quarta-feira, 24 de junho de 2026

CONJUNÇÃO ASTRAL

 


Os astrólogos chamam assim quando alguns planetas se posicionam de modo que a força de suas influências se multiplique e seja avassaladora. E creio que vi isso em um botequim, um dia.

Lá estavam os tipos de sempre. Gente no balcão pedindo a coxinha, o joelho, a cerveja e um maço de cigarros. Nas mesas entretanto, havia a tal conjunção: em cada mesa, um homem. Um só homem – ou melhor, um homem só. 

Entrei no botequim, pedi minha cerveja e, em pé diante do balcão por prudência – a cena era realmente estranha – me segurei para não imaginar que seria uma convenção do Clube do Corno. Ou um Congresso do Pé na Bunda.

Desperdicei minha intuição, pois os dois eventos se misturavam naquele boteco. Sob a névoa das frituras da cozinha e o cheiro do etanol engarrafado, um desses cidadãos me pediu um cigarro. Eu o estendi e ele me convidou para sentar à sua mesa. Aceitei.
E a primeira frase já entregou tudo:
- Mulher é uma merda, mesmo…

Um tiroteio de queixas se estendeu e, após cada suspiro evocativo das dores de corno, eu enchia seu copo. 
Ele torou quatro Brahmas em vinte minutos.

Outros chifrudos e sofredores de “bundalgia” ouviram seus lamentos. Alguns mesmo – assim é o carioca – se achegaram à mesa com suas garrafas e logo aquilo se tornou um workshop da galhada, com verdades pétreas e sentenças definitivas sobre as desalmadas que evisceravam aquelas pobres almas, arrancando-lhes o coração.

E foi quando aconteceu a plenitude da tal conjunção astral: do nada, entra uma dupla de violão em punho e pandeiro, tocando uns Amado Batista e pedindo trocados. 

E a explosão de lágrimas foi geral, poderosa e devastadora.

Paguei minha cerveja e sumi de lá.

O boteco deve estar radioativo de chifres até hoje.




Walter Biancardine




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