quarta-feira, 24 de junho de 2026

CAVALO NA SALA

 


Eu não queria mas a noite chegou.
Resmunguei durante o dia, mas não posso atrasar a lua nem segurar o sol.
Agora, tudo escuro lá fora.
Bichos que nunca vi grunhem barulhos que nunca ouvi.
Devem ser feios, nojentos ou peçonhentos.
No mínimo.

Minha vista não alcança cinquenta metros sob a luz da varanda.
Silêncio absurdo não fossem esses bichos.
Me dá agonia, deixo a porta aberta.
Os cachorros entram.
E o cavalo também.

Sim, um cavalo na minha sala.
Viciou-se na ração do cachorro e quer roubá-la.
O certo seria eu despachar a todos – cachorros e cavalo.
Mas não tenho ninguém.
Junto moedas para enfrentar o amanhã e me passa na cabeça:
- Eu compraria esse cavalo.

Olho em volta.
Cachorros deitados no chão, cavalo sonso disfarçando na porta.
E eu aqui, só.
Ou nem tanto.
Ao menos tenho eles.

Fico besta de ver a mim mesmo.
As coisas que me passam na cabeça quando nada mais posso fazer.
Não é pular num precipício ou me internar no hospício.
É comprar o cavalo e seguir a estrada.
Até o fim.

Que sei lá onde é.



Walter Biancardine





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