Chegamos ao terceiro dia de chuva.
Direto e consecutivo. Não pára.
Os cavalos se conformam, pingam e pastam. Quietos.
E o cachorro que apareceu, acabou ficando.
Batizei de Nhonho.
Um nome bobo, feito ele e sua cara.
Direto e consecutivo. Não pára.
Os cavalos se conformam, pingam e pastam. Quietos.
E o cachorro que apareceu, acabou ficando.
Batizei de Nhonho.
Um nome bobo, feito ele e sua cara.
Tudo se encharca, à volta. Um quadro de verde pesado, empapado, com jeito de tudo atrasar.
Mas atrasar o quê?
De meu, nada existe a atrasar. Não tenho patrão, horários ou prazos de entrega.
Só meu espírito que atrasa.
Fico em casa olhando o teto. Ou o pasto.
Não vejo gente. Nada acontece.
Então não escrevo sobre o sol. Escrevo sobre minha própria pele, ardendo dele.
Prefiro escrever sobre o que vivo, sobre as coisas estranhas alheias, apontar os defeitos e manias dos outros e as hipocrisias nos lares, bares e jantares.
Mas, trancado em casa pela chuva, só me resta olhar para mim mesmo e resmungar – tal qual esses “góticos do Facebook”, os “dark people”, existencialistas de carpete e ar condicionado.
Sangram suco de tomate, feito filmes de terceira, e confundem queixumes com literatura.
Existe um mundo de merda e misérias lá fora. Coisas muito mais merecedoras de páginas que meus abismos. Há que se contá-las, apontá-las e até – quem sabe das dores dos outros? – louvá-las.
Mas as chuvas me entrincheiraram.
Estou sozinho.
E Hemingway me vem à cabeça, quando perguntou:
- Quem está contigo na trincheira?
- E isso importa?
- Mais que a própria guerra.
- E isso importa?
- Mais que a própria guerra.
Walter Biancardine

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