a noite só começava
depois de todos dormirem
pegava café e trazia cigarros
acendia a luminária
depois de todos dormirem
pegava café e trazia cigarros
acendia a luminária
papel na Remington
porta do quarto fechada
por causa do barulho
e ligava o rádio baixinho
sintonizava a Rádio Relógio
que me perguntava "você sabia?"
e anunciava com gosto
de naftalina
"depois do sol
quem ilumina seu lar
é a Galeria Silvestre"
zero hora
dezoito minutos
zero segundo
um gole do café
um trago no cigarro
e bato à máquina
o que ninguém imaginaria
que eu sentisse
ou pensasse
o silêncio pesa
vem um frio não sei de onde
mais café e cigarro
duas horas
vinte e três minutos
zero segundo
uma ideia puxa outra
uma dor chama mais dores
e mágoas se reúnem
em mim
escrevo e a máquina grita
barulhenta e pesada e velha
amiga de minhas madrugadas
e choros escondidos
mais café e mais cigarros
quase uma resma de papel
se vai sem que perceba
cinco horas
quarenta e cinco minutos
zero segundo
barulhos na garagem
o dia clareia
minha importância acaba
o escritor vira estudante
vivo das madrugadas
até hoje são amigas
mesmas dores e agonias
seis horas
zero minuto
zero segundo
você... sabia?
Walter Biancardine

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