Hoje é um daqueles dias em que não queria que anoitecesse.
Normalmente sentimos isso quando crianças, mas às vezes um adulto retarda.
E meu retardo é também quase infantil. A noite hoje, neste dia de hoje, vai me parecer um “film noir”, clima de mistério, medo e horror misturados.
Andei pela estrada, como sempre. Sol forte, queimando a pele.
O escapamento dos caminhões ajuda nesse bronzeamento artificial. Passam rente a nós no acostamento, nos tostando e deixando a gente com aquela casquinha gratinada.
Também andei pelos pastos e matos. Pareço uma árvore de Natal, decorado por carrapichos grudados na roupa, pele e cabelos.
E os cavalos – sim, aqueles – me encontram e vem me enfiar o focinho, cobrando saudações.
Depois os cachorros. Sem noção. Se embolam em minhas pernas, me fazem tropeçar e até dar uns bicos involuntários em um ou outro.
Depois bois e vacas.
Eles me julgam.
Eu passo e param tudo o que fazem para me olhar fixo – ou quase, pois não deixam nunca de mastigar.
E tudo isso sob o sol.
Vejo vida. De bichos, de gente trabalhando e produzindo, movimento na estrada e tudo segue.
Volto pra casa e rabisco umas besteiras.
Coisas desconexas – sim, não meçam minha temperatura pelo que escrevo.
Mas mantenho a porta de casa aberta. Quero o sol, a claridade.
Trevas, hoje, não.
A vista não vai longe. Sons estranhos me rodeiam. Grilos, corujas de mau agouro, sapos desaforados e outros que nunca soube o que é ou o que querem.
E acabo em casa, rodeado de paredes, solidão e angústia.
Me pego agora vendo as horas, na barra de tarefas do Windows.
Mais um pouco e começa o entardecer. Dele, entretanto, não me queixo. Sempre lembro de minha mãe nessa hora.
O problema é que, depois, vem a noite.
E hoje não quero.
Nem sei mais por quê.
E nem quero saber.
Walter Biancardine