São 10h18.
Criança ainda, era a hora em que acordava e ia ver desenhos na TV.
Adolescente, hora do recreio e de tentar, pela enésima vez, um olhar da mocinha.
Criança ainda, era a hora em que acordava e ia ver desenhos na TV.
Adolescente, hora do recreio e de tentar, pela enésima vez, um olhar da mocinha.
Cresci e fui trabalhar.
Se tornou o horário do café. Às vezes com pão na chapa.
Pausa pequena e providencial no serviço. A voz sádica da consciência a perguntar:
- Sentiu a pressão? Pois toma fôlego que ainda tem muito mais!
Me tornei jornalista. Passei por rádios, TVs e jornais.
E era a hora em que eu chegava no serviço. E ai de quem reclamasse, após ter ficado madrugada adentro fechando a edição ou terminando matérias.
Depois vieram as portas fechadas.
Em casa, se tornou a hora de acordar e escrever diatribes.
Contra a política, as pessoas, o mundo.
Desliguei as redes.
As pessoas continuaram gritando.
E a velhice chegou.
Talvez seja a hora de novamente acordar e ver desenhos na TV.
Mas não tenho TV.
Walter Biancardine

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