Nada mudou.
Eu era criança e via na estrada, viajando, gente sentada em cadeiras nas calçadas.
Olhavam o movimento. Os carros passando.
A vida dos outros.
Comentavam, riam, se embasbacavam.
Ou nada diziam e olhavam para o além.
Eu era criança e via na estrada, viajando, gente sentada em cadeiras nas calçadas.
Olhavam o movimento. Os carros passando.
A vida dos outros.
Comentavam, riam, se embasbacavam.
Ou nada diziam e olhavam para o além.
Vi isso nas estradas.
Vi em Cabo Frio, quando era roça.
E fiz igual ao crescer.
Eu não ficava nas calçadas.
Nem comentava com vizinhos.
Ver o movimento, na cidade grande, é fumar na janela.
Olhar o trânsito lá embaixo.
Outros vizinhos olhando também.
Talvez até garimpar uma mulher nua no oitavo andar.
Eu comentava, ria, me embasbacava.
Ou olhava para o além.
Mas tudo sozinho. Comigo mesmo.
As cadeiras sumiram primeiro.
Olhar pela janela dá medo – ou rende um processo.
Hoje, quem “olha o movimento” é olheiro da boca de fumo.
Da biqueira. Dos “minino”.
Não há calçadas.
Não há janelas.
Restou a internet e as redes sociais.
E nela vemos a vida passar.
Mas não tem nenhuma graça.
Walter Biancardine

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