Nunca pensei nisso antes.
A chuva faz pensar essas bobagens.
Ou verdades.
Às vezes são a mesma coisa.
Também me vem o sentimento de, já mais velho, conversar com amigos em varandas ou mesmo bares com mesas na calçada e abrigadas por marquises.
Conversa fiada,
sempre mais lenta e calma que em dias de sol.
Um vagar no ar, ouvir gente respirar fundo olhando pro nada…
demora em responder…
Em dias chuvosos os homens desaceleram.
Olham mais.
Respondem depois.
Respiram fundo antes de terminar frases simples.
Como se houvesse uma espécie de acordo silencioso entre o tempo e a água:
hoje ninguém precisa correr.
Não raro, um café vinha no lugar da cerveja. Um cigarro amigo, sempre parceiro no nada, e eu olhando para sua fumaça –
sem nada pensar,
nada temer
ou ansiar.
Adultos quase nunca conseguem não pensar.
Mas às vezes eu conseguia, olhando a fumaça, ouvindo chuva,
sem defender passado
nem organizar futuro.
Mesmo viagens em motocicletas, na chuva, eram apavorantes e fascinantes ao mesmo tempo.
As gotas em minha cara se transformavam em pequenas agulhas me picando,
e os cheiros da estrada vinham mais fortes.
Mas hoje, tanto tempo passado,
me volta a lembrança a velha varanda,
gotas gordas pingando das telhas no gramado ensopado,
e minha Nana trazendo um café… quentinho… só para mim.
O melhor de tudo: ela senta ao meu lado e me aquece.
Talvez estejamos apenas existindo.
Expressão estranha.
E ali ficamos, olhando o frio, contando gotas e pensando em algo tão além que nunca sabemos o que é.
Hoje chove. Estou aqui. E não há tristeza nisso.
Esperando.
Ainda feliz
por estar protegido.
Walter Biancardine


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