quarta-feira, 1 de julho de 2026

QUINZE QUILOS DE FERRO

 


Quem usou uma Remington, Olivetti ou qualquer outra máquina de escrever – até mesmo os esnobes que usavam aquelas Hermes – sabe o que acontecia se batêssemos em duas teclas ao mesmo tempo: as hastes se prendiam uma à outra e travavam. Tínhamos de separá-las manualmente, cagando os dedos, e recomeçar.

Ruim. Mas, quando aquilo passava a se repetir, era sinal de sono, bebedeira, vista arruinada – ou tudo isso junto.
E quando isso acontecia, era hora de reconhecer que já não tínhamos mais nada a dizer – apenas a compulsão de falar, reclamar, gritar nas pobres folhas de papel A4. Puro vício.

Ainda assim, as velhas máquinas de ferro me pareciam mais honestas que os computadores de hoje. Se você errasse os dedos, travavam e pronto. Te avisavam. E o simples sino que tocava ao chegar no fim da linha de tabulação já funcionava como um despertador, lembrando que o expediente acabou.

A máquina travava as teclas, tocava sinos, era barulhenta. O computador não trava nada, trabalha num silêncio quase suspeito. E talvez seja justamente esse o problema.

Um computador não avisa. Você digita tudo errado e ele segue em frente – pelo menos comigo, que fujo de  tabulações, formatações e até corretores de texto. Se errei de bêbado, danou-se. E se estou inspirado mas falta luz na região – nada raro por aqui – preciso recorrer ao caderninho e minha caneta. 
E minha letra é um garrancho. Nem eu a compreendo por completo.

Mas o vil computador ainda tem uma artimanha pior: ele queima. Apaga. Deleta. Some com seus textos.
 Prevenido, comprei um HD externo – mas quem garante até quando esse troço vai funcionar? 

O que escrevo num computador conectado à internet me provoca, imediatamente, a vontade de postar. É uma forma de matar a ansiedade e, de quebra, salvar o texto na nuvem.
O resultado é que termino com um quase nada de material inédito.
E pra que comprar um livro meu, se você já leu tudo em minhas postagens?

A maturidade bateu à minha porta e me mandou parar de postar tanto. Que sejam uma ou duas por dia, no máximo. E também me mostrou uns anúncios de gente vendendo as boas e velhas Remington ou as Olivetti – sempre mais caras por estilosas que são.

Não precisam de energia elétrica. Aguentam cair de um segundo andar. E posso guardar – inéditos – meus contos e poemas em uma simples pasta.

Comecei a juntar dinheiro.



Walter Biancardine



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