Fui ao bairro mais próximo, distância dos infernos, comprar cigarros e remédio pra enxaqueca.
Na volta, em minha luxuosa Mercedes de 42 lugares sentados e 38 em pé, percebi que o motorista fazia a linha que passa por dentro de um bairro cujo único propósito é ser caminho para as fazendas da região. As estradas ali, portanto, são barro puro.
E nessa chuva desde ontem, viraram lama.
O sujeito era um cachorrinho de Pavlov: condicionado pelo treinamento da empresa, andava respeitosamente à direita da estrada – de barro e lama – sem o menor simancol.
No exato instante em que percebi, pensei: “vai dar merda”.
E deu.
O ônibus escorregou no abaulado da pista e se chafurdou na quiçaça – aquele misto de lama e mato à beira da estrada. Atolou e não saiu mais. E nenhum dos digníssimos passageiros queria sair do veículo. O brasileiro é assim: “eu paguei, faço o que quero”.
Saí do ônibus e vi que tinha como sair. Ele conseguia andar um metro pra frente e outro pra trás, mas o “profissional do volante” – sim, aquele que trafega em área rural e não sabe andar no barro – insistia em tentar sair do atoleiro com a direção completamente virada para o lado.
Meia hora se passou naquela inhaca.
Desisti e vim o resto do caminho a pé. Na chuva.
Sou assim: muito bom pra tirar caminhão, carro e ônibus do atoleiro.
Só não tiro minha vida dele.
Acho que nem reboque me arranca.
Walter Biancardine

Nenhum comentário:
Postar um comentário