo o tempo do mundo, e jamais pagaríamos o preço das nossas viagens.

Cazuza quase me atropelou com sua moto, em um ensaio que faziam no colégio Sacre Coeur de Marie, em Copacabana. O Barão Vermelho não existia, eram ilustres desconhecidos mas, sem graça, me presenteou com uns ingressos para suas primeiras e enlouquecidas apresentações. E me ensinou duas lições: que o futuro imprevisível sempre chega e, é claro, que o tempo não para.

O tempo não parou e o futuro chegou, trazendo com ele a overdose de aniversários por mim cumpridos.

Dei sorte. A maioria de meus amigos da época morreu ou enlouqueceu; alguns poucos conseguiram construir uma vida normal - "careta", diríamos na época - e outros, ainda, foram premiados com heranças ou influências paternas em suas colocações profissionais. Não tive nada disso, a minha boa ventura foi manter a sanidade psíquica, a forma física espantosamente em dia e jamais ter sido aprisionado pelos excessos de então, cigarros à parte. E não premeditei, foi pura sorte.

Este é o lado que me traz alegria, mas os dados seguiram rolando, o jogo prosseguiu e, mais de meio século nas costas, me dou conta que nada fiz de marcante: nenhum legado, nenhuma façanha, sem obras primas ou algo digno de se lembrarem de mim.

Não voltarei aos 80 como data, nem os alcançarei como idade; mas enquanto houver bambú haverá flechas - e quem sabe o que o restinho de meus dias poderá trazer?

Aprendí com Cazuza, no Baixo Leblon: o tempo não para. E morrer não dói.


Walter Biancardine


NOTA PÓS PUBLICAÇÃO (10/05/24):

Recebi WhatsApp de um amigo comentando sobre o texto que escrevi, a respeito de nossa desvairada juventude nos anos 80.
Em boa hora a mensagem chegou, pois lembrei do principal: toda essa vida enlouquecida tinha o amparo fundamental de um pai, uma mãe, contas pagas e confortável casa para morar.
Ser maluco com toda essa garantia é fácil.
Doido, sim. Revoltado? Nunca!