Fui na farmácia comprar o remédio da enxaqueca.
Bomba poderosa. Me sinto o Ali Babá voando no tapete mágico.
Tranquiliza. Relaxa os músculos.
Faz até lembrar que os temos.
Bomba poderosa. Me sinto o Ali Babá voando no tapete mágico.
Tranquiliza. Relaxa os músculos.
Faz até lembrar que os temos.
Drena a cabeça.
Toda a podridão vai embora com esse limpa-fossa químico.
A compulsão de escrever diminui.
A urgência, a aflição, a ânsia – tudo parece frear, reduzir e passar devagarinho, silenciosamente, se escondendo de você.
E quando o impulso vai embora, algo de mim também se vai.
Existem pessoas cujas maiores qualidades são seus defeitos.
Talvez eu seja uma dessas.
Cheguei em casa leve, sem dor, e tentei escrever.
Achei uma merda, mas publiquei mesmo assim.
Não tinha qualidades, apenas um testemunho sobre um bocó que não sabia dirigir um ônibus na lama.
Um texto aguado.
Sem mim, nele.
Piorou ao escrever sobre um cachorro que apareceu aqui.
Uma criança escreveria melhor.
Bem melhor, aliás.
Abri a porta, olhei a chuva na escuridão.
Era uma boa hora pra tomar um Jack Daniel’s.
Mas não o tenho mais.
Também não há companhia.
Nem outro copo.
Ao menos voei no tapete mágico das mil e uma noites.
E não escrevi sobre isso.
A enxaqueca passou.
Walter Biancardine

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