quarta-feira, 24 de junho de 2026

MADRUGADA

 


É madrugada.
Silêncio de pedra. Nem o vento sopra.
Vigias noturnos dormem. 
Um ou outro ônibus trafega, insone.
Pego um café.

Taxistas recolhem putas. Anseiam pelo pagamento.
Um mendigo revira latas de lixo. Cracudos socam portas de aço das garagens.
Um ou outro carro passa. Não sei de onde veio nem pra onde vai. 
Festa? Compromisso? Velório?
O relógio faz seu tique-taque na sala.
E sempre passa uma moto escandalosa.
Acendo um cigarro.

O rádio diz as horas. Madrugada profunda e o silêncio fica pesado.
O caminhão do leite encosta na padaria. E a Kombi dos jornais, na banca.
Ouço vir da garagem do prédio o barulho de um balde.
A torneira abre e a água fala alto.
O porteiro acordou e vai lavar a calçada.
O dia começa a clarear.
Pego outro café e acendo mais um cigarro.

Mais carros nas ruas.
Os postes se apagam.
E não escrevi nada que prestasse.



Walter Biancardine




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