quarta-feira, 13 de maio de 2026

OS CÃES SEMPRE PRECISAM DE UM BÊBADO -

 


condenado pelo passado
o que é engraçado
porque o passado geralmente é só
uma pilha de contas velhas
mulheres cansadas
e gente da família
apontando o dedo
com bafo de intriga requentada

criticado no presente
porque o presente é um açougue
e todo mundo quer vender
um pedaço da sua carne
como lição de moral

desacreditado no futuro
isso foi meu favorito
o futuro
essa puta manca
que nunca apareceu aqui em casa

meu nome?
não importa

serve apenas nos almoços de domingo
como exemplo do que não fazer:
“não beba”
“não escreva”
“não abandone empregos”
“não fique sozinho”
“não pense demais”

e eles dizem tudo isso
com os olhos mortos
de quem acorda há 30 anos
pro mesmo despertador

é engraçado ouvir isso
de gente que odeia a própria vida
com a disciplina de um relógio suíço

não existe conversa sobre mim
sem uma pequena execução pública

se eu errei, apontam
se eu acertei, silenciam
o silêncio é a vaia educada da família

isso vindo de pessoas
que tremem
quando o wi-fi cai
por cinco minutos

dizem que minha vida é fácil
claro
não bato cartão
não sorrio pra gerente
não vendo a alma por vale-refeição
e uma confraternização de natal
com frango seco e música ruim

então acham que estou de férias
não veem as noites sem dormir
não veem os remédios
a bebedeira
não veem o cansaço grudado no osso
não veem a vontade diária
de mandar o mundo inteiro
enfiar a própria opinião
no fundo do cu

mas precisam de mim

toda família precisa
de um fracasso oficial
tudo bem

as pessoas precisam sim

precisam de alguém
pra apontar na mesa
entre a farofa e a sobremesa

“olha ali”
“terminou daquele jeito”

os cães sempre precisam
de um bêbado na rua
pra latirem juntos

um sujeito meio torto
para os outros parecerem retos

sou o espantalho emocional deles

sem mim,
teriam de olhar
pra própria mediocridade

e isso, meu velho,
assusta muito mais
do que um bêbado sincero

então não perca seu tempo comigo

não sou amigo
mentor
exemplo
nem inimigo digno de filme barato

sou apenas um homem cansado
tentando atravessar a própria fumaça
sem pedir licença
a ninguém


Walter Biancardine 



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