quinta-feira, 25 de junho de 2026

RÁDIO RELÓGIO

  


a noite só começava
depois de todos dormirem
pegava café e trazia cigarros
acendia a luminária

papel na Remington
porta do quarto fechada
por causa do barulho
e ligava o rádio baixinho

sintonizava a Rádio Relógio
que me perguntava "você sabia?"
e anunciava com gosto
de naftalina

"depois do sol 
quem ilumina seu lar
é a Galeria Silvestre"
zero hora
dezoito minutos
zero segundo

um gole do café
um trago no cigarro
e bato à máquina
o que ninguém imaginaria
que eu sentisse
ou pensasse

o silêncio pesa
vem um frio não sei de onde
mais café e cigarro
duas horas
vinte e três minutos
zero segundo

uma ideia puxa outra
uma dor chama mais dores
e mágoas se reúnem
em mim

escrevo e a máquina grita
barulhenta e pesada e velha
amiga de minhas madrugadas
e choros escondidos

mais café e mais cigarros
quase uma resma de papel
se vai sem que perceba
cinco horas
quarenta e cinco minutos
zero segundo

barulhos na garagem
o dia clareia
minha importância acaba
o escritor vira estudante

vivo das madrugadas
até hoje são amigas
mesmas dores e agonias
seis horas
zero minuto
zero segundo

você... sabia?




Walter Biancardine 




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